quarta-feira, 30 de maio de 2007

Conversões: Voltaire converteu-se na hora da morte?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 057/1962)

"Que há de certo sobre a morte de Voltaire? Ter-se-á finalmente convertido ao Catolicismo?"

François-Marie Arouet de Voltaire é um dos máximos cori­feus da Filosofia racionalista do séc. XVIII na França. Nascido em Paris aos 21 de novembro de 1694, veio a falecer aí aos 30 de maio de 1778. Empregou o seu talento satírico e seu apreciado estilo literário no combate à Igreja Católica; a sua atitude em relação a esta se exprime claramente no estribilho com que concluía muitas de suas cartas: «Aimez moi écrlinf» (em lugar de « ... écrasez l'infame»), isto é, «Estimai a mim; esmagai, porém, a infame (a Igreja Católica)».

Depois de dominar o pensamento do seu século na qualidade de «Roi Voltaire» (rei Voltaire), terá morrido em trágicas circunstâncias: refere uma antiga versão que sofria atrozes dores físicas em seu leito de morte, às quais se associavam tremendas angústias de ânimo; vítima de furor e desespero, terá «comido os seus próprios excrementos e le­vado aos lábios o seu urinol, a fim de temperar a horrorosa sede que o atormentava». Isto tudo se haverá dado em castigo dos escárnios com que Voltaire tratava o Profeta Ezequiel; este, de fato, realizou gestos semelhantes a fim de predizer, de maneira dramática e simbólica, a extrema aflição e a miséria que haviam de acometer o povo de Israel no exílio (cf. Ez 4, 9-17). O filósofo francês, portanto, haverá morrido como viveu, isto e, na impenitência, proferindo imprecações e blasfê­mias contra Deus e a Igreja.

Eis, porém, que o periódico francês «Le Figaro Littéraire», em agosto de 1955, publicou cinco documentos recém-descober­tos por Jacques Donvez nos arquivos de um tabelião de Paris, documentos segundo os quais Voltaire em seu leito de morte terá retratado por completo os seus erros, fazendo, a seguir, uma con­fissão sacramental ao Pe. Gaultier (o jornal apresentava mesmo o «fac-simile» da retratação assinada por Voltaire e duas teste­munhas: o Pe. Gaultier e o Pe. Mignot, sobrinho do moribundo). Esta publicação naturalmente surpreendeu o público e provocou debates entre os historiadores, pois, enquanto uns afirmam que realmente Voltaire se converteu para a Igreja antes de morrer, outros guardam reservas nas suas conclusões, julgando que o teor dos documentos não é suficientemente claro para permitir tal asserção.

Contudo hoje em dia, após novo estudo dos textos e das fontes da história, já se pode reconstituir com certa segurança o trâmite dos acontecimentos que caracterizam o fim de vida de Voltaire: delimita-se assim o que há de certo e o que há de in­certo nesse setor. É a tal reconstituição que vamos agora proce­der, a fim de elucidar o caso na medida do possível.

1. O início da etapa final

Sabe-se que a última etapa da existência de Voltaire come­çou com a viagem que ele fez de Ferney para Paris, onde chegou aos 10 de fevereiro de 1778, tendo cerca de 84 anos de idade.

Desde os seus 27 anos não via mais a capital francesa; dessa vez ia visitá-la a convite de admiradores seus, que lhe queriam pro­porcionar o prazer de assistir à peça teatral da lavra de Voltaire mesmo: «Irene». A recepção foi apoteótica: acadêmicos, artis­tas, homens e mulheres nobres lhe prestaram todas as homena­gens; as ovações populares, retumbantes como eram, aclamaram em Voltaire «o protetor dos oprimidos, o apóstolo da tolerância universal»; um busto do filósofo foi coroado em vários teatros da capital. Depois da representação da tragédia «Irene», Voltaire interpelou o público nos seguintes termos: «Quereis sufocar-me debaixo das rosas!»

Até mesmo o embaixador Franklin, dos Estados Unidos, em Paris levou a Voltaire o seu netinho, o qual se ajoelhou diante do filósofo, pedindo-lhe a bênção. Voltaire estendeu então a mão sobre o menino, exclamando: «Deus e Pátria!». - São, porém, destituídas de funda­mento as noticias que falam de visita de bispos franceses ao corifeu racionalista.

Todo esse entusiasmo era talvez especialmente aguçado por pres­sentirem todos que o velho pensador estava no fim dos seus dias. Ele mesmo não se enganava a propósito: em suas cartas e bilhetes, nessa época, costumava chamar-se «o velho doente» e falava freqüentemente sobre a sua morte próxima.

Quanto às suas disposições de alma, ele as revelou em 25 de novembro de 1777, escrevendo a Frederico II da Prússia:

«Mais do que nunca experimento aversão para com a extrema­-unção e para com aqueles que a administram. Entrementes, prostro-me aos pés de V. Majestade e a invoco como consolador meu nesta vida e na outra».

Foi, pois, com esses sentimentos que Voltaire entrou na qua­dra final da sua vida.

2. Doença e «retratação»

Dias depois de chegar a Paris, o filósofo caiu doente e teve que se recolher ao leito. Foi então que entrou em cena o Pe. Gaultier.

Ardendo de zelo sacerdotal, Gaultier tinha o coração confrangido ao presenciar o triunfo da impiedade, como ele mesmo o refere poste­riormente em carta ao arcebispo de Paris:

«Dizia em mim mesmo: ... Um homem que blasfemou contra a Re­ligião e que por seus escritos destruiu os bons costumes, é honrado, coroado e quase adorado? ... Roguei ao Senhor que impeça os estragos que o Patriarca dos incrédulos podia causar na capital (Paris)».

Como capelão do Hospital dos Incuráveis em Paris, o sacer­dote resolveu destemidamente oferecer os préstimos da sua assis­tência ao «Patriarca dos incrédulos»; escreveu-lhe, pois, uma carta nesse sentido, datada de 20 de fevereiro de 1778. A missiva chegava a Voltaire em boa hora, pois o enfermo já se preocupava muito com os seus funerais e «não queria em hipótese alguma que seu cadáver fosse atirado ao monturo» (expressão do pró­prio Voltaire).

Por conseguinte, logo no dia 21 de fevereiro o doente res­pondia ao Pe. Gaultier em termos muito corteses, mas também muito imprecisos:

«Estou com oitenta anos; comparecerei em breve diante de Deus, Criador de todos os mundos. Se V. S. tem alguma coisa a me comunicar, considerarei como um dever e uma honra receber V. S. em visita, apesar dos sofrimentos que me abatem».

O Pe. Gaultier nesse mesmo dia foi ter com Voltaire, entre­tendo-se três quartos de hora à sua cabeceira, mas em conversa de mera cortesia. Isto, de resto, lhe bastava para que comuni­casse o ocorrido ao Vigário Geral de Paris, Pe. de l'Ecluse, e ao cura de São Sulpício, em cuja paróquia residia Voltaire; como re­sultado desses encontros, ficou deliberado que Voltaire deveria proferir uma retratação formal dos seus erros, caso quisesse receber os sacramentos da Igreja. -

Ora aos 26 de fevereiro escrevia de novo o enfermo ao Pe. Gaultier:

«V. S. me prometeu voltar para ouvir-me; rogo-lhe que venha desde que possível».

