domingo, 1 de abril de 2007

Cremação: cremação de cadáveres

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 334/1990)

Em síntese: A Igreja não se opõe à cremação de cadáveres, desde que não seja solicitada por motivos anticristãos ou materialistas; segundo a Tra­dição bíblica e cristã, o sepultamento dos mortos é preferível, pois distingue melhor dos detritos indesejáveis e incinerados o corpo humano, templo do Espírito Santo.

A cremação hoje em dia é justificada por motivos urbanísticos, ecológicos, higienísticos... Todavia parece também ser a expressão do horror da morte que tem marcado a sociedade contemporânea; esta vem apagando os símbolos da morte e da sobrevivência, descaracterizando os cemitérios ou transformando-os em parques de lazer. A incineração, neste contexto, pode vir a ser um dos recursos mais radicais para extinguir a imagem do defunto (nem túmulo nem visita do túmulo pode haver, se as cinzas são lançadas num rio ou num jardim ameno).

Com isto não queremos impugnar peremptoriamente a cremação dos cadáveres, que pode ter suas razões legitimantes, nem intencionamos de­fender as manifestações teatrais de dor e luto perante a morte que ocorre­ram no passado, mas temos em vista lembrar que: 1) a morte é a única cer­teza que a criança e o adulto têm; daí ser desarrazoado evitar considerá-la; 2) a morte, inevitável como é, não seja considerada pelos cristãos como rup­tura ou fim, mas, sim, como plenitude de uma vida que a criança recebe ger­minal no Batismo e que tende a se desabrochar cada vez mais até a sua con­sumação no Além ou na visão de Deus face-à-face

***

Registra-se a tendência, ao menos em certos países, a substituir a tradi­cional inumação dos mortos pela cremação dos respectivos cadáveres. mesmo quem julgue que tal será a praxe mais freqüente num futuro não muito distante. Todavia esta previsão parece contraditada por certa aversão natural de numerosas pessoas à perspectiva da cremação, pois esta faz que ao corpo humano se aplique o mesmo tratamento que a objetos indesejáveis ou inúteis.

Entre alguns dados interessantes a propósito, seja citado um inquérito realizado na França junto a 1.128 pessoas, de mais de quinze anos de idade; comportava cerca de cinqüenta perguntas concernentes à incineração. Eis al­guns de seus tópicos mais significativos:

À pergunta "Você prefere ser enterrado(a) ou incinerado(a), 53% res­ponderam preferir ser enterrados; 20%, incinerados; 27% nada responderam.

A pergunta "Algumas pessoas preferem ser incineradas; você julga que isto ocorre principalmente

- por motivos ecológicos?' - 28% responderam Sim;

- "por motivos econômicos (é menos caro)?" - 7% responderam Sim;

- "por razões filosóficas?" - 41% disseram Sim;

- "por outros motivos?" -14% responderam Sim;

- Não se pronunciaram 10%.

Esta estatística faz pensar. Apenas 20% preferiram a incineração, mas na mesma época (1979) houve na França menos de 1% de cremações... - o que significa que a teoria e a prática não se sobrepõem exatamente. Observe-­se também que 41% julgaram haver motivos filosóficos para se, preferir a inci­neração; isto é significativo, pois, em última análise, se verifica que é o senti­do do homem e de sua vida que está em causa quando se discute a cremação de um cadáver.

Eis outra estatística, concernente à pratica da cremação em diversos países no ano de 1983:

Japão, 90%; Grã-Bretanha, 76%; Dinamarca, 60%; Holanda, 38%; Ale­manha Ocidental, 19%; Bélgica, 9%; Luxemburgo, 6%; França, 1, 83%; Itá­lia, 0,4%.

Estes números parecem confirmar a tese de que determinada filosofia de vida está, não raro, associada à prática da cremação. Diante desta verifica­ção, examinaremos: 1) aposição da Igreja Católica perante tal uso; 2) moti­vos subjacentes à cremação em nossos dias.

