terça-feira, 22 de maio de 2007

Religião: o mais importante é o amor

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 218/1978)

Em síntese: "O mais importante é o amor" vem a ser uma edição do Novo Testamento sublinhado distribuída pela Liga Bíblica Mundial às escolas oficiais do Estado do Rio de Janeiro. Trata-se, na verdade, não de uma tradução fiel, mas, sim, de uma interpretação e paráfrase do texto bíblico; basta cotejar a "tradução" do Novo Testamento sublinhado com a versão protestante de Ferreira de Almeida ou a tradução católica da Bíblia de Jerusalém para verificar que o novo texto está cheio de inserções e desvios em relação ao original grego. Além disto, o texto do Novo Testa­mento é acompanhado de um roteiro de leitura que vem a ser autêntico instrumento de doutrinação protestante, onde a tese da "sola fides" e uma piedade subjetivista (sem Igreja e sem sacramentos) são insinuadas. Ora não se compreende que tal livro seja divulgado nas escolas oficiais do Estado sem que se diga explicitamente que é obra catequética protes­tante; os responsáveis por tal edição não visaram apenas a fazer aposto­lado bíblico, mas tiveram em mente um plano proselitista.

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Comentário: No segundo semestre de 1977 foi doada às escolas oficiais do Estado do Rio de Janeiro a quantia de um milhão de exemplares de um livro intitulado «O mais importante é o Amor» (doravante abreviadamente: MIA). Na capa de frente lê-se: «Edição ilustrada do Novo Testamento vivo» ou também: «Edição sublinhada do Novo Testamento». Trata-se de uma versão do Novo Testamento baseada nos princípios de tradução da famosa Bíblia em inglês «The Living Bible»; a versão brasileira foi publicada pela Liga Bíblica Mundial em convênio com a Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Logo em suas pri­meiras páginas traz uma carta de apresentação assinada pela Sra. Secretária de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Profa. Myrthes de Luca Wenzel. A seguir, vem uma introdução em que oito perguntas são formuladas,... perguntas cujas respostas são textos do Novo Testamento adrede indicados. Esses textos aparecem no corpo do livro sublinha­dos como sendo textos-chaves. Ei-los: 1Jo 1,8; Rm 2,11-15; Jo 3,16; Rm 3,21s; At 2,38; Mt 16,24s; 1Cor 13,1-13; Jo 11,25s; Lc 9,24s. Tais textos foram selecionados para constituírem um roteiro de doutrinação... Ainda nas páginas preliminares do texto bíblico encontra-se uma série de outras perguntas, para as quais outros textos bíblicos são apontados como res­postas. Somente após tais páginas introdutórias aparece o texto do Novo Testamento a começar pelo Evangelho segundo Mateus.

Pergunta-se: que pensar a respeito de tal edição bíblica?

Eis as observações que se impõem após atenta leitura da obra.

1. Interpretação tendenciosa

1. O texto não é propriamente uma tradução do Novo Testamento (tão fiel quanto uma tradução o pode ser), mas em muitos pontos vem a ser uma interpretação e paráfrase do texto bíblico inspirada pela teologia protestante e ten­dente a «catequizar» o leitor segundo a mensagem do pro­testantismo. Para começar a se convencer disto, é suficiente que o estudioso note a freqüência com que ao pé das pági­nas do livro se encontram as observações «Subentendido» e «Literalmente». Assim citamos à guisa de exemplos:

Subentendido: pp. 1, 2, 3, 4, 8, 9, 10, 11... Isto quer dizer que no texto em pauta se encontram aditamentos que não constam do original grego e que se devem ao intérprete.

Literalmente: pp. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9. .. Isto quer dizer que o texto original, tido como obscuro ou insuficien­temente claro, não foi traduzido como tal, mas interpretado segundo o modo de ver do tradutor.

Chama a atenção também o fato de que, no fim de cada epístola do Novo Testamento, o tradutor acrescentou sempre (exceto em Hb) uma conclusão semelhante à das cartas modernas. Assim veja-se

à p. 317 (Tg); «Afetuosamente... Tiago»

à p. 264' (Ef); «Com estima... Paulo»

à p. 269 (M): «Com estima ... Paulo»

P. S. Saúdem por mim a todos os cristãos daí; os irmãos que estão comigo enviam lembranças tam­bém... »

à p. 287 (lTm): «Com toda a estima... Paulo»

à p. 291 (2Tm); «Adeus, Paulo».

Ora nenhum desses fechos faz parte do texto original (em Fl, o P. S. faz parte do corpo da carta)! Vêm a ser acréscimos subjetivos do tradutor (verdade é que inócuos, do ponto de vista teológico).

