quarta-feira, 26 de maio de 2010

Alma Humana: diferença entre o homem e o macaco

ESCOLA "MATER ECCLESIAE"



CURSO DE FILOSOFIA POR CORRESPONDÊNCIA


IV. PSICOLOGIA FILOSÓFICA


MÓDULO 22: HOMEM E MACACO

Em nossos dias registra-se forte tendência a despojar o ser humano de todos os predicados que sempre foram tidos como características exclusivamente suas. Charles Darwin († 1882) insinuava que o ser humano não vem a ser senão um macaco aperfei­çoado; Freud († 1939) gloriava-se de haver reduzido o homem a joguete de instintos cegos, ao passo que a filosofia estruturalista decompõe o homem em elementos estrutu­rais sem conteúdo específico: proclama assim a morte do homem, como passo conseqüente à morte de Deus.

Este problema nos oferece a ocasião de continuar a estudar valores específicos do homem, que o distinguem dos animais infra-humanos. Assinalaremos três traços, que complementam quanto foi dito nos'Módulos anteriores sobre a espiritualidade da alma humana.

Lição 1: Ainda a linguagem humana

O chimpanzé e o gorila não podem falar nem aprender a falar linguagem sonora desenvolvida, como demonstram todas as tentativas até agora realizadas. Em conseqüência, os experimentadores têm procurado ensinar aos chimpanzés e aos gorilas alguns sinais, que se assemelham aos da linguagem dos surdo-mudos. A aprendizagem surtiu efeitos, como se depreende do relatório publicado por Francine Patterson com o título Conversations with a Gorilla em National Geographic, vol. 154, october 1978, pp. 438-465. Experiências anteriores à de Francine Patterson foram levadas a termo por cientistas como R. Fouts, Gardner, Rumberger, Gill, Glaserfeld...; os resultados foram positivos... Todavia D. Ploog em 1972 verificava que, mesmo diante de tal êxito, se devem registrar profundas diferenças: a comunicação entre animais e a linguagem usada pelos homens não diferem entre si apenas por diversidade de graus de perfeição dentro da mesma pretensa linha homogênea, mas supõem estruturas físicas e psicológicas essen­cialmente diversas: o homem é, por sua natureza mesma, um ser dado à cultura ou pré-programado para a cultura; o mesmo não se pode dizer a respeito dos animais inferiores ao homem, que são dados a repetir e imitar o que vêem, sem poder criar algo que dependa de lógica e raciocínio.

Nota-se também que os chimpanzés podem transmitir uns aos outros certos artifícios: assim na ilha japonesa Koshima, que não é habitada por seres humanos, uma fêmea de macaco descobriu certa vez que, para limpar batatas, não é necessário esfregá-las entre as mãos, mas basta mergulhá-las na água e lavá-las. Quatro anos mais tarde, a metade dos indivíduos do grupo a que pertencia tal fêmea, praticava o rito de lavar as batatas; no decorrer de dez anos, 71% dos membros do grupo haviam adotado tal costume por via de imitação. Deve-se, porém, observar que esta propagação de artifício não se deve ao desejo de educar, ensinar ou de comunicar aos semelhantes alguma novidade; ela se assemelha muito mais à difusão por contágio ou por imitação.

Lição 2: O Senso Ético

Já Charles Darwin em 1871 procurava enumerar os caracteres que distinguem o ser humano de maneira típica, permitindo assim estabelecer a linha divisória entre o homem e o animal inferior. Dizia então:

"Sem restrição, subscrevo a tese dos especialistas que afirmam que, dentre todas as diferenças existentes entre o homem e o animal inferior, o senso moral ou a consciência é a mais importante" (Die Abstammung des Menschen, p. 144).

Observações efetuadas em pessoas surdas e cegas de nascença revelaram que ao homem a consciência é inata, ou seja, anterior a qualquer experiência.

Somente o homem tem a noção do bem e do mal. Somente o homem pode tornar-se réu ou culpado. Em conseqüência, só o homem tem responsabilidade.

A responsabilidade, por sua vez, supõe liberdade de opção, faculdade esta que falta aos animais inferiores.

