terça-feira, 19 de junho de 2007

Fé: a fé é algo razoável?, se é razoável, por que tanta gente não crê?, como se pode chegar a ter fé?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 146/1972)

Em síntese: A fé não é algo de irracional ou absurdo; não pode ser tida como um desafio à razão humana.

Fé também não é experiência religiosa cega que cada homem possa fazer em seu íntimo, experiência subjetiva que dispense sinais objetivos capazes de caracterizá-la e manifestá-la.

A fé, ao contrário, tem algo de racional. Ela interpela, antes do mais, a razão humana. Com efeito, a fé está assentada sobre fatos históricos que a razão pode investigar mediante métodos científicos. A inteligência assim verifica os "porquês" da fé e chega à conclusão de que é razoável crer. Diz S. Tomás: "Eu não acreditaria se não visse que devo acreditar".

Todavia o objeto da fé é transcendental; trata-se de verdades evidentes para Deus. mas inevidentes para nós. Por isto o ato mesmo de fé ("creio") é proferido pela inteligência movida pela vontade.

Além da ação da inteligência e da vontade do homem, requer-se o influxo da graça de Deus para que a criatura faça uma profissão de fé.

Ora há obstáculos que entravam a ação da inteligência, da vontade e da graça de Deus. É o que explica que muitos homens não cheguem a crer. Eis os obstáculos:

No que concerne à razão: há homens que não crêem ou porque não raciocinam sobre o problema religioso, ou porque raciocinam superficialmente, ou porque raciocinam mal (na base de preconceitos ou de noções falhas, se não errôneas e caricaturadas).

No que concerne à vontade: muitos não crêem ou porque não querem assumir as conseqüências práticas (mudança de vida) de uma profissão de fé, ou porque não os atrai a incoerência de vida daqueles que dizem ter fé.

No que concerne à graça de Deus: é certo que Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cf. 1 Tim 2,4). Por isto Deus fala a todos mediante a voz da cons­ciência. Mas Deus quer falar aos homens também pela pregação do Evangelho na hora e nas circunstâncias que Ele, em sua sabedoria, determina. Ora a pregação do Evangelho foi confiada aos cristãos. Por isto, os discípulos de Cristo deverão empenhar-se zelosamente para que todos os homens cheguem ao conhecimento da Boa-Nova: cada cristão proceda como se a fé dos seus semelhantes dependesse do testemunho pessoal de cada discípulo de Cristo.

***

Comentário: O problema do ateísmo de nossos dias tem sido repetidamente abordado em PR; cf. 92/1967, pp. 321-333; 97/1968, pp. 28-35; 107/1968, pp. 449-458; 109/1969, pp. 1-15. O presente artigo tem em vista a maneira como alguém possa chegar à fé. São muitas as pessoas inteligentes e ho­nestas que desejariam aceitar Deus e a sua Palavra, mas não vêem como chegar a isto. São muitos também aqueles que podem ou desejam ajudar tais pessoas a chegar à fé.

1 . Os caminhos que levam à fé

1. Observando a história dos homens, verifica-se que sempre foram muito variadas e numerosas as vias que con­duziram e conduzem à fé. A análise das grandes conversões o prova com clareza: alguns chegaram à fé através da dor; outros, mediante a arte; mais outros, pelo testemunho de vida de um cristão convicto; outros mais, pela verificação da insuficiência humana ou ainda mediante a leitura do Evangelho e o fascínio exercido pela personalidade de Cristo.

Estas e outras muitas vias são caminhos pessoais ou subjetivos de acesso à fé. Todavia a quem peça que se lhe indique a via objetiva para chegar à fé, não se pode propor um caminho que dependa de situações particulares e da sensibilidade subjetiva desta ou daquela pessoa: "Tente a prova da dor... Dedique-se à arte... Espere uma emoção mística ou peça uma visão sobrenatural." Ao invés, é preciso que a tal pessoa se proponha um itinerário capaz de valer para todos os homens, itinerário válido em si, inde­pendentemente destas ou daquelas circunstâncias (emotividade, interesses culturais, aptidões intelectuais...) em que se ache a pessoa interessada.

Ora esse itinerário válido para todos começa necessariamente pelo raciocínio ou pelo em­prego da razão.

