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segunda-feira, 23 de abril de 2007

Igreja, política: igreja, política e fé

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 263/1982)


É notícia o fato de que, na perspectiva de próximas eleições políticas, certas dioceses do Brasil têm publicado cartilhas visando a suscitar no povo de Deus os princípios de uma educação política. Não há dúvida, a intenção que anima tais obras é louvável, pois importa que os cidadãos brasileiros, por mais modestos que sejam, tenham as condições necessárias para participar da vida pública do país, elegendo seus repre­sentantes nos órgãos do Governo de maneira consciente e responsável, em vez de seguir simplesmente a orientação de um chefe ou líder de influência no seu ambiente. À Igreja toca realizar essa tarefa não por causa dos interesses de partidos ou grupos que estejam em causa, mas unicamente por razão das implicações morais ou éticas que as eleições têm para todos os cidadãos. Ao cristão compete, em consciência ou diante de Deus, o dever de procurar votar em dirigentes e governantes moralmente dignos, imbuídos de princípios cris­tãos e profissionalmente habilitados para promover o bem comum, ou seja, o bem arquitetado pela justiça e pelo senso de fraternidade que devem reinar entre os filhos de uma mesma nação. Todos os cidadãos de determinado país hão de se sentir responsáveis pela implantação de uma ordem sócio-econômico humana e reta em sua pátria e, se são cristãos, hão de se empenhar pela observância dos princípios do Evan­gelho e da doutrina social da Igreja. Ora à Igreja, qual Mãe e Mestre, compete colaborar na formação das consciências, transmitindo as normas éticas que decorrem da mensagem de Jesus Cristo, dissipando dúvidas e incentivando as boas inicia­tivas neste setor. Eis por que têm sido dadas a lume cartilhas políticas populares em algumas dioceses do Brasil.

Acontece, porém, que nem todos esses escritos vêm logrando o almejado efeito; alguns perecem unilaterais ou tendenciosos ou vasados em linguagem político-partidária. É justamente neste contexto que merece atenção o documento elaborado, a pedido do Sr. Arcebispo de Florianópolis (SC), por um grupo de especialistas (sacerdotes e leigos) desejosos de preencher real lacuna na pastoral do Brasil. Tal documento, publicado em fevereiro de 1982, será transcrito a seguir, pois revela atitude serena e objetiva diante de um problema can­dente e provocador. Dentro das limitações; que um texto de tal tipo não pode deixar de apresentar, exprime as linhas cen­trais do pensamento da Igreja em tal matéria. Após a trans­crição do texto, serão postas em relevo as grandes linhas do mesmo [*].

A propósito a redação de PR exprime sua gratidão ao Pe. Paulo Bratti, diretor do Instituto Teológico de Santa Cata­rina, um dos principais autores e responsáveis do documento em foco, o qual cedeu a PR o exemplar respectivo e a autori­zação para publicação.

IGREJA, POLÍTICA E FÉ

Pelo Grupo de Trabalho de Pastoral Política da Arquidiocese
de Florianópolis

APRESENTAÇÀO

Nos últimos anos, a Igreja no Brasil tem sido muito questio­nada por causa de certos documentos que tem publicado e por causa de seu posicionamento frente a problemas concretos que afli­gem o povo brasileiro. Para muitos, Ela está exorbitando de sua missão e incursionando em seara alheia. Neste ano de eleições, há perigo de que os ânimos se acirrem ainda mais, deixando, como desagradável conseqüência, um rasto de ressentimento.

Ora, não é esse o objetivo da Igreja; nossa intenção é criticar construtivamente comportamentos e estruturas, para que os homens reflitam e somem suas capacidades na edificação de uma sociedade mais humana e mais justa.

Para tanto, resolvi convidar um grupo de pessoas, sacerdotes e leigos, e lhes solicitei um breve estudo sobre «Igreja, Política e Fé», a fim de esclarecer o pensamento da Igreja nesta matéria e dirimir algumas possíveis dúvidas. É um pequeno catecismo de pas­toral política, apresentado de modo sintético, que pretende, tam­bém, estimular a leitura dos Documentos nele citados. A mesma matéria será divulgada em estilo popular, próprio para o debate em grupos de reflexão.

Desta forma, penso, estaremos dando uma parcela de contri­buição à educação política de nosso povo, tão necessária para que haja mais participação, e se desperte a consciência de corres­ponsabilidade na construção de um mundo melhor.

