quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Bioética: manipulação da vida humana

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 378/1993)

Em síntese: Em seu discurso de posse na Academia Fluminense de Medicina, o Dr. João Evangelista dos Santos Alves, num rasgo de coragem e lucidez, houve por bem chamar a atenção do mundo dos cientistas para a tendência, hoje assaz forte, de sobrepor os interesses pessoais de lucro e sucesso aos valores tipicamente humanos. Especialmente a Medicina é ten­tada a se desdizer e degradar pelas práticas de manipulação da vida humana cada vez mais sedutoras, como a experimentação em seres vivos ou em matéria nobre, a fecundação artificial com seus requintes (que en­volvem o homem e animais irracionais em práticas extremamente ousadas de fecundação e gestação), o aborto e seus eufemismos, a eutanásia e a obstinação terapêutica desrespeitosa do paciente. As observações do ilus­tre acadêmico têm por ponto de partida a dignidade única do ser huma­no em qualquer de suas fases de vida, dignidade já apregoada pelo filósofo francês Blaise Pascal em termos de rara eloqüência.

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Em consonância e complementação do artigo anterior deste fascículo sobre anticoncepcionais e respeito à natureza humana, vão aqui publicados trechos do discurso do Acadêmico Dr. João Evangelista dos Santos Alves por ocasião de sua posse na Academia Fluminense de Medicina, aos 15 de abril de 1993. Trata-se de memorável e corajosa peça de literatura e doutrina, que enfrenta diversas facetas da manipulação da vida humana no setor da Medicina: o desejo de conquistar e dominar sempre mais tem leva­do o homem a utilizar a tecnologia sofisticada de nossos dias contra o pró­prio homem, reduzindo o seu semelhante a coisa ou objeto descartável. O Dr. J. E. dos Santos Alves levantou a voz contra tais abusos, que ameaçam a Medicina, numa hora muito oportuna, especialmente no Brasil, vítima de interesses espúrios dos meios de comunicação social e de profissionais des­tituídos de Ética.

Eis os segmentos do longo discurso que mais parecem interessar aos leitores de PR, cuja direção aproveita o ensejo para agradecer ao Dr. J.E. dos Santos Alves a valiosa colaboração.

1. FALA O ACADÊMICO

"É o homem o único ser capaz de considerar a si próprio e à natureza que o rodeia; o único ser capaz de formular juízo de valores e de se esfor­çar para viver segundo esses valores, com sentido ético; o único ser capaz de projetar-se além de si mesmo na busca de suas origens e ao encontro de seu fim último.

Mesmo excluindo o concurso da fé e considerando o homem à luz na­tural da razão, podemos constatar a grandeza da dignidade do ser humano, da vida humana, do dom da vida.

Sabemos que cada ser humano em particular, na sua originalidade, é mais perfeito que todo o universo junto.

Podemos perceber assim como é maravilhosa e preciosa a vida que cada ser humano recebeu e como é admirável e sublime o poder de trans­miti-la através do exercício digno da sexualidade, e de conservá-la, através da Medicina, cuidando da saúde.

Dizíamos que os outros cientistas podem manipular suas matérias próprias de trabalho de modo quase ilimitado, utilizando ampla e irrestri­tamente a tecnologia moderna.

Já os médicos, eticamente, não podem e não devem fazer tudo o que a tecnologia possibilita que façam, pois sua matéria de trabalho é o seu se­melhante, é o próprio homem, a quem devem servir e respeitar.

Por exemplo, é incontestável a licitude da conduta médica no trans­plante de órgãos. Mas há que se regulamentar a sua prática, subordinando­-a a princípios éticos, a fim de não se perder o senso moral dessa extraordinária intervenção cirúrgica que, eticamente desorientada, poderá perverter a Medicina, gerando uma mentalidade mercantilista e ultrajante pelo pos­sível uso indevido de doadores desinformados ou economicamente neces­sitados; também indefesos pacientes moribundos e agonizantes, mas ainda vivos e por um fio recuperáveis, poderiam ser inconscientemente utiliza­dos - em avaliação apressada - por mãos ávidas de sucesso ou por mentes absorvidas pelo desejo incontido de láureas científicas.

Deve, portanto, a Medicina ser orientada por uma filosofia que tenha por fundamento valores universais e perenes, aos quais se subordinem os valores locais e ocasionais. Valores daqui e de hoje não se podem sobrepor a valores universais e de sempre, pois, assim, inverteriam desastrosamente a hierarquia axiológica.

A Medicina se degeneraria sem rumo, não fosse o componente filosó­fico-ético a transmitir-lhe princípios de respeito à dignidade da vida huma­na, à dignidade do corpo humano e de suas funções, em todas as fases de sua existência, desde a concepção até a morte natural.