2. O papel da razão diante do problema religioso é (fora casos excepcionais) de capital importância...

... De capital importância para aqueles que não têm fé, como acaba de ser insinuado. Muitas pessoas não têm fé simplesmente porque nunca tiveram uma apresentação autêntica da mensagem da fé; só conhecem Deus e os valores religiosos através de referências pálidas ou falhas ou mesmo através de exposições caricaturadas ou histórias de impor­tância secundária... Se conhecessem melhor a mensagem da fé, prestar-lhe-iam a sua adesão.

... De capital importância também para aqueles que já têm fé. O raciocínio fornece a justificação ou os "porquês" da fé; a inteligência, que não cessa de propor problemas a si mesma, exige que todo indivíduo raciocine sobre a fé. Mais ainda: a vida moderna, sugerindo objeções e dúvidas sobre a religião, impõe ao homem de fé que reflita sobre essas difi­culdades para poder responder a si mesmo e também às numerosas pessoas que lhe ocorrem com suas questões reli­giosas. A estas pessoas não se pode satisfazer apresentando emoções e experiências subjetivas; é necessário aduzir provas racionais e documentos históricos.

Eis a oportuna observação do teólogo alemão Lang:

"Todo homem tem o direito e o dever de examinar se a propalada pretensão de Cristianismo de que há uma religião revelada, é plena­mente justificada diante da ciência e da consciência. Uma fé que fosse apenas risco cego, seria fé destituída de seriedade, aventura indigna e irresponsável".

2. Fé será conclusão de raciocínio?

As afirmações acima não significam que a fé se reduza a conclusões da lógica e do estudo. Não; a razão prepara a fé, mas não a produz; o exame crítico da religião dispõe para a fé, mas não a impõe. A razão dá a ver a conveniência lógica e moral de crer, mas não obriga a crer. Após todos os estudos teológicos que empreenda, a inteligência humana permanece sempre livre para aceitar ou não as proposições da fé.

E por quê?

- Podemos afirmar uma verdade

ou por causa da evidência mesma dessa verdade,

ou porque é um fato de que somos testemunhas ime­diatas,

ou porque é um fato que outros nos atestam de ma­neira digna de crédito.

Nos dois primeiros casos, a inteligência (excetuadas si­tuações de anormalidade psíquica) não é livre para aceitar ou não; ela vê claramente a verdade e não a pode negar; assim a proposição 2 + 2 = 4 se impõe necessariamente (o mesmo se diga da sentença : "O todo é maior do que qualquer das suas partes" ou ainda do teorema : "A soma dos ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos").

O mesmo não se dá quando chegamos ao conhecimento de uma verdade unicamente mediante o testemunho de outrem. Essa verdade fica sendo velada em si mesma. Tal é o caso dos acontecimentos históricos do passado; não os presenciamos; aceitamo-los porque outros homens no-los comunicaram mediante suas palavras ou seus escritos. Antes que aceitemos tais acontecimentos, precisamos de aceitar um conjunto de outras coisas: a honestidade de quem atesta, a fidelidade do seu testemunho, a exclusão de interferências estranhas, etc.

Ora algo de semelhante se dá com as verdades da fé. Elas estão associadas a acontecimentos remotos (a vida e a pregação de Cristo, por exemplo) que recebemos por teste­munho de outros homens (profetas, apóstolos, evangelis­tas...) . Além disto, o conteúdo mesmo das proposições da fé ultrapassa (embora não contrarie) a capacidade da nossa inteligência; não é evidente por si. Assim, por exemplo, podem-se apresentar vários argumentos que provem a Divin­dade de Cristo; mas a conclusão de que uma pessoa seja verdadeiro homem e verdadeiro Deus, permanece para sempre incompreensível à razão humana. A inteligência não é obri­gada a aceitar tal proposição como se fosse evidente por si (a evidência da proposição 2 + 2 = 4 é tal que a inteligência é obrigada a professá-la, ainda que isto lhe traga conseqüên­cias penosas).

Como então a inteligência dirá o seu Sim às verdades da fé?

Para que diga o seu "Sim; creio", requer-se que a vontade intervenha e a mova. Por conseguinte, nós só cremos se, além da nossa inteligência, a nossa vontade se empenhe (ao passo que dizemos "dois mais dois são quatro", ainda que nossa vontade se rebele contra tal realidade).