Note-se que a expressão «para ouvir-me», na linguagem da época, significava «para me confessar».

No dia seguinte, 27 de fevereiro, era a sobrinha de Voltaire, Mme. Denis, quem escrevia:

«Mme. Denis, sobrinha de M. de Voltaire, pede ao Pe. Gaultier, queira ir visitá-lo; ficar-lhe-á muito grata».

Ainda aos 27/II foi Gaultier procurar o doente, mas não o pode abordar. Voltou então no dia 2 de março; ao avistá-lo, o filósofo agarrou-lhe a mão e pediu-lhe que o ouvisse em confis­são.

A isto respondeu o sacerdote ser necessário antepor uma retratação, conforme as indicações do cura de S. Sulpício. Vol­taire não recusou, redigindo então e assinando o seguinte texto

«Eu, abaixo-assinado, declaro que, estando há quatro dias atacado de vômitos de zangue, na idade de oitenta e quatro anos, não me pude arrastar até a igreja. O Sr. Cura de S. Sulpicio, então, aos seus méritos anteriores quis acrescentar o de me enviar o Pe. Gaultier;

confessei-me a ele. Se Deus dispuser de mim, morrerei na santa Religião Católica, em que nasci, cheio da esperança de que a santa misericórdia de Deus se digne apagar todas as minhas faltas; e, dado que alguma vez tenha escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a Ela».

Foi este o documento mais importante que «Le Figaro». (n° citado) publicou em 1955, dando margem, como se compreende, a debates. Já se conhecia, anteriormente, a existência dessa peça, mas somente por alto, não em seu teor original; fora depositada pessoalmente pelo Pe. Gaultier no cartório do tabelião de Paris.

Ao ler o texto, Gaultier se quedou pensativo: seria sufi­ciente retratação? Voltaire então acrescentou, de próprio punho, a observação:

«O Pe. Gaultier deu-me a saber o seguinte: certas pessoas asseveraram que eu havia mais tarde de protestar contra tudo que eu viesse fazer em perigo de morte. Em vista disto, declaro que nunca tive esse propósito de protestar e que se trata de um gracejo, gracejo hipócrita, aliás, de que têm sido vítimas, já desde muito, vários sábios mais ilus­trados do que eu».

O Pe. Gaultier, hesitando ainda sobre a suficiência do do­cumento, não quis proceder à confissão sacramental sem previamente o apresentar ao arcebispo de Paris, para saber se este o reconheceria ou não. Eis o trecho do relato em que o sacerdote expõe o resultado dessa consulta:

«O Sr. de Voltaire, entregando-me sua retratação, disse-me na pre­sença do Pe. Mignot de Villevieille: ‘Sem dúvida, Sr. Padre, V. S. está autorizado a publicá-la nos jornais; não me oponho a isso’. Respondi­-lhe: ‘Ainda não é tempo de o fazer’. Perguntou-me, a seguir, se eu estava contente. Dei-lhe, a saber que a retratação não me parecia sufi­cientemente ampla e que eu a comunicaria ao Sr. arcebispo de Paris. Foi o que fiz; mas esse virtuoso prelado não a julgou suficiente. Deixei uma cópia da mesma na sua residência de Conflans, onde ele então se achava. Depois fui ter com o pároco de S. Sulpicio para o informar do meu procedimento, dando-lhe uma cópia da retratação, que ele também não aprovou; entreguei-lhe ao mesmo tempo um bilhete de Voltaire, que lhe prometia seiscentas libras para os pobres da sua paróquia».

Diante das duas recusas, o Pe. Gaultier foi logo no dia se­guinte, 3 de março, procurar Voltaire, com a intenção de lhe pedir «retratação menos equívoca e mais explícita». Contudo não pode ser recebido. Repetiu a tentativa várias vezes, mas em vão; Voltaire estava rodeado de «amigos» («D'A.... D... », dizem os textos; seriam D'Alembert, Diderot ?).

Ainda aos 13, 15 e 30 de março o Pe. Gaultier escrevia car­tas em que se queixava de não o quererem receber em casa de Voltaire. Resolvera então aguardar novo chamado da parte deste, de mais a mais que entrementes o enfermo havia recupe­rado a saúde...

3. Redivivo...

Nos tempos subseqüentes à cura, como terá procedido Voltaire?

É o Pe. Gaultier quem o refere:

«Durante dois meses, Voltaire cometeu muita coisa que não me agradou e que eu talvez pudera impedir, se me fora dado entreter-me com ele».

E quais terão sido essas coisas desagradáveis?

O sacerdote relata que Voltaire foi oficialmente recebido na Maçonaria e se prestou às cerimonias de coroação do seu busto no teatro da Comédia Francesa, ato este que tinha nítido caráter de impiedade. Além disto, uma série de cartas do filósofo datadas dessa época revela que a retratação do dia 2 de março ou não foi sincera ou foi, por sua vez, «retratada». Eis um ou outro dos trechos mais significativos (note-se o estilo dissimulado e sa­tírico).

Ao rei Frederico II da Prússia (monarca racionalista, deturpador do Cristianismo) escrevia o doente redivivo, referindo-se às atitudes anticristãs do soberano:

«Eu não perderia a esperança de mandar proferir dentro de um mês o panegírico do Imperador Juliano (chefe da reação pagã contra o Cris­tianismo, de 361 a 363) ... Vê-se, Majestade, que a opinião pública acaba por se esclarecer e que os indivíduos que se julgam destinados a obcecá-la não conseguem sempre vazar os olhos do público... (referên­cia aos cristãos, que não haveriam podido prevalecer contra a menta­lidade pagã)! Graças sejam dadas a Vossa Majestade! Vossa Majestade venceu os preconceitos, como derrotou seus outros inimigos... Triunfou da superstição (Cristianismo) e se tornou sustentáculo da liberdade germânica».

A De Vaines, pouco depois, se dirigia Voltaire:

«Os primeiros exemplares da obra 'Pascal-Condorcet' que chegarem do estrangeiro, serão para V. S. - Eis dois grandes homens: o primeiro, porém, era fanático, e o segundo um sábio».

Note-se que Pascal era cristão, ao passo que Condorcet professava ímpio racionalismo.

Em 16 de abril, eram as seguintes palavras enviadas ao Conde de Rochefort:

«Creio que o Pe. de Beauregard, pregador de Versailles, tido como jesuíta, me recusaria de bom grado a sepultura - o que é muito injusto, pois o público afirma geralmente que eu nada desejo tão ardentemente como poder enterrá-lo. Sendo assim, parece-me que ele me deveria semelhante cortesia».

Por fim, aos 16 de maio decantava Voltaire:

«Suporto com constância

Minha longa e triste existência,

Sem incorrer no erro da esperança».

