quinta-feira, 22 de março de 2012

A Certeza


(fonte: Cerrutti, P., A caminho da verdade suprema.)

Noção.

13. A certeza é o ato perfeito da inteligência, no qual ela adere  firmemente  a uma afirmação sem temer que a con­traditória possa ser verdadeira. É "determinatio ad unum" , descanso da inteligência num objeto que aparece como neces­sariamente verdadeiro. Inclui pois:
a) a firmeza da adesão, com exclusão do temor da con­traditória, isto é, com exclusão da possibilidade ou pelo menos da compossibilidade da afirmação oposta;
b) a conexão com a verdade, proveniente de um motivo que nos faz ver a necessidade do objeto, isto é, ver que o objeto é necessariamente o que o julgamos ser, e não pode ser de outro modo: porque enquanto tememos que o objeto possa ser de outro modo, só podemos ter opinião e não firmeza na adesão.
Esta é a verdadeira certeza, genuína, legítima, objetiva.
Se a adesão firme for dada sem motivo suficiente, será certeza aparente, ilegítima, meramente subjetiva, chamada às vezes "opinião imperturbada": esta poderá ser falsa.
Conexão da Certeza com a Verdade.
Que a verdadeira e genuína certeza esteja sempre conexa com a verdade (=não possa ser falsa) é evidente:
1) O estado perfeito e a perfeita atuação e determinação de uma potência ou faculdade só podem ser causados pela posse do bem próprio desta potência ou faculdade, isto é, do seu objeto, pois para ele tende por sua própria natureza e dele recebe a sua especificação: assim, por ex. a faculdade da visão em relação à superfície colorida. — Ora para a inteligência, faculdade cognitiva, visiva e necessária, o bem próprio e o objeto ao qual tende é a ver­dade percebida com evidência; e o seu estado perfeito, a sua perfeita atuação e determinação, é, por definição mesma, o estado de certeza, o conhecimento certo. — Logo, no estado de certeza, no conhecimento certo, só pode a inteligência ser atuada e determina­da pelo seu objeto próprio, a verdade percebida com evidência. Don­de o estado de certeza está sempre unido com a verdade: o ato certo não pode ser falso.
2) Em outras palavras: Como veremos (n.° 20), é a evidência objetiva, isto é, a manifestação do objeto feita à inteli­gência e conhecida por ela, que constitui a condição suficiente e necessária para determinar a inteligência a dar uma adesão firme e ter certeza. — Ora a evidência objetiva, por sua própria natu­reza, está indissoluvelmente unida com a verdade, pois evidência objetiva = manifestação do objeto feita à inteligência = percepção pela inteligência da conformidade da sua afirmação com o objeto = percepção da verdade. Por isso é, precisamente, que a evidência é o critério infalível da verdade. — Logo a certeza, proveniente sempre de alguma evidência, não pode estar unida com o erro.
3) Não pode a adesão firme à verdade ter as mesmas ca­racterísticas e constituir o mesmo estado da mente que a adesão ao erro, por firme que pareça esta adesão: se com a mesma fir­meza e atuação perfeita (= com o mesmo estado psicológico) ade­risse a inteligência tanto ao erro como à verdade, impossível seria
distinguir com segurança a certeza genuína da certeza puramente aparente, a verdade do erro; daí o Ceticismo universal, que veremos ser absurdo.
De fato, com atenção e reflexão, pode a consciência perce­ber a diferença: na certeza genuína, percebe e atesta que vê real­mente a conformidade entre o que afirma do objeto e o que ele é, vê estar sendo determinada pelo objeto que se manifesta a ela; na certeza aparente, pelo contrário, percebe e atesta que não vê esta conformidade, que não se dá esta determinação e manifestação do objeto (n.° 21).
A Certeza é pois a firmeza da adesão da inteligência, ao seu objeto, a verdade, sem temor de estar errando.

Graus intensivos de certeza.

14. A certeza, que é uma qualidade do ato da Inteligência, deve sempre excluir a dúvida, mas a firmeza da adesão pode admitir graus intensivos proporcionados: ao grau de inteli­gência de cada um, às faculdades mais ou menos bem dispos­tas, aos hábitos adquiridos, à maior ou menor evidência dos motivos; — também ao grau de inteligibilidade do objeto, pro­veniente da sua maior ou menor entidade e mutabilidade. Por isso não se deve exigir no conhecimento dos vários objetos a mesma espécie de certeza.

Várias espécies de Certeza.

15. Como a certeza supõe alguma necessidade no objeto, e a firmeza da adesão é causada por esta necessidade e lhe é proporcionada, além dos graus intensivos podemos ter certezas essencialmente diferentes segundo as várias neces­sidades do objeto essencialmente diferentes.
Com efeito, esta necessidade consiste na conexão que no juízo certo existe entre o sujeito e o predicado que se afirma. dele. — Ora esta conexão pode ser proveniente;
1) da essência mesma das coisas consideradas em s i - m e s m a s: isto acontece quando o predicado faz parte da essência do sujeito ou é uma propriedade necessariamente re­sultante desta essência. Ex., o homem é racional, o homem é capaz de progresso, o todo é maior do que uma das suas par­tes, etc... De um modo geral gozam desta certeza os primeiros princípios e todas as conclusões analíticas. Esta necessidade é absoluta, sem exceção possível. Gera pois uma certeza absoluta, formal e materialmente  metafísica.
Há também necessidade redutiva à metafísica:
a) quando a conexão provém da constância das leis físicas ou morais, consideradas em si-mesmas e na sua gene­ralidade, Ex.: geralmente falando o fogo queima, os corpos deixados a si mesmos caem, as mães amam seus filhos... porque, embora não se trate da essência mesma dos seres e absolutamente falando estas leis tivessem podido ser diferen­tes, contudo, posta a existência deste universo assim ordenado, é metafisicamente necessário que os seres estejam agindo, em geral, segundo suas propriedades naturais. Donde nesta cons­tância geral não há exceção possível,
b) quando a conexão embora em si condicional, é considerada na suposição de ser verificada a condição. Ex.: este fogo, se a lei física for aplicada, queimará; este fogo, que de fato vejo queimar, queima.
c) quando a conexão embora em si condicional é con­siderada em circunstâncias nas quais se pode demonstrar que repugna metafïsicamente a exceção. Ex.: quando um milagre viesse confirmar um erro: repugna metafisicamente que Deus confirme um erro com um milagre.
2) da constância e uniformidade existente entre as causas naturais e seus efeitos, isto é, entre as leis físicas e a sua aplicação aos casos particulares, em circuns­tâncias em que não há nenhum motivo positivo para suspeitar e temer uma intervenção milagrosa de Deus. Ex.: este fogo queimará, este lápis suspenso na mão, deixado a si mesmo, cairá. Esta necessidade gera a certeza f í si c a.
3) da constância e uniformidade existente entre as leis morais (=. modos naturais de agir do ser inteligente e livre, fundados na natureza e nas tendências do homem) e as suas aplicações aos casos particulares, em circunstâncias em que não há nenhum motivo positivo de temer uma exceção. Ex.: esta mãe ama seus filhos. — Esta necessidade gera certeza moral.
(Na Ética, chama-se também certeza moral, a uma cer­teza "prudencial" e prática, obtida por meio de um princípio reflexo e necessária para agir moralmente, mesmo quando não se pode conseguir a certeza especulativa.)
16. Estas  três  certeza   (metafísica,   física   e  moral)   são essencialmente diferentes, porque a conexão existente entre o sujeito e o predicado, na certeza metafísica, não admite absolu­tamente nenhuma exceção; na certeza física, admite exceção mas só por parte de Deus no milagre; na certeza moral, admite exceção também por parte do homem.        
As certezas física e moral são verdadeiras certezas, pois nelas o temor racional e prudente de uma exceção fica sempre excluído com evidência não metafísica, mas física ou moral, fundada precisamente como dissemos, na constância das leis físicas e morais, cuja exceção não se pode prudentemente temer quando não há motivo positivo para isso. E o temor reconhecido como imprudente e irracional não impede a fir­meza da adesão requerida no juízo certo.
Só haverá realmente certeza, quando for certo que a exceção — em si possível, porque não contraditória — no caso particular considerado não se dará. Acontece isso, de fato, em inúmeros casos da vida quotidiana, em que aderimos com firmeza e sem temor nenhum, porque vemos não existir motivo ou razão suficiente para deixar a lei de ter a sua aplicação. Quem, por ex., duvida que pondo o dedo no fogo queimará? que largando um objeto ele cairá?
Porém o grau desta firmeza é menor na certeza moral do que nas duas outras, e é menor na física do que na meta­física, que é a maior das certezas de ordem natural. — Além disso em cada uma destas três ordens de certeza pode haver graus intensivos, como vimos no n.° 14. — Nenhuma das três certezas pode estar com o falso; mas esta exclusão do falso, fundada na firmeza da adesão que é proporcionada às várias necessidades (metafísica, física ou moral), será também diversa nas três certezas. (10)
(10)   Cfr. morandini, obra cït.,  p. 313-4, e a solução das objeções, pp. 316-319.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Igreja: riquezas do Vaticano

A riqueza do Vaticano não pode ser analisada em termos absolutos, mas comparada com os outros Estados; nesse sentido é o menor orçamento entre as nações.

