domingo, 20 de maio de 2007

Protestantismo: os protestantes e Maria Santíssima

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 268/1983)

Publicamos abaixo um texto intitulado Manifesto de Dresden atribuído a um Grupo de teólogos luteranos da Alemanha Oriental. Este texto se acha na revista Spiritus Domini nº 5, maio 1982, pp. 20s, transcrito do Journal de la Grotte de Lourdes. Embora não possamos indicar a data do texto original nem a da referida fonte francesa que o publicou, julgamos oportuno dá-lo a conhecer ao público em PR, visto que não é caso isolado; já em PR 180/1974, pp. 491s, por exemplo, foi publicado um texto de John Wesley, fundador do Metodismo, denominação protestante, a respeito do valor de Maria SS. na dispensação da salvação.

Eis, pois, a mensagem luterana:

1. O MANIFESTO

«O culto da Virgem Maria, que data dos primeiros séculos do Cristianismo e que nunca faltou na Igreja Católica, tomou grande impulso em conseqüência das aparições de Lourdes e Fátima. Estas aparições encontraram eco no mundo inteiro e a sua importância foi posta em relevo durante o Ano Mariano proclamado por Pio XII.

Em Lourdes, em Fátima e em outros santuários marianos, a crí­tica imparcial se encontra diante de fatos sobrenaturais, que têm relação direta com a Virgem Maria, seja mediante as aparições, seja por causa das graças milagrosas solicitadas e obtidas pela sua inter­cessão. Esses fatos são tais que desafiam toda explicação natural.

Sabemos ou deveríamos saber que as curas de Lourdes e Fátima são examinadas com elevado rigor científico por médicos católicos e não católicos. Conhecemos também a praxe da Igreja Católica, que deixa transcorrer vários anos antes de declarar alguma cura milagrosa. Até hoje 1.200 curas ocorridas em Lourdes foram pelos médicos considerados como ‘cientificamente inexplicáveis’. Todavia a Igreja Católica só declarou milagrosas quarenta e quatro delas.

Nos últimos trinta anos 11.000 médicos passaram por Lourdes. Todos os médicos, qualquer que seja a sua religião ou a sua posição científica, têm livre ingresso no Bureau des Constatations Médicales. Por conseguinte, uma cura milagrosa é dotada das maiores garantias possíveis.

Qual é, pois, o sentido profundo destes milagres no plano de Deus? - Bem parece que Deus quer dar uma resposta irrefutável à incredulidade dos nossos dias. Como poderá um incrédulo continuar a viver de boa fé na sua incredulidade diante de tais fatos?

E também nós, cristão evangélicos, poderemos ainda, em vir­tude de preconceitos, passar ao lado desses fatos sem nos aplicar a um atento exame? Uma tal atitude não implicaria grave responsabi­lidade para nós? Pode um cristão evangélico ter o direito de ignorar tais realidades unicamente pelo fato de se apresentarem na igreja Católica e não na sua comunidade religiosa? Tais fatos não deve­riam, ao contrário, levar-nos a restaurar a figura da Mãe de Deus na Igreja Evangélica?

Somente Deus pode permitir que Maria se dirija ao mundo atra­vés de aparições,

Não nos arriscamos talvez a cometer um erro fatal fechando os olhos diante destas realidades e não lhes dando atenção alguma? Cristãos evangélicos da Alemanha, deveremos talvez continuar a opor-lhes recusa e indiferença? Continuaremos a nos comportar de modo que o inimigo de Deus nos mantenha em atitude de intencional cegueira?

Não deveremos talvez abrir o nosso coração a esta luz que Deus fez brilhar para a nossa salvação?

Tal problema, evidentemente, merece exame: não deve ser afas­tado de antemão por preconceito, pelo único motivo de que tais curas são apresentadas pela Igreja Católica. Uma tal atitude acar­retaria grave dano para nós mesmos e para o mundo inteiro.

Grande responsabilidade nos toca. Temos o direito de examinar tais fatos. Não nos é possível passar além e encampar tudo no silêncio.

Hoje em alguns países está em causa a existência mesma do Cristianismo. Seria o cume da tolice ignorarmos a voz de Deus que fala ao mundo pela mediação de Maria e dar-lhe as costas unica­mente porque Ele faz ouvir a sua voz através da Igreja Católica.

