segunda-feira, 11 de junho de 2007

Pecado: o pecado original

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 086/1967)

«Como entender a doutrina do pecado original, à luz da filosofia e das ciências
contemporâneas?»

A doutrina do pecado original tornou-se em nossos dias objeto de interrogação por motivos diversos:

a) a mentalidade moderna tende a conceber a história do mundo e do homem em termos otimistas, segundo uma ascensão gradativa e bela - o que dificulta a admissão de uma falha nos primórdios dos tempos;

b) a contaminação de todos os homens por uma falta que não cometeram, suscita estranheza;

c) as descobertas da Paleontologia não parecem fazer eco aos textos bíblicos referentes a Adão e Eva.

Daí as dúvidas na mente de muitas pessoas bem intencionadas. Conscientes de tais dificuldades, em julho de 1966 reuniram-se grandes exegetas e teólogos em Roma, a fim de procurar formular a doutrina do pecado original em linguagem condizente com o dogma de fé e, ao mesmo tempo, com os postulados do pensamento contemporâneo. Em tal ocasião, S. S. Paulo VI reuniu esses estudiosos, propondo-lhes brevemente a doutrina da fé referente ao pecado original.

Nos últimos tempos, têm sido publicados numerosos livros e arti­gos tendentes a atenuar a realidade do pecado original e suas conse­qüências: recorrem a teses das ciências naturais, da psicologia, da lingüística e da história antiga... Não se pode negar o cabedal de erudição contido nesses ensaios. Contudo, aos olhos da fé e do auten­tico filho da Igreja, sobre todas as teorias e hipóteses prevalece a palavra do Sumo Pontífice, máxime quando se sabe que foi dita jus­tamente em vista das novas tentativas de explicação do dogma. É por isto que nas páginas que se seguem, adotaremos os pontos indi­cados por Sua Santidade como pontos essenciais à fé católica.

1. O texto bíblico

Antes do mais, convém lembrar o conteúdo da passagem bíblica que refere a queda original (Gên 3), com brevidade, porém, pois uma exegese minuciosa do texto já se encontra em «P. R.» 18/1959, qu. 5; cf. também «Ciência e Fé na história dos primórdios» de E. Bettencourt (Ed. AGIR).

1) Deus quis que o gênero humano descendesse de um só casal: Adão e Eva.

As ciências modernas não o provam nem o recusam. Em nome da fé, S. Santidade Paulo VI o reafirmou recentemente, como veremos adiante.

2) Ao criar os primeiros pais, Deus os podia ter deixado no plano natural, entregues apenas aos recursos da sua natu­reza racional. Por benevolência gratuita, porém, o Senhor lhes infundiu:

a) dons sobrenaturais: a graça santificante, as virtudes infusas, os dons do Espírito Santo. O homem foi assim elevado à dignidade de filho adotivo de Deus e habilitado a ver a Deus face a face na eterna bem-aventurança;

b) dons preternaturais, que aperfeiçoavam a natureza humana; corroboravam a submissão da carne ao espírito (ou alma), dando origem a harmonia dentro do próprio homem e em torno dele. Assim os primeiros pais deviam ser isentos de sofrimentos, doen­ças e morte, de ignorância e de concupiscência desregrada (luta da carne contra o espírito) e gozariam de domínio sobre as criaturas inferiores. Sabe-se que tais prerrogativas não são inerentes à natu­reza humana como tal: esta, por seus princípios constitutivos, é levada a experimentar a luta, o desenvolvimento paulatino de suas faculdades e a decomposição de si mesma pela morte.

Não é necessário admitir que esses dons modificassem o semblante dos primeiros homens ou o ambiente em que viviam. Pode-se muito bem conceber que tais dotes existiam apenas virtualmente ou em potência na alma dos primeiros pais; deve­riam expandir-se plenamente, caso Adão e Eva comprovassem sua fidelidade e obediência a Deus; seriam então transmitidos pelo primeiro casal a todo o gênero humano.

