segunda-feira, 4 de junho de 2007

Protestantismo: quem são os mórmons?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR/067 1963)

«Quem são os Mórmons ou Santos dos últimos Dias, que visitam as casas distribuindo escritos e livros de uma nova crença religiosa?»

Exporemos abaixo o currículo de vida do fundador da seita dos Mórmons, a sua doutrina e o seu significado dentro da história do Cris­tianismo.

1. O Fundador. Joseph Smith

Aos 23 de dezembro de 1805 nascia em Sharon (U.S.A.) Joseph Smith, filho de piedosa família de colonos que professa­vam o protestantismo sob a forma do Metodismo.

Aos poucos o jovem revelou ter uma índole pessoal bem característica, que um de seus mais abalizados biógrafos moder­nos, Lemonnier, assim descreve:

«Meigo e amável, não deixava de falar quando estava com amigos, e a sua eloqüência ardente se expandia em histórias intermináveis que ele inventava a gosto; não podia contar o mais simples incidente da sua vida sem o transformar em aventura maravilhosa... Não era muito amigo de leitura, e mal conhecia a Bíblia;... em casa chamavam-no, por vezes, de iletrado. Era, porém, o filho predileto de seu pai, que o considerava como o gênio da família. Com seu pai, José andava à busca de tesouros, de tal modo que os arredores da fazenda estavam cheios de escavações» (Hístoíre des Mormons 1948, pág. 13).

Aos quinze anos de idade, fez a sua primeira grande experiência religiosa. A população local se via então abalada por novo despertar religioso, que se manifestava em contradições entre as denominações religiosas protestantes. A família de Smith fez-se então, em parte, pres­biteriana; quanto a Joseph mesmo, hesitava... Resolveu conseqüente­mente ir pedir luzes a Deus, orando em alta voz num bosque. Transcor­ria uma manhã da primavera de 1820, quando lhe apareceram dois anjos, que lhe deram a ordem de não se filiar a crença religiosa alguma, pois ele um dia haveria de restaurar a «Igreja Cristã primitiva».

Uma segunda visão deu-se aos 21 de setembro de 1822, quando José foi visitado por figura fulgurante, que dizia ser o anjo Moroni: este lhe anunciou que ele (José) havia de desco­brir placas de ouro ocultas, nas quais se achava escrita a histó­ria maravilhosa do povo de Deus na América. Finalmente, aos 22 de setembro de 1827, o mesmo anjo o levou a encontrar as famosas placas após haver cavado o cume da colina de Cumorah.

O texto da mensagem respectiva era atribuído pelo anjo a um rei chamado Mórmon (daí o nome «mórmon» que a José Smith e seus discípulos foi dado posteriormente). O documento estava redigido em idioma que Smith chamava «língua egípcia reformada» e que ele desconhecia. Para o entender, Moroni for­neceu ao vidente duas pedras maravilhosas («Urim» e «Thum­min»), que comunicavam a necessária compreensão do texto.

Dizia o jovem José que quem ousasse lançar um olhar para as placas de ouro, morreria imediatamente. Por isto, Smith nos tempos subseqüentes se colocava por detrás de uma cortina e ia ditando a tradução da mensagem das placas a um secretário, modesto camponês chamado Martin Harris. Em junho de 1829 estava terminada a tradução inglesa do livro de Mórmon, a qual foi impressa e publicada em 1830. Sem demora o anjo arrebatou as placas, de sorte que jamais foram vistas pelo público. Apenas (diz uma declaração colocada no inicio de cada exemplar do re­ferido livro) três discípulos de Smith as puderam contemplar numa visão posterior, e atestaram esta visão com juramento.

A título de informação, consignamos também o seguinte: existe, entre os historiadores, uma versão que visa explicar de maneira mais plausível e verossímil a origem do «Livro de Mórmon».

Certo escritor presbiteriano, Salomão Spaulding, no século passado, redigiu um romance em torno dos primórdios das populações aborígi­nes da América, apresentando-as como descendentes dos hebreus. Esse romance não chegou a ser publicado, mas caiu nas mãos de um pre­gador batista, depois campbellista, chamado Sidney Rigdon. Sidney foi associar-se a José Smith na fundação da nova Igreja; deu então à obra romanceada de Spaulding aspectos e estilo bíblicos... Dai terá resultado o «Livro de Mórmon».