Dom Afonso Niehues

Arcebispo Metropolitano

TEXTO

1. Por que a Igreja, se está preocupando tanto com a política?

R. Antes de tudo, porque, a partir do Concílio Vaticano II, se foi firmando a idéia de que a Igreja não é uma realidade exis­tente fora da história, mas sim o Povo de Deus solidário com os problemas dos homens do nosso tempo.

Além disso, em seu trabalho pastoral, a Igreja está partindo de uma análise da realidade. Ora, olhando mais atentamente nossa realidade, percebe-se que existem situações de injustiça e de má distribuição das riquezas, que não estão de acordo com o Evan­gelho da fraternidade.

Esses problemas não podem ser resolvidos somente por ações isoladas de indivíduos, mesmo de boa vontade. São problemas mais amplos - estruturais - que requerem a ação conjunta de toda a sociedade; requerem, portanto, uma ação política. Por isso Paulo VI escreveu que «a ação política é uma maneira exigente, se bem que não seja a única, de viver o compromisso cristão ao serviço dos outros» [1].

2. Todos os cristãos estão conscientes disso?

R. Certamente não. Muitos cristãos têm, ainda, uma concep­ção estreita e pessimista da política, tida como atividade deso­nesta. Por isso dizem: «Não quero saber de política!» Não sabem que, ao falar assim, já estão tomando uma posição política, pois, por sua omissão, podem estar concordando com uma situação existente.

Há, ainda, os cristãos que separam o campo religioso - que seria meramente um assunto privado - do campo político, que é o da vida pública. Infelizmente essa idéia puramente «espiritua­lista e privativa» da fé penetrou na cabeça de muita gente. Dentro dessa mentalidade, a Religião e a Salvação não teriam nada a ver com a vida social.

3. Que fazer para superar essa visão?

R. É necessário, antes de mais nada, conscientizar-se de que o homem é um ser social: ele não vive só, mas convive. Já o grande filósofo Aristóteles dizia que o homem é um «animal polí­tico», porque vive na polis, o que, em grego, significa cidade. A nossa vida cristã, portanto, não se pode reduzir, apenas ao relacio­namento inter-pessoal - «eu e Deus» ou «eu e tu» -, pois nosso próximo são também as massas humanas. Então, é preciso olhar nosso semelhante não somente como um indivíduo isolado, mas como alguém que depende muito do ambiente e do contexto em que vive.

4. Que conseqüências têm essa doutrina?

R. A resposta está no Documento de Puebla: «A Igreja cri­tica aqueles que tendem a reduzir o espaço da fé à vida pessoal ou familiar, excluindo a ordem profissional, econômica, social ou política, como se o pecado, o amor, a oração e o perdão não tives­sem importância aí» [2]. Daí a urgência de se superar uma «ética individualista» que se preocupa somente consigo mesma. Há muitos cristãos que têm um comportamento pagão; só pensam em ganhar dinheiro, em «ter» mais, em subir na vida às custas dos outros. Essa mentalidade anti-evangélica se difundiu tanto que se ouve dizer com freqüência: «Cada um por si e Deus por todos!» ...

5. Quer dizer que não pode haver um cristão apolítico?

R. Não pode. Os Bispos Catarinenses afirmaram, num Do­cumento recente, que «não é possível a chamada neutralidade polí­tica, nem para a Igreja-Organização, nem para as pessoas que a compõem» [3]. E que o Evangelho também não é neutro e, diante de situações de evidentes injustiças e iniqüidades, Ele nos obriga a tomar partido. Por isso, todo cristão autêntico será partidário dos valores que constituem o fundamento da paz social: a verdade, a justiça, a liberdade e o amor [4]. Na América latina os católicos farão suas as grandes opções de Medellín e de Puebla: opção pelos jovens e opção preferencial pelos pobres. Lutarão pela im­plantação da justiça social e por uma sociedade onde haja verda­deiramente comunhão e participação.

6. Então os Bispos e Padres também deverão fazer política?

R. Devemos distinguir dois conceitos de política:

1°) Em sentido amplo, a Política significa a busca do bem comum, da solidariedade, da concórdia interna, da justiça com liberdade. Nesse sentido, a Política interessa à Igreja toda. À Hie­rarquia - Bispos e Padres - cabe também a tarefa de formar a consciência política dos fiéis, já que «nossa conduta social é parte integrante do seguimento de Cristo» [5].

