quarta-feira, 30 de maio de 2007

Igreja, críticas: a Igreja, responsável pela miséria dos povos?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 053/1962)

«Diz-se que a Igreja é culpada do desequilíbrio social hoje existente, por se ter descuidado das classes mais humildes durante séculos e haver fomentado o pauperismo na Idade Média.»

«A condição de vida do servo da gleba medieval é uma mancha na história do Cristianismo?»

«A Igreja está despertando tarde demais para os pro­blemas sociais. Outros já lhe tomaram o lugar.»

Antes do mais, interessa observar, nas questões acima, um porme­nor de expressão: a linguagem cristã distingue entre a Igreja e seus filhos ou os homens que pertencem à Igreja. Esta, como tal, é a «Es­posa de Cristo sem mancha nem ruga» (cf. Ef 527); não está sujeita a culpa, mas é a primeira a denunciar toda e qualquer culpa existente em seus próprios filhos. Se a história do Cristianismo apresenta pontos falhos, isto se deve aos homens ou aos filhos da Igreja que, por fra­queza humana, se comportaram de maneira contrária aos ensinamentos da Esposa de Cristo; na medida em que procederam erradamente, não representaram a Igreja, embora não deixassem de ser católicos.

Para entender e julgar devidamente o proceder dos cristãos refe­rente às questões sociais, é preciso reconstituir o ambiente e a menta­lidade das sucessivas épocas da história e tentar revive-las, em vez de lhes aplicar as categorias de pensamento do séc. XX. Obtêm-se então conclusões bem diferentes das que comumente são proferidas. Procura­remos, por conseguinte, na resposta abaixo, recompor as notas caracte­rísticas das três grandes fases da história (antiga, medieval e mo­derna), a fim de avaliar, com justiça, o comportamento social dos cristãos.

I. Idade Antiga

1. O Cristianismo teve origem num mundo cujos modos de pensar e viver já estavam estabelecidos... e estabelecidos na base de uma mentalidade pagã. Basta lembrar a maneira como os gregos e os ro­manos se comportavam nas suas relações sociais.

a) Na Grécia. Nas grandes cidades dos pais (Atenas, Esparta, Tebas...), a sociedade constava, a rigor, de duas classes: os cidadãos propriamente ditos e os escravos, estes em número muito maior do que aqueles (em Esparta havia cerca de 200.000 escravos ou ilotas para 30.000 cidadãos). Ter muitos escravos, faze-los trabalhar nos campos ou alugá-los para a exploração das minas, tais eram para os gregos, meios ou condições para cultivar a beleza do corpo e consagrar o espí­rito à filosofia, às letras e às artes. Os homens livres costumavam des­frutar os prazeres da vida intelectual, artística e esportiva à custa de pe­noso trabalho braçal infligido aos escravos; os espartanos chegavam a matar os servos que se distinguissem na guerra, pois poderiam consti­tuir perigo para o Estado, caso se tornassem muito numerosos (Tucídides, por exemplo, narra o morticínio de 2.000 escravos, assim ocasio­nado; cf. «Guerra do Peloponeso» IV, LXXX).

O grande filósofo Aristóteles ( 322 a. C.) justificava tal estado de coisas, asseverando que há homens nascidos para a escravatura, como há os que nasceram para a liberdade; aqueles estão para estes como o corpo para a alma ou como o instrumento para o operário; trata-se de gente que não tem direitos porque os direitos só existem entre iguais; nem tem virtude propriamente dita, porque a virtude só lhes é necessá­ria dentro dos limites das tarefas que os patrões lhes assinalem; nem têm família, a não ser na medida indicada pelos interesses dos amos (cf. Polit. I, II, 4.14.15. 23; V 6.9.11; Etic. a Nic. VIII XI 6). Contra eles será sempre legítima a guerra, pois vem a ser uma espécie de caça a homens que nasceram para servir e que não se querem subme­ter (Polit. I III 8).