3) Este belo desígnio foi por Deus condicionado ao «Sim» ou à aquiescência do homem.

O Criador, que fez o homem livre, quis que este tomasse posse da sua definitiva bem-aventurança de maneira consciente e livre, ao invés das criaturas inferiores, que são levadas ao seu fim supremo por cego instinto ou por intervenção de outras criaturas.

4) Para tanto, propôs aos primeiros pais um preceito ou uma norma a seguir, preceito que representava a vontade e o plano de Deus a respeito do homem.

A Escritura Sagrada diz que tal mandamento foi a proibição de comer do fruto de determinada árvore (cf. Gên 3,2s). Esta proposição pode ser tomada ao pé da letra como também ser entendida metaforicamente, pois os antigos costumavam falar de árvores simbólicas para designar os dons e as comunicações da Divindade aos homens. Não nos interessa (nem é possível) conhecer exatamente qual a matéria do preceito dado aos primeiros pais; o que importava a Deus, não era um fruto nem outro objeto material, mas a entrega livre e filial da personalidade humana ao sábio desígnio do Criador.

5) O homem, porém, seduzido pelo demônio (que a Bíblia apresenta como serpente), não se rendeu à intimação divina; preferiu ser como Deus, desviando-se de Deus. O orgulho, por­ tanto, o levou a desobedecer, violando a norma de comporta­mento ou o preceito x que o Criador lhe havia dado.

O pecado de Adão foi a soberba, o único pecado que um espírito isento de paixões desregradas possa cometer.

Uma sentença antiga, hoje assaz difundida, assevera que se tratou de pecado sexual; tal interpretação, porém, carece de suficiente fun­damento no texto; os autores que a propõem, recorrem a hipóteses um tanto sutis; pleiteiam tal transposição de versículos e tão alegó­rico uso de vocábulos que já não merecem audiência. Note-se outros­sim que o escritor bíblico apresenta a concupiscência desregrada como algo de posterior ao pecado (cf. Gên 3, 8. 11. 21). Ademais Eva foi punida na sua função de mãe (dores no parto) porque este é o papel específico da mulher, como Adão foi castigado nas suas funções de lavrador ou trabalhador porque estas representam bem a tarefa espe­cífica do varão (cf. Gên 3, 16-20).

6) Pecando, os primeiros pais se afastaram de Deus; perderam, portanto, os dons paradisíacos que, outorgados gra­tuitamente, ficavam condicionados ao «Sim» do homem. A ruptura da sujeição do homem a Deus acarretou consequentemente, dentro do homem, a ruptura da submissão da carne ao espírito e, fora do homem, a insubordinação das criaturas infe­riores ao seu senhor aqui na terra. Por conseguinte, a carne já não colabora com o espírito do homem: fá-lo sofrer, con­traindo misérias, enfermidades e a própria morte; instiga-o também a cometer atos que a sã razão repudia; mais ainda os seres irracionais, longe de prestar sua cooperação ao ho­mem, entravam-no freqüentemente, ocasionando desastres, inundações, secas, ataques de animais daninhos, etc.

Assim explica o texto sagrado a origem do mal no mundo. Este se deve à desordem livremente introduzida pelo homem na harmonia estabelecida pelo Criador. Afastando-se de Deus, que é a Vida, o homem não pode senão experimentar a ação da morte e de seus precursores; estes seriam algo de meramente natural e normal, se não houvera a elevação e a queda dos primeiros pais; após o pecado de Adão, porém, toda essa miséria tem a característica de conseqüência e punição do pecado. Note-se bem: não era necessário que Deus de­cretasse explicitamente infligir tal pena ao homem pecador; ela de­corre logicamente da desarmonia que o homem introduziu nas suas relações com o Criador.

