quarta-feira, 2 de maio de 2007

Mandamentos: se tudo fosse permitido...

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 447/1999)

Em síntese: Giovanni Martinetti, em seu livro "Razões para crer", imagina o que seria se a Igreja modificasse suas posições frente a tendências contemporâneas ao homossexualismo, às relações extra-conjugais, ao aborto... Encontraria grande número de simpatizantes. Mas estaria traindo a lei natural, que é a lei do Criador. O homem de nossos dias respeita a natureza enquanto é regida por leis físicas, mas esquece que a natureza também é portadora de ditames morais ou normas para o reto comportamento humano.

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Já em PR 408/1996, pp. 194-199, foi apresentado o livro de Giovanni Martinetti "Razões para Crer"[1]. É obra que considera os diversos obstáculos à fé católica levantados pela sociedade contemporânea. O autor sabe responder-lhes em estilo suave e incisivo. Nas páginas subseqüentes transcreveremos quanto Martinetti pondera no caso de que a Igreja "reveja" suas normas morais, justificando o homossexualismo, as relações extra-conjugais, o aborto... Ganharia grande número de novos adeptos e simpatizantes, mas trairia a lei de Deus, que se manifesta através da lei natural gravada no íntimo de todo ser humano; ver pp. 306-308 da obra citada.

«A Igreja é um rebocador e não uma balsa

Bruce Marshall, em seu livro "O mundo, a carne e Padre Smith", conta que uma noite o Padre Smith teve um sonho. Havia sido eleito um novo Papa, que assumiria o insólito nome de Buster I. Em seu primeiro discurso em inglês, transmitido para todo o mundo, declarara solenemente que o amor livre, dadas as atuais circunstâncias da vida humana, não devia mais ser considerado um pecado, mas, ao contrário, era um aspecto importante da Caridade.

Os frutos não tardaram em manifestar-se. Logo no dia seguinte as igrejas católicas do mundo inteiro foram inundadas por fiéis que, junto com velhos praticantes, queriam pronunciar a sua profissão de fé e rezar pela saúde do novo Papa. Anglicanos, luteranos e ortodoxos superaram as dificuldades teológicas e passaram a integrar a Igreja Católica. Turquia, Irã, Índia, China, Japão haviam enviado delegações ao Vaticano para solicitar novos missionários; o ateísmo e a secularização desapareceram como neve no fogo, e até a União Soviética de Stálin abrira uma embaixada na Santa Sé.

O romancista escocês tinha razão. As dificuldades que as massas ocidentais encontram para ter fé, muitas vezes não vêm da cabeça, mas de outras partes. O epicentro da secularização (e às vezes também da teologia da dissensão) não está tanto nas idéias teológicas, mas sobretudo nas normas de comportamento, na fórmula do lançamento espacial para Deus. O homem de hoje não rejeita o produto, mas o preço a pagar por ele. A Igreja teria sinal verde e se encheria de fervorosos fiéis, se fechasse os olhos para as 'ninharias da moral' e abrisse espaço para a 'liberdade de consciência'.

Por que, pergunta o homem comum, obstinar-se em manter uma concepção tão anacrônica, medieval e puritana do sexo, que afasta dos sacramentos e da própria fé milhões de pessoas, quando o clero demonstra ser tão informado e moderno em todos os outros aspectos da vida humana?

O Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em 2 de maio de 1989, apresentou importante relatório no Encontro dos Presidentes das Comissões Doutrinais dos Bispos Europeus em Luxenburg (Viena). Nele, acentuava que há na mentalidade consumista, e em certos teólogos que a compartilham, uma espécie de contestação da práxis e da fé da Igreja, contestação que compreende, sobretudo e em primeiro lugar, o "Não" ao seu ensinamento sobre a contracepção, o aborto, o divórcio, a manipulação genética, o homossexualismo, o adultério e as relações sexuais antes do casamento.

Todos esses temas 'dependem de uma visão comum do homem e de uma idéia da liberdade humana que opera nela'... 'Hoje, finalmente nós descobrimos o direito e a liberdade da nossa consciência e, portanto, não estamos mais dispostos a subordiná-la a um conjunto de normas impostas de fora'. Ou seja, de Deus.

A razão de semelhante posição, mesmo entre muitos teólogos, está no desaparecimento da doutrina da criação em sua Teologia. Se a natureza não foi criada por Deus, mas é fruto do puro acaso, é lógico que não se aceite que ela seja considerada uma instância moral. O corpo é considerado uma posse, da qual o indivíduo dispõe conforme o que lhe pareça mais útil para a sua qualidade de vida'.

Não se vê então por que não se possa desvincular:

. da fecundidade, a relação sexual (contracepção),

. do dom da vida, a gravidez (aborto),

. do pacto sagrado de amor estável, o prazer erótico (amor livre),

. da fidelidade, o pacto sagrado (adultério, divórcio),

. da diferenciação sexual, o amor físico (homossexualismo),

. da concepção, a relação sexual (concepção em proveta),

. de filhos, a herança genética (manipulação genética).

'Quando a autonomia do homem frente a Deus é acolhida plenamente, torna-se irrelevante diferenciar homossexualidade e heterossexualidade, atos sexuais dentro ou fora do casamento'.

Hoje teme-se com razão que o homem cause danos à natureza que nos rodeia, mas os homens são incapazes de colher a mensagem espiritual que provém da natureza. Experimentamos a insurgência da criação contra o domínio arbitrário do homem, mas não queremos reconhecer os limites e as normas de nosso comportamento.

'Pode-se dizer que se tornou evidente que a natureza tem uma racionalidade matemática. Contudo, considera-se uma ficção metafísica dizer que a natureza tem também uma racionalidade moral'.

'Sua relação (do homem) com a natureza é a da manipulação e, não a da escuta...' Diante das alarmantes desordens da sociedade permissiva, nasce em muitos a silenciosa consciência da necessidade de uma alternativa. 'Esta, contudo, só poderá ser elaborada se a doutrina da criação for desenvolvida novamente'.

'Devemos tornar novamente evidente que o mundo foi criado 'com sabedoria' e que a grandeza do homem não consiste na miserável autonomia de um anão que se declara dono da natureza, mas no fato de o seu ser deixar transparecer a mais esplêndida finalidade, a ascensão para o Perfeito.'[2]

Além do mais, esquecem com facilidade que o que é impossível ao homem torna-se possível com uma boa dose de oração e de Graça.

Certamente a teoria do puro acaso e da consciência autônoma é mais confortável, mas não é salutar. Para o Magistério da Igreja, também seria mais cômodo seguir o índice de aprovação e evitar tantas deserções. Mas a Igreja e os teólogos não podem, em nome da popularidade, substituir o amargo remédio da fé por um placebo.

Para salvar o homem, dizia Chesterton, Deus quis a Igreja como uma locomotiva, e não como um vagão extraído da opinião pública. O Povo de Deus deve ser um barco a motor que navega contra a corrente dos instintos fáceis, e não uma balsa, cheia de gente, que a corrente impetuosa arrasta para a cachoeira».

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NOTAS:

[1] Ed. Loyola, São Paulo, 1995.

[2] J. Ratzinger, L'Osservatore Romano, 1º de julho de 1989, p. 7.

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