Aqui você encontra as melhores respostas sobre as principais questões de fé e razão e as melhores respostas contra as críticas que costumam fazer à Igreja Católica. Quase todos os artigos foram extraídos da revista “Pergunte e Responderemos” de autoria de D. Estêvão Bettencourt. Agradecemos aqui a sua gentileza de colocá-los à disposição na internet.
sábado, 17 de outubro de 2009
Por que não sou ateu
Em síntese: O artigo examina três razões que podem levar alguém a não ser ateu: 1) o testemunho da ciência contemporânea; 2) a pré-história e a história da humanidade; 3) a insuficiência do homem para bastar a si mesmo. Considera outrossim cinco dificuldades para crer: 1) o mal no mundo; 2) o desconhecimento da doutrina da fé; 3) obstáculos de ordem moral; 4) o contratestemunho de pessoas de fé; 5) o claro-escuro da fé.
O ateísmo é uma atitude que se vai difundindo em nossa sociedade, nem sempre sob a forma de militância anti-religiosa, mas freqüentemente como indiferentismo; dir-se-ia que o homem contemporâneo não precisa mais de Deus, pois consegue, mediante os avanços da ciência e da técnica, criar para si mesmo um bem-estar que lhe dá certa satisfação, tida como suficiente.
Esta atitude suscita a muitos as questões: "Por que não és ateu também tu? Será que ainda precisas das muletas ou do tapa-buraco da Religião para te equilibrares na vida?"
A resposta a tais perguntas fará o conteúdo deste artigo, que vamos distribuir em duas Partes: I. Por que não sou ateu? II. Dificuldades para crer hoje em dia.
I. POR QUE NÃO SOU ATEU?
Três principais razões me impedem de ser ateu:
1.1. A Ciência Contemporânea
Houve tempo em que se dizia que a ciência é inimiga da fé. Atualmente, ao contrário, verifica-se que a ciência tende a reconhecer cada vez mais os vestígios de uma Inteligência e de um Poder Supremos, que têm o nome DEUS. O mundo, com suas dimensões vertiginosamente grandes e pequenas, não pode ser produto do acaso, como hoje geralmente se reconhece, mas dá testemunho do Criador,... Criador distinto da natureza e anterior a ela, não força cega que vai evoluindo e se identifica com o próprio mundo. São muitos os testemunhos de grandes cientistas que apontam a existência de Deus:
Max Plank (1858-1947), físico alemão, criador da teoria dos quanta, Prêmio Nobel 1928:
"Para onde quer que se dilate o nosso olhar, em parte alguma vemos contradições entre Ciências Naturais e Religião; antes, encontramos plena convergência nos pontos decisivos. Ciências Naturais e Religião não se excluem mutuamente, como hoje em dia muitos pensam e receiam, mas completam-se e apelam uma para a outra. Para o crente, Deus está no começo; para o físico, Deus está no ponto de chegada de toda a sua reflexão":
Albert Einstein (1879-1955), físico judeu alemão, criador da teoria da relatividade, Prêmio Nobel 1921:
"Todo profundo pesquisador da natureza deve conceber uma espécie de sentimento religioso, pois ele não pode admitir que ele seja o primeiro a perceber os extraordinariamente belos conjuntos de seres que ele contempla. No universo, incompreensível como ele é, manifesta-se uma inteligência superior e ilimitada. - A opinião corrente de que eu sou ateu, baseia-se sobre grande equívoco. Quem a quisesse depreender de minhas teorias científicas, não teria compreendido o meu pensamento":
Werner von Braun (1912-1977), físico alemão e pesquisador da energia atômica:
"Não se pode de maneira nenhuma justificar a opinião, de vez em quando formulada, de que na época das viagens espaciais temos conhecimentos da natureza tais que já não precisamos de crer em Deus. - Somente uma renovada fé em Deus pode provocar a mudança que salve da catástrofe o nosso mundo. Ciência e Religião são, pois, irmãs e não poios antitéticos".
M. Hartmann (1876-1962), Diretor do Instituto de Biologia Max Plank:
"Os resultados da mais desenvolvida ciência da natureza ou da Física não levantam a mínima objeção à fé num Poder que está por trás das forças naturais e que as rege. Tudo isto pode aparecer mesmo ao mais critico pesquisador como uma grandiosa revelação da natureza, levando-a a crer numa todo-poderosa Sabedoria que se acha por trás desse mundo sábio".
