quarta-feira, 18 de abril de 2007

Idade Média: a Idade Média, os monges e o progresso

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 347/1991)

Em síntese: O Prof. Léo Moulin, agnóstico ou ateu belga, reconhece a benéfica influência do Cristianismo e, em especial, da Regra de São Bento na evolução da cultura e da civilização. Mostra como a Regra de São Bento, legislando para os monges, fez transbordar sobre toda a sociedade, medieval e posterior certos princípios de disciplina, diligencia e ordem no trabalho, que propiciaram a criação de grandes empresas industriais e culturais. São Bento, aliás, hauriu das Escrituras Sagradas a sua mentalidade; ora a Bíblia incute ao homem certo otimismo em relação à natureza, obra de Deus Criador, que confiou ao casal humano o mandato de explorar e dominar as criaturas inferiores. A mesma fonte bíblica deu a saber ao homem que o universo foi criado com sabedoria e lógica; a própria razão humana, sendo dom de Deus, merece a confiança do homem; conscientes disto, os medievais cultivaram a inteligência, resultando da daí grande numero de Universidades e belas obras de arte (catedrais, especialmente), que supõem dinamismo, coragem e saber cientifico entre os homens da Idade Média. Esta, portanto, não foi o pe­ríodo obscuro do qual se fala sem o devido conhecimento de causa.

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Costuma-se comentar a influência que o Calvinismo, fundado no sé­culo XVI, exerceu sobre o desenvolvimento comercial e econômico dos paí­ses que o adotaram. O senso religioso levou os calvinistas a se dedicarem "religiosamente" às suas atividades profissionais, donde resultou (em parte, ao menos) a rede colonial da Inglaterra e da Holanda.

Todavia é menos conhecida a influência sadia que a fé católica exerceu sobre os monges e as populações medievais em favor do progresso da civiliza­ção. Aliás, deve-se dizer que o Cristianismo, bem entendido e vivido, foi e será sempre um estímulo para a construção de um mundo mais humano, fra­terno e, por conseguinte, mais feliz.

O Prof. Léo Moulin, agnóstico e ateu, belga de 82 anos de idade, tem-se manifestado sobre o assunto. Já em PR 310/1988, pp. 115-120 foi publica­da uma entrevista desse mestre sobre a Idade Média, acentuando os seus valores positivos. Léo Moulin voltou à temática em 1990 por ocasião do nono centenário do nascimento de São Bernardo (1090-1153), desta vez focalizando mais explicitamente o papel dos monges da Idade Média no progresso da civilização. Visto que a questão é de grande importância para dissipar equívocos, passamos a resumir tópicos de um artigo do Prof. Mou­lin publicado na revista "JESUS", dezembro de 1990, pp. 103-107, com o título "Luminosissimo Medioevo!"

1. Invenções e Descobertas

A Idade Média ocidental ocupa lugar importante na história do desen­volvimento tecnológico, pois registrou uma série de invenções e descobertas que lhe dão preeminência sobre quanto ocorreu na mesma época fora do âmbito europeu. Sejam recordados: a bússola, as lentes de óculos, a roda com aros, o relógio mecânico com pesos e rodas ("invenção mais revolucio­nária do que a da pólvora e a da máquina a vapor", conforme Ernst Junger), o canhão (em 1327), a caravela (em 1430), a própria imprensa, a ferradura de cavalo, que permite ao animal correr sobre terrenos inóspitos, os moinhos de água, de maré, de vento...

Isto tudo fez que o Ocidente se encontrasse em melhores condições de civilização do que outras partes do mundo no século XVI.

2. A Regra de São Bento

Antes de todas estas, houve outra grandiosa "invenção", que é a Regra de São Bento (+ 547).[1] Nesta encontramos elementos necessários ao bom andamento de uma empresa moderna.

Com efeito. Além do Ora (Oração), São Bento ensina o valor e a sis­tematização do Labora (Trabalho). Imagina, sim, o seu discípulo como um operário (RB Prol 14) que trabalha com mãos e ferramentas na oficina do Mosteiro (RB 4, 75-78). O trabalho é essencial à identidade monástica, seja o manual, seja o intelectual, seja o artístico ou artesanal. No decorrer da Regra, São Bento ilustra as motivações do Labora:

- o trabalho corresponde a um gênero de vida pobre, que exige a la­buta pessoal para poder manter-se; cf. RB 48,8;

- o trabalho é serviço à comunidade e aos hóspedes, a exemplo do que fez Cristo; cf. RB 48,1-25; 53, 1-23;

- o trabalho é desenvolvimento dos talentos que Deus entregou ao ho­mem e cuja aplicação ele vai julgar; cf. RB 4,75-77;

- o trabalho ajuda os pobres e evita a ociosidade, que é inimiga da alma; cf. RB 48,1.

São Bento quer que o trabalho seja executado "bem", "com serenida­de", "sem tristeza" e "sem murmuração"; cf. RB 34,6; 35,13; 40, 8s; 53,18.

