sexta-feira, 15 de junho de 2007

Deus: morte de Deus

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 111/1969)


«Que significa a expressão tão usual nos últimos tempos: ‘Deus morreu!’? Até mesmo cristãos a empregam.

Propõe-se também uma ‘Teologia da morte de Deus’.

Que se entende por tais dizeres?»

Resumo da resposta: A expressão ‘Deus morreu!’ pode tomar três acepções diversas:

1) Segundo Nietzsche, representante qualificado do ateísmo do século XIX, a proclamação de que Deus morreu significa a negação absoluta de Deus, negação necessária para que o homem se possa afirmar livremente.

2) Segundo pensadores protestantes norte-americanos e holan­deses, «Deus morreu» implica um vasto programa de secularização do Cristianismo. Julgando que Deus e os valores religiosos não encon­tram mais eco nos homens de hoje, esses teólogos, sem negar Deus e Cristo, pretendem apresentar um Cristianismo voltado unicamente para o homem e seus problemas contemporâneos. Esboça-se assim a chamada «Teologia da morte de Deus».

3) Na acepção de certos católicos, a expressão «Deus morreu» quer dizer que falsos ou inadequados conceitos de Deus nada mais significam para o homem de hoje; por conseguinte, devem ser energicamente profligados pelos próprios católicos; tais seriam as no­ções de um Deus «bonachão», um Deus «tapa-buraco» (Deus palia­tivo, para o qual o homem só se volta nas horas aflitivas), um Deus «ex machina» (Deus concebido «sob medida» para corresponder às expectativas mais variadas do homem).

Nas duas primeiras acepções, é claro que a expressão «Deus morreu» é de todo inaceitável a um católico. Deus, o Deus verdadeiro, vive, e deve ser afirmado por todo e qualquer homem, mesmo, ou principalmente, no século XX.

No terceiro sentido acima enunciado, a expressão «Deus morreu» impõe um programa obrigatório a todos os amigos e fiéis do Deus vivo e verdadeiro. É necessário, sim, que se profliguem as apresen­tações de Deus infantis ou grotescas. A fé autêntica crê que Deus vive e está presente aos fiéis não sempre como taumaturgo, mas, sim, geralmente como o Divino Crucificado, que dispensa alegrias e provações aos seus filhos, de acordo com os desígnios de sua infinita sabedoria. A fé deve tornar-se adulta, varonil, e marcar todas as ati­vidades dos católicos, não somente suas horas de piedade ou de sofri­mento. Essa atitude de fé será apta a atrair os incrédulos a Deus, fazendo-lhes ver que Deus não morreu no primeiro e no segundo sentidos acima expostos.

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Resposta: Em nossos tempos registra-se estranho fenô­meno: o surto e a expansão da assim dita «Teologia da morte de Deus».

Tal expressão é aparentemente contraditória, pois «Teo­logia» significa, segundo a etimologia grega, «discurso sobre Deus». Ora, se a Teologia apregoa a morte de Deus, ela parece renegar seu próprio objeto e destruir a si mesma. Ademais, o conceito de «Deus», por definição, exclui a morte; Deus é o Ser Perfeito, que não conhece deficiência.

Não obstante, fala-se de «morte de Deus», não somente entre os ateus, mas também entre os cristãos. Para compre­ender o fenômeno, distinguiremos abaixo três acepções da apregoada morte de Deus. Do exposto se depreenderá o que há de errôneo e o que possa haver de sadio na controvertida expressão.

1. «Morte de Deus» na acepção atéia

Pode-se entender a «morte de Deus» no sentido que Feuerbach ( 1872) e, mais agressivamente ainda, Nietzsche ( 1900) atribuíam a essa expressão. «Deus» significaria «ali­enação do homem» e «morte de Deus» equivaleria à liber­tação do homem alienado.

É bem conhecida a página de Nietzsche no livro «O alegre saber» («Fröhliche Wissenschaft»), onde, cedendo a exuberante fantasia, o escritor propõe a figura de um louco... Em pleno dia, acendeu uma lanterna e pôs-se a procurar Deus na praça pública com grandes cla­mores. Já que muitos concidadãos incrédulos o ouviram chamar por Deus, responderam-lhe com hilaridade: «Deus se terá extraviado como uma criancinha? Ou se escondeu? Ou tem medo de nós? Ou se embarcou? Ou emigrou?» Furioso, então, o louco lhes explicou: «Eu vos direi para onde foi Deus! Nós o matamos, vós e eu! Nós todos somos seus assassinos!»... Esse louco, ainda no mesmo dia, entrou em diversas igrejas, onde entoou o seu «Requiem aeternam Deo» (Re­pouso eterno para Deus).

