terça-feira, 27 de março de 2007

Ciência e Fé: homem e macaco: diferenças psíquicas

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 428/1998

Em síntese: Há quem julgue que o psiquismo humano provém do psiquismo do macaco, de modo que o ser humano seria, corpo e alma, produto da evolução. O artigo que se segue, analisa as expressões do psiquismo dos antropóides (chimpanzé, orangotango e gorila) e conclui que, no animal infra-humano, existem instintos numerosos e certeiros (o que se chama "inteligência prática”), não, porém, inteligência abstrativa, capaz de formar conceitos, juízos e raciocínios. Além disto, são mencio­nados os pretensos casos de linguagem do animal: verifica-se que este é incapaz de articular vocábulos; pode, sim, aprender a linguagem dos ges­tos, que ele repete, imitando o que lhe é sugerido, sem que conheça o valor dos símbolos e a sua sintaxe.

* * *

O estudo da evolução, principalmente no tocante ao homem, inte­ressa-se mais pelas transformações físicas, corpóreas, do que pelas mudanças psíquicas.

Isto se deve ao fato de que a paleontologia, ao menos nos seus períodos mais antigos, apresenta quase exclusivamente ossos; é de no­tar também que muitos paleontólogos ignoram o psiquismo em virtude dos seus pressupostos materialistas. - O presente artigo levará em con­ta o psiquismo dos animais próximos do homem e o do homem, procu­rando apontar as diferenças essenciais que distinguem um do outro.

1. Tendências e Impulsos nos Animais Irracionais

Uma das primeiras observações a fazer é que o comportamento dos animais infra-humanos é profundamente movido por instintos, ao passo que o do homem é pouco instintivo e muito mais livre e variegado. - Em que consiste propriamente o instinto?

1.1. Instinto

Em todo instinto distinguem-se fundo e forma.

O fundo é a inclinação, o impulso em direção de alguma coisa.

A forma é o modo ou o conjunto de atos que levam à consecução do objetivo almejado. Por exemplo, no caso da construção de um ninho, o fundo do instinto é o impulso para o construir. A forma são as múltiplas modalidades de confecção de um ninho de ave: o ninho de uma andori­nha é diferente do de um rouxinol e de um pardal.

No instinto tanto o fundo quanto a forma são congênitos e hereditá­rios; isto significa que, sem aprendizagem, todos os animais da mesma espécie atingem determinado objetivo mediante as mesmas modalida­des. Pois bem; os instintos comandam boa parte da atividade dos ani­mais infra-humanos.

1.2. Tendências

No homem há alguns instintos, como o de autoconservação ou autodefesa contra uma agressão. Todavia, ao lado de poucos instintos, há um leque de atividades livres, que dependem de aprendizagem. Esta se faz por raciocínio e empenho da força de vontade.

A criança que cresça no seio de uma família humana, aprende o comportamento humano. Mas, se educada entre animais infra-humanos, aprende a agir como estes. É o que atestam os casos registrados por alguns pesquisadores: L. Malson, por exemplo refere 52 exemplos, não todos suficientemente documentados; ver I Ragazzi Selvaggi, Milano 1971. Eis, porém, um exemplo fidedigno. porque descrito por quem des­cobriu e acompanhou durante anos as crianças-lobo.

Com efeito; em 1921, em Midnapore (índia), o pastor protestante Singh encontrou na cova de alguns lobos duas crianças, de idade aproxi­mada de dois e oito anos respectivamente, e deu-lhes os nomes de Amalá e Kamalá. Retiradas da cova, as duas crianças se comportavam como lobos; caminhavam a quatro patas; deixavam pender a língua entre os lábios abertos; imitavam a respiração ofegante dos lobos; abriam a boca desmedidamente como se fosse uma goela. Fugiam da luz; só saiam de noite, urrando repetidamente; bebiam lambendo com a língua; comiam como os lobos. Eram agressivas em relação aos homens, mas carinho­sas para com os cãozinhos. Foram as duas meninas levadas para um Orfanato e acompanhadas pela esposa do pastor Singh. Amalá viveu apenas um ano; morreu de nefrite. Após dois meses de educação huma­na, aprendera a dizer "água"; após três meses, adquiriu hábitos huma­nos. Kamalá, que era mais velha, custou mais a se adaptar ao ambiente humano; morreu também de nefrite, com 16 anos de idade; conseguiu aprender 50 vocábulos; exprimia-se livremente e tinha um comportamento humano.

