segunda-feira, 21 de maio de 2007

Bíblia: publicados os manuscritos do Mar Morto

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 476/2002)

Em síntese: Em 1947 foram descobertos importantes manuscritos bíblicos e ascéticos em Qumran (Nordoeste do Mar Morto) redigidos em hebraico e aramaico. Pertenciam a uma comunidade de monges judeus que naquele local construíram um mosteiro. O precário estado de conservação desses manuscritos dificultou a leitura dos mesmos, de modo que somente em 2001 pôde ser feita a publicação de tão valiosos documentos. O texto deste artigo expõe o gênero de vida dos monges (essênios) de Qumran e algumas ponderações sobre o seu relacionamento com o Cristianismo.

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Eis a notícia publicada pelo jornal O GLOBO aos 16/11/01, p. 21: • NOVA YORK. Mais de cinco décadas depois de terem sido descobertos em cavernas da Cis Jordânia, os manuscritos do Mar Morto, escritos entre os anos 250 a.C. e 70 d.C., foram finalmente publicados em sua totalidade. O anúncio da publicação foi feito ontem pelo professor Emmanuel Tov, da Universidade Hebraica de Jerusalém, na Biblioteca Pública de Nova York. Os manuscritos do Mar Morto foram guardados zelosamente por uma dezena de acadêmicos durante anos, e só depois da divulgação - sem autorização - das cópias de alguns de seus textos, o monopólio foi rompido há alguns anos.

Os 900 manuscritos, publicados em 37 volumes, foram escritos em hebraico e aramaico, em mais de 15 mil folhas de couro e papiro. Acredita-se que os textos tenham sido escritos pêlos essênios, uma seita hebraica. Os pergaminhos são considerados um tesouro da história e religião judaicas. Os escritos ainda contêm orações, interpretações bíblicas e poesias.

Tais manuscritos têm suscitado suspeitas no tocante à figura de Jesus Cristo e à mensagem do Novo Testamento. Eis por que passamos a considerá-los mais detidamente.

Os Manuscritos de Qumran

Qumran é uma localidade situada no deserto de Judá, à margem N. O. do Mar Morto. Em uma gruta daquela região, um pastor beduíno, que andava à procura de uma ovelha (ao menos, esta é a versão mais comum do episódio), descobriu em fevereiro de 1947 sete jarros de argila, dos quais um continha três rolos de pergaminho. Esse material, a princípio não claramente identificado, chegou finalmente às mãos dos estudiosos de Israel e dos Estados Unidos da América. Estes reconheceram que se tratava de manuscritos bíblicos de alto valor, pois eram extremamente antigos.

Em 1949, tendo sido de certo modo pacificada a situação na terra de Israel, o Prof. G. Lankester Harding, Diretor do Departamento de Antiguidades da Jordânia, e o P. Roland de Vaux O. P., Diretor da "Ecole Biblique" de Jerusalém, deram início a procuras e escavações sistemáticas na região de Qumran. Essas pesquisas duraram até 1958 e se estenderam por toda a região vizinha, abrangendo Murabba'at, Khirbet Mird, Ain Feshkaha, Massada. Ao todo descobriram-se onze grutas, nas quais se acharam cerca de 900 manuscritos; somente dez destes estão mais ou menos integralmente conservados; os demais são fragmentos, de leitura ora mais, ora menos difícil. A confecção desses escritos estende-se do séc. II a. C. ao séc. I d. C.

Uma quarta parte desses textos são livros ou fragmentos bíblicos. Todos os livros da Bíblia hebraica estão aí representados, exceto o de Ester; há mesmo diversos manuscritos de um mesmo livro bíblico - o que mostra quais eram os textos mais estimados e usados na região: Isaías, Deuteronômio, os Profetas Menores, os Salmos.