A Igreja e a cremação

1.1. fundamentação bíblica

A cremação de cadáveres foi e é praticada por numerosos povos. Toda­via os judeus sempre lhe preferiram a inumação. A propósito cita-se o texto de Dt 21, 22s:

Se um homem , culpado de crime que merece a pena de morte, é morto e suspenso a uma árvore, seu cadáver não poderá permanecer na árvo­re à noite; tu o sepultarás no mesmo dia, pois o que for suspenso é um mal­dito de Deus. Deste modo não tornarás impuro o solo que o Senhor teu Deus te dará por herança”

Não ser sepultado era castigo, conforme os seguintes textos:

Jr 8, 1 s “Naquele tempo - oráculo do Senhor - tirarão de seus sepul­cros os ossos dos reis de Judá, os ossos de seus príncipes, os ossos dos sacer­dotes, os ossos dos profetas e os ossos dos habitantes de Jerusalém. Eles os espalharão diante do sol, da luz e de todo o exército celeste, que eles ama­ram, serviram e interrogaram e diante dos quais eles se prostraram”:

2Rs 9, 36s: "Jeú disse: 'Esta foi a palavra do Senhor, que pronunciou por intermédio de seu servo Elias, o tesbita: No campo de Jezrael, os cães devorarão a carne de Jezabel; e o cadáver de Jezabel será como esterco espa­lhado no campo, de modo que não se poderá dizer: Esta é Jezabel”:

Os casos de incineração eram exceções:

1 Sm 31, 12s: "Todos os valentes... retiraram do muro de Betsã o cadá­ver de Saul e os dos seus filhos... e os incineraram. Depois recolheram os seus ossos e os enterraram debaixo da tamareira de Jabes”

Os cristãos herdaram o costume judaico do sepultamento; mediante ri­tos especiais, tencionavam mostrar seu respeito aos cadáveres. Foi, aliás, isto que se deu com o próprio Jesus:

Jo 19, 40-42: "Tomaram o corpo de Jesus e o envolveram em panos de linho com os aromas, como os judeus costumam sepultar. Havia um jar­dim no lugar onde ele fora crucificado e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ninguém fora ainda colocado. Ali então por causa da Preparação dos ju­deus e porque o sepulcro estava perto, eles depositaram Jesus”:

Sobre tal base bíblica desenvolveu-se a história do Cristianismo.

1.2. Na história da Igreja

Distinguem-se quatro fases, de duração desigual, na história do trata­mento dos cadáveres dentro da Igreja:

1.2.1. Até a Paz de Milão (313)

Os primeiros séculos até 313 foram marcados por violentas persegui­ções aos cristãos; os adversários os agrediam também pela violação de suas sepulturas e pela incineração dos corpos dos mártires. Os cristãos reagiram contra tais invectivas, não porque a cremação fira diretamente algum artigo de fé ou Moral católica; ela não impede a ressurreição final dos corpos, pois em qualquer hipótese é claro que o cadáver se reduz a cinzas, que muitas vezes são devoradas pelos vermes. Não obstante, Deus reconstituirá o com­posto de corpo e alma, no fim dos tempos ou por ocasião da segunda vin­da de Cristo, unindo à alma que sobreviverá, aquilo que a filosofia chama "matéria prima" ou "pura potência"; esta assumirá os traços típicos da pes­soa em foco.

A Igreja seguiu a praxe bíblica, cavando catacumbas (cemitérios) para sepultar seus mortos e empregando todos os meios para recuperar os cadá­veres de seus mártires. Disto temos um testemunho muito nítido nas Atas dos Mártires de Lião (Gália), que morreram em 177:

"Estávamos em grande aflição por não poder sepultar seus corpos na terra. A noite não nos ajudava. .O dinheiro não seduzia os guardas, nem a oração os perturbava. Vigiavam heroicamente como se fosse de seu interes­se que os corpos não tivessem sepultura... Por conseguinte, os cadáveres dos mártires foram expostos e deixados ao ar livre durante seis dias,- a seguir, fo­ram cremados e reduzidos a cinzas pelos perversos, que os atiraram no Ró­dano, a fim de que não ficasse mais nenhum vestígio deles na terra. Os pa­gãos faziam isto como se pudessem vencer a Deus e privar os mortos de novo nascimento, a fim de que, como diziam, os mártires não tivessem esperança de ressurreição" (Eusébio, História Eclesiástica, I. V, c. 1, § 61).