Guglielmo Marconi (1874-1937), físico italiano, inventor da telegrafia sem fio, Prêmio Nobel 1909:
"Declaro com ufania que sou homem de fé. Creio no poder da oração. Creio nisto não só como fiel cristão, mas também como cientista".
A.S. Eddington (1882-1946), físico e astrônomo britânico: "A Física moderna leva-nos necessariamente para Deus".
Thomas Alva Edison (1847-1931), inventor no campo da Física, com mais de 2.000 patentes:
"Tenho enorme respeito e a mais elevada admiração por todos os engenheiros, especialmente pelo maior deles: Deus!"
Tais testemunhos se poderiam multiplicar. Falam eloqüentemente.
1.2. Pré-história e História da Humanidade
Quem estuda a pré-história, sabe que os vestígios do homem pré-histórico são três: 1) a confecção de instrumentos burilados (pedra lascada para ser machado, arma, balaço...); 2) produção do fogo; 3) sepultamento dos mortos.
Com efeito. O sepultamento dos mortos está entre as primeiras expressões do ser humano, como a fabricação de instrumentos rudimentares. Isto quer dizer que, logo que a inteligência humana desponta, ela se manifesta também pelo respeito aos mortos (coisa que os animais irracionais não praticam); o respeito aos mortos, por sua vez, está associado à noção de vida póstuma, vida com a Divindade.
Por conseguinte, desde que o homem é homem, ele se revela religioso; a fé (bem ou mal estruturada) lhe é congênita. Por isto também ela se manifestou em toda a história da humanidade. O fenômeno do ateísmo é relativamente recente; tal fenômeno não pode ser tido como indício de progresso ou aperfeiçoamento da humanidade, como se dirá sob o título seguinte.
1.3. O Homem não basta a si mesmo
As aspirações, inatas no homem, à Vida plena, à Felicidade integral, à Verdade sem erro, ao Amor sem traição, à Bondade sem falhas... não são preenchidas pelos bens passageiros desta vida. O homem não encontra em si nem nas coisas visíveis que o cercam, a resposta para os seus anseios mais espontâneos. A resposta insofismável para as perguntas básicas "De onde venho? Para onde vou?" não lhe é dada por criatura alguma. Daí a necessidade de se admitir um Absoluto sem deficiências, que seja o Norte polarizador das aspirações do homem; esse Norte está fora do homem; é Deus, ao qual diz S. Agostinho: "Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti" (Confissões 11).
Estas afirmações são comprovadas pela recente experiência dos países do Leste europeu: tiveram governos que tentaram organizar toda a sociedade incutindo a não existência de Deus... Tais governos implodiram, fracassaram fragorosamente. Querer que o homem viva prescindindo de Deus equivale a sufocar o que nele há de mais autêntico, como nota o grande psicólogo Carl Gustav Jung (1875-1961):
"Entre todos os meus pacientes na segunda metade da vida, isto é, tendo mais de trinta e cinco anos,, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão de sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por ter perdido aquilo que uma religião viva sempre deu a seus adeptos, e nenhum se curou realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria":
O afastamento de Deus parece desmantelar o ser humano, tirando-lhe o seu eixo ou referencial; só a recuperação da fé recompõe a personalidade.
Seja citado outrossim o texto do Cardeal Josef Ratzinger, que observa a necessidade que temos, de encontrar um TU,... um TU que nos responda cabalmente e que não achamos em criatura alguma:
"A solidão é, sem dúvida, uma das raízes básicas de que surge o encontro do homem com Deus. Onde o homem experimenta a solidão, verifica, ao mesmo tempo, quanto a sua vida representa um grito pelo tu e quão pouco o homem é apto a ser um puro eu, encerrado em si mesmo.
A solidão pode manifestar-se ao homem em profundezas diferentes. Primeiro, ela satisfaz-se com o encontro de um tu humano.
Mas desdobra-se um processo paradoxal descrito por Claudel: cada tu que o homem encontra, revela-se finalmente como uma promessa irrealizada e irrealizável, porque todo tu, no fundo, representa de novo uma desilusão; há um ponto em que encontro nenhum é capaz de vencer a derradeira solidão. E exatamente o achar e o ter-achado voltam a ser um retorno à solidão, um grito pelo tu real e absoluto' (Introdução ao Cristianismo, São Paulo 1970, p. 68).
Examinemos agora as principais
II. DIFICULDADES PARA CRER
Consideraremos cinco focos problemáticos:
II. 1. O Mal no Mundo
Muitas pessoas perguntam: "Pode Deus existir, se há tanta miséria e maldade no mundo que Ele criou?"