Alguns manuscritos de Qumran e adjacências são cópias de textos bíblicos muito próximas, cronologicamente, dos seus originais ou autógrafos. Assim um manuscrito de Daniel encontrado em Qumran é apenas cem anos posterior aos autógrafos de Daniel, que a crítica atribui geralmente ao ano de 165 a. C. Também um manuscrito do Eclesiastes achado em Qumran dista do seu autógrafo apenas um século. - Para se avaliar a importância deste fato, seja lembrado que até 1947 os mais antigos manuscritos que se tinham da Bíblia hebraica, datavam dos séc. IX e X depois de Cristo. Ora os manuscritos de Qumran permitem

retroceder cerca de mil anos na história do texto de alguns livros bíblicos. Verificou-se, pelo confronto dos manuscritos, que o texto geralmente usado nas traduções e edições da Bíblia em nossos dias é substancialmente o mesmo que se usava já cerca de 2.000 anos atrás.

Além dos textos bíblicos, as grutas de Qumran continham dois outros tipos de manuscritos:

apócrifos, tais como estavam em uso no judaísmo no tempo de Cristo;

2) os escritos de uma comunidade religiosa judaica, que tinha sua Regra ou Manual de Disciplina e seus comentários da S. Escritura, os quais revelavam uma mentalidade fortemente caracterizada por expectativas messiânicas.

Se a história das pesquisas nas grutas dos arredores do Mar Morto estava encerrada em 1958, o mesmo não se podia dizer no tocante à exploração e posse dos manuscritos. Com efeito, em muitos casos foram os beduínos os primeiros a penetrar nas grutas e retirar os jarros e pergaminhos. Ora não se sabia se tudo o que os beduínos haviam descoberto já fora vendido aos arqueólogos e cientistas. Registrou-se, por exemplo, uma surpresa em 1967, quando após a Guerra dos Seis Dias, os israelianos anunciaram a aquisição de um manuscrito do comprimento de 8,60m, portador de um texto inédito que se dispõe em 66 colunas. Esse manuscrito, que veio a ser chamado "o Rolo do Templo" (porque, entre outras coisas, descreve minuciosamente o Templo de Jerusalém), parece ter sido o último a ser adquirido pêlos sábios.

O ambiente humano de Qumran

As escavações levadas a efeito em Qumran nos anos de 1951, 1953-1956 e 1958 (só se podia trabalhar no inverno, quando há um pouco de chuva e a temperatura é menos quente nos arredores do Mar Morto) levam a ver alguns estágios de habitação humana na região.

O mais antigo estrado faz retroceder até os séc. VIII/VII a. C. Parece ser o de uma fortaleza, à qual se prendia uma cisterna redonda (a única de tal tipo no local). Essa construção pode ser atribuída ao reinado de Ozias, rei de Judá (781 -740 a. C.; cf. 2 Cr 26,10); o nome da fortaleza é talvez indicado por Js 15, 62: Ir-ham-melah, cidade do Sal.

Essa fortaleza deve ter caído em ruínas quando caiu o reino de Judá em 587 a. C. No séc. II a. C., o lugar foi de novo povoado por um grupo de sacerdotes judeus e seus seguidores, que julgavam estar sendo profanada a Cidade Santa de Jerusalém pela dinastia hasmonéia, amiga da cultura grega. As primeiras construções dessa nova fase de habitação parecem datar de 130/120 a. C.; grande valor era dado aos aquedutos e cisternas, pois a comunidade tinha que captar toda a água das chuvas da região. A vida deve-se ter desenrolado tranqüilamente em Qumran, num clima monástico de oração e trabalho, até 31 a. C., quando um terremoto (mencionado por Flávio José) terá obrigado os habitantes a abandonarem o local; deslocamento de construções e vestígios de incêndio atestam tal abalo sísmico. Aproximadamente no ano 4 a. C. (é o exame das modas encontradas no local que permite datar), os monges de Qumran voltaram ao seu deserto, reconstruindo aí os diversos recintos do mosteiro; essa segunda fase de vida monástica deve ter sido assaz intensa e próspera; terminou, porém, em junho de 68 d. C., quando as tropas da X Legião Romana, desejando atacar Jerusalém, fizeram ímpeto em direção de Jericó e do Mar Morto. Apressadamente, então, os monges, antes de fugir, ocultaram nas grutas das vizinhanças os seus numerosos manuscritos, esperando poder encontrá-los de novo, quando lá voltassem após a borrasca da guerra!... Tal esperança não se cumpriu; os romanos se apoderaram do local (talvez tenham vitimado parte dos habitantes remanescentes) e lá estabeleceram um fortim, que subsistiu até o fim do séc. I.