Não há dúvida, o animal tem uma bondade espontânea, a qual se manifesta principalmente no instinto materno; todavia não se pode dizer que essa bondade resulte de uma opção consciente. É inconsciente e indeliberada; o animal reage espontaneamen­te a certos estímulos como é o caso da prole ou dos filhotes. O ser humano também reage espontaneamente a tais estímulos; haja vista como as crianças gostam de brincar com bonecas, cachorrinhos, coelhinhos, etc. Todavia, à diferença dos animais, o homem é capaz de proceder contra os seus instintos; assim fazendo, ele se perverte ou... segue um ideal e cultiva valores que ele julga superiores à satisfação proporcionada pelos instintos. Só o homem pode assumir certas atitudes aparentemente paradoxais ou antitéticas aos instintos: a paciência, a misericórdia, o amor aos inimigos, a compaixão e a benevolência com os criminosos e perversos; tais virtudes estão fora do alcance dos animais, mas elas não são sobre-humanas; são, ao contrário, profunda e tipicamente humanas.

Mais: o animal não é capaz de assumir deveres ou compromissos; não se lhe podem impor normas, mesmo que se lhe imponha determinada aprendizagem. Por isto também a educação é fenômeno especificamente humano; sem educação não só o psiquismo do homem é prejudicado, mas também o próprio desenvolvimento biológico e corporal do homem sofre detrimento.

Tais ponderações evidenciam como o senso moral caracteriza o ser humano, distinguindo-o especificamente dos animais, e colocando o homem em posição singular no reino dos viventes.

Lição 3: O Marco Religioso

Dividiremos o nosso estudo em duas partes: 1) capacidade de refletir, 2) o fenômeno religioso propriamente dito.

3.1. A capacidade de refletir

Ainda ao estudar as diferenças entre o ser humano e os animais inferiores, Darwin apontava a consciência que o homem tem de si mesmo: esta é a chamada consciência psicológica, à diferença da consciência moral**

Quais as conseqüências deste fato?

1) Por sua consciência psicológica, o homem é capaz de refletir sobre si mesmo, sobre o seu presente, o seu passado e o futuro. Essa capacidade de refletir é caracterís­tica do ser humano, pois só este é sujeito de recordação propriamente dita; com efeito, um animal pode reconhecer o seu patrão ou determinados objetos quando estes lhe são apresentados de novo; mas somente o homem pode recordar-se de pessoas ausentes e de acontecimentos já ocorridos. Visto que os animais não conseguem isto, vivem quase exclusivamente no presente como vivem os bebês.

2) É precisamente a capacidade de recordar realidades ausentes que permite a formação de conceitos universais e de uma linguagem tal como o homem possui: linguagem que exprime noções universais, como homem, criança, belo, justo, injusto..., recorrendo aos mais diversos sons (francês, russo, chinês, bantu, tupi, etc).

3) Notemos outrossim: um ser para o qual só existe o presente imediato, não pode cultivar a história, como o homem a cultiva...

4) Nem pode ter responsabilidades, porque não pode prever as conseqüências de determinado comportamento seu...

5) Nem pode ter Religião como o homem tem, visto que a Religião põe o homem em contato com a transcendência ou com os valores históricos e trans-históricos. A Religião vem a ser, pois, um sinal típico e inconfundível do ser humano. Detenhamo-nos um pouco mais sobre esta afirmação.

3.2. O fenômeno religioso

O senso religioso, pondo o homem em contato com valores transcendentais, exprime-se, entre outras maneiras, através da crença na vida póstuma. É por isto que, desde os remotos tempos da pré-história, o ser humano sepulta os seus mortos. Os animais irracionais, diante dos seus semelhantes exânimes, experimentam sentimentos mistos de medo, insegurança, curiosidade, intranqüilidade... Mesmo a fêmea do macaco, apesar do seu instinto materno, não se preocupa com o sepultamento do filhote falecido: após a morte deste, ela ainda procura insistentemente alimentá-lo, carrega-o para diversos lugares,... mas, logo que o cadáver entra em decomposição e as características físicas do filhote se vão extinguindo, ela abandona o cadáver em qualquer lugar e não mais se interessa por ele.

Ora entre os homens a atenção aos mortos é uma característica das mais antigas.