Entrevista com John L. Allen Jr, vaticanista, é o correspondente da NCR.

O orçamento anual do Vaticano é de US$ 300 milhões; 50% deste orçamento vem de doações; a avaliação das propriedades do Vaticano deveria se aproximar dos US$ 500 milhões; nos Estados Unidos, a Universidade de Notre Dame – tem um orçamento operativo de mais de US$ 1 bilhão - isto é, pode financiar o Vaticano três vezes.

Entrevista com John L. Allen Jr.

A reportagem é de Andrew Chernin, publicado na revista “Qué pasa” e no sítio “Religión Digital”, 31-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Como a Igreja e a Santa Sé se financiam?
O orçamento anual do Vaticano é de US$ 300 milhões. Basicamente, eles têm três fontes de renda: a primeira são as doações de igrejas locais e conferências de bispos em todo o mundo. As paróquias são obrigadas a entregar dinheiro às dioceses, e as dioceses são obrigadas a entregar dinheiro para o Vaticano.


Qual é a segunda?
Os investimentos. Em 1929, a nova República italiana pagou ao Vaticano uma enorme quantia por todas as propriedades que ela lhe havia confiscado. Essa quantidade, que hoje seriam de várias centenas de milhões de dólares, foi investida em uma carta de investimentos de bônus e ações que ainda existe e que, a cada ano, entrega renda ao Vaticano.


Resta a última.
O Vaticano é dono de cerca de 700 propriedades, principalmente em Roma, mas também em toda a Itália. Muitas delas são arrendadas a companhias e a pessoas, como lojas ou departamentos. Então, a cada ano, há dinheiro que chega por esse caminho.


Isso é suficiente?
Todo ano, em geral, eles andam muito apertados com esse orçamento, e não se sabe se ganharão o suficiente para pagar os gastos do Vaticano.


Falo das doações. São muito fundamentais?
Cobrem 50% do orçamento anual. As outras duas contribuem com 25% cada.


Em quanto estão avaliadas as propriedades?
O Vaticano diz que seu patrimônio, que inclui bens raízes, chega a US$ 770 milhões. O grosso dessa cifra são as propriedades. Então, no total, a avaliação deveria se aproximar dos US$ 500 milhões.


Eles estão com números vermelhos ou azuis?
Desde o final da década de 70 até o começo dos 90, eles estavam com números vermelhos quase todos os anos. Depois, chegou um cardeal norte-americano de Detroit encarregado da operação financeira, que era conhecido por ser alguém habilidoso com o dinheiro. Ele corrigiu o déficit, e eles obtiveram números azuis por vários anos. A partir daí, veio uma crise financeira, e voltaram a ter números vermelhos, mesmo que o déficit não tenha sido muito grande. Em geral, a Igreja não obtém excedentes significativos.


Então não se poderia dizer que a Igreja é rica.
Eu colocaria desta forma: o orçamento operativo da Igreja é de US$ 300 milhões. Nos Estados Unidos, a Universidade de Notre Dame – que é a maior universidade católica do país – tem um orçamento operativo de mais de US$ 1 bilhão. Isto é, pode financiar o Vaticano três vezes. O patrimônio do Vaticano – quase US$ 800 milhões – é semelhante ao que é entregue às organizações sem fins lucrativos dos Estados Unidos como doação. Meu ponto é que, se medirmos pelos padrões das organizações sem fins lucrativos, o Vaticano não é particularmente rico. O que acontece é que, diferentemente das organizações sem fins lucrativos – em que o item que absorve mais capital é o pagamento de salários –, no Vaticano, a maioria dos “empregados” são sacerdotes ou freiras que ou não recebem salário ou paga-se-lhes o mínimo. Essa é a forma pela qual o Vaticano pode manter as coisas andando com um orçamento que, no mundo das organizações sem fins lucrativos, seria considerado bastante modesto.


Qual é o departamento encarregado das finanças da Santa Sede?
A Prefeitura dos Assuntos Econômicos.


Como ela funciona?
Um cardeal – Sergio Sebastiani – é o presidente emérito. Ele tem uma junta de consultores. Além disso, existe um conselho de cardeais que assessora a Prefeitura na administração financeira. Esse conselho, por sua vez, tem uma junta de consultores que são profissionais financeiros, especialistas em investimentos etc.


Que perfil tem a pessoa que chega a esse cargo?
O Papa o nomeia. Quase sempre é um bispo italiano veterano que tem reputação de saber lidar com o dinheiro. Informalmente, se subentende que deve ser italiano porque há muita interação com o sistema bancário desse país.


Como você descreveria a atual gestão?
São imensamente conservadores. Fazem investimentos de muito baixo risco. Sei que, muitas vezes, foi frustrante para os cardeais que proveem especialmente dos Estados Unidos e da Europa, porque a Santa Sé demora em adotar algumas das práticas básicas para a administração e investimentos que são usadas em outras partes do mundo. Eles publicam um balanço financeiro anual. Mas não é divulgado. Não há uma auditoria independente das finanças. Ao longo dos anos, muitos cardeais queixaram-se privadamente comigo de que obteriam melhores retornos de investimento se pudessem atrair pessoas externas que tomassem decisões responsáveis, mas ligeiramente mais audazes.


O problema passa pela modernização, então.
É preciso entender que isso é o Vaticano. O problema de fundo, acredito, é que se trata de uma instituição cuja aproximação ao dinheiro é pré-moderna.


Em que sentido pré-moderna?
Anterior às práticas modernas de contabilidade. Que não se sente cômoda com estratégias de investimento do século XXI. Estamos falando de uma aproximação ao dinheiro que se formou na Alta Idade Média. No entanto, estão lidando com católicos de todo o mundo, que têm sim altas expectativas enquanto a transparência, gestão e responsabilidade
Retirado do Blog do Professor Felipe Aquino: http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2010/01/06/%E2%80%9Co-vaticano-nao-e-rico%E2%80%9D/

Igreja: As riquezas do Vaticano

(Revista Pergunte e Responderemos PR 302/1987)


A propósito das famosas riquezas do Vaticano, o jornal O GLOBO, em sua edição de 16/04/87, p. 16, publicou as seguintes notícias muito esclarecedoras:

"PATRIMÔNIO DO VATICANO É DE US$ 561 MILHÕES"

CIDADE DO VATICANO - Em entrevista ao jornal especializado em assuntos econômicos `II Sole 24 Ore`, o Cardeal Giuseppe Caprio, Prefeito para assuntos Econômicos do Vaticano (cargo equivalente ao de Ministro do Tesouro), revelou que o patrimônio total da Santa Sé, incluídos os imóveis e investimentos em ações, é de 561 milhões de dólares.

Ele esclareceu, no entanto, que mais da metade desse capital não só não produz renda, como dá prejuízos, tal como ocorre com as escolas e hospitais mantidos pela Santa Sé em Roma. Assim sendo, acrescentou, o patrimônio produtivo não ultrapassa os 269 milhões de dólares.

A entrevista foi dada a propósito do envio, no mês passado, de uma carta do conselho cardinalício encarregado de estudar os problemas financeiros do Vaticano, aos três mil bispos católicos de todo o mundo. Estes foram instados a sensibilizar os cerca de 800 milhões de católicos do planeta para a necessidade urgente de destinarem maiores quantias ao Óbolo de São Pedro, a coleta feita anualmente a 29 de junho, destinada especificamente à Santa Sé.