Juntamente com a mensagem de Mórmon, José recebia a missão de fundar uma Igreja, que seria a restauração da antiga Igreja de Cristo e dos Apóstolos. Com alguns poucos companhei­ros, portanto, o vidente fundou a nova comunidade, aos 6 de abril de 1830, no Estado de Nova Iorque.

Esse núcleo de crentes começou a propagar ardorosamente as suas idéias por todas as regiões vizinhas. Apresentavam-se como os arautos, da religião de um povo santo, escolhido por Deus para converter o mundo nos últimos dias, ou seja, nos dias anteriores à definitiva vinda de Cristo; a sociedade, até mesmo os cristãos, estariam todos mergulha­dos em erros de doutrina e moral; em conseqüência, quem não seguisse a mensagem de Mórmon deveria ser tido como gentio ou pagão.

Bem se compreende que tal pregação tenha suscitado represálias por parte do público. Os companheiros de Smith tiveram então que pe­regrinar por diversas localidades dos Estados de Ohio e Missouri desde 1831 a 1839. Finalmente em 1840 estabeleceram-se no Illinois, fundando a cidade de Nauvoo, que seria a «Nova Sião», verdadeiro Estado teocrá­tico (isto é, todo regido por leis religiosas ou por «revelações» divinas); aí se aguardaria o Cristo, que estava para voltar em breve sobre a terra. O território de Nauvoo foi oficialmente concedido aos crentes pelo Governo do Estado de Illinois; os Mórmons lá constituíram poder legislativo, judiciário e executivo próprio, com direito de manter um exército para sua defesa sob o comando de José Smith. Este fundou também um grandioso templo e uma Universidade.

Desdobrando logicamente as suas idéias, José Smith chegou a pro­clamar-se candidato à presidência dos Estados Unidos em fins de 1843; disseminou apóstolos e pregadores que divulgassem o seu programa, no qual estava incluído, entre outras coisas, o resgate dos escravos.

Contudo a situação evoluiu desfavoravelmente aos novos crentes... Com efeito; Smith resolveu apregoar em público uma doutrina que lhe fora «revelada» particularmente e que já era posta em prática na sua comunidade: a doutrina do «matrimô­nio celeste» ou da poligamia. Esta inovação provocou a animosi­dade das populações vizinhas de Nauvoo, populações que haviam recebido com simpatia os «santos dos últimos dias».

Os jornais da região incitaram então os cidadãos a guerra contra os crentes. Estes responderam arregimentando as suas tropas. Isto bastou para que o Governador do Estado acusasse Smith de alta traição. O vidente assim apontado concebeu o plano de fugir. Não o fez, porém, visto que seus companheiros o consideravam como covarde; resolveu mesmo entregar-se aos juízes civis, que o colocaram no cárcere. Contudo a multidão não se conteve: invadiu a prisão aos 27 de junho de 1844 e pôs termo violento a vida de José e seu irmão Hyrum Smith. O pro­feta tinha nessa ocasião 39 anos de idade.

A sua figura, que já gozava de grande autoridade entre os discípulos, cresceu na mente destes: José Smith veio a ser tido como mártir e símbolo sagrado.

Quem havia de lhe suceder?

O mais antigo companheiro de Smith - Sidney Rigdon - nutria pretensões. Foi, porém, eliminado pelos discípulos. Em breve tornou-se Presidente e Profeta da «Igreja» um jovem enérgico e fanático (mais equilibrado, porém, do que o fundador da seita) chamado Brigham Young. Este fora outrora metodista; tendo-se passado ao Mormonismo, em 1835 havia sido constituído um dos doze Apóstolos da nova seita. Sua eleição encontrou oposição por parte de membros da comunidade, entre os quais um dos filhos de Smith, que resolveu então separar-se para fundar a «Reorganizada Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias».