0 distanciamento dessa filosofia implicaria em regressão e desvalori­zação da própria ciência médica, pois não é possível promover a vida hu­mana, desvalorizando-se a própria natureza da vida que se quer promover. Poder-se-ia alcançar rápido progresso médico, com melhor conhecimento do organismo humano e das leis que o regem na cura das mais graves doen­ças, se a tecnologia moderna fosse aplicada, com fim puramente experi­mental, em seres humanos alienados, que vivem nos hospícios ou nas pri­sões de alta periculosidade ou agonizam anônimos em hospitais públicos. Mas não se pode admitir tal prática, porque seria um atentado à dignidade humana, à natureza humana, atingindo toda a humanidade e, portanto, a cada homem pessoalmente, pois, quando se fala em humanidade, se sub­entende, obrigatoriamente a pessoa particular e, vice-versa, quando se fala na pessoa humana, subentende-se a humanidade genericamente, a natureza humana. Por isso mesmo, experiências como tais, praticadas pelos nazistas, foram consideradas crimes de lesa-humanidade.

Acontece que a manipulação tecnológica tem sido praticada, impune­mente, nos dias atuais, com seres humanos em sua fase de vida embrioná­ria e fetal, sendo, inclusive, muitos deles "fabricados" para essa finalidade, ou para serem usados em experiências ditas "científicas", fatos estes sobe­jamente divulgados pela imprensa.

A mesma sociedade que hoje difunde, através da mídia, todas as aber­rações sexuais, banalizando a sexualidade humana - tornando-a, pela téc­nica, artificialmente infecunda e promíscua - paradoxalmente busca, também pela técnica, a procriação desvinculada do sexo, através do método da fecundação artificial in vitro. Querem, na procura do sexo totalmente desvinculado da gravidez, encontrar a gravidez desvinculada do sexo e, qui­çá, a vida humana sem paternidade e sem maternidade. Primeiro, o filho sem pai e, depois, o filho sem mãe: filhos de pais ignorados ou ocultos, filhos do laboratório e da comunidade, com sua ascendência previamente manipulada.

Que espécie de valores norteia essa sociedade? O hedonismo? O egoísmo? O consumismo?

Os filhos deixam de ser dom para se transformarem em subprodutos descartáveis do ato sexual ou se tornarem objetos de consumo, que são "fabricados" em provetas, selecionados e escolhidos os mais aptos. Os que não prestam, são desprezados, e os melhores são congelados; posterior­mente, os que sobram, são destruídos ou "lançados pelos esgotos", no di­zer de um renomado adepto do método.

A fecundação in vitro passa, necessariamente, pela aceitação do abor­to provocado. Sua pré-história tem origem, aparentemente contraditória, na difusão da mentalidade anticoncepcional. Esta gerou e impulsionou o movimento abortista no mundo inteiro, cuja conseqüência foi a desvalori­zação da vida humana, convertendo-a, nos primeiros dias de sua existência, em objeto de experimentação científica.

O embrião humano assim "produzido" fica exposto a milhares de possibilidades de "uso", inclusive a de ser implantado em útero de macaca ou de cadela ou de porca, como, aliás, já foi anunciada sua realização experimental.

Para que as condutas antiéticas sejam mais facilmente aceitas, criam­-se expressões disfarçadas, dúbias, ambíguas com o fim de mascarar o ver­dadeiro sentido dos atos propostos.

Entre outros exemplos, a expressão "pré-embrião" foi criada para se justificar, impunemente, experiências com o ser humano em seus primei­ros dias de existência. Como bem colocou, em recente "Jornada de Repro­dução Humana", o Dr. Dernival Brandão, que assim se expressou:

"Falar em pré-embrião é totalmente arbitrário, sem fundamentação científica, e serve apenas para autorizar experimentações em embriões até aquela fase em que estes não são mais usados para implantação intra-uterina, porque se tornam imprestáveis para isso. Tal expressão constitui uma manipulação lingüística. "

Outra locução - "extração menstrual" - foi encomendada para se justificar o aborto precoce, como muito bem denunciou o Acadêmico Prof. Altamiro Vianna, em magnífico discurso pronunciado nesta casa, com as seguintes palavras:

"Estarrece-nos ver, em nossos tempos, em recente Congresso Inter­nacional, aprovar-se a designação de "extração menstrual" para a prática do aborto, quando o atraso do catamênio seja de até seis semanas. Visa a denominação eufemística, como subterfúgio lingüístico, aliviar a consciên­cia de médicos e pacientes, quando praticam o aborto ovular".

"O novo apelido em nada modifica a essência do fato, que em si mes­mo é malicioso, conclui o Prof. Altamíro Vianna.

