segunda-feira, 21 de junho de 2010

Maçonaria: que é a Maçonaria?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 009/1958)


«Que é a Maçonaria? Quais as suas relações com as escolas de sabedoria antigas? Poderá um católico ser maçon?»

A Maçonaria vem a ser uma sociedade secreta, de caráter internacional, que visa remodelar a vida dos povos dentro de moldes estritamente humanitários e leigos. Exporemos suces­sivamente as origens da Maçonaria hoje existente, as prin­cipais teses doutrinárias que a orientam e, por fim, a atitude que perante ela compete ao católico.

1. Os inícios da Maçonaria

A Maçonaria, tal como hoje em dia existe, recebeu sua organização no séc. XVIII. A história de sua origem, porém, se prende à Idade Média.

Com efeito, nos séc. XI/XIII registrou-se extraordinária atividade de construção (catedrais, mosteiros, escolas, casas de beneficência, pontes, etc.), de sorte que as corporações de pedreiros então existentes foram tomando importância especial; os bons arquitetos e pedreiros eram procurados por toda a parte e dotados de privilégios, que por vezes tinham vigor internacional; tanto os Papas (Nicolau III, 1277; Bento XII, 1334) como os príncipes seculares favoreciam os construtores. Em conseqüência, estes adotaram o atributo de livres (= privilegiados) ou franc-maçons, e passaram a designar seu ofício como «arte regia».

As corporações de pedreiros distinguiam três graus de membros: aprendizes, companheiros e mestres, que costuma­vam ser recebidos segundo ritual muito solene, no qual figu­ravam os símbolos distintivos da arte (compasso, esquadro, avental, etc.); juravam observar o segredo profissional e eram iniciados nos sinais de reconhecimento mediante os quais se poderiam identificar entre si e, em conseqüência, prover em toda a parte ao auxílio mútuo.

Eram severas as exigências impostas a quem quisesse entrar em tais corporações; pedia-se não somente idoneidade profissional e moral, mas também fidelidade a Deus e à Santa Igreja, de sorte que o bom «maçon» ou pedreiro medieval era simultaneamente um bom cristão. Tal é o tipo da Maçonaria que se costuma chamar Maçonaria operativa ou prática da Idade Média.

No séc. XVI a ps. - Reforma protestante fez que perdesse um tanto da sua voga a arquitetura religiosa; verificaram-se também discórdias internas nas corporações, as quais natural­mente entraram em decadência. Então, para restaurar o seu prestígio, os grupos de pedreiros começaram a admitir membros honorários influentes, pertencentes a altas camadas da socie­dade; na Inglaterra do séc. XVII era tida como elegante entre os nobres a moda de se inscreverem em um corpo de pedreiros. Assim nesses grupos foi prevalecendo o elemento aristocrá­tico e intelectual, que havia de dar orientação totalmente nova à antiga Maçonaria. Esta, com efeito, deixou de ser propria­mente técnica, para se tornar filosófica ou especulativa.

A evolução tomou sua face definitiva aos 24 de junho de 1717, quando quatro lojas maçônicas de Londres, por ins­piração de um protestante francês, Teófilo Désaguliers, se coligaram para formar a Grande Loja da Inglaterra, que atribuiu a si uma função primariamente filosófica ou doutri­nária.

— Foi encarregado de redigir os Estatutos respectivos o pastor protestante Jaime Anderson, que em 1723 apresentou a primeira Constituição da nova Maçonaria, Constituição retocada pelo mesmo autor em 1738. Esta Magna Carta é expressão característica da mentalidade da época: procura estabelecer pacífica convivência entre os homens na base da «neutralidade» religiosa.

É muito interessante comparar o parágrafo intitulado «Deveres para com Deus e a Religião» da Constituição de pedreiros medievais com o inciso correspondente da Constituição de 1738.


No primeiro lê-se:


«Teu dever primordial, como maçon, consiste em seres fiel a Deus e à Igreja e em te preservares dos erros e da heresia».


O segundo reza:


«O maçon, por sua profissão, está obrigado a obedecer à lei moral, e, se conhecer bem a sua arte, não será nem um ateu estúpido nem um libertino religioso. Mas, embora nos antigos tempos os maçons fossem obrigados em cada país a pertencer à religião desse pais ou dessa nação, qualquer que fosse ela, agora julgamos mais conveniente não mais os obrigar senão à religião na qual todos os homens concordam entre si, deixando a cada um as suas opiniões particulares. Isto quer dizer que os maçons devem ser homens bons e verídicos ou homens de honra e probidade, embora diferenciados entre si por convicções e denominações várias. Desta forma a Maço­naria se tornará o centro de união e o meio de constituir uma verdadeira amizade entre pessoas que, de outro modo, ficariam for­çosamente em perpétuo afastamento umas das outras».

