domingo, 27 de maio de 2007

Sentido da vida: o sentido da vida?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 253/1981)

Em Síntese: O indiferentismo religioso é fenômeno cada vez mais alastrado. Por motivos diversos, muitas e muitas pessoas julgam que não merece atenção o problema de Deus e da Religião. Todavia é de notar que o problema de Deus é tão vital quanto a questão do sentido da vida; ele coincide com as perguntas: Donde vimos? Para onde vamos? Por que sofremos? Por que morremos?...

Estas indagações, as quais interpelam todo homem que leve a sério a sua vida, têm recebido respostas da ciência e da filosofia... Da ciência esperam muitos homens a elucidação das suas dúvidas e o afastamento dos males que os afligem; todavia esta esperança é desmentida pelo que acontece em países de tecnologia e organização social evoluídas como é, por exemplo, a Suécia; nesta o número de suicídios é crescente, porque o homem se sente só, embora cercado de semelhantes; o vazio do indi­viduo não é preenchido pelos benefícios da técnica e do conforto. A filo­sofia, ou melhor, as filosofias apresentam um leque de respostas ao homem, várias delas materialistas (e frustrativas por este motivo), outras dualistas (avessas ao corpo e à matéria - o que é artificial).

Existe também a resposta filosófica teísta, que é completada pela Revelação cristã. Esta apresenta a seguinte síntese:

Existe o Transcendental ou Deus, como existe o pólo Norte que atrai a agulha magnética. Sem pólo Norte não se explica a "Inquietação" da agulha.

O homem só existe por um ato de amor gratuito do Criador; esse amor é irreversível, porque divino, de modo que o homem o encontra ina­balável, mesmo depois das mais graves faltas. A grande vocação do homem é a de voltar para Deus através das estradas desta vida.

A nossa vida terrestre é comparável a uma gestação consciente que nos prepara para a segunda natividade ou para o nosso pleno nascimento. Se no seio materno a criança é irresponsável por sua estatura, no decorrer desta vida o homem é autor da sua sorte definitiva.

Esta perspectiva não desobriga o ser humano de trabalhar fielmente neste mundo como mediador entre as criaturas Inferiores e o Criador.

O sofrimento é a conseqüência da desordem acarretada pelo homem na obra de Deus; cioso de ser igual a Deus, vê-se vítima da sua arro­gância. Todavia o Redentor assumiu a dor e a morte do homem e as transfigurou.

A luz destas verdades, a morte é consumação.

***

Comentário: Já temos aludido em PR ao fenômeno do indiferentismo religioso, que em muitos países se substitui ao ateísmo militante. Nos Estados Unidos, na Escandinávia, no Japão contam-se aos milhões aqueles que, embora não sejam hostis à religião, se dizem desinteressados do problema reli­gioso.

O fenômeno da apostasia em relação à religião começou no séc. XVIII com o racionalismo dos filósofos franceses (os enciclopedistas Voltaire, Diderot, D'Alembert), alemães e in­gleses (iluministas). Já em 1748 escrevia o filósofo materia­lista De La Mettrie: «O mundo nunca será feliz a menos que seja ateu». A apostasia prolongou-se no século XIX, assumindo diversas formas: o positivismo de Augusto Comte (+ 1857), a esquerda hegeliana de Feuerbach (+ 1872), o socialismo ateu militante de Marx e seu precursor Engels (+ 1895); o evolucio­nismo materialista de Darwin (+ 1882) e Spencer (+ 1903), o voluntarismo desesperado de Friederich Nietzsche (+ 1900) e Schopenhauer (+ 1860). Nietzsche, por exemplo, referindo-se aos cristãos dizia: «O cristão é um inútil, um separado, um re­signado, é estranho ao trabalho da terra».

As últimas expressões do fenômeno no séc. XX são o pan­sexualismo de Freud (+ 1930), o hedonismo ou o culto do pra­zer, as ideologias comunista, fascista, nacional-socialista, ra­cista ...

Hoje em dia essas tendências anti-religiosas tomaram no­va forma, que não exclui as anteriores, mas se vai alastrando como sendo mais cômoda, porque não implica militância algu­ma: a do indiferentismo. - Ora é precisamente esse indiferen­tismo, tão propagado em nossos dias que interessa levar em conta, procurando aprofundar o seu significado. É o que vamos fazer nas páginas que se seguem.