Ademais é preciso notar que um terceiro elemento - a graça de Deus - deve entrar em ação para que alguém possa ter fé. Na verdade, a fé é um dom de Deus, é algo de sobre­natural; não é mero resultante do trabalho humano. Esta proposição, à primeira vista, talvez desconcerte, porque parece implicar que de nada servem os esforços humanos. Não seja esta a conclusão; Deus a ninguém se subtrai. As dúvidas a respeito serão dissipadas mais à frente, quando voltarmos a falar deste terceiro elemento.

Por ora interessa fixar com a máxima clareza possível o papel da razão na preparação e na profissão da fé.

3. O papel da razão diante da

1. Nem todos os homens religiosos concordam em atri­buir à razão uma função própria na profissão da fé.

a) Houve, na história, correntes de pensamento que apresentaram a fé como um risco, um belo risco, ou um desafio para a razão. Já Tertuliano ( após 220), em sua dialética, dizia : "Creio porque é absurdo (Credo quia absurdum)". Não se poderia julgar que, quanto mais dada ao absurdo e desconcertante, tanto mais a fé é fé?

A esta questão é preciso responder negativamente. A não é um jogo aleatório, é o que de mais firme possa haver na vida de um homem. A fé é uma certeza que se deriva do fato de que Deus, a Verdade mesma, se dirige ao homem para responder às interrogações de sua inteligência e de seu coração.

b) Há também quem diga que a fé se identifica sim­plesmente com a experiência religiosa que cada um faz em sua vida particular; é um encontro estritamente pessoal e íntimo entre Deus e a alma ou um fenômeno meramente subjetivo. Por isto a fé não precisa nem de provas nem de justificativas; a fé também dispensa fórmulas fixas que a manifestem; ela se exterioriza quando e como o julga oportuno o respectivo sujeito.

Verifica-se, porém, que tal teoria reduz a fé a mero fenô­meno psicológico, destituído de características objetivas; seria um fato meramente humano natural, e não um encontro real com Deus. Se tudo na fé é subjetivo, facilmente se pode concluir que também Deus, sua palavra e sua vontade, são fenômenos subjetivos e meros estados de alma ou efeitos psicológicos. A religião se reduz então a sentimento e emoção apenas.

c) Na verdade, a Revelação cristã não é algo de mera­mente subjetivo, mas, sim um dado objetivo, histórico e historicamente documentado: Deus falou aos homens no decorrer dos séculos e lhes propôs os seus desígnios de amor. Por conseguinte, compete aos estudiosos da história investigar esses acontecimentos, e assim pôr em clara luz os fundamentos da fé cristã.

Não se pode negar que a fé e a Religião satisfazem às mais espontâneas exigências da natureza humana; falam viva­mente aos sentimentos e à emoção. Isto, porém, não quer dizer que se deva excluir da religião o papel da inteligência; entre as mais genuínas exigências da natureza humana, está, sem dúvida, a de nos darmos conta do nosso próprio Credo, a de investigarmos criticamente se a nossa fé corresponde a uma realidade objetiva ou se não passa de piedosa ilusão. Por isto se diz que "procurar justificar racionalmente a sua fé" é direito e dever de todo homem.

2. Em outros termos: o homem precisa de dados cien­tificamente certos que motivem a sua profissão de fé. Embora as verdades reveladas por Deus ultrapassem o entendimento do homem, existem razões que as tornam dignas de crédito. Os dados da Revelação exigem fé, mas a razão humana exige saibamos por que lhes prestamos fé. S. Tomás de Aquino repete em seus escritos :

"Eu não acreditaria se não visse que devo acreditar". E é com a inteligência que vemos e pon­deramos as garantias que a fé apresenta em seu favor.

Por exemplo, para crer na Divindade de Cristo, devo ter provas. A prova decisiva não é o fascínio pessoal de Jesus: outros homens também foram fascinantes, e é por vezes di­fícil estabelecer uma graduação entre mestres e heróis fas­cinantes. A prova decisiva também não é a satisfação que experimento por ser seguidor de Cristo: pode haver muitos homens que sintam profunda satisfação por seguir Buda, Lao-tsê, Confúcio, Maomé... A prova decisiva da Divindade de Cristo é a ressurreição corporal de Jesus Cristo; esta é algo de objetivo; pode ser (e tem sido sobejamente) estudada por historiadores e críticos; os testemunhos que a abonam, são tais que constituem sólido fundamento para que a inte­ligência diga um "Sim" consciente e lúcido. Cf. PR 112/1969, pp. 148-159.

