terça-feira, 3 de abril de 2007

Deus, existência: os silêncios de Deus II

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 449/1999)

Em síntese: O sofrimento humano, especialmente o das crianças e o das pessoas inocentes, é motivo de perplexidade, mesmo para quem tem fé. Deus parece indiferente ao que afeta o ser humano em suas mais íntimas aspirações. - No artigo que se segue, o problema é exposto mui­to vivamente mediante testemunhos de pessoas desesperadas. Seguir-­se-á a elucidação da problemática: 1) no plano natural mesmo, o sofri­mento é inerente à dignidade humana e vem a ser escola que engrande­ce; 2) no plano da fé, o silêncio de Deus é rompido pelo Verbo que se fez carne e assumiu tudo o que é humano - inclusive a dor mais extrema e a morte - não a fim de suprimir as desgraças, mas com o objetivo de impri­mir novo sentido à dor humana, fazendo-a penhor de vida plena e trans­figurada. Em Jesus Deus Pai falou e fala aos homens. Os Santos são o eco prolongado dessa voz.

***

O sofrimento é geralmente um mistério, pois contraria às mais ínti­mas aspirações do ser humano. Principalmente o sofrimento infligido cru­elmente a seres inocentes, como são as crianças e os justos persegui­dos, suscita interrogações: onde fica Deus nesse contexto? Por que se cala, parecendo ignorar a dor dos seus fiéis? - Nas páginas subseqüen­tes, a problemática será abordada em duas etapas: 1) exposição do questionamento; 2) a solução a) filosófica ou racional e b) a solução da fé.

1. A problemática

São numerosos os testemunhos de autores que exprimem a an­gústia do ser humano perante o sofrimento, angústia agravada pelo si­lêncio de Deus. - Eis alguns depoimentos dos mais significativos:

1.1. O ateísmo

a) Em 1936 Albert Camus, escritor francês ateu, encontrava-se em viagem por uma das estradas da Algeria, em companhia de um amigo, quando se depararam com horrível cena: um menino muçulmano, atingi­do violentamente por um ônibus, jazia sobre o asfalto, sem dar sinal de vida. Voltando-se para o amigo e apontando para o céu, murmurou Camus: "Como vês, Ele se cala!". Tais palavras acusavam o Senhor Deus por não intervir no caso, como se tal desgraça não lhe interessasse. A con­clusão de tal observação repetiria uma pergunta freqüente: como dizer que Deus é bom, se Ele se mantém impassível diante da dor, principal­mente diante da dor de um inocente?

b) No seu romance La Peste, o mesmo Camus descreve uma cena em que o Pe. Paneloux diz ao Dr. Rieux que o sofrimento é sinal do amor de Deus, que de tal maneira quer salvar o homem. Responde Rieux: "Não, padre. Tenho outro conceito de amor. Eu me recusarei até a morte a amar essa criação, na qual crianças são torturadas" (La Peste, Paris 1974, p. 238).

c) Em 1947 um jovem autor alemão, W. Borchert, escreveu um drama intitulado "Fora, diante da porta", em que imagina um diálogo en­tre o ex-combatente Berkmann e Deus:

"Mas dize-me: quando é que és bom, ó bom Deus?

Foste bom quando permitiste fosse vítima da explosão de uma bom­ba meu filho, que mal completara um ano, o meu filhinho? Então foste bom quando deixaste que o matassem?...

Não, é verdade, Tu apenas o permitiste. Mas não ouviste quando ele gritava e quando explodiam as bombas?

Então onde estavas, ó bom Deus, quando as bombas explodiam?

Ou foste bom quando caíram mortos onze homens da minha patru­lha? Onze homens ao menos, bom Deus. É certo que os onze homens clamaram forte na solidão do bosque, mas não estavas lá; realmente não estavas lá, bom Deus.

Foste bom em Stalingrado, bom Deus, foste bom lá; como? Sim? Mas então quando é que foste bom, Deus, quando? Quando alguma vez te ocupaste conosco, ó Deus?"

(transcrito do artigo de L. Pozzoli "La perdita del Padre nella letteratura del 900" em "Rivista del Clero Italiano" 80, 1999, n° 4, p. 279).

1.2. No povo de Israel

Já no Antigo Testamento o salmista confessava sua angústia pelo silêncio de Deus:

“Senhor, por que ficas tão longe e te escondes no tempo da angús­tia? A soberba do ímpio persegue o infeliz. Fiquem presos nas tramas que urdiram! O ímpio se gloria da própria ambição; o avarento que ben­diz, despreza o Senhor. O ímpio é soberbo, jamais investiga: `Deus não existe!' é tudo o que pensa" (SI 10, 22-25).

O Holocausto (Shoah) abafou profundamente a consciência judia pela tragédia verificada nos campos de concentração de Auschwitz, Dachau, Treblinka... Os judeus formularam perguntas angustiadas: "Onde estava Deus em Auschwitz?", "Como pôde permitir que o seu povo fosse exterminado, sem que Ele mesmo interviesse?", "Por que Deus ficou em silêncio enquanto tantas crianças judias eram torturadas e mortas de maneiras tão cruéis?"