Respondemos: o mal não é uma realidade positiva; é, antes, uma carência ou a falta de algo que deveria existir e não existe. Assim a cegueira é um mal, porque é carência de visão em quem a deveria ter; a violência é um mal porque é carência da finalidade devida no comportamento de um homem inteligente e hábil...
Isto significa que o mal não tem causa direta. Ele só pode ser causado indiretamente, indiretamente por um agente limitado, capaz de falhar. Ora, por definição, Deus é perfeito ou incapaz de falhar; por isto não pode ser causa - nem indireta - do mal; só uma criatura pode agir com falhas ou agir mal.
É claro, porém, que, ao produzir as suas criaturas, Deus só podia criar seres limitados, falíveis, suscetíveis de errar. Não pode haver dois seres infinitamente perfeitos e infalíveis, porque não pode haver dois deuses.
Todavia o Senhor não é impassível perante o mal que as criaturas sofrem. Diz S. Agostinho que "Ele nunca permitiria o mal se não tivesse recursos para tirar do mal bens ainda maiores". A fé cristã o atesta apontando para a figura do Cristo que assume a dor e a morte do homem, a fim de transfigurá-las mediante a ressurreição.
II. 2. Desconhecimento da Doutrina da Fé
Outro obstáculo à fé é o desconhecimento da sua mensagem ou os mal-entendidos a respeito daquilo que a fé ensina. Pode haver pessoas que só conheçam a religião infantilmente apresentada e, por isto, a rejeitam em nome da razão esclarecida. Uma vez, porém, elucidados os pontos obscuros, tais pessoas podem perceber que a fé não é ridícula nem alienante, mas é a expressão mais nobre da personalidade, pois implica um ato da nossa faculdade mais digna - a inteligência (não um sentimento cego) - aplicada ao Ser mais digno - o Absoluto, o Eterno, Deus.
II. 3. Obstáculos de Ordem Moral
Muitas vezes o ato de fé encontra resistência no ser humano, não porque sérias objeções teóricas se lhe oponham, mas porque tal pessoa cede a um tipo de vivência incompatível com a fé. Diz a sabedoria popular: "Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive". Isto quer dizer que uma pessoa de brio que pense religiosamente, mas viva de modo destoante, deve sentir a necessidade de superar essa incoerência; ela o fará ou adaptando sua vida ao seu pensamento religioso ou, se não tiver forças para tanto, adaptando o seu modo de pensar ao seu modo de viver desregrado.
Este último caso, em nossos dias, é assaz freqüente, pois o ritmo de vida da sociedade incute o hedonismo ou a busca de prazer (a qualquer preço). Incute também cobiça ou a sofreguidão de ter mais, que deteriora o ser ou o porte ético-religioso do indivíduo. Assim se explica que várias pessoas, após anos de fé tranqüila, repentinamente abandonem a religião; fazem-no não por terem lido tal ou tal livro ateu, mas simplesmente porque foram cedendo a impulsos e paixões desordenados.
II. 4. O Contratestemunho das Pessoas de Fé
É certo que também as contradições na vivência das pessoas religiosas escandalizam e afastam a quem as observa. A propósito diremos que, sem dúvida, o testemunho coerente das pessoas religiosas facilita a adesão de fé dos observadores, ao passo que o mau exemplo a dificulta. Todavia quem crê, deve dar-se conta de que:
- crê porque descobriu a Deus e deseja responder ao Bem Supremo. Este é o traço central de toda profissão de fé religiosa;
- crê, porém, em companhia de seres humanos, aos quais é inerente a fragilidade. Essa fragilidade, contudo, não impede que cada pessoa fiel encontre em Deus a sua plena resposta. Deus se dá a quem o procura, independentemente da conduta dos companheiros de caminhada.
II. 5. O Claro-escuro da Fé
As proposições da fé são claro-escuras, nunca evidentes como 2+2 = 4. Sem dúvida, elas têm suas credenciais, que as tornam acreditáveis e que todo homem pode investigar; se o fizer, chegará à conclusão de que é razoável ou é inteligente crer. Por isto, quando acredito, não abdico da minha razão, mas, ao contrário, exercito a minha inteligência; esta me diz que a Verdade não acaba quando acaba meu raio de percepção intelectual. A fé ultrapassa o alcance da minha inteligência, mas não lhe contradiz; apenas leva a ulteriores etapas a demanda da Verdade.