Os fósseis do homo erectus (devidamente identificado) encontrados na Europa e na Ásia atestam esta verdade. O homem de Neandertal, por exemplo, sepultava seus mortos na posição de quem está dormindo, com a cabeça pousada sobre uma pedra; sobre o cadáver lançava pó de ocre, que tem a cor da vida (pardo, amarelo, vermelho, castanho...); junto ao defunto colocava alimentos, armas, instrumentos diversos e figuras ornamentais, que lhe serviriam na viagem para o além... O homem de Cromagnon também adotava tais costumes. Estes atestam a fé numa vida póstuma ou numa realidade transcendente.

Chamam outrossim a atenção dos estudiosos as pinturas encontradas nas cavernas da pré-história: representam motivos da caça ou da magia. Ora todo cultivo da arte está originariamente associado à Religião: esta sempre inspirou os pintores, os poetas, os músicos...

Ora a Religião, voltada para os valores transcendentais, é certamente uma carac­terística do espírito; ela é tão antiga quanto o homem, pois se manifesta desde a pré-história até hoje, e nunca foi cultivada pelo animal irracional. A existência, no homem, de sentimento religioso e de expressões correspondentes abre um hiato entre o ser humano e o macaco, hiato este que não foi superado ou transposto até hoje. Nem há possibilidade de superação, visto que a Religião supõe, no ser humano, a realidade do espírito ou da alma espiritual, ao passo que o princípio vital dos irracionais é meramente material. É a alma espiritual ou não material que faculta ao homem ter expressões de si que transcendem os dados concretos, materiais, a que está confinado o ser irracional. Pela religião, o homem se eleva aos valores invisíveis e ao Infinito, procurando assim a resposta às suas aspirações mais espontâneas que são aspirações à Verdade, ao Amor, à Justiça, à Vida, à Felicidade sem limites. É tão somente através do caminho da Religião e da Mística que o homem encontra os verdadeiros bens para os quais foi feito e dos quais o animal irracional não tem a mais pálida noção.

A Religião é inspirada pela necessidade que o homem experimenta, de dar sentido à sua vida ou de justificar, perante a sua consciência, a sua luta, o seu trabalho, o seu sofrimento e a sua morte. Na verdade, se não existem valores transcendentais que respondam às aspirações congênitas de todo homem, a presente realidade é vazia e frustrativa; o homem se torna um absurdo, perdido em meio às coisas passageiras que o cercam. E o homem-absurdo seria uma exceção no conjunto do universo, visto que este reflete ordem e harmonia — expressões de uma Inteligência Suprema.

Em nossos dias, a Religião continua sendo um fator típico da inteligência humana. Mesmo os que se dizem ateus, cultivam o Absoluto sob formas leigas ou secularizadas; é o caso do comunismo, ao qual o judeu Karl Marx deu a estrutura de um messianismo sem Deus; o proletariado sacrificado na luta de classes seria o Messias, que, morrendo, prepararia o surto de um homem novo, morigerado e pacífico. As categorias religiosas do judaísmo foram transpostas por Karl Marx para o plano da sociologia e da política; sobrevivem, porém, no esquema de pensamento marxista. — O marxismo cultua religio­samente certos valores meramente humanos ou profanos; este esquema caricatural já não satisfaz a muitos cidadãos, que hoje em dia se afastam do marxismo e das suas pantomimas para procurar a verdadeira fé e autênticas expressões religiosas. O senso religioso, inato em todo homem, vem de novo à tona apesar das tentativas de erradicação a que o marxismo o submeteu. Este fenômeno bem evidencia quanto o senso religioso é característico do ser humano. São sempre válidas as palavras de S. Agostinho (f 430): "Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti" (Confissões I 1).

Atraído irresistivelmente pelo Senhor Deus, o homem "ateu" de nossos dias cria suas místicas, seus "absolutos", seus deuses, suas superstições, que inadequadamente lhe fazem as vezes do único Deus.

* * *

[1]Ver Módulo 20 deste Curso.


[2]** A consciência moral é a faculdade que temos, de julgar o que convém ou não convém fazer em vista da consecução do nosso fim supremo; a consciência manda, a consciência aprova, a consciência censura nossos atos morais.

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