quinta-feira, 24 de junho de 2010

Protestantismo: quem são os Batistas?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 007/1957)

«Quisera saber quem são os Batistas? Serão discí­pulos de São João Batista?»

Os Batistas constituem uma das seitas protestantes hoje em dia mais ativas (haja vista a diferença entre Igreja e Seita indicada em «Pergunte e Responderemos» 6 1957 qu. 8).

Os Batistas em geral não têm idéias muito claras sobre as origens do seu credo religioso. O fato, porém, é que não se pren­dem nem a São João Batista nem a discípulos do Precursor; não há em absoluto documentos nem indícios de continuidade.

Ao contrário, claros testemunhos da história apontam os inícios do movimento batista no séc. XVI d. C.

Contemporaneamente a Lutero, um grupo de cristãos, che­fiado por Thomas Münzer, Balthasar Hübmaier, George Blau-rock, Ludwig Hoetzer, julgava que o «Reformador» não ia su­ficientemente longe nos seus propósitos. Na Alemanha e na Suíça começaram então a preconizar uma Igreja, em grau má­ximo, espiritual, destituída de hierarquia visível e constituída exclusivamente pela adesão consciente dos homens à Palavra de Deus. O sinal característico dessa nova Igreja seria o ba­tismo a ser administrado aos adultos, não às crianças, de sorte que os membros do grupo batizavam de novo os fiéis que lhes aderiam (donde o nome de Anabatistas, Rebatizadores, que lhes foi dado).

O movimento anabatista sofreu forte represália por parte de Lutero, Zwingli e dos príncipes alemães. Desencadeou revol­tas fanáticas, das quais a mais famosa é a dos camponeses, cujo chefe, Thomas Münzer, foi decapitado em 1525. Não pou­cos anabatistas, fugindo à perseguição, começaram a propagar suas idéias na Itália, na Boêmia, na Morávia, na Alsácia, nos Países-Baixos, na Escandinávia, na Inglaterra, subsistindo até hoje em pequenos grupos.

Mais importantes são as ramificações que procederam do tronco anabatista. Eis, aliás, uma das características ou quase-leis do movimento protestante: Lutero se atribuiu o direito de derrogar à Tradição, para fazer prevalecer suas intuições reli­giosas individuais; em conseqüência, é imitado periodicamente por homens que se julgam iluminados à semelhança de Lutero, e então se separam do bloco luterano ou da seita protestante a que pertencem, para dar origem a novo tipo de Cristianismo baseado no senso subjetivo do fundador.

Conhecem-se hoje, como derivações do grupo anabatis­ta, as seitas dos Menonitas (de Meno Simons, † 1559), dos Irmãos Hutterianos (de Tiago Hutter), a Igreja dos Irmãos nos Estados Unidos da América do Norte, a Igreja dos Irmãos Evangélicos Unidos e a Igreja Batista, de todas a mais nume­rosa.

Os Batistas têm por fundador o inglês John Smyth (†1617). Foi primeiramente pastor anglicano. Movido por es­pírito reacionário, que agitava não poucos cristãos de sua pá­tria, queria uma reforma ainda mais radical que a anglicana; em particular, não se conformava com a organização hierár­quica (episcopal) e a liturgia da Igreja Anglicana, que ele jul­gava supérfluas. Por isto formou em Gainsborough uma pe­quena comunidade dissidente do Anglicanismo, no ano de 1604; foi, porém, obrigado a se exilar com seus companheiros, indo ter a Amsterdan (Holanda), onde o calvinismo predominava. No degredo viveu em casa de um padeiro menonita, que o per­suadiu de que era inválido o batismo conferido às crianças (tese anabatista!). Smyth então administrou a si mesmo um segundo batismo, de cujo valor, porém, começou em breve a du­vidar. Em conseqüência, seus companheiros por ele convenci­dos da tese anabatista, o expulsaram da comunidade; Smyth não conseguiu ser admitido nem mesmo entre os menonitas, aos quais pedira acolhimento. Em 1612, um grupo de seus dis­cípulos voltou à Inglaterra, e lá fundou a primeira Igreja dita Batista (não mais Anabatista), também chamada «dos Batistas gerais», porque, contrariamente à doutrina calvinista, en­sinava que Cristo pela cruz salvou todos os fiéis. Outro grupo se formou, pouco depois, dito «dos Batistas regulares ou parti­culares»; com efeito, em 1641, outra pequena comunidade de dissidentes do Anglicanismo em Londres se convenceu da tese anabatista; mandou então um de seus membros, Ricardo Blount, a Rijnsburg, na Holanda, a fim de pedir o batismo de adulto à seita de Dompelaers (cisão menonita) e levar à In­glaterra o «verdadeiro batismo». Blount desincumbiu-se da sua missão; voltando em 1641, rebatizou por imersão (única forma de batismo reconhecida pela seita) 55 membros da co­munidade de Londres; aceitou do calvinismo holandês a dou­trina de que Cristo salva somente os predestinados; donde o nome de «Batistas particulares» que lhes coube.

Hoje em dia contam-se cerca de vinte seitas batistas, que em 1905 se uniram de maneira um tanto vaga na «Liga Mun­dial Batista»; são, entre outros, os batistas calvinistas, os b. congregacionalistas, os b. primitivos, os b. do livre pensamento, os b. dos seis princípios (porque aceitam como único funda­mento da fé e da vida cristã os seis pontos mencionados em Hebr 6, 1s; arrependimento, fé, batismo, imposição das mãos, ressurreição dos mortos, juízo eterno), os b. tunkers, os b. campbellitas, os batizantes a si mesmos, os b. abertos, os b. fe­chados, os b. do sétimo dia, etc.

Cada comunidade batista é independente de qualquer au­toridade visível, seja eclesiástica, seja civil; rege-se diretamen­te «por Jesus Cristo e pelo Espírito Santo», que agem na assem­bléia; não há, pois, hierarquia nem jurisdição eclesiástica. To­do o poder de governo reside na assembléia dos fiéis, que elege os que por ela respondem (pastores e diáconos).

Em sua doutrina, os batistas seguem teses calvinistas: Deus predestina diretamente não só para a glória, mas tam­bém para a condenação eterna; a justificação ou a graça é obtida mediante a fé; não apaga, mas recobre o pecado; os sacramentos (Batismo e Ceia) não são meios comunicadores da graça, servem apenas para corroborá-la em quem os recebe com fé. Como em geral no Protestantismo, a Bíblia é tida como única fonte de doutrina.

Entre os membros das comunidades batistas, nota-se fer­vor, infelizmente, porém, demais apoiado no subjetivismo, que orienta a religiosidade protestante e leva, consciente ou incons­cientemente, os seus adeptos a rejeitar o próprio Cristo em nome do Cristo!

D. Estêvão Bettencourt O. S. B.


1 comentário:

Instituto Trinitariano do Caminho disse...

Durante a Reforma Protestante houve a ala chamada REFORMA RADICAL que envolvia vários grupos independentes e heréticos outros não. Os batistas procuraram a reforma onde os reformadores famosos não tiveram peito de ir, isto é, até a ética do Mestre. Os reformadores protestantes procuraram uma reforma que ia até aos chamados PAIS da Igreja, especialmente St. Agostinho. Tantos os heréticos como os verdadeiros batistas foram estigamtizados como gente desordeira e fanática, mas os batistas(da Europa Continental)se manifestaram através da Conferência de Schleitheim em 1527 demonstrando suas posições quanto ao batismo cristão e à guerra.

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