Pois bem; já a esta altura do ano o desenlace do «Patriarca da in­credulidade» se aproximava a passos rápidos.

4. Doloroso fim. Conclusões

Por ocasião das mencionadas festas de coroação do seu busto, Voltaire, desejando criar em si vigor e euforia, tomou às ocultas dezoito xícaras de café! Este «tônico» reavivou nele os germens da doença latente. Passou a sofrer de insônia; deram­-lhe então um frasco de calmante na base de ópio; em vez de o ingerir em três ou quatro doses, liquidou-o todo de uma vez - o que mais agravou o seu estado. Os familiares chamaram o Dr. Tronchin para lhe assistir. Voltaire se prostrou no leito, pa­decendo cruciantes dores físicas e entregando-se a uma lingua­gem de injúrias e ofensas (as espantosas circunstâncias dessa situação são descritas pelo Dr. Tronchin nos termos que recor­damos no início desta resposta; o depoimento, porém, não tem merecido o crédito de bons historiadores, pois Tronchin, calvi­nista puritano como era, parece testemunha suspeita).

O fato contudo é que aos 30 de maio Voltaire pediu a pre­sença do Pe. Gaultier... Este sem demora foi ter com o enfêrmo, levando dessa vez o texto de nova retratação, retratação que o Pe. Mignot, sobrinho de Voltaire, examinara, comprome­tendo-se a obter para ela a assinatura de seu tio. A declaração assim rezava:

«Retiro tudo que eu tenha dito, feito ou escrito contra os bons cos­tumes, contra a Religião cristã (na qual tive a felicidade de nascer), contra a adorável pessoa de Jesus Cristo, cuja Divindade me acusam de haver atacado, contra a Sua Igreja, na qual desejo morrer.

Presto agora o desagravo devido em presença do público escandali­zado pelas obras que já há tantos anos vêm sendo publicadas com o meu nome. Este desagravo não é conseqüência de debilitação das minhas faculdades combalidas por adiantada idade, mas é fruto da graça de Jesus Cristo, da qual fui muito indigno; é ela que me faz ver o terrível perigo em que os delírios da minha imaginação me envolveram. Desejo que este desagravo seja publicado em todos os jornais e gazetas da Europa, a fim de que compense, tanto quanto possível, os escândalos que eu quisera destruir à custa mesmo dos poucos dias de vida que me restam.

Dado em Paris, aos 30 de maio de 1778, na presença do Sr. Cura de São Sulpício e do Pe. Gaultiere.

Levando essa fórmula, o Pe. Gaultier e o cura de São Sulpí­cio foram introduzidos no apartamento de Voltaire. Chegando-se perto do leito, o cura pôs-se a falar, mas sem resultado, pois o enfêrmo já não o reconhecia. Gaultier então tentou, por sua vez, estabelecer contato; é ele mesmo quem o narra:

«Voltaire apertou-me as mãos, e deu-me provas de confiança e ami­zade; contudo fiquei muito surpreso quando me disse: 'Pe. Gaultier, peço-lhe que transmita minhas saudações ao Pe. Gaultier'. Continuou a dizer-me coisas que não faziam sentido. Assim percebi que estava deli­rando, e não lhe falei nem de confissão nem de retratação. Apenas pedi às pessoas presentes que me mandassem chamar de novo logo que voltasse a ter consciência de si. Prometeram-mo. Infelizmente, porém, eu, que esperava rever o doente, no dia seguinte recebi a notícia de que havia falecido três horas depois de o havermos deixado, isto é, no dia 30 de maio ás 11 h da noite.

Se eu suspeitasse de que havia de morrer tão rapidamente, não me teria afastado e haveria empregado todos os esforços para o ajudar a morrer devidamente. Faleceu, portanto, sem sacramentos; queira Deus, não tenha morrido sem conceber o autêntico desejo de os receber e de fazer a retratação de todas as manifestações de impiedade da sua vida» (extraído do relato dirigido pelo Pe. Gaultier ao arcebispo de Paris em 1° de junho de 1778).

Eis o que a documentação segura, incluindo os textos recém­-descobertos, permite dizer a respeito do desenlace de Voltaire.

As conclusões daí decorrentes se poderiam assim formular:

1) Voltaire não se retratou suficientemente nem no dia 2 de março, nem em data posterior. A retratação encontrada re­centemente em Paris foi, sim, assinada por ele e por duas tes­temunhas; contudo os seus dizeres são tão pouco precisos que não pôde no seu tempo (nem pode hoje) ser tida como genuína desdita dos erros e das blasfêmias anteriormente proferidos pelo «Príncipe dos incrédulos». Tal documento, portanto, não basta para se dizer que Voltaire morreu como católico.

2) O filósofo não se confessou nem no dia 2 de março nem no momento de sua morte.

3) Pode-se alimentar a esperança, expressa pelo Pe. Gaultier, de que o moribundo haja ao menos concebido o desejo sin­cero de se converter à fé e de reparar o mal cometido. Somente Deus sabe até que ponto esta esperança corresponde à realidade. Quanto a nós, tendo em vista apenas o desenrolar sensível dos acontecimentos, não possuímos base (seja lícito repetir) para asseverar que Voltaire haja morrido no grêmio da Santa Igreja. - Nessas condições, compreende-se que seu corpo não podia ser sepultado dentro do ritual fúnebre católico; o arcebispo de Paris e o cura de São Sulpício o declararam explicitamente; do seu lado, o bispo de Annecy proibiu, fosse inumado na igreja de Ferney, lugar em que Voltaire vivera muitos anos. Contudo, o Pe. Mignot, sobrinho do defunto, sendo Abade comendatário do mosteiro de Scellière, mandou transferir os despojos para este cenóbio e os fez sepultar em uma capela da Abadia.

Em 1791, a Assembléia Nacional da França decretou que Voltaire era digno das honras que convêm aos grandes vultos da história do gênero humano, e mandou trasladar as suas cinzas para o Panteon de Paris. A cerimônia se deu aos 11 de julho desse ano, havendo sido composto para essa ocasião um hino altamente significativo da mentalidade da época, hino do qual abaixo transcrevemos algumas estrofes (deixamo-las no seu teor original, porque, traduzidas, perderiam muito da sua expressão)

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«Ah! ce n’est point des pleurs qu'il est temps de répandre;

C'est le jour du triomphe, et non pas des regrets.

Que nos chants d'allégresse accompagnent la cendre

Du plus illustre des Français.

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Salut! mortel divin, bienfaiteur de la terre;

Nos murs, privés de toi, vont te réconquérir;

C'est à nous qu'appartient tout ce que fut Voltaire;

Nos murs l'ont vu naitre et mourir.

Ton souffle créateur nous fit ce que nous sommes;

Reçois le libre encens de la France à genoux;

Sois désormais le dieu du temple des grands hommes,

Toi qui les as surpassés tous.

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Sur cent tons différents ta lyre enchanteresse,

Fidèle à la raison comme à l'humanité,

Aux mensonges brillants inventés par la Grèce

Unit la simple vérité.