Esta passagem de Nietzsche é a expressão máxima do ateísmo do século XIX; proclama a morte de Deus para que possa finalmente nascer o Super-Homem. Tal ateísmo é, em última análise, um humanismo materialista.

Todavia deve-se dizer que setenta anos após Nietzsche, quando em nossos dias certos pensadores de novo falam da morte de Deus, tem em vista algo de bem diverso do que intencionava o filósofo ateu. Na verdade, foram cristãos pro­testantes que nos últimos anos voltaram a usar a ambígua expressão.

Vejamos, pois, o que intencionavam assim dizer.

2. «Morte de Deus» na acepção de teólogos protestantes

O movimento dito «da morte de Deus» tem suas origens nos Estados Unidos da América. Por volta de 1950, a reli­gião conheceu certa prosperidade nesse país: desde o fim da guerra, os candidatos afluíam aos seminários, construíam-se igrejas; o povo norte-americano, em suma, tornou-se mais religioso. Todavia essa religiosidade ficou sendo elemento me­ramente cultural; ser bom americano passou a significar, por conveniência social, ser religioso. Com efeito, a religião dos norte-americanos da época não teve a desejada repercussão na vida prática dos mesmos; não os moveu a conseqüências concretas no tocante, por exemplo, ao problema racial, às questões de paz mundial, ao auxílio aos povos subdesenvolvi­dos; o surto religioso era algo de desencarnado, destituído de engajamento na solução dos problemas da realidade cotidiana. A certos observadores parecia, antes, um «alibi» ou um pre­texto para que os cidadãos se alienassem em relação aos seus deveres sociais e públicos.

Tal tipo de atitude religiosa, deficiente como era, pro­vocou críticas por parte de cristãos protestantes. Estes come­çaram a opor entre si Religião e . Religião, no seu modo de entender, seriam as cerimônias do culto e as manifesta­ções religiosas destituídas de influência na vida moral e social dos indivíduos. seria uma atitude interior de adesão a Deus manifestada não em atos de culto (atos ditos «reli­giosos»), mas em compromissos ou engajamentos sérios no setor social. Tais críticos cristãos começaram a apregoar um «Cristianismo sem Religião» (sendo Religião entendida no sentido acima), ... em outros termos: um Cristianismo sem manifestações propriamente religiosas, litúrgicas, mas preo­cupado unicamente, em suas manifestações públicas, com os problemas humanos e sociais de nossa época.

Como se vê, esse «Cristianismo sem Religião» poderia ser dito também «Cristianismo secularizado», ou seja, interes­sado tão somente nas tarefas concretas da sociedade contem­porânea, empenhado em fomentar a paz, a justiça, a frater­nidade entre os homens. Dentro desse Cristianismo sem Re­ligião ou secularizado, fez-se ouvir de novo o brado: «Deus morreu!» Este não significava propriamente rejeição da em Deus, mas, sim, recusa de noções insuficientes ou simplis­tas de Deus (Deus «Papai Bonachão», Deus que assegura a vida eterna a quem observe formalidades meramente extrín­secas, Deus cujo culto concorre para alienar os seus fiéis dos deveres para com o próximo).

Foi assim que surgiu entre os protestantes norte-ameri­canos o «movimento» ou também a «Teologia da morte de Deus». Como se vê, estas expressões ambíguas, em sua ori­gem, estão longe de equivaler a ateísmo; são, antes, a manifestação de atitudes que inicialmente têm em vista salva­guardar o genuíno sentido do conceito de Deus, contra desfi­gurações do mesmo.

Acontece, porém, que vários dos arautos dessa «Teologia» foram longe demais em suas posições. Querendo impugnar uma religiosidade desencarnada, puseram-se a impugnar o aspecto transcendental e sobrenatural do Cristianismo; redu­ziram o Cristianismo a um sistema de ação social, secular, voltada apenas para o homem e este mundo, sistema no qual Deus é cultuado em foro privado e secreto apenas, segundo as inspirações subjetivas de cada cristão.