Atualmente, truncando o óbvio para confundir, alegam os abortistas, para justificar o aborto de conceptos com má formação congênita, que "defendem o direito de uma criança nascer perfeita e saudável, visando à plenitude de sua integração na sociedade." Ora. é óbvio que ninguém dei­xará de defender esta causa. Mas o que disfarçadamente eles defendem, é que só as crianças perfeitas e saudáveis têm o direito de nascer e integrar­-se na sociedade; as outras, as deficientes, devem ser destruídas no ventre materno.

Como reagirão intimamente a isso os nossos irmãos deficientes, que ao nosso lado vivem o dia-a-dia da existência?

O Acadêmico, Prof. Herbert Praxedes, com muita propriedade, clas­sificou esta proposta, de matar no útero materno as crianças deficientes, como sendo "a mais macabra forma de apartheid: Mate hoje o deficiente físico de amanhã".

E as denominações eufemísticas do aborto vão-se sucedendo para ocultar sua verdadeira face. Assim são denominados: aborto terapêutico, aborto eugênico, aborto sentimental, honroso, social, etc.

"Tais denominações - no dizer do acadêmico Prof. Waldenir de Bra­gança - são tentativas de introduzir novas cunhas, de abrir novas fendas, na muralha ética da Medicina".

Em inúmeras oportunidades tem o acadêmico Dr. Carlos Tortelly Costa execrado a prática do aborto provocado, definindo-o como "abomi­nável agressão a vidas humanas inocentes e indefesas.".

Ninguém ignora que existem situações delicadas, dificílimas e até dra­máticas, mas em nenhum caso o extermínio pré-natal de um ser humano constitui solução digna, nem eficaz.

Além de ser um atentado contra uma vida humana indefesa, constitui o aborto voluntariamente provocado um atentado também à consciência da mãe, à do pai, e à do médico: é um processo de destruição da própria consciência humana.

Estou convencido de que, na grande maioria dos casos em que as mães procuram o aborto como solução para os seus problemas, elas o fa­zem levadas pelo desespero, pelo sofrimento, pelo medo e pela desinformação, sem pleno conhecimento do horror em que consiste esta prática criminosa. Compete ao médico esclarecê-las e orientá-las na busca de reais soluções para suas dificuldades, excluindo o aborto, que nunca será solu­ção para coisa alguma; pelo contrário, constituirá sempre um novo proble­ma acrescentado ao que se pretende resolver.

Minhas senhoras e meus senhores, a verdadeira solução para todos esses problemas é tarefa que exige a participação de toda a comunidade. Compete à sociedade buscar soluções justas, positivas e compatíveis com a dignidade humana, sem arrastar a Medicina para práticas anti-éticas, con­trárias ao seu espírito e finalidade. A legislação e todos os recursos devem ser colocados a serviço da maternidade e da vida, protegendo-se o filho e a mãe. Protegendo-se também o médico, pois as leis e as circunstâncias, sen­do ordenadas para o prosseguimento da gravidez, servem-lhe de apoio para que não resvale para práticas tão contrárias ao seu juramento.

Este é o caminho: tratar a mãe e proteger o filho. Este é o dever do médico; assistir a seus pacientes desde o início da vida, na concepção, até o seu último alento.

Não há dúvida de que o médico perderá sempre a última batalha na luta pela vida. Mas é sua função pugnar sem trégua, desde os cuidados pró­prios do período pré-natal, no alvorecer da existência, até a luta angustiante no C.T.I., face-a-face com a morte, a qual, como a vida, também deve ser respeitada. A utilização de sofisticada aparelhagem tecnológica é útil para salvar uma vida, mas é inconveniente quando usada para ocultar a morte já ocorrida e devidamente constatada e comprovada. Nestas circuns­tâncias, a retirada dos aparelhos extraordinários constitui um ato de res­peito à morte e, absolutamente, não configura a eutanásia, a qual consiste na omissão ou no ato deliberadamente praticado para provocar a morte. Esta, sim, é condenável e criminosa. Deve o médico, portanto, reunir pru­dência e sabedoria científica suficientes para decidir a hora de retirar os re­cursos extraordinários nos casos em que a indicação dos mesmos deixa de existir pela evolução irreversível do quadro clínico, seguramente demons­trada. Nesta situação, comprovadamente irreversível, mas enquanto hou­ver sinal de vida, o paciente será atendido em suas necessidades básicas de alimentação, hidratação, higiene, etc., pelos recursos médicos ordinaria­mente disponíveis.

Quanto à pena de morte para crimes hediondos, tão discutida nos úl­timos meses, nada tem a ver com a Medicina. É problema que pertence a outras ciências. Mas é bom lembrar que não pode o médico ser envolvido no processo executório, utilizando a Medicina para penalizar um condena­do.