A situação era tão tesa em Nauvoo que Young decidiu deixar o território do Illinois, de mais a mais que em janeiro de 1845 um decreto do Governo abolia os privilégios concedidos à colônia dos Mórmons. Retirou-se, pois, com a sua comunidade de crentes para o deserto de Utah, região então pertencente ao México. A custa de energia férrea, conseguiram em 1847 aí fundar a Cidade de Salt Lake (ou do Lago Sal­gado). A legislação da cidade permitia a poligamia (o próprio Young teve mais de vinte esposas celestes!) ; organizava meticulosamente o trabalho e a economia, de modo que em breve o deserto se tornou terra fértil e produtora. Em 1848, o México entregou o território de Utah aos Estados Unidos; a poligamia tornou-se então grave pomo de discórdia entre o Governo norte-americano e os Mórmons. Somente em 25 de setembro de 1890, o Presidente da seita, Woodruff, empreendeu a con­ciliação: declarou que em visão recebera ordem de abolir a poligamia; isto permitiu que finalmente em 1896 Utah se tornasse Estado da Con­federação norte-americana. Contudo a poligamia ainda é aí praticada, embora em termos discretos; a maioria da população de Utah professa a crença de Mórmon.

Atualmente o Mormonismo parece contar cerca de um milhão de crentes, dos quais dois terços residem em Utah. Têm missionários espa­lhados pelo mundo em intensa atividade proselitista. O governo da seita toca a um Presidente («Profeta, Vidente e Revelador») assistido por dois conselheiros e doze Apóstolos.

Pergunta-se agora

2. Qual a mensagem dos Mórmons ?

1. Os Mórmons relatam do seguinte. modo o seu histórico:

Após a confusão das línguas em Babel (cf. Gên 11), a tribo de Jared emigrou da Ásia para a América. Contudo, já que se constituía de homens maus, Deus permitiu fosse punida por muitas guerras e calamidades públicas, de modo que estava para se extinguir em 600 a. C.

Nesta época, porém, vivia na Palestina um profeta chamado Lehi, da tribo israelita de Manassés; foi avisado por Deus de que, em breve (586 a. C.), Jerusalém cairia sob os golpes de Na­bucodonosor; por isto veio com outros israelitas para a América, onde encontrou os últimos descendentes de Jared.

Uma vez morto Lehi, houve divergências entre os seus dois filhos Nefi e Lamã, ou quais em conseqüência se separaram. A tribo de Nefi conservou-se fiel a Javé, ao passo que os descen­dentes de Lamã prevaricaram; em castigo Deus deixou que a cor de sua pele se tornasse vermelha; são hoje em dia os índios ou aborígines da América. Quando Cristo esteve sobre a terra, visitou os Nefitas na América após a sua ressurreição. Dois ou três séculos depois de Cristo, também os Nefitas (de pele branca) pecaram gravemente e foram exterminados pelos La­manitas ou índios. Contudo o último rei e patriarca nefita, Mórmon, antes de morrer escreveu a história do seu povo sobre pla­cas de ouro, que ele entregou a seu filho Moroni; este escondeu tão precioso depósito no alto da colina de Comorah, onde final­mente José Smith no século passado, sob a guia do anjo (Moroni), o devia descobrir. Daí se origina o «Livro de Mórmon», que é a terceira Revelação (enumerada após o Antigo e o Novo Testamento), autentica Palavra de Deus, à luz da qual a Bíblia Sagrada mesma deve ser interpretada.

Além do «Livro de Mórmon» e da Bíblia, os discípulos de Smith admitem mais dois livros sagrados: «A Pérola de Grande Preço» e «Doutrinas e Pactos da Igreja de Jesus Cristo dos San­tos dos últimos Dias». Estas obras contem uma coletânea de passagens, autênticas e não autênticas, da Escritura Sagrada, assim como a autobiografia de José Smith e revelações que este recebeu de Deus.

2. É por tais escritos que se transmitem as doutrinas e as práticas do Mormonismo, as quais se podem resumir nos seguin­tes itens:

a) Existe um Deus, que é dito «Pai, filho e Espírito Santo». O Pai, porém, tem carne e ossos; quanto ao Filho e ao Espírito Santo, são apenas emanações do Pai.