A Grande Loja da Inglaterra fundada em 1717 se propagou rapidamente, dado o prestígio político e internacional de que gozava aquela nação no séc. XVIII: em meados deste a Maço­naria já havia penetrado em todos os principais países da Europa.

Como se vê, é vã qualquer teoria que pretenda atribuir origem pré-cristã ou oriental ou existência milenária à Maço­naria: nem Lameque, nem Salomão, o monarca construtor israelita, nem o romano Numa Pompílio nem algum dos grandes personagens da Idade Média pode ser tido como iniciador do movimento, apesar do que se lê em alguns livros que, fazendo recuar as origens da Maçonaria, lhe querem grangear maior venerabilidade e autoridade. — Tão pouco se poderia dizer que a Maçonaria é um instrumento criado pelo judaísmo para destruir a civilização cristã, embora pareça inegável que os judeus, após a Revolução francesa de 1789, lograram exercer grande influência nas lojas maçônicas; estas por sua vez, adotaram em larga escala idéias, vocábulos e símbolos da Cabala ou da mística judaica panteísta.

2. A ideologia maçônica

1. Na sua Filosofia especulativa a Maçonaria professa a autonomia da razão humana. Por conseguinte, o racionalismo e o naturalismo estão na base do sistema.

Os textos oficiais das Lojas aceitam a existência de um Deus (geralmente chamado «O Grande Arquiteto do Universo»), pois este fato se pode apreender pela razão. Está claro, porém, que não reconhecem revelação sobrenatural; os dogmas, que exigem fé, assim como os milagres, são tidos como produtos da imaginação humana: «Não ficarás sabendo na Maçonaria senão aquilo que tu mesmo tiveres encontrado», promete um «Livro do Aprendiz» maçônico, resumindo bem o adogmatismo da seita.

O Deus professado pela Maçonaria é o Deus dos filósofos ditos «deístas» (Voltaire, Diderot, D'Alembert, principalmen­te): no séc. XVIII uma corrente ideológica espalhou-se pela Inglaterra, a França e a Alemanha, a qual reconhecia a exis­tência de um Ser Supremo, mas afirmava pouco ou nada saber a seu respeito, pois (como diziam os deístas) Deus não se revelara. Uma conseqüência muito «cômoda» dessa atitude filosófica era que o homem, na sua conduta de vida moral, embora não se professasse ateu, podia agir autonomamente, pois o Ser Supremo praticamente não interferia no curso deste mundo[1]. Ora a Maçonaria adotou tal posição filosófica; praticamente essa ideologia redunda em ateísmo, como com­provou a experiência: em muitas Lojas contemporâneas o título «Grande Arquiteto do Universo» caiu em desuso ou é simples fórmula destituída de significado real. Cada maçon pode interpretá-la a seu bel-prazer, identificando-a, por exem­plo, com uma noção um tanto vaga de Verdade, de Bem, de Belo ou com o ideal da Civilização a ser implantada neste mundo segundo os métodos maçônicos. — Assim a Maçonaria cultua, em última análise, a Humanidade apregoada como um grande Todo, um Absoluto, a serviço do qual se deve colocar todo cidadão. Tal culto é a religião universal e superior que se imporá de maneira inelutável na era futura; para essa reli­gião superior é que convergem agora todos os homens (teístas, panteístas, politeístas) que se queiram emancipar de seus hereditários «conceitos infantis» em demanda de um progresso cuja divisa soa: «Nem Deus nem mestre».

Está claro que, à luz desta ideologia, as noções de imor­talidade da alma, vida futura e sanção póstuma se tornam muito pálidas ou mesmo nulas.

2. A Moral maçônica prega a filantropia e a beneficên­cia ou tolerância para com todos. Na realidade, porém, a seita não rejeita o recurso ao furto, à conspiração dissimulada e ao assassínio, desde que convenham aos planos maçônicos. A Ma­çonaria auxilia eficazmente os seus membros, constituindo uma rede de proteção que, defendendo os interesses de uns, pode ser extremamente nociva aos de outros cidadãos (totalmente inculpados). Os historiadores, inclusive os maçons, reconhecem em geral que as grandes campanhas contra as instituições cristãs e o clero têm sido freqüentemente fomentadas pela Maçonaria: assim a supressão de Ordens Religiosas, de escolas católicas, a confiscação dos bens da Igreja, os movimentos pró-divórcio, pró-laicização do ensino, dos hospitais, dos quartéis, a campanha em favor da cremação de cadáveres, etc. Na segun­da metade do séc. XIX as Lojas travaram uma luta cerrada contra a Igreja, principalmente nos países de civilização latina (França, Bélgica, Itália, Espanha, Portugal, América Central e Meridional).