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Chantez, peuples pasteurs, qui des monts helvétiques

Vites longtemps planer cet aigle audacieux;

Habitants du Jura, que vos accents rustiques

Portent sa gioire jusqu'aux cieux.

Fils d'Albion, chantez; Américains, Bataves,

Chantez: de la raison célébrez le soutien.

Ah! de tous les mortels qui ne sont point esclaves

Voltaire est le concitoyen.»

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Esta peça ilustra bem um fato que se repete constantemente na história: quando os homens deixam de dar culto a Deus, pas­sam a adorar os próprios homens!

Religião: como reconhecer a verdadeira religião?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 054/1962)


«Existem muitas religiões. Como descobrir a verdadeira? Será preciso estudar as mais prováveis para depois fazer a escolha?

Qual o critério que me há de convencer da veracidade da Religião Católica?»

«Pode-se provar historicamente a ressurreição de Jesus? »

As duas questões acima, embora distintas uma da outra, estão imamente relacionadas entre si, como se verá adiante.

Poder-se-ia procurar qual a verdadeira Religião, analisando os en­sinamentos de cada um dos sistemas religiosos e confrontando-os entre si; desta forma, chegar-se-ia a uma conclusão que, em todo e qualquer caso, seria mais ou menos provável, sempre deixando margem para he­sitação. - Contudo um exame desses é difícil. Na prática, torna-se quase irrealizável, pois requer muito tempo, numerosos livros e capa­cidade para estudar, prerrogativas estas de que só pequena elite pode gozar.

Na verdade, o Senhor Deus quis proporcionar aos homens uma via muito mais fácil para reconhecerem a verdadeira Religião: via que consiste não em raciocínios abstratos, mas na observação de fatos bem concretos, capazes de levar a uma conclusão clara e persuasiva.

É justamente esta outra via que vamos percorrer nas páginas que se seguem; em vez de divagar por muitos sistemas religiosos, voltare­mos nossa atenção para o fenômeno da «ressurreição de Cristo», que a Religião Católica apresenta como fato histórico,... e fato histórico pelo qual Deus teria demonstrado aos homens a veracidade ou a origem di­vina do Cristianismo. Procuraremos averiguar se realmente os aconteci­mentos e documentos da história correspondem a esta afirmativa do Catolicismo. Se lhe correspondem, pode-se tranqüilamente concluir que o Cristianismo é, na verdade a Religião revelada pelo Senhor Deus, e, como se compreende,... a única Religião revelada, pois Deus não se poderia manifestar sob formas contraditórias através dos diversos sis­temas religiosos da humanidade.

Nosso estudo, portanto, compreenderá duas partes:

1) Será a ressurreição de Cristo um fato histórico comprovado de modo a pairar acima de qualquer dúvida?

2) Dado que seja fato histórico, quais as conseqüências que neces­sariamente daí decorrem?

I. Ressurreição de Cristo: fato histórico?

Despojando-nos, como frios observadores, de qualquer juízo já for­mulado sobre o assunto, consideremos a ressurreição de Jesus Cristo, que os cristãos tem como fato real. Sem dizer «Sim», ou «Não» a este conceito, procuremos saber se na verdade há provas atingíveis pela razão (não apenas pela fé) de que Jesus Cristo tenha ressuscitado den­tre os mortos.

Supomos, é claro, comprovada a existência de Cristo. Esta, aliás, não costuma ser posta em dúvida pelos críticos em nossos dias; admi­tem, sem grande dificuldade, que de fato Jesus Cristo existiu na terra há cerca de vinte séculos atrás. Cf. «P. R.» 7/1957, qu. 10.

Já que a possibilidade da ressurreição supõe a realidade da morte de Cristo, deveremos começar nossa análise a partir deste precedente.

Examinaremos, portanto, sucessivamente:

a) a realidade da morte de Jesus Cristo;

b) a realidade do sepultamento de Cristo;

c) a realidade do sepulcro vazio;

d) a realidade das aparições atribuídas a Jesus Cristo redivivo.

Passemos ao primeiro ponto.

a) A realidade da morte de Cristo.

Supomos aqui a fidelidade dos Evangelistas, já demons­trada em «P. R. » 7/1958, qu. 4.

Conforme os Evangelhos, Cristo passou por angustiosa agonia, durante a qual chegou a derramar suor de sangue. Foi submetido a cansativo interrogatório e a atrozes violências, como flagelação e coroação de espinhos; privado de qualquer alimento ou bebida, tendo perdido grande quantidade de sangue, viu-se incapaz de carregar a cruz até o lugar do suplício, de modo que foi preciso angariar Simão o Cireneu para lhe prestar o auxílio necessário (cf. Mc 15,21). Pregado ao lenho, após três horas de suplício, Jesus, devorado pela sede, entregou o espírito. Para granjear plena certeza deste fato, Pilatos mandou a um soldado que o averiguasse cuidadosamente (cf. Mc 15,44s); em conse­qüência, o lado de Cristo ainda foi traspassado por golpe de lança («golpe de misericórdia»); cf. Jo 19,32-34. A vítima foi, a seguir, sepultada com cem libras (32,60 k aproximadamente) de subs­tâncias aromáticas (mirra e aloés), que, por si só, teriam bas­tado para acarretar sua sufocação e morte, caso ainda respirasse (cf. Jo 19,39).

Estes dados mostram bem quanto é vã a hipótese outrora aventada pelo crítico alemão Paulus ( 1851), segundo o qual Cristo só teria pas­sado por morte aparente (letargia ou abalo cardíaco): dentro do sepul­cro, a frescura da temperatura, o aroma dos bálsamos e cuidados medi­cinais secretamente dispensados pelos partidários de Jesus teriam feito que este recuperasse os sentidos e voltasse à vida ativa. - Esta suposi­ção é tão pouco científica ou imparcial que em nossos dias já não encon­tra defensor abalizado. Mais absurdo é sustentá-la do que reconhecer a morte de Cristo.

b) A realidade do sepultamento.

Este é um dos episódios mais documentados pelas narrati­vas antigas.

Referem os Evangelistas que o corpo de Jesus foi, por José de Arimatéia, colocado em um sepulcro novo, talhado na rocha (cf. Mt 27,57-61; Mc 15, 42-47; Le 23, 50-56; Jo 19, 38-42). A fim de evitar, da parte dos discípulos, qualquer intervenção fraudu­lenta, os príncipes dos sacerdotes judeus colocaram guardas mi­litares à entrada dessa câmara mortuária (cf. Mt 27,62-66; 27,11-15).

Os primeiros porta-vozes da tradição se referem explicita­mente à sepultura de Jesus. Assim, São Pedro em At 2,25-28; São Paulo, que não somente menciona o sepultamento (cf. At 13,29; 1 Cor 15,4), mas também desse fato deduz importantes conseqüências teológicas (cf. Rom 6,4; Col 2,12).