Como quer que seja, não nos poderemos calar por muito tempo sobre tais realidades. Temos que examiná-las a fundo, sem precon­ceito, pois é iminente uma catástrofe.

Poderia acontecer que, rejeitando ou ignorando a mensagem que Deus nos faz chegar através de Maria, estejamos recusando a última graça que Ele nos oferece para a nossa salvação.

É por isto um dever muito grave para os chefes da Igreja lute­rana e para as outras comunidades cristãs examinar tais fatos e tomar uma posição objetiva. Este dever impõe-se também pelo fato de que a Mãe de Deus não foi esquecida somente depois da Guerra dos Trinta Anos e na época dos livres pensadores da metade do século XVIII.

Sufocando no coração dos evangélicos o culto da Virgem, destruíram os sentimentos mais delicados da piedade cristã.

No seu Magnificat Maria declara que todas as gerações a pro­clamarão bem-aventurada até o fim dos tempos. Todos nós verifi­camos que esta profecia se cumpre na Igreja Católica e, nestes tem­pos dolorosos, com intensidade sem precedentes.

Na Igreja Evangélica tal profecia caiu em tão grande esqueci­mento que dificilmente se encontra algum vestígio da mesma.

Ainda uma vez estas reflexões nos impõem o dever de exami­nar os fatos citados e de tirar dos mesmos todas as conclusões decorrentes».

II. REFLEXÃO

O texto atrás transcrito sugere algumas ponderações, que vão abaixo expressas:

1) A redação de PR não pôde identificar com precisão a fonte e a data de origem da Declaração. Como quer que seja, esta não destoa de outros pronunciamentos emanados de teó­logos protestantes dos últimos decênios. É por esta razão que ela pode merecer atenção.

2) O texto transcrito fala enfaticamente de Lourdes e Fátima e das curas aí obtidas. - Ora os fiéis católicos sabem que as aparições marianas aí verificadas não constituem objeto de fé universal; trata-se de revelações particulares, que na verdade nada acrescentaram aos artigos da fé, mas apenas avivaram nos homens a consciência de que oração e penitência são indispensáveis.

3) A Igreja Católica não é propensa a admitir milagres com facilidade. Ao contrário, Ela submete os fatos tidos como milagrosos a severos exames científicos e médicos, a fim de que possa finalmente concluir, quando seja o caso, que Deus quis intervir em favor dos homens em tal ou tal episódio de cura. - Os teólogos luteranos se mostram satisfeitos com tal seriedade da Igreja Católica e julgam que os fatos extraordiná­rios registrados com exatidão cientifica em Lourdes são sinais de Deus que interpelam os homens. Cremos que tais teólogos tem toda a razão quando assim pensam; são sensíveis à eviden­cia dos fatos.

4) Todavia o grande valor do Manifesto transcrito consiste em ser tal documento um testemunho que reconhece o lugar de Maria na piedade cristã, independentemente mesmo de aparições e milagres. A teologia das denominações evangé­licas oriundas nos séculos XVI/XVII mais e mais tem desco­berto o significado de Maria SS. na economia da salvação, significado que a Bíblia e a Tradição lhe assinalam. Os Re­formadores do século XVI não foram agressivos em relação a Maria como foram e são os sectários do século XX, mas iniciaram a depreciação de Maria SS.; a sua atitude era moti­vada principalmente pelos abusos da piedade popular católica dos séculos XV/XVI, e não pela leitura das genuínas fontes da fé. Uma vez passada a época de réplica que foram os séculos XVI/XVII, Maria surge de novo gloriosa aos olhares dos irmãos evangélicos. - Isto é altamente alvissareiro, porque Maria, como Mãe dos homens (cf. Jo 19,26s), é vínculo ou elo entre os irmãos separados; é penhor de reencontro feliz dos cristãos entre si. Eis por que nos regozijamos ao perceber, através do Manifesto de Dresden, a revalorização da piedade mariana entre os irmãos evangélicos. Possa a Mãe do Bom Conselho obter do seu Divino Filho, em favor dos homens, a reta visão do papel que a Ela toca na Comunhão dos Santos!

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