Verdade é que uma reação contra tais idéias se levantou na escola filosófica dos estóicos. Dizia, por exemplo, o fundador desta, Zenon de Cízio ( 264 a. C.):

«Há uma servidão que provém da conquista (militar), e uma servi­dão derivada de compra. A uma e outra corresponde o direito do amo, e esse direito é mau» (cf. Diógenes Laércio VII 1).

Contudo estas palavras ficavam sendo vã teoria...

Quanto aos pobres e mendigos em particular parece que grande era o seu número na Grécia. Homero (séc. VIII a. C.) os descreve, «tendo um cajado na mão, um saco perfurado nas costas, preso às es­páduas por um cordame gasto» (Odiss. XIII V 429-440).

Em Atenas, o Estado se encarregava de mitigar a sorte dos cida­dãos indigentes em certas circunstâncias; beneficiava assim os mutila­dos, os órfãos de guerra, as pessoas incapacitadas de trabalhar e as donzelas pobres que se quisessem casar; contudo tais auxílios não preen­chiam as lacunas; disseminavam, antes, discórdias e rixas, porque eram animados por fria justiça ou por interesses políticos e utilitários. Pode-se dizer que na Grécia o pobre não era propriamente amado, pois a po­breza é feia, e o grego amava a beleza. Para que os homens prezassem realmente a sorte dos indigentes, era necessária uma inversão na es­cala dos valores...

Nem as associações religiosas da Grécia tinham finalidade filan­trópica; só promoviam reuniões e sacrifícios prescritos pelo culto sa­grado e cuidavam do sepultamento de seus membros.

A caridade dos particulares devia naturalmente exercer-se. Suas manifestações, porém, não terão sido de grande vulto, pois os documen­tos históricos quase não a mencionam.

b) Em Roma. Não era muito diverso o tratamento que os roma­nos dispensavam aos pobres e aos escravos. Vão aqui mencionados al­guns traços das condições sociais do Império Romano.

O pai de família («paterfamilias») gozava de autoridade absoluta sobre a esposa e os filhos; tinha o direito de vender a prole, afogá-la, atirá-la aos cães e às aves de presa ou expô-la ao público; o aborto era muito freqüente. Esses costumes provocavam a exclamação pesarosa de Plínio o Antigo: «Quanto somos, por este motivo, mais indignos do que os animais!» (Nat. hist. X LXXXIII).

Quanto aos escravos, eram, em conseqüência de guerras vitoriosas, ainda mais numerosos entre os romanos do que entre os gregos. Os filósofos, principalmente os estóicos, incitavam o público á benignidade para com eles; a jurisprudência, porém, era pouco «humana», como atesta, por exemplo, o caso abaixo

Uma lei prescrevia que, se algum amo fosse assassinado em sua residência, todos os seus escravos sofressem a pena capital, pois se supunha que tivessem podido defender o patrão e impedir o crime (Digest. XXIX V, De senat. consult. Silaniano et Claudiano 1 a 4). Aconteceu então que o prefeito de Roma, Pedânio Secundo, foi assassi­nado por um escravo a quem recusara dar a liberdade, depois de haver assentado com ele o preço do resgate e prometido a emancipação. As autoridades aplicaram ao caso a lei vigente, matando, em conseqüên­cia, quatrocentos escravos inocentes, apesar dos protestos do povo; o senador Cássio justificava o procedimento, alegando que «esse vil tro­pel dos escravos só podia ser guiado pelo temor» (cf. Tácito, Anais XIV XLIV).

Tais medidas drásticas pareciam realmente impor-se, pois, sendo o número de escravos maior do que o dos homens livres, facilmente po­deriam sacudir o jugo, caso conseguíssemos tramar a revolução.

Aos cidadãos livres, mas indigentes, o Senado e, mais tarde, os Imperadores romanos tratavam de distribuir «panem et circenses», viveres e espectáculos, que, em vez de remediar as indigências da mul­tidão, só contribuíam para infantilizá-la e torná-la dependente de corren­tes ou chefes políticos. Não era propriamente a caridade que se exercia em tais casos.