Em Qumran refugiou-se ainda um pequeno grupo de judeus rebeldes durante a insurreição anti-romana de 132-135 d. C.

Terminada, porém, esta guerra, a localidade, com seus tesouros culturais, ficou deserta e, por assim dizer, ignorada do mundo até 1947. As ruínas do antigo mosteiro foram sendo recobertas por areia e pedras. Encontravam-se aí os destroços de vasta habitação humana, autêntico mosteiro judaico, no qual se identificaram uma ampla sala de leitura, um escritório comum, um refeitório, uma dispensa, cozinha, aquedutos, etc., e um cemitério, onde jazem cerca de 1100 cadáveres, na maioria de varões (poucas mulheres e crianças - o que é indício da vida geralmente celibatária dos habitantes da região).

O gênero de vida em Qumran

Os estudiosos geralmente identificam os monges de Qumran com os essênios, de que falam Filão de Alexandria (+ 44 d. C.), Flávio José (f 100 d. C. aproximadamente) e Plínio o Ancião (f 79 d. C.). Eis, por exemplo, o que a respeito dos essênios refere Plínio o Ancião, naturalista e geógrafo romano:

"Á margem ocidental do Mar Morto, fora da alçada da influência nociva das suas águas, encontram-se os essênios. Povo solitário, o mais extraordinário povo que exista, sem mulheres, sem amor, sem dinheiro, vivendo em companhia das palmeiras... Assim, já há milhares de séculos (coisa incrível!), subsiste uma raça eterna em que ninguém nasce... Abaixo da mansão dos essênios situava-se a cidade de Engadi, à qual só se pode preferir Jericó quanto à fertilidade e quanto às palmeiras" (Hist. Nat. V 17, 4).

Mesmo que se reconheça nestes dizeres uma larga parte de retórica, eles aproximam o leitor da realidade histórica.

Também Filão de Alexandria deixou uma notícia sobre os essênios:

"Moram juntos em comunidades fraternas... Há uma só caixa para todos, e as despesas são comuns, comuns são as vestes, e comuns os alimentos. Com efeito, adotaram o costume das refeições em comum. Um tal recurso ao mesmo teto, ao mesmo gênero de vida e à mesma mesa, nós o procuraríamos em vão alhures" ("Quod omnis probus" 85).

É certo que os habitantes de Qumran levavam um gênero de vida muito semelhante ao que descrevem os textos acima. Conservavam o celibato, talvez com algumas exceções (pois no cemitério anexo ao mosteiro encontraram alguns poucos cadáveres de mulheres e crianças).

Realizavam numerosos atos em comum: encontraram-se nas ruínas do mosteiro duas salas de reunião, uma destinada a sessões de conselho, e a outra mais adaptada às refeições; junto a esta, em pequeno compartimento havia mais de mil peças de cerâmica (jarros, tigelas, pratos, copos...); os ossos de animais existentes nas proximidades indicam que os qumranitas consumiam carne em refeições que deviam ter índole religiosa. Descobriram-se também oficinas entre as ruínas do mosteiro: carpintaria, olaria com dois fornos, padaria..., assim como um grande escritório com uma mesa de 5m de comprimento e dois tinteiros, onde eram copiados os numerosos manuscritos da biblioteca. Não faltavam recintos para depositar víveres (dispensa) e instrumentos de trabalho. Ao sul de Qumran, ou seja, no oásis de Ain-Feshkaha, os monges cultivavam a terra e proviam à alimentação da comunidade. Todavia não se encontraram dormitórios nas ruínas de Qumran; é o que leva a crer que os monges - todos ou quase todos - passavam as noites em tendas ou grutas dos arredores do grande edifício onde oravam e trabalhavam conjuntamente. Levando-se em conta o número de túmulos encontrados no cemitério-, que deve ter servido ao mosteiro durante dois séculos, julga-se que no período áureo da ocupação monástica a comunidade podia constar de duzentos membros.

Embora, como dito atrás, numerosos historiadores identifiquem os habitantes de Qumran com os essênios, há quem prefira guardar reserva sobre o assunto. Como quer que seja, esses moradores do deserto eram judeus movidos de espiritualidade férvida e rigorosa.