Estou-me prolongando demasiado. Todavia, foi necessário pela im­portância e atualidade do tema enfocado, o qual constitui matéria diariamente veiculada nos meios de comunicação de massa, mas quase sempre erroneamente apresentada, confundindo assim a população em geral e também envolvendo o médico, pressionando-o para adotar condutas que ferem a sua vocação e o seu juramento. Por isso é conveniente insistir na necessidade de uma filosofia para alicerçar e orientar a Medicina. Não, po­rém, uma filosofia de ocasião, inventada pela imaginação humana e tão vo­lúvel quanto ela. Mas, sim, uma autêntica filosofia, profunda e perene, im­plícita na própria natureza racional do homem, e que deve ser devidamen­te apreendida, aprofundada e explicitada pela razão, com o máximo de fi­delidade possível; será fundamentada sobretudo no devido respeito à ele­vada dignidade da vida humana desde o ato gerador até o último instante de sua existência; dignidade esta que, infelizmente, vem sendo, nos últi­mos anos, descaracterizada, deformada e desrespeitada, em contraste com o impressionante progresso científico e tecnológico que a humanidade al­cançou; tal progresso deveria aumentar no homem a consciência de seu transcendente valor e, portanto, o respeito pela sua vida e pelo processo de sua concepção.

Urge, portanto, conduzir e orientar as conquistas científicas moder­nas e futuras para o restabelecimento e preservação do imprescindível res­peito à dignidade do ser humano, em sua plenitude.

Somente pensando e agindo nesse nível será possível encontrar a ver­dadeira solução para os grandes problemas que afligem a humanidade.

Que Deus nos ilumine nesse mister".

2. REFLETINDO...

Sejam destacados os sete pontos que o Acadêmico Dr. J.E. dos San­tos Alves aborda em seu discurso:

2.1. A dignidade do ser humano

"Sabemos que cada ser humano em particular, na sua originalidade, é mais perfeito do que todo o universo junto". - O autor faz eco ao filósofo e matemático francês Blaise Pascal (+ 1662), de cujos "Pensamentos" ex­traímos as seguintes sentenças:

"O homem é apenas um caniço, o mais frágil da natureza, mas é um caniço pensante. Não é necessário que o universo se arme para esmagá-lo; um vapor, uma gota d'água basta para matá-lo. Mas, ainda que o universo o esmagasse, o homem ainda seria mais nobre do que aquilo que o mata, porque ele sabe que ele morre, ao passo que o universo ignora a vantagem que ele tem sobre o homem" (fragmento 347).

'Não é a partir do espaço que devo procurar a minha dignidade, mas é a partir da boa ordem do meu pensar. Eu não terei vantagem alguma se possuir terras; pelo espaço o universo me compreende e me traga como um ponto, pelo pensamento eu compreendo o universo" (fragmento 348).

"Todos os corpos, o firmamento, as estrelas, a terra e seus reinos não valem o menor dos espíritos, pois o espírito conhece tudo isso, e conhece a si mesmo. E os corpos nada conhecem.

Todos os corpos reunidos, e todos os espíritos reunidos, e todas as suas obras não valem o mínimo de amor. Pois o amor pertence a uma or­dem de coisas infinitamente mais elevadas.

De todos os corpos reunidos não se poderia extrair um mínimo pen­samento.

É impossível, pois pertence a outra ordem de coisas. E de todos os corpos e espíritos não se poderia extrair um movimento de verdadeiro amor.[1] Isto é impossível, pertence a outra ordem de coisas, à ordem so­brenatural".

2.2. Transplantes de órgãos

Constituem maravilhosa intervenção cirúrgica, que corre, porém, o risco de perverter a Medicina, se for eticamente desorientada. A mentali­dade mercantilista poderia servir-se de doadores desinformados ou econo­micamente necessitados ou ainda de indefesos pacientes moribundos.

2.3. Experimentação em seres vivos

Os regimes totalitários e quiçá outras instituições têm utilizado seres deficientes, prisioneiros, pacientes terminais... para experimentação médi­ca. A prática pode ser sedutora, pois parece possibilitar mais rápido pro­gresso da Medicina, mas é indigna do profissional.

2.4. Fecundação artificial

Hoje se pensa em procriação desvinculada do sexo, como se pratica sexo desvinculado da procriação. Isto tem levado os pesquisadores a pro­mover a implantação do embrião humano em útero de macaca, porca ou cadela..., como também a tentar a hibridação de ser humano e macaco..., com o fim de obter "trabalhadores braçais" (escravos eventuais) e matéria para experimentação médica.

2.5. Aborto

O morticínio de seres inocentes vem sendo preconizado com todos os recursos, inclusive mediante a falsidade de eufemismos criados para enco­brir a hediondez do crime.

