segunda-feira, 2 de abril de 2007

Deus, ateísmo: o cristianismo visto por um agnóstico

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 310/1988)

Em síntese: O Prof. Léo Moulin, belga de 82 anos de idade, diz-se agnóstico ou ateu. Pesquisou, porém, longamente a história do Cristianismo, especialmente a Idade Média, e aponta grandes valores dessa história,... valo­res que abonam a vitalidade fecunda da mensagem cristã. Conclui exortando os católicos a que estudem a história do Cristianismo também eles, para po­der responder às objeções que hoje em dia, precipitada ou preconcebidamen­te, se levantam contra tópicos desses dois mil anos de atuação no mundo.

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O Prof. Léo Moulin, belga de 82 anos de idade, foi durante cinqüen­ta anos docente da Universidade Maçônica de Bruxelas, Universidade funda­da para fazer frente à Católica de Lovaina. Filho de família agnóstica, an­ticlerical, voltada para o Socialismo, o Prof. Moulin até hoje não professa a fé cristã, mas é um apologista do Cristianismo, que ele muito tem estu­dado. Freqüentou a Maçonaria, mas acabou deixando-a. Diz atualmente ser um agnóstico[1] rigoroso, se não um ateu radical.

O jornalista Vittorio Messori, já conhecido no Brasil (cf. PR 282/1985, p. 402), foi entrevistar o Prof. Léo Moulin, que lhe declarou textualmente: "Muitas e muitas vezes, desde criança, incutiram-me a idéia de que crer é um ato de covardia ou um renunciar à própria dignidade. Em conseqüência, com os meus mais de 80 anos, sinto-me ainda bloqueado a tal respeito. So­fro disto não tanto por causa de mim, mas por causa dos meus muitos ami­gos cristãos, os mais caros que tenho e que me cercam de atenções, de admi­ração e de convites; não os quisera ofender, morrendo como agnóstico e recusando, por dever de consciência, os sacramentos. Mas que posso fazer?"

Não obstante, o jornalista foi propondo ao Prof. Moulin perguntas diversas relativas à religião, às quais o entrevistado deu respostas que mere­cem ser conhecidas pelo público brasileiro. Põem em relevo aspectos do Cris­tianismo muito positivos; o depoimento, partindo de um não cristão ou de um ateu, torna-se duplamente valioso - razão pela qual vai aqui reproduzido em tradução portuguesa.

1. Valores humanos

Léo Moulin refere a Messori que, desde muito, descobriu coisas impor­tantes:

"Primeiramente: aqueles valores apresentados como produtos da livre pesquisa humana, na verdade, provêm da Tradição cristã e são incompreen­síveis sem esta. Em segundo lugar: arrancados da sua base religiosa, esses mesmos valores pairam no vazio, de modo tal que se torna difícil dar-lhes solidez. Para o cristão, eles fazem parte de um sistema coerente; para o não crente, são apenas postulados, ... nobres certamente, mas não explicáveis racionalmente".

Não basta dizer isto. Como freqüentemente mostrou Moulin nos seus livros, baseando-se nas lições da história dos dois últimos séculos, os valores que os leigos escrevem ou escreviam com letras maiúsculas, degeneram, se separados do Cristianismo, que os criou e os torna acreditáveis.

“Separadas do nome de Deus, todas as outras maiúsculas são mortífe­ras: nada derrama mais sangue do que as religiões irreligiosas modernas. A Liberdade, primeiramente, transformou-se em anarquia; depois tornou-se o seu contrário, isto é, tirania. A Igualdade levou à pior iniqüidade, o iguali­tarismo. A Razão se fechou em fórmulas estéreis e nos becos cegos do racio­nalismo, que impede de compreender a complexidade do real. O culto dos Direitos do indivíduo levou-nos ao individualismo, ao egoísmo, ao hedo­nismo”

2. A Idade Média

Léo Moulin tem grande estima pela idade Média.

"O século XIII, vértice da sociedade medieval, é um dos pontos mais altos e luminosos da história do Ocidente ou mesmo da humanidade. Em poucos decênios, tivemos Giotto, Dante, Tomás de Aquino, mil catedrais... "

Moulin ri-se do mito dos "séculos obscuros":