7) Adão e Eva, após a queda original, começaram a gerar filhos e filhas (cf. Gên 5,4). Não lhes podiam transmitir senão a natureza humana tal como a possuíam, isto é, despojada dos dons gratuitos que haviam recebido, sujeita à concupiscência desregrada, às dores e à morte. Em conseqüência, todos os descendentes de Adão nascem num estado que destoa do seu exemplar ou daquilo que deveriam ser segundo a reta ordem das coisas; tal deformidade constitui uma nódoa na alma de todo ser humano, nódoa que se chama «o pecado original».

Sem dúvida, os homens após Adão não têm culpa pessoal no pecado de Adão e Eva; contraem-no por solidariedade de linhagem, não por revolta contra Deus. Por isto também o Senhor não trata o pecado original como o pecado atual, em que a vontade da pessoa age de maneira consciente e direta. As crianças que, antes do uso da razão, morrem com essa deformidade original, sem a poder repudiar cons­cientemente, não são punidas com o inferno; não podem, porém, ver a Deus face a face ou gozar da bem-aventurança sobrenatural. Os teólogos julgam que as almas dêsses pequeninos vão para o limbo: passam a gozar para todo o sempre da felicidade de que é capaz a natureza humana como tal, ou da visão analógica de Deus.

Mais adiante veremos como se conciliam o pecado de Adão e sua transmissão a todos os homens com a Bondade e a Sabedoria infinitas de Deus.

Consideremos agora o lugar que a doutrina do pecado original ocupa dentro do conjunto da mensagem cristã.

2. Pecado original e mensagem cristã

Não se poderia entender adequadamente a doutrina do pecado original como uma proposição isolada entre outras do Credo cristão; pareceria sempre estranha, principalmente por apresentar todos os homens solidários com a culpa de um só homem. Na verdade, tal doutrina deve ser considerada à luz do Cristo Jesus e da sua obra.

1) Com efeito, Deus Pai concebeu todos os homens em vista de Jesus Cristo, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. É em Cristo e por Cristo que todo ser humano vem à existência e chega à sua consumação. Lembra São Paulo que o Pai pre­destinou os homens a se tornarem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Este seja o Primogênito entre muitos irmãos (cf. Rom 8, 29; Ef 1, 4. 11; Col 1, 15.18); «ao Cristo Jesus compete o primado em toda a criação» (cf. Col 1,18), e ninguém vai ao Pai senão por Cristo (cf. Jo 14, 6).

Destas verdades se depreende que o Cristo Jesus é como que um Homem-compêndio, no qual estão contidas as sortes de todos os homens; a existência de Cristo condiciona a de todas as criaturas; a vida de Cristo, a dos demais homens. Assim Cristo constitui o eixo central da história, que marca com sua figura os tempos passados, presentes e futuros: «Jesus Cristo ontem, hoje e por todos os séculos» (Hebr 13,8).

2) Ora, antes que aparecesse Cristo na plenitude dos tempos, Deus Pai quis que no início dos séculos Ele projetasse uma miniatura de si mesmo: o primeiro homem, Adão, tipo do futuro Homem, Cristo, que seria o segundo Adão (cf. Rom 5,14). O primeiro pai do gênero humano, portanto, foi também um homem-compêndio, no qual estavam envolvidas as sortes de todos.

Isto se compreende de algum modo quando se considera que todos os membros de uma estirpe estão incluídos no seu Patriarca; é o Patriarca quem dá o nome e as características raciais à sua linhagem. Pois bem; Deus Pai quis fazer todos os homens solidários com Adão não somente no plano natural, genealógico, mas também no plano religioso.

3) Adão frustrou o seu ideal. Em vez de levar a si e a toda a sua linhagem para Deus Pai, ele se voltou contra Deus e carretou sobre o gênero humano miséria e morte.

4) A esta altura, talvez pergunte alguém: pode Adão ser realmente responsabilizado de tão importante falta? Tinha consciência do que fazia?

- Por certo, Adão não possuía a ciência e a cultura de um cidadão de século XX; não obstante, Deus lhe comunicou, como foi dito atrás, o dom preternatural da ciência, isto é, as luzes necessárias no plano religioso e moral para que desem­penhasse devidamente a sua função patriarcal; em caso con­trário, o Senhor Deus teria sido injusto.