Julgam os historiadores que Smith admitia outrossim um certo politeísmo; testemunho disto seria o fato de que no fim da vida tra­duzia o nome hebraico «Elohim» por «deuses».

b) O homem é eterno: viveu no Reino de Deus antes de aparecer sobre a terra. Neste mundo os indivíduos não têm recordação dessa sua existência passada, a fim de poder aceitar ou recusar livremente o Evan­gelho. Caso não cheguem a conhecer o Evangelho na vida presente, os homens o poderão conhecer após a morte e se salvarão mediante um batismo póstumo.

c) O batismo póstumo constitui uma das práticas mais estranhas do Mormonismo. É administrado, por presumida procuração, aos des­cendentes dos defuntos. A descendência é meticulosamente examinada em tabelas genealógicas que os mórmons consultam (se necessário) em arquivos espalhados pelo mundo inteiro. Assim os descendentes podem obter a graça de Deus para seus antepassados que não tenham conhe­cido a Revelação.

d) Há mesmo uma certa identidade de natureza entre o homem e Deus. «Tal como Deus é, tal pode o homem tornar-se».

e) Não existe pecado original. O homem se vai continuamente aperfeiçoando pelo arrependimento de suas faltas. O único castigo que o aguarda, é a dor de ter perdido oportunas ocasiões de melhorar.

f) No Mormonismo foi restaurada a primitiva Igreja, que os ho­mens dos séculos passados deturparam. Estabelecer-se-á uma nova Sião na América; Cristo virá pessoalmente reinar sobre a terra, cuja face será renovada, tornando-se o paraíso.

g) Na Igreja dos Santos dos últimos Dias, o Espírito Santo se manifesta de maneira extraordinária e permanente por meio dos dons de línguas, profecias, revelações, curas, visões, etc. O Presidente da Igreja é sempre inspirado por Deus ao realizar os atos mais importan­tes de seu governo.

h) A ceia do Senhor é celebrada sob duas espécies: pão e água. Não se usa vinho, embora a revelação n° 20 o prescreva. E por que não? -- Muitos crentes respondem:... porque há cerca de cento e vinte anos os adversários dos mórmons tentaram envenená-los com o vinho da santa ceia; contudo água e vinho não fazem grande dife­rença no caso, porque se trata de meros símbolos destinados a lembrar apenas o Senhor Jesus.

i) No que se refere ao casamento, José Smith em 1831 recebeu a revelação de que seria lícita a poligamia; todavia só a consignou por escrito em 1843. Ao ter notícia desta disposição, Brigham Young ex­clamou: «Pela primeira vez na vida desejei então estar no túmulo»; inclinou-se, porém, diante da determinação. - Os historiadores acham o fato particularmente estranho, pois que o «Livro de Mórmon» proíbe explicitamente a poligamia; julgam que Smith a deve ter admitido por razões estritamente pessoais; embora tal praxe fosse fadada a provo­car reação e repulsa da própria comunidade de crentes, ela se terá implantado por razões preponderantemente econômicas, pois a popu­lação recém-estabelecida em Utah só poderia sobreviver caso se impu­sesse pela multidão e pela força de seus cidadãos; ora tal condição exigia prole numerosa. O êxito que os Mórmons em seus primeiros decênios obtiveram no plano financeiro e político, parece ter corres­pondido as expectativas. A vida civil e econômica em Utah foi religio­samente organizada, isto é, organizada segundo o rigor e a precisão que somente a religião poderia inspirar; um sistema de dízimos e taxas fielmente observado pelos crentes assegurou a Igreja não só a subsistência, mas até mesmo alta prosperidade material. Todavia, já que a poligamia contrariava as leis norte-americanas, foi, por inti­mação das autoridades civis da nação, abolida (ao menos em teoria e de maneira oficial) pelo quarto Presidente da Igreja, Woodruff, em 1890 (Woodruff justificava sua atitude apelando para especial reve­lação recebida do céu).

A legislação mormônica prevê também matrimonio «pelos mor­tos»: uma mulher que faleça sem se ter casado nesta vida pode ser, pelos seus familiares sobreviventes na terra, ligada a um varão no Além. Em caso contrário, seria prejudicada em sua bem-aventurança póstuma; diz, com efeito, a revelação n° 132: «Aqueles que não passam por esse sacramento (do matrimônio) só podem aspirar a dignidade de anjos, ao passo que os eleitos podem esperar elevar-se até a digni­dade de deuses».

i) A Igreja Mormônica dirige os seus fiéis não somente no plano espiritual, mas também no material, prescrevendo até o regime ali­mentar (estão proibidos o chá, o café, o fumo e as bebidas alcoólicas). Tal atitude é justificada nos seguintes termos pelo sexto Presidente da Igreja, José Smith, sobrinho-neto do fundador: «Uma religião que não pode salvar os homens no plano temporal, tornando-os prósperos e felizes neste mundo, também não é capaz de os salvar no plano espi­ritual, levando-os a vida futura».

