quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Conversões: o exemplo de uma esposa

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 446 1999)

Por James F Heady


Em síntese: James F. Heady trabalha como agente administrativo numa Companhia de Seguros. Formou-se em Economia pela Universidade de Stanford. Casado em 1955 converteu-se ao Catolicismo sete anos mais tarde. Mora em Ventura County, Califórnia, com a cristão (igreja doméstica) cada qual dos dois cônjuges santifica o outro, cf. 1Cor 7, 14. - Dada a importância desta verdade vivenciada por James Heady, publicamos, a seguir, o seu relato, extraído das pp. 88-93 da obra citada.

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O ITINERÁRIO ESPIRITUAL DE JAMES F. HEADY

«Nasci em abril de 1933, e fui o primeiro de quatro irmãos e o único filho homem.

O meu pai tinha sido jogador de futebol americano durante o segundo grau e rejeitara diversas vezes o conselho de cursar alguma Faculdade. Preferiu alistar-se na Marinha a fim de conhecer o mundo. No ano em que nasci, trabalhava como cronometrista para a WPA (Work Projects Administration), durante os piores anos da Depressão.

Por volta de 1940, mudamo-nos para uma casa na rua 32, em Portland, Oregon, onde os meus pais moram até hoje. Na época, papai conseguira um "emprego de verdade": trabalhava como cronometrista para a companhia que estava construindo a ferrovia Southern Pacific. Continuaria nessa empresa ocupando cargos diversos até aposentar-se, trinta e cinco anos depois.

Como era agnóstico, a nossa educação religiosa foi deixada a cargo da minha mãe, que não pertencia a nenhuma Igreja em particular, mas pensava que era importante termos algum tipo de formação religiosa. A nossa nova casa ficava a apenas um quarteirão de uma igreja congregacionalista. Quando começamos a ir à respectiva escola, começamos também a participar da escola dominical.

Ali tínhamos livros e marcavam-nos lições de casa de verdade. A minha mãe cuidava de que fizéssemos os deveres e assistíssemos as aulas, embora nem ela mesma nem papai jamais tivessem posto os pés nessa igreja.

Essa comunidade tinha uma forte orientação fundamentalista[1]. A Bíblia era a pedra angular, e na escola dominical enfatizava-se e seu estudo, que incluía a memorização dos nomes de todos os livros que a compõem.

Até iniciar o segundo grau, grande parte das minhas atividades sociais girava em torno da igreja. A cada verão, assistíamos aos cursos bíblicos de férias e organizávamos lanches e piqueniques. Uma igreja quaker, The Friends ("Os Amigos"), tinha algum tipo de acordo de cooperação mútua com a nossa. Durante o ano escolar, havia palestras culturais e oficinas de trabalhos artesanais de que éramos incentivados a participar.

O dinheiro era escasso, de forma que essas atividades extra-curriculares foram de grande ajuda para evitar que nos metêssemos em encrencas. Na igreja ensinavam-nos que Deus era um Deus pessoal que tudo via e sabia. Era proibido beber e fumar (não fumo até hoje) E embora não se proibissem totalmente, os filmes de cinema e os bailes desaconselhavam-se.

Por ser eu o filho mais velho e o único varão, desde muito cedo tive de aprender certas noções práticas de economia. Esperava-se de mim que poupasse tudo o que ganhava distribuindo jornais, cortando gramados, trabalhando como empacotador numa mercearia, etc.

Tive um bom desempenho escolar e cheguei a ser dispensado de cursar um ano. Quando comecei o colegial, porém, os meus pais disseram-me que não teriam dinheiro suficiente para pagar-me uma Universidade; tudo o que pudessem poupar teria de ser destinado aos gastos com as minhas irmãs. Compreendi perfeitamente a situação, sem criar maiores ressentimentos, mas lembro-me de ter passado muitas noites insones a refletir, inquieto, sobre o que haveria de fazer da minha vida.

Nesse meio tempo, na igreja, tinha passado da escola dominical para a participação regular nos serviços religiosos. Estes assemelhavam-se aos das outras igrejas protestantes. Incluíam as longas orações feitas pelo ministro e, como é evidente, também um comprido sermão. A cada três meses, tínhamos um serviço com comunhão, em que se passavam bandejas com uns pãezinhos e uns cálices de vinho a fim de simbolizar a Última Ceia.