Sabe-se outrossim que a «Lei das XII Tábuas» permitia aos credo­res retalhar entre si o corpo do devedor que não pudesse pagar («Ta­bula tertia»). É bem possível que esta medida nem sempre não haja sido executada; em todo caso, Tácito descreve como certos lavradores, incapazes de pagar suas dividas, foram acabrunhados de trabalho, lan­çados ao cárcere. acorrentados e vendidos no «Trastevere» (Anais VI XVI).

É verdade que, com o tempo, principalmente no limiar da era cristã, a legislação oficial do Império procurou tomar medidas mais humanitá­rias. Contudo essa reação parece ter sido pouco influente. Os estóicos, que repudiavam a crueldade, se fechavam num desdém orgulhoso para com tal sociedade pervertida; quando o julgavam oportuno, chegavam a subtrair-se ao próximo e à luta, pondo termo à própria vida mediante o suicídio. Sêneca mesmo apelou para este recurso, que ele recomen­dava aos escravos e aos numerosos cidadãos atribulados como remédio para seus males: «Tam prope libertas est, et servit aliquis! - Tão próxima está a liberdade; não obstante, há quem se sujeite á servidão!» (ep. LXX. LXXXVII. XCI; De provid. 6; Ad Mareiam 20).

2. Foi nesse ambiente social que o Cristianismo teve ori­gem e iniciou a sua difusão. Os arautos do Evangelho encontra­vam, como dissemos, uma civilização feita, dotada de seus modos de pensar e viver bem característicos. Era preciso refun­dir por completo as instituições e os moldes dessa sociedade para aí poder implantar a mensagem de Cristo. Tal remodela­ção começou a ser possível quando o Império Romano caiu sob os golpes dos bárbaros: coube naturalmente à Igreja (única autoridade que ainda ficava de pé) intervir no caos social, a fim de salvar a cultura antiga e transmiti-la aos novos povos. Con­tudo a reforma da mentalidade não se faria repentinamente; assim como num indivíduo a mentalidade rude ou infantil não se muda de um momento para outro, mas há desenvolvimento or­gânico, assim no gênero humano a transição de um modo de pensar «infantil» e rude para nível mais apurado não se fez em um ou dois séculos, mas exigiu tempo proporcionalmente mais longo, ou seja, o tempo necessário para que as idéias tão descon­certantes do Evangelho amadurecessem na mente dos povos cristianizados.

Compreender que pode haver valor (mesmo os mais preciosos va­lores) independentemente das riquezas e dos afagos que o mundo ofe­rece e que a natureza espontaneamente cobiça, não era (nem é) coisa fácil para a mentalidade humana; ver no pobre e no doente um ser que merece apreço, porque Deus ama os pequeninos, eis outra aparente tolice do Evangelho que a razão humana dificilmente aceita.

É o que nos obriga a julgar as expressões do Cristianismo através da história, não à luz daquilo que os homens compreen­dem e realizam no séc. XX, mas à luz das circunstâncias da res­pectiva época; assim entender-se-á a evolução progressiva do pensamento, de modo que muita coisa que a nós (beneficiados por mentalidade mais madura) parece recuo ou degradação, aos antigos e medievais devia parecer verdadeira elevação da men­talidade e dos costumes.

Vejamos, pois, como praticamente se comportaram as autoridades da Igreja frente ao problema da pobreza nos primeiros séculos da era cristã (o que se refere à escravatura, já foi abordado em «P. R.» 22/1959, qu. 5).

3. Desde os primeiros tempos foram instauradas nas cida­des em que o Evangelho penetrava, as chamadas diaconias, isto e, postos de assistência aos pobres que tinham à sua frente um diácono: este possuía um registro especial dos indigentes que lhe eram confiados segundo as suas necessidades.