Com efeito, o dia em Qumran era consagrado ao trabalho manual e uma terça parte da noite (o serão) decorria em estudo de textos bíblicos e oração. O sábado era rigorosamente observado, como abstenção de toda atividade profana. Os monges trajavam a veste sacerdotal de cor branca e submetiam-se durante o dia a diversas abluções e banhos rituais; a pureza exterior devia exprimir e fomentar a pureza interior.

O candidato que quisesse anexar-se à comunidade, devia exercitar-se durante um primeiro ano (que hoje se chamaria "postulantado"), ao qual se seguiam dois anos de provação severa. As etapas de admissão na comunidade eram assinaladas pela entrega da veste branca, a participação nos banhos rituais e, por fim, o acesso à refeição sagrada, que tornava o candidato membro da comunidade com plenos direitos. Antes da admissão definitiva, o noviço se comprometia por juramento solene a "converter-se à lei de Moisés, segundo tudo que ele prescreveu com todo o coração e toda a alma".

Os bens que o novo membro possuísse, eram entregues ao superintendente da comunidade. Caso não respeitasse as regras do convívio fraterno, era submetido a sanções, entre as quais a exclusão temporária ou definitiva ou mesmo a nana canital.

A comunidade de Qumran era distribuída em grupos de dez membros, cada um dos quais tinha à frente um sacerdote, filho de Sadoc. Mais precisamente, eis como teve origem a comunidade.

3. No séc. II a. C. (sob o chefe judeu Jônatas Macabeu, 160-142? Ou sob João Hiercano, 134-104? Ou sob Alexandre Janeu, 103-76?), um grupo de sacerdotes e fiéis israelitas se retiraram para o deserto de Qumran, a fim de levar uma vida toda dedicada à oração e ao trabalho; julgavam não poder coexistir com seus correligionários em Jerusalém, pois a fé dos dirigentes de Israel lhes parecia contaminada pelo espírito mundano helenista. Queriam preparar na solidão o reino de Deus, o qual devia irromper chefiado por dois Mestres: o Messias de Aarão, que, representando o sacerdócio, estaria encarregado de ensinar a Palavra de Deus e promulgar a Nova Lei, e o Messias de Israel, ao qual tocaria o poder régio de Davi. Esse grupo de homens piedosos era inicialmente dirigido por um sacerdote intitulado o "Mestre de Justiça", intérprete das Escrituras Sagradas, o qual ensinava aos seus discípulos que se afastassem da vida pagã e renovassem sua fidelidade à Lei de Moisés. O Mestre de Justiça tinha por antagonista um personagem de Jerusalém, chamado nos manuscritos de Qumran "o Sacerdote Ímpio", o qual se esquecera da Lei de Deus; o malvado chegou a ir a Qumran, tentando vencer a resistência passiva dos dissidentes. Seus esforços, porém, foram baldados: ele, o tirano (e não o Mestre de Justiça), foi aprisionado pêlos gentios, que o condenaram à morte.

4. Qumran e o Novo Testamento

Antes do mais, qual seria a espiritualidade que se exprime nos documentos do Mar Morto?

Como indica o histórico dos essênios, é uma espiritualidade religiosa muito férvida. Os habitantes de Qumran viviam na expectativa ar-dente da vinda do Reino de Deus, julgavam ser eles os únicos israelitas incontaminados, os filhos da luz em meio aos filhos das trevas. O seu isolamento topográfico no deserto significava também isolamento de espírito; em virtude de sua mentalidade estreita, particularista, não queriam intercâmbio com os moradores das cidades (neste ponto iam, pois, muito mais longe do que os fariseus). Ao lado disto, porém, nutriam concepções religiosas bastante elevadas, estimando os bens invisíveis, a vida eterna e afastando-se do ideal de um messianismo político; os maus, para eles, não coincidiam propriamente com os romanos ou pagãos, mas com os seus compatriotas representantes da religião oficial de Israel, os quais lhes pareciam pactuar com os costumes pagãos.

Este fundo de idéias já nos dá a ver que entre os essênios e os cristãos há contos de contato como há pontos de divergência.