Dom Giuseppe Caprio classificou de fantasias as constantes afirmações sobre supostas riquezas do Vaticano, dizendo que, além desses exageros, os cálculos são feitos sobre uma base falsa, pois neles estão incluídos os tesouros artísticos. As pessoas que dizem isso - explicou - não levam em conta o fato de que tais tesouros são inalienáveis, e além do mais improdutivos, obrigando o Vaticano a gastar altas somas com sua guarda e conservação.

GRANDES TESOUROS ESTÃO À VISTA DE TODOS

Inalienáveis bens da Humanidade

Os maiores tesouros artísticos do Vaticano não estão escondidos, com muitas pessoas supõem, mas à vista de todos, na própria Basílica de São Pedro, como a `Pietá`, ou na Capela Sistina, onde estão os famosos afrescos, criações, nos dois casos, de Michelangelo. Outras peças de valor impossível de ser sequer estimado são a ` Transfiguração`, de Rafael, ou o `São Jerônimo`, de Leonardo da Vinci.

Embora o patrimônio artístico e arqueológico dos museus do Vaticano possa ser comparado ao do Museu Britânico, ao do Metropolitan, de Nova York, e ao do Ermitage, de Leningrado, esse acervo, por disposição da própria Santa Sé, que o considera patrimônio de toda a humanidade, é inalienável.

Outros grandes tesouros, que igualmente jamais passarão para outras mãos, só podem ser vistos, contudo, por poucos religiosos e por um número ainda menor de leigos escolhidos. São documentos, pergaminhos, miniaturas, Bulas papais e outros testemunhos de toda a história do Cristianismo até nossos dias. Compreensivelmente, eles estão encerrados a seis metros abaixo do solo, em um aposento de 700 metros quadrados, especialmente construído com espessas paredes de cimento armado revestido de chumbo, à prova de ataques atômicos. Em outro `bunker` com as mesmas características, igualmente no subsolo, estão encerradas relíquias como manuscritos de São Pedro, Bíblias milenares escritas a pena por monges, uma edição da `Divina Comédia` com ilustrações originais de Botticelli, as atas do Concílio de Trento e centenas de preciosidades do mesmo nível`.

Até aqui a notícia de jornal. Clara como é, possa contribuir para dissipar falsas concepções, freqüentemente expressas às cegas, numa dolorosa repetição de `chavões`!

A propósito faz-se oportuno lembrar alguns dados já referidos em PR 292/1986, p. 401:

1) As finanças do Vaticano estão passando por momentos difíceis, pois a Igreja tem desenvolvido e multiplicado seus serviços após o Concílio do Vaticano II, a ponto de sentir sério problema econômico. Assim pensemos na ajuda que a Santa Sé envia a todos os países de missão na África, na Ásia, na América; pensemos também nas muitas Comissões que se criaram em Roma nos últimos tempos para atender ao diálogo com os cristãos separados, com as religiões não cristãs, com os ateus, com os homens de cultura...; existem Comissões de Justiça e Paz, para o Apostolado dos Leigos, o Pontifício Conselho Cor Unum... Estas Comissões são internacionais, de modo que acarretam despesas de viagens, publicações, pesquisas, etc. Isto explica o aumento de gastos, sem que haja receita regular correspondente.

2) O patrimônio territorial que a Igreja possui (Cidade do Vaticano com museus, pinacotecas, basílicas...) resulta de doações que foram sendo feitas à Santa Sé desde o século IV. Na Idade Antiga e na Idade Média muitos cristãos, ao morrer ou ao entrar no Mosteiro, doavam suas terras ao bispo de Roma (= o Papa). Em conseqüência, foi-se formando em torno da cidade de Roma o chamado `Patrimônio de São Pedro`; o Papa, sem ser Chefe de Estado, garantia a boa ordem e a paz em favor dos habitantes daquelas terras, enquanto em outras regiões havia desordens e guerras causadas pelas invasões dos bárbaros (vândalos, godos, lombardos...). Finalmente em 756 Pepino o Breve da França reconheceu oficialmente o Estado Pontifício, que se formara a partir do amor dos fiéis ao Papa, em conseqüência da tutela amiga que o Pontífice exercia em prol das populações vizinhas. Foi assim que surgiu o Estado Pontifício. Em 1870 este caiu, quando a Itália (que era um conjunto de pequenos Estados independentes) foi unificada. Em 1929 foi restaurado o Estado Pontifício como o menor de todos os Estados existentes (+ 0,44km²); os Papas não renunciaram a este minúsculo território porque lhes garante autonomia para exercer a sua missão pastoral, que atinge os fiéis do mundo inteiro. Que poderia fazer o Papa se estivesse sujeito ao controle de comunicações telefônicas, telegráficas e outras por parte do Governo da Itália? Por conseguinte, o Estado Pontifício hoje é uma herança legítima do passado, reduzido ao mínimo e destinado a servir à missão da Igreja.

O que está nos museus do Vaticano (quadros de Michelangelo, Rafael, Leonardo da Vinci, monumentos do Egito...) resulta do incentivo que os Papas sempre deram às artes, ou provém de doações. São um bem comum de toda a humanidade.

3) O cerimonial que cerca por vezes o Santo Padre, é legado de épocas distantes; teve sua plena razão de ser outrora, quando os costumes o exigiam; hoje em dia está sendo mais e mais simplificado; vemos o Papa tomando crianças nos braços, visitando hospitais, prisões, favelas, etc. - A Igreja, porém, julga que, para o culto divino (celebração da S. Missa, por exemplo), se deve sempre utilizar o que haja de melhor; não se trata de usar alfaias ricas, mas objetos dignos e capazes de exprimir eloqüentemente a fé e o amor dos cristãos a Deus.

4) Aqui no Brasil há dioceses que possuem terras, resultantes de doações feitas aos Bispos na época colonial; essas propriedades ajudam a exercer a missão da Igreja, que exige publicações, meios de comunicação social, escolas, templos, etc. Mas também (são a maioria) há dioceses muito pobres, que precisam de recursos de outras dioceses e organizações para poder desenvolver a sua atividade pastoral. Sabemos como é difícil a vida de um Bispo ou de um sacerdote em muitas regiões do Brasil e da América Latina.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sacerdotes: pedofilia

Segue carta do padre salesiano uruguaio Martín Lasarte, que trabalha em Angola e endereçada ao jornal norte-americano The New York Times. Nela expressa seus sentimentos diante da onda midiática despertada pelos abusos sexuais de alguns sacerdotes e surpreende-se com o desinteresse que o trabalho de milhares religiosos suscita nos meios de comunicação.
 
Querido irmão e irmã jornalista: sou um simples sacerdote católico. Sinto-me orgulhoso e feliz com a minha vocação. Há vinte anos vivo em Angola como missionário. Sinto grande dor pelo profundo mal que pessoas, que deveriam ser sinais do amor de Deus, sejam um punhal na vida de inocentes. Não há palavras que justifiquem estes atos. Não há dúvida de que a Igreja só pode estar do lado dos mais frágeis, dos mais indefesos. Portanto, todas as medidas que sejam tomadas para a proteção e prevenção da dignidade das crianças será sempre uma prioridade absoluta.
Vejo em muitos meios de informação, sobretudo em vosso jornal, a ampliação do tema de forma excitante, investigando detalhadamente a vida de algum sacerdote pedófilo. Assim aparece um de uma cidade dos Estados Unidos, da década de 70, outro na Austrália dos anos 80 e assim por diante, outros casos mais recentes...

Certamente, tudo condenável! Algumas matérias jornalísticas são ponderadas e equilibradas, outras exageradas, cheias de preconceitos e até ódio.

É curiosa a pouca notícia e desinteresse por milhares de sacerdotes que consomem a sua vida no serviço de milhões de crianças, de adolescentes e dos mais desfavorecidos pelos quatro cantos do mundo!

Penso que ao vosso meio de informação não interessa que eu precisei transportar, por caminhos minados, em 2002, muitas crianças desnutridas de Cangumbe a Lwena (Angola), pois nem o governo se dispunha a isso e as ONGs não estavam autorizadas; que tive que enterrar dezenas de pequenos mortos entre os deslocados de guerra e os que retornaram; que tenhamos salvo a vida de milhares de pessoas no Moxico com apenas um único posto médico em 90.000 km2, assim como com a distribuição de alimentos e sementes; que tenhamos dado a oportunidade de educação nestes 10 anos e escolas para mais de 110.000 crianças...

Não é do interesse que, com outros sacerdotes, tivemos que socorrer a crise humanitária de cerca de 15.000 pessoas nos aquartelamentos da guerrilha, depois de sua rendição, porque os alimentos do Governo e da ONU não estavam chegando ao seu destino.