Tais protestantes, rejeitando as estruturas visíveis e as formulações dogmáticas da Igreja, aos poucos chegaram a perder o sentido da realidade objetiva de Deus e a fé na Divindade de Cristo. Vêem no Jesus do Evangelho o homem que lhes descobre o homem mesmo, não, porém, Deus feito homem para salvar os homens. Assim se esvaneceram a transcendência de Deus e o mistério da Encarnação, ficando apenas o homem na perspectiva de tais cristãos. Tal seria o Cristianismo «meramente horizontal» de Hamilton, Altizer, Van Buren, Gabriel Vahanian...

Estes diversos pensadores apelam geralmente para Die­trich Bonhoeffer, teólogo protestante alemão, que certamente não aceitaria todas as idéias de seus admiradores norte­-americanos, ingleses e holandeses.

Dadas a originalidade e a têmpera pujante do pensa­mento de Bonhoeffer, parece oportuno consagrar aqui algu­mas considerações a este escritor.

3. O pensamento de Bonhoeffer

Dietrich Bonhoeffer nasceu em Breslau (Alemanha) no ano de 1906. Era descendente de uma família de teólogos pro­testantes que, em nome da fé, se empenhavam na construção das realidades terrestres. Seu bisavô, por exemplo, Karl von Hase, historiador famoso na Alemanha do séc. XIX, fora encarcerado em 1825. Seu avô, capelão do Imperador da Alemanha, tivera que se demitir do seu posto por motivo de divergências políticas com o monarca.

Em 1927 Dietrich Bonhoeffer licenciou-se em Teologia na Universidade de Berlim, A seguir, exerceu o pastorado (ministério religioso protestante) e o magistério. Desde junho de 1933 tornou-se notório adversário do nacional-socialismo, cujas idéias anticristãs lhe repugnavam. Bonhoeffer era adepto de um Cristianismo «engajado», isto é, Cristianismo influente nas estruturas da sociedade e da vida pública.

Em 1939 achava-se nos Estados Unidos da América. Dada a iminência da segunda guerra mundial, seus amigos o incitaram a se deter na América, onde teria sorte mais amena do que na Alemanha. Bonhoeffer, porém, recusou-se energicamente a isso, preferindo envolver-se coerentemente na resistência ao nacional-socialismo; era na Alemanha, em meio a seus compatriotas e correligionários, que ele julgava dever assumir as suas responsabilidades.

O pastor jamais deu sinal de se arrepender de tal de­cisão, apesar de ter sido encarcerado pela Gestapo aos 5 de abril de 1943. Após dois anos de campo de concentração, Bonhoeffer foi enforcado pelos nazistas no domingo 9 de abril de 1945; havia previamente celebrado o culto com seus com­panheiros de prisão.

O que Bonhoeffer tinha de comum com os teólogos americanos da «morte de Deus», era o desejo de um Cristia­nismo vivido até as últimas conseqüências, Cristianismo não apenas de culto e ritos, mas também de ação prática, se­quioso de influir na luta contra a opressão, o racismo, a guerra injusta... Bonhoeffer, porém, conservou sempre as linhas ortodoxas da teologia luterana, admitindo a transcen­dência de Deus, o mistério da Encarnação, a estrutura visível da Igreja, etc.

O pensamento de Bonhoeffer amadureceu principalmente nos dois últimos anos de vida, que o autor passou em campo de concentração. Bonhoeffer percebeu então que Deus está presente aos homens não necessariamente como um tauma­turgo ou como um Pai Bonachão, que salva maravilhosamente das tribulações. Tal noção de Providência Divina parecia-lhe (e de fato é) infantil; caracteriza a religiosidade primitiva. Na verdade, segundo a Bíblia, Deus está presente aos homens, mesmo aos mais fiéis, como esteve presente ao seu Filho na cruz: no silêncio, na ausência de todo milagre..., a tal ponto que Jesus, identificado com seus irmãos os ho­mens, exclamou: «Meu Deus, meu Deus, por que me aban­donaste?» (cf. Mc 15, 34). Bonhoeffer assim reagiu contra o conceito de um Deus «ex machina», isto é, Deus fabricado pela fantasia do homem. É pela cruz, pela aparente impo­tência, e não por manifestações de glória e poder, que Deus está junto aos seus fiéis. Bonhoeffer insurgiu-se também con­tra a noção de um Deus «tapa-buraco», isto é, Deus de que os homens se lembram exclusivamente quando lhes faltam outros bens na terra, Deus que só entra em cena como su­plente ou nas horas «marginais» da vida.

