quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ecumenismo: o que é o chamado ecumenismo?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 006/1958)

Denomina-se Ecumenismo (=Universalismo) um movi­mento moderno, de origem protestante, que tende a unir as diversas confissões cristãs entre si. Os seus mentores supõem não existir atualmente a autêntica Igreja de Cristo; a Igreja Una, desejada pelo Senhor na sua última ceia, ainda se de­veria realizar mediante a fusão das parcelas de verdade e de bem contidas em cada confissão cristã.

Examinaremos sucessivamente o histórico e o estado atual do Ecumenismo (§ 1), a posição da Igreja Católica perante o mesmo (§2).

§ 1. Histórico e estado atual do Ecumenismo

O Protestantismo, baseado no princípio do livre exame da Bíblia, tendeu desde os seus inícios a se desagregar em cres­cente número de seitas (cada uma devida às intuições in­dividuais de seu fundador), de sorte que em 1949 se conta­vam, na África do Sul apenas, algumas centenas dessas seitas. Não faltaram, porém, no decorrer dos séculos vozes unionistas entre os Protestantes, tais como as de Hugo Grotius (1642), R. Baxter (1680), S. Werenfels (1720); registraram-se também tentativas de união parcial, por exemplo, entre calvinistas e zwinglianos (1546), entre anglicanos e orientais (1716-25), e de união total entre protestantes e católicos (1661- 1679). O Rei da Prússia em 1817 chegou a impor a união a luteranos e calvinistas do seu reino.

Tais tentativas tomaram nova importância no início do século XX.

Em 1910 numa reunião da Conferência Universal das Mis­sões Protestantes realizada em Edimburgo (Escócia) foi posta em relevo a desagradável impressão que aos pagãos causava a pregação do Evangelho por parte de missionários que se con­tradiziam e excluíam uns aos outros. À vista disso, o bispo epis­copal Brent resolveu organizar uma sociedade em que todas as confissões se encontrariam para confrontar suas posições; esperava com isto atingir a união da cristandade dividida. O movimento assim concebido tomaria o nome de "Faith and Order" (Fé e Disciplina), pois visaria questões tanto de fé como de disciplina da Igreja. Após os devidos preparativos, en­travados por dificuldades várias, a nova entidade se constituiu definitivamente numa assembléia reunida em Lausanne (Suíça) no ano de 1927.

Entrementes o bispo luterano da Suécia, Nata Soederblom, estimulado pelas calamidades da guerra de 1914-18, deu iní­cio em Estocolmo a movimento análogo, intitulado "Life and Work" (Vida e Ação), movimento que recebeu seus estatutos definitivos em 1925: como diz o nome, a nova obra procurava a união dos cristãos no terreno da ação caridosa e social in­ternacional, não se ocupando muito com divergências na fé, na liturgia e na organização da Igreja: o cristianismo era as­sim concebido como fator de progresso social e como resposta às aspirações pacifistas dos homens.

Em 1937 tiveram lugar um Congresso Internacional de "Fé e Disciplina" em Edimburgo e outros de "Vida e Ação" em Oxford, ambos bem sucedidos, pois seus participantes manifes­tavam a concepção de que a Igreja não é apenas um movimen­to moralizador, mas "um outro mundo, todo suspenso à recep­ção da Palavra de Deus pela fé". Dadas estas boas disposições de seus adeptos, os dois movimentos "Fé e Disciplina" e "Vida e Ação" se fundiram no "Conselho Ecumênico das Igrejas" ("World Council cf Churches"), o qual recebeu sua organiza­ção provisória em Utrecht (Holanda) no ano de 1938; foi-lhe então dado como Presidente o arcebispo William Temple, de York (Inglaterra), um dos homens mais dinâmicos de sua geração, e , como Secretário Geral, o Sr. W. A. Wisser't Hooft, protestante holandês de tendência barthiana (calvinista). A finalidade da nova organização era encontrar a Igreja (a "Una Sancta") entre as Igrejas, ou seja, estipular, dentre todas as doutrinas professadas pelas Igrejas convocadas, aquelas que haveriam de constituir o Credo da "Una Sancta". A primeira assembléia geral do Conselho Ecumênico devia efetuar-se em 1941; dada, porém, a irrupção da guerra mundial em 1939, o Conselho até 1948 teve que limitar suas atividades a prestar socorro material e espiritual às vítimas da conflagração.