5) Mais ainda. Pergunta-se: e Deus Pai não sabia que Adão seria infiel, tornando infelizes todos os seus descendentes? E, se o sabia, porque depositou tanta responsabilidade sôbre Adão?

- Não há dúvida, Deus Pai previa a desobediência de Adão. Esta havia de decorrer exclusivamente da liberdade de arbítrio do primeiro homem; Deus não a provocou. Para impe­di-la, o Criador deveria ter retirado ou suspenso milagrosamente o livre arbítrio que Ele havia dado como característica da nobreza humana. Ora o Senhor Deus não quis retirar, por pouco que fosse, o que Ele havia outorgado. Não o quis, pois isto seria indigno. Mas, usando de maior sabedoria e magnanimi­dade, Deus Pai se comprometeu consigo mesmo a remediar maravilhosamente à desgraça do gênero humano decaído; tomaria ocasião da própria falta de Adão para derramar maior amor e maior bondade sôbre o gênero humano.

Ensina S. Agostinho que Deus «jamais teria permitido existisse qualquer mal em suas obras, se a sua Onipotência e a sua Bondade não fôssem tais que pudesse tirar do próprio mal o bem» (Enchiridion III 11). Este solene princípio, reafir­mado mais tarde por S. Tomás, é como que a chave que abre o mistério do pecado neste mundo; é ele que ilumina o procedi­mento aparentemente frio e desconcertante de Deus frente à liberdade humana; Deus não faz o que julgamos deveria fazer, porque quer fazer algo de muito mais sábio e grandioso. Admi­tida esta norma, esvanece-se a perplexidade ocasionada pela história do pecado original: Deus quis, sim, respeitar até o fim a liberdade do homem, mas houve por bem servir-se da própria ruína do homem para o beneficiar ainda mais.

6) E como o beneficiou ainda mais?

Cristo, centro da história, veio ao mundo não somente como Mestre e Modelo, mas também como Instaurador de uma ordem de coisas ainda mais estupenda do que a inicial; não veio apenas para restabelecer o homem no estado donde decaíra, mas para elevá-lo a destino mais sublime.

Escrevem os teólogos carmelitas de Salamanca (séc. XVII):

«Seria desordem e como que uma espécie de crueldade permitir o mal em vista apenas de o reparar e de nos reconduzir ao nosso estado inicial. Isto, porém, não se dá, quando o mal é permitido em função de um grande bem que de longe ultrapassa esse mal e o apaga... Ora eis aqui o caso. Se Deus permitiu a catástrofe humana, não foi apenas para lhe dar remédio posteriormente, mas foi na previsão da glória de Cristo Redentor, cuja dignidade supera de muito a malícia da queda permitida...; foi outrossim em vista de um bem maior do gênero humano mesmo, que recebe mediante o sangue de Cristo uma graça mais abundante e uma suprema nobreza» (De Incarnatione, disp. 2, dub. 1, n° 36).

São Tomás ( 1274) quem escreve:

«Nada impede que a natureza humana tenha sido elevada a um estado melhor após o pecado. Com efeito, Deus permite que os males aconteçam para deles tirar maior bem. Donde a palavra de São Paulo aos Romanos: ‘Onde o pecado abundou, a graça superabundou' (5,20). E o canto do ‘Exultet': ‘Õ feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor !'» (S. Teol. 111 qu. 1, a. 3, ad 3).

É o que permite ao Cardeal Charles Journet, em nossos dias, concluir:

«A quem pergunta por que o poder de Deus não impediu, por algum milagre, o pecado do primeiro homem, pode-se responder que ele se preparava a compensá-lo sobejamente por um milagre mais estupendo» (Le Mal, Desclée de Brouwer 1961, pág. 284).

Enfim, Deus jamais teria permitido a queda do homem se no mesmo instante divino e eterno não tivesse previsto a Re­denção.