No seu campo de concentração, aos 16/VII/44, em am­biente hostil à fé, Bonhoeffer escrevia:

«O Deus que está conosco, é Aquele que nos abandona (Mc 15,34). O Deus que nos deixa viver no mundo incrédulo, é Aquele diante de Quem nos mantemos incessantemente... Deus permite que O afastem do mundo e O preguem à cruz. Deus se torna impotente e fraco no mundo, e somente assim está conosco e nos auxilia. O texto de Mt 8,17 (‘Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas dores’) indica claramente que Cristo não nos auxilia por sua onipotência, mas por sua fraqueza e seus sofrimentos.

Eis a diferença decisiva do Cristianismo em relação a todas as outras religiões. A religiosidade natural do homem, prostrado na mi­séria, leva-o a apelar para o poder de Deus no mundo; Deus é o Deus ex machina. Ao contrário, a Bíblia leva o homem sofredor a recorrer ao sofrimento e à fraqueza de Deus; somente o Deus sofredor pode ajudar. Por conseguinte, pode-se dizer que o caminho da huma­nidade para a idade adulta... destrói falsas imagens de Deus e liberta o olhar do homem para que veja o Deus da Bíblia, o Deus que adquire o seu poder e o seu lugar no mundo mediante a sua impotência» («Widerstand und Ergebung». München 1952, pág. 241s).

As palavras, de Bonhoeffer poderiam prestar-se a mal­-entendidos, caso não se levasse em conta o estilo próprio do autor, Não pretendem negar a onipotência de Deus, mas apenas lembrar que Deus quis salvar o mundo mediante o mistério da aniquilação de Jesus Cristo; a maior demonstra­ção do amor providente de Deus fez-se precisamente através da humilhação e da crucificação de Cristo (às quais se se­guiu a ressurreição). Em conseqüência, dizia Bonhoeffer, é preciso que os homens se libertem de concepções infantis de Deus, deixando de imaginar um Deus que responda sem mais a qualquer expectativa da criatura; reconheçam, antes, a imagem desconcertante, mas extremamente valiosa, de um Deus que pelo sofrimento e a morte salvou a humanidade no Calvário e ainda hoje salva cada homem em particular; é pela configuração a Cristo (a quem o Pai no Calvário esteve presente no silêncio, sem fazer milagres) que os cristãos obtêm a salvação.

Após estas reflexões sobre o pensamento de Bonhoeffer, segue-se a consideração da terceira acepção que se tem dado à expressão «Morte de Deus».

4. «Morte de Deus» na acepção de certos católicos

Há católicos que, por vezes, usam a ambígua expressão «Morte de Deus», fazendo assim eco ao vocabulário de pen­sadores antigos e contemporâneos. Depuram, porém, tais palavras de qualquer conotação ímpia, racionalista, protes­tante. Querem apenas significar a necessidade de se abando­narem (ou de fazer morrer) noções religiosas simplórias; tais seriam os conceitos de um Deus «bonachão», «tapa-buraco», Deus ex machina [1]. Tais imagens já morreram, há muito, na mentalidade de não-católicos, que, em virtude de sua forma­ção, não podem aceitar a idéia de um Deus que não abale ou converta o homem, mas, antes, o confirme no infantilismo religioso.

Se os cristãos, apregoando a sua mensagem, querem en­contrar eco no mundo de hoje, devem apresentar-lhe a genuína noção bíblica de Deus; devem também saber viver dessa noção em todas as horas do dia, dando um testemunho de Cristia­nismo não somente nas igrejas e nos santuários, ou nas horas em que o luto e a aflição os acometam, mas também no trabalho profano e no empenho de cristianizar as estruturas deste mundo.

Por conseguinte, o que no Catolicismo se pode entender por «morte de Deus» é apenas a substituição de conceitos infantis e primitivos por noções maduras e bíblicas concer­nentes a Deus. Em outros termos: é um movimento de cres­cimento e maturação da fé.

O P. Laurentin, em seu livro «Dieu est-il mort?», cita a seguinte mensagem que um grupo de estudantes católicos lhe enviou por ocasião de recente festa de Natal:

«Para nós, a grande aventura de Natal é a morte de Deus..., do Deus inventado pelos homens para dar conta dos mistérios da na­tureza, da ‘ordem estabelecida’ e do mal. É bem notório que, à medida que a ciência do homem se aumenta, o domínio de Deus se restringe... Ao invés, nós estamos a descobrir o sentido das palavras de Cristo e de S. Paulo, o sentido da Bíblia, e mesmo o sentido de bom número de conceitos religiosos elaborados pelos teólogos» («Dieu est-il mort?» Paris 1968, pág. 13s).