2.6. Eutanásia provocada

O autor, com razão, condena a eutanásia induzida por ação direta ocisiva ou por subtração dos meios ordinários de sustentar a vida (alimen­tação, hidratação, higiene...). Mas reconhece a legitimidade de se desligar a sofisticada aparelhagem tecnológica, quando a morte está devidamente constatada e comprovada ou quando a evolução irreversível do quadro clí­nico está seguramente demonstrada. É preciso respeitar a morte do pacien­te e não o utilizar para experiências que só servem aos interesses de médi­cos.

2.7. Pena de morte

Tal assunto não é da alçada direta da Medicina, mas sim de outras ciências. Todavia é de lembrar que o médico não pode permitir que a Me­dicina seja utilizada para penalizar um condenado.

São estas as observações que o Dr. João Evangelista dos Santos Al­ves houve por bem propor a seus colegas de Academia, ou seja, aos mem­bros da alta cúpula da Medicina, a fim de preservar valores que a corrida ao sucesso e ao dinheiro em nossos dias tende a conculcar.

Parabéns, ilus­tre Acadêmico!

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NOTA:

[1] Pascal tem em vista o amor como virtude infusa, da qual fala São Paulo em Rm 5,5: "O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado".

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quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Céu: a vida continua além da morte

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 359/1992)

Em síntese: O livro de Tarsizo de Oliveira e Sirtei Paseto manifesta a boa intenção de dissipar o horror da morte que existe em muitas pessoas. To­davia procura fazei-lo mediante argumentos assaz subjetivos; além do quê, apresenta lacunas em matéria de Filosofia e Teologia: os conceitos de ser humano, tempo e eternidade, vida, energia, matéria deixam muito a desejar. No tocante à própria Parapsicologia os autores parecem não levar em conta suficiente o poder da sugestão e a enorme capacidade de projeção subjetiva que a sugestão mobiliza sem que o indivíduo o perceba.

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O livro "A Vida continua além da Morte" se deve a dois autores re­sidentes em Santa Catarina. O Prof. Tarsizo de Oliveira é o fundador do Centro de Estudos Parapsicológicos em Florianópolis, da Associação de Parapsicologia e das Clínicas Famo. Como parapsicólogo, tem-se dedica­do ao tratamento de doenças psicossomáticas. - Quanto à Professora Siriei Paseto, é Coordenadora do Departamento de Psicorientologia da Asso­ciação Catarinense de Parapsicologia. Publicaram o livro em foco[1] que tenta mostrar o que acontece antes e depois da morte e durante a própria morte. Os autores consideram uma temática que é certamente delicada, conjugando entre si aspectos psicológicos, parapsicológicos, filosóficos e teológicos. Examinemos e comentemos o livro.

I. O conteúdo da obra

Os autores querem dissipar o medo da morte, incutindo a idéia de que esta vem a ser a plenitude da vida:

"A morte se apresenta como a situação em que o ser humano tem o pri­vilégio do desenvolvimento de todas as suas faculdades, atingindo por exce­lência o ponto máximo de sua vida, através da qual poderá chegar a uma perfeita maturidade espiritual, onde todas as suas características psíquicas e mentais, tanto as cognitivas como as volitivas e afetivas, podem ser exercidas em sua plenitude, sem os condicionamentos exteriores e suas limitações hu­manas. É o momento em que o ser humano tem a possibilidade, através de seus méritos, de atingir a plenitude de sua realização. Antes, o mesmo tinha limitações de toda ordem, através dos conceitos e dos condicionamentos tanto hereditários como psicológicos, adquiridos durante a educação, sem fa­lar na ignorância, falta de conhecimentos mais profundos a respeito das coi­sas de Deus" (p. 34).

Como é que os autores sabem o que ensinam?

Recorrem a depoimentos de pessoas que passaram pela morte aparente e voltaram ao pleno gozo de suas forças ou - mais estranho - deixaram mensagens que outras pessoas captaram por psicografia. Com outras palavras: segundo T. de Oliveira e S. Paseto, as pessoas que estão em estado de morte aparente, podem transmitir a outras o que lhes vai na alma; as mensagens assim emitidas são captadas pelo subconsciente de familiares e amigos do paciente, e estes, por sua vez, podem reprodu­zir tais mensagens, fazendo-as passar do seu subconsciente para o cons­ciente; o fenômeno de reproduzir as mensagens de moribundos é cha­mado pelo dois autores "psicografia”:

"A psicografia, que quer dizer escrita do psiquismo ou escrita mental, é o resultado de uma captação telepática de pessoas vivas que captaram da mesma forma de alguém que estava no estágio de morte aparente. Portanto, sempre que é reproduzida uma mensagem psicografada, o psicógrafo está escrevendo algo que aflora do seu subconsciente ou que está captando do subconsciente de outras pessoas, não havendo, dessa forma, nenhuma co­municação com o espírito do morto, como algumas pessoas querem supor, mas comunicação de vivos para vivos" (pp. 42s).