7) Contudo ainda uma objeção surge espontaneamente:

O mundo atual, constantemente visitado pela dor, pelas epidemias, pelas catástrofes, pela miséria, cheio de escândalos, crimes, mentiras e injustiças, o mundo que se convulsiona em guerras intercontinentais, aterrorizado pela bomba atômica, manchado pelos campos de concentração e as câmaras de gás, tal mundo de hoje após a vinda de Cristo como pode ser consi­derado melhor, em seu conjunto, do que o mundo anterior à culpa, em que havia inocência apenas e nenhuma aflição? Existe em nosso mundo de hoje algum bem que não existisse no paraíso terrestre e que compense sobejamente o peso quase esmagador das misérias atuais?

Eis o núcleo mais íntimo de todo o problema do pecado original e da Redenção; eis o ponto decisivo da questão debatida nestas páginas.

Uma resposta cabal jamais poderia ser dada com a filoso­fia ou com o raciocínio apenas. É a fé que a formula.

- A fé?! - Sim; o cristão não se intimida de o dizer; está escrito em três passagens do Novo Testamento: «O justo vive da fé» (Rom 1, 17; Gál 3,11; Hebr 10, 38). É, pois, a fé a luz do cristão também diante da dúvida acima expressa.

Ora a fé ensina que Cristo, o segundo Adão, o nôvo Pai do gênero humano, não é mero homem, mas é o Filho eterno de Deus, possuindo dignidade infinita. Ele comunica aos homens a sua vida mediante o Batismo ou o sacramento da regeneração; não lhes dá apenas vida humana, mas vida imortal, eterna, fazendo-os participar da comunhão de vida do próprio Deus (Pai, Filho e Espírito Santo).

Para fazer-nos solidários consigo, com sua bem-aventuran­ça infinita, Cristo fez-se primeiramente solidário conosco, com nossas misérias e nossa morte; não as quis cancelar ou apagar da história, pois constituem a sanção que em justiça o gênero humano deve carregar, a fim de que a ordem seja devidamente reparada; Cristo preferiu assumir tais misérias, passar por elas e acompanhar-nos na dor e na morte, a fim de transfigurar esses males, tornando-os vestíbulo para a ressurreição e a glória.

Consequentemente afirma São Paulo:

«É digna de crédito esta palavra:

Se morremos com Ele (Cristo), com Ele viveremos,

Se nos conservarmos firmes com Ele, com Ele reinaremos.

Se O renegarmos, também Ele nos renegará.

Se somos infiéis, Ele permanece fiel, Pois não se pode renegar a Si mesmo».

(2 Tim 2, 11.13)

O que quer dizer: se compartilharmos o sofrimento e a morte com Cristo, ressuscitaremos triunfantes com Ele. Se O rejeitarmos de maneira definitiva na hora da nossa morte, Ele reconhecerá e respeitará a nossa recusa. Mas, se O repu­diarmos transitoriamente nos altos e baixos da vida cotidiana, sempre O encontraremos pronto a nos receber de volta; pode­mos estar certos de que Ele nunca retirará de nós o seu convite e a sua solidariedade, pois, em caso contrário, se desdiria e não seria Deus.

É a inabalável certeza destas verdades que, para o cristão, torna refulgente o espectro sinistro do sofrimento, transfor­mando a cruz, patíbulo de ignomínia, em árvore de vida. O mundo de hoje é ambivalente aos olhos da fé: profundo motivo de dor, sim, mas

também, e mais ainda, profundo motivo de exultação.

O cristão não se ilude; não julga que, com o decorrer dos tem­pos, haverá menos pecado e menos pranto nesta terra; com efeito, a Escritura Sagrada, no Evangelho e no Apocalipse, prediz a multi­plicação de iniqüidades e aflições no fim da história. Contudo o cristão sabe que, quanto mais íntima lhe é a participação da cruz do Senhor, tanto mais bela será também a sua partilha no Reino de Cristo.

