sexta-feira, 4 de junho de 2010

Igreja: por que a riqueza do vaticano?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 002/1958)


"Porque a riqueza do Vaticano? Se o Papa é o repre­sentante de Cristo na terra, porque não O segue em sua pobre­za, humildade e simplicidade?"

A respeito da "riqueza do Vaticano" propagam-se ditos notoriamente exagerados. Procuremos perceber qual o seu fundamento e qual a razão de ser do poder temporal do Papa, representante de Jesus Cristo sobre a terra.

Quem considera a história, verifica que a soberania terri­torial dos Papas não se deve a uma pretensa ambição dos Pontí­fices, nem é o resultado de plano premeditado, mas constitui a afirmação espontânea da fé do povo cristão.

1. A origem da ascendência temporal dos Papas se acha nos primórdios da história da Igreja.

Em 330 o Imperador Constantino transferiu a capital do Império Romano para Bizâncio no Oriente, o que representa um verdadeiro desvio no curso da história: Roma no Ocidente ficou entregue à administração de um conselho municipal, que tinha o nome de Senado, e de funcionários encarregados de julgar as causas judiciárias e cobrar os impostos. Bizâncio mais e mais se esquecia de Roma, descuidando-se do seu rea­bastecimento e da conservação de seus monumentos; as incur­sões dos bárbaros na península itálica tornavam as condições de vida da população cada vez mais precárias e dolorosas. Eis, porém, que, em meio à anarquia, uma figura ia ganhando es­pontânea veneração: a do bispo de Roma, considerado pela população cristã como o pai comum, no qual todos depositavam confiança. Correspondendo a este afeto filial, os Pontífices Romanos foram-se tornando os tutores do bem público não somente no plano espiritual, mas também no temporal e social: em 452, por exemplo, o Papa São Leão Magno dirigiu-se ao en­contro de Átila e do exército huno, que se aprestavam para de­vastar Roma e a Itália meridional, conseguindo detê-los em Mântua.

Nos séc. VI/VII acontecia não raro que príncipes e nobres, ao entrar no mosteiro ou ao morrer, doavam seus bens ao Papa, em testemunho de piedade filial; foi-se assim formando o cha­mado "Patrimônio de São Pedro" na península itálica e nas ilhas adjacentes. Esses latifúndios, de extensão cada vez maior, permitiam ao Pontífice Romano uma posição de certa indepen­dência frente ao Imperador bizantino e colocavam sob a sua jurisdição, religiosa e civil, grande número de cidadãos, que trabalhavam nos territórios papais ou destes se beneficiavam. Enquanto o Papa se tornava cada vez mais o amparo das po­pulações infelizes do Ocidente, os Imperadores bizantinos e seus exarcas (representantes estabelecidos em Ravena) se mos­travam impotentes ou indiferentes diante das calamidades que as afetavam.

No séc. VIII os acontecimentos se precipitaram.

O Papado se viu premido entre duas potências hostis: no Oriente, os bizantinos favoreciam as heresias (a respeito de Cristo e do culto das imagens), os Imperadores subtraiam ter­ras à jurisdição eclesiástica dos Papas; no norte da Itália, os lombardos, pagãos ou arianos (heréticos), ameaçavam constan­temente saquear Roma e os territórios meridionais, constituin­do um perigo não somente civil, mas também religioso. Nessas circunstâncias, os Pontífices Romanos se lembraram de recor­rer ao auxílio de um dos novos povos do cenário europeu: os francos, que, desde o batismo de seu rei Clóvis em 496, cons­tituíam uma nação cristã de crescente valor cultural; em 732, seu mordomo, Carlos Martelo, tinha conjurado o perigo mu­çulmano, vencendo os árabes em Poitiers. Os francos conser­vavam fidelidade à reta fé e possuíam energias novas, enquanto Bizâncio já significava um mundo velho, vítima tanto das su­tilezas de seu ingênio ("bizantinismo" na arte, na filosofia, na teologia. . .) como dos exércitos estrangeiros (principalmente dos persas); o verdadeiro esteio da cristandade já não estava no Oriente (onde as sutis discussões teológicas debilitavam a fé, mas no Ocidente, em particular no reino dos francos, onde a fé era empreendedora. Porque então não apelariam os Papas para estes filhos da Santa Igreja, a fim de impor uma ordem de coisas cristã aos povos cristãos ?