Outro caso interessante é o do filho, chamado Sin, da Sra. Siruté Galdikas. Educado junto à mãe até os nove meses de idade, mostrou-se em tudo igual aos demais meninos. Aos nove meses foi posto em com­panhia de uma fêmea de orangotango recém-nascida. Ora Sin dispôs a imitar o animal: trepava nas árvores, caminhava de quatro, entendia-se com o orangotango mediante os gestos habituais de tal espécie. Aos três anos de idade, Sin foi colocado em companhia de outros meninos; então deixou de imitar o orangotango para conduzir-se como os meninos.

Pergunta-se, pois: por que no homem há tal nobreza de comporta­mentos inatos? Seria isto uma nota de inferioridade ou uma característi­ca de superioridade em relação aos infra-humanos? - Em resposta, afir­ma-se que é um traço de superioridade, porque é condição para que haja aquela liberdade de arbítrio que vem a ser a grandeza e dignidade do ser humano. Se este fosse programado por sua própria natureza, não pode­ria escolher; talvez tivesse boa conduta, mas não meritória, porque falta­ria a liberdade de escolha.

1.3. Instintos nos antropóides

Detenhamo-nos agora sobre os instintos dos antropóides (gorila, chimpanzé, orangotango).

Os antropóides vivem em grupos. Estão sujeitos aos instintos de territorialidade e de dominação, como os outros animais; todavia proce­dem diferentemente.

Delimitam o seu território com sinais peculiares. Quando dois ban­dos rivais se encontram em regiões limítrofes, há manifestações ruido­sas, mas sem agressividade.

O domínio é adquirido de diversas maneiras, geralmente mediante exibições de força e habilidade: saltos de acrobacia, quebra de galhos, lances de pedra.

O deslocamento dos bandos, o seu modo de caminhar, os seus gestos e sinais comunicativos são bem definidos e espontâneos. O mes­mo se diga das etapas do parto, que são percorridas naturalmente por um instinto certeiro.

Alguns fatos singulares confirmam esta verificação.

O Prof. K. N. Schneider observou dois pequenos chimpanzés: um criado junto à mãe dele, e o outro separado da mãe. Poucas diferenças apresentavam em seu comportamento. Cf. K. N. Schneider, Aus der Jugendentwicklung einer künstlich aufgezogenen Scimpansin,Zeitschrift für Tierpsychologie 7 (1950), pp. 485-558. em

O filhote de gorila, Goka, nasceu e foi criado em gaiola; aos onze meses de idade, quando a noite se aproximava, recolhia galhos e folha­gens para fazer seu ninho, como faziam os gorilas em liberdade. Isto quer dizer que o aproximar-se da noite suscitava no animal a necessida­de inata de se proteger e defender. Pode até acontecer que tais animais realizem, mesmo sem ter galhos e folhagens, todas as ações necessári­as para confeccionar um ninho: recolhem e arrumam os ramos que não existem senão no seu psiquismo.

Também a linguagem dos animais é inata. Os animais superiores emitem sons diversos segundo as circunstâncias. Aproximando-se uma águia, lançam um grito que provoca a fuga acelerada de todo o bando. Aproximando-se um leopardo, o sinal é outro e faz que os seus seme­lhantes procurem refúgio nas cumeadas das árvores. A aproximação de uma serpente é assinalada por um brado correspondente.

Quando um chimpanzé encontra um alimento bom, emite sons que parecem latidos. Se é atacado, grita forte. Se está em situação alarman­te, brada sinistramente. Tais emissões de voz são variegadas, mas ina­tas, instintivas, definidas pela natureza uma vez por todas. Cf. J. Goldberg, L'animale e I'uomo. Firenze 1973, p. 133.

1.4. A "Inteligência" dos Animais Superiores

Entendemos por "inteligência" a faculdade de conceber idéias ou noções abstratas (como justiça, amor, bondade...), formular juízos e de­senvolver raciocínios ou silogismos. Assim entendida, a inteligência é uma faculdade espiritual própria do ser humano. Nos últimos tempos tem-­se usado a palavra "inteligência" no sentido de faculdade de resolver problemas singelos, de modo intuitivo, como seriam o de adaptar-se a novas circunstâncias, o de repetir experiências úteis, o de preparar ins­trumentos primitivos. É isto que se chama "estimativa", ou "inteligência prática, espaço-temporal, discernimento".