Este texto manifesta claramente, de um lado, o vivo desejo, dos cris­tãos, de sepultar seus mortos, a ponto mesmo de subornar os guardas, e, de outro lado, a firme intenção, dos pagãos, de atingir os cristãos em sua fé na ressurreição.

1.2.2. Do século IV ao século XIX

Após a era das perseguições torna-se tranqüila a praxe de sepultar os mortos. A Liturgia das Exéquias foi-se desenvolvendo em vista da inumaçãodos cadáveres. Os cemitérios eram construídos, muitas vezes, ao lado da Igreja matriz da cidade, de modo que se dedicava aos mortos um religioso respeito; os defuntos e os sobreviventes pareciam continuar em comunhão entre si, sem que se sentisse a necessidade de relegar a necrópole (= cidade dos mortos) para longe da cidade dos vivos. Sabe-se também que muitos per­sonagens medievais aspiravam a ser sepultados na própria igreja ou nos claus­tros dos mosteiros e dos templos sagrados. Mais: a veneração de relíquias também atestava o respeito tributado aos mortos e aos seus despojos; estas eram considerados como resquícios do templo vivo de Deus (cf. l Cor 3, 16s; 6, 19; 2Cor 6, 16), e “instrumentos utilizados pelo Espírito Santo para toda obra boa”, como dizia S. Agostinho.

Foi-nos transmitida a notícia de incineração em casos raros, como, por exemplo, os de epidemia: a autoridade do Imperador prescrevia então a cre­mação; realizada esta, recolhiam-se as cinzas numa urna, que era depositada na terra, com as mesmas honras que tocavam a um cadáver sepultado.

Há também notícia de punição infligida a quem, sem motivo sério, in­cinerasse um cadáver. Assim, por exemplo, uma lei de Carlos Magno datada de 789, punia com a morte "quem tivesse incinerado o corpo de um defun­to, conforme o rito dos pagãos, e reduzido os seus ossos a cinzas". O Papa Bonifácio VIII excomungou em 1299, mediante a Decretal Detestandae Fe­ritatis (L. 11 1, tit. VI), quem infligisse macabro trato a cadáveres, para torná-­los mais leves e poder transportá-los mais facilmente; dispunha que não go­zariam de sepultura eclesiástica os restos mortais decorrentes de tais mani­pulações.

No século XVIII, porém, a Revolução Francesa despertou no Ocidente a atenção para a cremação. Em 1798 foi proposta a construção, em Paris (Montmartre), de um columbário (ou edifício a nichos) no qual seriam guar­dadas as urnas funerárias portadoras das cinzas de cadáveres cremados. Quatro grandes portas lhe dariam acesso, dedicadas respectivamente à Infân­cia, à Juventude, à Maturidade e à Velhice; quatro entradas, sinuosas como sinuosa é a vida, levariam até o monumento central desse edifício, ... monu­mento que seria uma pirâmide coroada de um tripé, a significar o fim de tu­do. O projeto encontrou pouca ressonância, de modo que, embora muito fo­calizada e discutida, a cremação não chegou a ser usual nos países cristãos até a segunda metade do século XIX.

Este, fortemente marcado por idéias materialistas e atéias, constituiu um clima propício à disseminação da tese e da prática da cremação; naquela época, esta praxe significava uma réplica ao Cristianismo ou a expressão de que nada há após a morte, podendo consequentemente o cadáver humano ser tratado como lixo.

1.2.3. Na transição do século XIX ao século XX

Sob a pressão da Maçonaria, no século XIX fundaram-se associações para promover a cremação de cadáveres e realizaram-se Congressos destina­dos a justificá-la na Europa.