Não é notícia que um sacerdote de 75 anos, o padre Roberto, percorra, à noite, a cidade de Luanda curando os meninos de rua, levando-os a uma casa de acolhida, para que se desintoxiquem da gasolina, que alfabetize centenas de presos; que outros sacerdotes, como o padre Stefano, tenham casas de passagem para os menores que sofrem maus tratos e até violências e que procuram um refúgio.

Tampouco que Frei Maiato com seus 80 anos, passe casa por casa confortando os doentes e desesperados.
Não é notícia que mais de 60.000 dos 400.000 sacerdotes e religiosos tenham deixado sua terra natal e sua família para servir os seus irmãos em um leprosário, em hospitais, campos de refugiados, orfanatos para crianças acusadas de feiticeiros ou órfãos de pais que morreram de Aids, em escolas para os mais pobres, em centros de formação profissional, em centros de atenção a soropositivos... ou, sobretudo, em paróquias e missões dando motivações às pessoas para viver e amar.

Não é notícia que meu amigo, o padre Marcos Aurelio, por salvar jovens durante a guerra de Angola, os tenha transportado de Kalulo a Dondo, e ao voltar à sua missão tenha sido metralhado no caminho; que o irmãoFrancisco, com cinco senhoras catequistas, tenham morrido em um acidente na estrada quando iam prestar ajuda nas áreas rurais mais recônditas; que dezenas de missionários em Angola tenham morrido de uma simples malária por falta de atendimento médico; que outros tenham saltado pelos ares por causa de uma mina, ao visitarem o seu pessoal. No cemitério de Kalulo estão os túmulos dos primeiros sacerdotes que chegaram à região... Nenhum passa dos 40 anos.

Não é notícia acompanhar a vida de um Sacerdote “normal” em seu dia a dia, em suas dificuldades e alegrias consumindo sem barulho a sua vida a favor da comunidade que serve. A verdade é que não procuramos ser notícia, mas simplesmente levar a Boa-Notícia, essa notícia que sem estardalhaço começou na noite da Páscoa. Uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que cresce.
Não pretendo fazer uma apologia da Igreja e dos sacerdotes. O sacerdote não é nem um herói nem um neurótico. É um homem simples, que com sua humanidade busca seguir Jesus e servir os seus irmãos. Há misérias, pobrezas e fragilidades como em cada ser humano; e também beleza e bondade como em cada criatura...
Insistir de forma obsessiva e perseguidora em um tema perdendo a visão de conjunto cria verdadeiramente caricaturas ofensivas do sacerdócio católico na qual me sinto ofendido.

Só lhe peço, amigo jornalista, que busque a Verdade, inclusive falando do Bem e Beleza. Isso o fará nobre em sua profissão.
 

Em Cristo,

Pe. Martín Lasarte, SDB.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Vocação: que se entende por vocação?

(Revista Pergunte e Respondremos, PR 025/1960)


«Que se entende propriamente por vocação? E quais os critérios distintivos de uma vocação?»


«Vocação» é termo que ocorre tanto na linguagem do psicó­logo como na do teólogo. Por isto a nossa resposta explanará primeiramente a vocação em geral, para depois deter-se em aspectos da vocação religiosa ou sacerdotal em particular.


«Vocação» é termo que ocorre tanto na linguagem do psicó­logo como na do teólogo. Por isto a nossa resposta explanará primeiramente a vocação em geral, para depois deter-se em aspectos da vocação religiosa ou sacerdotal em particular.


1. Vocação em geral


1. Por «vocação» entende o psicólogo a inclinação inata da criatura humana para determinada profissão, carreira ou estado de vida: diz-se, com efeito, que alguém tem «vocação de educador, artista, advogado...».


Já este modo de falar cotidiano exprime uma verdade profunda. Assim como todo chamamento supõe uma perso­nalidade que emita esse chamado, assim a vocação do homem para determinado estado de vida supõe uma personalidade que a profira; ora tal personalidade só pode ser o Autor do homem, Deus. A vocação, portanto, vem a ser o eco de Deus a ressoar dentro da alma humana. Está claro que o Senhor, tendo criado todos os homens, assinalou a cada um, desde toda a eternidade, uma tarefa própria a desempenhar no con­junto do universo. E quis que a essa tarefa correspondesse uma inclinação espontânea no homem, para que, assim como o Senhor tudo fez por amor, assim também o homem realize com amor o que ele deve realizar.


A estas considerações acrescenta agora o teólogo: o ser humano não tem apenas um destino natural. Foi elevado à ordem sobrenatural, isto é, chamado pelo Criador para par­ticipar (além de qualquer exigência de sua natureza) da filia­ção divina, o que implica «ver a Deus face a face na eterni­dade». É, portanto, neste plano sobrenatural que o conceito de vocação toma seu sentido pleno. A vocação por excelência vem a ser o chamado misterioso pelo qual Deus se digna atrair o homem à intimidade consigo como a seu Último Fim.


Este chamado geral toma seus aspectos ou modalidades concretas aqui na terra: há a vocação sacerdotal, a vocação religiosa, a vocação conjugal (o matrimônio é, sim, uma ta­refa santa e sobrenatural), modalidades que todas, em última análise, convergem para a união consumada da criatura com o Criador ou, em outros termos, para a santidade. A cada uma dessas vocações o Senhor anexou os auxílios necessários ao bom desempenho da mesma e à santificação do indivíduo. É somente na sua vocação própria que a pessoa humana en­contra as graças divinas de que precisa para chegar à con­sumação: fora da sua vocação, o homem perde tempo e es­forços; vão, pois, seria tentar tarefa que o Senhor não tivesse assinalado, por mais sedutora que fosse tal incumbência.


Destas breves noções depreende-se quão importante é, para cada pessoa, desde os anos de sua juventude tomar conhecimento exato da própria vocação e seguir a esta com fidelidade, sem perder passos fora da via: «A coisa mais importante de toda a vida é a escolha da respectiva ocupação», dizia o filósofo francês Pascal (Pensées, ed Havet III 4); idéia esta que a sabedoria grega, a seu modo próprio, assim formulava: «O começo é mais importante do que metade da caminhada».


2. A este propósito convém notar que o Senhor Deus pode chamar uma criatura humana a percorrer sucessivamente caminhos diversos, até mesmo contrários. Em tais casos, é preciso frisar que Deus não muda seu desígnio a respeito de tal homem; a variedade está incluída desde toda a eternidade no único propósito divino; embora não entendamos porque a Vontade de Deus se manifeste tão variegada no currículo de vida da mesma criatura, não duvidamos de que a linha sinuosa da caminhada é certeira, tendendo ao único objetivo de toda e qualquer vocação, isto é, à união da criatura com o Criador. Suposta uma vocação dessas, a Providência reserva graças especiais para cada uma das etapas da sua criatura, a fim de que esta realize a unidade na multiplicidade, isto é, venha a ser santa, sim, por vias variegadas.


À guisa de exemplos, vão aqui propostos alguns casos (inspirados pela experiência real) de vocação multiforme e una:


Admita-se um jovem seminarista cuja vocação não causa a mínima dúvida aos Superiores; feito diácono, prepara-se para a ordenação sacerdotal. Acontece, porém, que oito dias antes desta cai de tal modo doente que nunca poderá receber o sacerdócio, e os Superiores terão que dar ao seu caso solução de todo imprevista (será reduzido ao estado laical ou esperará por toda a vida o dia da restauração de sua saúde); não obstante, deverá tender sempre à santidade e poderá contar com o auxílio de Deus para isto. Outro exemplo seja o do esposo cristão que, ao voltar da guerra, encontra seu lar irremediavelmente dissolvido, porque a esposa infiel o abandonou; embora casado, tal varão terá que viver conti­nente, enquanto a esposa permanecer em vida... Deus o terá chamado a realizar simultaneamente algo da vida conjugal e algo da vida celibatária. destinando-o, porém, a um só objetivo, isto é, a ser santo.


Dentro deste quadro de idéias, merecem especial atenção casos como o seguinte: uma jovem donzela, aos 18 anos de idade, rejeita categoricamente a hipótese de se consagrar a Deus pelos votos religiosos de pobreza, obediência e castidade; casa-se, e tem filhos felizes, mas, embora se dê muito bem com todos os seus, sente-se continuamente perturbada; parece-lhe que o seu quadro de Vida está radicalmente viciado por não estar ela seguindo a vocação religiosa.