Analisemos estes últimos. a) A mentalidade essênia ou a mentalidade apregoada pelo Mestre de Justiça parte de um pressuposto bem diferente do que Cristo apregoa. Ao passo que o Mestre de Justiça se retirava no deserto com seu grupo de discípulos para evitar o contato com os homens imundos, Jesus fazia questão de comer com os pecadores, de dizer que viera salvar as ovelhas perdidas,... que não são os sadios, mas os doentes, que

precisam de médico (cf. Mc 2,16; Lc 5,30). Fazendo isto, destoava dos fariseus e os escandalizava; muito mais teria escandalizado os essênios, cuja Regra mandava "odiar todos os filhos das trevas" (l 10); Cristo pregava o amor extensivo até mesmo aos inimigos (cf. Mt 5, 44; 22, 40). Por conseguinte, já se vê que vão seria querer fazer de Jesus uma "segunda edição do Mestre de Justiça ou um discípulo dos essênios, um continuador da mentalidade destes. b) Ao passo que o Mestre de Justiça aguardava o fim dos tempos e a instauração do Reino de Deus por obra de dois Messias, Jesus tinha consciência de ser o Messias pelo qual estas realidades se iniciaram no mundo: "Eu sou o Messias, que te falo" (Jo 4, 26); "É agora o julgamento do mundo" (Jo 12,31); "O Reino de Deus está em meio a vós" (Lc 17,21).

Apesar de todas estas divergências de mentalidade, há quem diga que Jesus foi discípulo dos essênios no período que vai dos doze aos trinta anos de idade; teria então vivido no deserto ou no monte Carmelo, iniciando-se no esoterismo... Sem dúvida, os manuscritos do Mar Morto não somente não oferecem base para esta hipótese, mas, como se depreende das comparações acima, levam a rejeitá-la. Por seu lado, o texto do Evangelho é contrário a tal suposição, pois refere que, quando Jesus começou a pregar em Nazaré, sua pátria, os seus concidadãos exclamavam:

"Qual é essa sabedoria que lhe foi dada e que grandes milagres são esses que se fazem por suas mãos? Não é esse o carpinteiro, o filho e Maria, o irmão de Tiago, José, Judas e Sim ao? E suas irmãs não habitam conosco?" (Mc 6, 2s).

Como se vê, os conterrâneos de Jesus conheciam perfeitamente sua identidade; sabiam o que fizera até se manifestar em público: fora carpinteiro, bem notório a eles; daí a surpresa que experimentaram, quando de seus lábios ouviram uma sabedoria não adquirida em escola humana.

Contudo os fautores da identidade entre Jesus e o Mestre de Justiça (nomeadamente Wilson e Allegro) julgam poder apelar para analogias, que eis aqui: a) O Mestre de Justiça pregava como Doutor inspirado, reagindo contra o falso espírito religioso de seu povo; em conseqüência, sofreu perseguição por parte dos dirigentes da nação. Nestes pontos coincide com Jesus Cristo.

Não consta, porém, que haja sido condenado à morte; ao contrário, os textos de Qumran dizem que "se reuniu a seus pais" - expressão que designa a morte tranqüila dos Patriarcas. Em parte alguma é enunciada a sua ressurreição. Quanto à sua volta no fim dos tempos para julgar o mundo, só pode ser defendida na base de contestáveis interpretações dos textos. Numa reflexão serena verifica-se que os traços característicos do Mestre de Justiça coincidem com os que os israelitas atribuíam a Elias e aos profetas; só o assemelham a Jesus na medida em que Jesus se assemelhou aos profetas. b) Os monges de Qumran, distanciando-se um tanto do judaísmo oficial, celebravam uma ceia sagrada à noitinha, em que consumiam pão e vinho bentos. Essa refeição era considerada a antecipação do banquete a que o Messias de Aarão havia de presidir no fim dos tempos. Ora Jesus, dizem, celebrou ceia análoga com seus discípulos e mandou repeti-la em seu nome...

Para avaliar o significado de tal analogia, tenha-se em vista que ceias sagradas são rito muito freqüente no culto religioso como tal. Além disto, note-se que, apesar de semelhança de ritual, Cristo deu à ceia crista (eucarística) um sentido novo, sentido de consumação em relação à ceia essênia; afirmou, sim, que o pão e o vinho são a sua própria carne e o seu sangue imolados em sacrifício para selar uma nova e definitiva Aliança de Deus com os homens, em substituição da Aliança travada por intermédio de Moisés; os essênios em absoluto não tinham a idéia de um sacrifício redentor do Messias; muito menos a idéia de participar desse sacrifício mediante uma ceia sacramental. - Sendo assim, reconhecer-se-á que o gesto de Cristo na última ceia podia ter uma força de evocação muito particular para os seus discípulos, pois não era inédito em seu aspecto exterior; era, porém, portador da realidade totalmente nova...