2°) A Política pode significar, também, a busca do Poder para resolver as questões econômicas, políticas e sociais, segundo uma determinada ideologia. É a «política de partido», que e o campo próprio dos leigos.

Os Bispos e Padres, porque «ministros da unidade e homens do Absoluto», deverão se despojar de qualquer ideologia político­-partidária. Um ministro ordenado que se servisse de sua influência religiosa para impor determinada opção partidária estaria cometendo o pecado do «clericalismo», exigindo obediência num assunto de livre escolha dos fiéis.

7. Assim sendo, eles «ficam em cima do muro» ...

R. Na verdade, a Hierarquia Eclesiástica tem sido ultimamente, entre nós, defensora dos direitos humanos e advogada dos que não possuem voz, nem vez. Nos casos de conflito, longe de se acomo­darem na indiferença, Bispos e Padres se posicionaram claramente a favor dos posseiros, dos operários, dos índios, sendo por isso censurados, quando não presos.

Mas a missão dos Sacerdotes não se esgota na luta pela jus­tiça e vai muito além dos programas dos Partidos. Há outros aspec­tos da vida que precisam ser evangelizados, como as dimensões pessoal, familiar, cultural, religiosa. Quando, então, um Pastor, ao mesmo tempo em que valoriza a atuação política, lembra essas outras dimensões da existência - afirmando que, para sobreviver, o homem precisa de pão e de sentido, de justiça e de oração -, não está ficando em cima do muro, mas exercendo um autêntico serviço profético.

8. Portanto, a política não abarca toda a vida?

R. Exatamente. Por isso também Puebla chama a atenção para o perigo de uma «total politização da existência cristã» [6]. Isto acontece quando se absolutiza o engajamento político, quando se julga tudo a partir de uma ótica política, quando se transportam para o interior da Igreja análises feitas nos Sindicatos e nos Par­tidos, que criam bloqueios e divisões. Começa-se, então, a rotular os homens da Igreja de conservadores, progressistas e moderados; introduz-se a estratégia da «luta de classes» para o âmbito ecle­siástico; esvazia-se o sentido sobrenatural da Salvação; reduz-se a fé a um ardor puramente revolucionário; incorre-se num maniqueísmo farisáico, que divide matematicamente o mundo dos homens entre bons e maus, opressores e oprimidos; esquece-se de que, para além de suas legítimas diferenças políticas, culturais e ideológicas, os homens são feitos do mesmo barro, filhos do mesmo Pai e desti­nados à mesma meta que é a vida eterna. Estes são alguns riscos reais de uma exagerada «politização».

9. Qual é mesmo, então, a missão dai Igreja?

R. O Regional Sul IV da CNBB, formado pelas oito Dioceses Catarinenses, coloca como objetivo da atividade pastoral «Despertar todo homem e o homem todo para uma vida de Igreja, onde cada um assuma a missão de anunciar o Reino pela Palavra, pela cele­bração do Mistério cristão na vida e pelo testemunho, através de uma evangelização libertadora que leve à Comunhão e à Partici­pação» [7]. Vê-se que a vivência cristã integral é ampla e abrangente. Deve-se, por isso, evitar todo «reducionismo» que enxerga só um aspecto: ou só a militância política alienada da vida interior, de união com Deus, ou só a vida de oração, litúrgica e sacramental, alienada dos problemas sociais. O leigo, porém, que alimenta sua fé na meditação da Palavra de Deus e na celebração eucarística, tem por tarefa própria ordenar e/ou transformar a ordem temporal (economia, cultura, educação, meios de comunicação social, etc.) segundo o plano de Deus.

10. No passado não se falava em transformar e, sim, em conservar...

R. Ainda hoje a Igreja deve conservar os valores perenes e permanentes do «depósito da fé», como: a doutrina da criação, a paternidade divina, o mistério do pecado, a redenção de Cristo, a necessidade da Graça, o valor da oração e dos Sacramentos, a vida após a morte, a prática de virtudes pouco apreciadas atual­mente, como a penitência, a castidade, a humildade. A Igreja se posiciona, outrossim, contra o aborto e o divórcio, sendo, portanto, a favor da vida e do matrimônio indissolúvel. Nesse sentido, Ela será sempre «conservadora».

Mas, com relação à organização social, Ela prega realmente «reformas profundas e audazes» por meios não violentos [8]. É que reina entre nós uma «pirâmide social perversa», com «ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres» (João Paulo II). O modelo adotado em nosso país é concentrador de ren­das, beneficiamento econômico. O Brasil é um dos países recor­distas em desigualdades entre abastados e miseráveis [9].

11 . Como mudar essa situação?

R. A ética cristã não aceita, como via normal, o uso da força e da luta armada. «A violência não é cristã, nem evangélica» [10]. Também não basta mudar os detentores do poder. O importante é que o povo se organize: «A organização popular é o funda­mento de uma sociedade segura e estável» [11]. Daí a importância dos chamados «corpos intermediários», isto é: dos sindicatos, das associações de classe e de bairros, bem como das Comunidades Eclesiais de base. Todas essas entidades deveriam ser uma escola de democracia, com ampla participação e liberdade de discussão, sem imposições ideológicas. Essas organizações populares deveriam ser veículos de legítimas reivindicações e de pressão moral liber­tadora, capazes de mudar estruturas sociais injustas. Não é somente o Governo o culpado dos males que nos afligem. É toda a socie­dade - por conseguinte, cada um de nós - que precisa con­verter-se de uma mentalidade egoísta, gananciosa e consumista.

12. A Igreja tem outro modelo de sociedade a propor?

R. O Papa afirmou aqui no Brasil que «a Igreja, como tal, não pretende administrar a sociedade, nem ocupar o lugar dos legítimos órgãos de deliberação e ação... a sua contribuição espe­cífica será a de fortalecer as bases espirituais e morais da socie­dade... é um serviço de formação das consciências» [12]. Em sua doutrina social - que é parte integrante da concepção cristã da vida - a Igreja apresenta caminhos e princípios que têm valor universal. Cabe aos técnicos e aos cientistas sociais traduzir em normas e estruturas práticas essas orientações.

A Igreja respeita a autonomia das instituições civis, como o Estado. Seria retroceder aos tempos medievais se os eclesiásticos se quisessem apoderar do poder temporal ou se os homens públicos fossem tratados como menores. E preciso evitar que, sob o pre­texto de profetismo, se volte a criar a imagem de uma Igreja into­lerante e moralizante, que deixou de dogmatizar em questões teo­lógicas para fazê-lo em questões políticas. O Conselho Permanente da CNBB lembrou há pouco que «o desarmamento dos espíritos... a humildade e a conversão são necessários a todos, inclusive à Igreja» [13].

13. Mas a Igreja tem condenado certos sistemas...

R. É verdade. Em Puebla, por exemplo, os Bispos latino­-americanos condenaram três ideologias incompatíveis com a visão cristã do homem:

a) O liberalismo capitalista, enquanto considera o lucro como motor essencial do progresso econômico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos bens de pro­dução como direito absoluto, sem limites, nem obrigações sociais correspondentes [14];

b) O coletivismo marxista, materialista e ateu, que tem por motor a luta de classes, visando a atingir a sociedade sem classes, mediante a ditadura do proletariado e do partido. Todas as suas experiências de governo se realizaram dentro do quadro de regimes totalitários, fechadas a toda possibilidade de crítica ou retificação;

c) A Doutrina da Segurança Nacional, que suprime a parti­cipação ampla do povo nas decisões políticas, desenvolve um sis­tema repressivo e impõe a tutela do povo por elites do poder, militares e políticos [15].

14. Existe no Brasil algum Partido que defenda uma dessas ideologias?

R. Teoricamente, não. Olhando o programa dos diversos partidos notam-se, em todos eles, propósitos e projetos que visam a criar uma sociedade onde haja mais participação do povo e melhor distribuição da renda nacional. Por isto a Igreja no Brasil oficialmente não faz restrições a nenhum dos partidos existentes. Também Ela «não favorece a nenhum partido em especial» [16]. Por outro lado, Puebla lembra que «nenhum partido político, por mais inspirado que esteja na doutrina da Igreja, pode arrogar-se a representação de todos os fiéis, já que seu programa concreto nunca poderá ter valor absoluto para todos» [17]. Por isso os Bispos brasi­leiros disseram que «nenhum modelo é perfeito ou definitivo; todos são discutíveis e precisam ser continuamente aperfeiçoados» [18].

15. Sim, mas ... e na prática?

R. Cabe ao cristão verificar a coerência dos programas par­tidários com a verdadeira atuação dos partidos. Assim, além do programa escrito, é preciso olhar a prática. Não é segredo para ninguém, por exemplo, que o regime brasileiro dos últimos dezoito anos implantou um sistema capitalista fortemente baseado na dou­trina da Segurança Nacional. De acordo com o modelo adotado, o desenvolvimento econômico traz consigo automaticamente o desen­volvimento social. O que não se tem verificado, pois, apesar do inegável progresso havido, é assustador o número de brasileiros sem terra, sem educação, sem saúde, sem habitação, sem alimento.

Desta forma, tanto os cristãos que militam nos partidos de apoio ao regime que detém o poder, como aqueles que militam nos partidos de oposição, têm o dever de refletir criticamente sobre a situação vigente, em confronto com os respectivos programas partidários, cabendo a todos lutar politicamente para que tais pro­gramas prevaleçam sobre as decisões casuísticas e deixem de ser relegados a simples intenções.

16. Nessa situação, como formar a consciência política?

R. Antes de tudo, é preciso fazer um estudo mais aprofun­dado de nossa realidade. Em seguida, estudar-se-ão os programas e propostas dos diversos partidos e candidatos. O cristão deve escolher aqueles que estiverem em melhor sintonia com o pensa­mento da Igreja, que optou preferencialmente pelos pobres e que postula, entre outras coisas: justiça com liberdade, melhor distri­buição das terras, participação dos trabalhadores nos lucros das empresas, fim da especulação imobiliária, combate aos «atravessadores» gananciosos e assim por diante.

17. Qual a melhor maneira para fazer esses estudos?

R. Existem várias maneiras. Mas, sem dúvida, uma boa consciência política será mais facilmente formada a partir de estudos e debates realizados dentro de grupos organizados. Por isto é muito importante que os cristãos procurem criar novos grupos de reflexão ou se incorporar aos já existentes nos seus bairros ou Paróquias.

Um excelente roteiro de estudo poderia ser o recente documento preparado pelo Departamento de Ação Social do CELAM e publi­cado no Brasil pela CNBB: «Fé cristã é Compromisso Social» (Edi­ções Paulinas).

18. Existem políticos confiáveis?

R. Existem, é claro. Infelizmente, contudo, nossa democracia sofre de males crônicos. A começar pela maneira de se entender o exercício do poder. Assim, muitos procuram-se eleger para um cargo público meramente por vaidade e ambição pessoal, em busca de auto-promoção ou defesa de interesses econômicos. Outrossim, «im­pressiona-nos a facilidade com que nossos representantes aumentam seus salários, com a anuência de todos os partidos» [19]. Existem, ainda, os vícios da politicagem, que são: as mordomias, o empreguismo, a compra de votos. Essas e outras tradições de corrupção dos costumes políticos devem acabar. É urgente que surja uma nova geração de políticos que encare seu mandato como um serviço desin­teressado prestado à comunidade. «A fé cristã não despreza a ati­vidade política; pelo contrário, valoriza-a e a tem em alta estima» [20]. Por isto a Igreja exorta os leigos cristãos a se engajarem na ativi­dade política para serem fermento de uma sociedade livre. Somente com homens novos se pode formar uma sociedade nova.

Notas bibliográficas­

1 Paulo VI: "Octogesima Advéniens" n° 46.

2 Documento de Puebla (= DP) n° 515; cf. também Vaticano II: "Gaudium et Spés" n° 30.

3 “A Igreja em Santa Catarina e a conjuntura sócio-política” n° 12.

4 João XXIII: "Pacem in Terris" nn. 35-36.

5 DP n° 476.

6 DP n° 545.

7 "A Igreja em Santa Catarina"... n° 11.8

8 "Pronunciamentos do Papa no Brasil (ed. Vozes) n° 700.

9 Cf. CNBB: "Subsídios para uma Política Social" n° 11.

10 "Conclusões de Medellín" n° 15.

11 "A Igreja em Santa Catarina"... n° 3.

12 "Pronunciamentos do Papa no Brasil" nn. 417, 675, 676.

13 “Reflexão cristã sobre a conjuntura política" n° 28 (CNBB).

14 Paulo VI: "Populorum Progressio" n° 26.

15 DP nn. 542-550.

16 CNBB: "Reflexão cristã sobre a conjuntura política" n° 18.

17 DP n° 523.

18 CNBB: "Exigências cristãs de uma Ordem Política" n° 12.

19 "A Igreja em Santa Catarina"... n° 14.

20 DP n° 514.

COMENTANDO

1. O documento insiste muito na participação de todos os cidadãos na vida política do país. Isto se deve a certa apatia ou indiferença que grande parte da população brasileira tem experimentado em relação à vida pública. A tendência de muitos é a de cuidar dos interesses pessoais, familiares ou grupais, sem levar em conta os da comunidade nacional; esque­cem, deste modo, que o bem particular e o bem comum estão em mútua interdependência. É preciso, pois, que se dissipe o comodismo de uns, o ceticismo ou a descrença de outros em matéria política, a fim de que todos possam dar a sua contri­buição em favor do bem comum. Tal é a razão da ênfase do documento sobre a participação de todos na vida política.

2. Quanto aos clérigos (bispos e sacerdotes), o texto afirma explicitamente que

- não devem exercer política partidária, colocando-se nas fileiras de determinado partido político e militando como políticos alistados, pois quem assim procede se torna membro de uma facção contra outras facções da sociedade, ao passo que a missão do pastor é universal, devendo servir aos membros de qualquer partido político. Aos clérigos, portanto, ou à hieraquia da Igreja compete apenas enunciar os grandes prin­cípios éticos de uma política cristã, deixando aos fiéis plena liberdade, para que, observados tais princípios, se inscrevam no partido que mais lhes parecer condizer com a sua consciên­cia bem formada;

- a atividade política, mesmo apartidária, não é a única tarefa da Igreja, nem deve inspirar, em caráter exclusivo, as outras tarefas eclesiais. Além dos deveres políticos, e acima destes, estão aqueles de ordem transcendental que tocam ao cristão como cristão ou à Igreja como Igreja, ... deveres que nenhuma outra instância ou sociedade cumprirá se a Igreja não os cumprir, pois foram confiados por Cristo à Igreja como tarefa especificamente sua: tais são a missão de aprofundar a fé, apregoá-la e transmiti-la ao mundo inteiro na evangeli­zação e na catequese, a missão de promover a oração, a Liturgia, os exercícios espirituais, as práticas de ascese e de conversão pessoal, a missão de anunciar as virtudes teologais e morais em toda a sua amplidão (mesmo aquelas que são menos estimadas porque consideradas passivas, como a humil­dade, a obediência, a renúncia aos interesses egoístas..) A Boa-Nova confiada por Cristo à Igreja tende a ultrapassar sempre os moldes da cidade terrestre, a fim de elevar as mentes dos fiéis à contemplação e à vivência antecipada dos bens eternos. Será precisamente em nome do Reino de Deus trans­cendental já iniciado neste mundo pela graça que o cristão assumirá com pleno afinco o desempenho da sua missão tem­poral. A pregação dos valores transcendentais, longe de con­tradizer ao exercício de funções profissionais ou rivalizar com estas, comunica ao cristão um zelo que nenhuma outra moti­vação lhe inspiraria; sim, por amor ao Reino de Deus o cristão há de procurar ser excelente profissional em sua cate­goria, pois sobre ele pesam, de certo modo, a honra e a glória de Senhor Deus. Apregoando as verdades transcendentais, a Igreja está servindo não somente a Cristo, mas também ao homem, pois este foi incoercivelmente feito para a Verdade, a Vida, o Amor, a Bondade..., que não se encontram plena­mente em criatura alguma, mas tão somente no Criador. Se a Igreja silenciasse tais verdades em favor de uma pregação exclusivamente voltada para a justiça social, estaria tirando o homem, a quem ela deve servir, pois lhe subtrairia a mensa­gem mais vital e construtiva a que ele aspira consciente ou inconscientemente.

A propósito pode-se indicar SEDOC, volume 14, n° 149, marco 1982, fascículo dedicado quase inteiramente à orientação política ministrada pela Igreja no Brasil.

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NOTA:

[*] Quando a redação de PR empreendeu a publicação do documento de Florianópolis, ainda não fora dado a lume o da arquidiocese do Rio de Janeiro, que por isto não pode ser comentado neste número de PR.

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