"Eis um breve e incompleto elenco das invenções tecnológicas (obras, quase todas, de monges beneditinos) do homem medieval, que, como diz a lenda, vivia na ignorância e na penitência, apenas à espera do fim do mundo: moinho de água, a serra hidráulica, a pólvora preta, o relógio mecânico, o arado, a relha, o timão a roda, o jugo para o cavalo, o canal com reclusas e portas, a canga múltipla para os bois, a máquina para enovelar a seda, o guin­daste, a dobadoura, o tear, o cabrestante complexo, a bússola magnética, os óculos. Acrescentemos a imprensa, o ferro fundido, a técnica de refinação, a utilizarão do carvão fóssil, a química dos ácidos e das bases, etc. Esse im­pulso ao conhecimento científico e tecnológico continuou nos séculos se­guintes: no início do século XVII a Europa contava 108 Universidades, en­quanto no resto do mundo não havia uma só... Isto põe um problema para o historiador. Por que é que o desenvolvimento ocorreu somente em área cristã, e não fora desta? Por que, hoje ainda, entre os dez países mais evoluí­dos e ricos do mundo, nove são de tradição cristã? Não há outra explica­ção senão a que já expus em livros dedicados à questão: há na mensagem cristã alguma coisa que leva os gérmen do desenvolvimento e do progresso. A antropologia da Bíblia exalta o homem e o põe no centro do universo. Além disto, pregando igualdade, ela cria uma sociedade livre, sem barreiras sacrais ou de castas; não há, pois, como se surpreender se, alimentado por tal mensagem, o homem europeu conquistou o mundo... Por que as suas naves lhe permitiam dominar os mares? Por que ele, e ele só, sentiu a neces­sidade de expandir-se sobre a terra inteira, enquanto a África, a Ásia, a Amé­rica pré-colombiana permaneciam imóveis nos seus confins? Sem esta nossa maravilhosa Europa, o mundo, como o conhecemos, não existiria. Mas não existiria nem mesmo esta Europa recoberta de glórias sem as suas raízes cris­tãs e sem os seus monges".

Continua Léo Moulin, referindo-se aos monges em especial:

“As famílias beneditinas procuravam, antes do mais, a glória de Deus. E eis que, mesmo sem o procurar, construíram o mecanismo do desenvolvi­mento econômico e cultural. Havia necessidade de vinho para a Missa; ora o continente se recobriu de vinhedos até a Escócia e a Polônia. Havia neces­sidade de cera para as velas; eis, em resposta, o desenvolvimento da apicultu­ra. Para atender à dieta vegetariana, havia necessidade de verdura, queijo, peixe; eis, em resposta, as hortas, os rebanhos, os aquários. Era preciso tra­tar dos doentes; eis então o cultivo das plantas medicinais e os laboratórios de fármacos vegetais. Havia necessidade de livros; eis os scriptoria, oficinas de cultura. Mas a construção dos mosteiros e igrejas requer também pedrei­ros, carpinteiros, pintores, escultores; aí está um intenso movimento, que parte da esfera espiritual e que se alarga, qual mancha de óleo, pondo em ação a economia da sociedade inteira. São realidades estas bem diferentes da inutilidade social dos monges', mencionada pelos decretos de supressão dos mosteiros. Data dos séculos XVIII e XIX! Muitos reis e muitos políti­cos que expulsavam os Religiosos das suas casas, esqueciam que a prosperi­dade dos seus países fora construída precisamente por aqueles 'ociosos' ".

Moulin volta-se ainda para outro mito, que atribui à Igreja Católica opressão política e autoritarismo apenas:

“Dá-se precisamente o contrário! Se a democracia parece caracterizar somente o Ocidente, a causa disto está de novo no Cristianismo ou, mais precisamente, no monaquismo. Os próprios termos do regime democrático (Parlamento, escrutínio, voto de Minerva...) provêm da Regra beneditina. A democracia, como a conhecemos, não nos vem dos gregos e, muito me­nos, dos romanos, mas dos Religiosos, que elaboraram um sistema, ainda hoje não superado, de representação... no interior da comunidade. O exem­plo dos mosteiros tornou-se escola para todos, e deu a cada um o senso da dignidade, que frutificou nas democracias modernas".

3. São Bento de Núrsia

O Prof. Léo Moulin, apologista das instituições e da obra cultural da Igreja, tem em mira um nome que, desde a juventude, lhe fala muito viva­mente: o de São Bento de Núrsia (480-547). Tornou-se um dos grandes estu­diosos da Regra de São Bento: 1

"Há decênios que venho estudando aqueles poucos milheiros de pala­vras, e não cesso de me maravilhar, como sociólogo e como politólogo que sou, além de historiador. Por isto creio muito acertada a decisão de Paulo VI, em 1964, de proclamar São Bento patrono principal da Europa. A sua Re­gra, como o movimento que ela desencadeou, está realmente na base de quanto o Ocidente produziu de melhor”.

E qual seria o traço mais impressionante da Regra, segundo Léo Moulin?­

"O gênio de São Bento consiste em ter encontrado o equilíbrio entre as duas tendências fundamentais: a direita e a esquerda. A direita, em teolo­gia, não crê nas capacidades da natureza humana, deteriorada radicalmente pelo pecado. A esquerda, ao contrário, tem excessiva confiança no homem e nas potencialidades para praticar o bem...