Após os devidos preparativos, finalmente realizou-se o grande Convênio ecumênico de Amsterdam no período de 22 de agosto a 4 de setembro de 1948. Dele tomaram parte 400 delegados oficiais de 150 igrejas[1] cristãs autônomas, a pro­fessar um total de aproximadamente 30 Credos diversos (o mesmo Credo pode ser professado por dois ou mais grupos independentes). Eram estas as Igrejas representadas oficialmen­te: 15 anglicanas, 19 luteranas, 27 reformadas (calvinistas), 23 metodistas, 7 batistas, 8 congregacionalistas, 7 "Igrejas de Cristo", 2 comunidades menonitas, 4 sociedades de "Quakers", 10 Igrejas unidas (do Canadá, da índia, a "Evangelische Kirche in Deutschland", etc.), 7 Igrejas ordoxas, 4 de "Velhos católicos"; as Igrejas etíope, copta, ortodoxa síria, valdesa da Itália, armênia, Igreja da Morávia, o Exército da Salvação, etc. Além dos delegados oficiais, 3000 outras pessoas compare­ceram ao Concílio (funcionários da assembléia, observadores das denominações que não estavam oficialmente representa­das, intérpretes, agentes da imprensa, convidados interessados no movimento, etc). Estavam ausentes as seitas antitrinitárias (como a dos Testemunhas de Jeová), explicitamente ex­cluídas, e alguns grupos importantes, como os batistas do Sul dos EE.UU. da América, os luteranos do Missouri...; a Igreja Russa recusou-se oficialmente a participar do certame; a Igre­ja Católica se absteve por completo.

Como condição indispensável para se pertencer ao Con­selho Ecumênico, era exigida a fé em "Cristo Deus e Salva­dor"; ora não poucos membros das diversas confissões se haviam pronunciado contrariamente a esta fórmula, julgando-a estreita demais, incapaz de satisfazer aos irmãos que nutrem dúvidas sobre a Divindade de Cristo; preferiam a profissão de fé em "Cristo Senhor e Salvador" (omitida a menção da Divindade); tal sugestão, porém, não encontrou aceitação por parte da assembléia de Amsterdam.

O tema geral do Concílio foi "Desordem do homem e De­sígnio de Deus", ampla matéria dividida em quatro pontos principais a ser estudados cada qual por uma comissão:

1) a Igreja universal no desígnio de Deus;


2) o desígnio de Deus e o testemunho do homem;


3) a Igreja e a desordem da sociedade:


4) a Igreja e as questões internacionais.

Foram apresentados estudos sérios e profundos sobre esses temas, alguns mesmo assaz favoráveis à Igreja Católica (como os de K. E. Skvdsgaard e F. H. Villain). Sobre o quarto ponto dissertou o Sr. John Forster Dulles, o qual se manifestou con­trário ao comunismo, posição esta que a imprensa explorou exageradamente. Digna de todo encômio foi a atitude do Pro­fessor G. Florovsky, ortodoxo oriental, que combateu qualquer tentativa de união na base de um "mínimo denominador co­mum" de doutrina, "mínimo denominador" arranjado para se conseguir uma frente comum de ação das confissões cristãs, propugnava uma união muito mais sólida, baseada na con­córdia sobre os pontos de doutrina essenciais da Revelação cristã.

Nas suas conclusões a assembléia de Amsterdam verificou os pontos de divergência que separavam as confissões cristãs representadas. No encerramento não foi possível celebrar, co­mo tanto se desejava, uma única ceia de Cristo que consoli­dasse num só corpo os que participassem do mesmo pão. Cinco foram os itens em que os congressistas averiguaram sua dis­córdia mútua; desses destacam-se os três últimos, particular­mente significativos:

3. "Não estamos de acordo sobre o modo de conceber a autoridade da Tradição ao lado da Escritura... Para uns (n. b.: entre os próprios irmãos separados), a tradição é essencial, porque o desenvolvimento que a Igreja tomou sob a ação do Espírito Santo, é decisivo para a natureza e a con­figuração da Igreja. Para outros, o que não está nas Escrituras canônicas carece de autoridade permanente.


4. Não estamos de acordo sobre a função da autoridade no interior das comunidades cristãs e entre estas. Alguns de nós crêem que cada comu­nidade é autônoma sob a autoridade de Cristo e não está sujeita a alguma orientação eclesiástica proveniente de fora da comunidade. Outros estão convencidos de que é preciso haver um governo autoritativo acima das co­munidades particulares se se quer que o bem comum seja atingido nas condições humanas habituais...