É nestes termos que a visão cristã do mundo é otimista. Ela não receia dizer que houve uma queda original e que carre­gamos as conseqüências desta queda; mas ela afirma a exis­tência de uma Providência Divina, que, respeitando o livre jogo da vontade humana e suas conseqüências, não permite as quedas senão a fim de as fazer servir a maiores bens. Todo homem que toma consciência disto, concebe a grande preocu­pação de ser incondicionalmente fiel a Deus em todas as con­junturas da sua existência; só Ele pode fazer da ignomínia glória, da morte vida.

Consideremos agora mais um aspecto da questão.

3. Pecado original e ciência contemporânea

1. No início do Simpósio de teólogos reunidos em Roma no mês de julho de 1966, o S. Padre Paulo VI dirigiu uma alocução a esses estudiosos, lembrando-lhes os dados da fé con­cernentes ao pecado original, dados que não podem ceder a hipóteses da ciência humana.

Eis, entre outras verdades, o que dizia Sua Santidade Paulo VI:

«Convictos de que a doutrina do pecado original, tanto no que diz respeito à sua existência e universalidade, como no que concerne ao seu caráter de verdadeiro pecado, mesmo nos descendentes de Adão, e às suas tristes conseqüências para a alma e o corpo, é uma verdade revelada por Deus em diversas passagens dos livros do Antigo e do Nôvo Testamento, principalmente nos textos que muito bem conheceis, de Gênesis 3,1-20 e da epístola dos Romanos 5,12-19,tende grande cuidado, ao aprofundar e precisar o sentido dos textos bíblicos, em permanecer fiéis às normas infalíveis que emanam da «analogia fidei», das declarações e definições dos Concílios acima citados e dos documentos oriundos da Sé Apostólica. Assim estareis certos de respeitar o que a Igreja Católica, esparsa em todo o uni­verso, sempre compreendeu', isto é, o modo de sentir da Igreja ,uni­versal, docente e discente, que foi considerado 'regula lidei' pelos Padres do segundo Concílio de Cartago, o primeiro Concílio que, con­tra os Pelagianos, tratou do pecado original.

É, pois, evidente que julgareis incompatíveis com a sã doutrina católica as explicações do pecado original propostas por certos autores modernos. Estes, partindo de um pressuposto jamais provado, o poli­genismo, negam, de maneira mais ou menos clara, que o pecado que acarretou tantos males para o gênero humano, tenha sido, antes do mais, a desobediência de Adão, 'o primeiro homem', figura do homem vindouro (cf- 'Graudium et Spes' n° 13 e 22), desobediência cometida no início da história. Por conseguinte, essas explicações estão em desacordo com os ensinamentos da Sagrada Escritura, da Tradição e do Magistério da Igreja, segundo os quais o pecado do primeiro homem é transmitido a todos os seus descendentes não por via de imitação, mas de propagação, 'inest unicuique proprinm', e é (tal pecado) a morte da alma, ou seja, uma privação, e não mera ausên­cia, de santidade e de justiça, mesmo nas crianças recém-nascidas.

Igualmente vos parecerá inaceitável a teoria da evolução na me­dida em que não se concilie francamente com a criação imediata por Deus de todas as almas humanas e de cada uma delas, nem respeite a importância capital, para as sortes da humanidade, da desobediên­cia de Adão, o primeiro pai de todo o gênero humano.

Essa desobediência não deve ser considerada como se não tivesse feito Adão perder a santidade e a justiça nas quais fora constituído.

Eis, caros Filhos, as reflexões e exortações que julgamos opor­tuno confiar a vós no início do vosso Simpósio. Na luz do Salvador universal, prometido aos nossos primeiros pais como reconforto e esperança logo após a queda, perscrutareis o abismo da malícia hu­mana aberto pelo pecado original, que teve em Jesus Cristo o seu Reparador triunfante, pois ‘onde o delito abundou, a graça foi dada em superabundância por Jesus Cristo Nosso Senhor' (Rom 5, 20-21)».