1.. O fenômeno do indiferentismo

Podem-se registrar diversas facetas do indiferentismo reli­gioso em nossos dias.

1) Há os que não dão o mínimo de atenção ao problema religioso, porque estão «atolados» no trabalho e nas obriga­ções sociais, de tal modo que não lhes resta tempo para encarar a questão religiosa. São pessoas que vivem constantemente fora de si mesmas, vítimas do ritmo frenético da vida, mas que, em última instância, estão contentes por nunca se encontrarem consigo mesmas e com a própria consciência, porque isto as poderia «assustar» ou levar a uma certa desinstalação ou mu­dança de vida.

2) Outros nunca foram sacudidos pela vida e, conseqüen­temente, obrigados a sair de certa leviandade rotineira. Talvez sejam pessoas «vazias» em seu íntimo e, por isto, necessitadas de encher a vida com coisas que lhes prometem ilusória satis­fação: a conquista e o uso do dinheiro que nunca basta, a orna­mentação da casa com mil objetos inúteis, a carreira ameaçada por obstáculos, a moda que tiraniza e obriga a constantes mu­danças

3) Outras ainda há que colocaram para si o problema religioso, ainda que talvez sem grande esforço, mas que julgaram não dever «perder tempo» com Cristo, pois religião seria um fenômeno ultrapassado ou um acervo de histórias e práticas obscurantistas (embora muitas dessas pessoas tenham sua crença no «horóscopo» ou nos porte-bonheur ou nos talismãs ou evitem o n° 13).

Perguntamo-nos agora:

2. Fé não é problema

Na verdade, o problema de Deus é vital, porque vem a ser o problema do sentido da vida humana; por isto também quem se interroga sobre o significado da sua vida, não pode deixar de encarar o problema de Deus com seriedade.

Com efeito. Todo homem, em sua existência, vê-se obri­gado a se defrontar com vários desafios imediatos: o da subsis­tência, por exemplo, que envolve alimentação, habitação, cura de doenças. Há, depois, os problemas do trabalho, da profissão, da família, da cidade ou da política..., que constituem um con­junto de sérias preocupações...

Acontece, porém, que há um problema radical ou funda­mental, que é o do homem; tudo o que o homem faz, deriva o seu sentido daquilo que o homem é. De fato, pergunta-se: quem é o homem que trabalha, constrói, luta, sofre e morre? Por que trabalha e padece? Donde veio? Para onde vai após a morte, Ou esta põe fim a tudo o que ele é e faz? São estas as pergun­tas supremas e decisivas às quais nenhum homem pode fugir. Aqueles que não as concebem, arriscam-se a levar uma vida su­perficial e rotineira; somente os seres infra-humanos não con­cebem as perguntas relativas aos grandes porquês e para quês da vida.

Se o problema do sentido da vida é «vital», e não lhe pode escapar quem realmente queira viver consciente e profundamente, examinemos algumas das respostas mais freqüentemente dadas a tal problema.

3. A resposta da ciência e da técnica

Há quem julgue que a ciência poderá responder às gran­des indagações do homem e proporcionar-lhe paz e felicidade. Quanto à técnica, que decorre do progresso da ciência, ela seria apta a oferecer ao homem comodidade e bem-estar.

Ora, na verdade a ciência como tal não chega a colocar as grandes e supremas interrogações do homem; se o fizesse, ela se tornaria filosofia, saindo da sua alçada sem ter métodos adequados para enfrentar as indagações da filosofia. Assim, por exemplo, a biologia, que é a ciência da vida, procura saber como a vida teve origem, como se desenvolve e multiplica, mas ela (como ciência biológica) não pergunta por que a vida existe e qual o sentido do fenômeno da vida, pois tais problemas fo­gem ao campo de competência da ciência biológica. Mais ainda: a biologia só pode estudar os viventes corpóreos materiais; caso haja viventes não corpóreos, a biologia não os atinge, ela não pode dizer nem mesmo se existem ou não. Eis por que não tem sentido dizer que a alma não existe, pois nenhum biólogo ou nenhum médico jamais a encontrou na ponta do seu bisturi; na verdade, a alma, como ser espiritual, pertence a outro plano que não o da matéria; ela não é matéria mais sutil do que os outros tipos de matéria, mas simplesmente não é matéria.