3. Não obstante o seu racionalismo, a Maçonaria apre­senta (quase paradoxalmente!) um aspecto místico assaz acentuado. Segue um ritual solene em que cerimônias simbó­licas, sinais e emblemas ocorrem com profusão, inspirados parte pelos ritos das antigas religiões orientais e gregas de mistérios, parte pela Bíblia e o Cristianismo, parte pelos usos das cor­porações medievais de pedreiros.

A adoção desse ritual na Maçonaria se explica pelo fato de que no séc. XVIII, juntamente com o racionalismo, estavam muito em voga as seitas ocultistas e a Cabala judaica, seitas que durante a Idade Média se formaram amalgamando idéias e usos do esoteris­mo antigo. Por estranho que isto pareça, o ocultismo, com a sua mística, se combina com o racionalismo, pois também bajula o orgulho humano, prometendo uma sabedoria que eleve o iniciado acima do comum dos mortais, ou seja, a quintessência da sabedoria de todas as épocas e de todos os povos. Ademais o racionalismo estéril, depauperante, e o misticismo aberrante, fantasista, são mani­festações congêneres da decadência do espírito e da cultura de uma época.

As cerimônias usuais na Maçonaria servem para inculcar os princípios e as aspirações da seita. Três são os graus de introdução na Loja: o do aprendiz, o do companheiro e o do mestre.

Aprendiz é o cidadão que, libertando-se da servidão e da cegueira do mundo profano, abre os olhos para a «verdadeira luz», a da «Estrela chamejante» (paródia da estrela de Belém). Realiza assim uma espécie de purificação intelectual e moral, dispondo-se a ser «um pensador e um sábio».

A seguir, o candidato passa «entre as duas colunas (Boaz e Jakin), tornando-se companheiro. Estuda então assiduamente as ciências e as artes liberais, preparando a sua «divinização ou consumação na Humanidade pura. . . É-lhe reconhecida a superioridade sobre todos os profanos, assim como a serenidade característica dos que se aproximam da perfeição (essa serenidade é simbolizada por um cubo entregue ao candidato; note-se que o cubo é uma figura que está sempre em pé, sempre igual a si mesma).

Por fim, dá-se a elevação ou transfiguração ou divinização do iniciado, que recebe conseqüentemente a dignidade de Mestre. Este é considerado morto a todos os preconceitos e vícios do mundo profano e regenerado para uma vida nova. Está pronto a tudo sacrificar, mesmo a vida, no combate contra os poderes inimigos (a superstição, o fanatismo, o despotismo). Como insígnia, é-lhe entregue uma prancheta de desenho, a simboli­zar a tarefa do maçon perfeito, que é a de construir o edifício da sociedade futura, numa fraternidade universal e cosmopolita, emancipada de dogmas.

A iniciação nesses diversos graus se faz em ambiente de mistério e terror mediante severos juramentos de fidelidade e segredo, sob a ameaça de morte pela espada. Em algumas Lojas se acrescentam aos ritos comuns práticas inspiradas pela alquimia e a magia.

3. A atitude da Igreja

Não se pode deixar de reconhecer a oposição radical vigente entre a ideologia maçônica e a doutrina católica: aquela é essencialmente racionalista, ao passo que esta se volta toda para o sobrenatural.

Não admira, pois, que, desde Clemente XII (1738) até Leão XIII (1884), nove Papas, em doze pronunciamentos sucessivos, tenham condenado a seita, denunciando o seu aspecto enganador ou satânico. Nos últimos tempos, havendo cessado a animosidade aberta entre católicos e maçons, surgiu em muitas pessoas a idéia de possível conciliação entre a Sta. Igreja e a Maçonaria, idéia que até hoje vem sendo repetida­mente proposta. Não poderia a Igreja coordenar as suas forças com as da Maçonaria no plano da beneficência humani­tária, visando unicamente um progresso mais acelerado da cultura e da civilização?