As fontes de renda das diaconias eram:

a) as contribuições espontâneas dos cristãos fervorosos: «Cada qual traz módica oferta no começo de cada mês, ou quando o queira, sempre de acordo com as suas posses» (Tertuliano, Apol. 39);

b) as oblações dos fiéis feitas no ofertório da Missa: «Promove-se uma coleta, para a qual contribuem todos os que o desejem e possam. Os resultados são entregues ao presidente da assembléia, que os destina às viúvas e aos órfãos, aos pobres e aos doentes, aos prisioneiros e aos estrangeiros» (S. Justino, Apol. I 67);

c) as doações feitas pelos cristãos mais ricos na ocasião do seu batismo ou ao preverem seu próximo martírio;

d) o jejum... «É preciso que outro coma em teu lugar o que terias comido, se não tivesse jejuado, a fim de que do jejum resulte duplo benefício: para ti, a expiação; para teu irmão, a cessação da fome» (São João Crisóstomo, serm. sobre o jejum).

Como se vê, era um intenso espírito de fé e fervor religioso que animava a beneficência ao pobre, tornando-a pura de egoísmo interesseiro; o amor ao próximo vinha a ser realmente a irradiação do amor a Deus, consoante o adágio comumente repetido na primitiva Cristandade: «Viste teu irmão, viste teu Deus».

Quando no séc. IV foi concedida aos cristãos a liberdade de se expandir publicamente, ergueram-se grandes edifícios desti­nados a obras de assistência social: assim os chamados «Xenodóchia» ou albergues para viandantes e estrangeiros; nosocô­mios ou hospitais; «brephotróphia» ou casas em que se alimen­tavam as crianças (maternidades ou creches, na linguagem mo­derna); «orphanotróphia», lugares em que se educavam os órfãos; «gerontocômia» ou asilos para velhos; «ptochotrôphia» ou casas para alimentar os pobres... Além disto, deve-se men­cionar a «Basileida», verdadeira cidade fundada em 369 por São Basílio, bispo de Cesaréia da Capadócia, perto da sua cidade episcopal, e destinada aos mais diversos usos da caridade: era albergue, hospital, leprosário, escola de manufatura e indústria...

Eis alguns exemplos significativos do que era a solicitude dos cris­tãos pela melhora do nível de vida de seus semelhantes. Embora não pudessem retocar a estrutura da sociedade em que viviam, os discípu­los de Cristo, animados de tal zelo, surpreendiam os seus concidadãos pagãos: deviam fazer o papel de autênticos pioneiros... É o que se depreende, dentre outros indícios, do fato de que o Imperador Juliano o Apóstata, desejando suplantar a Igreja, incitava os sacerdotes pa­gãos a imitar o exemplo humanitário dos cristãos; assim, por exemplo, escrevia ele em 362 a Arsácio, sacerdote da Galácia

«Porque não levaríamos em conta as instituições às quais a ímpia religião dos cristãos deve a sua expansão? ... Porque não daríamos atenção aos seus cuidados pressurosos para com os viandantes?... Tratai, pois, de construir em cada cidade numerosos albergues... Man­dei distribuir por toda a Galácia 300.000 medidas de trigo e 60.000 de vinho. A quinta parte ficará para os sacerdotes incumbidos deste en­cargo; o resto será para os viajantes e os mendigos. Pois é vergonha para nós que entre os judeus não haja mendigo e que os ímpios galileus alimentem não só os seus pobres, mas também os nossos, os quais parecem estar carecendo do socorro que lhes deveríamos prestar» (Ju­liano, Obras, ed. Talbot 413s).

Este texto parece resumir bem o que era a «revolução social cristã» na Idade Antiga. Passemos, pois, à consideração da

II. Idade Média

1. Na transição da Idade Antiga para a medieval a Igreja desempenhou uma ação social de notório relevo.

a) Bastaria lembrar que os bispos receberam então o tí­tulo de «defensores civitatis» (defensores da cidade ou do Es­tado).