A luz destes testemunhos, aparece tendenciosa a teoria de Loisy, que julga haver sido o corpo de Cristo lançado em uma fossa comum, donde ninguém teria a idéia de o retirar («Quelques lettres sur des questions actuelles. Paris 1908, 93s). Para arquitetar esta hipótese, o crítico francês é obrigado a cancelar o episódio de José de Arimatéia e Pilatos, assim como outros trechos dos escritos do Novo Testamento. Ora isto é arbitrário demais para poder abalar a realidade do sepultamento de Jesus.

c) A realidade do sepulcro vazio.

Dois dias após a inumação, referem as fontes históricas que algumas mulheres foram ter ao sepulcro, a fim de proceder ao embalsamamento do cadáver de Jesus, de acordo com os costu­mes judaicos. Encontraram, porém, a câmara vazia, isto é, des­tituída do corpo... Assustadas, foram então avisar os discípu­los, dos quais alguns, como Simão Pedro, se dirigiram ao sepulcro e verificaram a exatidão da notícia (cf. Mt 28,1-8; Mc 15,1-8; Lc 24,1-12; Jo 20,1-10).

Diante diste relato, a crítica tem formulado suas objeções, que por sua vez não resistem à própria crítica... Com efeito,

a') diz o Prof. Kirsopp Lake que as mulheres se engana­ram quanto ao sepulcro, referindo-se, portanto, a outro que não o de Jesus

«Os arredores de Jerusalém estão cheios de túmulos talhados na rocha; não seria fácil distingui-los entre si, caso não houvesse sinais característicos» (The historical evidence for the Resurrection of Jesus Christ. London 1907, pág. 250).

A conclusão de Lake parece gratuita ou precipitada, pois o sepulcro de Jesus estava particularmente caracterizado pela pre­sença de guardas.

b') Outros autores asseveram que os discípulos ou amigos de Jesus (os Apóstolos, as santas mulheres ou José de Arimatéia) furtaram ocultamente o cadáver, para poder, mediante o sepulcro vazio, proclamar a ressurreição do Senhor. - Também tal suposição é improcedente, pois os ânimos dos discípulos e amigos de Jesus estavam abatidos e prestes a perder a fé em conseqüência do desfalecimento do Mestre; ficava longe de sua mente a idéia de apregoar o triunfo de Cristo, por mera teimo­sia ou contra a aparência dos fatos... Mais precisamente: a morte de Jesus sobre o lenho da cruz significava, para todo israelita, maldição extrema, de modo que as recordações que os amigos do Senhor guardavam, ficavam, após a crucifixão, mar­cadas por uma nódoa moral: Jesus devia doravante parecer-lhes um falso profeta (cf. Le 24,19-21) em conseqüência, Maria Ma­dalena, ao vê-lo pela primeira vez, julgou tratar-se de um jardi­neiro; os discípulos de Emaús, durante longa caminhada, não O reconheceram; os Apóstolos reunidos imaginaram estar vendo um fantasma... Donde se conclui que os amigos de Jesus não estavam em situação psicológica tal que os levasse a furtar o cadáver para afirmar mentirosamente a sua ressurreição; esta só aos poucos se lhes impôs, o que não se poderia explicar senão pelo fato de ter em seu favor o fulgor da própria verdade.

c') Um terceiro grupo de críticos admite que os judeus hostis a Jesus tenham raptado o cadáver, a fim de evitar que o seu sepulcro se tornasse lugar de reuniões dos discípulos. - A esta hipótese replica-se: se os adversários de Jesus se tivessem apoderado do corpo, certamente tê-lo-iam mostrado ao público já no dia de Pentecostes quando os Apóstolos começaram a apre­goar a ressurreição apontando para o sepulcro vazio; a exibi­ção do cadáver teria sido o argumento decisivo contra a «seita dos nazareus», que destarte ficaria abertamente reconhecida como embusteira. Se os adversários não se valeram deste expe­diente, é de crer que realmente não estavam de posse do cadáver.

Notem-se mais as seguintes finuras de reflexão:

d') Caso o relato da ressurreição de Cristo tivesse sido inventado, os respectivos inventores não teriam escolhido mulheres para serem os primeiros arautos da notícia da ressurreição; fazer que esta fosse apregoada em primeiro lugar por criaturas, humanamente falando, tão pouco credenciadas, equivalia a frustrar de antemão o êxito do artifí­cio ou da falsificação; um inventor teria imaginado porta-vozes mais «habilitados» do que piedosas figuras femininas (estas, aliás, mere­ceram realmente o descaso, conforme observaram os discípulos de Emaús; cf. Lc 24, 11. 22s). - Por conseguinte, se os narradores apresen­tam mulheres quais mensageiras imediatas de Ressurreição, isto há de ser interpretado como sinal de autenticidade histórica da narrativa.

e') Também chama a atenção a simplicidade de estilo dos relatos evangélicos. De modo nenhum descrevem a maneira como se terá dado a ressurreição de Cristo; também se calam a respeito do momento pre­ciso em que haverá ocorrido tão importante acontecimento. Tratando-se, porém, de assunto que muito devia prender a atenção dos cristãos, com­preende-se que a imaginação popular procurasse suprir o que as teste­munhas e os documentos não referiam; os Evangelhos ditos «apócrifos» cederam largamente rédeas à fantasia, transmitindo uma série de por­menores maravilhosos, mas assaz grotescos. Ao contrário, os quatro evangelistas canônicos mantiveram toda a sobriedade de estilo, o que é mais um sinal de genuinidade ou veracidade; não quiseram ir além do que era certo ou do que fontes históricas seguras lhes comunicavam.

A fim de se comprovar a sobriedade das Escrituras Sagradas e melhor avaliar a sua fidelidade histórica, segue-se abaixo um trecho do Pseudo-Evangelho de Pedro, que pretende referir os pormenores da res­surreição de Cristo:

«Muito cedo, na aurora de sábado, uma multidão de gente de Jeru­salém e das proximidades foi ver o túmulo selado de Jesus. Na noite seguinte, quando estava para despontar a alva do domingo, os soldados montavam guarda junto ao sepulcro, revezando-se em grupos de dois. Fez-se então ouvir nas alturas uma voz muito forte; viram os céus abrir-se e dois jovens, resplandecentes, que desciam e se aproximavam do túmulo. A pedra que fechava a porta deste, rolou por si mesma, colo­cando-se de lado; o sepulcro abriu-se e os dois jovens entraram. Ao ver essas coisas, os soldados despertaram o centurião e os anciãos (judeus) que também lá se achavam. Enquanto os soldados descreviam o que tinham visto, de repente perceberam três homens que saíam do sepul­cro: dois deles sustentavam o terceiro; seguia-os a cruz. A cabeça dos dois que sustentavam, atingia o céu, ao passo que a daquele que era sustentado penetrava mesmo nos céus. Nesse momento, ouviram uma voz que descia do alto e perguntava: 'Pregaste aos mortos?'. Da cruz procedeu a resposta: 'Sim'. Os soldados resolveram então ir relatar o caso a Pilatos. Enquanto ainda deliberavam entre si, viram de novo os céus que se abriam: um varão desceu e entrou no sepulcro. Tendo-o observado, as sentinelas que estavam com o centurião, deixaram o tú­mulo e através da noite cerrada foram às pressas ter com Pilatos; pro­fundamente perturbados, contaram-lhe tudo que haviam presenciado e acrescentaram: 'Realmente, esse homem era o Filho de Deus'. Em res­posta, disse-lhes Pilatos: 'Sou inocente em relação ao sangue do Filho de Deus; o caso da sua morte diz respeito a vós'. Pouco depois, todos se reuniram em casa de Pilatos e lhe rogaram instantemente, mandasse ao centurião e aos soldados que nada revelassem do que tinham visto. 'Convém, diziam eles, entregar a responsabilidade desse grande pecado ao juízo de Deus e não nos deixar cair nas mãos do povo judeu para ser­mos apedrejados'. Pilatos então deu ordens ao centurião e aos solda­dos para que nada relatassem» (fragmento do Evangelho de Pedro, tra­duzido da edição de Preuschen, Antilegomena 1905, 16-20).