Na França, aos 15/11/1887 foi votada uma lei que autorizava a esco­lha de funerais ou por inumação ou por cremação. O primeiro crematório de Paris foi inaugurado em 1889 na área do cemitério do Père-Lachaise.

A Igreja se pronunciou sucessivamente contra a nova prática. Assim aos 19/05/1886 era proibido aos católicos filiar-se a alguma sociedade partidária da incineração ou pedir a incineração para si mesmos. Aos 15/12/1886 eram privados da sepultura eclesiástica aqueles que tivessem persistido no desejo de ser incinerados. Aos 27/07/1892 tais declarações eram confirmadas e se lhes acrescentava a proibição de celebrar publicamente a S. Missa por um ca­tólico que tivesse sido incinerado (não era proibida a celebração em caráter privado); aos funcionários dos crematórios certas restrições eram impostas.

As razões de tais determinações derivavam-se de que os pedidos e a prática da cremação no século XIX tinham caráter filosófico, isto é, prendi­am-se geralmente a maçons, que tencionavam dessa forma afirmar que não existe outra vida e que o corpo humano, após esta existência terrestre, pode ser tratado como qualquer detrito indesejado. O sepultamento, segundo a praxe bíblica e o exemplo de Jesus Cristo, era normativo para a Igreja na­quela época.

Em 1917 foi promulgado o Código de Direito Canônico (hoje substi­tuído pelo de 1983), que rezava:

Cânon 1203: "Os corpos dos fiéis defuntos devem ser sepultados; é re­provada a sua cremação. Se alguém, de qualquer modo, pedir que seu cadá­ver seja incinerado, será ilícito executar tal desejo. Se esse pedido for acres­centado a um contrato, um testamento ou algum outro ato, seja tido como não existente­

Cânon 1240 § 1°, 5°. "Serão privados da sepultura eclesiástica, a me­nos que tenham dado sinal de penitência antes da morte, ... os que tiverem pedido que seus corpos sejam queimados'

Aos 19/06/1926, nova Instrução do S. Ofício recordava as prescrições anteriores e acrescentava-lhes três observações:

- a incineração como tal não é intrinsecamente pecaminosa; por isto pode ser permitida em casos de interesse geral (epidemias, guerras...); mas são gravemente ilícitas a prática sistemática e a propaganda da mesma;

- se a incineração resulta não da vontade do defunto, mas da decisão de terceiros, poderão ser celebradas exéquias religiosas, desde que se evite todo escândalo;

- as cinzas de alguém que tenha pedido a incineração, não poderão ser depositadas num cemitério cristão; caso as autoridades civis o exijam, os sa­cerdotes hão de protestar e recusarão qualquer participação nos ritos funerá­rios.

Como se vê, esta última determinação já comportava certa abertura, reconhecendo a legitimidade da incineração em casos especiais. A posição da Igreja era explicada em 1948 por um canonista muito conceituado, o Prof. Raoul Naz:

"Não se julgue que a cremação seja um obstáculo à Onipotência Divi­na no dia da ressurreição dos corpos. Ocorre, porém, que essa prática é pre­conizada segundo intenções hostis à Igreja, no intuito de substituir o simbo­lismo cristão da inumação pelo simbolismo materialista e pagão da incinera­ção. É certo que a propaganda em prol da cremação tem origens maçônicas.

Mons. Chollet cita este trecho de uma circular dirigida pelas Lojas aos seus membros:

'Os franco-maçons deveriam recorrer a todos os meios para propagar o uso da cremação. A Igreja, proibindo a incineração dos corpos, afirma os seus direitos sobre os vivos e os mortos e procura conservar no povo as anti­gas crenças referentes à alma espiritual e à vida futura, atualmente dissipadas por evocação da luz da ciência' "(Traité de Droit Canonique, t. III, pp. 39s).

Passemos agora à época contemporânea.