Trabalhar em comum é, para São Bento, um valor, tanto que os mon­ges culpados de faltas graves são excomungados não só da oração e da refei­ção comunitárias, mas também do trabalho com os irmãos: "Que seja sus­penso da mesa e do oratório o irmão culpado de faltas mais graves... Esteja sozinho no trabalho que lhe for determinado" (RB 25,1.3).

A Regra de São Bento, portanto, formou os monges (e, conseqüente­mente, a sociedade) no sentido da diligência e da disciplina do trabalho. De modo especial, ela incutiu (e incute) dois valores muito estimados no mun­do industrial moderno:

- a pontualidade. São Bento não transige a respeito. Prevê sérias pu­nições para quem chega atrasado à oração litúrgica ou ao refeitório (RB 43); ao sinal dado de madrugada, levantem-se todos sem demora (RB 22); quem recebe uma ordem, deve executá-la prontamente (RB 5);

- atenção ao que se faz. São Bento formula uma norma decisiva: "Controlar a todo momento os atos de sua própria vida. Actus vitae suas omni hora custodire" (RB 4,48). É preciso, pois, estar presente de corpo e alma àquilo que se faz, sejam grandes, sejam pequenas coisas. A Regra pre­vê punições para quem erre na oração comum (RB 45,1); exige durante as refeições leitura, à qual todos devem prestar atenção, de modo que nin­guém converse e só se ouça a voz do leitor (RB 38,5). Haja absoluta limpeza, especialmente na cozinha (RB 35,6-11). A perda ou a quebra de qualquer objeto durante o trabalho requer satisfação da parte de quem comete a falha (RB 46,1.4).

São Bento também pede que os monges não se entristeçam se a neces­sidade do lugar ou a pobreza exigirem que se ocupem em trabalhos extraor­dinários, "porque então são verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas mãos, como também os nossos Pais e os Apóstolos" (RB 48,8).

Estes princípios de ordem ascética, inspirados pelo amor à disciplina do Evangelho, contribuíram para que os mosteiros se tornassem grandes cen­tros agrícolas e artesanais em toda a Idade Média, irradiando em torno de si amor ao trabalho, organização e método modelares para a posteridade. Essa sistemática não tinha em vista simplesmente produção e lucro materiais, mas era inspirada pelo espírito de fé e apoiada em razões monásticas. Assim, por exemplo, um texto do século XI explica por que foi adotado um moinho de água na comunidade: "... a fim de que os monges tenham mais tempo para dedicar-se à oração"

Em seu afã de trabalhar para exercer disciplina e evitar a ociosidade (inimiga da alma), os monges dedicaram-se a quase todas as atividades pro­dutivas: exploraram minas de carvão, salinas, metalurgia, marcenaria, cons­trução... Assim, por exemplo, os monges cistercienses fabricaram fornos para produzir tijolos grandes, dotados de furos para facilitar a sua cozedura e manipulação; eram os chamados "tijolos de São Bernardo". Montaram na Borgonha fábricas de telhas, que eles espalharam por diversas regiões.

Aliás, a própria Regra de São Bento pede que o mosteiro tenha em suas dependências tudo de que necessita a comunidade para viver: "Seja o mosteiro construído de tal modo que todas as coisas necessárias, isto é, água, moinho, horta e os diversos ofícios se exerçam dentro do mosteiro, para que não haja necessidade de que os monges vagueiem fora, pois de nenhum modo isto convém às suas almas" (RB 66,6s). Ora esta norma da Regra não podia deixar de ser forte estimulo para a criatividade dos monges. O capítulo 57 da mesma Regra trata dos artesãos que, com a autorização e a bênção do Abade, trabalham no mosteiro como monges, e pede que os preços dos respectivos artefatos sejam mais baixos do que os preços do co­mércio de fora: "Quanto aos preços, não se insinue o mal da avareza, mas venda-se sempre um pouco mais barato do que pode ser vendido pelos seculares, para que em tudo seja Deus glorificado" (RB 57, 7-9).

Sabemos ainda que em 1215 os maiorais da Inglaterra, tanto leigos quanto clérigos, obtiveram do rei João sem Terra o reconhecimento da Melga Charta (Libertatum), Grande Carta das Liberdades, que promulga­va direitos da população e que -se tornou o fundamento da Constituição liberal da Inglaterra e o embrião dos posteriores sistemas políticos par­lamentares. Ora, um século antes disto, em 1115 a Ordem Cisterciense[2] concebera o sistema de governo mais prático que se conhece: o Capitulum Generale (Capitulo Geral), assembléia internacional da qual fazem parte representantes de todos os mosteiros e dotada de poder legislativo. A instituição do Capitulum Generale foi adotada por Ordens e Congregações Religiosas posteriores e tornou-se modelo para o regime de muitas socie­dades de caráter internacional.

É preciso ainda apontar duas características da mentalidade medieval, de grande importância na história subseqüente.

