quarta-feira, 16 de maio de 2007

Protestantismo: Martinho Lutero (1483-1546): um pouco de sua personalidade

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 271/1983)


O Pe. Paschoal Rangel, teólogo e jornalista benemérito, publicou no jornal O LUTADOR de Belo Horizonte, com data de 26/06 a 02/07/1983, um artigo intitulado «Respondendo aos leitores: O CASAMENTO DE LUTERO». Este artigo, escrito no intuito de esclarecer um correspondente, pode ser útil a grande círculo de leitores. Dai o propósito de transcre­vê-lo nas páginas subseqüentes da nossa revista:

O CASAMENTO DE LUTERO

O Dr. Abelardo Moreira da Silva observava, na carta da semana passada, em segundo lugar:

"Mais adiante, lê-se que Lutero se casara com Catarina de Bora. Ora, sempre ouvi dizer e aprendi, quando estudante, que o monge agostiniano retirou a religiosa do convento para se unir a ela (amancebar-se)".

RESPONDENDO

Bem, se eu quisesse responder curto e grosso, ou - como dizia Lutero - « rund und rein», lhe responderia, caro amigo, como Da­niel Rops: «Esse casamento de um padre apóstata - que confissão (de fracasso)! (Daniel ROPS, L'Église de la Renaissance et de La Re­forme, Paris, Fayard, 1957, p. 354).

Mas o próprio Daniel Rops adverte: «Isto, para um católico, está claro. Pois a perspectiva protestante é oposta: um pastor celi­batário não é um pastor completo ( ... ). Por conseguinte, para um protestante, casando-se, Lutero não se traiu a si mesmo, nem à sua espiritualidade. Ao contrário, ele a completou por uma experiência essencial» (id. ib.).

Deste ponto de vista um tanto simplista, se se continuasse con­siderando Lutero um padre católico, tínhamos de dizer rudemente que ele não só apostatara, mas começava a viver, com uma ex-freira, também infiel a seu voto de castidade, um concubinato duplamente sacrílego.

***

A questão, porém, é bem mais complexa. Para Lutero, a coisa não era tão natural e pura quanto seria para um pastor de hoje. Nem tão suja e errada quanto para um católico de rígida obser­vância.

RAZÕES DE LUTERO

Formado em estrita doutrina e disciplina monásticas, e tendo sempre entendido que só poderia salvar-se, se praticasse as boas obras (a penitência, o jejum, a abstinência, as orações e vigílias, a castidade, a obediência etc.); não tendo nunca percebido, enquanto católico, o papel absolutamente primordial, antecipativo, gratuito, de Deus, de sua misericórdia e perdão, de sua graça em nós pela fé e o amor, Lutero tinha vivido uma vida atormentada, cheia de escrú­pulos e angústias. Quando, a partir da «revelação» que julgou ter recebido, numa inefável «experiência da misericórdia», se entregou inteiramente ao perdão e à bondade de Deus na fé (fé = con­fiança total, abandono amoroso), não foram apenas os tabus, os escrúpulos, os falsos temores que ele exorcizou. Ele mudou, ele revi­rou pelo avesso sua teologia, sua maneira de ver Deus, o homem, o mundo, o pecado, a graça, a salvação.

De repente, julgou perceber que as «boas obras» não serviam para nada, na ordem da salvação. «Boas obras» eram como as obras da Lei, para S. Paulo. Por que ficar macerando o corpo com penitências, vigílias, jejuns, abstinências, celibato e outras coisas assim? Não era isso que salvava. E a Igreja do Papa, que impunha tais obras aos homens, estava era escravizando as pessoas a Satanás. A preocupação com essas obras, como se elas pudessem trazer a sal­vação, era uma astúcia do diabo, para perder as pessoas. Enquanto os homens se preocupassem com tais obras, estariam presos às suas angústias e medos, e não, fazendo a única coisa realmente salvífica: entregar-se na fé a Jesus Cristo, único Salvador.

A partir daí, e na medida em que a Igreja de Roma não acei­tava sua teologia, Lutero sentia cada vez mais separar-se dela. A questão do celibato, inclusive do celibato -dos monges, acabou-se ligando, no pensamento de Lutero, a essa tomada de posição básica e global.

***

No começo, em 1518, o casamento de padres ou monges, que tinham voluntariamente feito voto de castidade, parecia-lhe «o mais grave dos sacrilégios». Mas alguns «evangélicos», como Bernhardi e Carlostadt, desafiaram seus escrúpulos e casaram ruidosamente. Uma porção de religiosos iam deixando os conventos e reclamando o direito de se casarem. Carlostadt tenta uma justificação teórica desses casa­mentos, mostrando que o celibato não é uma instituição evangélica. Lutero hesita. Não concorda com os argumentos de Carlostadt. Con­tinua pensando, ainda em 1521, que, se os religiosos emitiram seu voto de castidade livremente, por sua escolha consciente, não tinham agora o direito de se desligar dele. No entanto, a situação prática o obrigava a tomar posição. Não apenas Carlostadt continuava sua campanha contra o celibato dos religiosos, mas o número daqueles que deixavam o convento e se casavam ou procuravam apoio dou­trinal para casar, era cada vez maior. Lutero tinha de se pronunciar, pois a situação comprometia seriamente a imagem da Reforma. Ainda a 6 de agosto de 1521, ele escreve a Spalatino: «Por Deus, nossos wittemburguenses estão arranjando mulheres até para os monges! Ao menos para mim, nunca!» (Ao pé da letra, seria: «Mas a mim, não vão impingir mulher nenhuma!» - At mihi non obtrudent uxorem!).