5. Por fim, não estamos de acordo sobre o conceito de continuidade da Igreja. Esta divergência afeta conseqüentemente o nosso conceito de sacerdócio e de sacramentos. Alguns estão firmemente persuadidos de que a única via pela qual se mantém autêntica unidade é a ligação horizontal direta com os doze Apóstolos que Cristo escolheu; onde falta essa conti­nuidade, falta algo de essencial nas características da Igreja. — Outros, ao contrário, afirmam, com não menor ardor, que a via de continuidade autên­tica se pode estabelecer por uma ligação vertical com o Senhor da Igreja. Onde quer que esta ligação se dê, aí se encontra a Igreja de Cristo. Nenhuma sucessão de agentes humanos tem importância, quando compa­rada com esta ligação direta com Aquele que prometeu estar em toda a parte onde dois ou três estivessem reunidos em seu nome. Por ora, esta parece ser a diferença mais tenaz, pois de ambas as partes homens since­ros julgam que a posição contrária não garante a união com Cristo".

Como se vê, no tocante aos três pontos acima há irmãos separados que sustentam o ponto de vista católico, aceitando a Tradição, o governo uno e central da Igreja e a necessidade da sucessão apostólica; é principalmente esta última que, dando-nos o contato com Cristo e os Apóstolos através dos tempos, nos preserva das arbitrariedades de qualquer novo Iniciador ou "Descobridor" do Cristianismo.

Os resultados obtidos em Amsterdam, embora mostras­sem as dificuldades da união, pelo fato de proporcionarem uma séria tomada de consciência da realidade, constituíram uma possível etapa para a autêntica solução do problema.

Foi em demanda desta que se prosseguiram os trabalhos do Conselho Ecumênico até a sua segunda Assembléia geral, realizada em Evanston (U.S.A.) de 15 a 31 de agosto de 1954. Esta contou com a presença de 1298 membros participantes, dos quais 502 eram delegados, 499 visitantes acreditados, 241 consultores, 31 "delegados fraternais" e 25 observadores. Os delegados propriamente ditos provinham de 162 Igrejas disse­minadas em 42 países. Foi lamentada a ausência das Igrejas da China (presentes em Amsterdam), assim como a do sínodo luterano de Missouri, a dos batistas do Sul dos EE.UU. da Amé­rica, a do Patriarcado de Moscou e a da Igreja Católica.

O tema central adotado em Evanston tinha por título "Cristo, Esperança do mundo", título apto a satisfazer aos que duvidavam da Divindade do Senhor. Ao lado deste, seis temas secundários foram estudados: união e desunião dos cristãos, evangelização do mundo, as questões sociais, os problemas in­ternacionais, as questões raciais, o laicato. Outros assuntos de índole prática mereceram igualmente a atenção dos con­gressistas: assistência aos refugiados, propaganda e informa­ção, etc. Nos debates teológicos notaram-se dois pontos de vis­ta bem distintos: ao passo que o bloco protestante afirmava a necessidade de se estabelecer um Credo capaz de conciliar en­tre si as diversas confissões cristãs, os delegados ortodoxos orientais salientaram que o depósito da fé é uno e indivisível; o Credo capaz de fundamentar genuína união entre os discí­pulos de Cristo já está redigido: coincide com a fé tradicional da Igreja, que há de ser professada sem distinção arbitrária entre os diversos artigos. Eis alguns dos trechos mais impor­tantes da declaração dos orientais:

"2. A concepção ortodoxa da Igreja implica uma dupla afirmação:


a) Toda a fé cristã deve ser considerada como indivisível unidade. Não basta aceitar apenas algumas doutrinas particulares, por mais funda­mentais que sejam, como, por exemplo, "Cristo é Deus e Salvador". Faz-se mister aceitar todas as doutrinas formuladas pelos concílios ecumênicos, assim como por todo o magistério da antiga e indivisa Igreja... Não po­demos admitir distinção rígida entre doutrinas essenciais e não-essenciais; não há lugar para adaptações na fé.