2. Examinemos agora de mais perto alguns dos textos parafraseados. Quem os coteja com os originais gregos, toma evidente consciência de que houve manipulação do texto. Abaixo limitar-nos-emos a confrontá-los com a tradução de Ferreira de Almeida (abreviadamente FA), que é geralmente utilizada pelos protestantes e que em suas linhas gerais é fiel aos originais gregos, assim como com a Bíblia de Jeru­salém (BJ).

a) Eis uma das paráfrases mais significativas:

Rm 3,21s (MIA); "Agora, porém, Deus nos mostrou um caminho diferente para o céu - não o fato de sermos 'bonzinhos' e procurarmos guardar suas leis, mas um novo caminho (ainda que não seja tão novo assim, realmente, pois as Escrituras falaram dele há muito tempo). Agora Deus diz que nos aceitará e nos absolverá; Ele nos declarará 'sem culpa' se nós confiarmos em Jesus Cristo para Ele tirar os nossos pecados. E todos nós podemos ser salvos deste mesmo modo, vindo a Cristo, não importa o que somos ou o que temos sido".

Rm 3,21s (FA); "Agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas: justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos / e sobre todos / os que crêem; porque não há distinção".

Rm 3,21s (BJ); "Agora, porém, independentemente da Lei, se mani­festou a justiça de Deus, testemunhada pela Lei e pelos Profetas, justiça de Deus que opera pela fé em Jesus Cristo, em favor de todos os que crêem - pois não há diferença".

Vê-se que o texto de MIA é muito mais longo do que o de Ferreira de Almeida (o qual, por sua vez, enxerta indevi­damente as palavras e sobre todos). Mais: o vocábulo jus­tiça (dikaiosyne), importante na teologia paulina, não apa­rece, mas é interpretado... A palavra fé (pístis) também não ocorre, mas é traduzida por «se nós confiarmos», segundo a teologia protestante, que professa a fé fiducial ou entende a fé como confiança, deixando em segundo plano o conteúdo intelectual da mesma.

b) Outra profissão de fé protestante é a que se encon­tra em

Rm 1,17s (MIA): "Esta Boa Nova nos diz que Deus nos prepara para o céu - e nos faz justos aos olhos de Deus - quando colocamos nossa fé e nossa confiança em Cristo como Salvador. Isto é realizado pela fé, do princípio ao fim. Tal como a Escritura afirma, 'o homem que encontra a vida, vai encontrá-la confiando em Deus' ".

Rm 1,17 (FA); "A justiça de Deus se revela no Evangelho, de fé em fé, como está escrito; O justo viverá por-fé".

Rm 1,17 (BJ); "Nele (no Evangelho) a justiça de Deus se revela da fé para a fé, conforme está escrito; O justo viverá da fé".

Vê-se nitidamente que no texto de MIA há muitos dize­res que não são do original, mas vêm a ser paráfrase sub­jetiva. Quem lê a passagem de MIA, não está lendo o texto bíblico, mas um tendencioso comentário do mesmo.

A palavra grega pístis (fé) é traduzida por confiança também em Jo 3,18; Gl 3,11; Hb 10,38.

c) À confissão de Pedro em Cesaréia, observe-se a res­posta de Jesus:

Mt 16,18s (MIA): "Você é Pedro, uma pedra; e sobre esta Rocha edificarei a minha igreja; e todas as forças do inferno não prevalecerão contra ela. E Eu darei a você as chaves do Reino dos Céus; todas as portas que você fechar na terra terão sido fechadas no céu; e todas as portas que você abrir na terra terão sido abertas no céu!"

Mt 16,18s (FA): "Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre. esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus: o que ligares na terra, terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra, terá sido desligado nos céus".

Mt 16,18s (BJ): "Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus, e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus".

Observe-se que as duas traduções protestantes usam o futuro anterior: «terão sido fechadas... », «terão sido aber­tas... » (MIA), insinuando que Pedro apenas declara ter sido concedido anteriormente o perdão pelo Pai do céu; Pedro não seria o ministro do perdão sacramental. Ora a respeito do uso do futuro anterior em tal passagem já foi publicado um artigo em PR 132/1970, pp. 543-547, onde se evidencia que o modo de traduzir de MIA e FA (protestantes) não leva em conta o sentido exato do particípio perfeito asso­ciado ao futuro em grego. Esta construção não significa necessariamente ação futura anterior a outra ação futura (=futuro anterior), mas, sim (via-de-regra), ação simples­mente futura cujo efeito será duradouro e definitivo. Indica um estado que se verificará no futuro e será permanente. Significa, pois, o ministério que Pedro deverá exercer em nome do próprio Deus.

Além disto, o texto de MIA evita o binômio «ligar-desli­gar», que na linguagem dos rabinos tinha significado jurídico, designando entre outras coisas a excomunhão que podia ser imposta (de modo a ligar) ou retirada (de modo a desligar). A ação de Pedro perde assim o seu caráter jurisdicional e torna-se uma orientação moralizante, em conformidade com o que pensam os protestantes, mas em desacordo com o sen­tido do texto bíblico original.

d) Com referência a Maria lê-se em

Lc 2,7 (MIA): "E ela deu à luz seu primeiro filho, um menino. En­rolou-O num cobertor e O deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria do aldeia".