O fato de que as verdades da fé ultrapassam o alcance da nossa inteligência, de um lado, nos deixa sôfregos e insatisfeitos; mas, de outro lado, é fonte de alegria e paz. Com efeito, como diz Pascal, o homem foi feito para se ultrapassar constantemente ou para se realizar em algo maior do que ele mesmo; o homem é resposta pequena demais para o próprio homem; só o Absoluto ou Deus o sacia.
Os pensadores gregos perceberam este paradoxo, quando definiram o homem como um "ente de fronteira", posto em equilíbrio instável entre os animais e os deuses; sim, para os gregos, os deuses eram consumados em sua existência imortal e bem-aventurada; os animais também bastam a si mesmos, desde que encontrem alimento e o necessário para sobreviver. O homem não é assim: nem goza da satisfação dos deuses nem se dá por realizado apenas com a sua existência animal; ele é repuxado, de um lado, pelo peso da sua animalidade e, de outro lado, pela insaciável sede do Absoluto; não lhe basta viver simplesmente as dimensões do homem terrestre para ser autenticamente humano. Se há consumação para o homem, há de ser num valor que ultrapasse os limites da sua natureza. Em conseqüência, não há por que nos assustarmos quando verificamos que a mensagem da fé é trans-racional; é precisamente esta nota que permite à fé levar o homem à sua genuína realização; uma mensagem meramente filosófica pouco significado teria no caso.
Estas ponderações explicam o porquê do incômodo resultante do claro-escuro da fé: é condição para que a nossa entrega a Deus tenha o valor de um gesto livre; é também o indicio da autenticidade mesma da fé. A mensagem de Deus é suficientemente clara para que a adesão do homem seja razoável e inteligente (não cega, nem meramente sentimental), mas é também suficientemente obscura para que o nosso Sim seja livre. Deus quer ser aceito e amado livremente por criaturas livres. Somente com o progresso da vida espiritual, com o amadurecimento e a consolidação da fé é que a penumbra se vai clareando, as sombras se vão dissipando até que cederão um dia à plenitude da luz ou à visão beatifica.
III. CONCLUSÃO
Não sou ateu, porque sei que, se procurasse viver sem Deus, sem a convicção de que existe um Bem Infinito que me fez e aguarda, eu não poderia responder às questões fundamentais de todo ser humano: "Donde venho? Para onde vou? Por que trabalhar? Por que sofrer? Por que ser honesto?"
Tal convicção não é muleta nem tapa-buraco em meu comportamento. Se fosse muleta, o homem sem Deus seria mais ele mesmo, mais adulto e maduro. Ora a experiência prova justamente o contrário; o homem sem Deus pode ser uma pessoa momentaneamente tranqüila, mas cedo ou tarde é chamada a um confronto com a questão do sentido da vida: Vale a pena viver, lutar em prol do bem e sofrer, para um dia extinguir-se sem mais, como a chama de um pavio? - Responder sim a esta pergunta é antinatural. Podemos crer que, se em nós existem aspirações naturais ao Transcendente, elas não são vãs. Convenço-me disto quando olho em torno de mim e observo que, se nos homens existe olho, também existe luz (resposta para a aspiração natural do olho); se nos homens existe ouvido, existe som; se nos homens existe pulmão, existe ar; se nos homens existe estômago, existe alimento. E digo: Por conseguinte, se nos homens existem fome e sede inatas de Vida, de Felicidade, de Amor, de Bondade, de Verdade, deve haver... a Vida, a Felicidade, o Amor, a Bondade, a Verdade, que, em última análise, é Deus. Em caso contrário, o homem seria a mais absurda e miserável de todas as criaturas - o que é falso.
domingo, 5 de julho de 2009
O falso mito de que os cientistas não acreditam em Deus
(www.quadrante.com.br)
O falso mito de que os cientistas não acreditam em Deus tem, na verdade, pretensões maiores do que parece à primeira vista: quer dar a entender que todas as pessoas verdadeiramente inteligentes e esclarecidas não aderem às “fábulas” ou aos “mitos” religiosos; e os cientistas, esses “homens geniais”, levados pelas demonstrações da sua ciência, chegaram à conclusão inevitável de que Deus simplesmente não existe.
Outro falso mito que “corre solto” é que os cientistas não acreditam em Deus. Em si, o fato não teria nada de mais, já que encontramos ateus de todas as profissões e de todas as categorias sociais. Este mito tem, na verdade, pretensões maiores do que parece à primeira vista: quer dar a entender que todas as pessoas verdadeiramente inteligentes e esclarecidas não aderem às “fábulas” ou aos “mitos” religiosos; e os cientistas, esses “homens geniais”, levados pelas demonstrações da sua ciência, chegaram à conclusão inevitável de que Deus simplesmente não existe.