1.2.4. Na segunda metade do século XX

Os tempos evoluíram. As autoridades eclesiásticas puderam verificar que muitos pedidos de cremação não se inspiravam em razões filosóficas an­ti-cristãs, mas sim em motivos pragmáticos. Daí a revisão da legislação ante­rior, devida a uma disposição do S. Ofício datada de 08/05/1963:

"Haja cuidadoso empenho em manter fielmente o costume de sepul­tar os corpos dos fiéis defuntos.

2. Doravante as prescrições dos cânones 1203 § 29 e 1240 10, 50 não serão observadas a não ser que se comprove ter sido a cremação solici­tada como recusa dos dogmas cristãos, em espírito sectário ou por ódio à religião católica ou à Igreja.

3. Segue-se que os sacramentos e as preces públicas não deverão ser recusadas aos que pedirem a incineração de seus corpos, a menos que seja evidente que tal pedido foi feito pelos motivos acima, contrários à doutri­na crista:

4. Para não debilitar a estima do povo cristão à tradição eclesiástica e para mostrar a aversão da Igreja à incineração, os ritos das exéquias eclesiás­ticas e dos sufrágios ulteriores nunca poderão ser celebrados no lugar da pró­pria incineração. Também não se deverá acompanhar o corpo até aquele local”

Esta legislação, que já reconhecia a legitimidade da cremação por mo­tivos pragmáticos, ainda foi abrandada pelo Ritual dos Funerais publicado aos 15/08/1969, que suprimiu a proibição do n.4 anterior:

“Aqueles que preferirem a incineração de seus cadáveres, dever-se-á conceder o rito dos funerais cristãos, exceto se for evidente que fizeram tal escolha por motivos hostis à doutrina cristã... As exéquias serão celebradas segundo o estilo usual na região, de tal modo, porém, que não se dissimule a preferência da Igreja pelo sepultamento dos cadáveres à semelhança do que o Senhor mesmo quis para si; evite-se escandalizar os fiéis ou causar-lhes surpresa.

Os ritos previstos para a capela do cemitério ou para junto do túmulo podem, em tal caso, ser efetuados no lugar mesmo da incineração e até, na falta de outro lugar apropriado, junto ao forno crematório, evitando-se pru­dentemente provocar escândalo ou parecer favorecer o indiferentismo religioso’’

Finalmente o atual Código de Direito Canônico datado de 1983 en­dossou tal prática, ao declarar muito brevemente:

'’A Igreja recomenda vivamente que seja conservado o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos; todavia ela não proíbe a cremação, a não ser que haja sido escolhida por motivos contrários à doutrina cristã" (cânon 1176, § 3).

E ainda:

Cânon 1184 § : "Devem ser privados das exéquias eclesiásticas, a não ser que antes da morte tenham dado algum sinal de penitência eclesiástica.

.........

20 os que tiverem escolhido a cremação de seu corpo por motivos contrários à doutrina cristã”:

Este percurso histórico evidencia bem que a aversão da Igreja à crema­ção nunca foi devida a princípios dogmáticos, mas era condicionada pelo sig­nificado que os materialistas davam a tal prática, ... significado contingente, mas que implicava uma contradição à fé católica.

Em nossos dias, desde que se peça a cremação por motivos pragmáti­cos, a Igreja não se opõe à prática... Entre as razões mais aduzidas atualmen­te, contam-se: a higiene (o mito de uma morte "limpa"), o urbanismo (os grandes espaços ocupados pelos cemitérios tornam-se ociosos), a ecologia (a terra pertence aos vivos!), o progresso (a cremação é praticada nos países mais avançados em tecnologia), a economia (alega-se erroneamente o menor custo financeiro da cremação)... Além disto, porém, os observadores julgam poder descobrir na onda ascensional da cremação um elemento sutil, subja­cente, que passamos a considerar, visto ser assaz importante.

2. Cremação: uma reflexão sobre o fenômeno

Um fato urbanístico chama-nos a atenção.