Le 2,7 (FA): "E ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura porque não havia lugar para eles na hospedaria".

Lc 2,7 (BJ): `E ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala".

Ora, como foi dito em PR 216/1977, pp. 523s, o termo grego prootótokos, na linguagem do Novo Testamento, tem conotações semitas, que o tornam equivalente a bem-amado.

Veja-se, por exemplo, Zc 12,10:

"Pranteá-lo-ão como quem pranteia um unigênito, e chorá-lo-ão como se chora amargamente o primogênito".

Nesta passagem, percebe-se que há sinonímia entre «uni­gênito», «primogênito» e «bem-amado». Por conseguinte, a tradução «deu à luz o seu primeiro filho» é evidentemente uma interpretação... e interpretação preconcebida em favor de uma tese protestante.

e) Quanto às palavras «epískopos» e «presbyteros», são diversamente traduzidas de acordo com o contexto respec­tivo:

Assim episkopos em Fl 1,1; 1Tm 31,1; Tt 1,7 é vertido por pastor - o que não cabe, pois a palavra grega corres­pondente a pastor é poimén. Em At 20,28 epískopoi é tra­duzido por supervisores. Em 1Pd 2,25, aparece a tradução guardião.

O vocábulo presbyteros em 1Tm 5,17.19 também é tra­duzido por pastor. Em At 20,17, ocorre a tradução líderes para presbyteroi. Em Tg 5,14, presbytérous vem a ser anciãos.

Vê-se, pois, que, do ponto de vista meramente lingüís­tico, a tradução de MIA é falha e destituída de critérios. Tende a insinuar a figura do pastor, tal como existe nas comunidades protestantes. Note-se ainda que em 1Tm 5,22.24 aparece a menção de pastor, sem que exista algo de corres­pondente no texto grego.

É desnecessário insistir, mediante a indicação de outros exemplos, sobre a índole espúria do texto do Novo Testa­mento sublinhado. Um leitor atento não terá dificuldade em descobrir novas e novas paráfrases do texto original desde que coteje a tradução de MIA com a de FA e da BJ. Algu­mas dessas paráfrases são neutras do ponto de vista teoló­gico, enquanto outras insinuam posições teológicas discutí­veis. Em todo e qualquer caso, porém, trata-se de desres­peito ao texto bíblico e ao leitor, visto que o titulo do livro dá a crer ao leitor que se trata de uma nova edição do Novo Testamento.

Faz-se mister ainda dizer uma palavra sobre o

2. Roteiro catequético

Os nove textos selecionados como passagens fundamen­tais do Novo Testamento e sublinhados na edição do «Novo Testamento Ilustrado» constituem genuíno compêndio de dou­trinação protestante; insinuam a doutrina luterana da «sola fides» ou da fé-confiança que salva o cristão, sem que haja alusão aos sacramentos e à Igreja. Suscitam, pois, uma pie­dade subjetivista.

Em conseqüência, a edição do «Novo Testamento Vivo ou Sublinhado» não é apenas uma edição bíblica, mas vem a ser um manual de doutrinação catequética protestante. Ora a distribuição de tal livro às escolas públicas do Estado do Rio de Janeiro, sem declaração de que é livro protestante, torna-se, de certo modo, um embuste ou uma armadilha para o público usuário. Muitos professores e alunos desprevenidos servem-se e servir-se-ão do livro em foco como se fosse sim­plesmente uma edição a mais do Novo Testamento; seguem ou seguirão o roteiro indicado para o estudo sem ter cons­ciência de que estão sendo assim induzidos a conclusões teoló­gicas protestantes.

Ora tal procedimento viola a liberdade de consciência do público escolar. Já não é apostolado, mas proselitismo, pois recorre a táticas espúrias para obter a propagação de deter­minado Credo. É isto que leva a crer que o livro «O mais importante é o amor. Edição ilustrada do Novo Testamento vivo» ainda é mais tendencioso do que «A Bíblia na linguagem de hoje», que já foi comentada em PR 216/1977, pp. 520-529; esta, embora seja uma tradução-interpretação protestante, não é acompanhada do Roteiro Catequético que está anexo à edição dita «sublinhada» ou «O mais impor­tante é o amor».

É, pois, oportuno que a Secretaria de Educação e Cul­tura do Estado do Rio de Janeiro tome consciência do que está sendo praticado nas escolas do Estado e adote as medi­das necessárias para que o público ledor saiba que o livro em foco é uma interpretação do Novo Testamento orientada por premissas teológicas confessionais.

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