- Será que tal senhora não tem realmente razão para recear estar caminhando fora da via? - Não; mesmo na hipótese de que o Senhor Deus lhe assinalasse a entrada na vida religiosa regular quando ela tinha 18 anos de idade e de que ela tenha pecado rejei­tando tal convite, mesmo em tal hipótese, no momento atual a Vontade de Deus estaria certamente mandando que ela vivesse como esposa e mãe, cumprindo sua tarefa não em tristeza, escrúpulos e remorsos, mas na alegria de servir a Deus com amor e confiança. Ainda que essa pessoa tivesse pecado seriamente aos 18 anos, tal pecado, uma vez devidamente acusado e perdoado pelo sacramento da Penitência, não deveria mais absorver a sua atenção, pois isto seria, da parte dela, derrogar à virtude da esperança. O Senhor, permitindo que ela entrasse no estado conjugal pela via acima enunciada, certamente lhe assinalou as graças necessárias para se santificar na vida matrimonial. Essa vida matrimonial, portanto, ela a pode seguir com paz de ânimo e alegria, desde que esteja arrependida de seus pecados.


3. E quais seriam os critérios pelos quais alguém há de reconhecer a sua genuína vocação?


Sem focalizar especialmente o estado religioso ou sacerdotal, deve-se dizer que cada qual pode começar a perceber a sua vocação auscultando as aptidões de sua natureza. Sim, conforme dissemos, a vocação pode ser comparada ao atra­tivo e deleite que o artista experimenta no exercício da sua arte; assim como Deus, o Supremo Artífice, tudo realizou e realiza com amor, assim também quis Ele que o homem de­sempenhe com amor espontâneo a sua missão neste mundo. Donde se vê quão pouco acertada seria a tese, professada por um ou outro autor, segundo a qual é preciso em tudo contra­riar a natureza, mormente no tocante à escolha da vocação. Não; Deus, chamando o homem para a tarefa predominante de sua vida, certamente não entende sufocar as aspirações próprias que Ele mesmo, ao criar, infundiu em cada perso­nalidade humana.


Donde se vê que a vocação do médico está, em boa parte, baseada na capacidade de «compadecer-se» (sem moleza, mas com energia) do próximo; a vocação do advogado pressupõe apurado senso de imparcialidade e justiça, em oposição a todo sentimentalismo exagerado; a vocação do engenheiro depende do acume matemático do indivíduo, etc. — Quanto à vocação religiosa e à sacerdotal. delas falaremos explicitamente mais abaixo.


Está claro que qualquer vocação profana está, em última análise, subordinada à vocação religiosa, isto é, ao chamado à santificação que Deus dirige a todas as criaturas. É para ser santo, segundo as suas notas pessoais, que tal homem é chamado à missão de escritor, tal outro a exercer a medicina, um terceiro à tarefa de educador, etc. Repitamo-lo: há uma vocação comum, para a qual as demais convergem — a voca­ção à santidade.


2. Vocação sacerdotal e vocação religiosa


O assunto se torna mais delicado e as responsabilidades maiores, quando se trata das duas vocações que visam servir a Deus num estado especialmente consagrado ao Senhor: a vocação sacerdotal e a vocação religiosa.


Por «vocação sacerdotal» entende-se o chamado ao ministério do culto e da cura de almas, no Corpo Místico de Cristo; é ofi­cialmente conferido pelo sacramento da Ordem, destinado aos varões apenas (cf. «P. R.» 1/1957, qu. 4). «Vocação religiosa» vem a ser o apelo a uma vida norteada pelos conselhos evangélicos (pobreza, obediência e castidade) sob uma Regra aprovada pela Igreja. Como se entende, as duas vocações são separáveis uma da outra.


Uma das questões que primeiramente afloram ao espírito do estudioso deste assunto, é a seguinte: como discernir a vocação sacer­dotal e a vocação religiosa?


Por serem as mais importantes e específicas de todas, as duas vocações vêm marcadas por sinais assaz característicos, dos quais procuraremos recensear os principais.


1. Critérios naturais. Compreende-se que o fundamento normal de uma vocação sacerdotal ou religiosa seja uma na­tureza humana sadia, um equilíbrio físico e psíquico tal que possa satisfazer às imperiosas exigências do estado de con­sagração a Deus. Quem não possui os pré-requisitos de saúde para tanto, pode crer (à exceção de casos extraordinários) que também não possui a vocação sacerdotal ou religiosa.


Neste conjunto de idéias, merecem especial menção as análises e os testes psicológicos. Não há dúvida, são de valor para se discernir uma vocação sobrenatural, pois a graça supõe a natureza, como a germinação de uma semente supõe a receptividade do terreno. É mister, porém, advertir que as testes psicológicos por si não fornecem a última palavra no discernimento de uma vocação sacerdotal ou religiosa. Em outros termos: não é ao psicólogo, nem ao médico. que compete proferir a sentença definitiva sobre uma presumida vocação dessas; tal sentença toca a quem se serve dos critérios sobrenaturais, estritamente religiosos, isto é, geralmente ao sacerdote diretor de consciências ou ao bispo (no caso das ordenações sacerdotais) e ao Mestre ou à Mestra de noviços e noviças (ao se tratar de uma vocação religiosa).


Muito a propósito observava o Santo Padre Pio XI :


«Eis algo de mais grave ainda: a pretensão falsa, desrespeitosa tanto quanto vã, de querer submeter a pesquisas, experiências e julgamentos de ordem natural e profana fatos de índole sobrenatural referentes à educação, como, por exemplo, a vocação sacerdotal ou religiosa e em geral todas as atividades misteriosas da graça.


Esses fatos, embora elevem as forças da natureza, elevam-nas infinitamente e não podem de modo algum ser submetidas às leis físicas, pois o Espírito sopra onde quer (enc. «Divini illius Magistri»). Por conseguinte, depois de se considerar a psicologia do candidato, será forçoso levar em conta critérios sobrenaturais, dos quais uns são positivos, os outros negativos.


2. Critérios sobrenaturais positivos. Seguindo S. Inácio de Loiola, os autores costumam discriminar três modalidades pelas quais Deus pode comunicar a uma alma o chamado ao sacerdócio ou à vida religiosa:


a) iluminação repentina do espírito, a qual, por sua evi­dência, se impõe, provocando imediatamente a aquiescência do discípulo. Foi o que se deu com S. Paulo prostrado pelo Senhor na estrada de Damasco,... com S. Agostinho, inter­pelado por uma voz misteriosa no jardim de Cassicíaco, e com outros justos. Os cristãos, porém, sabem que os sinais extraor­dinários são raros nos desígnios da Providência; ninguém, por conseguinte, pretenderá obter tais indícios da vontade de Deus para discernir sua vocação, pois o Senhor não está obri­gado a concedê-los, nem os costuma outorgar;


b) atrativos vivos e contínuos. Consistem em estima especial das coisas de Deus, estima que fomenta o cultivo da vida interior, o prazer de rezar, o amor ao culto sagrado, ao canto religioso, à ornamentação da casa de Deus, o repúdio ao pecado. Estas notas devem ser particularmente acentuadas nas almas que têm vocação sacerdotal ou religiosa;


c) discernimento da razão. É o que S. Inácio de Loiola assim explica:


«O terceiro tempo (conjunto de sinais) é tranqüilo. O homem, considerando primeiramente por que foi criado (louvar a Deus Nosso Senhor e salvar a sua alma), é movido pelo desejo de obter este fim; escolhe então, qual meio apto, um estado ou gênero de vida entre os que a Igreja autoriza, para melhor labutar no serviço do seu Salvador e na salvação de sua alma. Chamo tempo tranqüilo aquele em que a alma não é agitada por espíritos diversos e faz uso de suas faculdades naturais, livre e tranqüilamente».


Ensinam os mestres de espiritualidade que Deus pode chamar alguém a se Lhe consagrar, pelo fato de lhe dar uma compreensão luminosa do que é a vida consagrada (sacerdotal ou religiosa), sem lhe conceder, ao mesmo tempo, particular atrativo sensível para isso (atrativo que não coincide com os que mencionávamos sob a letra b acima); a fé, iluminando a razão, faz que esta reconheça a grandeza do estado sacerdotal ou religioso; em conseqüência, a vontade passa a estimar esse estado e a querer abraçá-lo, sem que nisto a pessoa experimente algum deleite sensível; o atrativo natural em tais almas é suprido pela fé pura e pelo desejo de devotamento e modalidade de vocação é geralmente maior que o das outras. Essa pura visão sobrenatural acompanhada de uma vontade firme e perse­verante de dar tudo ao Senhor, independentemente da compensação sensível que tal doação possa acarretar para o sujeito respectivo, é ótimo indício de vocação. A experiência, porém, ensina que Deus, cuja sabedoria tudo dispõe com força e suavidade, não costuma subtrair o deleite sensível àqueles que Ele escolhe.


