sexta-feira, 25 de junho de 2010

Religião: por que tantas crenças?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 028/1960)


«Porque existem tantas crenças baseadas sobre o mesmo fundamento, a Bíblia, e, não obstante, divergentes entre si, às vezes até hostis umas as outras?

Não deveriam todos os que se inspiram do Evangelho, professar as mesmas proposições?»

Em resposta, procuraremos averiguar em primeiro lugar a origem do mal apontado; feito isto, instituiremos breve re­flexão sobre o assunto.

1. A raiz do mal

1. Para explicar a atual divergência de crenças cristãs, levar-se-ão em conta dois fatores capitais:

1) uma observação geral impõe-se imediatamente: tudo que é humano, é sempre marcado pelo cunho do individual; o homem tende sempre a imprimir sua índole pessoal às suas palavras e às suas obras. Até mesmo a Religião (diríamos mesmo: de modo particular, a Religião) é afetada por essa tendência, pois é professada e vivida por homens. Com efeito, a Religião, em virtude da sua finalidade de unir o homem com Deus (o Valor Máximo), solicita a personalidade toda da criatura, fazendo-a vibrar com tudo que ela tem de mais íntimo; os temperamentos mais diversos (exaltados ou me­lancólicos, místicos ou racionalistas) se exprimem espontanea­mente através das fórmulas religiosas, chegando por vezes a tomar atitudes apaixonadas, pois a Religião toca os mais profundos anelos do homem.

Ainda por outro motivo a Religião é setor em que muito facilmente prorrompem os subjetivismos humanos: toda pro­fissão de fé religiosa tem de per si conseqüências na vida prá­tica do respectivo sujeito; ora, se este se acha preso a certos hábitos dos quais não tenha a coragem de se desvencilhar, tal indivíduo, consciente ou inconscientemente, tende a conceber a sua Religião ou a sua «fé» de modo tal que não interfira na sua conduta de vida. A experiência o comprova bem: é comum encontrarem-se pessoas que, embora sejam inteligentes e cultas, rejeitam verdades óbvias ou comumente aceitas, fazendo a sua religião própria, ou simplesmente abandonando toda crença religiosa, a fim de não desdizerem ao gênero de vida que levam.

2) Conhecedor dessa índole natural do homem, o Se­nhor Deus, querendo entregar às criaturas a sua Palavra de Verdade e Vida, houve por bem muni-la de um meio que a preservasse dos mal-entendidos. Com efeito; instituiu um magistério visível, órgão de interpretação autêntica, que, por assistência do próprio Deus, seria capaz de guardar e trans­mitir a todas as gerações o genuíno sentido da Palavra Re­velada. Tal magistério é o da Santa Igreja de Cristo, a qual desde os tempos de Jesus até hoje ininterruptamente se faz ouvir.

Uma parte da Verdade divina revelada por via meramente oral foi no decorrer dos tempos consignada por escrito, a fim de atender a necessidades ocasionais dos fiéis desta ou daquela região, desta ou daquela época; assim é que surgiram pau­latinamente, desde os tempos de Moisés (séc. XIII a.C.) até os de São João Evangelista (fim do séc. I d. C), os escritos (narrativas, cartas, pequenos livros didáticos) do Antigo e do Novo Testamento ou da Escritura Sagrada (Bíblia); os respectivos autores nunca tiveram a intenção de resumir nes­ses escritos toda a Revelação Divina, mas apenas quiseram focalizar aspectos da mesma, em vista de circunstâncias es­porádicas do povo de Deus: em torno desses livros, perma­necia o conjunto da Revelação Divina, a ser transmitida oral­mente de geração em geração; deve-se mesmo dizer que essa tradição oral (guardada fielmente por assistência do Espírito Santo) ficava sendo o critério para se interpretar a Escritura Sagrada. Anterior à Bíblia, a tradição oral é como que a mãe da Bíblia, mãe sem a qual a Escritura não pode ser devi­damente entendida. Ora — seja lícito repetir — essa tradição ainda hoje vive e é afirmada pelo ensinamento oficial da Santa Igreja.

Eis, porém, que no séc. XVI, após outros pretensos refor­madores menos importantes, Lutero tomou como base de uma nova forma de Cristianismo o principio de que só a Bíblia é fonte de doutrina, fonte capaz de se explicar a si mesma sem as luzes do magistério da Igreja. Com isto, o «Reformador» esperava conseguir um Cristianismo preservado de qualquer possível corrupção humana: Lutero julgava que a Igreja e as gerações de cristãos anteriores haviam errado decisiva­mente e que lhe cabia o privilégio de «redescobrir» o Evan­gelho.

Como se podia prever, porém, este parecer comprovou-se ilusório.

E como?