Eram eles quem, durante e após as invasões bárbaras, represen­tavam a esperança de reconstrução; a eles o povo recorria espontaneamente em suas necessidades tanto espirituais como materiais. À expec­tativa comum os prelados respondiam, criando hospitais, asilos, abrigos para pobres, viandantes, procurando libertar prisioneiros de guerra mesmo mediante a venda dos vasos sagrados das igrejas, etc. Sejam apenas mencionados os nomes de São Martinho de Tours ( 397), S. Ger­mano de Paris ( 576), S. Cesário de Arles ( 542), S. Gregório Magno ( 604).

b) A ação dos bispos se associava a dos mosteiros, que recobriram o território europeu na Idade Média: os monges lavravam os campos, ensinavam aos bárbaros tanto as letras como a agricultura e os ofícios manuais, formavam a juventude abrindo escolas em seus mosteiros, cuidavam dos doentes, an­ciãos e viajantes em dependências situadas nas terras das Abadias.

Um dos exemplos mais significativos é o do mosteiro do Abade São Columba ( 597) na ilha de Lona (Escócia). Nesta e nas regiões vizinhas, o Santo e sua comunidade ensinavam aos camponeses como procurar os veios de água, como proceder à irrigação regular, como des­viar os leitos dos rios e riachos, como realizar o enxerto de árvores fru­tíferas; forneciam instrumentos de trabalho, socorriam nos períodos de epidemias, dirimiam litígios da população, etc. - O exemplo de Lona foi imitado pelos monges de S. Columbano ( 611) e São Bento ( 547) no continente europeu.

c) As igrejas paroquiais, por sua vez, tiveram anexos a si centros de assistência social (escolas, abrigos, asilos...) .

d) Na Alta Idade Média constituíram-se mesmo Ordens Hospitalares, isto é, famílias religiosas cujos membros se con­sagravam a Deus mediante os votos de pobreza, obediência e castidade a fim de servir aos enfermos.

O modelo destas instituições foi a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, suscitada pelas necessidades das Cruzadas; imitaram-na a Ordem do Espírito Santo, a de São Tiago do Passo Alto e a dos Ca­valeiros Teutônicos, além de numerosas outras, menos importantes.

e) Muito comum na Idade Média era o que se chama «Santa Casa» («Maison-Dieu» ou «Hôtel-Dieu», no francês da época). Constituía quase uma cidade, em que se exerciam ou ensinavam as sete clássicas obras de misericórdia: 1) dar de comer a quem tem fome; 2) dar de beber a quem tem sede; 3) hospedar o estrangeiro; 4) vestir a quem está nu; 5) tratar dos doentes; 6) libertar os encarcerados; 7) sepultar os mortos.

Nesses estabelecimentos podiam encontrar auxilio também os alie­nados (recolhidos em pavilhão especial), as gestantes, parturientes e as crianças abandonadas. A mor parte de tais institutos foi fundada nos séc. X/XI por bispos ou cônegos; eram confiados a Irmãos e Irmãs hospitalares, obedeciam a um regimento interno assaz minucioso, que visava, dentro da compreensão da época, dar o máximo de assistência aos enfermos.

Tenha-se em vista, por exemplo, a seguinte prescrição do Regula­mento que o bispo Ricardo, de Amiens, redigiu em 1207 para a Santa Casa de Montdidier

«Sejam os doentes levados para os seus leitos e aí servidos todos os dias caridosamente como se fossem os senhores da casa, mesmo quando os Irmãos e as Irmãs estiverem fazendo suas refeições. E tudo que o enfermo desejar, se puder ser encontrado e não lhe for nocivo, ser-lhe-á dado segundo as possibilidades do estabelecimento, até que volte para casa no gozo de sua saúde» (cf. V. de Beauville, Histoire de Ia ville de Montdidier III 365).