Note-se, por fim, que cada mórmon fiel tem a obrigação de con­tribuir com 20 % de suas rendas para a Igreja, além das horas de trabalho que ele lhe dedica todas as semanas.

Procuremos agora formular sobre tais assuntos

3. Uma reflexão final

Os historiadores não costumam pôr em dúvida a boa fé ou a sinceridade de José Smith, fundador da Congregação Mormônica; terá sido uma alma profundamente religiosa.

A obra, porém, de Smith se ressente de um defeito radical, que contamina os seus principais traços: aparece qual mero fruto da imaginação ou de um temperamento desequilibrado.

G.-H. Bousquet, escritor tido por autoridade no assunto, colabo­rando em uma enciclopédia que não tem caráter religioso, alude a Smith como «iluminado mitomaníaco, provavelmente ciclotímico» (Les Mormons pag. 61, na coleção «Que sais-je?». Presses Universitaires de Frunce).

Bousquet chega a comparar Smith com Maomé, asseverando que o Mormonismo e o Islamismo são fenômenos análogos; constituem, sim, manifestações psicológicas e sociais dentre as que periodicamente no decorrer da história vem a tona, exprimindo uma das grandes ca­racterísticas da alma humana, a saber: o desejo de possuir algo mais do que a felicidade material imediata,... o desejo de tocar uma rea­lidade nova, transcendente, introduzida por visões e revelações. Na verdade, tanto o Mormonismo como o Islamismo

possuem seu código revelado: o Livro de Mórmon, o Corão;

admitem que Deus tenha intervindo repetidas vezes na vida do respectivo fundador;

constituíram comunidades teocráticas, visando, por assim dizer, instaurar um Reino de Deus visível aqui na terra;

consentiram na poligamia;

«por ordem de Deus» lançaram-se a conquista do mundo, recor­rendo ou as armas ou a pregação. O fato de que Smith não tenha encontrado a aceitação e o sucesso que Maomé conseguiu, deve-se as circunstancias do século passado e do ambiente norte-americano em que ele lançou a sua obra.

Em última análise, o Mormonismo exprime em termos exu­berantes e fantasistas a sede do paraíso ou da vida eterna que todo homem possui em si, qualquer que seja a época ou a nacio­nalidade a que pertença. Infelizmente, porém, Smith traduziu essa sede de maneira pouco sadia: construiu a sua obra sobre a base de premissas tão arbitrárias e inconsistentes que o Mormonismo como tal carece de autoridade.

Contudo o ideal que no momento ele apregoa, é suficiente para mover profundamente a alma humana; o título de «Santo dos últimos Dias», a função de arauto de uma mensagem nova e mais perfeita para a humanidade, a sensação de haver desco­berto um grande tesouro espiritual ou religioso, o ideal de pre­parar a vinda iminente do Reino de Deus são elementos que falam ao mais íntimo de todo ser humano, podendo provocar mudança de vida, entusiasmo, fervor, etc., que muito impres­sionam a sociedade.

Por isto, o cidadão do século XX, ao contemplar o fenômeno do Mormonismo, não tem motivo para se deixar atrair pelo con­teúdo de sua doutrina (é algo de demasiado vão). Dê, antes, atenção ao significado geral desse fenômeno: é mais uma afir­mação, no decorrer da história, de que o homem não foi feito para se contentar com a felicidade natural que os bens deste mundo podem proporcionar. Ele tem, sim, a sede do Absoluto ou de Deus, embora nem sempre acerte ao procurar o caminho para chegar ao Reino de Deus.

Ao observar os mórmons, portanto, o fiel católico apren­derá deles não a doutrina, mas o fervor religioso; e renovará seu zelo por viver em máxima fidelidade à genuína mensagem do Evangelho, mensagem que de Cristo pelos Apóstolos chegou até nós sem interrupção, mensagem que por isto tem a garantia da autenticidade prometida pelo Senhor: «Estarei convosco (convosco, Apóstolos, e com os vossos sucessores) até a consu­mação dos séculos» (Mt 28,20).

D. ESTEVÃO BETTENCOURT O.S.B.


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