quinta-feira, 22 de março de 2012

A Certeza


(fonte: Cerrutti, P., A caminho da verdade suprema.)

Noção.

13. A certeza é o ato perfeito da inteligência, no qual ela adere  firmemente  a uma afirmação sem temer que a con­traditória possa ser verdadeira. É "determinatio ad unum" , descanso da inteligência num objeto que aparece como neces­sariamente verdadeiro. Inclui pois:
a) a firmeza da adesão, com exclusão do temor da con­traditória, isto é, com exclusão da possibilidade ou pelo menos da compossibilidade da afirmação oposta;
b) a conexão com a verdade, proveniente de um motivo que nos faz ver a necessidade do objeto, isto é, ver que o objeto é necessariamente o que o julgamos ser, e não pode ser de outro modo: porque enquanto tememos que o objeto possa ser de outro modo, só podemos ter opinião e não firmeza na adesão.
Esta é a verdadeira certeza, genuína, legítima, objetiva.
Se a adesão firme for dada sem motivo suficiente, será certeza aparente, ilegítima, meramente subjetiva, chamada às vezes "opinião imperturbada": esta poderá ser falsa.
Conexão da Certeza com a Verdade.
Que a verdadeira e genuína certeza esteja sempre conexa com a verdade (=não possa ser falsa) é evidente:
1) O estado perfeito e a perfeita atuação e determinação de uma potência ou faculdade só podem ser causados pela posse do bem próprio desta potência ou faculdade, isto é, do seu objeto, pois para ele tende por sua própria natureza e dele recebe a sua especificação: assim, por ex. a faculdade da visão em relação à superfície colorida. — Ora para a inteligência, faculdade cognitiva, visiva e necessária, o bem próprio e o objeto ao qual tende é a ver­dade percebida com evidência; e o seu estado perfeito, a sua perfeita atuação e determinação, é, por definição mesma, o estado de certeza, o conhecimento certo. — Logo, no estado de certeza, no conhecimento certo, só pode a inteligência ser atuada e determina­da pelo seu objeto próprio, a verdade percebida com evidência. Don­de o estado de certeza está sempre unido com a verdade: o ato certo não pode ser falso.
2) Em outras palavras: Como veremos (n.° 20), é a evidência objetiva, isto é, a manifestação do objeto feita à inteli­gência e conhecida por ela, que constitui a condição suficiente e necessária para determinar a inteligência a dar uma adesão firme e ter certeza. — Ora a evidência objetiva, por sua própria natu­reza, está indissoluvelmente unida com a verdade, pois evidência objetiva = manifestação do objeto feita à inteligência = percepção pela inteligência da conformidade da sua afirmação com o objeto = percepção da verdade. Por isso é, precisamente, que a evidência é o critério infalível da verdade. — Logo a certeza, proveniente sempre de alguma evidência, não pode estar unida com o erro.
3) Não pode a adesão firme à verdade ter as mesmas ca­racterísticas e constituir o mesmo estado da mente que a adesão ao erro, por firme que pareça esta adesão: se com a mesma fir­meza e atuação perfeita (= com o mesmo estado psicológico) ade­risse a inteligência tanto ao erro como à verdade, impossível seria
distinguir com segurança a certeza genuína da certeza puramente aparente, a verdade do erro; daí o Ceticismo universal, que veremos ser absurdo.
De fato, com atenção e reflexão, pode a consciência perce­ber a diferença: na certeza genuína, percebe e atesta que vê real­mente a conformidade entre o que afirma do objeto e o que ele é, vê estar sendo determinada pelo objeto que se manifesta a ela; na certeza aparente, pelo contrário, percebe e atesta que não vê esta conformidade, que não se dá esta determinação e manifestação do objeto (n.° 21).
A Certeza é pois a firmeza da adesão da inteligência, ao seu objeto, a verdade, sem temor de estar errando.

Graus intensivos de certeza.

14. A certeza, que é uma qualidade do ato da Inteligência, deve sempre excluir a dúvida, mas a firmeza da adesão pode admitir graus intensivos proporcionados: ao grau de inteli­gência de cada um, às faculdades mais ou menos bem dispos­tas, aos hábitos adquiridos, à maior ou menor evidência dos motivos; — também ao grau de inteligibilidade do objeto, pro­veniente da sua maior ou menor entidade e mutabilidade. Por isso não se deve exigir no conhecimento dos vários objetos a mesma espécie de certeza.

Várias espécies de Certeza.