Como se vê, esta narrativa segue no fundo o trâmite do relato evangélico; procura, porém, ampliá-lo e completá-lo, caindo então no terreno da fantasia e do ridículo (o que, aliás, caracteriza freqüente­mente as narrativas não-bíblicas ou apócrifas).

Oportunas são a este respeito as observações do crítico liberal P. W. Schmiedel: «A ressurreição de Jesus, nos relatos canônicos, é, com notória sobriedade, apresentada como algo de ocorrido e nunca descrita em seu desenrolar. Ao contrário, aqui (no Evangelho de Pedro) ela como que se desenrola sob os olhares dos romanos e dos judeus que vigiavam o sepulcro,... e se desenrola de maneira que só podemos qualificar de grotesca» (Resurrection... narratives, na «Encyclopaedia Bíblica» de Cheyne IV, col. 4047).

Se, portanto, o sepulcro vazio é realidade, examinemos agora

d) A realidade das aparições atribuídas a Jesus.

Os Evangelhos referem que, após o seu sepultamento, Jesus apareceu vivo às santas mulheres, aos Apóstolos e aos discípu­los num total de nove vezes, das quais sete em Jerusalém e nos arredores (cf. Mc 16,9; Mt 28,9; Lc 24,34; Mc 16,12; Jo 20,19-26), e duas na Galiléia (cf. Jo 21,1-14; Mt 28,16-20). São Paulo acres­centa mais três aparições: a um grupo de quinhentos discípu­los, a São Tiago e ao próprio Paulo (cf. 1 Cor 15,1-20). Além disto, o livro dos Atos (1,3) refere que Jesus, após a sua Paixão, deu aos Apóstolos numerosas provas de que estava em vida, apa­recendo-lhes durante quarenta dias.

Em todos esses casos parece tratar-se de visões sensíveis motivadas pela presença real de um ser corpóreo, com o qual os discípulos conversam e que eles chegam a apalpar (cf. princi­palmente o caso famoso de São Tomé, em Jo 20,24-29; ... o de Lc 24,36-42). Em conseqüência, os Apóstolos e Evangelistas não guardavam a mínima dúvida a respeito: Jesus ressuscitou em carne e ossos. É disto que eles entendem dar testemunho nos livros do Novo Testamento. Contudo o seu depoimento foi contornado ou diversamente explicado pela crítica. É, portanto, para as teses desta que devemos agora voltar a nossa atenção.

e) Explicações racionalistas.

a') A hipótese da alucinação

Alguns críticos quiseram explicar as visões de Jesus redivivo por processo meramente subjetivo de alucinação: nada de real teria apa­recido aos discípulos; apenas em sua mente superexcitada ou doentia­mente afetada haveriam projetado a imagem do pretenso Ressuscitado. Mais precisamente: esses críticos asseveraram que, após a morte de Jesus, os discípulos devem ter concebido profunda nostalgia do Mestre e sincero pesar por não o terem mais consigo; não se podiam convencer de que Ele estava morto (na verdade, «os heróis não morrem!», pen­savam eles); as promessas de reino deixadas por Jesus terão ressoado continuamente na subconsciência desses discípulos; a isso tudo haverão associado a reminiscência de profecias e figuras do Antigo Testa­mento... Esses diversos elementos terão finalmente provocado um estado de alucinação em que os Apóstolos e discípulos julgaram estar vivendo o sonho de um Jesus ressuscitado, falando com Ele, apalpan­do-O, etc. Assim iludidos, haverão anunciado ao mundo destemidamente a mensagem da «ressurreição de Cristo», a qual, ilusória como é, pre­cisa de ser denunciada pela ciência moderna!

O estado de ânimo dos discípulos de Jesus era, como já in­sinuamos, precisamente o contrário do que a alucinação pres­supõe; longe de nutrir esperança e entusiasmo a respeito do Mestre, os Apóstolos, após a morte deste, se viram acometidos de abatimento e perplexidade cruciantes. Quando Jesus começou a se lhes manifestar, dando-lhes conhecimento da sua ressurrei­ção, dificilmente se renderam a esta proposição (haja vista prin­cipalmente o caso de São Tomé). Donde se vê quanto dista das circunstâncias históricas do problema a hipótese da alucinação dos discípulos; estes certamente não estavam em condições psi­cológicas tais que pudessem lançar ao mundo a idéia da ressur­reição de Jesus, a ponto mesmo de morrer por essa crença. Se pregaram a ressurreição de Cristo, isto só se pode explicar pela evidência com que esta se lhes impôs motivando verdadeira revira-volta na sua mente.

Observe-se outrossim que, no caso que estudamos, seria preciso admitir alucinação coletiva em número de pessoas demasiado grande, dotadas de temperamentos muito diversos e em situações assaz va­riadas: com efeito, teriam sido igualmente alucinadas as piedosas mu­lheres, os onze apóstolos, os quinhentos irmãos, os dois discípulos de Emaús, o ardoroso fariseu Paulo de Tarso, etc. Ora a alucinação em tais proporções já não é verossímil; só poderia ser levada em conta se se tratasse de uma ou poucas testemunhas isoladas, afetadas por tem­peramento especial.

Também não se pode esquecer que a pregação baseada em alucinação jamais se teria imposto através da história: na mente dos próprios alucinados a ilusão tenderia a se empalidecer e dissipar, cedendo a estados de inquietude e incoerência.

«O que é pura quimera ilusória, pura alucinação doentia, sem valor de verdade, pode sem dúvida provocar provisoriamente a fé... Mas tal fé não é nutritiva nem frutuosa, do ponto de vista moral; ela nada produz de sólido; não se irradia a grande distância...; não resiste à ação... dissolvente do tempo...; acaba sempre por se desfazer num colapso, que revela a sua índole enganadora» (E. Le Roy, Dogme et critique. Paris 1907, 224).