Na Idade Média cristã, o cemitério não constituía uma área à parte, mas se situava em torno da igreja principal da cidade, portanto nos centros urbanos, grandes ou pequenos. Parecia desempenhar certo papel dentro da sociedade, unindo os vivos e os mortos no quadro de uma grande família, cujos membros coabitavam. Isto quer dizer ainda que o cemitério não era escondido ou ocultado aos olhares dos viventes, mas bem caracterizado por sua arquitetura e seus sinais, que falavam da morte e da sobrevivência pós­tuma. - Ainda hoje há remanescentes desse tipo de cemitérios vastos, espe­taculares e monumentais; além dos que existem nas cidades do Brasil, sejam citados o do Père-Lachaise de Paris, o Cemitero Monumentale de Milão, o Staglieno de Gênova, o Forest Lawn Memorial Park perto de Los Angeles... São necrópoles, cidades dos mortos, bem definidas como tais.

Nota-se, porém, nos tempos atuais uma tendência a apagar, tanto quanto possível, os sinais da morte. Esta parece tornar-se algo de tão horren­do que até os seus símbolos clássicos são removidos do convívio dos mor­tais. A imortalidade ou a sobrevivência parece ser um "antigo sonho", produ­to de mentalidade simplória ou de imaginação fecunda. O famoso mentor da Revolução Francesa, Maximilien de Robespierre (+ 1794), tinha a crença na ressurreição como uma "ficção necessária". A morte é o silêncio e impõe o silêncio sobre a própria morte e o post mortem. "Os vivos têm medo dos mortos; têm medo principalmente da morte" (G. de Menas).

Se não, há mais lugar para o "antigo sonho" da imortalidade, também já não deve haver espaço físico para exprimi-lo..., não deve existir "terra dos mortos". É o que se verifica em algumas sociedades contemporâneas; aí os cemitérios vão desaparecendo ou tornando-se algo cada vez mais vago e des­caracterizado.

Uma das maneiras de realizar essa chamada "estética do desapareci­mento" consiste em assemelhar os cemitérios a parques ou áreas verdes, nas quais até as crianças se divertiriam. Tal é a tendência dos anglo-saxões.[1]

Outra forma da "estética do desaparecimento" concebe as necrópoles como imóveis modernos ou edifícios-torres, que não se distinguem dos de­mais no conjunto de prédios das cidades.

Segundo estas duas maneiras de proceder, já não aparecem novos ce­mitérios nos ambientes dos vivos, mas, ao contrário, ocultam-se ou dissimulam-se as necrópoles ou as cidades dos mortos.

Outro comportamento, mais radical ainda, é observado mais recente­mente: há projetos de necrópoles subterrâneas, de tal modo que os cemité­rios são, por sua vez, "enterrados" ou subtraídos aos olhares dos viventes.

Por último, verifica-se em alguns casos que se vêm repetindo: no plane­jamento de novas cidades, os urbanistas simplesmente esquecem-se de prever um espaço para os mortos.

Todos estes fatos parecem ter uma raiz comum, a saber: o desejo de afastar a recordação da morte. Esta, quando não pode ser silenciada, é tra­vestida ou relegada para as fronteiras do invisível. Nada mais se tem a dizer sobre a imortalidade e a sobrevivência; no próprio interior! das necrópoles, os túmulos são estandartizados, mudos, atrofiados em sua simbologia. Os anti­gos cemitérios parecem ilhas estranhas no conjunto urbanístico[2].

É sobre este fundo de cena que se pode considerar a cremação em nos­sos dias. Não seria ela, ao menos em alguns casos, a expressão do anseio, ca­da vez mais difundido, de apagar os vestígios da morte?