A tal propósito deve-se observar o seguinte:

No séc. XVIII, alguns maçons influentes tentaram reor­ganizar a Maçonaria nos seus moldes originários, moldes das corporações medievais, que eram inegavelmente católicos. Não o conseguiram, porém, pois o mal já penetrara longe demais na sociedade. Após o reerguimento da Maçonaria subseqüente à Revolução francesa de 1789, a sucessão dos acontecimentos mostrou não haver possibilidade de conciliação.

Contudo, finda a guerra de 1914/18, alguns maçons trou­xeram de novo à baila o plano de uma aproximação em relação ao Catolicismo. O líder André Lebey, muito popular nas Lojas, convidava «os que sentiam necessidade de um culto» a irem «ao ninho comum: a religião católica». René Guénon tachava de «degenerada» a organização maçônica de seu tempo e pre­conizava uma Maçonaria restaurada de acordo com as suas origens católicas. Por fim, Albert Lantoine, membro do Supre­mo Conselho do Rito Escossês, no ano de 1937 entrou em diálogo com o Pe. Berteloot S. J.; num opúsculo intitulado «Lettre au Souverain Pontife» propunha à Igreja como que uma «trégua» para se constituir uma frente comum contra os perigos do totalitarismo e do marxismo, que, conforme Lantoi­ne, ameaçavam «os dois cultos». As idéias deste autor, embora tenham despertado simpatia entre vários de seus correligio­nários, não encontraram apoio par parte das autoridades das Lojas, de sorte que Lantoine, antes de morrer, abandonou toda atividade maçônica. A Igreja, do seu lado, declarou, por um decreto do Sto. Oficio datado de abril de 1949, que as disposições (condenatórias) do Código de Direito Canônico referentes à Maçonaria não haviam sofrido mudança.

Para que uma conciliação se pudesse dar, seria preciso que a Maçonaria renunciasse a mais de dois séculos de laicismo e ateísmo, e retomasse seus moldes medievais, como ainda desejam alguns maçons tradicionalistas, Tal reestruturação, porém, parece totalmente utópica! O Pe. Berteloot verificava nitidamente: «A Maçonaria não tem mais princípio algum que possa fundamentar um acordo religioso qualquer».

Todavia, para provar a possibilidade de uma aliança, obje­ta-se por vezes que o Papa Pio IX, assim como bispos e sacer­dotes famosos no Brasil, aderiram à Maçonaria (entre estes apontam-se o Conde de Irajá, bispo do Rio de Janeiro; D. José Joaquim de Azevedo Coutinho, bispo de Olinda; o cônego Januário, Frei Caneca, Frei Montalverne ...).

Diante desta dificuldade, será preciso lembrar que, no tocante a Pio IX, há equivoco comprovado, ou seja, confusão dos nomes de Giovanni Ferreti Mastai (jovem libertino de Roma e maçon reconhecido) e de Giovanni Mastai-Ferretti (bispo de Imola e posteriormente Papa Pio IX). O primeiro autor que fez a identificação dos nomes, Carlos Gasola, retra­tou-se devidamente no jornal «Positivo» de Roma aos 18 de junho de 1857.

Quanto aos demais eclesiásticos citados, não se nega que tenham pertencido à Maçonaria. Notem-se, porém, as circuns­tâncias em que se lhe agregaram: viveram geralmente no início do século passado, por ocasião do movimento em favor da independência do Brasil. Ora a Maçonaria naquela época propugnava poderosamente esta causa, sem ter caráter nitidamente anticlerical. Tal atitude foi suficiente para que os mencionados sacerdotes procurassem as Lojas, visando conse­guir mais facilmente o ideal da independência nacional. Aderi­ram, portanto, à Maçonaria por causa de uma campanha nacionalista comum a todos os patriotas, não por causa das idéias específicas da seita.

— Acontecia ainda no século passa­do que as proibições da Santa Sé referentes à Maçonaria não recebiam o «Beneplácito» do Governo regalista do Brasil, de sorte que a muitos cidadãos honestos (mesmo eclesiásticos) podia parecer que não obrigavam em consciência (conclusão esta objetivamente errônea, pois as leis da Igreja não precisam de confirmação civil para atingir a consciência dos católicos). — Donde se vê que a realidade da história mesma não des­mente a incompatibilidade existente entre filosofia maçônica e doutrina católica.

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NOTA:

[1] Em linguagem filosófica distingue-se entre Teísmo e Deísmo. Aquele admite a ordem sobrenatural e a fé em verdades reveladas por Deus, ao passo que o Deísmo nada reconhece além do que a razão humana pode apreender.

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