Como se vê, os autores recusam a necromancia ou a consulta aos mortos ou a comunicação dos mortos com os vivos, como a admite o Es­piritismo. Neste ponto conservam fidelidade ao Cristianismo.

Eis um espécimen de mensagem psicografada dirigida pelo esposo moribundo à esposa viva e aflita:

"Sinto-me como a lagarta que se transforma em borboleta, como a criança que deseja e luta para nascer. Faço um esforço enorme para ir, para ouvir, para refletir, mas tudo voltado para mim mesmo. Estou em estado de in­trospecção, revivendo todos os relacionamentos. Sou eu mesmo, só, mas na companhia de todas as pessoas que conheci.

Queria te explicar, mas tenho plena consciência de que não sabes o que eu sinto. Se estivesses entendendo, querida, saberias por tua própria ex­periência o que é ver a luz pela primeira vez, o que é falar e ouvir pela primeira vez.

Eu me sinto vitorioso, vitorioso de mim mesmo. Sinto-me único, absolu­to, harmonioso e principalmente completo e feliz. Só agora consigo sentir-me totalmente.

Querida, eu sei que para ti está sendo um momento dificílimo, mas, compreende-me, para mim é vital, é fundamental. Eu nunca chegaria até mim mesmo se não fosse por esse caminho. Não é doloroso como estás pensando e deixando transparecer; para mim é o verdadeiro estado de graça. Não quero que sofras, pois eu não estou sofrendo. Continuo tendo objetivos, não acabei, como estás pensando. Eu cresci, sou bem maior do que já fui. Não estou morrendo da forma como estás pensando. É por amor, só por amor, que estou lutando para confortar a tua dor. Pois, se não existisse o amor, eu já te­ria me libertado...

Confirmo e afirmo o meu grande e eterno amor, porque agora sei e te­nho certeza que ele é eterno" (pp. 45s).

Em alguns casos os pacientes dizem que passam por um túnel, en­contram um ser de luz, sentem-se felizes,... mas de repente são chama­dos a voltar ao corpo na terra.

"Fui internado no hospital, gravemente enfermo. Sentia dores em todo o corpo e tonturas. Os médicos não sabiam bem o que eu tinha. O médico me enviou para exames para ver se descobriam. Durante os exames, aplicaram uma droga que me fez estremecer e senti que estava morrendo. Neste mo­mento, percebi um túnel e, ao mesmo tempo, uma luz.

Mentalmente a impres­são que tinha era de que a luz falava, mas tinha certeza que tudo isso se pas­sava em minha mente. O que sentia era que eu estava em um julgamento on­de toda a minha vida era recapitulada mentalmente. Senti um peso enorme ao concluir que a minha vida não fora voltada para o amor, a caridade e para o próximo. Foi nesse momento que a luz desapareceu e, ao seguir pelo túnel, apenas escuridão e isolamento. Senti um desejo enorme de ter vivido de outra forma. Neste momento, voltei a ouvir a voz do médico que dizia estar eu rea­gindo. A experiência foi muito válida para que eu pudesse reconstruir a minha vida interior" (p.32).

Comentam os autores:

"É muito comum as pessoas durante este estágio terem a sensação de estar passando por um túnel. Uns relatam como um túnel longo e escuro no início e com uma luz muito forte em seu final. Em todos os casos pesquisados em que aparece a luz, esta é de um brilho indescritível e não prejudica os olhos ou ofusca, nem impede de ver outras coisas ao redor; isso porque sen­tem que tudo o que estão vendo não é através dos olhos físicos, mas através da mente. Em todos os casos, a sensação é de que a luz representa um ser de luz, do qual emana amor e paz. Mesmo que as descrições a respeito da luz, sejam invariáveis, o que dela emana varia de indivíduo para indivíduo, mas a maioria identifica a luz com Cristo ou, simplesmente, com Deus. Podemos definir que o diálogo que, em muitos casos, aparece com o ser de luz é um diálogo mental" (pp. 33s).

Logo após a morte o indivíduo se encontra face-a-face com Deus...:

"Sabemos que todo ser humano, após o estágio de morte aparente, se encontrará face a face com Deus e com Cristo ressuscitado. Mesmo que du­rante toda a sua vida não tenha ouvido falar deles, lhes é oferecida a chance de optar por Deus e por Cristo.