Aliás, uma prova de que a ciência e a técnica não satisfa­zem às aspirações mais fundamentais do homem nem respon­dem aos interrogativos mais profundos, é a situação de países tecnologicamente evoluídos como os Estados Unidos, a Suécia e o Japão. A propósito da vida na Suécia, a revista espanhola Cambio 16 publicou interessante crônica com o título «Sueci­darse» (palavra que funde Suécia e Suicídio). Passamos a apresentar essas observações em tradução brasileira:

"Vinte e dois dentre cem mil suecos se suicidam porque têm casa e carro próprios, poucas horas de trabalho por dia, riqueza material e muito tempo livre, segundo o estudo Gente en crisis, editado pelo Depar­tamento social do Sindicato de Empregados. O número de suicidas, de resto, é duas vezes maior do que o das vítimas de desastres de automóvel.

Os dados são sombrios. Entre os motivos que duas mil pessoas en­contram para matar-se todos os anos, os autores do trabalho põem em primeiro lugar a solidão.

Além disto, o ingresso da mulher no mundo alienado do trabalho colocou-a em condições de carência idênticas às dos homens. Nos últimos vinte anos o índice de suicídios femininos subiu de 100 %, ao passo que o de masculinos aumentou de 25 %. Não somente isto: as mulheres se salvam, por ora, em virtude da sua relativa falta de eficácia para tirar a vida a si mesmas, pois são três vezes mais numerosas as que tentam o suicídio do que as que morrem.

Leve-se em conta também que os índices não são de toda confiança. O pudor e a pouca simpatia das Companhias de Seguros para com o suicídio levam a tachar de acidentes automobilísticos muitos casos de sui­cídio. Assim, com a chegada da primavera e o degelo dos lagos, é fre­qüente subirem os números de afogados, os quais na verdade não seriam senão suicidas, cujo fim trágico é encoberto pela mentira imposta por nor­mas sociais.

A maior porcentagem de suicídios - revela Gente em crisis - ocorre entre os homens de 40 a 65 anos e entre as mulheres de 45 a 60 anos. Os grupos mais afetados são os dos alcoólicos, drogados, enfermos e divor­ciados (nessa ordem). As pessoas se matam mais nas grandes cidades do que no campo; o índice de suicidas em Estocolmo, por exemplo, é longe o dobro do de todo o país.

Um exame dos dados estatísticos leva os estudiosos a verificar que o suicídio é o resultado de um ato refletido e não de um impulso. Vinte por cento dos que se suicidam deixam cartas de despedida; alta porcenta­gem mata-se depois de ter estado com seu médico ou psiquiatra; os fami­liares não parecem surpreender-se com a decisão; apenas observam: 'Es­tava muito deprimido'. 'As coisas não lhe iam a contento'.

Atualmente um milhão de suecos vivem solitários. O número não deixa de aumentar porque a casa própria deixou de ser um luxo... Em seus tempos de lazer, os suecos, ajudados por seus recursos materiais, torna­ram-se individualistas: passeiam, patinam, praticam o esqui ou navegam solitários e silenciosos, segundo as conclusões do estudo, que também afirma: 'O alcoólico se suicida quando perde o último contato de relacio­namento pessoal com os seus semelhantes'.

Visto que as causas do suicídio estão muito ligadas às condições de vida na Suécia, parece impossível extirpá-las. O diário Dagens Nyheter de Estocolmo lançou uma cética proposta em editorial, sugerindo o aumento das horas de trabalho diário ou uma redução das comodidades postas à disposição do público... Todavia os observadores mais realistas exprimem o seu pessimismo: 'Não há solução, dizem; será sempre assim: as socie­dades desenvolvidas terão que acostumar-se ao suicídio e considerá-lo como um dos numerosos e indesejáveis efeitos do progresso' ".

Estas observações sugerem dois comentários:

1) A solidão é o grande mal do homem num mundo que se vai povoando cada vez mais. Ó paradoxo! Os indivíduos se isolam uns dos outros, embora estejam cercados de gente. E por quê? Em parte, porque cada qual se deixa absorver por seu pequeno mundo e seus interesses pessoais ou, também, por­que tem medo de que os outros o perturbem e desinstalem. Por ironia, esse fechamento «protetor» e «tutelar» não acarre­ta maior felicidade ou paz para a pessoa que se fecha, mas, ao contrário, dá-lhe a impressão do vazio e da solidão, que se tornam mortais para o homem. Vê-se que este tem que esco­lher entre o culto egoísta dos bens materiais ou o serviço aos irmãos. Isto não quer dizer que não seja possível possuir bens materiais e sentir-se feliz; mas para tanto é necessário que os bens materiais não tornem pesado e gorduroso o coração do homem (adjetivações bíblicas), mas, antes, concorram para tor­ná-lo mais livre e generoso. - Ora uma tal atitude dificilmen­te se consegue se não se tem uma motivação de ordem trans­cendental, ou seja, o amor a Deus como fundamento do amor ao próximo.

