terça-feira, 15 de maio de 2007

Protestantismo: as diferenças entre a Igreja Católica e as Igrejas Evangélicas

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 462/2000)

Jaime Francisco de Moura[1]

O autor é professor de Ensino Religioso, residente em Brasília. Movido pelas objeções levantadas contra a Igreja Católica por parte de irmãos não católicos, resolveu escrever um livro de apologética, que enfrenta o questionamento dos protestantes e, em parte, dos espíritas. A obra é, de modo geral, valiosa e destinada a esclarecer muitos leitores. Todavia apresenta um ou outro ponto falho, que não cancela a utilidade do trabalho. Assim, por exemplo:

1) às pp. 23s escreve Jaime Francisco:

"Quando os judeus começaram a espalhar-se pelo mundo, logo após a destruição de Jerusalém (ano 70), eles mesmo viram a necessidade de traduzir a Bíblia Sagrada para o grego, que era a língua universal daquela época. E nessa tradução foram incluídos esses 07 livros deuterocanônicos (que já estavam escritos em grego pelos próprios judeus)".

A propósito observamos: os judeus começaram a se espalhar pelo mundo desde o século VIII a.C., quando Samaria caiu e os seus habitantes mais cultos foram deportados para a Mesopotâmia. Outra onda de deportação ocorreu no século VI a.C., quando Judá foi tomado pelos babilônios. Especialmente importante foi a migração dos judeus para Alexandria (Egito) nos séculos IV-II a.C.: em terra helenista sentiram a necessidade de traduzir os seus livros sagrados para o grego, donde resultou a versão dos LXX, confeccionada entre 250 e 100 a.C. A edição dos LXX anterior a Cristo, como dito, continha os sete livros ditos "deuterocanônicos". Ora foi o texto grego da Bíblia que os evangelistas e apóstolos utilizaram ao redigir o Novo Testamento. Por conseguinte, o cânon (catálogo) dos LXX tornou-se aos poucos o referencial dos cristãos para delimitar o catálogo do Antigo Testamento; assim é que os deuterocanônicos se tornaram parte integrante da Bíblia dos cristãos antes de Lutero. Os judeus da Palestina, movidos por nacionalismo, não aceitaram os livros escritos em grego quando fecharam seu cânon em Jamnia (ano 100 d.C. aproximadamente). Em conseqüência não reconheceram os ditos "deuterocanônicos". No século XVI Martinho Lutero, afastando-se da Igreja Católica, houve por bem abandonar o catálogo professado pela Igreja para ficar com o cânon dos judeus de Jamnia.

2) Às pp. 139s, o autor trata do pecado dos primeiros pais. Faltou mencionar aí os dons paradisíacos de que eram dotados: a imortalidade (Gn 2,17; 3,19), a impassibilidade (Gn 3,16-19), a imunidade de concupiscência (Gn 2, 25; 3, 7-13). Não há menção do demônio simbolizado pela serpente. O autor diz ignorar qual foi o pecado dos primeiros pais, quando na verdade se pode afirmar que foi o de soberba. A árvore da ciência do bem e do mal era a imagem do programa de vida que Deus propunha aos primeiros pais para que se confirmassem na santidade original.

3) Às pp. 63s o autor comete duas impropriedades de linguagem:

- fala do "lugar do purgatório". Na verdade, o purgatório é um estado de alma em que a criatura repudia radicalmente os resquícios de pecado com que tenha passado para o além: impaciência, maledicência, vaidade, orgulho... O pecado, mesmo depois de perdoado, deixa escórias ou resíduos na alma do penitente. Tais escórias têm de ser eliminadas para que a criatura possa ver Deus face-a-face. Se não são eliminadas nesta vida pela prática da ascese, hão de ser rejeitadas no além mediante uma contrição radical;

- na vida futura não haverá perdão de pecados, como afirma o autor, mas sim o repúdio das raízes de pecados já perdoados, a fim de que a alma, totalmente purificada, possa participar da bem-aventurança celeste.

4) O autor costuma inserir entre parênteses os textos bíblicos que ele cita. Assim, por exemplo, à p. 62: "Leia ainda (1 Pedro 1,13-16)". Os parênteses são desnecessários no caso.

A par destas e outras falhas, o autor apresenta páginas interessantes, como aquela em que mostra que a Inquisição foi procedimento adotado também pelos reformadores do século XVI (pp. 117-119). Interessante também é o que diz sobre o livre exame da Bíblia, fator de divisões e subdivisões do protestantismo (pp. 21s).

Possa o autor melhorar sua obra em edições subseqüentes!

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NOTA:

[1] Editora COMDEUS. Comunicação Católica e Fundação São José de Educação e Cultura, Avenida São José 921, 12209-720, São José dos Campos (SP); Telefax 00xx12-321-6944. O livro tem 140 x 210mm e 155pp.

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