A igreja parecia uma sala de reuniões com vidros coloridos nas janelas. Não havia quadros nem imagens. Olhando em retrospectiva, tudo isso me parece hoje que era extremamente frio, embora as pessoas fossem afáveis e acolhedoras. Os sermões davam a impressão de não acabar nunca e consistiam em longas e confusas admoestações para "evitarmos o pecado", ou, caso contrário, para "sentar-nos e esperar que chegasse a hora de ir para o inferno e a condenação".

Por volta da época em que comecei o colegial, fui batizado com uma aspersão de água feita pelo pastor numa sala de reuniões da igreja. Tornei-me membro do Christian Endeavor (Compromisso Cristão), um grupo de estudos bíblicos para secundaristas, e passei a participar das atividades sociais da igreja.

Todos esses anos estiveram repletos de preocupações e dúvidas sobre as minhas capacidades pessoais por causa de um grave complexo de inferioridade que sofria. Rezei intensamente e durante muito tempo, pedindo a Deus que me ajudasse e me desse as respostas aos meus problemas. Este hábito persistiu depois de adulto. Por vezes, as respostas que Deus mandava não me agradavam muito, mas o fato é que, no fim das contas, tudo foi adiante.

Finalmente, com a ajuda de Deus e com muito esforço, terminei o segundo grau em junho de 1950, como primeiro da turma e com uma bolsa de estudos custeada pelo Programa de Treinamento para Oficiais da Marinha dos Estados Unidos. Entrei na Universidade de Stanford no outono daquele ano, com a intenção de formar-me em Engenharia. No entanto, ao fim de dois anos, o meu interesse por Economia cresceu a tal ponto que mudei de curso. Por outro lado, como estava longe de casa, os vínculos com a Igreja foram-se afrouxando, embora ainda rezasse com freqüência na capela da Universidade.

Em janeiro de 1955, formei-me em Economia. Entrei na Marinha e, cinco meses mais tarde, num baile de oficiais em San Diego, conheci Helen. Era também marinheira, mas da costa Leste. Começamos a namorar. Depois de alguns encontros, contou-me que era católica. Eu conhecia superficialmente outros católicos, mas ela foi a primeira que conheci mais de perto.

A Igreja congregacionalista pregava que o protestantismo era a melhor das religiões, mas a gradual ruptura de laços com a minha antiga igreja de Portland, bem como os meus estudos de História em Stanford - que seguiam a tendência liberal - tinham-me ensinado a aceitar de mente mais aberta outros pontos de vista.

O meu interesse pela Igreja crescia na medida em que aumentava o meu interesse por Helen. Queria estar com ela o máximo de tempo possível. E ela tinha tal devoção pela Igreja Católica que também eu desejei conhecer cada vez melhor essa religião. Muito antes de nos casarmos, comecei a assistir à Missa juntamente com ela. Foi idéia minha. Ela nunca me insinuou sequer que se tratava de uma condição necessária para continuarmos a namorar, mas deixou claro que eu seria muito bem recebido se quisesse ir. Obviamente, no começo tudo me pareceu muito estranho e diferente. Ainda não se tinha traduzido o texto latino da Missa para o inglês, mas, usando o missal latim-inglês, podia acompanhar razoavelmente bem as cerimônias.

Em setembro esposa, Helen. Têm três filhas, duas delas Religiosas. Tanto ele como a sra. Heady são membros ativos da sua paróquia.

* * *

Folheando ainda a obra "Jornadas Espirituais" citada à p. 306 deste fascículo [v. artigo anterior], encontramos o depoimento de James F. Heady, profundamente marcado pelo testemunho de sua esposa em conseqüência do qual se tornou católico. Bem ilustra a palavra de São Paulo que fala da comunhão de bens espirituais existente entre esposo e esposa; no lar de 1955, casamo-nos em San Diego. Como não-católico, recebi algumas aulas em que se explicava o que a Igreja esperava de quem contraía um "matrimônio misto". Cerca de um ano depois, nasceu a nossa primeira filha. O meu projeto era ficar na Marinha, mas os longos seis meses de separação que se seguiram ao casamento custaram demais a passar. Acabei por deixar a Marinha e, logo a seguir, fui trabalhar numa Companhia de Seguros Agrícolas, onde continuo ao cabo de vinte e oito anos.