2) O artigo termina chamando a atenção para o fato de que a crescente onda de suicídios na Suécia está muito vin­culada às condições de vida da população local. Há quem diga que doravante as perspectivas da sociedade de consumo inclui­rão a nota marcante do suicídio. Esta prospectiva é profunda­mente dolorosa. - Deve-se dizer, porém, que progresso da civilização e suicídio não são elementos necessariamente asso­ciados entre si; o primeiro de per si não implica o segundo. A associação só ocorre se o homem perde a visão do sentido do progresso material ou se esquece de que as conquistas mate­riais devem ser o trampolim para a ascensão ao plano dos bens definitivos e transcendentais.

Pode-se, pois, concluir que por certo o progresso da ciência e da tecnologia é insuficiente para proporcionar ao homem as respostas atinentes ao sentido da vida.

Examinemos agora as respostas que a filosofia, ou seja, o uso da razão natural, sem fé, oferece ao homem a respeito das mesmas questões.

4. As respostas da Filosofia

A filosofia, sem dúvida, procura ultrapassar as causas imediatas de cada fenômeno, para descobrir as causas últimas ou supremas; ela tem por objetivo colocar cada fato e cada valor no conjunto dos fatos e dos valores em síntese harmonio­sa. Todavia acontece que não há uma filosofia, mas muitas filosofias. Principalmente a partir do século XVI cada pensador tende a trilhar seu caminho próprio, resultando daí que muitas vezes os sistemas filosóficos se destroem mutuamente e chegam a conclusões contraditórias. Em conseqüência, muita gente, diante das propostas da filosofia, toma uma das duas atitudes: o relativismo (tanto faz uma como outra) ou o ceti­cismo (nenhuma atinge a verdade). É o que explica que já se tenha falado do «escândalo da filosofia». Percorramos rapida­mente as principais respostas dos filósofos:

1) Materialismo: Há quem diga que só existe matéria. Deus não existe; quanto ao chamado «espírito», é redutível à matéria. Por conseguinte, não há vida póstuma: o homem vive e

morre como os demais viventes, e, como estes, desaparece no nada. Por isto o sentido da vida consiste em procurarmos ser o mais possível felizes com os bens desta terra.

2) Positivismo e nopositivismo. Esta escola ensina que não se deve procurar o que fica para além da percepção dos sentidos. Indagar qual seja o significado da vida não tem

pro­pósito, porque só se pode falar do que se consegue experimentar e averiguar

cientificamente. Por conseguinte, não tem cabi­mento falar de Deus, do espírito, de vida póstuma e de voca­ção transcendental do homem.

3) Idealismo. Os filósofos desta escola afirmam que o ho­mem só conhece as suas próprias idéias. O conhecimento, por­tanto, não tem valor objetivo. Mais amplamente, dizem: é o próprio homem quem cria os seus valores e realiza em absoluta liberdade a imagem que ele projeta de si mesmo e para si mes­mo. Tome consciência disto, e não pretenda realizar padrões objetivos ou atingir metas transcendentais porque estas esca­pam ao seu conhecimento.

4) Panteísmo. Esta corrente de pensamento identifica o homem com a Divindade. Entre as várias formas que ela assu­me, uma das mais freqüentes afirma que a Divindade se acha apoucada ou diminuída dentro do corpo ou da matéria, de sorte que o sentido da vida terrestre consiste em libertar do corpo a centelha divina que está dentro do homem ou que é o homem propriamente dito. Esta perspectiva está associada a duas teses filosóficas:

a) o dualismo, segundo o qual a matéria e o mundo visível são algo de mau. Os únicos valores são os do espírito. Este se acha encarcerado dentro da matéria, que impede a sua plena expansão. Em conseqüência, tal escola filosófica não tem inte­resse pelo progresso da civilização; antes, vinculam o homem à matéria e ao mundo, quando na verdade todo o afã do homem deve consistir em desprender-se de qualquer relacionamento com a matéria.

b) o reencarnacionismo. Se o homem é a própria Divindade, está claro que ele não espera de Deus a sua salva­ção, mas a espera de si mesmo. E, se o homem não consegue salvar-se ou libertar-se interiormente do apego à matéria e aos bens materiais numa só vida ou encarnação, terá que se en­carnar de novo e passar outra vez pela vida terrestre; isto se repetirá tantas vezes quantas forem necessárias para possibi­litar ao indivíduo a sua total purificação ou renúncia aos afe­tos terrenos.