Esta norma traduz bem a simplicidade bondosa que a fé cristã despertava nos medievais.

f) Outra instituição da Igreja em benefício da sociedade foi a chamada «trégua de Deus», ou seja, a interrupção perió­dica dos combates armados, a fim de abrandar os horrores da guerra e facilitar a restauração da paz. Destarte a Igreja pro­curava impor limites às guerras que ela não podia impedir.

Em geral, a trégua se estendia da quarta-feira à noite até a se­gunda-feira seguinte de manhã; compreendia outrossim as semanas do Advento (anteriores a Natal), da Quaresma, o tempo pascoal, as vigílias de solenidades e as festas de Nossa Senhora. A legislação da trégua declarava igualmente invioláveis pela guerra certas pessoas e certos objetos, como os clérigos, os lavradores e seus instrumentos, as mulhe­res, os comerciantes, os viajantes, o gado... As igrejas, as cruzes er­guidas junto às estradas e os cemitérios eram tidos como pontos de refúgio indevassáveis pelos beligerantes.

Estas disposições contribuíam, sem dúvida, para refrear as paixões do homem medieval, que, por mais rude ou impulsivo que fosse, não deixava de crer nos valores religiosos e na autoridade das leis que visavam defender tais valores.

g) Levem-se em conta ainda as numerosas corporações de artes e ofícios, associações religiosas e Ordens Terceiras e, por fim, as obras de iniciativa particular que durante o período medieval estiverem a serviço do próximo...

«De todos os estudos de história realizados em torno da Idade Média, será lícito tirar esta conclusão:... de modo geral, a assistência aos indigentes estava organizada e em tempos normais bastava para as variadas necessidades... Somente as grandes calamidades, em parti­cular a peste e a fome, assim como as novas condições econômicas da Europa no fim da Idade Média, contribuíram para aumentar a pobreza e a mendicidade, tornando insuficientes os moldes ordinários e normais da caridade» (L. Prunel, Pauvres [les] et l'Eglise, em «Dictionnaire Apologétique de Ia Foi Catholique» III 1690).

Os medievais praticavam a assistência social dentro dos limites da sua compreensão e das suas possibilidades; não lhes passavam pela mente certas instituições que, para nós hoje, são óbvias, como aposen­tadorias, pensões, férias remuneradas, etc.; por isto o fato de não terem oferecido tais benefícios ao trabalhador não significa omissão culposa... As preocupações dos medievais se dirigiam espontaneamente para outros objetivos que não esses.

2. Replicar-se-á ainda: mas a Idade Média produziu, quase como expressão típica de sua civilização, a categoria do servo da gleba. Não era esta uma condição de vida aviltante ?

Em resposta, lembraremos o seguinte: a situação do servo da gleba significa, sem dúvida, um recuo em relação ao nível de vida a que o homem do séc. XX pode normalmente aspirar. Contudo a mesma condição significava progresso em comparação com as condições de vida da Idade Antiga. O servo da gleba vem a ser assim um tipo de transição entre o escravo romano e o homem livre (às vezes, exageradamente cioso de liberdade) do séc. XX. E esse tipo de transição era necessário; exigiam-no as circunstâncias mesmas e a mentalidade da época.

Com efeito; as invasões bárbaras, a partir dos séc. V/VI, tornavam caótica a vida pública européia: em meio à instabi­lidade da ordem de coisas, muitos camponeses se sentiam inca­pazes de garantir o ganha-pão por si sós; procuraram então livremente colocar-se sob a tutela de um senhor poderoso, ao qual dedicavam inteiramente o trabalho de seus braços, ficando fixos ao solo que habitavam; em troca disto eram devidamente defendidos contra as hordes dos invasores bárbaros; instaurou-se assim uma semi-servidão. De fato, o servo da gleba, embora não tivesse a liberdade de deixar a terra, gozava dos plenos direitos de esposo e pai. Ora é a partir da Idade Antiga e dos costumes anteriores à Idade Média, e não a partir da Idade Moderna, que devemos julgar o que os servos da gleba representam na história. Ponderem-se a rudez (ou também a infantilidade) do homem medieval, sua falta de preparo ou de formação para gozar de certos direitos; e concluir-se-á que o usufruto de todos os direitos poderia por vezes tornar-se nocivo, em vez de útil, a não poucos dos cidadãos medievais.