A meditação dele continuava, porém. E, um dia, - as coisas em Lutero tinham muito dessas «iluminações» repentinas - ele «sente» e parece compreender que o celibato era mais uma daquelas obras de satanás que, no papismo, se chamavam «boas obras». Os votos religiosos não passavam de ações nascidas do espírito de orgu­lho: as pessoas contavam com elas para adquirirem a santidade e a salvação. Por isso, os votos religiosos eram também viciados, maus. Assim como toda «boa obra» é, naturalmente, isto é, sem a graça, pecado, assim também o voto religioso é pecaminoso. Longe de obri­gar-nos, ele deve ser desfeito.

Como vêem, na lógica da Reforma, o casamento dos frades ou monges não podia mais ser impedido por antigos votos de castidade. Até pelo contrário. Talvez alguns devessem casar, exatamente para provarem que estavam livres da escravidão papista das «boas obras».

O CASAMENTO DE LUTERO

Isto não obstante, Lutero não queria, pessoalmente, casar-se. Al­guns companheiros insistiam com ele nesse sentido. E ele continuava irredutível. «Para que casar, se ele estava destinado à fogueira como herege, e certamente morreria em breve?» Muitas vezes, ele opôs esse argumento aos amigos.

No entanto, havia-se metido numa aventura meio estúrdia, ao envolver-se na fuga rocambolesca de doze monjas cistercienses de seu mosteiro. (Com a ajuda, negociada por Lutero, de um forne­cedor de arenques que eram levados em barris para o convento, as monjas conseguiram fugir escondidas nos barris supostamente vazios, depois da descarga da encomenda. E Lutero as abrigou no convento de Wittenberg, onde ele morava).

Três dessas religiosas voltaram para suas famílias. As nove outras ficaram no convento, e Lutero foi arranjando casamento para elas. No fim, sobrou Catarina de Bora, que não conseguia casar-se com ninguém. E que terminou por propor casar-se com o próprio Lutero. Ele resistia, brincava com a idéia, e andou escrevendo umas chocarrices sobre sexo e amores para os amigos, às vezes tão gros­seiras que uma pessoa mais delicada, como Melanchton, acabou dizendo um dia: «Oh! Se Lutero ao menos se calasse!...» (Se dei­xasse de falar bobagem... ).

* * *

Mas algumas coisas aconteceram que mudaram os sentimentos de Lutero. A proposta de Catarina; a intermediação de Amsdorf; o pedido de seu pai que desejava ver o nome dele perpetuado. Me­lanchton acha que o convívio com tantas mulleres na mesma casa amoleceu o coração e ajudou a transformar suas idéias. Por sinal, o amigo Melanchton ficou seriamente chocado com o acontecimento e suas circunstâncias. E não pôde deixar de abrir o coração com outro amigo, numa carta deliberadamente escrita em grego, a fim de difi­cultar a propagação:

"Você talvez fique espantado de saber que, numa época em que os homens capazes e as pessoas de bem estão sofrendo por toda parte grandes tribulações, ele (Lutero) não tem sequer compaixão e, ao menos na aparência, vive indolentemente e desonra sua vocação, enquanto a Alemanha teria necessidade de toda sua prudência e de toda sua força".

E explicando como se deu em Lutero a decisão de casar-se:

"Eis como me parece que a coisa aconteceu: nosso homem é muito facilmente abordável (Pe. Franca traduz: é extremamente leviano) - e as freiras, que lhe atiravam laços com grande astúcia, acabaram por enredá-lo. Talvez essa convivência prolongada o tenha tornado mulherengo ou mesmo ateado a sua paixão, embora ele tenha nobreza e elevados sentimentos. Porém, os mexericos que correram a respeito dele e de relações ilícitas não têm fundamento... No mais, espero que o casamento o torne mais recatado e o faça renunciar às truanices, sobre as quais muitas vezes já o advertimos". (Carta de Melanchton a Camerarius, de 16/6/1525).

Na famosa «Vida de Martinleo Lutero», que ele intitulou «Here I stand», Roland H. Bainton, indo além da explicação de Melanchton, diz que Lutero mesmo deu três razões para o próprio casamento: «agradar ao pai, afrontar e desafiar o Papa e o Demônio e selar seu testemunho antes do martírio» (New York, A Mentor Book, New American Library, 1955, p. 225).

A coisa pode parecer uma piada, mas não é. O testemunho que ele pretendia selar com esse desaforo lançado à face do Papa e do Demônio era o de um homem que acreditava no poder salvador da misericórdia de Deus que não nos imputa nossos pecados, mas não aceita nossas «boas obras», nem pode precisar delas para nos sal­var. O celibato era mais uma dessas «boas obras» do diabo, cheias de orgulho e pecado, que era preciso desprezar.

Por outro lado, no íntimo de sua alma, ainda e sempre angus­tiado, ele tinha necessidade de bravatas (contar vantagens) do tipo «desafiar e zombar do Papa e do Diabo», de mostrar não ter medo de escandalizar e de atrair as iras dos papistas e dos filhos de sata­nás, para - com esse tipo de reafirmação chocante de suas «cer­tezas» - sentir-se mais seguro e em paz na sua consciência. Esta é a interpretação, pelo menos, de alguns bons autores, inclusive do importante e respeitado historiador, Lucien Febvre, em seu «Un Destin: Martin Luther» (Paris, PUF, 1945, pp. 184-185; cf. p. 108).

***

Neste sentido, e não querendo julgar a consciência dos outros, nem desrespeitar a liberdade religiosa de ninguém - podemos continuar falando de «casamento» de Lutero. Se ele agiu correta­mente, é um problema que ele vai ter de resolver com o seu miseri­cordioso Senhor.

Pe. Paschoal Rangel

BeloHorizonte

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