Ora verificam os pesquisadores que os chimpanzés e animais su­periores possuem a estimativa ou inteligência prática. Eis as experiênci­as respectivas:

1.4.1. Fabricação de instrumentos primitivos

A Profª. Jane Van Lawick-Goodall passou diversos anos na flores­ta, observando o comportamento dos chimpanzés. Verificou, entre ou­tras coisas, o seguinte;

Esses animais podem servir-se de canas de bambu, modificando­-as adequadamente para introduzi-las nas brechas de ninhos de termitas, e assim capturar a estes. Sabem confeccionar uma espécie de esponja mastigando folhas vegetais, a fim de colher maior quantidade de água nas cavidades das árvores. Um chimpanzé chegou a fazer uma esponja desse tipo para absorver os últimos resquícios do cérebro no interior de um crânio de babuíno. Também foram vistos chimpanzés a usar "toa­lhas" confeccionadas com folhas para limpar seu corpo ou pensar suas feridas. Às vezes usam bastões, à guisa de alavanca, para abrir mais o ingresso dos ninhos subterrâneos de certos insetos. Também se obser­vou, na Guiana Francesa, que um chimpanzé utilizou normalmente um tronco de árvore oco, caído no solo como um tambor. Uma fêmea de chimpanzé servia-se de gravetos para limpar os dentes de outros indiví­duos; arrancava as folhas ao pequeno ramo, para ficar só com o que lhe interessava.

Os chimpanzés se alimentam de frutas e pequenos animais, mos­trando predileção pelo cérebro. A fim de o degustar, alargam com paci­ência a abertura occipital onde a coluna vertebral se junta ao crânio, roem com os dentes os fragmentos de ossos; uma vez alargado o buraco, su­gam o cérebro.

Praticam a caça, geralmente procurando animais que não pesem mais de dez quilos. Observam as etapas para perseguir a presa, capturá-la, matá-la, reparti-la... Cada qual dos caçadores recebe uma parte dos despojos, sem que haja disputa entre eles.

Em todos estes casos, ocorre a inteligência prática, espaço-tem­poral, não a inteligência abstrativa, que é própria do homem, capaz de ver com a mente o que não se vê com os olhos. A confirmação desta tese foi obtida mediante tentativas de ensinar aos chimpanzés a linguagem humana, expressão da inteligência abstrativa.

1.5. Os Chimpanzés e a Linguagem dos Mudos

Nos últimos decênios os psicólogos norte-americanos se esforça­ram por ensinar a linguagem humana aos chimpanzés.

Já que estes não conseguem articular vocábulos, foi-lhes transmi­tida a linguagem dos mudos ou dos gestos.

À fêmea Washoe dedicaram-se Allen e Beatrice Gardner, propon­do-lhe o Ameslan (American Sign Language). Na verdade, Washoe aprendeu certo número de gestos, associados entre si, mediante os quais se comunicava com os homens e com outros macacos.

Os resultados assim obtidos moveram o casal Premack a adotar um sistema de comunicação mais sofisticado: associaram placas de plás­tico de cores e formas diferentes a determinados atos e objetos. Conse­guiram êxito, especialmente com a fêmea Sarah de chimpanzé: o animal parecia entender nomes, pronomes, advérbios, conjunções...

Duan Rumbaugh treinou a fêmea Lana a digitar as teclas de um computador, sobre as quais estavam gravados sinais associados a atos e objetos diversos. Lana chegou a completar frases. Por exemplo, quan­do o pesquisador escrevia com as teclas convencionais: "Please Machine give..." o animal apertava a tecla que correspondia a apple (maçã).

A fêmea de gorila Koko, adestrada por Francis Patterson, seguin­do o método de Gardner, chegou a lançar insultos e dizer mentiras.

Estes dados persuadiram o Prof. H. S. Terrace de que os antropóides podem aprender a linguagem humana. Tomou então um pequeno chim­panzé de duas semanas, dando-lhe o nome de Nim Chimpsky em alusão ao famoso filólogo Noam Chimpsky, que afirmava ser a linguagem privi­légio do homem. Aplicou ao animal os gestos do ASL, transmitidos com paciência e habilidade. Os observadores de Nim tomavam nota precisa dos gestos e da cronologia das respostas de Nim; procuraram colher o máximo de informações sobre o animal, recorrendo até a uma câmara de televisão oculta aos olhos de Nim. Verificaram que o chimpanzé apren­deu 125 gestos durante 44 meses de treinamento até os quatro anos de idade. A princípio aprendeu gestos isolados; depois foi associando entre si dois, três e muitos deles. Ao cabo de quatro anos, os pesquisadores haviam registrado 20.000 expressões de Nim consistentes em dois ou três gestos. Terrace julgava que o animal conseguia falar em frases, quan­do teve que mudar de opinião.