A estas perguntas alguns judeus tentaram responder apresentan­do um "novo conceito de Deus após Auschwitz". Assim Hans Jonas, numa conferência na Universidade de Tübingen (Alemanha) em 1984, afirmou que Deus quis, enquanto durar a história dos homens, "despojar-se do poder de envolver-se no curso físico das coisas deste mundo" (H. Jonas, "Le concept de Dieu après Auschwitz. Une voix juive" Paris, Payot­-Rivages, 1994, pp. 34s). O mesmo autor continua: "Em Auschwitz Deus ficou mudo. Não interveio, não porque não o quisesse, mas porque não estava em condições de intervir. Outorgando ao homem a liberdade, Deus renunciou à sua onipotência" (p. 34). Reconhecendo a autonomia do ho­mem, Deus se terá retirado do mundo e da história da humanidade, re­nunciando à sua onipotência.

Outros pensadores judeus foram mais adiante. Em 1944 J. Katzenelson escreveu: "É bom que Deus não exista, mesmo que seja incômodo sermos privados de Deus". R. L. Rubinstein perguntou: "Como podem os judeus crer num Deus todo-poderoso e benévolo depois de Auschwitz?". Para E. Wiesel, "Deus foi infiel às suas promessas; por isto é impossível continuar a crer; mas também é impossível não mais crer" (cf. M. Giuliani, Auschwitz nel pensiero ebraico. Brescia, Morcelliana 1998).

1.3. Entre os cristãos

Também os cristãos sentem angustiados a aparente ausência de Deus. Até mesmo os mais unidos aos valores espirituais ou os mais en­riquecidos com graças especiais experimentaram (e experimentam) o sofrimento por causa do silêncio de Deus.

São João da Cruz chama essas fases de aridez "noites do espíri­to"; nestas não somente Deus parece ausente, mas a alma justa tem a impressão de estar rejeitada por Deus e condenada à perdição definitiva.

A história da espiritualidade cristã está cheia de casos de Santos e San­tas que passam pela noite do espírito com duração de anos.

A autobiografia de Santa Teresa de Lisieux refere longos períodos de desolação espiritual da jovem carmelita: um muro parecia separá-la do céu, quase sempre fechado, enquanto era assaltada por dúvidas de fé e tentações de desespero. Tal estado de desolação acompanhou Te­resa até o fim da vida, quando finalmente Deus se fez "sentir" e ela pôde respirar na alegria e na paz, murmurando: "Mon Dieu, je vous aime". Na manhã do dia em que morreu, disse a Santa: "Passo por uma pura ago­nia, sem qualquer consolação... Não; nunca teria acreditado que fosse possível sofrer tanto".

Estes depoimentos bastam para ilustrar o problema: é difícil com­preender que Deus não intervenha em tantos casos para livrar suas cria­turas das mãos de assassinos e malfeitores ou para salvar inocentes que sofrem cruelmente. Teriam razão os ateus ao afirmar que tal ordem de coisas é incompatível com a existência de um Deus que seja bom e, ao mesmo tempo, todo-poderoso?

Tais perguntas sugerem reflexão.

2. Ponderando serenamente...

Não há dúvida, a realidade do sofrimento humano é, por vezes, obscura, de modo que não se pode elucidar cada caso de dor. Como quer que seja, a razão e a fé convergem entre si para dissipar a idéia de que o sofrimento é incompatível com a existência de Deus bom e todo­poderoso. É o que passamos a demonstrar.

2.1. Fala a razão

A razão aponta dois aspectos positivos e valiosos do sofrimento:

a) Sintoma de perfeição ontológica

Verifica-se que o sofrimento está ligado à perfeição dos seres. Com efeito; subamos a escala dos seres:

- o mineral não sofre. Pode ser talhado e martelado sem que sinta dor.

É totalmente insensível;

- o vegetal, quando agredido, reage. A planta da qual se corta um ramo, tende a se restaurar; por conseguinte, no plano em que começa a vida, começa a réplica àquilo que pretende destruir o ser;

- o animal irracional (cão, gato...) sofre, gemendo, chorando, urlando... Goza de vida sensitiva; por isto sente a dor;

- o ser humano, que vive no plano intelectivo, sofre mais ainda.

Não somente sente dor física ou moral, mas também reflete sobre a sua dor - o que o faz sofrer duplamente. E - note-se bem - quanto mais alguém é nobre e digno, tanto mais sofre; assim quem muito ama, muito sofre. Só não sofre quem é alienado ou doente mental ou... tarado e desnaturado... A razão desse sofrimento está em que a pessoa percebe a diferença existente entre o ideal (o que deveria ser) e a realidade; essa diferença suscita dor em quem tem sensibilidade para os verdadeiros valores.