3. O sentimento religioso merece apreço, mas não deve ser superestimado. Não é o constitutivo do ato de fé, mas apenas estímulo para que o homem procure ter fé e a pratique.

4. Em suma, crer não é raciocinar

nem sentir

nem emocionar-se

nem exaltar-se.

Crer é estar convicto; mas é mediante o raciocínio e a pesquisa que nos tornamos convictos.

5. Eis as principais questões que alguém pode precisar de abordar antes de aderir às proposições da fé:

Deus existe realmente? Como se poderia ter certeza ra­cional da sua existência?

Jesus Cristo é figura histórica ou mítica? Foi mero homem ou Deus e homem?

Os Evangelhos merecem crédito? Transmitem fielmente a vida e a mensagem de Cristo?

A Igreja Católica continua autenticamente a obra de Cristo, ministrando de maneira íntegra a salvação apregoada por Jesus Cristo?

Estes temas são estudados a fundo em bibliografia espe­cializada (parcialmente indicada no fim deste artigo), assim como em palestras e cursos ministrados em escolas ou insti­tuições de formação religiosa.

É preciso agora considerar

4. Os obstáculos à fé

Como foi dito atrás, três são os elementos que concorrem para que o homem chegue à fé: a razão, a vontade livre e a graça de Deus. Na verdade, a razão diz "Sim" às propo­sições reveladas impelida pela livre vontade, sob a ação da graça de Deus. Nenhum destes três elementos pode estar au­sente à origem da fé, mas nenhum é suficiente por si só.

Ora motivos diversos podem entravar a ação da inteli­gência, da vontade ou da graça de Deus - o que explica que muitos homens não cheguem a crer.

Vejamos, pois, quais os obstáculos que se opõem ao acesso do homem à fé.

4. 1. Da parte da razão

a) Há pessoas que não crêem porque não raciocinam sobre o problema religioso. E não raciocinam, porque ou não dão importância ao assunto ou nunca tiveram instrução religiosa propriamente dita... ninguém lhes deu a ver os valores religiosos, colo­cando-as em presença da autêntica mensagem cristã.

b) Outros há que não crêem, porque raciocinam super­ficialmente. Não refletem, não encontram tempo para me­ditar, absorvidos que estão pelo tumulto das preocupações da

vida. As vezes são seduzidos por valores transitórios (posses, prestígio, poderio, partido político, cultural...) que, para eles, se podem tornar autênticos ídolos "religiosamente" cultuados.

c) Por fim, há também os que não crêem, porque racio­cinam mal ou erradamente. E raciocinam mal ou por causa da educação que receberam, ou por motivo de preconceitos disseminados na família, na escola, no ambiente de trabalho, na imprensa... Uns têm a religião na conta de entrave da liberdade, da ciên­cia e do progresso... Outros pedem demonstrações matemá­ticas, quando a índole do assunto só permite que se lhes apresentem razões de ordem moral...

Em suma, pode-se dizer que, quando a inteligência não funciona devidamente, a religião, longe de progredir, só tem a recear menosprezo ou mesmo impugnação.

Abaixo vão citados alguns testemunhos de grandes vultos da humanidade que atestam quanto a deficiência de conhe­cimentos religiosos é nociva ao homem:

Guerra Junqueiro (1850-1923), famoso literato em seu tempo, escreveu acerba crítica ao catolicismo intitulada "A Velhice do Padre Eterno". Eis, porém, que a respeito dessa obra o próprio autor assim se pronunciou em suas "Prosas dispersas" publicadas em 1921:

"Eu tenho sido, devo declará-lo, muito injusto com a Igreja. ‘A Velhice do Padre Eterno’ é um livro da mocidade. Não o escreveria já aos quarenta anos. Animou-o e ditou-o o meu espírito cristão, mas cheio ainda de um racionalismo desvairador, um racionalismo de ignorância estreita e superficial. Contendo belas coisas, é um livro mau e muitas vezes abominável" (p. 12).