Entende-se que, se Lutero atribuía a si o direito de se emancipar do magistério da Igreja para se tornar novo «mes­tre», muitos discípulos seus, nos séculos subseqüentes, se jul­garam habilitados a fazer outro tanto em relação ao «Refor­mador», de sorte que novos «Luteros» ou novos «Reformado­res» __Reformadores da própria Religião reformada — foram surgindo (Wesley, Smith, Helen White...); assim o processo de reformar o Cristianismo se foi ramificando e ampliando em ritmo crescente até nossos dias, quando chega a haver mais de oitocentas seitas, sem que se possa prever o termo final do afã de «redescobrir» o Evangelho. A causa dessa mul­tiplicação de reformas e seitas é, antes do mais, a renegação de um magistério visível, instituído por Deus e independente do senso subjetivo dos «videntes» (que não podem deixar de surgir na história dos séculos).

Em conseqüência, percebe-se claramente o dilema:

a) ou o cristão aceita a Escritura Sagrada com a Re­velação oral que a antecedeu e a acompanha e sem a qual a Escritura não pode ser mantida acima dos subjetivismos humanos,

b) ou o cristão, consciente ou inconscientemente, chega a renegar o Cristianismo inteiro, guardando apenas palavras e rótulos que só encobrem as concepções individualistas e mais ou menos contraditórias de tais ou tais «videntes».

Basta lembrar que foi justamente das escolas protestantes que procederam os exegetas liberais modernos, os quais mutilaram a Escritura Sagrada e chegaram a negar a Divindade de Cristo.

2. A esta altura, porém, talvez diga alguém: «Então requer-se fé, e fé na face humana da Igreja, para abraçar o Cristianismo!»

— Não há dúvida alguma responde o fiel católico. «O justo vive da fé», afirma o Apóstolo três vezes (cf. Gál 3,11; Rom 1,17; Hebr 10,38), repetindo palavras do profeta Habacuque (cf. Hab 2,4). A fé é a artéria central da vida cristã.

— Mas... fé não somente em Deus? Fé também na Igreja visível?

— Sim. Note-se que o mistério donde o Cristianismo de­riva seu nome, é o mistério de Cristo ou o mistério de Deus feito homem; Deus se dignou falar aos homens na plenitude dos tempos — assim como já antes, no Antigo Testamento — por meio de sinais humanos, ou seja, de maneira objetiva, per­ceptível a todos; é bem lógico, por conseguinte, que também após a vinda de Cristo o Todo-Poderoso não queira ser atingido senão através dessa realidade divino-humana que é o Cristo prolongado em seu Corpo Místico ou a Igreja. Esta, enquanto Cristo nela vive, é uma sociedade sobrenatural e infalível; enquanto, porém, é representada por homens e tem uma face humana (o mistério da Encarnação consistiu jus­tamente em colocar o Divino dentro do humano), é marcada pelas deficiências inerentes aos homens; essas deficiências, porém, não contaminam em absoluto sua pureza intrínseca nem impedem que a Igreja, por seus ministros, comunique aos homens a multiforme graça de Deus (como a carne de Cristo padecente e mortal não foi empecilho, mas, ao contrário, fator positivo, para que Deus se entregasse ao gênero humano).

De resto, o Senhor não exige que a fé prestada à Igreja seja uma fé cega. A todo homem toca o direito de examinar as credenciais da Santa Igreja Católica, antes de professar adesão a esta; fazendo isto, o estudioso verifica que o próprio Cristo nos Evangelhos dotou a Igreja de um magistério infa­lível (cf. Mt 16,17-19 ; 28,19s ; Lc 22,31s); verifica outrossim que a existência deste magistério é comprovada pela história dos fatos, pois, sempre que os homens quiseram denegar fé à face humana e visível da Igreja, para tributá-la apenas a Cristo e aos Evangelhos, nem sequer guardaram fé no Cristo e nos Evangelhos, mas retorceram de diversos modos a men­sagem cristã.

Mais amplas considerações sobre o magistério da Igreja se encon­tram em «P. R.» 13/1959, qu. 2; 14/1959, qu. 2 e 3.

2. Breve reflexão sobre a divisão entre cristãos

1. A história dá a ver que na origem das divisões entre os discípulos de Cristo estão geralmente alguns fatores clás­sicos, que se poderiam assim discriminar: em determinada época, um cristão julga que seus irmãos na fé, até mesmo os que mais autoridade possuem, estão errando por seu gê­nero de vida e pelo seu modo de entenderem a mensagem de Cristo. Tal cristão então, inspirado por grande fervor, con­cebe um Cristianismo reformado, puro, que ele pretende jus­tificar mediante proposições do Evangelho. Esse homem bem intencionado, porém, deixa-se empolgar ou obcecar por seu ideal: aos poucos coloca a sua intuição acima de qualquer exi­gência da caridade; deixa que o espírito de crítica nele prepondere sobre o amor ao próximo; com isto corrói mais do que conserta; por fim seqüestra-se da massa dos «pecadores cristãos», levando consigo um grupo de discípulos, com os quais passa a constituir uma «igrejinha» ou uma seita própria. . . É isto, sim, o que acontece quando o homem se guia pela razão sem atender ao coração ou quando a inteligência gera uma espécie de intelectualismo frio, unilateral; desen­cadeia-se então a ruptura e forma-se um novo credo entre os cristãos. Jacques Maritain diz muito acertadamente:

«Se, em vez de ficar no coração, a pureza sobe à cabeça, ela produz sectários e herejes» (Humanisme integral 265).

