quinta-feira, 24 de maio de 2007

Sentido da vida: a doença tem sentido

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 260/1982)

Em síntese: A doença tem, à primeira vista, o aspecto negativo de diminuição da pessoa humana, pois reduz as possibilidades de expansão e comunicação da riqueza interior do paciente. O corpo é como a palavra, que exprime o conceito; o conceito depende da sonoridade e da boa forma da palavra para poder transmitir-se; assim a alma humana depende do corpo para manifestar as suas virtualidades. A moléstia apresenta outro aspecto negativo: na S. Escritura, ela está associada ao pecado dos primeiros pais - o que é verdade. Isto não quer dizer que toda doença seja castigo de pecados pessoais do enfermo, mas significa que de modo geral os precursores da morte e a própria morte entraram no mundo por efeito do pecado.

Eis, porém, que a doença aceita em união com Cristo numa atitude de entrega ao Pai tem valor redentor (em favor do sujeito) e corredentor (em prol do próximo). A doença pode favorecer a conversão do paciente a Deus, fazendo-o encontrar mais nitidamente o Bem absoluto, na medida precisa em que os bens criados lhe escapam. Assim configurado a Cristo na cruz, o paciente "completa em sua carne o que falta à Paixão de Cristo em prol do corpo de Cristo, que é a Igreja" (Cl 1,24).

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Comentário: O sacramento da Unção dos Enfermos supõe a doença, para a qual é um canal de graça e santificação provenientes da Cruz de Cristo. É por isto que só se pode entender devidamente tal sacramento se se estuda o sentido que a doença, apesar de dolorosa, assume para o homem e, especialmente, para o cristão. As páginas subseqüentes se voltarão, pois, para o mistério da doença humana, em preparação de uma apresentação do sacramento da Unção dos Enfermos. Abordaremos os seguintes aspectos: 1) Doença humana e diminuição do paciente; 2) Doença e pecado; 3) O valor salvífico da moléstia.

1. Doença: aparente diminuição do homem

O aspecto da moléstia que, à primeira vista, mais se impõe ao homem, é o de uma desgraça ou também o de um obstáculo, algo que diminui o ser humano. Com efeito; embora a doença afete geralmente o corpo humano, não pode deixar de atingir o homem como um todo; este é essencialmente psicossomático.

As funções do corpo em relação à pessoa humana podem ser ilustradas pelas da palavra em relação aos conceitos que elas exprimem. O conceito “se encarna” na palavra, mas não se reduz a esta; a palavra, no caso, não é mero rumor, mas algo de significativo, portador de uma idéia que o transcende. Assim a realidade do ser humano se exprime através do corpo, mas não se reduz a este, visto que o corpo não é algo de meramente orgânico, mas corpo humano, portador de um eu original que o transcende (porque resulta da união de alma espiritual e corpo).

A riqueza interior da pessoa humana exprime-se visivelmente no corpo e, mediante o corpo, exprime-se no mundo. Graças à palavra, os conceitos se tornam presentes aos destinatários. Assim graças ao corpo o homem entra numa rede concreta de relações, comunicações e mútuo reconhecimento. Mediante o corpo o homem exerce a sua operosidade que o torna, de modo especial, presente aos demais homens.

Ora a doença afeta o corpo e reduz, não raro, à passividade a pessoa enferma. O doente é limitado pelos horizontes da sua moléstia: dependente das pessoas que o tratam, prisioneiro das quatro paredes de um quarto ou de uma enfermaria, propenso a sentir-se inútil ou mesmo pesado para os outros... As atividades, a produtividade, o sucesso e os aplausos, a estima e a admiração... tornam-se algo de pálido, distante e insuficiente para satisfazer ao homem. O doente faz a experiência concreta da precariedade das suas forças, da relatividade das suas capacidades, da fragilidade da sua existência terrestre.. . A moléstia sacode certas formas de segurança do paciente, abala não raro a sua escala de valores, os seus modos de julgar e a sua mentalidade. Faz ressoar para ele a hora de uma crise grave e cheia de incógnitas.

Como a palavra vem a ser a expressão da idéia, o corpo é a linguagem básica ou fundamental da personalidade. Todas as formas de linguagem não fazem senão explicitar o fundamento de qualquer comunicação que é o corpo. Ora, desde que a plasticidade do corpo esteja prejudicada de algum modo, as possibilidades de comunicação são reduzidas e o enfermo se vê obrigado a aceitar mais e mais o gelo da solidão: passa a falar com poucas pessoas, por pouco tempo, e, não raro, sobre os seus próprios males e as perspectivas de escapar destes. O olhar se restringe, como que hipnotizado pela doença; tende a concentrar-se sobre o eu; o diálogo corre o risco de apagar-se no monólogo e no solilóquio.