Nada mais distante da verdade; um conhecimento superficial da vida de alguns cientistas poderia dar uma impressão desse tipo, mas um estudo mais profundo mostra sempre que os contados casos de ateísmo são muito mais uma conseqüência de circunstâncias ou de problemas pessoais do que uma atitude decorrente de conclusões científicas. De fato, até hoje ninguém apresentou nenhum argumento verdadeiramente sério sobre a inexistência de Deus, e muito menos baseado em conclusões científicas.
É um fato que houve cientistas que foram ateus ou que abandonaram a prática da religião, como por exemplo Madame Curie, polonesa de origem, nascida e educada na religião católica, que se desinteressou da religião ao ficar abalada pela morte da mãe. Só temos a dizer que é uma pena.
Por outro lado, ao longo de toda a história, poderíamos citar uma quantidade enorme de cientistas e de filósofos que acreditavam em Deus, que viveram a sua religião ou até mesmo eram pessoas de comunhão diária, como Pasteur. Muitos deles, além disso, manifestaram as suas convicções publicamente, em mais de uma oportunidade.
Descartes e Galileu morreram como bons cristãos, com todos os sacramentos; Leibniz escreveu uma obra denominada Teodicéia (“Justificação de Deus”) contra o ateísmo. Platão e Aristóteles, sobre os quais não pesa a “suspeita” de serem considerados cristãos ou católicos, já que viveram antes de Cristo, apresentaram inúmeras provas da existência de Deus, com argumentos puramente racionais. Em Newton e Kepler encontramos almas profundamente cristãs, que não tiveram o menor receio de falar de Deus nos seus escritos. Mendel, o iniciador da genética, fez as suas experiências com ervilhas nos terrenos do mosteiro de que era abade. Copérnico, reintrodutor moderno do sistema heliocêntrico, era clérigo.
Para não alongarmos demasiado o texto com explicações, apresentamos a seguir depoimentos de alguns cientistas sem acrescentar-lhes maiores comentários e restringindo-nos somente a alguns que já fazem parte da história.1
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(1) Citações extraídas do folheto Gott existiert, reproduzidos em Pergunte e Responderemos, ano XXIX, n. 316, setembro de 1988.
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1. Isaac Newton (1642-1727), fundador da física clássica e descobridor da lei da gravidade: “A maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode. Isto fica sendo a minha última e mais elevada descoberta”.
2. William Herschel (1738-1822), astrônomo alemão, descobridor do planeta Urano: “Quanto mais o campo das ciências naturais se dilata, tanto mais numerosas e irrefutáveis se tornam as provas da eterna existência de uma Sabedoria criadora e todo-poderosa”.
3. Alessandro Volta (1745-1827), físico italiano, descobridor da pilha elétrica e inventor, cujo nome deu origem ao termo voltagem: “Submeti a um estudo profundo as verdades fundamentais da fé, e [...] deste modo encontrei eloqüentes testemunhos que tornam a religião acreditável a quem use apenas a sua razão”.
4. André Marie Ampère (1775-1836), físico e matemático francês, descobridor da lei fundamental da eletrodinâmica, cujo nome deu origem ao termo amperagem: “A mais persuasiva demonstração da existência de Deus depreende-se da evidente harmonia daqueles meios que asseguram a ordem do universo e pelos quais os seres vivos encontram no seu organismo tudo aquilo de que precisam para a sua subsistência, a sua reprodução e o desenvolvimento das suas virtualidades físicas e espirituais”.
5. Jons Jacob Berzelius (1779-1848), químico sueco, descobridor de inúmeros elementos químicos: “Tudo o que se relaciona com a natureza orgânica revela uma sábia finalidade e apresenta-se como produto de uma Inteligência Superior [...]. O homem [...] é levado a considerar as suas capacidades de pensar e calcular como imagem daquele Ser a quem ele deve sua existência”.
6. Karl Friedrich Gauss (1777-1855), alemão, considerado por muitos como o maior matemático de todos os tempos, também astrônomo e físico: “Quando tocar a nossa última hora, teremos a indizível alegria de ver Aquele que em nosso trabalho apenas pudemos pressentir”.
7. Agustin-Louis Cauchy (1789-1857), matemático francês, que desenvolveu o cálculo infinitesimal: “Sou um cristão, isto é, creio na divindade de Cristo como Tycho Brahe, Copérnico, Descartes, Newton, Leibniz, Pascal [...], como todos os grandes astrônomos e matemáticos da antigüidade”.