Donde se vê que o sofrimento não somente não é incompatível com a auto-realização de alguém, mas chega a estar indissoluvelmente associado à nobreza do ser humano. É sintoma de grandeza moral (des­de que vivenciado sem masoquismo nem sadismo).

b) Escola de aperfeiçoamento espiritual

A experiência ensina que o sofrimento contribui, muitas vezes (verd­ade é que nem sempre), para o engrandecimento de quem sofre. Queb­ra o egoísmo ou o egocentrismo e torna a pessoa mais compreensiva, mais aberta para o próximo e o mundo. Purifica o olhar da mente, permit­indo escalonar melhor os valores e ajudando a desmascarar mais precis­amente as bolhas de sabão, coloridas por fora, mas vazias por dentro. O sofrimento desfaz ilusões e leva o ser humano a procurar em plano superior a resposta cabal para seus anseios naturais. Isto é tão verídico que já os filósofos gregos antes de Cristo faziam o trocadilho: páthos máthos (sofrimento é educação). O autor da epístola aos Hebreus cheg­a a dizer que Jesus, como homem, aprendeu mediante o que sofreu: émathen aph'hon épathen (Hb 5, 8).

A Escritura põe em relevo o valor pedagógico do sofrimento. Assim diz o Senhor a Israel: "Reconhece no teu coração que o Senhor teu Deus te educava, como um homem educa seu filho" (Dt 8, 5). A carta aos Hebreus retoma a temática:

"É para a vossa educação que sofreis. Deus vos trata como filhos. Qual é, com efeito, o filho cujo pai não o educa? Se estais privados da educação, da qual todos participam, então sois bastardos e não filhos" (Hb 12, 7s).

"Deus nos educa para o aproveitamento, a fim de nos comunicar a sua santidade" (Hb 12, 10).

Assim como a energia do átomo só se desprende quanto o átomo é bombardeado, assim também a energia do herói ou da heroína só se atualiza e mobiliza quando martelada pela dor...

Passemos agora à instância da fé.

2.2. Fala a fé

O que vai dito a seguir, só pode ser plenamente entendido por quem tenha fé. Todavia é de notar que a noção de um Deus omisso, negligente ou malvado é inconcebível: ou Deus é a suma perfeição, infalível em tudo, ou não é, não existe. Um Deus que o homem possa criticar por ser Ele imperfeito (menos justo ou santo do que o homem) não pode existir, pois tal conceito seria contraditório. Quando o homem não entende o comportamento de Deus, não diga que Ele está sendo falho (tal hipótese é inconsistente), mas reconheça que a sabedoria de Deus é mais ampla do que a da criatura; por isto é por vezes misteriosa, ... misteriosa, po­rém, porque mais profunda do que a do homem. Não é lícito configurar Deus à semelhança de um Grande Homem ou Grande Banqueiro.

Dito isto, passemos a uma reflexão teológica mais profunda.

Ensina a Escritura que Deus criou o homem num estado de bonan­ça, em que estaria isento de sofrimento e morte; cf. Gn 2, 17; 3, 16-19; Sb 1, 13s; 2, 23s. Todavia o homem perdeu a graça original pelo pecado que cometeu. Em conseqüência está sujeito à dor e à morte. Tal é a explica­ção que a fé apresenta para o fenômeno. - Deus, porém, não é indiferen­te a tal estado de coisas: o próprio Deus assumiu a natureza humana com todas as conseqüências do pecado; provou a dor e a morte, transfi­gurando-as ou tornando-as canais para a posse da plena vida. Depois que Jesus morreu na cruz, o sofrimento não desapareceu da face da terra, mas adquiriu sentido novo ou, melhor, mudou de sinal: deixou de ser mero símbolo de perdição para tornar-se sinal de redenção e salvação.

Assim pode-se dizer que Deus não se calou nem se cala diante do sofrimento humano. Este assume, por vezes, proporções gigantescas devidas à perversidade humana, mas é acompanhado pela Providência Divina. Aliás, diz S. Agostinho que Deus nunca permitiria os males (co­metidos pelo homem ou pelas criaturas em geral) se não tivesse, em sua sabedoria, recursos para tirar dos males bens ainda maiores; nem sem­pre nos é dado contemplar os frutos positivos do sofrimento, mas é de crer que a sabedoria divina não se engana e revelará aos homens, no fim da história, o feliz desfecho de muitas misteriosas tragédias.

Diz Pascal (+ 1662) que Cristo estará em agonia até o fim dos tempos. Sim; em cada justo é Cristo quem prolonga a sua Paixão reden­tora (cf. CI 1, 24). Assim os Santos são, ao longo da história da humani­dade, os sinais de Deus; padecendo com Cristo, indicam aos seus ir­mãos o significado de vitória que o sofrimento assume quando unido ao de Cristo. Pelos Santos, que nunca faltarão no decorrer dos tempos, Deus rompe o trágico silêncio e fala aos homens.

Nenhum comentário: