quinta-feira, 19 de abril de 2007

Idade Média: luz sobre a Idade Média

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 297/1987)

por Régine Pernoud

Em síntese: A Idade Média é tida freqüentemente como “época das tre­vas. Para dissipar o mal-entendido, a historiadora francesa Régine Pernoud publicou algumas obras, entre as quais “Luz sobre a Idade Média”; deste vo­lume vão extraídos alguns tópicos relativos ao ensino e à vida cotidiana da­quela época.

Quem analisa de perto a documentação deixada pelos medievais, toma consciência de que já viviam “uma civilização refinada. Basta dizer que a hi­giene estava mais desenvolvida do que no século XVII. A hierarquia social assentava essencialmente nos laços familiares. As mulheres tinham direitos que perderam a partir do século XVI” (4ª capa do livro).

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A historiadora francesa Régine Pernoud já foi apresentada em PR 289/1986, pp. 262-273. Especializou-se em estudos medievais e, por seus escritos, tende a mostrar os aspectos positivos da Idade Média, que ge­ralmente são ignorados. O livro “Luz sobre a Idade Média”[1] estuda di­versas facetas daquela época, como, por exemplo, as letras, as artes, a mentalidade, a realeza, a vida urbana... Cada capítulo da obra é rico em dados e informações, geralmente desconhecidos mesmo às pessoas de média cultura. Eis por que nas páginas seguintes nos voltaremos para duas das seções mais interessantes e surpreendentes da obra, que são os capítulos relativos ao ensino (pp. 99-110) e à vida cotidiana dos homens e mulheres da Idade Média (pp. 165-195).

1. O ensino

1.1. Regime escolar

As escolas na Idade Média eram fundadas e mantidas geralmente pela Igreja: havia as escolas das paróquias, as das catedrais e as dos Mosteiros. Em 1179 o Concílio do Latrão III impôs a todas as igrejas a obrigação de ter uma escola agregada. Além disto, os senhores feudais podiam fundar suas escolas, como também os habitantes de um lugarejo se podiam associar entre si para sustentar um professor encarregado de ensinar ás crianças. Conservou-se até hoje a petição de alguns pais soli­citando a demissão de um professor, que, não tendo sabido fazer-se res­peitar pelos alunos, foi por estes desrespeitado; sim, haviam-no ferido com os seus estiletes (grafiones) destinados a escrever sobre tabuinhas revestidas de cera.

As crianças eram admitidas na escola com sete ou oito anos de ida­de; o ensino, que preparava para os estudos da Universidade, estendia-se por uma dezena de anos. Os meninos eram separados das meninas, que tinham seus estabelecimentos próprios, menos numerosos talvez, mas muito ativos. A Abadia de Argenteuil, por exemplo, onde foi educada Heloísa, ensinava às alunas a S. Escritura, as letras, a medicina e mesmo a cirurgia, sem contar o grego e o hebraico, que Abelardo lá ensinou. Em geral, as pequenas escolas proporcionavam aos seus alunos as noções de gramática, aritmética, geometria, música e teologia que lhes permitiam chegar às Universidades; é possível que algumas tenham ministrado um ensino técnico.

As crianças de todas as classes da sociedade eram instruídas juntas, como atesta o cronista que apresenta Carlos Magno (Imperador) severo para com os filhos dos barões que se mostravam preguiçosos ao contrário dos filhos dos servos e de pessoas pobres A única diferença consistia no fato de que o ensino era gratuito para os pobres e pago para os ricos. Esta gratuidade se estendia a outros casos por exemplo o Concílio do Latrão III em 1179 proibiu aos responsáveis das escolas que exigissem taxas dos candidatos ao magistério pela concessão da licença

É a identidade de instrução ministrada a ricos e pobres que explica tenha havido na Idade Média tantos grandes personagens saídos de fa­mílias humildes: Sugero, que governou a França durante a Cruzada de Luís VII, foi filho de servos; Maurício, de Sully, o bispo de Paris que man­dou construir a catedral de Notre-Dame, nasceu de um mendigo; São Pedro Damião, Cardeal, na sua infância foi guarda de porcos; Gerberto de Aurillac, brilhante cientista medieval, foi também pastor; o Papa Ur­bano VI foi filho de um pequeno sapateiro de Troyes e Gregório VII, o grande Papa, foi filho de um pobre cabreiro.

Os estudantes mais dotados tomavam o caminho da Universidade, de acordo com as suas preferências. Em Montpellier, ensinava-se a me­dicina; em Orleães, o Direito Canônico; em Bolonha, o Direito Romano. Paris, porém, atraia de modo especial, pois lá se aprendiam as artes liberais e a teologia por parte de estudantes provenientes da Alemanha, da Itália, da Inglaterra, da Dinamarca, da Noruega.

1.2. Autonomia universitária

As Universidades, que eram obras da Igreja, dependiam direta­mente do Papa e não do Bispo do lugar. Cada Universidade formava um corpo livre - o que quer dizer que estava isenta da jurisdição civil ou dos tribunais do rei. Professores, alunos e até os servidores destes depen­diam apenas dos tribunais eclesiásticos - o que era considerado um pri­vilégio; professores e alunos administravam a sua tesouraria sem inge­rência do Estado. É esta a característica essencial da Universidade medie­val e aquela que mais a distingue da de hoje.

Tal liberdade favorecia a emulação entre as diversas Universidades: os estudantes de Paris iam fraudulentamente a Orleães a fim de concluir a sua licenciatura, porque ali os exames eram mais fáceis; realizavam seus movimentos de contestação e greve... a tal ponto que a Universidade medieval era um mundo turbulento, quase tanto quanto em nossos dias. - Era também um mundo cosmopolita: os estudantes de Paris estavam repartidos em quatro nações: os Picardos, os Ingleses, os Alemães e os Franceses. Os professores também vinham de diversas partes do mundo: havia Sigério de Brabante (Bélgica), João de Salisburv (Inglaterra), Alberto Magno da Renânia, S. Tomás de Aquino e São Boaventura da Itália. A língua comum, única falada na Universidade, era o latim; esta permitia aos sábios comunicar-se de um ponto a outro da Europa Ocidental e contribuía para salvaguardar a homogeneidade de pensamento. Os pro­blemas que apaixonavam os filósofos, eram os mesmos em Paris, em Oxford, em Edimburgo, em Colônia ou em Pavia.

O mundo estudantil era também um mundo itinerante: os jovens saiam de casa para alcançar a Universidade de sua escolha; voltavam para sua terra nas festas. Punham-se a caminho para aproveitar as lições de um mestre de nomeada ou estudar uma matéria na qual determinada cidade se espe­cializara. Como dito, havia os que “fugiam” para Orleães para fazer os exa­mes de Direito Canônico em termos facilitados. Assim percorriam as estra­das a cavalo e, mais freqüentemente, a pé, caminhando léguas e léguas e dormindo em abrigos de viandantes. Com os mercadores e os peregrinos, fo­ram os estudantes os que mais contribuíram para a grande animação das es­tradas medievais.

No conjunto, o universitário do século XIII tinha características semelhantes às dos estudantes do século XX. Temos cartas dirigidas por aqueles aos pais e colegas, que revelavam as mesmas preocupações de hoje: os pedidos de dinheiro e subsídios, queixas de estudos e exames penosos... Não poucos careciam de dinheiro e, por isto, eram dispensados das taxas da sua Faculdade: encontra-se freqüentemente nos registros uma menção in­dicando que tal ou tal estudante nada pagou ou só pagou parte do débito propter inopiam, por causa da sua pobreza. Alguns conseguiam trabalho re­munerado, que os ajudava a viver; sim, podiam tornar-se copistas ou enca­dernadores nas lojas de livros. Além disto, podiam pleitear pensão (cama e mesa) nos colégios que se foram instituindo a partir de fins do século XII. O primeiro destes albergues foi criado no Hotel-Dieu de Paris por um burguês de Londres que, regressando de uma peregrinação à Terra Santa, quis fazer uma fundação perpétua, encarregada de albergar e alimentar gratuitamente dezoito estudantes pobres, os quais, em retribuição, só tinham a obrigação de velar os mortos do hospital e levar a cruz e a água benta por ocasião dos enterros. Aos poucos formou-se o hábito de organizar nessas pensões (cha­madas “colégios” sessões de trabalho em comum ou grupos de estudos; os professores iam ali lecionar e chegavam a fixar-se nos colégios, os quais se tornavam assim mais freqüentados do que as próprias Universidades. Em su­ma, pode-se dizer que havia todo um sistema de bolsas de caráter semi-oficial ou particular.

O ensino era ministrado em latim. Compreendia o trivium ou as artes liberais (Gramática, Retórica, Lógica) e o quadrivium ou as ciências (Arit­mética, Geometria, Musica e Astronomia). Além disto, havia as Faculdades de Teologia, Direito e Medicina. Assim era abrangido todo o ciclo de conhe­cimentos da época. Cada ramo de saber era colocado dentro do conjunto dos conhecimentos relativos ao homem; com outras palavras, os medievais procuravam ministrar sempre cultura geral representada principalmente pelo trivium e o quadrivium. E o que explica o caráter enciclopédico de muitos sábios e letrados da época: Rogério Bacon, João de Salisburv, Alberto Magno..., que podiam entregar-se sucessivamente a diversos assuntos sem perder a visão do conjunto. A Universidade aplicava também com freqüência o método da disputa filosótico-teológica (quaestiones disputatae), que seguiam regras estritas, aptas a garantir a boa ordem e o progresso do pensa­mento.

Em Paris o número de estudantes era muito grande; exageradamente tem-se dito que ultrapassava o da população fixa da cidade (pouco mais de quarenta mil habitantes)! Tanto as autoridades quanto os cidadãos eram assaz indulgentes para com os universitários, apesar das pilhérias e dos grace­jos com que freqüentemente incomodavam os moradores da cidade. Algu­mas cenas de sua vida ficaram gravadas em monumentos e escritos; vemo-los a ler e a estudar: uma mulher vai perturbá-los e os afasta de seus livros; então, para puni-la, as autoridades civis a colocavam no pelourinho. Os reis davam o exemplo de tratar os “escolares” como meninos mimados; Felipe Au­gusto, da França, depois da batalha de Bouvines, enviou um mensageiro a anunciar a sua vitória, em primeiro lugar, aos estudantes parisienses.

1.3. Iletrados e cultos

Do que foi exposto, segue-se que tudo que dizia respeito ao saber, era estimado na Idade Média, Rezava um provérbio: “Com desonra morra mere­cidamente quem não gosta de livros”. Estes fatos suscitam a pergunta; era o povo tão ignorante na Idade Média como geralmente se supõe?

A propósito faz-se mister dissipar um mal-entendido: o número de iletrados era, sem dúvida, maior na Idade Média do que em nossa época (ain­da que menor do que se tem dito). Acontece, porém, que ser iletrado não significava ser ignorante ou inculto na Idade Média; sim, os homens medie­vais aprendiam mais pelo ouvido do que pela leitura (o que se compreende, pois, antes da invenção da imprensa, poucos e caros eram os livros); por muito estimados que fossem os códigos, eles não podiam ser tão utilizados e aplicados quanto a palavra viva; lembremo-nos, por exemplo, de que as or­dens dos reis e dos governantes eram muito mais freqüentemente proclama­das e apregoadas de viva voz do que transmitidas por escrito. Estes elemen­tos explicam que nos Estatutos municipais da cidade de Marselha, datados do século XIII, sejam enumeradas as qualidades exigidas de um bom advoga­do - ao que se acrescenta litteratus vel non litteratus (quer seja letrado, quer não); isto significa que alguém podia ser um bom advogado e não saber ler nem escrever; podia conhecer o Direito Romano, a jurisprudência e o uso da linguagem e, apesar de tudo, ignorar o alfabeto. Tal noção é de difícil compreensão para um cidadão do século XX, mas torna-se de importância capital para se entender a Idade Média.

Elemento essencial da vida medieval foi a pregação. Esta era exercida não só nas igrejas, mas também nos mercados, nos cruzamentos de estradas, nas praças públicas, e de maneira muito viva e calorosa. O pregador dirigia-se ao auditório, respondia às suas perguntas, admitia até as suas iniciativas. Os sermões impressionavam profundamente as multidões, podendo desen­cadear uma Cruzada, propagar uma heresia ou preparar revoltas. O papel di­dático dos clérigos era amplo: ensinavam aos fiéis as suas histórias e as suas tradições, a sua ciência e a sua fé; comunicavam-lhes os grandes acontecimentos (tomada de Jerusalém, perda de São João de Acre...); aconselhavam e guiavam os outros, até nos negócios profanos. Como dito, na Idade Média. as pessoas se instruíam escutando e tinham a memória auditiva muito mais exercitada do que a visual.

Em conclusão: a Idade Media além da sua cultura patente e explicitamente formulada, teve a sua cultura latente. Todos possuíam um conhecimento prático e concreto do latim falado, articulavam o canto-chão, que supõe, se não a ciência, pelo menos o uso da acentuação no falar. Todos conheciam um pouco da história da sua gente e de seu torrão natal com as tradições que a acompanhavam os monumentos concorriam para transmitir esse patrimônio histórico e cultural mesmo aos que não sabiam ler (pensemos na chamada “Bíblia dos iletrados”, que eram os vitrais das catedrais e igrejas).

Além dos conhecimentos de língua, canto e historia, havia o saber téc­nico, que os pequenos artesãos os assimilavam no decorrer da sua aprendiza­gem: os artífices não se improvisavam; era preciso que as suas artes se lhes tivessem tornado uma segunda natureza. Muitas vezes os conhecimentos téc­nicos eram acompanhados de pequena súmula do saber (astronomia, medici­na, botânica, meteorologia), como atestam os compost des bergiers, manus­critos descobertos há poucos decênios, que revelam o gosto pela difusão da cultura entre os trabalhadores manuais da Idade Média. - Aliás, é de notar que esta época não conhecia fosso entre artes manuais e profissões liberais: sim, os termos são significativos: mestres era tanto o fabricante de tecidos que terminara a sua aprendizagem quanto o estudante de Teologia que obti­vera a licença para ensinar.

Estes dados históricos realmente abrem novas perspectivas, claras e importantes, sobre a desconhecida Idade Média.

2. A vida cotidiana

2.1. Casas e ruas

No início da Idade Média registra-se a tendência a agrupar as popula­ções em torno de um castelo, cujo senhor pudesse prestar defesa e proteção às famílias de camponeses vizinhos. Todavia, desde que cessou a época das invasões (século XI), as populações deixaram de se aglomerar em torno de um grande senhor para constituir cidades propriamente ditas. Estas eram sempre cercadas de muralhas (costume dos povos anteriores a Cristo) para se defenderem de adversários. A delimitação das cidades por muralhas fazia que as ruas fossem, muitas vezes, tortuosas; sim, acompanhavam o traçado das muralhas, que por sua vez dependiam da configuração do terreno. Este fato não excluía certo planejamento das cidades: em Marselha, por exemplo, as vias principais são estritamente paralelas às margens do porto, onde vão desembocar as ruas transversais.

A estreiteza das ruas era devida a razões precisas; os cidadãos queriam defender-se do vento ou do sol, onde isto se fizesse necessário. Aliás, o am­biente das ruas era muito importante para o homem medieval, pois vivia grande parte do dia na rua. Notemos que na antigüidade as casas apresenta­vam poucas aberturas (portas ou janelas) para o exterior; eram iluminadas, artificialmente em seu interior. Ao contrário, na Idade Média, as casas se abriram para as ruas - o que foi autêntica revolução arquitetônica. As pes­soas gostavam de sair. Todos os lojistas tinham um toldo, que montavam to­das as manhãs, a fim de expor os seus artigos ao ar livre; queriam assim apro­veitar a luz do dia, que permitia aos clientes examinar os artigos melhor do que a luz artificial. Um mercador de panos que levasse o freguês para dentro da loja, era mal visto; pensava-se que, se não existisse defeito nos seus tecidos, não teria receado expô-los em plena rua, como faziam os outros. O bar­beiro, o cordoeiro e mesmo o tecelão trabalhavam na rua ou virados para ela; o cambista instalava suas mesas sobre cavaletes diante da sua loja.

Assim as ruas eram muito movimentadas. Cada quarteirão tinha a sua fisionomia própria, pois os profissionais se agrupavam em corporações. Por isto é que ainda hoje nas cidades européias as ruas têm o nome de diversos tipos de trabalhadores: Rua dos Cuteleiros, Cais dos Ourives, Rua dos Ta­noeiros. - . Além da movimentação humana natural, registravam-se nas cida­des medievais os pregões ou as mensagens proclamadas em alta voz nos lu­gares públicos, pois na Idade Média tudo era apregoado (já que não havia jornais impressos): as novidades do dia, as decisões da Polícia ou da Justiça, os leilões ao ar livre, as mercadorias para venda, os vinhos dos taberneiros; em suma, a publicidade era falada e não escrita.

Estes traços não devem dar a impressão de que “as casas medievais eram pocilgas fedorentas e as ruas eram cloacas”, como já se disse. Os do­cumentos nos dão notícias de cautelas tomadas para garantir a limpeza e o asseio das cidades: em muitas destas, as ruas eram pavimentadas com pedras. Havia esgotos, geralmente cobertos: em Paris foram encontrados os respecti­vos canais debaixo do terreno do Louvre e do antigo Palácio da Trémoille, datando do século XIII. Onde não existiam tubos de esgoto, criavam-se va­zadouros públicos, cujos detritos eram despejados nos rios ou queimados. A polícia se encarregava de fazer respeitar as leis da higiene pública. Existiam regulamentos particulares para garantir a limpeza de lugares mais ameaçados pela sujeira: a carniçaria, a peixaria, a pelaria... Donde se vê que a saú­de pública não era negligenciada.

Uma dúvida, porem poderia originar se do fato de que os animais domésticos nas cidades eram muito mais numerosos do que em nossos dias não era raro ver-se um rebanho de cabras ou de carneiros ou mesmo uma manada de vacas abrir passagem por entre os tabuleiros dos vendedores provocando desordens e tumultos. Em Londres os carneiros atravessavam diariamente uma das praças mais movimentadas para ir pastar nos parques. Havia principalmente porcos - cada família criava a quantidade necessária ao consumo da casa -, que circulavam nas calçadas apesar das proibições (isto não era totalmente inconveniente pois devoravam os detritos comestíveis e assim contribuíam para a limpeza pública). As autoridades promulgavam leis restritivas à criação de animais nas cidades mas nem sempre logravam o intento.

Na ruidosa cidade medieval, onde fervilhava uma população sempre atarefada, a voz dos sinos marcava os principais momentos do dia, fazendo parte do “fundo sonoro” da cidade; de manhã e de tarde, o sino indicava as horas de trabalho e de repouso, desempenhando o papel das sirenes das fá­bricas modernas. O sino proclamava os dias de festa, chamava por socorro em caso de alarme, convocava o povo para as reuniões e os Conselhos; dobra­va em tom de Finados ou em carrilhão de testa ou em sinal de incêndio. Quando anunciava a hora de recolher à noite extinguiam-se as luzes das lojas, fechavam-se os portões das casas e ate as portas da cidade em caso de perigo noturno, levantavam-se as pontes levadiças e baixavam-se as grades para defender a cidade. Em alguns lugares colocavam-se correntes a atravessar as ruas - o que era especialmente oportuno nos bairros de má fama, para dificultar a fuga dos malandros. Só permaneciam acesas as lamparinas que dia e noite pestanejavam diante dos crucifixos ou das estatuetas da Virgem e dos Santos em seu nicho nas esquinas das ruas. Os viajantes retardatários só tinham o direito de circular munidos de uma tocha.

As casas costumavam ter paredes grossas, que as defendiam contra o frio, o calor e os ruídos importunos.

2.2. O interior da casa

O elemento essencial da casa medieval é a sala. Nesta se reúne toda a família nas horas das refeições e também à noite, ao calor da grande chami­né, para se aquecer, contando histórias antes que as pessoas fossem dormir. Isto se dava tanto nas casas dos camponeses como nos castelos. As outras peças da residência tinham caráter relativamente secundário. A cozinha costumava ter seu recinto próprio; por vezes nos castelos ocupava um edifício à parte, sem dúvida para limitar os riscos de um incêndio.

Em muitas casas havia também as oficinas de trabalho. Os quartos de dormir tinham adjacentes as privadas, longaignes ou retretes. A delicadeza ia muito longe neste aspecto, pois a norma mandava que, ao menos nas casas de pequenos proprietários, cada pessoa tivesse a sua retirada própria e fosse a única a usá-la. Os costumes só se tornaram grosseiros neste ponto a partir do século XVI, que, aliás, acarretou o desprezo de quase todas as práticas de higiene que a Idade Média cultivava. A Abadia de Cluny, no século XI, não contava menos de quarenta latrinas. Existiam também as latrinas públicas; a sua instalação e manutenção era objeto de deliberações municipais e entrava nas contas da cidade. Nas casas particulares as retrates situavam-se no último andar geralmente; um cano, ao longo da escada, levava aos vazadou­ros ou ainda a fossas muito semelhantes às usadas atualmente; utilizavam-se cinzas de madeira, que têm a propriedade de decompor os detritos orgâni­cos; encontramos a menção de compra de cinzas destinadas às latrinas do hospital de Nimes no século XV.

Os quartos eram mobiliados com mais conforto do que geralmente se pensa. O mobiliário compreendia camas bem adornadas e cobertas, colchas e tapetes, com lençóis brancos e peles, os tamboretes, as cadeiras de espal­dar alto e os baús ou cofres esculpidos, onde se guardava a roupa. As madei­ras da época eram muito belas; preparadas e enceradas devidamente. não ab­sorviam a poeira nem atraiam insetos. Havia também arcas (ou armários) pa­ra o pão e guarda-louças. Quanto às mesas, eram simplesmente tábuas que se montavam sobre cavaletes no momento de servir e que se guardavam, a se­guir, junto às paredes para não estorvarem. Fazia-se muito uso de pano e ta­peçarias, que protegiam do frio e cortavam as correntezas, Falando dos cui­dados vários de uma dona de casa, o Ménagier de Paris recomenda a Agnes, que tem o papel de supervisora: “Ordene às serviçais que, logo de manhãzi­nha cedo, as entradas da casa, a saber, a sala e os outros locais por onde as pessoas entram e se detêm em casa para conversar, sejam varridas e conservadas limpas, e os escabelos (tamboretes), bancos e xaireis [3], que estão sobre as arcas, sacudidos e limpos do pó; e subseqüentemente os outros quartos lim­pos e ordenados para esse dia, e de dia para dia”. Talvez cause espanto ler que nos inventários da época é mencionado o tapete de banheira, que se co­locava no fundo das banheiras, para evitar as farpas quando o fundo era de madeira. Na verdade, a Idade Média, contrariamente ao que se julga, conhecia os banhos e fazia largo uso deles. Mais uma vez: foi o século XVI que rompeu a tradição medieval neste particular. A Idade Média foi uma época de higiene e limpeza.

As leis da hospitalidade mandavam que se oferecesse um banho aos convidados que chegavam de longa viagem. Era hábito corrente lavar os pés e as mãos quando se entrava em casa.

Existiam também casas de banhos destinadas ao publico que eram muito freqüentadas. Esses banhos podiam ser aquecidos por meio de artifícios e de condutos subterrâneos como se fazia na antiga Roma. Todas as manhãs os proprietários dos banhos mandavam apregoar pela cidade: “Ouvi o pregão matinal:/ Senhores banhai-vos/ E lavai-vos sem delongas:/ Os banhos estão quentes, e é sem mentir” (Guillaume de Villeneuve. Crieries de Paris). Alguns exageravam de modo que o Livre des Métiers de Etienne Boileau prescreve: “Que ninguém apregoe ou mande apregoar os seus banhos antes que o dia amanheça”.

2.3. O trabalho e os seus instrumentos

Os instrumentos de trabalho eram, na Idade Média, mais ou menos os mesmos de que se serviram os homens até o século XIX, antes da motorização da agricultura.

Ao contrário do que se pensa, o carro de mão já existia na Idade Mé­dia, semelhante àquele de que nos servimos atualmente, Existem manuscri­tos do século XIV cujas iluminuras mostram trabalhadores transportando pedras ou tijolos em carros de mão.

Devem-se várias invenções à Idade Média, as quais tiveram ampla re­percussão nas épocas subseqüentes.

Seja mencionada, entre outras, a albarda do cavalo[4]. Até então a atrel­agem concentrava todo o esforço sobre o peito do animal, de modo que, se a carga fosse muito pesada, corria o risco de sufocação. No século X, porém, os lavradores começaram a atrelar as bestas de carga de modo que o corpo inteiro é que suportava o peso e os esforços exigidos. Esta inovação devia modificar profundamente a vida social; com efeito, a tração humana havia sido até então mais importante do que o tração animal. Doravante, porém, foi possível inverter a ordem - o que tornou possível pensar mais seriamen­te na abolição da escravatura (ligada às condições econômicas da antigüidade). A Igreja vinha lutando para que o servo fosse reconhecido como pessoa humana dotado de todos os seus direitos; a sua voz pôde ressoar com mais probabilidade de êxito depois que cavalos e burros assumiram o seu lugar no transporte de cargas.

Algo de semelhante se deu quando na Idade Média se inventou o moi­nho: moinho hidráulico e, depois, moinho a vento... Esta máquina substi­tuiu a imagem do escravo atrelado à mó.

