domingo, 1 de abril de 2007

Conversões: três importantes depoimentos luteranos

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 358 1992)


Em síntese: O presente artigo apresenta, primeiramente, as razões pelas quais o teólogo luterano Richard Neuhaus, nos Estados Unidos, se tor­nou católico e foi ordenado presbítero: o convertido afirma não haver, hoje em dia, por que manter o cisma luterano declarado no século XVI, quando a Igreja Católica atravessava uma crise complexa; Cristo orou pela unidade dos seus discípulos e Ele a quer até hoje.

Acrescente-se a tal afirmação de Neuhaus que, mesmo nas épocas de crise da Igreja, não há razão que justifique uma ruptura da unidade; Cristo prometeu sua infalível assistência á igreja entregue a Pedro, independentemente da santidade dos homens; não são estes que santificam os fiéis, mas é Cristo que, por meio de instrumentos humanos, o faz indefectivelmente na única Igreja por Ele fundada.

Após o testemunho de Neuhaus, as páginas subseqüentes apresentam o depoimento dos arcebispos luteranos primazes da Suécia e da Finlândia respectivamente, proferido na basílica de São Pedro (Roma) aos 5 de outubro de 1991, por ocasião de um culto ecumênico comemorativo do sexto centená­rio da canonização de Santa Brígida da Suécia. Ambos fazem eco aos dizeres de Neuhaus e incitam os cristãos ao trabalho corajoso em prol da unidade cristã.

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O protestantismo norte-europeu (luterano) difere daquele que ge­ralmente se vê no Brasil. Mais serenos e objetivos, os luteranos mostram hoje em dia o desejo de rever o passado e superar os obstáculos que ainda impedem a reconstituição da unidade cristã; as objeções outrora le­vantadas por Lutero e seus contemporâneos reformadores já não têm ra­zão de ser atualmente.

É o que afirmam os três depoimentos que, a seguir, transcrevere­mos: o primeiro é da pena de um teólogo luterano dos Estados Unidos, que se fez católico, ao passo que os dois outros se devem respectivamente aos arcebispos primazes luteranos da Suécia e da Finlândia reuni­dos em Roma com o S. Padre João Paulo II por ocasião da celebração do sexto centenário da canonização de Santa Brigida da Suécia.

I. POR QUE ME TORNEI CATÓLICO?

O teólogo luterano Richard J. Neuhaus converteu-se ao Catolicis­mo e foi ordenado presbítero em 1990. Interrogado pela imprensa, expli­cou as razões de seu gesto, que causou grande impacto na comunidade luterana. Eis o seu testemunho:

"No decorrer dos últimos vinte anos ensinei e repeti publicamente que, se a existência da comunidade eclesial luterana foi necessária em certa épo­ca, ela já não é tal hoje, e, se não é mais necessária, já não pode ser justifica­da.

Foi por este motivo que, contando com a colaboração de católicos que compartilhavam as minhas idéias concernentes ao objetivo e à missão do lute­ranismo segundo a Confissão de Augsburgo,[1] resolvi transpor o hiato que existe entre Roma e a Reforma desde o século XVI. Isto significava e significa hoje o desejo de chegarmos a uma reconciliação eclesial e à restauração de plena comunhão com o bispo de Roma. Aguardando que isto aconteça, não cessei de orar e espero sinceramente que a decisão por mim tomada contri­bua para tanto.

Ao mesmo tempo, cheguei à dolorosa certeza de que esse meu modo pessoal de compreender a Confissão de Augsburgo e a Reforma é rejeitado por razões institucionais e, não raro, em virtude de princípios teológicos, por numerosos segmentos da Comunhão Luterana. No tocante à Igreja Evangéli­ca Luterana da América, da qual fui pastor, a evidência dos fatos levou-me à conclusão de que o seu modo prático de compreender a Igreja não é orientado pela Eclesiologia do Novo Testamento nem pelos Padres da Igreja, nem pela Confissão de Augsburgo, mas por uma certa 'terminologia' americana.

Sempre compreendi que, na medida em que fui batizado em Cristo, fui batizado também no seio de uma Igreja única, santa, católica e apostólica. Meu desejo, portanto foi, como cristão ocidental formado na tradição da Reforma, o de chegar à plena comunhão com Aquela que representa a realidade mais plena e mais bem organizada dessa Igreja através dos tempos.