3. Duas notas marcantes

Podemos dizer que os medievais 1) fizeram um voto de confiança na razão humana e

2) se deixaram mover pelo dinamismo da Bíblia.

3.1. Confiança na razão

Para os medievais, o mundo era obra de um Deus sábio e lógico, distinto do próprio mundo (em oposição a todo panteísmo). Por conse­guinte, o mundo lhes aparecia como algo que pode ser conhecido pelo homem mediante a sua razão; não é um fantasma nem uma armadilha. Dizia no século XII o teólogo francês Guilherme de Conches: "Deus respeita as próprias leis". E no século seguinte Santo Alberto Magno (+ 1280) afirmava: "Natura est ratio. A natureza é a razão ou é racional". Em conseqüência, os estudiosos medievais se aplicaram ao raciocínio e à pesquisa (como a podiam realizar na sua época) com plena confiança no acume da razão, sem, porém, cair no racionalismo, pois acima da razão admitiam as luzes e as ver­dades da fé..

Um dos exemplos mais clássicos desse tipo de estudiosos é o inglês Rogério Bacon (1214-1294), chamado "Doutor Admirável". Ingressou na Ordem dos Franciscanos em 1257 e pôs-se a comentar as obras de Aristó­teles. Posteriormente dedicou-se à pesquisa científica, recorrendo a um método experimental, que foi precursor do método adotado por Francis Bacon (1561-1626); assim procedendo, fez descobertas no setor da ótica. Planejou diversas invenções mecânicas: máquinas a vapor, barcos, máqui­nas voadoras... Em seus escritos encontrou-se uma fórmula da pólvora, que ele pode ter tomado dos árabes numa época em que os europeus quase não a conheciam. Deixou obras famosas: Opus Maius, Opus Minus e Opus Tertium.

Os resultados dessa confiança dos medievais na razão humana fize­ram-se sentir nos séculos subseqüentes: em 1608 contavam-se mais de cem Universidades na Europa e nenhuma no resto do mundo (exceto na Améri­ca Latina, onde os espanhóis expandiam a sua cultura). Dessas Universidades, mais de oitenta tiveram origem na Idade Média, como genuína expres­são da cultura medieval. Diz-se com razão que as Universidades e as catedrais exprimem autenticamente a Idade Média; na verdade, os medievais atingi­ram o primado mundial de altura de cúpula na catedral de Amiens (1221), com 42,30 metros. A flecha da torre da catedral de Estrasburgo (1250), terminada em 1439, mede 142 metros de altura: só foi ultrapassada pela Torre Eiffel de Paris em 1889, com 320 metros.

3.2. Dinamismo

A Escritura Sagrada transmite aos seus leitores uma atitude dinâmica em relação ao universo que os cerca. Logo em suas primeiras páginas formu­la o desígnio divino: "Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança; domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra" (Gn 1, 26). E após a criação do homem se lê a ordem divina: "Enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra" (Gn 1, 28).

O salmo 8, por sua vez, canta o poder do homem sobre os seres que o cercam:

"Que é o homem para que dele te recordes?... e o filho do homem, para que dele tenhas cuidado? Não obstante, Tu o fizeste um pouco infe­rior aos anjos .. e lhe deste poder sobre as obras de tuas mãos, tudo colo­caste debaixo dos seus pés".

No Novo Testamento lê-se que Cristo, ao encerrar sua missão pública, mandou aos apóstolos que fossem pregar o Evangelho no mundo inteiro; cf. Mt 28,18-20.

Por conseguinte, a atitude do esforço, da luta, do empreendimento, da resposta ao desafio... é muito familiar ao cristão. Pode-se dizer que foram os cristãos que realizaram os progressos da ciência (tenha-se em vista o mun­do ocidental comparado com o oriental ou asiático e africano!), as grandes aventuras da conquista intelectual, econômica, marítima... Foram otimis­tas e dinâmicos, conseguindo belos e valiosos resultados.

Estas poucas observações são suficientes para percebermos a notável contribuição do Cristianismo para o avanço da cultura, da ciência e da civi­lização... na história da humanidade. E, dentro do Cristianismo, merece certamente relevo especial o monaquismo ocidental tal como São Bento (+ 547) o concebeu e a Ordem Cisterciense, com São Bernardo à frente, o desenvolveu.

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NOTAS:

[1] Citaremos a Regra de São Bento usando a sigla RB; os números seguintes indicarão respectivamente capítulo e versículo(s). A abreviatura Prol signifi­ca Prólogo.

É de notar que não sem motivo o Papa Paulo VI em 1964 declarou São Bento “Patrono do Ocidente”. Este deve muitos dos seus valores aos escritos e à obra de São Bento.

[2] Cistenciense é o mônge do Cister; segue e Regra de São Bento tal como foi entendida pelos reformadores de Cister, entre os quais está São Bernardo de Claraval (+ 1153).

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