Foi o que Estêvão II resolveu fazer, dirigindo ao mordomo franco um pedido de auxílio diante das ameaças dos lombardos. Pepino o Breve atendeu-o em 756, movido por amor à fé e aos interesses da Igreja: em duas exibições venceu os lombardos e confirmou o Papa na posse do Patrimônio de São Pedro. Estava assim fundado, por magnificência da piedade cristã (dos nobres da Itália e dos francos), o Estado Pontifício independente de Bizâncio. Em compensação, Pepino foi sagra­do rei dos francos pelo Papa Estêvão II, e seu filho Carlos Magno recebeu do Pontífice Leão III, em 800, a coroa de Impe­rador do Império Romano, restaurado no Ocidente com o título de império sacro ou cristão.

Esses fatos têm sido calorosamente comentados pelos his­toriadores. Pergunta-se se não houve nisso tudo usurpação de direitos, jogo de interesses políticos dos Papas e dos francos. Após uma reflexão serena, responder-se-á que não. Os acontecimentos mencionados não foram senão a "oficialização" de uma situação que de fato já existia: o Papa já exercia as funções de soberano no Patrimônio de São Pedro, sem possuir o título respectivo; os mordomos francos, do seu lado, já go­vernavam o reino (sob a dinastia dos reis merovíngios ditos "fainéants", indolentes), embora não trouxessem as insígnias de monarcas; Pepino o Breve e Estêvão II, Carlos Magno e Leão III só fizeram tornar a situação definida e patente aos olhos do mundo. A restauração do Império Romano no Oci­dente não pode ser tida como violência cometida contra Bizân­cio, nem foi um gesto surpreendente e brusco, mas o remate orgânico de um processo histórico iniciado em 330 e lentamen­te amadurecido no decorrer de mais de quatrocentos anos (até 756, ou melhor, até 800).

2. O Estado Pontifício, fundado em 756, perdurou inin­terruptamente até 1870, quando cedeu ao movimento de uni­ficação da península itálica. Registraram-se, no decorrer des­ses muitos séculos, obras grandiosas, que a soberania temporal dos Papas possibilitou; mas verificaram-se outrossim certos abusos, gestos de prepotência política e de luxo mundano, prin­cipalmente no período da Renascença. A Santa Igreja, guiada pelo Espírito Santo, é a primeira a reconhecer e condenar tais desvios; ela não se identifica irrestritamente com nenhum de seus membros, mas, na qualidade de Esposa de Cristo, trans­cende a todos, até mesmo os mais altamente colocados (pois cada um traz até certo ponto o lastro do pecado); também não se surpreende ao verificar os abusos de seus filhos; estão bem na linha da parábola evangélica do joio e do trigo. . .

Em 1870, tendo caído o poder temporal dos Papas, foram amplamente debatidas as vantagens e os inconvenientes da conservação do Estado Pontifício (tratava-se da "Questão Ro­mana") . Apesar de toda a pressão adversária, Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Bento XV e Pio XI julgaram não poder abrir mão dos seus antigos direitos; conscientemente, pois, tomaram essa posição. E qual o motivo que levava os Pontífices a proce­der desse modo?

Pio XI o explicou com a máxima clareza por ocasião do tratado do Latrão ou da restauração do Estado Pontifício, aos 11 de fevereiro de 1929:

"Podemos dizer que não há uma linha, uma expressão do tra­tado (do Latrão) que não tenham sido, ao menos durante uns trinta meses, objeto particular de nossos estudos, de nossas meditações e, mais ainda, de nossas orações, orações que pedimos outrossim a grande número de almas santas e mais amadas por Deus.

Quanto a Nós, sabíamos de antemão que não conseguiríamos contentar a todos, coisa que geralmente nem o próprio Deus con­segue ...


... Alguns talvez achem exíguo demais o território temporal. Podemos responder, sem entrar em pormenores e precisões pouco oportunas, que é realmente pouco, muito pouco; foi deliberadamente que pedimos o menos possível nessa matéria, depois de ter refletido, meditado e orado bastante. E isso, por vários motivos, que nos pare­cem válidos e sérios.

Antes do mais, quisemos mostrar que somos sempre o Pai que trata com seus filhos; em outros termos: quisemos manifestar nossa intenção de não tornar as coisas mais complicadas e, sim, mais sim­ples e mais fáceis.

Além disto, queríamos acalmar e dissipar toda espécie de inquietação; queríamos tornar totalmente injusta, absolutamente infun­dada, qualquer recriminação levantada ou a ser levantada em nome de... iríamos dizer: uma superstição de integridade territorial do país (Itália).