Refletindo sobre as quatro respostas filosóficas que aca­bam de ser enunciadas, podemos dizer:

As três primeiras (materialismo, positivismo, idealismo) cortam qualquer perspectiva de transcendência, deixando o ho­mem confiado ao regime do visível, material e transitório. Por certo, não satisfazem à aspiração inata que temos para a vida, e a vida sem fim, nem correspondem ao testemunho de todos os povos que, da antigüidade até nossos dias, admitiram a vida póstuma.

A quarta resposta (a panteísta-reencarnacionista) supõe, em grau mais ou menos explícito, o dualismo entre a matéria e o espírito, condenando a matéria à rejeição, como sendo ele­mento aviltante e degradante da centelha divina que é o cerne do homem. Ora o dualismo é antinatural ou artificial, visto que o corpo faz parte integrante da natureza do homem; sem o corpo, a mente não adquire idéias nem concebe afetos.

5) Teísmo. Existe também uma filosofia teísta, isto é, que professa a existência de Deus e do transcendental. Toda­via, sendo filosofia ou obra da razão entregue tão somente ao seu acume natural, não consegue penetrar a fundo na realidade do homem e da vida. Por isto, ela tem sido completada pela revelação que o próprio Deus fez de si ao homem. Assim se origina a síntese ou a resposta cristã.

Aliás, é de notar que já Platão (+ 347 a. C.), embora reco­nhecesse o valor da razão para desvendar o mistério do homem (a questão da imortalidade da alma), julgava que a razão é como uma pobre jangada, que nos leva a atravessar o mar da vida com riscos ou perigos para nós; seria melhor, dizia ele, fazermos o trajeto com mais segurança e menos perigo, usan­do mais sólida embarcação, ou seja, seguindo uma revelação divina (Fedon e. 35c-d). Ora é precisamente esta mais sólida embarcação que leva os pensadores cristãos a responder com segurança às grandes questões atinentes ao sentido da vida.

Vejamos, pois, as grandes linhas da síntese cristã.

5. A síntese cristã

Eis os principais pontos que compõem a resposta cristã.

1) O transcendental (Deus). A síntese cristã afirma a existência de Deus... Entre as numerosas razões desta afir­mativa, salientamos as de ordem antropológica. Onde há pola­rização, existe pólo; se a agulha mangnética é inquieta e atraída por algo invisível, existe esse invisível, que é o pólo Norte; ele é real, embora os sentidos não o vejam imediatamente. Ora o homem é atraído naturalmente (não em virtude dos artifícios de alguma cultura ou escola) para a Vida, a Verdade, a Feli­cidade, o Amor, a Justiça, a Paz... Por conseguinte, estes va­lores que atraem, devem existir; existe, sim, um ser que é a Plenitude ou o Ser propriamente dito, e que é, ao mesmo tempo, a Verdade, o Amor, a Vida, etc. Sem tal Ser, não se explica o mistério do homem; este seria uma agulha magnetizada sem polo Norte - o que é absurdo ou contraditório.

2) O homem. A razão pela qual o homem e, com ele, o mundo existem, é, sem dúvida, a bondade de Deus. Este, sendo o ser absolutamente perfeito, não tinha necessidade de criar. Se criou, foi porque quis fazer a criatura participante da sua vida e felicidade. Diziam os neoplatônicos: «O bem é difusivo de si». Ora, se Deus é o Sumo Bem, Ele é sumamente difusi­vo de Si. - Há, pois, na raiz da existência de cada ser hu­mano um ato de benevolência gratuita ou um ato de amor de Deus, que quer bem sem compensação ou sem interesse egoísta. Esse ato de amor é irreversível; é Sim uma vez por todas, dado que Deus não pode ser Sim e Não ou não se pode contradizer nem retratar; mesmo que o homem vacile ou se afaste, ele pode encontrar esse amor inabalável do Criador desde que re­solva voltar a Este. Esta verdade será útil, mais adiante, para se ilustrar o sofrimento humano.