Logo no início do seu pronunciamento, recordava o Pontífice:

«O mistério do pecado original está intimamente associado ao mistério do Verbo Encarnado, Salvador do gênero humano, à Sua Paixão, à Sua Morte, à Sua gloriosa Ressurreição e, por conseguinte, também à mensagem de salvação confiada à Igreja Católica. Em verdade, a que finalidade pode tender a ação pastoral da Igreja se não à Redenção da natureza humana, que por Deus Todo-Poderoso admiravelmente criada em Adão e em Adão miseramente decaída, foi por Deus misericordioso, pela graça do único Mediador Jesus Cristo, ainda mais admiravelmente recriada e regenerada para a vida divina?»

2- De tais palavras do S. Padre depreendem-se os seguin­tes pontos:

a) O próprio Deus, pelas Escrituras Sagradas, revelou que o primeiro homem, Adão, desobedeceu a um preceito divino, acarretando sôbre si e todos os seus descendentes a nódoa e as tristes conseqüências do pecado (a concupiscência desre­grada, as misérias físicas e a morte).

A transmissão do pecado não consiste no fato de que todos os homens imitam Adão, caindo por sua vez em faltas consci­entes e voluntárias (embora de gravidade diversa); mas o pecado de Adão comunica-se por geração biológica: toda cri­ança, ao receber a natureza humana de seus genitores e, em última análise, de Adão, é herdeira da nódoa do pecado de Adão.

Essa nódoa consiste no fato de que a criança nasce sem a santidade e os dons que Adão possuía antes do pecado e que ele devia transmitir a sua linhagem, juntamente com a natu­reza humana. Tal natureza humana carecente de santidade destoa do que deveria ser e constitui uma ofensa à ordem instituída por Deus.

b) Verifica-se, pois, que algumas hipóteses e teorias cien­tíficas (note-se bem: não se trata de conclusões comprovadas pela ciência) não podem ser aceitas pelo fiel católico:

aa) A primeira a ser mencionada é o poligenismo ou a tese que supõe vários casais na origem do gênero humano. Na verdade, como já insinuamos, toda a visão cristã da história se enquadra entre dois homens individuais, que são «tipos» ou «compêndios» para todo o gênero humano: o primeiro Adão e o segundo Adão. O primeiro Adão decaiu da sua missão de Pai para a vida, tornando-se Pai para a morte; o segundo Adão, Jesus Cristo, assumindo a morte do primeiro, tornou-se Pai para a ressurreição e a vida eterna. Em linguagem cristã, deve-se dizer: todos nós nascemos do primeiro Adão e, pelo Batismo, renascemos do segundo; a nossa grande tarefa na terra consiste em nos transferirmos mais e mais da vida mor­tal e deficiente do primeiro Pai para a vida nova do segundo Pai, vida nova que é como um gérmen depositado em nossas almas e tendente a desabrochar cada vez mais, até transfigurar nossos corpos no dia da ressurreição final.

Por isto insiste a Igreja no fato de que todo o gênero humano hoje existente descende de um só casal. Esta sentença de fé, embora não seja comprovada pelas ciências modernas, de modo nenhum é por elas contraditada; na verdade, a pale­ontologia não tocou (nem pode assegurar que esteja perto de tocar) a estaca zero da história do gênero humano; não está em condições de dizer que tal ou tal fóssil é necessariamente o pri­meiro dentre todos os representantes da espécie humana, e que não se pode encontrar outro mais antigo. Sendo assim, as ciên­cias humanas não estão habilitadas a definir se o gênero hu­mano provém de um só ou de mais de um casal; neste caso, para o cristão é a fé que dirime a questão por critérios de reve­lação divina­.

A título de complemento, pode-se dizer que a Escritura Sagrada não exclui a existência de verdadeiros homens anteriores a Adão ou pré-adamitas; ter-se-ão extinto com o aparecimento de Adão sobre a terra, de sorte que todos os homens hoje existentes são filhos de Adão. A respeito dos pré-adamitas, pode-se admitir que se tenham originado de vários casais (poligenismo); a fé nada ensina a tal propósito.