Em terceiro lugar, quisemos demonstrar de modo peremptório que espécie nenhuma de ambição terrestre inspira o Vigário de Jesus Cris­to, mas unicamente a consciência de que não é possível não pedir, pois certa soberania territorial é a condição universalmente reconhe­cida como indispensável a todo autêntico poder de jurisdição.

Por conseguinte, um mínimo de território que baste para o exer­cício da jurisdição, o território sem o qual esta não poderia subsis­tir... Parece-nos, em suma, ver as coisas tais como elas se realiza­vam na pessoa de São Francisco: este tinha apenas o corpo estrita­mente necessário para poder deter a alma unida a si. O mesmo se deu com outros santos: seu corpo estava reduzido ao estrito neces­sário para servir à alma, para continuar a vida humana e, com a vida, sua atividade benfazeja. Tornar-se-á claro a todos, esperamo-lo, que o Sumo Pontífice não possui como território material senão o que lhe é indispensável para o exercício de um poder espiritual con­fiado a homens em proveito de homens. Não hesitamos em dizer que Nos comprazemos neste estado de coisas; comprazemo-Nos por ver o domínio material reduzido a limites tão restritos que. .. os homens o devem considerar como que espiritualizado pela missão espiritual imensa, sublime e realmente divina que ele é destinado a sustentar e favorecer " (trecho da alocução publicada pelo "Osservatore Roma­no" de 13 de fevereiro de 1929).

3. As palavras acima definem bem a mente da Igreja a respeito do poder temporal de que não quis abrir mão durante os sessenta anos em que dele esteve despojada. Em última análise, vê-se que o Papa considera a sua soberania territorial como o corpo imprescindível ao exercício das atividades de uma alma ou como condição indispensável para o cumprimento de sua missão religiosa; assim como a alma neste mundo não age normalmente sem corpo, assim a tarefa espiritual da Igreja seria impedida, caso lhe faltasse tal suporte temporal.

A comparação ilustra fielmente a verdade. Tenha-se em vista que a Igreja, por definição, exerce autoridade não apenas sobre os corpos e o comportamento exterior dos homens, mas também sobre o setor mais íntimo e importante dos indi­víduos: sobre as almas; e exerce-a independentemente de fronteiras nacionais, abrangendo centenas de milhões de fiéis do mundo inteiro: onde quer que esteja comprometido o espírito do homem, mesmo nos planos aparentemente mais indiferentes à religião, como o esporte, o cinema, a medicina, o comércio, a Igreja tem que estar aí presente, a fim de orientar a conduta das almas que assim entram em contato com o mundo material.

Tal autoridade é realmente colossal. Em conseqüência, os filhos da Igreja e os homens que compreendem o que essa au­toridade significa, não podem deixar de desejar que tanto poder não sofra influência de alguma força estranha, não se torne joguete nas mãos de soberanos políticos, mais ou menos arbitrários. Por isto cedo ou tarde havia de aflorar à consciên­cia dos cristãos a idéia de que o governo e o Chefe Supremo da Igreja devem ser independentes de qualquer soberano político nacional, devem enfim ser tão livres quanto qualquer governo deste mundo. Em caso contrário, estaria frustrada a sua missão.

Esta última conclusão, a história se encarregou de com­provar. Com efeito, não faltaram no decurso dos séculos tenta­tivas das autoridades civis que visavam submeter o Soberano Pontífice à jurisdição do monarca de tal ou tal país (que ótimo jogo não seria utilizar a autoridade moral dos Papas em favor de interesses nacionais!). Quando o conseguiram, a tarefa reli­giosa da Igreja se viu enormemente prejudicada. Foi o que se deu, por exemplo, durante o chamado "Exílio de Avinhão": de 1309 a 1376, os monarcas franceses obtiveram que os Papas residissem em Avinhão (França), onde, carecendo de soberania temporal, ficaram sujeitos à influência do governo civil. Nesse período, os Pontífices foram perdendo parte da sua autorida­de perante a opinião pública internacional; os cristãos de fé (o rei Carlos IV da Alemanha, o poeta Petrarca, Sta. Brígida, nobre viúva sueca, Sta. Catarina de Sena) se alarmavam, per­cebendo que, se a situação se prolongasse por muito tempo, o Papado deixaria de ter o prestígio sobrenatural e católico (uni­versal) que deve ter. Basta recordar que o Pontífice João XXII (1316-1334) entrou em conflito com o rei Luís IV da Baviera, animado de pretensões cesaropapistas; excomungado pelo Papa, o monarca respondeu que João XXII servia aos interesses dos Valois de França; por isto não hesitou em criar um antipapa (Nicolau V), alegando que a França tinha "seu" Papa.