Depois de notar como quase todos os grandes vultos da literatura portuguesa no século passado (Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Antero de Figueiredo, Oliveira Martins) com o passar dos anos foram voltando ao Cristianismo, que hostilizaram nos anos de sua juventude, o mesmo Guerra Junqueiro (que seguiu semelhante itinerário) con­cluiu: "É preciso dar volta à vida para compreendermos bem" ("Prometeu libertado", pp. 28-32). - "Compreender bem" aqui tem em mira a Religião.

O caso de Rui Barbosa (1849-1923) também é significativo. Exi­lado na Inglaterra, o sábio, incrédulo como era, teve a ocasião de ler o livro de A. Balfour sobre as bases da fé ("The Foundations of Belief"). A leitura sugeriu-lhe a seguinte observação:

"Ele responde como uma forte voz interior à situação atual do meu espírito" (Cartas da Inglaterra. São Paulo 1929, p. 212).

Muitas das objeções anti-religiosas de Rui assim foram-se dissi­pando para dar lugar a novo modo de considerar a fé, como confessa o próprio escritor:

"As superficialidades da crítica vulgar acharão naquele trecho muito ante que baixar os olhos. Sente-se ali a que ponto a onda invisível das tradições sagradas permeia os interesses humanos, e admira-se a atualidade eterna das soluções religiosas por entre o variar infinito dos tempos, das coisas, dos sistemas" (ob. cit., p. 206).

A religião ficou sendo, para Rui Barbosa, o valor primordial do povo inglês:

"Pelo senso religioso, ele (o povo inglês) fez o seu caráter. É a condição fundamental, onde se habilitou a possuir o mundo. É a pri­meira fase e a contribuição mais importante para o seu sistema orgâ­nico, como a célula nervosa no animal" (ob. cit., p. 169).

De então por diante, Rui Barbosa mais e mais se foi aproximando da verdade religiosa.

Paul Claudel (1868-1955) aos 18 anos terminava seus estudos no Liceu "Louis-le-Grand". Então admirava Renan, e professava o culto exclusivo da ciência. Ele mesmo descreveu o seu estado de alma na­quela fase de vida:

"Evoquem-se estes anos tristes de 80, a época do pleno desabro­char da literatura naturalista. Nunca pareceu mais firme o domínio da matéria. Os grandes nomes na arte, na ciência, na literatura eram todos irreligiosos... Renan imperava. Foi ele quem presidiu a última distribuição de prêmios do Liceu `Louis-le-Grand', à qual eu assisti e creio que fui coroado por suas mãos ... Vivia então na imoralidade, e pouco a pouco caí num estado de desespero ... Esquecera completa­mente a religião; a respeito desta, a minha ignorância era a de um selvagem" (cf. J. Calvet, "Le renouveau catholique dans la littérature contemporaine". Paris 1927, p. 189).

Claudel teve mais tarde a felicidade de melhor conhecer a religião e tornar-se um de seus grandes arautos.

Pode-se citar também o testemunho de S. Agostinho ( 430). Em sua procura de verdade, aderiu ao maniqueísmo e repetiu as acusações que este inspirava contra a Igreja Católica. Mais tarde, tendo-se aproxi­mado do Catolicismo, confessou:

"Confundia-me, convertia-me e alegrava-me, meu Deus, porque a vossa única Igreja, corpo do vosso único Filho, onde, sendo eu menino, puseram sobre mim o nome de Cristo, não tinha ressaibo daquelas fábulas pueris... Começava a parecer-me que se podia defender o que Ela dizia... A fé católica assim me parecia não vencida, ainda que não de todo me parecesse vencedora" ("Confissões" 1. V, c. 4 e 14).

Estes poucos depoimentos bastam para ilustrar o papel altamente valioso do estudo e do reto raciocínio frente à Religião.

Passemos agora aos obstáculos à fé provenientes

4.2. Da parte da vontade

Há pessoas que não crêem não porque ignorem as ver­dades da fé ou tenham contra elas alguma objeção razoável, mas porque simplesmente não querem crer. E não querem crer

a) ou por motivos de ordem moral: abraçar a fé impli­caria para essas pessoas mudança de vida, combate à paixão, à soberba ou ao vício... Ora a vontade apegada ao desmando não pode mover a inteligência a dizer o seu "Sim" às verdades da fé.

b) ... ou por desilusão causada pelo comportamento incoerente dos que dizem ter fé. Muitos talvez não se queiram aproximar da religião por considerarem o contra-testemunho dos que crêem. Na verdade, o Concílio do Vaticano II apon­tava, entre as causas do ateísmo moderno, o comportamento contraditório de cristãos inconscientes de suas responsabili­dades (Cf. Const. "Gaudium et Spes" n.º 19).