O homem criado benevolamente por Deus é chamado a participar da vida divina para todo o sempre. Ele procede de Deus (por criação) como ser embrionário e retorna para Deus, através das estradas desta vida.

3) A vida presente é, pois, concedida como um cami­nhar para a «Casa do Pai» ou para a Plenitude da Vida, da Verdade, do Amor... Ela pode (e deve) ser comparada a uma gestação; com efeito, o ser humano só nasce plena e definitiva­mente no termo da sua vida terrestre. Entre o nascimento pa­ra a luz do sol e o nascimento para a luz da eternidade, vai-se formando a personalidade e vão-se desabrochando as virtualidades desta; a gestação no seio materno (onde a criança está oculta e inconsciente) se prolonga no decorrer desta vida terrestre umbrátil ou claro-escura, só terminando no dia em que o homem é projetado diretamente para a luz sem fim e defini­tiva. Se no seio materno a criança não é responsável por sua formação ou construção, já no decurso da segunda gestação o homem é, via de regra, responsável pela sua estatura e confi­guração definitiva.

4) Se realçamos o caráter provisório e passageiro desta vida (o que, aliás, é evidente à própria experiência), não que­remos dizer que o ser humano se possa considerar descompromissado em relação à realidade deste mundo. É mediante o exercício da sua missão de mediador ou de sacerdote entre o mundo material e Deus que o homem se realiza ou desabrocha as suas virtualidades e atinge a plenitude da sua estatura. O Criador entregou ao homem o mundo ainda embrionário para que este continue a obra do Criador. Tal é o sentido do trabalho humano; é digno e nobre, ainda que braçal e servil. O homem não há de trabalhar segundo seus caprichos, mas procurará construir um mundo melhor, mais consentâneo com os desígnios de Deus, que são de amor, justiça e fraternidade; trabalhar contra este plano, ou seja, a serviço do egoísmo e do ódio e desfigurar o trabalho e torná-lo obra satânica, da qual só podem resultar dissabores e amarguras para o trabalhador.

5) O sofrimento há de ser considerado neste contexto de otimismo. Resulta da desordem introduzida pelo homem na obra do Criador, por abuso do livre arbítrio. Ele quis ser «co­mo Deus» (Gn 3,5) ou auto-suficiente.

É natural, pois, que, tendo desejado assumir por soberba uma posição que não lhe compete, o homem sinta as conse­qüências da desordem acarretada. Todavia o sofrimento, em­bora suscite sempre interrogações ao homem, não é simples­mente um enigma indecifrável; o próprio Deus se dignou de assumir a sorte dolorosa e mortal do homem, a fim de trans­figurar tal realidade; assim o homem sofre justamente, mas com a esperança, ou mesmo a certeza, de que tal sofrimento, asso­ciado ao de Cristo, é passagem para a ressurreição e a glória. Em síntese: o sofrimento é explicado pelo Cristianismo como conseqüência do pecado, mas é transfigurado pela presença da misericórdia do Senhor, que faz da dor um instrumento de pu­rificação e santificação. É esta, entre todas as explicações dadas ao sofrimento, a mais plausível. A que recorre ao dualismo, admitindo um Princípio Subsistente do Mal, é antifilosófica (pois o mal é sempre uma carência e nunca um ser positivo). A última atitude da filosofia perante a dor é a da angústia e do desespero, de que dá testemunho o existencialismo ateu; o homem vê a vida como algo de absurdo, e tira as conseqüências dessa perspectiva. Ao invés, a visão cristã, embora reconheça o que tem de horrendo o sofrimento, sabe integrá-lo numa síntese de otimismo.

6) Após quanto foi dito, a morte aparece como consuma­ção, e não como ruptura da vida. É o término da gestação e a segunda ou definitiva natividade do ser humano. O cristão olha para ela não como para algo de meramente negativo, mas como algo que o ajuda a avaliar cada um dos bens que lhe ocorre; cada um destes só tem sentido se contribui para que o cristão se encontre mais livre e mais consciente, com o Bem Infinito no fim da sua peregrinação terrestre.

Eis em poucos tópicos a resposta cristã à questão do sen­tido da vida humana. É harmoniosa; todavia a sua veracidade só se comprova plenamente pela experiência ou pela vivência concreta e fiel da mesma.

Para confeccionar este artigo, em parte nos valemos do editorial da revista "La Civiltà Cattolica" n19 3038, de 15/01/1877, pp. 105-114.

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