Não há dúvida, na origem dos cismas sucessivamente ve­rificados entre os cristãos no decorrer dos séculos, encontra-se um núcleo de verdade ou uma intuição sadia. O mal, porém, consistiu em que esta absorveu a atenção dos respectivos «ilu­minados», a ponto de fazer fermentar os ânimos e violar as exigências da caridade, a qual é prudente e paciente.

São palavras do Sto. Padre o Papa Pio XI:

«Todas as vezes que o zelo reformador... se tornou expressão e explosão da paixão, turvou em lugar de esclarecer, destruiu em vez de construir, e mais de uma vez veio a ser o ponto de partida para aberrações mais fatais do que os males que se pretendiam sanear» (ene. «Mit brennender Sorge», 14 de março de 1937. Acta Apostoiicae Sedis 1937, pág. 154).

Para o cristão, não pode haver autêntica renovação senão em comunhão com o todo ou com o grande Corpo da Igreja; os verdadeiros místicos ou iluminados (como S. Francisco de Assis, S. Domingos, S. João da Cruz, Sta. Teresa de Jesus...) conseguiram sempre resultados estupendos de reavivamento cristão, mostrando-se humildes e guardando reverência para com as autoridades da Igreja (estas, em última análise, são instituídas por Deus e, ainda que não sejam sempre pessoal­mente santas, não deixam de ser instrumentos manejados pelo Senhor e portadores da respectiva graça de estado).

Em poucas palavras, a mentalidade que o reformador cismático nutre em seu intimo se poderia assim traduzir: «A Igreja errou; eu, porém, não estou errando; prevaleça, por conseguinte, meu ponto de vista, ainda que eu tenha que romper com a comunidade». Ora tal mentalidade já é afoita e perigosa no plano das instituições humanas; em se tratando, porém, das coisas de Deus, é mortal, pois nada há de tão alheio às obras de Deus quanto a divisão e a ruptura entre os homens.

Ainda se poderia lembrar que, além de divergências propriamente religiosas, certas diferenças de índole nacional ou política têm moti­vado, às vezes sorrateira e inconscientemente, a separação entre os cristãos. Mais de uma tentativa de refazer, no decurso da história, a unidade entre os dissidentes e a Santa Igreja foi entravada pela intervenção de fatores não-teológicos, mas nacionalistas e mesquinhos.

2. É sobre este fundo de idéias que, mais oportuna do que nunca, ressoa a norma recentemente formulada por S. S. o Papa João XXIII ao tratar da planejada união entre os cristãos:

«Haja unidade nas coisas essenciais, liberdade nas coisas aci­dentais, e caridade em todas as coisas» (ene. «Ad Petri Cathedram», 29 de junho de 1959).

Este princípio, entre outras coisas, quer dizer o seguinte: o discípulo de Cristo não pode pactuar com o erro nem aceitar a mínima corrupção da verdade entregue pelo Senhor aos Apóstolos e ininterruptamente transmitida, sob a assistência do Espírito Santo, de geração a geração até hoje. Antes morrer do que desvirtuar de algum modo a mensagem da autêntica Tradição cristã. Contudo, embora não possa legi­timar o erro, o católico tem que amar o homem que erra; Cristo morreu por todos os indivíduos humanos, mesmo pelos que hoje consciente ou inconscientemente não são fiéis à mensagem do Evangelho; o verdadeiro seguidor de Cristo, prolongando o amor do Divino Mestre, deverá conseqüente­mente querer bem a todos os homens, ainda que causem gra­ves danos à Verdade e ao Bem. «Ódio ao pecado, mas amor à pessoa do pecador», diria S. Agostinho; destruamos, por­tanto, o erro, mas procuremos a todo transe salvar o homem que erra.

Donde se vê quão injustificadas são as querelas religiosas, principalmente quando acarretam incriminações pessoais, com detrimento geralmente grave para a caridade; não se pode dizer que tais litígios sejam sustentados em nome do Evan­gelho ou por amor genuíno ao Senhor Jesus; em verdade, não são mais do que expansões da paixão, que, em hipótese ne­nhuma, poderiam agradar a Cristo e construir o Reino de Deus. O sincero amigo do Divino Mestre, ao defender a Ver­dade, mostrar-se-á também amigo do seu contendente...

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