domingo, 27 de maio de 2007

Sentido da vida: um homem perplexo

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 333/1990)

por: Mario de França Miranda

1. O autor do livro é sacerdote jesuíta, professor no Teologado da Companhia de Jesus em Belo Horizonte. Apresenta os sintomas de seculari­zação, materialismo e relativismo da sociedade contemporânea. As antigas instituições e afirmações do Catolicismo podem parecer defasadas; novas crenças cristãs e outras grandes correntes religiosas (islamismo, budismo...) penetram no Ocidente cristão, de modo que o fiel católico pode ser tentado a se sentir "um homem perplexo na atual sociedade". O livro termina sem uma perspectiva alvissareira ou sem uma resposta à suposta perplexidade do católico contemporâneo; acumula interrogações e dificuldades, usando, aliás, de muita erudição, mas sempre num tom propenso a ver problemas e impasses. A leitura do livro pode deixar o leitor insatisfeito, pois oferece um panorama incompleto, visto unilateralmente ou a partir de um pessimismo acentuado demais.

2. O contato com as páginas de França Miranda sugere as seguintes considerações:

2.1. Sem dúvida, vivemos numa época marcada por grandes apostasias: o ateísmo, o indiferentismo religioso, o utilitarismo e o consu­mismo... têm afastado muitas e muitas pessoas da tradicional crença católi­ca. Tal fenômeno, porém, apresenta-se como uma experiência dolorosa que o mundo de hoje vem fazendo; os homens não têm encontrado maior felici­dade apartando-se de Deus; ao contrário, sentem o vazio dentro de si, deixa­do pela ausência do Absoluto (que dá o sentido à vida humana, como ensina Viktor Frankl às pp.88-93 deste fascículo); esta ausência, nenhuma criatura (dinheiro, prazer, glória...) a pode preencher. Um testemunho muito vivo desta verdade é o caso da Rússia Soviética: o ateísmo e a zombaria dos valores reli­giosos lá se instalaram com grande aparato, tentando erradicar por completo a fé dos corações; a experiência, porém, resulta hoje malograda; o cidadão soviético é um homem diminuído em sua liberdade, empobrecido em sua economia, menosprezado como pessoa e supreendentemente (apesar das es­colas de ateísmo por que passou) voltado para algo de novo ou para o Trans­cendente, que coincide com os tradicionais valores cristãos da Rússia. - Fenômeno semelhante, embora de proporções muito menores, se dá na Hungria e na Polônia; a emigração dos cidadãos da Alemanha Oriental para o Ociden­te é outro sintoma do desgaste do ateísmo instaurado como cosmovisão oficial.

2.2. Verifica-se que muitos e muitos homens no Ocidente, desi­ludidos das soluções "científicas" e materialistas, procuram no mundo transcendental a resposta para os seus anseios. É o que explica o surto e a proliferação de tantas e tantas correntes religiosas em nossos dias; são exube­rantes, tocando o fundo dos sentimentos humanos e despertando o interesse de multidões; infelizmente, porém, estão desligadas do raciocínio; as emo­ções e a imaginação aí preponderam sobre a lógica - o que redunda muitas vezes em frustração, exploração financeira e maior desatino dos "devotos". A proposta de soluções mágicas é fácil e eloqüente, mas o cumprimento é difícil, impossível,... decepcionante.

2.3. Ora é precisamente este contexto que aviva no fiel católico a convicção de que a eterna mensagem do Evangelho é, mais do que nunca, atual; ela tem um papel importante a exercer em favor do homem insatisfei­to, mas desbussolado, de nossos dias. É preciso apregoá-lo com parrhesia (expressão paulina; ver 1Ts 2,2; 1Tm 3, 13; At 9, 27s), isto é, com liberda­de, franqueza e destemor, em toda a sua pureza, sem lhe tirar nada do que lhe é característico (inclusive a mensagem da Cruz salvífica). Foi essa men­sagem que transformou os homens do Império Romano em declínio e que salvou do desespero os cidadãos cansados da filosofia pré-cristã decadente. Tal mensagem tem o vigor de Páscoa ou da vitória da Vida sobre a morte ou da utopia que Deus concebeu para os homens; é a RESPOSTA perene para os homens de todos os tempos.

2.4. É necessário, porém, que os arautos do Evangelho creiam realmente nele; se alguém professa algo ou realiza uma atividade sem ter confiança no que diz ou faz, desvirtua ou sufoca a sua palavra ou o seu tra­balho. - Não faltam motivos ao fiel católico para crer inabalavelmente na força do Evangelho (cf. Rm 1, 16s); a vitória da Boa-Nova sobre o Império Romano perseguidor outrora até 313, o fracasso do materialismo ateu em nossos dias e o conseqüente surto de novas e novas afirmações religiosas ca­rentes de orientação e luzes são o sinal mais eloqüente de que há um lugar de escol para o Evangelho hoje e uma tarefa de importância capital para os católicos de nossos tempos. É mister, porém, que estes não percam o seu sabor e sua identidade típica; se os perderem, serão os mais desgraçados de todos os homens e os responsáveis (em grande parte) pela inquietação e a in­felicidade dos contemporâneos: "Vós sois o sal da terra. Se o sal perder o seu sabor, com que o salgaremos? Para nada mais serve senão para ser lança­do fora e pisado pelos homens... Brilhe a vossa luz diante dos homens para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos céus" (Mt 5, 13.16).

Estêvão Bettencourt O.S.B.

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