Os medievais conseguiram também fazer que uma viatura pudesse girar sobre si própria, tendo as duas rodas da frente independentes das rodas de trás. Este progresso acabou com os problemas que ocorriam quando um grande veículo carregado de cereais devia virar na estrada.

Mencionem-se ainda as descobertas da bússola e da barra do leme, não menos importantes na história da humanidade. Os progressos da navegação foram assim decuplicados - o que explica, pelo menos em parte, a intensa movimentação marítima do século XIII.

A duração da jornada de trabalho variava segundo as estações. Era o si­no da paróquia ou do mosteiro vizinho que chamava o artesão à oficina e o camponês aos campos. As pessoas deitavam-se e levantavam-se, em princí­pio, ao mesmo tempo que o sol: no inverno, o trabalho começava por volta das oito ou nove horas, para terminar às cinco ou seis; no verão, porém, a jornada tinha inicio às cinco ou seis da manhã para só terminar às sete ou oito da noite. Consideradas as duas pausas para refeições, a jornada durava oito ou nove horas no inverno, e doze, treze ou quinze no verão. Registra­vam-se, porém, numerosas interrupções no calendário de trabalho, isto é, cerca de noventa dias anuais de feriado completo e setenta ou mais dias de feriados parciais. O calendário litúrgico regulava o ano inteiro; era pelas suas datas, e não pelos dias do mês, que se designava o tempo: assim falava-se do “dia de Santo André”, e não de 30 de novembro; dizia-se “três dias após São Marcos”, de preferência a 28 de abril.

A organização dos lazeres era de base religiosa: todo dia de festa começava pelas cerimônias de culto; estas prolongavam-se em espetáculos, que apresentavam cenas da vida de Cristo ou dos Santos. Havia também o teatro inspirado por romances e crônicas. Depois do espetáculo, o divertimento mais apreciado era a dança: dança dos donzeis nos castelos, ronda em torno da árvore de maio ou ao redor da fogueira de São João... Havia os jogos do interior da casa, entre os quais era preferido o de xadrez, a respeito do qual encontraram-se tratados manuscritos em bibliotecas medievais.

Muitos outros dados poderiam ser colhidos no livro de Régine Per­noud. São importantes porque põem em relevo a verdade sobre uma fase da história indevidamente tida como obscurantista. Não nos podendo alongar sobre o assunto, citaremos apenas ainda as considerações finais de R. Per­noud:

“A época das grandes descobertas é a Idade Média; foi então que se aclimataram na nossa terra os frutos bizarros e magníficos: a laranja, o li­mão, a romã, o pêssego e o alperce; foi graças aos cruzados que a Europa co­nheceu o arroz, o algodão, a cana de açúcar, que aprendeu a servir-se da bús­sola, a fabricar o papel, e também, infelizmente, a pólvora dos canhões; ao mesmo tempo implantavam na Síria as nossas indústrias; vidraria, tecelagem, tinturaria; os nossos mercadores exploravam o continente africano, um ar­quiteto europeu construía a grande mesquita de Tombuctu, e os etíopes fa­ziam apelo aos nossos artífices de arte, pintores, cinzeladores, carpinteiros. Viu-se na Idade Média um pacífico burguês de Tolosa, Anselme Ysalguier, trazer para a sua cidade a princesa negra que havia desposado em Gao, ao mesmo tempo que um médico vindo das margens do Niger, ao qual recorria o delfim, o futuro Carlos VII. Residência e peregrinação, realismo e fantasia, tais são os dois pólos da vida medieval, entre os quais o homem evolui sem o menor incômodo, unindo um e outro e passando de um ao outro com uma facilidade que não voltou a recuperar desde então.

Do conjunto sobressai uma confiança na vida, uma alegria de viver de que não encontramos equivalente em mais nenhuma civilização. Essa espécie de fatalidade que pesa sobre o mundo antigo, esse teor do Destino, deus implacável ao qual os próprios deuses estão submetidos, o mundo medieval ig­norou-a totalmente” (pp. 202s).

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NOTAS:
[1] Publicações Europa-América, Mem Martins, Portugal.
[2] O pelourinho era uma coluna de pedra ou madeira em praça pública, junto da qual eram expostos e castigados os criminosos.
[3] O xariel era uma cobertura de tecido ou de couro.
[4] Albarda é a sela grosseira, enchumaçada de palha para bestas de carga.

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