quarta-feira, 14 de março de 2007

Aborto: fui uma morta-viva; fui um vivo-morto

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 408/1996)


Em síntese: Vai, a seguir, comentado o triste significado do aborto para a criança que, inocente, é condenada a morrer no seio materno. A ocasião para se pôr em relevo este aspecto da questão é a entrevista concedida a VEJA de 13/12/95, pp. 7-10, por Joana Leal Lima, que foi vítima de estupro, engravidou e conseguiu que lhe extraíssem a criança. Um jornalista, Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz, faz as vezes da criança que comenta as declarações de sua mãe, feliz por haver abortado.

***

A revista VEJA, em sua edição de 13/12/1995, pp. 7-10, publicou a entrevista concedida por Joana Leal Lima, mulher de 41 anos de idade e 5a. série completa. Foi estuprada, engravidou e, após quase três meses, conseguiu que lhe extraíssem a criança no Hospital do Jabaquara em São Paulo.

A seguir, transcreveremos de VEJA, o relato dos fatos. E acrescentar-lhe-emos a resposta que aos mesmos quis dar o Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz, da diocese de Anápolis (GO), fazendo as vezes da criança eliminada do seio materno. Na verdade, quando se trata de aborto, não se deveria considerar apenas o grave incômodo da gestante, mas também o atroz sofrimento da criança, cujos direitos são violados como se fosse uma coisa (coisa má) e não o que ela realmente é: uma pessoa humana.

1. O PANO DE FUNDO: "FUI UMA MORTA-VIVA"

"Por banal, a notícia saiu sem destaque no Diário do Grande ABC, de São Paulo, no dia 28 de outubro de 1992. Tinha apenas dois parágrafos e começava assim: A ajudante geral J.L.L., 38 anos, foi estuprada na manhã de anteontem, no Parque Aliança, em Ribeirão Pires, quando se dirigia para o trabalho. Ela foi abordada por um homem branco e magro, aparentando 20 anos. Antes de estuprá-la, o desconhecido roubou-lhe Cr$ 90 mil em dinheiro e Cr$ 162 mil em vales-transporte... Menos de três meses depois, Joana Leal Lima, a J.L.L. da nota do jornal, bateu na porta do Hospital Municipal Dr. Arthur Ribeiro de Saboya, no bairro paulistano do Jabaquara. Tinha a face do horror de estar carregando aquela coisa no ventre. Separada do marido havia quinze anos e dedicada exclusivamente ao casal de filhos (que na época tinham 20 e 15 anos de idade), estava grávida do estuprador. Segundo estudo realizado nos Estados Unidos com 2.190 vítimas de violência sexual, as probabilidades de gravidez não chegam a 1 %. Joana foi uma delas. Morri duas vezes, relembra. Na manhã da quarta-feira passada, vestiu roupa de cerimônia - blusa estampada de preto e bege, saia preta, sapato social de camurça - e retornou ao hospital com a alma em paz e uma surpresa na bolsa. Havia mandado confeccionar quinze medalhas douradas (5,50 reais cada uma, fora a correntinha) com o nome de cada um dos médicos, enfermeiras, psicólogas e assistentes sociais que a atenderam dois anos e onze meses atrás. A inscrição dispensava discursos: Honra ao Mérito. Aos meus anjos de branco da equipe Aborto Legal, a homenagem de Joana Lima. Os homenageados, atônitos - todos profissionais diplomados e calejados em desgraças -, apertavam a medalha na palma da mão e procuravam se recompor. O grupo está emocionado com o seu gesto, Joana. Você nos tirou de nossa rotina, fez renascer uma parte bonita do nosso trabalho - somos nós que agradecemos a você, disse um. A gente chega ao ponto de ser homenageada por cumprir nossa obrigação! Nem deveríamos merecer isso, observou outro".

2. "FUI UM VIVO-MORTO"

Escreve Luiz Carlos Lodi da Cruz:

"A revista Veja na edição de 13/12/95 apresentou no artigo Fui uma morta-viva a angústia de uma mulher, Joana, que após sofrer um estupro, decidiu fazer aborto.

Desejaria agora dar uma resposta proporcional ao agravo sofrido pela criança na referida publicação.

Como ela, indefesa e agora já morta, não pode exercer o legítimo 'direito de resposta', proponho-me fazer as vezes do nascituro, entrevistando-o e imaginando que respostas ele daria às minhas indagações. O nome fictício do entrevistado (que nem sequer pôde ser batizado) será Nonato, que significa 'não nascido'.

JORNALISTA: "Nonato, você foi gerado de um estupro, que uma senhora casada sofreu de um ladrão desconhecido. Você era ou não era um ser humano?"

NONATO: "Desde que fui concebido, recebi de meu pai e minha mãe 46 cromossomas, nos quais estava gravado todo o meu código genético, desde a cor dos meus olhos até minhas impressões digitais. Recebi também de Deus naquele momento uma alma espiritual e imortal. Desde a fecundação, eu já era gente. Quando me mataram, já estava com quase todos os órgãos formados".