São Bento não era um ingênuo; conhecia bem os homens e não tinha ilusões a respeito deles. Maquiavel também era assim; mas Maquiavel escre­veu: 'Os homens são maus, mentirosos, cobiçosos do seu prazer e dos seus inte­resses pessoais, preguiçosos, bajuladores...' e daí tirava conseqüências céti­cas. Ora Bento pode estar de acordo com este conceito de ser humano, pois gozava da sabedoria que a experiência lhe incutira. Todavia o que chama a atenção, é que, embora reconheça a verdade a respeito do próximo, São Bento o ama profundamente e quer ajudá-lo a conseguir - cada qual a seu modo - a salvação ou mesmo a santidade. Bento, portanto, era um homem de centro, profundamente realista e, ao mesmo tempo, aberto à maravilhosa utopia do Evangelho. Para governar os homens na Igreja, é preciso levarem conta equilibrada os dois elementos: o carisma e a instituição, o amor e a lei. Bento, herdeiro do gênio jurista romano iluminado pela fé cristã, conseguiu fazer esta síntese na sua Regra. Esta fascina até os estudiosos leigos das ins­tituições e manifesta concretamente a sua capacidade de funcionar e servir através dos tempos e do espaço.

O Santo de Núrsia sabe que não se pode exigir tudo de todos; por isto é discreto, levando em consideração os menos motivados e prendados. A sua discrição pode tornar-se ternura para com os doentes, os jovens, os ve­lhos. Ele crê firmemente na igualdade fundamental de todos os seres huma­nos diante de Deus, mas não cai no funesto igualitarismo dos `reformadores' sangüinolentos e nas suas conseqüências. Bento sabe que os homens são iguais, porque compartilham a mesma dignidade, mas também são profunda­mente diversos uns dos outros pelo seu caráter, por suas aptidões, por seus dotes intelectuais, físicos e morais. A todos ele propõe a meta ideal e eleva­da, mas pondera sempre as diferenças e a debilidade, que em alguns é mais acentuada, e em outros menos".

4. Jesus Cristo

Moulin falou do Cristianismo com grande entusiasmo. Mas Cristo... Quem é Jesus Cristo para ele? - Responde:

"É verdade que não consegui, ao menos até agora, ver nele o Filho de Deus. Mas, como historiador, há meio século ou mais que me formulo perguntas sobre os resultados extraordinariamente benéficos daquela vida e daquele ensinamento. Não tendo fé, vejo-me obrigado a me reconhecer na­quela que é talvez a mais nobre das escolas de Moral humana: a estóica. Mas o estoicismo é duro, professa o amor do Destino, mas não sei até que ponto professa o amor ao homem. Principalmente não conhece o perdão. De resto, nenhuma cultura e nenhuma religião, tanto anterior como posterior a Cris­to, reconhece o perdão no sentido ilimitado que o Evangelho propõe. Hoje o homem de esquerda não pode perdoar porque não tem o senso de fraque­za dos semelhantes. Os da direita, diante da queda dos semelhantes, despre­zam-nos, encontrando aí uma confirmação do seu pessimismo referente à natureza humana. Sabemos como os discípulos de Jesus se comportam na hora da provação: como covardes, se não como traidores. Mas, segundo os Evan­gelhos, Jesus ressuscitou e se apresentou a eles, saudando-os: 'Paz a vós!' Isto é sublime; nem se chama perdão, é algo muito maior, é esquecer tudo e recomeçar de novo.

Também a este título (deixai que um velho agnóstico o diga) há no Cristianismo uma das heranças mais preciosas do homem. É necessário que todos, mesmo nós, que não temos fé, o defendamos, se queremos realmente defender o homem.

Reagi vós, católicos, contra aquele desarrazoado masoquismo que se apoderou de vós após o Concílio do Vaticano II. A propaganda mentirosa que se iniciou no século XVIII, ou talvez antes, conseguiu a sua maior vitó­ria, incutindo-vos uma consciência pesada; persuadiu-vos de que sois culpa­dos de todas as desgraças do mundo e herdeiros de uma história que é pre­ciso esquecer. Ora, na verdade não é assim. Estudai a vossa história, e vereis que o ativo destes dois mil anos supera de longe o passivo. E não vos esque­çais de comparar os frutos de Jesus e dos seus discípulos como Bento, Fran­cisco, Domingos... com os frutos de outras árvores. O confronto vos abri­rá de novo os olhos".

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Estas declarações e ponderações de Léo Moulin, agnóstico como é, tocam pontos muito reais e significativos: após o Concílio do Vaticano II, muitos fiéis católicos se detêm principalmente em críticas ao passado, es­quecendo os valores positivos da Tradição cristã, muito superiores aos traços negativos. Os ateus tudo fazem para desfigurar o passado do Cristianismo, a ponto de transmitir aos próprios católicos o seu azedume unilateral.,. Prevaleça o parecer objetivo, despreconceituoso, do Prof. Moulin, que fala com autoridade e conhecimento de causa! - De resto, as fraquezas existen­tes nos homens da Igreja só podem corroborar a convicção de que é o pró­prio Deus quem sustenta a sua Igreja e, através das criaturas, realiza a sua obra de salvação.

O texto de Léo Moulin foi extraído da revista JESUS, setembro 1987, pp. 68-71: "Questo meraviglioso Cristianesimo in cui non riesco a credere", por Vttorio Messori.

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NOTA:

[1] Agnóstico é aquele que professa que não pode conhecer (Deus e as realida­des espirituais). É, portanto, contrário à Metafísica e à Teologia.

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