Quem lê os tratados dos teólogos da época referentes à servidão, verifica que tinham expressões «avançadas» em relação às da mentali­dade antiga.

Considere-se, por exemplo, a seguinte passagem de Duns Scoto ( 1308): concernente «àquela maldita servidão» («de servitute illa maledicta») pela qual «o escravo é assemelhado ao animal...»:

«O escravo, por mais escravo que seja, fica sempre sendo criatura humana, e sempre dotado de liberdade; destarte se manifesta a grande crueldade cometida na instituição da escravatura, a qual rebaixa o homem à condição de animal bruto, priva da liberdade moral, torna virtuosamente o homem dotado de livre arbítrio, criado para ser senhor de seus atos e feito para viver segundo a virtude (ex quo patet magna crudehtas fuisse in prima inductione servitutis, quia hominem arbitrio libeçum et dominum suorum actuum facit quasi brutum et libero arbitrio non utentem, nec potentem agere virtuose)» (In IV Sent. dist. 36, qu. unica).

São Tomaz fazia eco antecipado a tais afirmações, dizendo que o homem, mesmo quando e escravo ou súdito, mesmo quando obedece às ordens de outrem, obedece em virtude do seu livre arbítrio; é gover­nando a si mesmo que o homem obedece a quem o governa (S. Teol. II/II 50, 2c).

O mestre franciscano Pedro Auréolo ( 1322), por sua vez, admi­tia que os homens menos capazes fossem submetidos aos mais capazes; mas essa servidão quase natural, acrescentava ele, deveria ser enten­dida no sentido de servidão política e civil. O homem não poderia ser assujeitado de outro modo, pois é por natureza uma personalidade livre, senhor de seus atos, um animal dominador (quia honro est animal dominativum naturalite). Assemelhá-lo, portanto, a um animal de carga que o amo pode vender ou dar, e que se torna incapaz de exercer o seu livre arbítrio, é ferir os direitos da natureza (ergo quod aliquis hoc modo siv servus, videtur esse contra ius naturae) (In IV Sent. dist. 36, qu. unica, art. unic.)­

Estes textos, ao lado dos quais ainda se poderiam citar outros vários, já mostram que os homens da Igreja na Idade Média tinham consciência do seu dever de levantar o nível de vida dos concidadãos mais necessitados. E atendiam a esse dever... naturalmente não como no séc. XX se faz, pois como na Idade Média se podia pensar em fazer...

Eis, porém, que uma grave objeção ainda costuma ser formulada contra a Igreja no tocante à:

III. Idade Moderna

Na questão n° 8 deste fascículo completaremos o percurso da história que começamos nos dois parágrafos anteriores da presente res­posta.

Aqui apenas nas deteremos sobre a queixa freqüentemente proferida contra os cristãos: a Igreja está despertando tarde demais para os problemas sociais. Ela só o faz porque se vê im­pelida pela pressão dos adversários; por seu descaso Ela permi­tiu que os marxistas tomassem a si a orientação das massas e descristianizassem o operariado...

A estas dificuldades responderemos:

1) Impõe-se, antes do mais, a distinção que já apontamos, entre a Igreja e os filhos da Igreja... Se houve culpas no decorrer da histó­ria do Cristianismo, elas se devem não aos ensinamentos da Igreja, mas à incoerência dos filhos da Igreja, que nem sempre representaram dignamente a Esposa de Cristo sem mancha nem ruga (cf. Ef 5,27). Esta, aliás, não se identifica integralmente com nenhum de seus filhos.