Helen nunca me empurrou em direção do catolicismo. Mas o seu exemplo e a minha assídua assistência à Missa fizeram-me experimentar uma atração crescente pela Igreja. Faltava alguma coisa na minha vida, alguma coisa que não sabia identificar. Depois do nosso casamento, essa inquietação cresceu consideravelmente. Por fim, Helen perguntou-me se não gostaria de fazer com ela uma "novena" de cinqüenta e quatro dias à Santíssima Virgem. Explicou-me que tinha muita devoção a Maria e fazia essa novena quando precisava muito de ajuda. Até então, as suas orações sempre tinham sido atendidas, talvez nem todas as vezes nos termos em que ela queria, mas sempre no sentido de oferecer-lhe a melhor solução.

Concordei com começar a novena. No segundo dia, foi como se me tivessem tirado uma venda dos olhos. Disse a Helen que queria ser instruído na fé católica. Compreendi que era o que devia fazer, e nem mesmo então ela me forçou a nada. Fui eu que telefonei ao nosso pároco.

Esse padre teve a amabilidade de me dar aulas particulares de doutrina na casa paroquial, uma vez por semana. Comecei a minha formação em outubro, e em abril do ano seguinte, no dia do aniversário da minha filha mais nova, recebi o Batismo na Igreja. Isso foi uns sete anos depois de Helen e eu nos termos casado.

A partir do momento em que comecei a receber as aulas, passei a sentir-me muito mais em paz. Tinha uma sensação de segurança, de bem-estar e de aconchego que não me lembrava de ter experimentado antes. Todos os meus anos de formação na Igreja congregacionalista, todos os cursos bíblicos e mais a escola dominical tinham-me ensinado muitas coisas sobre Deus e sobre a Bíblia, mas algo estivera faltando até então.

O meu gosto pela História suscitara em mim sérias dúvidas sobre o elo de continuidade nas Igrejas protestantes. Já a Igreja Católica surgiu na época de Cristo e até então permanecia coerente consigo mesma. Quando os membros de uma congregação protestante percebem que há qualquer coisa de errado na sua congregação, abandonam-na por sua conta e formam um novo ramo. Isso nunca me pareceu correto. Na época de Martinho Lutero, houve realmente muitos problemas internos na Igreja Católica, mas, depois daqueles anos de turbulências, a Igreja acabou por reformar-se sem constituir diversas Igrejas católicas competindo umas com as outras. A continuidade - desde os tempos de Cristo até aos dias atuais - permanece inquebrantável. E isto é algo que me atrai poderosamente, devido ao meu senso de disciplina.

O nosso casamento foi abençoado com três filhas, todas elas educadas no seio da Igreja. A mais velha está casada; as outras duas fizeram os votos perpétuos como Religiosas. Menciono-o para mostrar a profundidade do compromisso que a minha esposa e eu temos com a Igreja. Foi o amor a Deus que levou essas nossas duas filhas a fazer essa escolha. Não as desencorajamos de forma alguma, porque não queríamos negar nada a Deus, se Ele realmente queria que elas se entregassem ao seu serviço.

Deus vem-nos abençoando e premiando ao longo de toda a nossa vida de casados. Temos tido as dificuldades e provações normais que acometem qualquer casamento, mas graças à fé católica sempre conseguimos superá-las. Lembramo-nos com freqüência de que Cristo prometeu que nunca seríamos tentados acima das nossas forças (cf. 1Cor 10,13).

Graças à oração diária e à assistência regular à Missa, experimento paz e tranqüilidade todos os dias da minha vida. Dou graças a Deus pela minha conversão. Se Ele não me tivesse conduzido até a minha esposa, e sem o bom exemplo dela, ainda estaria buscando em vão o sentido da minha vida. Ao concluir estas lembranças, vêm-me à cabeça as palavras de Cristo no Evangelho: "De modo que vos digo: Pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á" (Lc 11, 9)».

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NOTA:

[1] Fundamentalista é a atitude de quem lê a Bíblia interpretando-a ao pé da letra, sem reconhecer os gêneros literários e os expressionismos da linguagem semítica ou helenística de outrora (Nota de PR).


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