Uma vez apurados os diversos indícios de vocação, o juízo decisivo cabe geralmente, em cada caso, ao Diretor espiritual.


3. Critérios sobrenaturais negativos. Aparentes critérios positivos de vocação podem ser sobrepujados por evidentes critérios negativos. Estes se prendem geralmente a falhas mo­rais e temperamentais dos candidatos.


A vida sacerdotal e a vida religiosa têm índole, em certo grau, comunitária; requerem sujeição e maleabilidade. Por isto qualquer vocação de tal tipo supõe no candidato largueza de espírito, capacidade de suportar e de se adaptar, qualidades sem as quais se torna irrealizável a vocação.


Especificando, os autores recomendam que se leve em conta particular


a) um temperamento insaciável: há pessoas que, por suas ati­tudes espontâneas, envenenam o ambiente em que se encontram; irritadiças, tendem a interpretar para o mal tudo que o que se lhes diz e faz, de modo que não conseguem viver sem se desentender com os outros; atribuem ao próximo as suas intenções maliciosas e o


criticam levianamente;


b) um temperamento anárquico ou indócil: trata-se de pessoas que sistematicamente tendem a emitir opinião contrária à dos Supe­riores, chegando a criar partidos e dissidências; dir-se-ia que nasceram para mandar, não para obedecer e fazer como os outros;


c) um temperamento inconstante e impulsivo: são pessoas que não sabem manter seus pareceres, seus planos e resoluções, ficando à mercê do entusiasmo ou do desânimo;


d) um temperamento mundano ou pouco amigo da piedade, sempre inclinado a se deleitar em diversões fúteis e pouco morais.


Desde que tais traços, após adequado período de experiência, se mostrem incorrigíveis ou predominantes, não resta dúvida de que Deus não chamou à vida religiosa ou sacerdotal os candidatos assim marcados, pois evidentemente carecem do substrato imprescindível para poderem perseverar.


Aqui não mencionamos explicitamente as chamadas «irregula­ridades canônicas». Estas vêm a ser defeitos estipulados pelo Direito Eclesiástico em vista do acesso à vida religiosa ou sacerdotal: seriam, entre outros, a falta de idade mínima, o nascimento ilegítimo, obrigações contraídas para com Deus ou alguma entidade (votos, casamento, dividas, cura de almas, arrimo paterno ou materno, etc.); cf. Código de Direito Canônico cân. 542 (para as vocações religiosas); cân. 983-991 (para as vocações sacerdotais). As irregularidades, sendo geralmente dispensáveis pela autoridade eclesiástica competente, não constituem na maioria dos casos indício negativo dirimente para se discernir uma vocação.


4. Questões complementares


Ainda merecem atenção alguns aspectos particulares do tema até aqui explanado.


1. Quem contraria ao chamado de Deus abraçando definitiva­mente um gênero de vida incompatível com tal vocação, não deses­pere da sua salvação eterna, por mais pusilânime ou imprudente que haja sido. Os autores de espiritualidade recomendam que tal pessoa se arrependa sinceramente e procure cumprir fielmente as obrigações do estado de coisas que escolheu definitivamente; viva na graça de Deus, esforçando-se por dar no seu ambiente o testemunho de bom católico. Para realizar esta tarefa e assim salvar a sua alma, não há dúvida de que lhe assistirá o auxílio de Deus; a ninguém será lícito desesperar da salvação eterna, desde que apresente ao Senhor um coração contrito e humilde.


2. A vocação, uma vez comunicada pelo Senhor Deus, pode ser perdida ou tornada nula antes de ser executada. Principalmente ao se tratar de uma vocação sacerdotal ou re­ligiosa, é de crer que o demônio se empenha com todos os requintes de sua astúcia para frustrar o chamamento de Deus; requer-se, por conseguinte, uma conduta geral de vida muito digna e fiel da parte da criatura chamada, a fim de que possa conservar e desenvolver o tesouro da vocação.


Deus nos ensinou a d'Ele não exigir milagres (caso Ele os queira realizar, efetua-os gratuita e imprevistamente); cf. Mt 4,7. Ora exigiria milagre a criatura que expusesse o gérmen de sua vida sobrenatural aos perigos deste mundo (espetáculos licenciosos, leituras mórbidas, companhias de má fama... ) e, apesar disso, pretendesse que Deus nela conservasse o atrativo pelo estado religioso ou sacer­dotal. Tal criatura faria o que a Escritura condena sob o título de «tentar a Deus» (= pedir sem motivo justificado derrogação ao curso normal das coisas).


Com isto não queremos dizer seja ilícito experimentar as vocações, submetendo-as a testes de índole sobrenatural: reconher-se-á tanto aos candidatos como a seus pais e superiores o direito de o fazer. Contudo terão todo o cuidado para não empreender, sob este pre­texto, alguma obra pecaminosa e para não recorrer a provas tais que, conforme as previsões da prudência, sejam aptas a destruir na alma a chama da fé e do amor a Deus.


«Se (os pais) receiam que a vocação (da criança) não passe de impressão fugitiva, submetam-na à prova. Mas, saibam-no bem: submeter à prova não significa sufocar; seria realmente um crime tomar uma criança sob pretexto de melhor conhecer a sua força de vontade, e enviá-la friamente para lugar em que estivesse fatal­mente exposta à perda da inocência e da fé!» (Mons. Lobbedey, bispo de Arras, França : Carta Quaresmal de 1913).


3. Há quem repita quase à guisa de adágio: «A vocação (religiosa ou sacerdotal) tem que nascer espontaneamente nas almas». Capciosa afirmação!


Verdade é que a vocação vem de Deus. Não menos ver­dade, porém, é que o Senhor a quer conceder envolvendo ge­ralmente a colaboração e, em particular, a prece dos homens.


Por conseguinte, as vocações para as grandes tarefas desta vida, principalmente para o estado religioso e o sacerdócio, têm que ser obtidas mediante oração: «Rogai ao Senhor da messe, envie operários para a sua messe» (Mt 11,38). São João Bosco podia em sua época (1815-88) afirmar: «Tenho a experiência dos jovens; uma terça parte deles traz em si o gérmen da vocação».


Se as vocações ao serviço do Senhor escasseiam hoje em dia, não se creia — adverte Pio XI — «que haja menos adolescentes chamados por Deus à vida sacerdotal ou religiosa, mas (creia-se), sim, que muito menos numerosos do que outrora são os que hoje obedecem à moção do sopro divino». A oração, por conseguinte, tenderá a impetrar para esses jovens as graças da correspondência e da felicidade ao chamado divino.


Além da prece, recomenda-se aos educadores católicos o recurso aos meios normalmente aptos para despertar o amor à vida consa­grada a Deus: suscitem nos discípulos, mediante o seu exemplo, as suas palavras e os seus escritos, o zelo pela salvação das almas no mundo inteiro. Principalmente ao sacerdote competirá dar o exemplo de vida sacerdotal perfeita, pois nada é tão apto para despertar nos jovens o desejo de serem padres quanto o conhecimento de um bom sacerdote. Muito se aconselha também a difusão da leitura de biografias de modelares pastores de almas; o exemplo comunica, ao mesmo tempo, idéias para a inteligência e força para a vontade. — Está claro que o uso de tais meios de formação se fará, tomando-se o cuidado de remover qualquer modalidade de violência à índole dos pupilos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sacerdócio: ordenação de mulheres?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 002/1957)

ORDENAÇÃO DE MULHERES?

"Há algum argumento sério e bem fundamentado que proíba à mulher receber o sacramento da Ordem?"

Note primeiramente: não há notícia de que Cristo tenha confiado algum poder sacerdotal a qualquer das santas mu­lheres do Evangelho, nem mesmo à Sua Mãe Santíssima. São Paulo, por seu lado, diz explicitamente:

"Calem-se as mulheres nas assembléias, pois não lhes é lícito tomar a palavra; conservem-se submissas, como a Lei mesma manda. Se se quiserem instruir sobre algum ponto, in­terroguem seus maridos em casa, pois não convém que a mu­lher fale em alguma assembléia" (1 Cor 14,34s; o mencionado texto da Lei é Gên 3.16).