Por fim, lembraremos que havia da parte dos judeus hostis a Cristo um controle assaz severo sobre os Apóstolos, controle que não permitiria a difusão de erro ou embuste na pregação do Evangelho; se a mensagem da Ressurreição prevaleceu nessas circunstâncias mesmas, isto se deve ao fato de corresponder ela a uma realidade inelutável, e não a uma ilusão patológica dos respectivos pregadores. - Não será preciso insistir em tão evi­dente observação.

Assim patenteada a impossibilidade de alucinação, os crí­ticos aventaram

b') a hipótese dos empréstimos mitológicos ou pagãos

Alguns historiadores julgaram poder apontar analogias entre a ressurreição de Jesus e a de certas divindades da mito­logia pagã. Em conseqüência, a ressurreição de Cristo não passaria de um mito, merecedor de desprezo apenas.

Eis como um dos mais famosos arautos da hipótese, Hermann Gunkel, concebe a explicação (resumimos o seu modo de pensar):

Jesus não é o primeiro, nem o único, dos seres divinos aos quais se atribuiu ressurreição. No Egito principalmente, mas também na Síria, na Babilônia e na Fenícia, os antigos professavam a crença em deuses que haviam morrido e, após breve intervalo, voltado à vida. Essa idéia se baseava originariamente no ritmo mesmo da natureza, que apresenta os contrastes de verão, inverno e verão,... dia, noite e dia; assim julgavam que os deuses solares renasciam ou ressuscitavam todos os dias de manhã, e os deuses da vegetação todos os anos na pri­mavera... Entre os judeus, os cânticos do Servo de Javé (Is 53) podiam sugerir a idéia de um Messias condenado à morte e restituído à vida.

As analogias parecem confirmadas pela data da ressurreição de Cristo: de madrugada, três dias após a morte, na primavera... Nas religiões orientais, observam os críticos, a divindade morta renascia ao levantar do sol ou na primavera. Quanto ao número «três», era nú­mero sagrado, encarecido, por exemplo, pelo fato de que o inverno (ao qual se sucede o renascimento primaveril) dura três meses ou pouco mais; segundo as mitologias em geral, o caos e o Maligno rei­naram sobre a terra três tempos ou três tempos e meio.

Como julgar tal teoria?

Em primeiro lugar, verifica-se que as semelhanças indica­das entre mitos pagãos e doutrina cristã são assaz vagas: no Evangelho não se lê alusão a crenças preexistentes, a ritmos ou leis da natureza visível ou da vida da divindade nem a vitória de algum herói sobre o caos; os evangelistas entendiam apenas relatar com toda a discrição o que lhes parecia ser um aconte­cimento histórico, abstendo-se de fazer generalizações ou considerações de ordem filosófica.

Examinando de mais perto os mitos pagãos (de Osíris, Adonis, Mis, por exemplo), verifica-se que são narrativas ou vagas ou fantásticas a semelhança de lendas; ... narrativas

mar­cadas por traços de deboche e falta de pudor;... narrativas que se foram acomodando e adaptando a índole de povos diversos no decorrer dos tempos. Não raro falavam originariamente de um casal divino, no qual a primazia competia a figura feminina; obcenas aventuras de amor constituíam o enredo desse casal; não raro se deu fusão ou identificação da deusa Cibele da Síria, por exemplo, com a deusa Afrodite ou Ísis do Egito.

Ao contrário, no Evangelho há menção de um homem real, Jesus Cristo, cuja existência é atestada também por documentos religiosos e profanos, homem reconhecido por seus concidadãos, com os quais trata diariamente, dos quais sofre perseguição e morte, sob as vistas de seus discípulos. Ressuscita para uma vida transfigurada, em que seus companheiros a princípio recusam crer, mas que se impõe por sua própria realidade. O número «três» e a época da ressurreição de Jesus neste quadro aparecem sem comentário, sem associação de idéias na mente dos Evan­gelistas; aconteceu mesmo que Jesus, ao predizer sua ressurrei­ção no terceiro dia, nem sequer foi entendido por seus discípulos; estes não se lembraram então nem das Escrituras do Antigo Tes­tamento (cf. Lc 18,31-34) ; muito menos mostraram conhecer os mitos pagãos.

De resto, sabe-se que a mente dos judeus contemporâneos de Cristo era impermeável às influencias pagãs, que eles reputavam como algo de imundo e contaminador. Caso, porém, tivesse havido influência, esta só se poderia ter exercido lentamente, no decurso de longo prazo; ora parece que a crença na ressurreição de Jesus se seguiu logo à morte do Senhor, de modo a entrar nos relatos evangélicos confeccionados por volta de 50/60 d. C.

Verifica-se mesmo que os pregadores da fé cristã sempre tiveram que lutar para incutir aos pagãos a crença na ressurrei­ção de Jesus Cristo e dos mortos em geral; não era, portanto, fazendo eco ao paganismo que eles anunciavam tal mensagem. Já São Paulo no Areópago de Atenas, ao referir a ressurreição, sofreu o escárnio por parte dos filósofos gregos: «Ouvir-te-emos outra vez a tal propósito!» (At 17,32). Semelhante foi o caso dos apologistas cristãos posteriores.

Seria, portanto, pouco consentâneo com o espírito científico insistir em contaminação do Evangelho por parte de mitos pa­gãos: a distância entre aquele e estes era demasiado grande para poder ser tão facilmente superada. - Já que não há, além das duas hipóteses acima examinadas, outra explicação racionalista possível, fica de pé o fato de que Cristo apareceu redivivo após a morte, comprovando assim a sua genuína ressurreição.

f) Confirmação e conclusão

O Cristianismo começou a se propagar, baseado no dogma da ressurreição de Cristo. É desta que se deriva o valor das demais proposições da mensagem cristã ao mundo: «Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é também a vossa fé» (1 Cor 15,14).

Pois bem. A história do Cristianismo, que já conta vinte sé­culos, constitui clara confirmação da veracidade da ressurreição de Cristo. Com efeito, pergunta-se: poderiam vinte séculos de martírio e luta constantes estar fundamentados na mentira, no embuste e na fraude? Ou poderia um estado psicopatológico de alucinação constituir a base de tão longa e significativa história? Fraude, mentira, engano teriam sido, sem demora, desvendados; estado doentio não seria fonte de vigor duradouro.

Para corroborar esta conclusão, vêm a propósito as palavras do famoso autor liberal Ernesto Renan:

«Nada subsiste a não ser a verdade... Tudo que a ela serve, man­tém-se, como um capital fraco, mas adquirido; nada, em seu pequeno tesouro, se perde. Tudo que é falso, ao contrário, desmorona. A falsi­dade não é fundamento para coisa alguma, ao passo que o pequeno edifício da verdade é de aço e sobe constantemente» (Histoire du peuple

d'Israel V. Paris 1891, 421).

