sexta-feira, 28 de maio de 2010

Alma Humana: Espiritualidade (III)

ESCOLA "MATER ECCLESIAE"



CURSO DE FILOSOFIA POR CORRESPONDÊNCIA


IV. PSICOLOGIA FILOSÓFICA


MÓDULO 21: A ALMA HUMANA — ESPIRITUALIDADE (III)

Consideremos neste Módulo duas questões complementares à doutrina da espiri­tualidade da alma humana: 1) a dependência da alma em relação ao cérebro; 2) a tese que identifica entre si corpo e alma.

Lição 1: Dependência do cérebro

Dirá alguém: como admitir a espiritualidade da alma humana quando se sabe que as atividades mais sublimes do ser humano não se realizam se o organismo está lesado em seu cérebro ou em seu sistema nervoso? Em tais condições, pode-se falar de alma imaterial ou espiritual?

A resposta não é difícil. Todos os antropólogos reconhecem a realidade psicosso­mática do homem. A moderna Psicologia científica adverte que não se pode dissociar, no homem, o plano intelectivo (e volitivo) do plano sentimental, nem este do plano vegetativo e instintivo; a linguagem humana (que é a expressão mais típica do raciocínio ou da espiritualidade do homem) é acompanhada por movimentos mímicos, gestos automáticos do corpo, desencadeados pelo funcionamento da inteligência e da vontade. Assim o espiritual e o corpóreo colaboram intimamente no homem.

De modo especial, a inteligência humana (que é uma das faculdades da alma espiritual) depende dos sentidos externos e do cérebro. Com efeito, os sentidos externos percebem os dados concretos da realidade ambiental (cores, sons, temperatura...), que, através de filamentos nervosos, são levados ao cérebro, sede do senso comum.1 No cérebro, esses dados são elaborados e reduzidos a uma síntese. Posteriormente o intelecto humano se aplica às diversas sínteses ou imagens que recebe, e distingue nestas o essencial e o acidental.

Admitamos, porém, que o cérebro ou algum filamento nervoso venha a se ressentir de lesão ou defeito, transmitido por hereditariedade ou contraído pelo próprio sujeito em acidente ou moléstia... Em conseqüência, a inteligência humana carecerá do instrumental sem o qual não pode manifestar a sua perspicácia; o sujeito poderá chegar a levar vida meramente sensitiva ou vegetativa... como se não tivesse inteligência. É o que leva muitos estudiosos a dizer que a inteligência é o próprio cérebro ou a massa cinzenta (camada cortical) do cérebro. — Tal conclusão, porém, é precipitada ou errónea. A alma humana, com as suas faculdades próprias (inteligência e vontade), não é matéria, como foi evidenciado atrás, mas depende da matéria para exercer suas atividades. Um doente mental possui alma espiritual como os demais homens, todavia tem seu organismo lesado a ponto de não permitir as manifestações inteligentes e lúcidas da alma que deveria servir-se desse organismo.

Vê-se, pois, que a dependência da alma em relação ao corpo no tocante ao seu agir não significa que a alma humana seja uma realidade material, mas tão somente que a alma humana espiritual foi feita para animar a matéria e aperfeiçoar-se em união com esta.

Lição 2: Corpo e alma — Dualismo ou dualidade?

1. Até os últimos anos era comum, nas escolas cristãs de filosofia, afirmar-se que o homem é um composto de corpo (matéria) e alma (espírito); corpo e alma nesta perspectiva se completam mútua e harmoniosamente, constituindo assim a realidade psicossomática do ser humano.

Recentemente, vários autores, entre os quais pensadores católicos, julgam que corpo e alma não se distinguem entre si, mas são, antes, duas facetas de uma só e mesma realidade que é o homem. As razões em favor desta nova tese seriam:

a) a antropologia bíblica que, segundo dizem, propõe uma concepção monista ou unitária do homem, sem deixar lugar para a distinção de corpo e alma;

b) a necessidade de superar o dualismo "corpo e alma", o qual tem inspiração platônica e facilmente leva a conceber oposição entre espírito e matéria ou entre salvação eterna e progresso material ou temporal.

2. A propósito observemos:

a) os autores bíblicos não pretenderam "canonizar" ou oficializar algum sistema filosófico. Verdade é que os mais antigos escritores sacros eram propensos a conceber o ser humano como um todo sempre integrado pela matéria ou, depois da morte, por "sombras da matéria" (rephaim). Os semitas dificilmente faziam abstração de imagens e noções sensíveis, de modo que não lhes era fácil conceber o ser humano sem matéria. Todavia o autor bíblico do livro da Sabedoria (séc. II a.C.) serve-se de noções filosóficas gregas e concebe a alma humana após a morte como um ser separado do corpo (cf. Sb 5). No próprio Evangelho segundo S. Mateus, lêem-se as palavras do Senhor:

"Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei, antes, aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena" (Mt 10,28).

b) Não há dúvida, a filosofia platônica, herdeira de concepções órficas, admitia dualismo antagonista entre corpo e alma. Todavia entre o dualismo platônico-órfico e o monismo contemporâneo existe uma posição intermediária que é a aristotélico-tomista: esta afirma a distinção entre corpo e alma, sem, porém, os opor ontologicamente entre si, antes concebendo-os como seres complementarmente unidos um ao outro. O próprio discípulo de Platão, Aristóteles (f 322 a.C), superou o dualismo de seu mestre, estabe­lecendo os princípios do hilemorfismo; estes, devidamente desenvolvidos, levam a afirmar a distinção de corpo e alma que se unem entre si como matéria e forma, constituindo um todo harmonioso. Os cristãos que seguiram a filosofia de Aristóteles, professaram a dualidade de corpo e alma, não, porém, o dualismo de Platão.1

3. A distinção de corpo e alma e, por conseguinte, a negação de todo monismo no ser humano evidencia-se por diversas vias. Realçaremos apenas o seguinte fato:

O corpo humano consta de inúmeras partículas que vão sendo renovadas constan­temente, de modo que de sete em sete anos a matéria do corpo humano é totalmente nova. Não obstante, não muda o núcleo consciente da personalidade que se manifesta através do corpo em mutação; um só é o eu que pensa, fala e age dentro da matéria mutante do organismo. Isto quer dizer que dentro do ser humano há algo que não está simplesmente sujeito às leis da biofísica e que se chama a alma humana.

Os dois princípios — corpo e alma — se unem entre si, sem a mediação de um terceiro princípio, mas por si mesmos, perfazendo um todo, que é uno. O corpo é o substrato material e a expressão da alma; a alma é o princípio vivificante, que comunica sentido e finalidade às diversas partes e funções do corpo. O corpo está constituído de tal modo que corresponde às exigências da alma; esta, por sua vez, necessita do corpo a fim de desenvolver as suas potencialidades.

* * *

[1] A propósito do senso comum, ver Módulo 25, Lição 3.

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