"Durante a instrução, guarde a mulher o silêncio com to­da submissão. Não permito à mulher ensinar nem dar nor­mas aos homens. Conserve-se tranqüila" (1 Tim 2,lis).

Tais proibições excluem naturalmente a participação no ministério sacerdotal.

Os sínodos de Laodicéia (389), Nimes (384), Aquisgrano (789), Paris (829) repetiram sucessivamente não ser lícito con­ferir as ordens sacras às mulheres. A mesma proibição se en­contra ainda hoje no Código de Direito Canônico, cân. 968,1.

A razão de ser de tal determinação é a subordinação na­tural do sexo feminino ao masculino; a mulher foi criada por Deus para ser auxiliar, colaboradora e complemento do varão, não para tomar a dianteira sobre este (excetuam-se os casos em que a própria Providência Divina, direta ou indiretamente, solicitou e solicita a intervenção forte de mulheres, tais como Catarina de Sena e Joana d'Arc). Não somente a Escritura inculca essa ordem de coisas, mas também a Filosofia clássica, cujo testemunho nos é referido por S. Tomaz:

"A mulher não deve possuir alguma jurisdição espiritual, pois, segundo o Filósofo (Aristóteles, Ética VIII 7), há corrup­ção da urbanidade (quebra da reta ordem), quando a mulher chega ao domínio. Por isto é que a mulher não traz as chaves nem da ordem (sacerdotal) nem da jurisdição" (In Sent. 4, d. 19, q. l,a. 1. sol. 3ad4).

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Sacerdócio: ordenação de mulheres?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 002/1957)

ORDENAÇÃO DE MULHERES?

"Há algum argumento sério e bem fundamentado que proíba à mulher receber o sacramento da Ordem?"

Note primeiramente: não há notícia de que Cristo tenha confiado algum poder sacerdotal a qualquer das santas mu­lheres do Evangelho, nem mesmo à Sua Mãe Santíssima. São Paulo, por seu lado, diz explicitamente:

"Calem-se as mulheres nas assembléias, pois não lhes é lícito tomar a palavra; conservem-se submissas, como a Lei mesma manda. Se se quiserem instruir sobre algum ponto, in­terroguem seus maridos em casa, pois não convém que a mu­lher fale em alguma assembléia" (1 Cor 14,34s; o mencionado texto da Lei é Gên 3.16).

"Durante a instrução, guarde a mulher o silêncio com to­da submissão. Não permito à mulher ensinar nem dar nor­mas aos homens. Conserve-se tranqüila" (1 Tim 2,lis).

Tais proibições excluem naturalmente a participação no ministério sacerdotal.

Os sínodos de Laodicéia (389), Nimes (384), Aquisgrano (789), Paris (829) repetiram sucessivamente não ser lícito con­ferir as ordens sacras às mulheres. A mesma proibição se en­contra ainda hoje no Código de Direito Canônico, cân. 968,1.

A razão de ser de tal determinação é a subordinação na­tural do sexo feminino ao masculino; a mulher foi criada por Deus para ser auxiliar, colaboradora e complemento do varão, não para tomar a dianteira sobre este (excetuam-se os casos em que a própria Providência Divina, direta ou indiretamente, solicitou e solicita a intervenção forte de mulheres, tais como Catarina de Sena e Joana d'Arc). Não somente a Escritura inculca essa ordem de coisas, mas também a Filosofia clássica, cujo testemunho nos é referido por S. Tomaz:

"A mulher não deve possuir alguma jurisdição espiritual, pois, segundo o Filósofo (Aristóteles, Ética VIII 7), há corrup­ção da urbanidade (quebra da reta ordem), quando a mulher chega ao domínio. Por isto é que a mulher não traz as chaves nem da ordem (sacerdotal) nem da jurisdição" (In Sent. 4, d. 19, q. l,a. 1. sol. 3ad4).

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Sacerdócio: por que os padres não se casam?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 004/1957)

Será oportuno, antes do mais, reconstituir brevemente o his­tórico da questão.

Na era apostólica. São Paulo recomendava que o bispo fos­se "marido de uma só esposa" (1 Tim 3.3: Tit 1.6). Com isto, certamente não queria afirmar que todo bispo tinha a obrigação de ser casado, pois nesta hipótese contradiria a palavra do Se­nhor, que reconhece e preza "aqueles que se castraram (se conservaram virgens) por causa do reino dos céus" (Mt 19.12): contradiria também a si mesmo, visto que Paulo desejava aos fiéis "fossem todos como ele mesmo era" (1 Cor 7.7), isto é, ce­libatários, a fim de se entregarem sem divisão ao serviço do Se­nhor (cf. 1 Cor 7,32-34). Na verdade, o Apóstolo queria in­culcar que, no século l° da nossa era, quando as comunidades cristãs constavam de muitos adultos e casados recém-convertidos, não se escolhesse para o episcopado algum varão casado em se­gundas núpcias (bígamo em sentido lato); estas, com efeito, eram geralmente desaconselhadas (não, porém, condenadas) pela anti­ga Igreja, por parecerem uma expressão de incontinência.

Houve, pois, nos tempos iniciais do Cristianismo, bispos, sa­cerdotes e diáconos legitimamente casados; nenhuma lei lhes proi­bia o uso do matrimônio.

Mais freqüentes, porém, desde os primórdios eram os clérigos que espontaneamente abraçavam o celibato. A razão disto era o conselho do Senhor que exortava à continência ("quem o pode entender, entenda"; Mt 19,12).

No século 4º esta praxe espontânea começou a ser sanciona­da por leis de concílios regionais que visavam assegurar aos eclesiásticos os benefícios do celibato. Diversas, porém, foram as prescrições promulgadas no Oriente e no Ocidente.

No Oriente a legislação chegou ao seu termo definitivo em 692 (Concílio Trulano II ou Quinissexto); foi então proibido aos sacerdotes, diáconos e subdiáconos contrair matrimônio após re­ceberem a respectiva ordem sacra; caso, porém, um leigo casado desejasse ordenar-se, as núpcias anteriormente contraídas não lhe seriam empecilho, nem se exigiria que, depois de ordenado, dei­xasse de viver maritalmente com a esposa; apenas se lhe pedia que se abstivesse do consórcio conjugal quando estivesse para ce­lebrar as funções do altar (que não eram otidianas); ao sacerdo­te viúvo ficaria vedado casar-se em segundas núpcias. Quanto aos bispos, o Concílio lhes prescrevia continência absoluta, de sorte que, se um futuro bispo estivesse casado, a esposa, depois de sua sagração. deveria recolher-se a um mosteiro distante, ficando o marido obrigado apenas a prover às despesas de sua subsistência. São estas as determinações ainda hoje vigentes entre os cristãos orientais, quer cismáticos (com poucas exceções). quer unidos a Roma; o Direito Canônico não lhes impõe o celibato, que nunca foi obrigatório na tradição oriental. Em vista da cláusula um pouco mais rigorosa imposta aos bispos, estes no Oriente são de preferência nomeados dentre os monges, que por profissão abra­çam a castidade perfeita.

No Ocidente, o primeiro decreto restritivo se deve ao Con­cílio de Elvira (Espanha) reunido por volta do ano de 300; proi­bia aos bispos, sacerdotes e diáconos,sob pena de degradação, o uso do matrimônio e o desejo de ter prole (cân. 33). Esta de­terminação, que a princípio só visava a Espanha, em menos de um século estava em vigor (às vezes sob forma de conselho ape­nas) em todo o Ocidente. A fórmula definitiva de tal disciplina foi promulgada pelo 1º Concílio ecumênico do Latrão em 1123; a todos os clérigos, a partir do subdiaconato, foi prescrito de ma­neira peremptória o celibato; em conseqüência, o matrimônio con­traído por um eclesiástico depois da respectiva ordenação era de­clarado inválido. O Concílio de Trento promulgou de novo tal lei no século 16, época em que os Imperadores Ferdinando I (1556-64) e Maximiliano II (1564-76) da Alemanha exerciam pressão sobre o Papa Pio IV (1559-65) a fim de obterem o ca­samento dos sacerdotes de seu reino, ameaçados pela rebordosa luterana. Sucessivas determinações da autoridade da Igreja têm corroborado frequentemente até nossos dias a obrigação do ce­libato clerical. No início do século 20, violenta campanha se desencadeou contra essa praxe; na Tcheco-Slováquia, por exem­plo, vários sacerdotes, reivindicando o direito de se casar, aderi­ram à Iednota. associação de tendências cismáticas, à qual o Papa Bento XV resistiu energicamente declarando numa alocução consistorial de 16 de dezembro de 1920: "Veneráveis Irmãos, o que várias vezes já afirmamos ocasionalmente, Nós agora o atesta­mos solene e categoricamente: nunca esta Sé Apostólica atenua­rá ou mitigará essa lei profundamente santa e salutar do celibato eclesiástico; muito menos ainda a abolirá" (Acta Apostolicae Sedis XII [1920] 585). Na França, Paul-Louis Couchoud, que se dizia historiador das religiões, chegou a publicar um pseudo-decreto de Leão XIII que abolia a disciplina do celibato para o clero da América Latina; o documento foi formalmente comprovado falso. Mantendo tão rijamente a tradição, a Igreja visa proporcio­nar aos seus ministros absoluta liberdade para se dedicarem ao próximo e desenvolverem frutuoso apostolado.