A respeito de obstáculos de índole moral, vão abaixo con­signados alguns depoimentos significativos:

O orgulho obceca o homem e impede-o de ver os sinais de Deus... Marcelin Berthelot (1827-1907), um dos grandes químicos de sua época, era ateu. Escreveu o seguinte:

"Para que a ciência não se fragmente em especialidades, é mister que haja pelo menos um cérebro capaz de abraçá-la no seu conjunto. Esse cérebro, creio ter sido eu; receio ser o derradeiro" (referido por Paul Pinlevé, "Le Temps" 20/3/1907).

Estas palavras, que dispensam qualquer comentário, provinham da mesma mente que professava o ateísmo.

E. Renan (1823-1892), um dos grandes adversários do Cristianismo no século passado, não hesitava dizer:

"Este (o homem que pensa) é o próprio Júpiter Olímpico, que julga tudo e por ninguém é julgado" ("Souvenirs d'enfance et de jeunesse". Paris 1925, p. 409).

"Fui o único, em meu século, que pôde compreender Jesus e Francisco de Assis" (ob. cit., p. 130).

"Tudo ponderado, se eu tivesse de recomeçar a minha vida, com o direito de a corrigir, eu nada mudaria nela" (ob. cit., p. 320).

Os vícios da carne são outra grande fonte de obscureci­mento da inteligência frente a Deus. É o que atesta o histo­riador e apologista francês Louis Baunard:

"Posso testemunhar que, muitas vezes, tive ocasião de descer bem fundo, em mais de uma dessas doutas inteligências corroídas e devas­tadas pela teofobia. Procurei nelas onde se alojava o micróbio do ateísmo. Não foi na cabeça, no cérebro, que o encontrei; foi na

cons­ciência, no coração, nos sentidos; lá estava ele" ("Le vieillard". Paris 1916, p. 83).

Paul Bourget ( 1935) observava muito sabiamente: "Quem não vive como pensa, acaba por pensar como vive."

São palavras do filósofo alemão hegeliano Fichte (1726­-1814):

"Se minha vontade é reta, se ela tende constantemente para o bem, a verdade se revelará sem dúvida à minha inteligência. Eu sei que não pertence só ao pensamento produzir a verdade" ("Destination de l'homme", p. 132).

E o mesmo pensador quem escreve:

"Nosso sistema filosófico muitas vezes não é senão a história do nosso coração" (citado por Baunard, "Le doute et ses victimes". Paris 1891, p. 339).

São de S. Teresa de Avila ( 1582) estas palavras tão simples quanto profundas:

"A coisa mais razoável do mundo parece-nos loucura, quando não temos vontade de faze-la" ("As Fundações" c. 5).

Malebranche ( 1715), em suas "Meditações cristãs", apresenta as seguintes considerações sábias e piedosas:

"Aprende hoje, diz o Verbo Divino, que eu não sou somente a verdade eterna, mas também a ordem imutável e necessária; como verdade, ilumino os que me consultam para se tornar mais sábios; como ordem, regulo os que me seguem para se tornar mais perfei­tos... Não me consultem só como verdade, mas também como ordem, e eu disciplinarei o teu amor, comunicar-te-ei a vida, dar-te-ei a força de vencer tuas paixões e te farei partícipe de minha glória e de minha bem-aventurança por toda a eternidade. Mas, se só me con­sultares como verdade, passarás por sábio na estima dos que vivem nas trevas. Mas, por fim, cansar-me-ei de tuas importunidades, aban­donar-te-ei a ti mesmo; serás escravo de tuas paixões durante a tua vida, e vítima de minha justiça durante a eternidade" (“Méditations chrétiennes", III Med.).