Esta, aliás, começa a ser escamoteada nos hospitais: em nome da técni­ca médica ou da obstinação terapêutica, o paciente é isolado; a assistência que se lhe presta, é estritamente profissional, às vezes impessoal; o doente se vê cercado de aparelhos e de profissionais que observam os registros da apa­relhagem, às vezes em dolorosa solidão (visto que os entes mais caros só fu­gazmente o podem abordar).[3]

Uma vez averiguada a morte, os técnicos se empenham por fazer desa­parecer o cadáver... A morte é marcada por um interdito ou um tabu, mais forte do que o do sexo?[4]

A cremação vem a ser uma ulterior etapa de apagamento da morte. É a maneira mais científica, mais limpa, mais eficaz e mais rápida da elimina­ção de cadáveres que se tornam embaraçosos, onerosos, talvez insuportáveis, para os sobreviventes. Embora não seja mais econômica, é a forma de dis­pensar os vivos de conservar o túmulo e visitar os mortos no cemitério. As cinzas ou são guardadas em columbários de modo muito impessoal ou ati­radas dentro das águas de rio ou de mar ou lançadas ao ar num jardim de saudades... A cremação tornou possíveis os genocídios cometidos por Adolf Hitler: o problema dos carrascos não era o de matar, mas o de se desfazer dos montões de cadáveres...

Verdade é que a perspectiva da incineração suscita muitas vezes certa repulsa ou mesmo o desespero. É também verdade que as razões alegadas em favor da cremação podem ser sinceras e fundamentadas: higiene, urbanismo, ecologia, progresso, economia (?)... Mas não se pode negar que exprimem outrossim o modo de pensar (consciente ou inconsciente) de uma sociedade secularizada ou dessacralizada, ... sociedade para a qual a dedicação de tem­po gratuito e ritual aos mortos não tem sentido, visto que há tão pouco tempo para dedicar aos interesses dos vivos. Os pacientes que pedem a cre­mação de seus cadáveres para não onerar a sua família, corroboram essa lo­gística tecnicista, ainda que só pensem em aliviar os seus parentes.

A bem da verdade, pode-se crer que a voga da cremação nos países ocidentais se deve, em parte, também à influência das religiões orientais, es­pecialmente da Índia. Para estas, o corpo é o invólucro perecível que o espí­rito depõe na hora da morte, a fim de poder revestir-se de outro invólucro na próxima reencarnação. Esta convicção, sem dúvida, subestima ou rela­tiviza o valor do corpo que cada indivíduo tem na vida presente. Outra é a concepção cristã, que admite uma só passagem do homem por esta terra e, por isto, aprecia grandemente o corpo humano como sendo instrumento e teatro do aperfeiçoamento ou da auto-realização da alma humana.

Em alguns casos, os familiares pedem a urna portadora das cinzas do defunto a fim de a guardar em casa... A intenção pode ser boa ou ditada por saudades. Parece, porém, contraditória em relação ao rito da cremação, que é a forma mais radical de acabar com algo que se torna oneroso e indesejado. A experiência ensina que em alguns casos a presença da urna em residência da família tem dado origem a ritos familiares e fantasiosos; restauram o cul­to dos mortos, que a incineração parece querer apagar.

Passemos a uma

3. Conclusão

Não há dúvida, a incineração tem seus aspectos válidos e positivos; po­de implicar benefícios para a sociedade contemporânea. Mas não deixa de ter seu caráter ambíguo: ela entra em voga precisamente numa época em que a imagem da morte tende a ser apagada da memória dos vivos; a incine­ração é, sem dúvida, uma forma expedita e sumária de contribuir para esse apagamento da morte... Ora a fuga do conceito de morte e dos seus símbo­los não somente é anti-cristã, mas é também anti-humana. Com efeito; a mor­te é a única certeza que a criança pode ter ao nascer; é o grande Norte que deve nortear toda a existência terrestre de alguém. Já os antigos romanos diziam: "In omnibus respice finem. - Em tudo o que faças, considera o fim". É o fim que dita as etapas da caminhada e que indica o rumo a seguir; quem não quer pensar no fim, 'torna-se um barco à deriva das ondas e não vê sentido em sua existência. Daí a importância de não se esquecer o desfe­cho da vida humana; esta pode ser comparada a um livro, do qual cada dia o indivíduo escreve uma página e que há de ser revisto e entregue lúcido, poli­do e rico de mensagem aos sobreviventes no dia em que o autor terminar sua jornada terrestre. - Para o cristão, estas reflexões filosóficas são mais signi­ficativas ainda, pois ele sabe que a morte não é uma ruptura, uma perda, mas é a transição para a plenitude da vida; nesta perspectiva, a morte perde o seu caráter horrendo e detestável, para tornar-se a consumação almejada por muitos e muitos justos no decorrer da história. Santa Teresa dizia: "É tempo de acabar esta noite de má pousada!" ou ainda: "Senhor, é tempo de nos vermos!"