Os pagãos terão a oportunidade desse desenvolvimento, também aqueles que, durante a sua vida, não chegaram ao desenvolvimento da cons­ciência e da liberdade, ou seja:

Os débeis mentais, que também terão a sua oportunidade de encontro com Deus. Não querendo contrariar conceitos religiosos, mas com o objetivo de esclarecer a muitos a respeito do assunto, podemos afirmar que a mesma chance ocorre com os milhões de seres humanos que morreram antes de nascer, seja por motivos naturais ou mesmo pelo grande número de abortos que acontecem pelo mundo inteiro. Também as vitimas de acidentes catastró­ficos que, com suas mortes repentinas, truncam bruscamente a vida, aparen­temente sem ter qualquer momento de preparação, essas têm a mesma chance como as demais" (pp. 36s).

Os autores afirmam outrossim que a ressurreição se dá por ocasião da morte; cada qual, ao morrer, chega ao fim dos tempos ou fim do mundo. Cf. p. 23.

Expostas as principais linhas doutrinárias do livro em foco, reflita­mos a respeito. Verdade é que o pensamento dos dois autores nem sem­pre é preciso; falta-lhes um pouco de rigor lógico ao concatenar e expri­mir suas idéias; cf. pp. 36 (final). 23 (confuso).

2. Comentando...

É muito oportuna e louvável a intenção, dos autores, de mostrar que a morte não é um fim, um truncamento, mas, sim, uma passagem para vida melhor e mais plena. Isto é autenticamente cristão.

Acontece, porém, que, para incutir esta grande verdade, os autores apelam para argumentos experimentais muito subjetivos e discutíveis; querem saber demais no tocante ao que se dá na hora da morte e depois. Com efeito...

2.1. Psicografia

As mensagens atribuídas a moribundos e captadas por familiares e amigos podem ser simples projeções ou expressões dos afetos desses familiares e amigos. Nada garante que tenham realidade objetiva ou que sejam comunicações feitas pelos moribundos. É preciso não esquecer o poder da sugestão: quando alguém crê que pode receber mensagem de outra pessoa, inventa (sem o saber) tal mensagem. Por isto o recurso à psicografia é falho; não pode ser aduzido como prova do bem-estar dos moribundos.

A imagem do túnel pelo qual a alma do moribundo passaria num vôo fora do corpo parece corresponder a um arquétipo congênito do psi­quismo humano; para chegar à luz, deve haver um canal que não seja de luz e que faça a mediação entre a penumbra da terra e a plena luz do além. A Dra. Elizabeth Kübler-Ross averiguou a existência de tal imagem em depoimentos de seus pacientes postos em estado de coma e restituídos à saúde; tal imagem não passa de projeção do psiquismo humano, e carece de realidade objetiva, pois não podemos conceber que o além seja confi­gurado segundo a arquitetura do aquém, com seu túnel, seu jardim, sua fonte de luz, suas muralhas...; a outra vida não se dará num cenário ma­terial comparável ao presente, em reedição revista, melhorada e aumen­tada... A propósito já foi publicado um comentário em PR 216/1977, pp. 501-506 (comentário do artigo "Vida após a Vida" de Raymond Moody J r).

2.2. Retrocognição, Simulcognição e Precognição

Segundo T. de Oliveira e S. Paseto, a pessoa em estado de morte aparente goza de conhecimentos dilatados, abrangendo o seu passado, o seu presente e o seu futuro; cf. p. 37. -

Como se pode provar esta tese?

Realmente nenhum dado experimental e nenhum raciocínio a provam. Há, sim, teólogos que julgam que, na hora da morte, a pessoa recebe de Deus uma luz especial para poder fazer, com clareza nunca antes atingida, sua opção decisiva e definitiva por Deus ou contra Deus. Esta sentença não é aceita por outros bons teólogos, que a têm por gra­tuita ou arbitrária; na verdade, é paradoxal imaginar que alguém, sofren­do o declínio de sua lucidez de mente pela arteriosclerose e outros acha­ques, possa repentinamente gozar de perspicácia de mente nunca antes alcançada; toda a vida do homem deve ser vivida de maneira tão cons­ciente quanto possível, de modo que cada ato humano seja responsável e possa ser levado a sério. É durante a vida inteira que a pessoa deve exercitar-se para comparecer diante do Juiz Divino; é isto que dá grande­za aos atos mais comezinhos.

O momento da morte é grande e importante, porque decisivo. Cremos que Deus assiste a cada qual naquela hora com as graças neces­sárias; mas esse momento não é senão a etapa final de uma caminhada, que deve ser, toda ela, homogênea ou uma opção cada vez mais cons­ciente por Cristo e o Pai. Não queiramos saber muita coisa a respeito daquele transe; podemos dizer que ele terá as características que cada qual tiver preparado; quem tiver vivido com Deus, poderá sentir-se feliz por chegar ao termo final de sua caminhada; quem tiver vivido longe de Deus, talvez se assuste enormemente ao perceber a chegada da hora derradeira.