JORNALISTA: "Sua mãe Joana percebeu logo sua presença no seu útero?"

NONATO: "Não. Demorou quase três meses para suspeitar que eu estava lá, por causa do atraso da menstruação".

JORNALISTA: "E depois que ela descobriu que trazia você dentro de si? Ela saltou de alegria?"

NONATO: "Não. O ódio pela agressão física de meu pai foi transferido para mim. Ela nunca quis-me chamar filho: Isto aqui não vai nascer. Isto não é um filho."

JORNALISTA: "O que você passou a representar para ela?"

NONATO: "Uma violência a ser eliminada, uma sujeira a ser tirada. Dizia ela de mim: essa coisa está violentando o meu corpo, está-me matando".

JORNALISTA: "Qual foi a reação de sua mãe quando encontrou pessoas dispostas a assassiná-lo?"

NONATO: "Experimentou um grande alívio e alegria. Chamou-os anjos de branco, por terem compreendido sua angústia e estarem dispostos a ajudá-la!"

JORNALISTA: "E ninguém pensou em você, Nonato?"

NONATO: "Não. A violência sofrida por mamãe devia então recair sobre mim, apesar de eu ser absolutamente inocente".

JORNALISTA: "Foi dolorosa a sua morte?"

NONATO: "Dolorosíssima. Não apenas pela desintegração do meu corpo, aspirado em pedacinhos, mas pelo sentimento de rejeição de toda a humanidade. Para todos, eu nunca passei de uma coisa a ser jogada fora".

JORNALISTA: "Se você houvesse nascido, poderia fazer algo por sua mãe?"

NONATO: "Poderia dar-lhe tudo que dá um bom filho à mãe: desde gratidão e amor até o amparo em sua velhice. Quem sabe se eu não conseguiria superar, em reconhecimento por ela, todos os meus irmãos legítimos?"

JORNALISTA: "Sua mãe nega qualquer arrependimento pelo seu aborto. Você acha que ela não sofreu dano pela sua morte?"

NONATO: "Certamente que sim, por mais que ela queira negar.

Sua consciência deve estar agora mais oprimida do que nunca. A angústia de sofrer violência transformou-se agora em angústia por ter causado violência. E isto vai acompanhá-la por toda a vida."

JORNALISTA: "Após a sua morte, você teve direito a um velório e a um enterro?"

NONATO: "Não. Fui jogado numa lata de lixo do hospital. Não recebi lamentos nem flores. Mas mamãe entregou um ramalhete aos que me mataram, como forma de agradecimento".

JORNALISTA: "Se você estivesse entre nós e pudesse falar, que diria aos deputados que querem legalizar o aborto em caso de estupro?"

NONATO: "Se eles ouvissem minha história, certamente pensariam diferente. Nas campanhas pelo aborto fala-se muito da mulher e esquece-se o único inocente no caso: a criança. E é ela quem vai ter que pagar com a morte pela aflição de sua mãe".

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

3. OBSERVAÇÃO FINAL

No caso de estupro, entende-se que a gestante sinta espe­cialmente o incômodo de trazer no seio um filho indesejado. Isto, porém, não justifica a condenação do inocente à morte. O que a Moral Católica pede à mulher, em tais circunstâncias, é que leve a gestação a termo e entregue a criança recém-nascida a quem se queira interessar por ela: um casal disposto a adotá-la ou uma instituição beneficente, como é no Rio de Janeiro o Educandário Romão de Mattos Duarte, Rua Paulo VI, 60 (Flamengo), CEP 22230-080; FONE (021) 225-6194.

Assim evitar-se-á o assassínio da criança, que realmente é atroz, e traumatiza profundamente a própria mãe, pois a mulher traz em si o senso da maternidade e repudia espontaneamente matar o filho.

Aliás, é oportuno lembrar os meios aplicados para provocar o aborto; 1 ) injeção de sal no líquido amniótico, que faz a criança contorcer-se de dores; 2) penetração, na placenta, de instrumento perfurante, do qual o bebê tenta defender-se como um pequeno lutador; 3) sucção com aspirador, que reduz a criança a pedaços. Estes são recolhidos em lixeira ou aproveitados (por causa da sua juventude celular) para implantação em organismos de adultos enfermos ou para a fabricação de cosméticos.

"Por que nunca são mencionados os meios usados para abortar?

Qualquer argumento em favor do aborto provocado é construído no terreno emocional e baseado no egoísmo e desamor tão freqüentes em todos nós. No século da razão e da ciência o aborto provocado deveria ser uma questão fechada, não mais sujeita a discussões" (Professora Dra. Maria Helena Fraga, em Cartas dos Leitores no JB de 28/12/95, p.8).