Com efeito. O macaco Nim foi entregue a um Instituto de Oklahoma e os pesquisadores se puseram a examinar atentamente os filmes e as gravações realizadas. Terrace ficou impressionado pelo fato de que em quatro anos Nim não demonstrou progresso algum em suas expressões; ampliou, sim, o número de sinais aprendidos, mas não se verificou ne­nhum indício de aplicação do significado dos mesmos. - As crianças, quando alongam suas frases, alongam também o seu conteúdo e signifi­cado; dizem, por exemplo, "cadeira", depois "tomar cadeira", depois "to­mar cadeira papai". Ao contrário, as expressões de Nim com três gestos equivaliam às de dois gestos, por exemplo, "comer Nim", "comer Nim comer"; "dar laranja me dar laranja comer laranja me comer laranja dar me comer laranja dar me vocês". Em dezenove meses Nim não fez pro­gresso de conteúdo. O contrário se dá com crianças normais e também com crianças mudas, que falam gesticulando.

Também se notou que Nim produzia muitos sinais supérfluos ou despropositados, ao passo que as crianças vão mais e mais falando pro­positadamente. Mais: o chimpanzé Nim gesticulava, não como se esti­vesse dialogando, mas como quem está só; 71 % dos seus gestos eram produzidos de modo a acompanhar os do treinador; as expressões mais significativas eram sugeridas por este; a criança, ao contrário, responde dialogando com a mãe como quem conversa.

Ninguém teria percebido tais pormenores se não tivesse havido os filmes que permitiram observar lentamente os gestos do animal; esca­pam a quem contempla o animal em suas atitudes espontâneas.

O Prof. Terrace quis examinar também a câmara lenta, os filmes referentes ao aprendizado lingüístico dos antropóides Washoe, Ally e Koko. Nos dois primeiros casos, pôde verificar que Beatrice Gardner re­alizava os gestos antes de Washoe; Ally imitava sinais efetuados anteri­ormente pelo treinador em 90% dos casos; Koko fazia o mesmo em 100% das suas expressões.

Em suma, as pesquisas apuradas evidenciaram que os chimpan­zés não conhecem os símbolos nem a sintaxe dos sinais que emitem mecanicamente, imitando o que vêem ou o que é sugerido pelo operador.

Quanto à produção de fogo, pergunta-se: está dentro das capaci­dades da inteligência prática do antropóide ou requer inteligência huma­na? - O Prof. S. R. James estudou atentamente os lugares em que se afirmava ter havido fogo aceso intencionalmente, e verificou que todos os casos são assaz duvidosos; com efeito, ou se tratava de cinzas vulcâ­nicas ou de incêndio provocado por fatores naturais como raios, ou ainda eram cinzas aparentes, que, analisadas quimicamente, foram tidas como manganês. Há, porém, quem julgue que mesmo a produção de fogo pode ser efeito da inteligência prática, não havendo necessidade de recorrer à inteligência abstrativa ou humana.

2. A Identidade Intelectual do Homem

As experiências dão a ver que os animais, mesmo os mais evoluí­dos, são dotados de vários e complexos instintos, mas não tem inteligên­cia abstrativa, capaz de formular julgamentos e raciocínios, distinguindo do acidental o essencial em cada objeto. Em vez de instintos propria­mente ditos (com seu fundo e sua forma), o homem possui uma vontade livre, capaz de escolher, entre diversos objetos que a inteligência lhe apre­senta, aquele que melhor lhe pareça. Por conseguinte, não há transição ou evolução do psiquismo dos animais ao psiquismo do homem. O prin­cípio vital ou psiquismo do animal não abstrai do concreto, material, sin­gular ou não concebe noções abstratas, universais; por isto é material (é eduzido da materia quando o animal é gerado e reabsorvido pela matéria quando o animal perece). Ao contrário, o princípio vital ou a psique do homem é imaterial ou espiritual, porque abstrai do concreto, singular ou abstrai da matéria e formula conceitos universais; percebe mentalmente a essência oculta debaixo dos acidentes.

Por conseguinte, a evolução pode ser admitida para o corpo do homem, não para alma do mesmo. E, admitida a evolução, não se pode dizer que o corpo humano provém dos antropóides (gorila, chimpanzé, orangotango) hoje existentes; estes são demasiado especializados ou evoluídos para poder evoluir ulteriormente. O ser humano provém de um tronco mais rude, dito "primata", que se foi aperfeiçoando corporalmente até poder tornar-se sede da alma intelectiva, que é espiritual e que, por isto, é criada diretamente por Deus para cada indivíduo humano.

Não há meio-termo entre o antropóide (ou macaco) e o ser huma­no. Pois o que define um indivíduo vivente, não é a sua ossada, mas o seu princípio vital com a sua expressão psíquica. Ora, o princípio vital é indivisível: ou é 100% de macaco ou 100% de homem. Pode haver au­tênticos seres humanos com ossada muito rude, como também autênti­cos macacos com gestos aparentemente humanos.

Este artigo muito deve à obra de Vittorio Marcozzi, Alia Ricerca dei Nostri Predecessori. Edizioni Paoline, Milano 1992.

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