Doutro lado, a Igreja Ortodoxa não pode aceitar a idéia de que o Espí­rito Santo só nos fala na Bíblia. O Espírito Santo reside e dá testemu­nho na totalidade da vida e da experiência da Igreja. A Bíblia nos foi dada no contexto da Tradição apostólica, na qual também possuímos a interpretação e a explicação autênticas da Palavra de Deus. A fidelidade à Tradição apostólica salvaguarda a realidade e a continuidade da unidade da Igreja.


b) É pelo ministério apostólico que o mistério de Pentecostes se per­petua na Igreja. A sucessão episcopal a partir dos Apóstolos constitui uma realidade histórica na vida e na estrutura da Igreja, e é um dos pressupostos da sua unidade através dos tempos. A unidade da Igreja é preservada pela unidade do episcopado...


3. Por isto, quando consideramos o problema da unidade da Igreja, só podemos pensar na restauração completa da fé total e da estrutura epis­copal total da Igreja, que é essencial à vida sacramental da Igreja. Não queremos julgar os que pertencem a comunhões separadas. É, porém, nossa convicção que essas comunhões carecem de elementos que constituem a realidade da plenitude da Igreja. Cremos que somente a volta dessas co­munhões à fé da Igreja antiga, una e indivisível, dos sete concílios ecumê­nicos, isto é, à herança pura, não-alterada e comum dos antepassados de todos os cristãos divididos, produzirá a reunião desejada por todos os cris­tãos separados...
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5. O relatório da secção (União e desunião dos cristãos") sugere que a via que a Igreja deve seguir para restaurar a unidade é a do arrependimento. Reconhecemos que houve e há imperfeições e faltas na vida e no testemunho dos fiéis cristãos; rejeitamos, porém, a idéia de que a própria Igreja, que é o Corpo de Cristo e a depositária da verdade revelada possa ser atingida pelo pecado do homem. Não podemos, portanto, falar de arrependimento da Igreja, que é intrinsecamente santa e isenta de erro. Pois "Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, afim de a santificar e lavar na água e na palavra, para que a pudesse apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga, nem falha nem algo de semelhante, para que ela seja pura e sem falta" (Ef 5,26s)...


A santidade da Igreja não é viciada pelos pecados e pelas faltas de seus membros; estes não podem de modo algum diminuir ou esgotar a santidade inexaurível da vida divina, que da Cabeça da Igreja se propaga através de todo o Corpo" (texto transcrito de "Documentation Cathollque" n.° 1184, 17/X/1954, col. 1330-1332).

Tal documento é profundamente significativo por inculcar que o problema ecumênico não consiste em auscultar as novas correntes cristãs oriundas da Ps.-Reforma luterana e procurar alguma fórmula dogmática apta a satisfazer a todas, nem consiste em procurar nova organização para a Igreja, mas está unicamente em aceitar os moldes doutrinários e consti­tucionais da Igreja que Cristo e os Apóstolos nos transmiti­ram; é preciso simplesmente voltar ao Credo e à estrutura eclesiástica conservados pela Tradição ou pela sucessão apos­tólica. É o que, com toda a razão, ensinam os ortodoxos orien­tais. Acontece, porém, que, tendo-se separado da comunhão de seus irmãos em 1054, os orientais julgam que de então para cá não há magistério do Espírito Santo na Igreja; esta lhes parece esfacelada (não se lembram de que numa das partes do Corpo dilacerado deve estar a Cabeça, que garante a continui­dade de vida dos membros a ela anexos), de sorte que só admitem as definições dogmáticas e jurídicas proferidas antes da ruptura, ou seja, por ocasião dos sete primeiros concílios ecumênicos. É na base de tais definições que os ortodoxos pro­põem aos protestantes reconstituir a união dos cristãos. Dian­te desta tese, os católicos (que não estavam representados na assembléia de Evanston) lembrariam que, não há dúvida, a fórmula de união já está feita, mas que a voz do Espírito San­to não silenciou (nem podia ter silenciado) na Tradição cris­tã; ela continua viva onde está Pedro, a Rocha sobre a qual Cristo quis edificar a sua Igreja; é na Igreja Católica, pois, tal como ela existe em nossos dias, que se encontram o depó­sito da Revelação incontaminado e as instituições aptas a unir os cristãos separados no único e autêntico Corpo Místico de Cristo.