Ao enfatizar estas verdades, não tencionamos contradizer às tendên­cias modernas de evitar o masoquismo ou as atitudes macabras, sentimentais e teatrais que a morte suscitou em tempos passados. É oportuna, sim, a rea­ção a tal desolação. A fé cristã só pode apoiar e fortalecer atitudes sóbrias e comedidas perante a morte; a Liturgia dos defuntos hoje em dia canta o Ale­luia, à diferença do que acontecia outrora. Mas o que a fé cristã não aceita, é o apagamento da realidade da morte e dos seus símbolos; é a fuga sistemá­tica de tal recordação como se fosse algo de feio ou um tabu. O cristão te­nha em vista diariamente a possibilidade da morte, que não pede licença e muitas vezes não manda aviso prévio; enquadre este desfecho dentro de uma prospectiva de confiança e otimismo..., confiança e otimismo que têm seu fundamento na Palavra de Deus, à qual cada indivíduo responderá mediante uma conduta de vida íntegra ou fiel à sua vocação. Quem vive de tal modo, vai perdendo o medo da morte, para considerá-la cada vez mais como colhei­ta feliz de uma farta semeadura ou como plenitude de uma vida interior que vai desabrochando aos poucos no decorrer da existência terrestre.

Bibliografia:

ANGUÉ JEAN-LOUIS, Incineration et ritual des funérailles, em Etudes, dezembro 1985, pp. 663-676.

BAGNARD, GUY Les incinerations et I'Eglise, em La Documentation Ca­tholique, n. 1993, 5/11/1989, pp. 961s.

LOTZ/KA, INËS, Incineration: malaise pour un dernier adieu, em Etudes, dezembro 1985, pp. 657-662.

SCHLEGEL, JEAN-LOUIS, Logiques de l'incineration, em Etudes, dezem­bro 1985, pp. 677-680.

URBAIN, JEAN-DIDIER, Les cimetières d'Occident, em Etudes, août-sep­tembre 1982, pp. 193-203.

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NOTAS:

[1] Em 1986 o Deputado Freitas Nobre no Brasil elaborou um projeto que transformava os cemitérios em jardins de lazer e de pesquisas científicas. Os mortos seriam enterrados em posição vertical; em cima dos cadáveres colo­car-se-iam estrume e adubantes a fim de tornar o solo fértil, e neste se plan­tariam árvores e vegetais destinados a proporcionar bem-estar a quem dese­jasse passear, e matéria de pesquisas aos estudiosos da flora e da fauna. Cf. PR 293/1986, pp. 475-478.

[2] Não há dúvida, as observações acima são muito mais consentâneas com a realidade européia do que com a brasileira. Verifica-se, porém, que as ten­dências de além-mar vão penetrando aos poucos em nosso país e ganhando voga crescente em nossos centros urbanos.

[3] Nada se pode objetar ao emprego da técnica médica e dos procedimentos mais requintados da ciência (desde que não firam a Ética). Mas o que muitos pensadores registram, é que os recursos modernos condenam freqüentemen­te o enfermo a uma solidão dolorosa, na qual lhe falta o acompanhamento dos familiares e amigos.

[4] Sabemos que Freud julgava serem o Eros e o Thánatos, o sexo e a morte, o amor e a agressividade, os dois impulsos fundamentais do ser humano.

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