O grande apologista católico Ollé-Laprune ( 1898) es­creveu belas páginas sobre a certeza da fé, das quais vai aqui extraído o seguinte trecho:

"As coisas morais, as coisas divinas escapam aos que não as vivem nem as querem viver. O desprezo ou a negligência torna incompe­tente. A boa vontade não constitui a fé, mas a prepara; não faz nascer a luz, mas dispõe o espírito para vê-la. Não chegamos a crer as coisas porque desejamos que sejam; chegamos a ver que são na realidade, porque desejamos, custe o que custar, ver, não o que agrada, mas o que é" ("La certitude morale". Paris 1928, p. 413s).

Na verdade, as disposições do indivíduo têm enorme importância na atitude que tomará frente às verdades da fé. Nunca se poderá incutir demais que o amor sincero à ver­dade, colocado antes e acima de tudo, é a melhor preparação para o ato de fé.

Resta considerar o terceiro elemento necessário para que alguém chegue a crer:

4.3. A graça de Deus

É certo que Deus quer que todos os homens cheguem ao conhecimento da verdade e se salvem (cf. 1 Tim 2,4). Por isto Deus não deixa de falar a todo homem ao menos pela voz da consciência; esta, inata como é, vem a ser o reflexo da voz do Criador; os que nunca ouviram a pregação do Evangelho, mas seguem fielmente os ditames da consciência em plena boa fé, salvam-se, como já foi dito em PR 97/1968, pp. 28-35: embora a salvação seja sempre dada por mediação de Cristo e da Igreja, ela se estende a todos os que, sustentados pela graça de Deus, vivam de boa fé fora da Igreja visível.

Deus, porém, quer revelar-se aos homens também me­diante a pregação do Evangelho. Tendo o Pai enviado seu Filho à terra para anunciar a Boa-Nova, é para desejar que todos os homens cheguem ao conhecimento do Evangelho.

Todavia a adesão de todos os homens ao Evangelho não se dá

a) em parte, porque nem todos foram evangelizados. Tal é o caso de numerosos adeptos de crenças errôneas e de muitos ateus que nunca ouviram clara apresentação do Evangelho. O Senhor, em sua sabedoria, quis que a Palavra de Deus seja transmitida aos homens mediante o ministério dos homens mesmos. Ele dispôs, por isto, que uns chegariam à fé mediante o zelo apostólico de outros.

Consciente disto, cada fiel católico está obrigado a se empenhar pela difusão da Palavra de Deus ou das verdades da fé; cada um proceda como se a salvação de muitos depen­desse estritamente de seu testemunho pessoal. Consequentemente procure ser portador da fé para os homens com quem convive, ou (caso tenha de Deus a vocação especial) para os que vivem em terras pagãs.

Não é lícito a um fiel católico permitir que esse zelo apostólico esmoreça sob pretexto de que também pode haver salvação para aqueles que de boa fé professam o erro reli­gioso. O caso de tais homens foge aos trâmites comuns da salvação. Jesus mandou pregar a todos os povos até os confins da terra (cf. Mt 28, 19s). Ademais não é normal que os homens, feitos naturalmente para a verdade, permaneçam no erro religioso (que, objetivamente falando, é o mais grave de todos) por inércia ou incúria daqueles a quem Deus con­fiou gratuitamente o depósito da fé; tal incúria poderia ser severamente julgada pelo Juiz Eterno. Persiste, portanto, para todo católico o grave dever de contribuir para que os homens que não crêem por falta de evangelização, cheguem quanto antes à fé.

b) Há também os que não crêem porque ainda não chegou a hora em que Deus lhes quer dar a sua graça. São Paulo, Santa Maria Madalena, S. Agostinho, S. Norberto, S. Inácio de Loiola e outros muitos só receberam o dom da con­versão em idade adulta, após várias peripécias. Deus o per­mitiu por motivos que não podemos estritamente assinalar, mas muito provavelmente para que valorizassem mais ainda o dom da fé e a misericórdia do Salvador (tornaram-se consequentemente grandes santos).

Sabe-se também que muitos só recebem a graça eficaz da conversão na hora da morte, como o ladrão arrependido de que fala o Evangelho (cf. Le 23,43). Ao fiel católico compete respeitar e adorar os sábios desígnios de Deus assim manifestados; é certo que o Senhor a ninguém faz injustiça, mas a cada um destina os dons de sua misericórdia em circuns­tâncias que só Ele sabe avaliar.

É através de tais considerações, delicadas e profundas, que se pode elucidar como a fé cristã tem algo de racional e, não obstante, nem todos os homens a ela chegam.

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