Da minha parte, posso abertamente testemunhar, retomando as pala­vras do Concílio do Vaticano II, que existem numerosos elementos de santifi­cação e verdade fora da estrutura visível da Igreja. E, conforme a Constituição Lumen Genfium (A Luz dos Povos), esses elementos, na medida em que são dons que pertencem como próprios à Igreja de Cristo, suscitam uma di­nâmica interna no sentido da unidade católica. Essa dinâmica interna, que descobri no Luteranismo, foi a que me levou a tornar-me católico romano.

Sei muito bem que alguns luteranos me responderão dizendo que a se­paração é necessária por causa do Evangelho,... Evangelho entendido como santificação pela graça mediante a fé e os méritos de Cristo. Peço a esses luteranos considerem que o Evangelho pode ser proclamado hoje no seio da Igreja Católica Romana, e é assim proclamado. Mais ainda: em absoluto não é evidente que a denominação luterana de nossos dias dê realmente testemu­nho do Evangelho".

Após estas declarações, o Pe. Neuhaus agradeceu à comunidade lu­terana a formação que ele recebeu: "Dou-lhe graças e sei que terei sem­pre uma dívida para com a Igreja dita Luterana".

Comentando...

Estas palavras são importantes por provirem de alguém que, pro­fessando a fé luterana, foi percebendo aos poucos que não há razão para se manter o cisma. No século XVI Lutero se impressionou com a exuberância de obras de piedade do povo católico, pouco nutrido pelas Escri­turas, e julgou que devia dizer Não à Igreja confiada por Cristo a Pedro a fim de fundar a sua igreja (luterana). Ora em nossos dias a pregação ca­tólica está revigorada por contato assíduo com as Escrituras, que levam a uma piedade litúrgica sólida; o ensinamento da Teologia inspira uma es­piritualidade autenticamente bíblica; o cristão sabe que a graça de Jesus Cristo antecede as suas obras meritórias, de modo que ele é gratuita­mente justificado ou feito amigo de Deus. Daí não haver razão para se manter o cisma luterano.

Tal é o pensamento de Richard Neuhaus. É necessário acrescentar que as falhas ou as pretensas falhas na Igreja de Cristo nunca justificam um cisma. Com efeito; não são os homens santos que santificam os cristãos na Igreja, mas é Cristo que, presente no sacramento da Igreja, santi­fica os cristãos; os homens são apenas o instrumento do qual Cristo se serve; o ouro de Deus pode passar por mãos sujas sem ser contaminado. Com outras palavras: na Igreja fundada por Cristo e entregue a Pedro, existe, além do aspecto humano (ora mais, ora menos santo), uma reali­dade divina, indefectível (Cristo), que é a fonte da graça destinada aos fiéis; Cristo não falha, mesmo quando os homens são deficientes. Ele prometeu estar com os Apóstolos e seus sucessores até o fim dos tempos (Mt 28,18-20). Essa presença independe da santidade dos homens; de­pende, sim, da continuidade da sucessão apostólica; uma vez rompida esta, a sociedade que os homens possam fundar, será meramente huma­na, destituída da infalível assistência que Cristo prometeu à sua Igreja.

II. FALAM DOIS PRELADOS LUTERANOS

A 7 de outubro de 1991 comemorou-se o sexto centenário da Bula Ab origine mundi do Papa

Bonifácio IX, que canonizou (ou inseriu no Catálogo dos Santos) Santa Brígida da Suécia. Esta, oriunda daquele país, foi para Roma, onde fundou uma Congregação Religiosa e muito tra­balhou em prol da Igreja numa época (século XIV) em que os poderes ci­vis a queriam tornar dependente de seus interesses políticos.

A fim de celebrar tal centenário, foram a Roma várias personalida­des da Escandinávia, reunindo-se com o Papa João Paulo II e membros da Cúria Romana em assembléias de oração comunitária. Dentre estas destaca-se a que se realizou no sábado 5 de outubro na basílica de São Pedro: o Santo Padre presidiu então às Primeiras Vésperas do XXVII domingo do Tempo Comum, juntamente com o Dr. Bertil Wekstrtïm, Ar­cebispo-Primaz luterano de Upsala (Suécia), o Dr. John Vikstrõm, Arce­bispo-Primaz luterano de Turku (Finlândia), e os Bispos católicos de Es­tocolmo e de Helsínquia, respectivamente D. Hubertus Brandenburg e D. Paul Verschuren.