2) No que concerne à questão social e aos cristãos em particular, devem-se evitar as afirmações generalizadas, que muitas vezes são injustas. As páginas anteriores já procuraram evidenciar como os cristãos até a Idade Moderna tiveram em mira a melhora do padrão de vida do seu próximo. Aconteceu, porém, nos séc. XVIII/XIX algo de inédito em toda a história o progresso técnico, industrial e comercial se foi acelerando em ritmo imprevisível ou quase vertiginoso; ao mesmo tempo a po­pulação do globo se ia aumentando em proporções assustadoras; novos horizontes e novas perspectivas se abriram para o homem moderno; o espírito de conquista ou, ao menos, de emancipação se foi apoderando dos povos... Estas circunstâncias não podiam deixar de dar origem a uma série de problemas econômicos, sociais, políticos e educacionais, que ainda hoje assolam o mundo. Ora a Igreja não tem por missão ditar planos de distri­buição das riquezas, de salário, enfim... de índole meramente temporal ou material; Ela só intervém (e deve então intervir) nessa ordem de coisas, quando os valores da consciência ou espi­rituais entram em jogo ... Pois bem; o ritmo precipitado em que surgiram e se acumularam os problemas da vida moderna fez que os homens da Igreja nem sempre tenham podido tomar consciência do alcance de cada uma das novas lacunas.

Note-se que na Idade Média havia leigos cristãos à frente de cada uma das principais expressões da civilização (indústria, comércio, labo­ratórios, magistério, etc.), de modo que as questões que se iam origi­nando eram naturalmente resolvidas por profissionais (industriais, comerciantes, mestres...) cristãos. Em outros termos: as soluções se­guiam a orientação cristã dada por leigos competentes, de sorte que no era necessário aos membros da hierarquia eclesiástica preocupar-se di­retamente com questões de salários, pensões, férias, etc.

Infelizmente, porém, o mesmo não se dava no século passado, quando se aguçou a problemática da vida moderna: à frente dos seto­res da ciência e da técnica já não havia tantos cristãos; existiam pre­dominantemente, sim, homens de filosofia materialista, que procuravam resolver os problemas da técnica sob a inspiração do ateísmo e da irre­ligião.

Esta ordem de coisas, tão nova como era, deve ter, a prin­cipio, provocado certa perplexidade na hierarquia eclesiástica. Verdade é que nunca faltaram (mesmo antes de Karl Marx, 1848) pronunciamentos da autoridade da Igreja contrários aos abusos do capitalismo, à exploração dos pobres pelos ricos, dos operários pelos patrões, etc. Mas só aos poucos é que os Papas e os bispos foram percebendo que lhes era necessário falar mais pormenorizadamente, isto é, falar de remuneração, abono, parti­cipação nos lucros, cogestão, monopólio do Estado, iniciativa particular, sindicatos, etc., pois estas instituições eram muitas vezes orientadas por uma filosofia ímpia, pondo em xeque os valores da alma e da consciência. É o que explica que, no de­curso de setenta anos, desde Leão XIII até João XXIII, através das encíclicas «Rerum Novarum», «Quadragesimo anno», «Mater et Magistra», a Igreja venha tratando mais e mais minuciosa­mente da posição do cristão frente aos empreendimentos da economia, da técnica e da política modernas; esta ordem de coisas temporal está sendo visada por ideologias não-cristãs ou mesmo anticristãs, de modo que cada vez mais se percebe que não é possível às autoridades da Igreja passar silenciosamente ao lado de tais questões.

Quem procura assim reviver «por dentro» as situações em que se viram os homens da Igreja desde o início do século pas­sado, não se desconcertará com as posições que as autoridades eclesiásticas vêm tomando frente à questão social; são coerentes e explicáveis... Lembremo-nos de que o Senhor Deus não cos­tuma fazer milagres a esmo, mas rege os seus fiéis segundo as leis da psicologia humana. A encíclica «Mater et Magistra» bem mostra que, apesar de quanto se diz, a Igreja não é anacrônica nem cega diante dos problemas mais humanos e materiais da vida contemporânea.

Veja-se o que já foi dito sobre tal encíclica em «P. R.» 49/1962, qu. 4.

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