Consequentemente a tais observações, não há em nossos dias exegeta de autoridade que, na base dos manuscritos de Qumran, queira identificar Jesus com o Mestre de Justiça ou com um essênio. O autor que é tido como protagonista desta tese, A. Dupont-Sommer, apenas faz insinuá-la de longe, nunca, porém, a propôs como tal. Eis o que ele mesmo declarava em uma de suas últimas obras (Nouveaux aperçus sur lês manuscrits deLa Mer Morte. Paris 1956, 206s):

"Eu esboçara um ligeiro paralelismo que visava a despertar a curiosidade do leitor, sem pretender de modo algum solucionar, por meio de simplificação excessiva, um problema dos mais complexos... Seja-me lícito lembrar o início: 'O Mestre Galileu, tal como no-lo apresentam os escritos do Novo Testamento, aparece sob mais de um aspecto como surpreendente reencarnação do Mestre de Justiça'. Ao passo que eu me exprimia com cautelas intencionais, os meus leitores suprimiram as palavras essenciais, atribuindo-me a seguinte frase: 'Jesus não é mais do que surpreendente reencarnação do Mestre de Justiça!' Isto implica confundir 'ser' e 'parecer', implica deixar de lado uma precisão importante; quem diz 'sob mais de um aspecto' não dá a entender que a semelhança não é total?".

Passando agora aos escritos do Novo Testamento, verificaremos que entre eles e os documentos de Qumran há expressões e vocábulos paralelos; chama a atenção principalmente a metáfora de "luz e trevas" para designar a Verdade (ou a Vida) e o erro (ou a morte); cf. Lc 16,8; Jo 3, 19-21; 12,35s;2Cor6, 14-17; Cl 1, 12. Até o início do nosso século sustentavam alguns eruditos que o Evangelho de São João e as epístolas de São Paulo adulteraram a mensagem de Jesus, estritamente vazada nos moldes do Antigo Testamento, pois ousaram mesclar-lhe idéias e expressões oriundas do mundo helenista pagão; alguns por isto chegavam a denegar ao Apóstolo São João a autoria do quarto Evangelho, julgando que um judeu nunca teria podido escrever em moldes tão helenistas.

Ora o conhecimento dos textos de Qumran permite hoje dizer que precisamente os escritos joaneus e paulinos são os que mais afinidade de temas e vocabulário apresentam com o Judaísmo. Todavia a semelhança não implica necessariamente dependência; pode-se mesmo dizer que não há tema ou vocábulo comum aos documentos do Mar Morto e ao Novo Testamento que não esteja germinalmente contido em algum dos escritos mais antigos da literatura bíblica.

O estudioso, por conseguinte, não se deixará transviar pelas semelhanças que se apontam entre Essenismo e Cristianismo. Antes, voltará sua atenção para a mensagem positiva e valiosa dos manuscritos do Mar Morto: revelam-nos uma face nova do Judaísmo contemporâneo a Cristo. Ao passo que até estes últimos anos nos era conhecida quase exclusivamente a mentalidade legalista, formalista da facção farisaica, aparece-nos agora o aspecto de um Judaísmo interiorizado, profundamente religioso e místico, aspecto que muito melhor concorda com a mensagem do Cristianismo. Os documentos de Qumran, no que eles têm de sadio, nos permitem acompanhar a transição lenta e orgânica da espiritualidade do Antigo Testamento para a do Evangelho. Constituem o fundo imediato (fundo que nunca pudéramos reconstituir com tanta precisão como agora) sobre o qual se realça com mais clareza e pujança a mensagem de Jesus Cristo. Esta se mostra, de fato, correspondente às sãs expectativas do Judaísmo; é o cumprimento das promessas feitas aos Patriarcas de Israel, deixando de lado, porém, todo particularismo e nacionalismo.

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