8. James Prescott Joule (1818-1889), físico britânico, estudioso do calor, do eletromagnetismo e descobridor da lei que leva o seu nome: “Nós topamos com uma grande variedade de fenômenos que [...] em linguagem inequívoca falam da sabedoria e da bendita mão dO Grande Mestre das obras”.
9. Ernest Werner von Siemens (1816-1892), engenheiro alemão, inventor da eletrotécnica e que trabalhou muito no ramo das telecomunicações: “Quanto mais fundo penetramos na harmoniosa dinâmica da natureza, tanto mais nos sentimos inspirados a uma atitude de modéstia e humildade; [...] e tanto mais se eleva a nossa admiração pela infinita Sabedoria, que penetra todas as criaturas”.
10. William Thompson Kelvin (1824-1907), físico britânico, pai da termodinâmica e descobridor de muitas outras leis da natureza: “Estamos cercados de assombrosos testemunhos de inteligência e benévolo planejamento; eles nos mostram através de toda a natureza a obra de uma vontade livre e ensinam-nos que todos os seres vivos são dependentes de um eterno Criador e Senhor”.
11. Thomas Alva Edison (1847-1931), inventor, com mais de 2.000 patentes, entre elas a da lâmpada elétrica: “Tenho [...] enorme respeito e a mais elevada admiração por todos os engenheiros, especialmente pelo maior deles: Deus!”.
12. Guglielmo Marconi (1874-1937), físico italiano, inventor do telégrafo sem fio, prêmio Nobel em 1909: “Declaro com ufania que sou homem de fé. Creio no poder da oração. Creio nisto não só como fiel cristão, mas também como cientista”.
13. John Ambrose Fleming (1849-1945), físico britânico, descobridor da válvula e do diodo: “A grande quantidade de descobertas modernas destruiu por completo o antigo materialismo. O universo apresenta-se hoje ao nosso olhar como um pensamento. Ora, o pensamento supõe a existência de um pensador”.
14. Arthur Eddington (1882-1946), físico e astrônomo britânico: “A física moderna leva-nos necessariamente a Deus”.
15. Max Plank (1858-1947), físico alemão, criador da teoria dos quanta, prêmio Nobel em 1928: “Para onde quer que se estenda o nosso olhar, em parte alguma vemos contradição entre ciências naturais e religião, antes encontramos plena convergência nos pontos decisivos. Ciências naturais e religião não se excluem mutuamente, como hoje em dia muitos pensam e receiam, mas completam-se e apelam uma para a outra. Para o crente, Deus está no começo; para o físico, Deus está no ponto de chegada de toda a sua reflexão”.
16. Albert Einstein (1879-1955), físico judeu alemão, criador da teoria da relatividade, prêmio Nobel em 1921: “Todo o profundo pesquisador da natureza deve conceber uma espécie de sentimento religioso, pois não pode admitir que seja ele o primeiro a perceber os extraordinariamente belos conjuntos de seres que contempla. No universo, incompreensível como é, manifesta-se uma inteligência superior e ilimitada. A opinião corrente de que sou ateu baseia-se num grande equívoco. Quem a quisesse depreender das minhas teorias científicas, não teria compreendido o meu pensamento”.
17. Carl Gustav Jung (1875-1961), suíço, um dos fundadores da psicanálise: “Entre todos os meus pacientes na segunda metade da vida, isto é, tendo mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão da sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por terem perdido aquilo que uma religião viva sempre deu aos seus adeptos, e nenhum se curou realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria”.
18. Werner von Braun (1912-1977), físico alemão radicado nos Estados Unidos e naturalizado norte-americano, especialista em foguetes e principal diretor técnico dos programas da NASA (Explorer, Saturno e Apolo), que culminaram com a chegada do homem à lua: “Não se pode de maneira nenhuma justificar a opinião, de vez em quando formulada, de que na época das viagens espaciais temos conhecimentos da natureza tais que já não precisamos de crer em Deus. Somente uma renovada fé em Deus pode provocar a mudança que salve da catástrofe o nosso mundo. Ciência e religião são, pois, irmãs, e não pólos antitéticos”. E: “Quanto mais compreendemos a complexidade da estrutura atômica, a natureza da vida ou o caminho das galáxias, tanto mais encontramos razões novas para nos assombrarmos diante dos esplendores da criação divina”.
Será mesmo que todos os cientistas são ateus?
POR QUE EXISTEM ATEUS?