2.3. Encontro face-a-face com Deus

O encontro face-a-face com Deus ou a visão direta de Deus é a própria bem-aventurança celeste, prêmio dado àqueles que viveram e morreram com Deus neste mundo. Por isto não se pode afirmar que, após o estágio de morte aparente., todo ser humano gozará desse encon­tro. - Dizemos, em perspectiva cristã, que após a morte, todo indivíduo passa pelo juízo particular:

a luz de Deus o ilumina para que possa avaliar a sua vida terrestre com toda a objetividade e veracidade possível; reco­nhece com nitidez tudo o que fez de bom e menos bom e aceita

natural­mente a sentença daí decorrente. Isto, porém, não é visão de Deus fa­ce-a-face.

Também é de notar que após a morte não é possível converter-se do mal para o bem ou vice-versa. A morte estabiliza o homem na sua úl­tima opção. É certo que o Senhor Deus dá a cada qual, no decorrer da vida terrestre, as graças necessárias para que opte sempre pelo melhor e colha copiosos frutos na hora da morte.

Além do mais, não se pode admitir que a alma humana se separe do corpo antes da morte e vagueie pelo espaço, contemplando o seu cor­po submetido a tratamento médico ou penetrando em jardim suave e luminoso. A alma humana é o princípio vital do corpo; sem alma, este simplesmente não vive, de modo que mesmo as pessoas postas em coma e morte aparente têm sua alma presente no corpo; a separação de corpo e alma só se dá na hora da morte; não há retorno da alma ao corpo mortal.

2.4. Antropologia

A antropologia suposta pelos dois autores não distingue clara­mente entre corpo e alma. Estes seriam apenas duas facetas de um bloco monolítico, segundo se depreende dos dizeres da p. 23 ("a plenitude da realização do ser humano corpo-alma"). Por conseguinte, a ressurrei­ção seria a própria morte tida como "total desenvolvimento das possibi­lidades da natureza humana sem limitações" (p. 23). Esta concepção an­tropológica, porém, está em contradição com aquela perspectiva de alma que sai do corpo, passa por um túnel, entra num jardim luminoso, etc. (pp. 32s). - Os autores não chegaram à clareza de conceitos neste ponto (como, aliás, também em outros pontos relacionados com a Filosofia e a Teologia).

Dizer que no momento da morte cada qual vive o fim dos tempos ou o fim do mundo é errôneo, pois após a morte a alma humana experi­mentará ainda a noção de futuro; ela estará não num regime de eternidade, mas no regime do evo, do qual temos tratado repetidamente em PR; cf. 275/1984, pp. 274-281; 257/1981, pp. 243-245.

Após a morte a alma, sendo espiritual e imortal, subsiste sem corpo e aguarda o fim dos tempos, quando Cristo há de vir glorioso para julgar todos os homens e se dará a ressurreição universal.

Aliás, os dois autores empregam com facilidade despropositada a palavra "eterna". Assim à p. 21 afirma: "a energia é eterna". Ora só Deus é eterno; nenhuma criatura é eterna, nem pode vir a ser eterna (o que seria contraditório). À p. 22 escrevem: "Nada termina, mas tudo se transforma; a existência é provisória, mas a vida é eterna". Ora observa­mos que somente a vida de Deus é eterna, porque só ela não teve come­ço e não terá fim; a nossa vida não é eterna, porque teve começo; visto que não terá fim, é vida imortal ou eviterna (não vida eterna).

À p. 22 os autores asseveram que "existe uma continuidade de vida desde as partículas subatômicas. Deste modo não podemos fazer divisão entre matéria e vida". - Eis outro ponto falho: a vida tem suas proprieda­des básicas, que só se encontram nos vegetais e nos animais (irracionais e racionais): nutrição, crescimento, reprodução, capacidade de se restau­rar quando lesada. Ora nenhum mineral possui tais particularidades; por isto a vida não existe nos minerais. A vida depende de um princípio vital próprio, que pode ser material (nos vegetais e nos animais irracionais) ou imaterial, espiritual (no ser humano).

Eis algumas reflexões que nos sugere o livro de T. de Oliveira e S. Paseto. Reconhecemos a boa intenção dos dois autores, mas podemos afirmar que em matéria de Filosofia e Teologia apresentam lacunas sérias. No tocante à própria Parapsicologia parecem não levar em conta suficiente o poder da sugestão e a enorme capacidade de projeção subje­tiva que a sugestão mobiliza, sem que o indivíduo tenha consciência dis­so.

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NOTA:

[1] A vida continua além da morte. Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1990 (3ª ed.).