Visto que a Bíblia não nos indica a época em que viveu Adão, não há dificuldade em atribuir tal ou tal fóssil a estirpes anteriores a Adão ou pré-adamíticas. - Isto seja dito aqui unicamente para tranqüilizar os espíritos que julguem absolutamente dever admitir o poligenismo: não se incompatibilizam com a fé cristã, desde que se coloquem no plano dos pré-adamitas. Apenas lembraríamos que con­vém sermos sóbrios neste terreno, que facilmente escapa ao domínio dos dados positivos, favorecendo as divagações da fantasia.

Ulteriores indicações a respeito do monogenismo e dos pré-adami­tas se encontram em «P.R.>> 20/1959, qu. 4; 52/1962, qu. 5.

bb) Além da tese mencionada no item aa), não se conci­liam com a doutrina cristã as teorias evolucionistas que asse­verem a origem do homem inteiro, corpo e alma, a partir da matéria. Segundo a sã filosofia e a fé revelada, não há dificul­dade em admitir que o corpo humano, sendo matéria, provenha de matéria inferior em evolução; toda criatura humana, porém, possui uma alma espiritual, que não se pode derivar da matéria, pois o ser espiritual é radicalmente diverso do material. Donde se segue, por exigência não somente da fé, mas também da razão, que todas as almas humanas são diretamente criadas por Deus e infundidas à matéria orgânica; isto se aplica também à origem dos primeiros pais, caso se admita que seus corpos se tenham formado por evolução.

Quanto ao aspecto físico de Adão, não há dificuldade em conci­liá-lo com os dados da ciência. A tradição judaico-cristã sempre julgou que o primeiro pai era dotado de harmonia ou beleza física corres­pondente às riquezas sobrenaturais de sua alma; terá perdido esse encanto após o pecado, gerando então uma estirpe caracterizada por traços somáticos primitivos e cultura rudimentar; tal é, sim, a linha­gem de que nos falam os fósseis. - Contudo não há necessidade de admitir que Adão tenha sido fisicamente mais belo e culturalmente mais evoluído do que os demais homens da pré-história; pode-se muito bem conceber que os dotes de alma que ele possuía, não se espelha­vam sôbre o seu corpo; a manifestação dêsses dons estava condicio­nada à perseverança de Adão no estado de inocência. O primeiro pai, porém, não perseverou; por isto, não se terá diferenciado, no plano meramente natural, dos demais homens pré-históricos. - A respeito da ciência infusa ou preternatural de Adão, sabemos que tinha índole religiosa e moral; era apenas o conhecimento necessário para optar, consciente e livremente, por Deus ou contra Deus.

cc) O Santo Padre Paulo VI, em sua alocução, exclui também o otimismo exagerado que, embora não negue o pecado original, lhe atenua o significado e as conseqüências. Tal oti­mismo tende a conceber a história como gradativa e indiscutida ascensão do homem para Deus, ascensão em que os males morais e físicos são apenas os acidentes necessários para que haja progresso (tenha-se em vista que o aperfeiçoamento, na ordem mecânica ou material, supõe sempre destruição, mutila­ção). Em tal concepção, a obra da Redenção por Cristo já não ocuparia o lugar capital que a fé cristã lhe atribui na história.

O cristão é sorridente em relação à história do gênero hu­mano, não por causa do primeiro Adão, mas, sim, por causa do Segundo Adão, que pela dor e a morte remiu todos os homens da dor e da morte em que o primeiro pai os havia projetado. É, portanto, sôbre Cristo que se fundamenta o humanismo cristão e não sôbre Adão e a herança que este legou a seus descendentes.

Em conclusão, a doutrina cristã concernente ao pecado original não deixa de ser perpassada de profundo otimismo. É, porém, estritamente baseada na fé. E quem faz, de maneira coerente, a experiência da fé, sabe que esta não mente!

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