Realmente, essa é uma pergunta muito boa, para a qual talvez não exista uma resposta conclusiva, pois no fundo trata-se de um mistério.
Para entender como se chegou a essa situação, é necessário regredir um pouco no tempo em busca das raizes do problema. Sempre houve materialistas e ateus, como Epicuro e Demócrito, já nos tempos áureos da filosofia grega; mas, para nos restringirmos aos tempos modernos, podemos começar novamente com Descartes. Uma das suas preocupações era precisamente a de estabelecer (como postulado) uma separação radical entre a fé e a razão humana, criando compartimentos estanques e incomunicáveis dentro de cada ser humano, o qual teria assim uma espécie de chave que poderia ser ligada e desligada: ora pensaria e agiria como cientista, utilizando-se só da razão, ora pensaria e agiria como homem religioso, valendo-se da fé. A religião seria, nesse esquema, algo puramente voluntário e sentimental, em que a razão não teria cabida.
Um dos fatores que contribuiram para dar origem a essa atitude foram as guerras de religião do século XVI, cujas conseqüências Descartes chegou a presenciar: manifestações de fanatismo as mais diversas, em que cada grupo afirmava estar na verdade e queria convencer os demais pela força. Não é de estranhar que, até entre gente equilibrada, se levantasse a tentação de dizer que os assuntos de religião são como os sentimentos: cada qual tem os seus, como tem os seus gostos e preferências pessoais; é assunto sobre o qual de nada adianta discutir: os argumentos são muito mais passionais do que racionais. Que motivos racionais pode ter um torcedor para torcer por um time de futebol?
Ora, uma vez que se afirme que todas as religiões são iguais – que dependem do gosto de cada um –, o passo seguinte é uma indiferença absoluta, que no fundo admite que nenhuma delas está na verdade e nenhuma possui valores absolutos. A conseqüência é que não vale a pena aderir a nenhuma religião oficial e muito menos praticá-la.
O passo histórico seguinte foi o deísmo, corrente nascida na Inglaterra, segundo a qual Deus não seria senão o Grande Arquiteto do Universo que, tendo construido o mundo, o teria abandonado a seguir nas mãos do homem; neste caso, caber-nos-ia viver como se Deus não existisse, e portanto, seria preciso rejeitar a existência de milagres, da Providência ou de um Evangelho revelado, negando também qualquer intervenção de Deus na história humana. Cristo seria um grande profeta e até o maior dos homens, o que, na boca dessas pessoas, equivalia a negar que fosse Deus. A religião, a união com Deus, ficaria reduzida a um vago sentimentalismo, e a moral a umas simples regras de convivência entre os homens.
A partir daí, alguns filósofos ingleses começaram a autodenominar-se livre-pensadores, querendo dizer com isso que estavam livres da superstição (isto é, da religião), e que aceitavam somente uma religião “natural”, sem dogmas nem ritos; adotaram o lema “liberdade, igualdade, fraternidade”, que seria assumido mais tarde pela Revolução francesa.
O passo seguinte na evolução dessa linha de pensamento foi, naturalmente, o agnosticismo (se é que Deus existe, não é possível conhecê-lo), ou simplesmente o ateísmo. Por essa rota caminharam os filósofos da Ilustração francesa: Condillac, Diderot, D’Alembert, que Lênin recomendava como a melhor introdução ao “ateísmo científico”.
Nessa trajetória nota-se, paralelamente à expulsão de Deus da vida e do pensamento, uma deificação do próprio homem. A atitude de Descartes atribui ao homem (à sua inteligência) qualidades que são exclusivas de Deus; Espinosa diz que o homem é parte de Deus; Kant atribui à razão humana um papel fundamental na constituição da realidade; Hegel, num panteísmo cósmico, deifica a razão humana, projetando-a como criadora de toda a realidade; e Feuerbach entroniza definitivamente o homem no lugar de Deus: “O homem é para o homem o ser supremo”, idéia plenamente aceita por Marx. Finalmente, Nietzsche, como representante de muitos outros, proclama a morte de Deus.