15. Como a certeza supõe alguma necessidade no objeto, e a firmeza da adesão é causada por esta necessidade e lhe é proporcionada, além dos graus intensivos podemos ter certezas essencialmente diferentes segundo as várias neces­sidades do objeto essencialmente diferentes.
Com efeito, esta necessidade consiste na conexão que no juízo certo existe entre o sujeito e o predicado que se afirma. dele. — Ora esta conexão pode ser proveniente;
1) da essência mesma das coisas consideradas em s i - m e s m a s: isto acontece quando o predicado faz parte da essência do sujeito ou é uma propriedade necessariamente re­sultante desta essência. Ex., o homem é racional, o homem é capaz de progresso, o todo é maior do que uma das suas par­tes, etc... De um modo geral gozam desta certeza os primeiros princípios e todas as conclusões analíticas. Esta necessidade é absoluta, sem exceção possível. Gera pois uma certeza absoluta, formal e materialmente  metafísica.
Há também necessidade redutiva à metafísica:
a) quando a conexão provém da constância das leis físicas ou morais, consideradas em si-mesmas e na sua gene­ralidade, Ex.: geralmente falando o fogo queima, os corpos deixados a si mesmos caem, as mães amam seus filhos... porque, embora não se trate da essência mesma dos seres e absolutamente falando estas leis tivessem podido ser diferen­tes, contudo, posta a existência deste universo assim ordenado, é metafisicamente necessário que os seres estejam agindo, em geral, segundo suas propriedades naturais. Donde nesta cons­tância geral não há exceção possível,
b) quando a conexão embora em si condicional, é considerada na suposição de ser verificada a condição. Ex.: este fogo, se a lei física for aplicada, queimará; este fogo, que de fato vejo queimar, queima.
c) quando a conexão embora em si condicional é con­siderada em circunstâncias nas quais se pode demonstrar que repugna metafïsicamente a exceção. Ex.: quando um milagre viesse confirmar um erro: repugna metafisicamente que Deus confirme um erro com um milagre.
2) da constância e uniformidade existente entre as causas naturais e seus efeitos, isto é, entre as leis físicas e a sua aplicação aos casos particulares, em circuns­tâncias em que não há nenhum motivo positivo para suspeitar e temer uma intervenção milagrosa de Deus. Ex.: este fogo queimará, este lápis suspenso na mão, deixado a si mesmo, cairá. Esta necessidade gera a certeza f í si c a.
3) da constância e uniformidade existente entre as leis morais (=. modos naturais de agir do ser inteligente e livre, fundados na natureza e nas tendências do homem) e as suas aplicações aos casos particulares, em circunstâncias em que não há nenhum motivo positivo de temer uma exceção. Ex.: esta mãe ama seus filhos. — Esta necessidade gera certeza moral.
(Na Ética, chama-se também certeza moral, a uma cer­teza "prudencial" e prática, obtida por meio de um princípio reflexo e necessária para agir moralmente, mesmo quando não se pode conseguir a certeza especulativa.)
16. Estas  três  certeza   (metafísica,   física   e  moral)   são essencialmente diferentes, porque a conexão existente entre o sujeito e o predicado, na certeza metafísica, não admite absolu­tamente nenhuma exceção; na certeza física, admite exceção mas só por parte de Deus no milagre; na certeza moral, admite exceção também por parte do homem.        
As certezas física e moral são verdadeiras certezas, pois nelas o temor racional e prudente de uma exceção fica sempre excluído com evidência não metafísica, mas física ou moral, fundada precisamente como dissemos, na constância das leis físicas e morais, cuja exceção não se pode prudentemente temer quando não há motivo positivo para isso. E o temor reconhecido como imprudente e irracional não impede a fir­meza da adesão requerida no juízo certo.
Só haverá realmente certeza, quando for certo que a exceção — em si possível, porque não contraditória — no caso particular considerado não se dará. Acontece isso, de fato, em inúmeros casos da vida quotidiana, em que aderimos com firmeza e sem temor nenhum, porque vemos não existir motivo ou razão suficiente para deixar a lei de ter a sua aplicação. Quem, por ex., duvida que pondo o dedo no fogo queimará? que largando um objeto ele cairá?
Porém o grau desta firmeza é menor na certeza moral do que nas duas outras, e é menor na física do que na meta­física, que é a maior das certezas de ordem natural. — Além disso em cada uma destas três ordens de certeza pode haver graus intensivos, como vimos no n.° 14. — Nenhuma das três certezas pode estar com o falso; mas esta exclusão do falso, fundada na firmeza da adesão que é proporcionada às várias necessidades (metafísica, física ou moral), será também diversa nas três certezas. (10)
(10)   Cfr. morandini, obra cït.,  p. 313-4, e a solução das objeções, pp. 316-319.

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