Em síntese, a doença vem a ser ameaça e atentado à expansão vital do homem. Por isto a primeira atitude que os homens e, especialmente, os cristãos assumem frente à molés­tia, é a de oposição e luta,[1] como bem observa o Ritual da UE:

"Por disposição da Divina Providência, o homem deve lutar ardentemente contra toda doença e procurar com empenho o tesouro da saúde, para que possa desempenhar o seu papel na sociedade e na Igreja" (n° 3).

Nas páginas seguintes, será exposto o significado cristão da doença.

2. Doença e pecado

A S. Escritura ensina que entre pecado e doença existe uma relação; com efeito, o pecado dos primeiros pais introduziu no mundo a morte e os precursores da morte (a doença, o sofrimento... ); cf. Gn 2-3. Nesta perspectiva a doença ma­nifesta de maneira concreta e trágica a situação de queda e desgraça induzida na história pelo pecado.

Isto, porém, não quer dizer que a doença seja sempre devida a pecados pessoais do paciente. Evite-se entender toda doença como castigo de culpas do enfermo. É o que lembra o Ritual da Unção dos Enfermos

"A doença, ainda que intimamente ligada à condição do homem pecador, quase nunca poderá ser considerada como um castigo que lhe seja infligido por seus próprios pecados (cf. Jo 9, 3). Não só o próprio Cristo, que é sem pecado, cumprindo o que estava escrito no profeta Isaías, suportou as chagas da sua Paixão e participou das dores de todos os homens (cf. Is 53, 4s), como continua ainda a padecer e sofrer em seus membros, mais configurados a Ele quando atingidos pelas provações" (n° 2).

Na verdade, o pecado dos primeiros pais rompeu a harmonia que existia entre o homem e Deus e dentro do próprio homem. A morte então entrou no mundo e, com ela, sobrevieram os precursores da morte como a dor e a doença; tais elementos considerados em si são naturais ao homem, mas não ocorreriam caso o homem se mantivesse fiel a Deus. Hoje o homem sofre em tese porque perdeu os dois dons preternaturais, a ele outorgados no estado de justiça original, que são os dons de poder não morrer e não sofrer. Não se deve, porém, associar tal doença a tal pecado, pois, na verdade, a moléstia pode ser permitida pela Providência Divina também a título de purificação ou acrisolamento da fé e das virtudes.

Até aqui expusemos a face negativa e odiosa da doença. É preciso, porém, pôr em relevo o que esta tem de positivo e valioso para o ser humano.

3. O valor salvífico da moléstia

Realçaremos dois aspectos positivos da doença.

3.1. Descoberta de Deus

O primeiro aspecto positivo da moléstia consiste em permitir que o paciente reescalone os seus valores e, conseqüentemente, descubra Deus (se não O conhecia) ou atribua a Deus o lugar primacial que Lhe compete e que ele não Lhe conferia. Com efeito; se a doença pode levar à blasfêmia, ela pode também induzir o paciente a tomar consciência de que todas as criaturas são exíguas demais para o homem, de tal modo que a realidade do Bem Infinito ou Absoluto mais e mais se impõe ao paciente; Ele deve existir, e é nele que o homem há de encontrar a sua resposta.

Pode-se dizer que a doença desempenha para o paciente o papel que o exílio na Babilônia (587-538 a. C.) exerceu para Israel: foi golpe duro e severo (Israel se viu humilhado e despojado), mas ocasionou a reflexão do povo sobre o seu relacionamento com Deus; este relacionamento era, não raro, hipócrita, pois Israel imolava copiosas vítimas irracionais no Templo com mãos manchadas por homicídio, roubo e outros males; acobertava seus crimes com a capa de piedade meramente ritual e legalista. O exílio tirou a Israel o Templo e o culto, que se lhe haviam tornado ocasião de exercer hipocrisia; obrigou o povo a repensar as suas atitudes diante de Deus. Do exílio procederam os “pobres de Israel”, ou o “resto de Israel”, que cultivaram uma fé religiosa mais voltada para o essencial e para a intimidade com Deus. Constituiu-se assim uma nova fase da história de Israel. - Ora o mesmo se pode dizer no tocante ao homem que passa por uma enfermidade; esta o pode libertar de ilusões ou de “ídolos”; traz-lhe a ocasião de reflexão e amadurecimento interior e propicia-lhe um retorno para Deus mais coerente e decidido; não raro abre assim uma nova época na existência do paciente. Os valores materiais aparecem a este relativizados e o Absoluto de Deus lhe aflora com mais nitidez; em conseqüência, a vida do paciente não se disporá mais em torno de dinheiro, sucesso, atividades imediatistas, mas assumirá uma dimensão de presença a Deus, adoração e contemplação, em conformidade com a palavra de São Paulo: “Tudo pertence a vós :... o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso. Mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus» (1Cor 3,21s).