Tais idéias e fatos evidenciam quão necessária à missão religiosa da Igreja é a soberania política (por muito limitada que seja) da que os Pontífices têm tradicionalmente usufruído e que ainda recentemente reivindicaram (diga-se mesmo sem te­mor de exagero: o interesse comum dos fiéis jamais permiti­ria abrissem mão de tal direito).

4. Mas que dizer do cerimonial de que o Papa se cerca?

Note-se logo que o fato de ser o Pontífice soberano de um pequeno território acarreta certo aparato em torno de sua pes­soa. Tal cerimonial, porém, é concebido como homenagem de­ferida não à pessoa do Pontífice como tal, mas à autoridade que a pessoa representa. Aos olhos da fé, não há dúvida, o Chefe visível da Igreja significa algo de muito grande (é o Vigário de Jesus Cristo); quem o compreende, não pode deixar de querer exprimir essa consciência por gestos de apreço. Mui­tas das demonstrações de reverência em uso na corte pontifícia devem ter surgido do espontâneo afeto dos cristãos; os cató­licos as entendem como profissão de fé no Cristo e na Igreja. Por este motivo mesmo, pode-se dizer que os Papas, nem a títu­lo de humildade, têm o direito de se lhes furtar de todo. O próprio Jesus, que habitualmente não tinha onde repousar a cabeça (cf. Lc 9,581, não recusou as homenagens que O aclama­vam quando entrou em Jerusalém, poucos dias antes de mor­rer: permitiu que tecessem de vestes e ramos a via pela qual passava, montado em um jumentinho; permitiu que, com cantos nos lábios, os hebreus O aclamassem Rei e Filho de Davi, pro­fessando seu entusiasmo pelo Messias (cf. Mt 21,1-11).

O cerimonial de que foi alvo Jesus, como o cerimonial pon­tifício, não impede simplicidade interior e desapego de espíri­to. Se houve Papas que deram importância pessoal e excessiva a esse aparato, constituem casos contingentes, que não derrogam à legitimidade do princípio geral.

5. Quanto às propaladas "riquezas" do Vaticano, é pre­ciso dizer que os rumores a seu respeito ultrapassam de muito a realidade.

A Cidade do Vaticano é, do ponto de vista territorial, a mínima do mundo. Quando após 1870 se discutia a "Questão Romana", diziam muitos que, em caso de restauração da sobe­rania temporal, um Estado do tamanho da República de São Marinho (60,57 kms2) seria suficiente para os Pontífices; ora o Estado Pontifício ressurgiu com 0,44 kms2 apenas — o que no século passado parecia incrível! Esse Estado constitui a sim­ples carcaça de uma alma e tem por exclusiva função possi­bilitar o exercício das atividades da respectiva alma ou da Igreja.

As obras de arte que se encontram no Vaticano, são, em grande parte, a expressão da fé de pintores e arquitetos cristãos, que quiseram glorificar a Deus mediante o seu talento. Os Papas — alguns com prodigalidade talvez excessiva — os in­centivaram, porque a Igreja só pode favorecer as artes que contribuam para a exaltação do Criador (veja-se a resposta n.° 9 deste fascículo).

Os objetos contidos nos Museus do Vaticano foram, em grande parte, doados aos Pontífices por cristãos sinceros (reis, cruzados, viajantes, exploradores, etc.), em testemunho de fé. Pertencem ao patrimônio do gênero humano; os Papas não vêem motivo para não os conservar para o bem da cultu­ra universal. O famoso telefone de ouro do Vaticano (se é que ainda existe) foi doado por uma firma comercial. . .

Não há razão, pois, para que o mundo se detenha cobiçosamente sobre as apregoadas riquezas materiais do Vaticano. Volte, antes, a sua atenção para os imensos tesouros espiri­tuais que daquele recanto territorial emanam para o gênero humano. Queiram-no ou não os homens, é ainda do Vaticano que se faz ouvir a palavra da Verdade e da Vida em meio às teorias mórbidas e à confusão ideológica de nossos tempos

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