A Conferência de Evanston, por conseguinte, também ter­minou com uma verificação nítida das diferentes posições dog­máticas dos congressistas. Muitos destes, entre os quais se dis­tinguiu o bispo luterano Eivind Berggrav, desejavam ardente­mente realizar no encerramento da mesma o que não fora possível em" Amsterdam, isto é, uma só ceia de Cristo; apesar dos calorosos apelos dirigidos aos delegados das diversas con­fissões para que fizessem cair qualquer barreira, a aspiração foi frustrada, pois se celebraram cinco ceias eucarísticas: a dos anglicanos, a dos metodistas e a das Igrejas da índia Meri­dional, ceias em que a comunhão era distribuída a todo e qual­quer cristão batizado; a dos luteranos, que só davam a comu­nhão a quem professasse a real presença de Cristo no pão e no vinho (Lutero professava a "empanação", não a transubstanciação); a dos ortodoxos, que celebraram um rito reservado aos seus irmãos na fé. O bispo luterano Berggrav, outrora Pre­sidente do Conselho Ecumênico, absteve-se então de participar do culto luterano.

Os comentários à Assembléia de Evanston publicados pos­teriormente pela imprensa protestante foram pouco animado­res: vários dos congressistas manifestaram a impressão de que a reunião nada de novo produzira; cerca de seiscentos jornalistas e fotógrafos os assediavam, observando todas as suas atitudes, sorrisos e decepções — o que não podia deixar de criar uma atmosfera pesada na assembléia; além do mais, o programa de trabalho parece ter estado sobrecarregado de sessões e conferências, impedindo a reflexão calma e a visão de conjunto dos acontecimentos.

A próxima reunião foi marcada para o ano de 1960, deven­do ter lugar provavelmente no Japão, terra de missões, onde mais imperiosas serão as responsabilidades dos congressistas, mais premente a necessidade de realizar e mostrar ao público a unidade dos cristãos.

§ 2. A posição da Igreja Católica perante o Ecumenismo

A Igreja Católica tem declarado repetidamente não tomar parte no movimento ecumenista, embora muito se interesse por ele. A razão da sua atitude é a seguinte: a Igreja Católica tem consciência de possuir a doutrina de Cristo transmitida ininterruptamente a partir do Senhor e dos Apóstolos; nela vive e fala Cristo por Pedro. Ela nunca se apartou da doutrina e da unidade constituídas pelo seu Divino Fundador e pelos primeiros arautos. Por conseguinte, ela possui aquilo que os ecumenistas procuram e julgam dever realizar no futuro. A única atitude, pois, que lhe compete, é a de abrir os braços e convidar os irmãos que se separaram do tronco tradicional, a voltar ao seio da unidade; a Igreja "Una Sancta" já existe. Compreende-se destarte que os católicos não possam aderir a um movimento que ainda se propõe deliberar sobre a fórmula e as condições da unidade; tais deliberações lhes hão de pa­recer vãs. Vê-se que a posição da Igreja Católica, por muito rígida que pareça, nada tem que ver com intransigência arbi­trária, mas é o simples corolário da consciência que Roma tem de possuir, por graça de Deus, a verdade incontaminada.

A Igreja Católica acompanha com carinho o Ecumenismo. Quando os pioneiros do movimento foram convidar o Papa Bento XV para a sua primeira conferência, o Pontífice os re­cebeu amavelmente; a seguir, mandou-lhes responder:

"Sua Santidade não quer de modo algum desaprovar o planejado Con­gresso, oportuno para aqueles que não estão unidos à Cátedra de Pedro: deseja ardentemente e pede ao Senhor que se se realizar a assembléia, possam os congressistas, por graça de Deus, ver a luz e se reunir ao Chefe visível da Igreja, que os receberá de braços abertos" (citado em 'A History oi the Ecumenical Movem ent". London 1956).

Em dezembro de 1949, o Santo Ofício publicou uma Ins­trução, em que atribuía à ação do Espírito Santo o desejo de unidade manifestado pelo Ecumenismo. No mesmo documento facultava aos bispos permitir, nas suas dioceses, encontros e diálogos teológicos entre católicos e protestantes.

Aos cató­licos era concedido rezar com os irmãos separados o "Pai Nos­so" ou qualquer outra oração aprovada pela Igreja (cf. A. A. S. XVII [1950] 142-147).

Periódicos e revistas católicas ("Istina, Unitas, Irenikon...") têm procurado facilitar de diversos modos a realiza­ção do grande ideal de volta dos irmãos separados à unidade.

NOTA:

[1] Empregamos aqui a palavra "Igreja" em sentido impróprio; pro­priamente só há uma Igreja de Cristo: aquela que se liga ininterrupta­mente através dos séculos com os Apóstolos e o próprio Senhor Jesus

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