Este texto, a princípio, pode surpreender o leitor, pois usa de expressões aparentemente ímpias. Vê-se, porém, que ex­prime uma das mais genuínas exigências da fé católica: é preciso que os cristãos se desembaracem de noções inadequa­das de Deus, noções que tornam a Religião inaceitável a quem raciocine um pouco; tais seriam as imagens de um Deus «inventado» para explicar o que a ignorância não explica..., a imagem do Deus da magia, da superstição... Abandonando tais conceitos, professem e vivam cada vez mais a noção de um Deus cujo amor é inseparável da virilidade, do heroísmo, do sofrimento e da morte. O mundo racionalista de hoje vem a ser, em última análise, um estímulo para que os cristãos amadureçam na fé.

O mesmo Padre Laurentin cita um exemplo do que deva ser a fé adulta ou genuína que a vida de nossos dias pede dos cristãos:

Em 1944, em seu campo de prisioneiros, Laurentin conhe­ceu um oficial, que outrora fora católico, mas se afastara de Deus em virtude das comodidades da vida.

Esse oficial, detido pelos alemães, conseguiu evadir-se da prisão; mas foi recuperado pela Gestapo. «Em conseqüência, viu-se, de um dia para outro, encerrado em cubículo secreto. Não recebia visita, não tinha companheiro, nem se lhe dava ocasião de conversar ou de responder a algum interrogatório. O seu único contato humano ocorria, quando uma vez por dia lhe levavam uma sopa sem troca de palavras, ou então quando, vez por outra, o guarda do cárcere lhe lançava um olhar inquisidor. O guarda controlava a observância do regulamento da prisão; na verdade, era proibido ao prisio­neiro estender-se sobre a esteira antes da hora do cobre-fogo sob pena de graves sanções. Nem livro, nem lápis, nem papel, nem trabalho, nem distração alguma suavizavam o isolamento do oficial. Nessa solidão, o prisioneiro julgou que se tornaria louco através dos dias e das noites intermináveis. Aos poucos, porém, descobriu no fundo de si mesmo uma Presença... No jejum do corpo e do espírito, encontrou de novo as orações de sua infância, fez subir à tona de sua memória passagens do Evangelho, palavras do Missal, que ele julgava já ter es­quecido... Cada dia encontrava outras mais e as ruminava lentamente. Fazia durar esses momentos de graça. Já não se sentia só, e foi assim que pôde agüentar, ... e que também se aprofundou. Quando saiu do cárcere, cerca de um ano mais tarde, era outro homem, mais homem, ao mesmo tempo que um cristão» (ob. cit., pág. 112s).

Eis realmente o que é ter fé e viver da fé. Esta não constitui garantia contra os males temporais, nem assegura milagres da parte de Deus, mas leva o homem a descobrir tesouros que a afluência de bens temporais não raro encobre; entre esses tesouros, está a Presença de Deus, que, apesar do silêncio e do aparente abandono, sempre assiste intimamente à criatura atribulada.

A todo cristão incumbe o dever de tender a essa fé adulta e varonil.

Fazendo a distinção entre as três recenseadas acepções de «morte de Deus», o leitor saberá orientar-se quando tiver de enfrentar escritos ou dissertações que tratem de tão am­bíguo tema.

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­­NOTA:

[1] A expressão «Deus ex machina» (= Deus proveniente da má­quina) tem origem no teatro. Significava uma figura «sobrenatural» ou «divina» que intervinha no decurso de uma peça, descendo à cena por meio de um dispositivo ou de uma máquina.

A mesma expressão designa também, no teatro, o desenlace, mais feliz e alegre do que verossímil, de uma situação trágica. Nas tragédias antigas acontecia muitas vezes que a catástrofe se resolvia repentina­mente, a pleno contento dos espectadores, mediante a intervenção de um «deus» que uma máquina fazia descer subitaneamente do alto sobre o palco. - Nas peças de teatro moderno, o «deus ex machina» é substituído pelo tabelião que traz uma herança notável ou pelo tio que chega dos Estados Unidos da América no momento preciso para tirar do embaraço o sobrinho ou a sobrinha...

Transferida para a linguagem religiosa, a expressão «deus ex machina» significa as moções de Deus que certas pessoas forjam ou fabricam segundo as suas expectativas subjetivas ou sentimentais; São noções que muitas vezes se destinam a favorecer a religiosidade errônea, ignorante ou infantil dos devotos.

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