Merece atenção também a palavra do crítico protestante Eduardo Reuss, tido como avançado entre os exegetas liberais do seu tempo:

«Poderemos reconhecer que muita coisa, na história de Jesus, fica para nós incompreensível, que nunca chegaremos a explicar como vivia Jesus após a ressurreição...; contudo subsistirá o fato incontestável de que a Igreja (que existe há dezoito séculos) foi construída sobre essa base, e de que a Igreja é assim um testemunho vivo da ressurreição de Jesus; para bem dizer, foi a Igreja que saiu do sepulcro de Cristo, com o qual ela teria ficado para sempre sepultada se Cristo não tivesse ressuscitado» (Histoire evangélique. Paris 1876, 701).

II. O significado da Ressurreição de Cristo

A fim de delinear com a devida clareza o significado da Res­surreição do Senhor, observaremos as seguintes etapas

1) O Cristianismo está fundamentado na crença na ressur­reição de Jesus, de tal modo que esta é a proposição que com­pendia e sela as demais afirmações da mensagem cristã.

Além do citado texto de 1 Cor 15,13-15, tenham-se em vista os se­guintes:

Em Rom 10,9, São Paulo assim resume a fé cristã: «Se confessas com os lábios que Jesus é o Senhor e crês em teu coração que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo».

Conforme At 25,19, o que, na pregação cristã, mais impressiona um magistrado romano pagão (o procurador Pórcio Festo) é que o Cris­tianismo «versa em torno de um certo Jesus, morto, do qual Paulo afirma que Ele está vivo».

Nos Atos dos Apóstolos, as alocuções de São Pedro, São João e São Paulo, dirigidas aos mais diversos auditórios, se inspiram da men­sagem da ressurreição de Cristo ou se terminam nesta. Assim em At 2.22-26; 3,15-26, S. Pedro, pregando ao povo de Jerusalém; em At 4, 10, 20, São Pedro e São João, falando à multidão em geral; em At 5 29 33, São Pedro e São João, interpelando o sinédrio (tribunal dos judeus); em At 1037-44. São Pedro em casa do centurião romano Cornélio; em At 13, 27-40. São Paulo, dirigindo-se aos judeus de Antioquia da Pisídia; em At 17,3. 18. 31s. São Paulo, dialogando com os filósofos de Atenas; em At 26, 22. 26, São Paulo, fazendo sua apologia diante do rei Agripa.

Donde se vê que «ser cristão» e «crer na ressurreição de Jesus» vem a ser uma só e mesma coisa.

2) Ora a ressurreição de Cristo é um fato histórico devidamente comprovado, como acabamos de ver.

3) E qual seria o significado desse fato real, visto dentro do conjunto da história dos séculos?

- Jesus mesmo explicou o sentido da sua ressurreição, apresentando-a como «o sinal de Jonas», isto é, como sinete da sua missão messiânica ou comprovante da sua autoridade de Legado Divino.

De fato, certa vez os fariseus pediram a Cristo um sinal da sua mis­são; Jesus então respondeu: «Esta geração... pede um sinal; mas outro sinal não lhe será dado a não ser o do profeta Jonas: assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, assim o Filho do homem estará no seio da terra três dias e três noites» (Mt 12,38-40; cf. Le 11,29-32).

De outra feita, tendo Jesus expulsado os vendilhões do templo, pediram-Lhe os judeus um sinal que comprovasse a sua autoridade. Redar­güiu então o Mestre: «Destruí este templo, e em três dias o reergue­rei». Palavras que o Evangelista assim comenta: «Ele falava do templo do seu corpo. Quando, pois, ressuscitou dentre os mortos, seus discí­pulos se lembraram de que havia dito isso» (Jo 2, 17-22; cf. Mt 26,61; 27,39s).

Sem dificuldade entende-se que a ressurreição seja o sinal da auto­ridade única ou da missão messiânica (missão de Legado Divino) que competia a Jesus. Com efeito; se Cristo não tivesse ressuscitado, pode­ria ser equiparado a Sócrates, Confúcio, Buda, Maomé ou qualquer pre­gador humano de ética e bons costumes. Justamente o que diferencia Cristo de místicos ou iluminados anteriores ou posteriores, é o fato de ter Ele obtido a vitória sobre a própria morte justamente como sinete divino da autenticidade da sua pregação e missão. Tal sinete nos ensina que Jesus falava e agia não só com autoridade humana (como, por exemplo, Sócrates e Confúcio), mas também com a autoridade do pró­prio Deus.

4) Sendo sinal da autenticidade da missão messiânica de Jesus, a Ressurreição vem a ser, em última análise, a compro­vante da veracidade da Religião que Cristo ensinou aos homens.

A ressurreição é outrossim o sinal mais persuasivo da Divindade de Jesus Cristo, pois Este ensinava aos homens na qualidade não de mero profeta ou legislador religioso, mas na qualidade de Filho de Deus ou de Deus Filho feito homem, sem deixar de ser em tudo igual a Deus Pai. Ora Deus Pai, ressuscitando a humanidade de Jesus Cristo, manifestou-se em favor do testemunho dado por Jesus Cristo; donde se concluí que esse testemunho ou o ensinamento de Jesus Cristo é absolu­tamente verídico, pois Deus jamais poderia confirmar a impostura e a mentira.

5) E como hoje em dia se pode distinguir a Religião au­têntica ou a que Cristo ensinou, das demais formas de religião existentes no mundo?

A distinção não é difícil. Cristo prometeu a seus Apóstolos estar com eles e assistir-lhes com a sua infalibilidade até a con­sumação dos séculos (cf. Mt 28,20). Disto se segue que, onde está a linhagem (ou a sucessão) dos Apóstolos, aí está Cristo presente, e está a verdadeira religião. Ora só há uma sociedade religiosa que se derive dos Apóstolos, e sem interrupção, de ge­ração em geração, venha transmitindo ao mundo os ensinamen­tos de Cristo e dos Apóstolos: é a Santa Igreja Católica Apostó­lica (também dita «Romana» porque o Apóstolo que Cristo ins­tituiu Chefe visível da sua Igreja, Pedro, morreu como bispo de Roma, fazendo, por conseguinte, de Roma a sé primacial de toda a Cristandade; cf. Mt 16,18s.).

Quanto à Santa Igreja Católica e às suas credenciais de portadora de Cristo para o mundo, cf. «P. R.» 39/1961, qu. 2.

A fim de resumir, poder-se-ia fazer o seguinte esquema:

1) CRISTIANISMO -•> RESSURREIÇÃO DE CRISTO

(cf. 1 Cor 15,14)

2) RESSURREIÇÃO DE CRISTO =FATO HISTÓRICO

(acaba de ser comprovado)

3) FATO HISTÓRICO =SINAL...

SINAL indicado por Cristo mesmo para comprovar a sua missão messiânica ou a sua autori­dade de Deus feito homem.

(cf. Mt 12, 38-40).

1) SINAL DA AUTORIDADE

DE JESUS -•> SINAL DA VERACIDADE DA RELIGIÃO

ENSINADA POR JESUS

(evidente por si)

5) E A RELIGIÃO ENSINADA POR JESUS se encontra hoje, segundo os desígnios de Jesus mesmo (cf. Mt 28, 20), onde se encontra inin­terrupta a linhagem (sucessão) dos Apóstolos de Jesus.