Examinando sua vida, o paciente comprova então a veracidade do axioma grego: pathosmathos, isto é, sofrimento é escola, aprendizagem.

3.2. A libertação em relação ao pecado

A descoberta ou a reafirmação mais consciente de Deus por parte de um enfermo implica naturalmente um Não mais enérgico ao pecado, especialmente aos pecados pessoais do paciente. Na verdade, o pecado consiste em atribuir à criatura um valor que só a Deus compete.

O paciente que una a sua dor à de Cristo na cruz e conceba amor ao Pai, purifica-se do egoísmo e dos resquícios do pecado; participa da expiação de Cristo Redentor. Desta maneira é útil a si mesmo, porque o amor generoso suscitado pela doença apaga os restos do pecado; é útil outrossim ao próximo porque “uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro» ou porque enriquece a comunhão dos santos com a sua participação nos méritos de Cristo; realiza o que São Paulo dizia: “Completo em minha carne o que falta à paixão de Cristo em prol do seu corpo, que é a Igreja» (Cl 1, 29). Diz outrossim o Ritual da Unção dos Enfermos:

"Por disposição da Divina Providência o homem deve lutar ardentemente contra toda doença e procurar com empenho o tesouro da saúde, para que possa desempenhar o seu papel na sociedade e na Igreja, contanto que esteja sempre preparado para completar o que falta aos sofrimentos do Cristo pela salvação do mundo, esperando a libertação da criatura na glória dos filhos de Deus" (cf. Cl 1, 24; Rm 8, 18-21).

"É também papel dos enfermos na Igreja, pelo seu testemunho, não só levar os outros homens a não esquecerem as realidades essenciais e mais altas, como mostrar que a nossa vida mortal deve ser redimida pelo mistério da morte e ressurreição de Cristo" (n° 3).

Fique bem claro que a doença e o sofrimento como tais ou em si não têm valor; por isto estarão abolidos na vida definitiva. É importante que se diga isto para afastar da mensagem crístã toda atitude masoquista. Faz-se mister, porém, reconhecer que, assumida como expressão de amor a Deus e repúdio ao egoísmo e ao pecado, a doença se torna salutar (precisamente em virtude do amor que ela aviva e intensifica).

O doente que, com amor e entrega, viva a sua doença, testemunha, aos olhos do mundo, que a realização humana essencial não depende da posse da saúde ou dos bens materiais, mas depende, antes do mais, de sincero amor a Deus e ao próximo. Tal enfermo ilustra, de maneira muito significativa, a bem-aventurança dos pobres. Por isto o doente pode tornar-se profeta para os homens sadios; com efeito, se os enfermos devem aos sadios a possibilidade de sobreviver e lutar, os sadios encontram nos doentes heróicos um estímulo poderoso para continuar a lutar. Sob tal aspecto, o enfermo se assemelha ao “mártir” (testemunha até a morte). - O segredo da fortaleza do enfermo estará sempre na sua atitude de oração e de oferta nas mãos de Deus; é na união com Cristo e com o Pai que o doente se encoraja todos os dias ou a todos os momentos, seguindo assim a exortação de São Tiago: Sofre alguém dentre vós um contratempo? Recorra à oração» (Tg 5,13).

Em conclusão, verifica-se que, embora a doença seja contrária à natureza e aos anseios do ser humano, ela pode ser transformada em valor, desde que acolhida em união com Cristo; perde o seu sinal negativo ou de destruição para receber a marca luminosa da transcendência e da salvação. Como se compreende, tal transfiguração da moléstia dependerá da atitude de fé e de amor do paciente sustentado pela graça de Cristo.

Um comentário:

Ir. Luzia disse...

0601bn
Sempre dediquei um pouco de minha busca "pelo sentido da vida" e como educadora, gosto de incentivar os educandos a buscarem o mesmo, para que possamos ser e fazer a diferença no ambiente em que vivemos. Luzia Batista