Encontravam-se presentes Suas Majestades o Rei Carlos Gustavo da Suécia e a Rainha Sílvia; a Exma. Sra. Dantlta Walesa, Esposa do Pre­sidente da República da Polônia; o Senador Giulio Andreotti, Presidente do Conselho dos Ministros da República Italiana; o Exmo. Dr. Alfred Gomol­ka, Presidente do Conselho dos Ministros da Região Mecklenburgo-Po­merânia Ocidental, Representante oficial do Governo da República Fe­deral da Alemanha; vários Cardeais, Arcebispos e Bispos da Cúria Roma­na; os Membros do Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé; ou­tros Prelados da Delegação luterana, entre os quais o Bispo luterano de Oslo (Noruega) Dr. Andreas Aarflot, as Religiosas Brigidinas, e numeroso grupo de Religiosos e fiéis em geral.

Muito significativas foram as alocuções do Papa João Paulo II e dos Arcebispos luteranos da Suécia e da Finlândia proferidas naquela ocasião. De cada qual dos discursos destes prelados não católicos seguem-se al­guns extratos:

II.1. Disse o Arcebispo Luterano Primaz da Suécia

" 'Senhor, mostrai-me, o caminho e tornai-me pronta a segui-lo'!

Estas palavras de imploração recitadas por Santa Brígida são im­portantes e adequadas aos cristãos até nos nossos dias. Juntamente con­vosco, oro a fim de descobrir o caminho que leva para o interior.

Mediante o Seu Espírito Santo, Deus leva-nos cada vez mais profundamente para o centro, que é o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, para o mistério da fé. A partir do momento em que recebemos o batismo, somos levados a uma profunda comunhão de vida, no próprio Jesus Cristo. Quando participamos da Eucaristia, recebemo-lo a Ele mesmo, os Seus sofrimentos e a Sua vitória. Experimentamos como o céu e a terra se unem, e observamos como a liturgia e o serviço diaconal estão ligados entre si. O caminho interior leva-nos, da ambigüidade e da divisão, para a unidade em Cristo, para o Senhor da nossa Igreja - para Aquele que orou a fim de que todos fôssemos um só...

Senhor, mostrai-me o caminho. Juntamente com todos vós, oro por uma clareza de visão, a fim de podermos ver o caminho exterior. Iniciamos a nossa peregrinação juntos, e andamos a maior parte do caminho juntos. Agora caminhamos em frente, como companheiros cris­tãos de muitas Igrejas. Aqui mesmo estamos circundados por mártires e santos de todos os tempos, e, agora em particular, estamos a pensar em Santa Brígida. Primeiro de tudo, o próprio Jesus Cristo está conosco. Aquele que veio antes de nós, Aquele que caminha ao nosso lado, Aquele que é o nosso guia e o nosso intercessor. As suas palavras de oração são um apelo dirigido a nós: Oro para que todos sejam um só. Podemos ver diante de nós os obstáculos, que impedem o nosso caminho para a unidade. Mediante a Sua oração, adquirimos força para eliminar estes obstáculos, a fim de podermos ir avante.

No tempo que passamos juntos, aprofundamos a interpretação das causas da Reforma, bem como o seu significado. Todos concluímos que a Reforma pretendia ser um movimento reformador, dentro da Igreja una, santa, católica e apostólica. O objetivo da Reforma não era provocar a se­paração entre nós, ou romper a comunhão eucarística. Contudo, ela foi necessária, como Santa Brígida foi necessária na história da Igreja. Che­gou o momento de declarar que as denúncias da época da Reforma já não são válidas. O diálogo ecumênico provou a existência de uma unida­de básica, por exemplo no caso da justificação mediante a fé. Os precon­ceitos foram postos de lado e a amizade cresceu. Mediante orações e ce­lebrações conjuntas, tornando-nos capazes de nos aproximarmos uns dos outros.

Agora, precisamos de lançar fundamentos ao longo do nosso ca­minho comum, rumo ao futuro, fundamentos que marquem importantes e decisivos passos no caminho para a unidade. O Concílio Vaticano II foi um destes fundamentos. Esta concelebração ecumênica na Basílica de São Pedro é outro. Isto confirma a nossa herança comum, e expressa a ânsia que temos, de uma unidade visível da Igreja".