Eis, porém, que muito chamou a atenção pública uma dis­pensa recém-concedida neste setor por S. S. Santidade o Papa Pio XII. Tratava-se do pastor protestante Rudolf Goethe, des­cendente do poeta Wolfgang Goethe, que, casado e sem filho: se converteu ao catolicismo na idade de 69 anos. Por concessão de Santo Padre, o bispo de Mogúncia, aos 22 de Dezembro de 1951, o ordenou sacerdote, ficando o mesmo autorizado a viver em matrimônio com sua esposa; o néo-sacerdote não seria destina­do ao ministério paroquial, mas ao serviço de chancelaria do bis­pado e à cura espiritual de outros convertidos. No mesmo dia 22 de Dezembro de 1951, o semanário católico inglês Tablet (pg. 470) lembrava que anteriormente já se haviam verificado duas outras or­denações de pastores protestantes casados e convertidos, dos quais um, com a idade de 40 anos, era pai de alguns filhos. No Seminário de Mogúncia, quando o sacerdote Goethe era ordenado, preparava-se para o presbiterado outro ex-pastor casado.

Estes fatos representam, sem dúvida, grande novidade na praxe da Igreja latina, novidade talvez sem precedentes. Há quem, a propósito, aponte o episódio seguinte: numa carta ao rei Filipe II da Espanha (1556-98), datada de 20 de Abril de 1565, o Cardeal Pacheco, Embaixador da Espanha em Roma, referia que seu colega D'Arco, Embaixador de Maximiliano II da Ale­manha, lhe afirmara que os legados do Papa Paulo III na Ale­manha, sob o Imperador Carlos V (1519-56), tinham dispen­sado do celibato dezoito sacerdotes. Como se vê, a noticia é com­plicada e passou por diversos intermediários; julga-se bem provável que o Embaixador D’Arco tenha aludido simplesmente aos poderes concedidos pelo Papa Paulo III aos seus legados em 1548 para reconciliarem sacerdotes casados, com a cláusula de se absterem do ministério sacerdotal.

Está, sem dúvida, no poder da Igreja desligar do celibato os clérigos ocidentais, para que vivam à semelhança dos orientais; trata-se de questão meramente disciplinar, não de lei divina nem de dogma. A razão por que o Santo Padre assim procedeu no caso do pastor Goethe era exposta nos seguintes termos pelo Superior do Seminário de Mogúncia, Monsenhor Reuss:

"Não há dúvida, antigos pastores protestantes, à custa de penosos sacrifícios convertidos ao catolicismo com sua família, são particularmente aptos a servir pela oração e pelo trabalho à magna causa da reunião de todos os cristãos na única Igreja de Jesus Cristo. Ordenados sacerdotes, eles se tornam colaborado­res valiosíssimos na conquista deste grande objetivo da Igreja universal" (texto publicado na revista "Etudes" 272, 6, pg. 255).

O motivo da dispensa era, pois, o apostolado. Com efeito; tem-se delineado na Alemanha protestante de após-guerra uma volta notável de atenção para Roma. O fenômeno se explica por diversos fatores: a perseguição movida pelo nazismo aos cristãos em geral, o deslocamento de populações que passam a viver em "diáspora", as dificuldades que os luteranos encontram para se constituir juridicamente. Em tal situação entende-se que a Igreja Católica lance mão de recursos novos para corresponder às ex­pectativas dos irmãos separados.

Enquanto este ou outro motivo grave o postular, o celibato eclesiástico poderá ser esporadica­mente dispensado. É inegável, porém, o grande interesse que tem a cristandade inteira em se conservar a legislação vigente; os benefícios que ela de fato acarreta, são muito mais ponderosos do que as razões que se possam apresentar em contrário. O sacerdo­te tem que viver como homem de Deus, totalmente devotado aos interesses das almas.

D. Estêvão Bettencourt. – o.s.B.

Religião: todas as religiões são boas?

Revista Pergunte e Responderemos, PR 002/1957)

"Como responder à objeção tão divulgada: Todas as religiões são boas?"

Para responder à questão, devemos observar a seguinte distinção:

1) Qualquer religião é boa, se aquele que a segue está plenamente convicto de que é a verdadeira religião e cumpre os seus preceitos com toda a fidelidade, de acordo com a sua consciência. Assim quem de inteira boa fé e de maneira coeren­te adere ao islamismo, ao budismo ou ao protestantismo, sem jamais conceber dúvida sobre a veracidade de sua crença, pode salvar-se e obter o céu. Contudo, para que isto se dê, re­pitamo-lo, é necessária uma absoluta boa fé por parte do in­divíduo. Esta boa fé poderá ser um fato em regiões onde a educação e a mentalidade do povo estejam unanimemente im­buídas de certa religião (budismo, protestantismo...) sem que haja controvérsia a respeito. A boa fé, em geral, se pode pressupor mais facilmente em gente simples, pouco instruída, do que em pessoas de certa cultura e erudição, conhecedoras da história.

2) Desde, porém, que não haja no adepto de "tal" re­ligião plena certeza de que está de posse da verdade; desde que, por meio de conversas, leituras ou coisa semelhante, lhe sobrevenham dúvidas sobre a autenticidade do credo que professa, é obrigado a indagar a verdade. Se, após as suas pesquisas, chegar à conclusão de que outra é a religião ver­dadeira, estará obrigado a aderir a esta outra. Se, porém, não obtiver resultado claro, deverá seguir o que a consciência lhe disser no momento (Deus, contudo, não se costuma sub­trair a quem o procura sinceramente).

A obrigação de não permanecer em dúvida religiosa é-nos imposta não somente por Deus, mas também pela dignidade humana. Com efeito, todo homem possui uma faculdade — a inteligência — ordenada a apreender a verdade; essa fa­culdade só se dá por satisfeita quando alcança a verdade. Não há quem não sinta a repulsa natural ao erro, à dúvida; se, não obstante, alguém permanece voluntariamente nestes, vio­lenta ou mutila a sua razão, sua dignidade característica. A natureza humana vem a ser, portanto, a primeira a acusar o indivíduo que, por descuido consciente, pactue com a incer­teza, a dúvida, arriscando-se a errar o seu caminho na vida e perder o seu Fim último.

Embora todas as religiões em geral inculquem a prática da caridade e certos preceitos de Moral natural (desdobra­mentos do imperativo "Faze o bem, evita o mal"), cada uma delas se norteia por certo Credo. Ora, para que a Religião seja perfeita, é preciso que ela aponte não só a Moral boa, mas; também o Credo verídico. Deve-se mesmo dizer que a Verdade tem o primado sobre o Amor, a Moral e o Bem; ilumina-o, dirige-o. A Verdade, porém, é uma só (dois e dois só podem dar a soma "quatro"); por conseguinte, só pode haver uma Moral autêntica e só uma religião verdadeira. E a esta é que todos têm de procurar, desde que não possuam a certeza de a pro­fessar.

Em outros termos: o ideal do homem é agir não somente de boa fé (aderindo sinceramente a uma ideologia qualquer), mas também segundo a verdadeira fé (aderindo sinceramente a uma ideologia verídica ou à Verdade). Contentar-se com me­nos do que isto equivale a injuriar a nobreza humana e insul­tar o Autor dessa nobreza, o Criador.

Veja-se a respeito, E. Bettencourt, "A vida que começa com a morte" Rio de Janeiro 1958, c. 8