II.2. Disse o Arcebispo Luterano Primaz da Finlândia

"O trabalho ecumênico com freqüência compreende riscos. A nossa experiência conjunta mostra que as nossas tentativas de alcançar a uni­dade, às vezes, só servem para consolidar as forças de oposição. Às vezes, os mais interessados protagonistas do movimento ecumênico repre­sentam um risco. É óbvio que o movimento ecumênico precisa de ho­mens e de mulheres que trabalhem com fervoroso entusiasmo em prol da unidade da Igreja de Cristo. O nosso problema não consiste em termos muitos desses homens e dessas mulheres mas, pelo contrário, em termos muito poucos- e no fato de a apatia e a precaução serem mais fortes do que o entusiasmo. Contudo, nalgumas ocasiões um entusiasmo exagera­do pode enfraquecer a credibilidade do ecumenismo nas nossas Igrejas.

Por outras palavras, parece perigoso avançar. Então, é mais seguro parar, deixar de trilhar o caminho rumo à fraternidade e à unidade? Não, absolutamente não! As alternativas não são a segurança de esperar ou a insegurança de avançar, a segurança de se demorar ou os riscos de en­frentar a situação e avançar.

Como Santa Brígida diz ao Senhor, na sua oração: É perigoso de­ter-se, e também perigoso avançar. Durante a nossa caminhada ecumê­nica, não enfrentamos a escolha entre a segurança e o perigo. Não é apenas avançar, ir em frente que representa um perigo. Também é perigoso deter-se e perder tempo ao longo do caminho para a unidade cristã. He­sitar e deter-se neste caminho pode provocar tanta inquietação e conflito quanto apressar-se impacientemente. Com efeito, o maior perigo aqui é o que a desobediência traz consigo mesma. Portanto, escutemos Santa Brígida, quando ela diz a Nosso Senhor: 'É perigoso deter-se'.

O vale pelo qual devemos passar a caminho para a Terra Prometida da unidade cristã, parece-se com um vale cheio de perigos, um vale insi­dioso. Todavia naquele vale existe algo mais. Para o dizer com as palavras do salmista: 'Ainda que eu atravesse o vale tenebroso, nada temerei' (SI 22,4). Ele sabia que no vale não havia apenas sombras tenebrosas. O próprio Deus também estava ali".

Comentando...

Como se vê, as palavras dos dois prelados luteranos são altamente alvissareiras; confirmam a impressão de que já não há motivo para se manter o cisma luterano, que é a matriz de todo o cisma protestante; o Protestantismo é um conjunto de reformas da Reforma Luterana ou da Reforma Calvinista, do século XVI. É de lamentar que o Protestantismo na América Latina seja tão diferente do dos países do Norte Europeu. Enquanto este tem visão clara da história passada e anseia pela recons­tituição da unidade cristã, aquele é agressivo e polêmico, espalhando panfletos que, na base de inverdades e ignorância, tentam denegrir a Igreja Católica. Não é o espírito cristão que inspira tal atitude injuriosa. Possa o Espírito de Deus abrir os olhos dos protestantes do Brasil para a necessidade de pôr de lado os preconceitos e deixar-se mover pela graça divina na direção de um diálogo fraterno e construtivo!

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NOTAS

[1]. A Confissão de Fé de Augsburgo (Baviera) ou Augustana foi redigida pelo humanista Melancion e aprovada por Lutero. Os príncipes luteranos da Alema­nha a apresentaram ao Imperador Cartos V em Augsburgo no ano de 1530. Revestiu-se de grande importância para o luteranismo.

Os termos dessa Profissão de Fé são assaz moderados. Na primeira parte (artigos 1-21), é exposta a doutrina luterana numa formulação que se afasta o menos possível da fé católica; não há aí uma palavra de negação do Papado, do sacerdócio ministerial, do purgatório, do culto aos Santos, das indulgências; no fim dessa primeira parte lê-se: “Toda a divergência versa apenas so­bre alguns poucos abusos" (I). Na segunda parte são anunciados como abu­sos, a comunhão eucarística sob a espécie de pão apenas, o celibato ecle­siástico, as Missas privadas, a obrigação da Confissão sacramental, o pre­ceito do jejum, os votos religiosos e a jurisdição episcopal.

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