O triste paradoxo embutido nessa atitude é que, ao tentar divinizar o homem, acabou-se por animalizá-lo, reduzindo-o a um plano infra-humano. A conclusão era lógica: se o homem não provém de cima (de Deus), só pode provir de baixo (da matéria); se a dignidade do homem provém de estar feito à imagem e semelhança de Deus, ao suprimir-se Deus suprime-se também a sua dignidade, e o homem passa a ser qualquer outra coisa: o homem é aquilo que come (Feuerbach); é puro sexo (Freud); provém do macaco (Darwin), que provém da matéria (os defensores atuais da geração espontânea), que provém do caos. Em perfeita consonância com esses princípios, pregaram-se as filosofias da inimizade: o príncipe deve dominar pelo medo (Maquiavel), o homem é o lobo do homem (Hobbes), a guerra, a luta e a contradição constituem a essência da realidade (Hegel), o ódio é o motor da história (Marx), o inferno são os outros (Sartre), devemos aprender a odiar (Lunatcharsky). Os inimigos estão dentro do próprio homem, numa tensão entre id, ego e super-ego, nos recalques, nas tensões psíquicas, no stress e nos complexos dos mais diversos gêneros.
Estas breves pinceladas não têm a pretensão de ser uma análise histórica, mas penso que são suficientes para explicar uma série de características do atual estado da sociedade. Depois de tudo isso, não é de estranhar que alguns cientistas pudessem e possam desembocar no ateísmo.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
O enigma da dor
Na mão de Deus, dificilmente haverá meio mais eficaz do que a dor para nos libertarmos do nosso eu, dos homens e do mundo. Os nossos sofrimentos, permitidos por Deus, visam em especial a felicidade no além e dizem-nos dolorosamente que nesta terra não somos mais do que peregrinos e estrangeiros (l Pe 2, 11), que não temos aqui cidade permanente (Hebr 13, 14).
Não há dúvida de que muitas vezes seríamos levados a esquecer-nos disso e nos entregaríamos às coisas terrenas e humanas se a dor não nos ajudasse a ver o nada, a caducidade das coisas terrenas, e não despertasse em nós o desejo de um mundo melhor e mais belo. Enfim, a dor suaviza-nos a morte porque, se o mundo fosse uma mansão de felicidade e bem-estar, não quereríamos partir, e a morte seria ainda mais penosa do que é. Quantas pessoas se entregariam ao pecado e cairiam na desgraça eterna se a dor não nos obrigasse sempre a recuar no caminho do pecado!
Mas, muito embora a Revelação ilumine as trevas da dor, esta não deixa de constituir o mais grave problema, o mais negro enigma da nossa vida. O raciocínio reconhece e vê alguns pontos, a fé esclarece outros, mas à aceitação cabe ainda um grande quinhão. Não interessa tanto a Deus que compreendamos o mistério da dor, mas que creiamos no Senhor e lhe obedeçamos incondicionalmente, embora saibamos que não podemos compreendê-lo nem abrangê-lo.
Deus não se deixa abranger por nós, porque é sempre maior, mais extenso que a nossa compreensão (cfr. Jó 26, 14; 36, 26). Ele criou o nosso ser espiritual à sua imagem e semelhança, mas nós deturpamos a sua imagem segundo a nossa imagem e semelhança. Julgamos que deveria agir sempre como nós e, se age de modo diverso e em especial se nos envia padecimentos, duvidamos logo da sua existência.
Para os judeus, a cruz era um escândalo e para os pagãos uma loucura (l Cor l, 23). Mesmo os Apóstolos não a entenderam a princípio, e, quando o Senhor falou pela primeira vez dos seus padecimentos, São Pedro quis detê-lo: "Deus tal não permita, Senhor! Não te sucederá isto"(Mt 16, 22). Jesus repreendeu-o imediatamente, e essa sua reação impressionou vivamente os outros Apóstolos. Noutra ocasião em que o Senhor lhes falou dos seus padecimentos, não o entenderam, mas não tiveram a coragem de pronunciar uma palavra: Eles não entendiam esta palavra [...] e tinham medo de interrogá-lo acerca dela (Lc 9, 45). Lembravam-se bem do que sucedera a Pedro. E o mesmo se verificou quando o Salvador lhes falou pela terceira vez dos seus padecimentos (cfr. Lc 18, 34).
Nem mesmo a Santíssima Virgem compreendeu todos os caminhos dolorosos por onde Deus a conduziu e afligía-a o problema do porquê. Quando após três dias de buscas vãs encontraram Jesus no templo, Nossa Senhora perguntou-lhe: "Filho, por que procedeste assim conosco?"E o Salvador respondeu: "Por que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai?"Apesar dessa resposta, não o compreenderam: E eles não entenderam o que lhes disse (Lc 2, 48-50).
E nós, compreenderíamos o Senhor se Ele nos respondesse ao problema premente do porquê? Talvez não. Na maior parte dos casos, ainda não entendemos. Os sofrimentos que nos atingem não podem ser explicados no momento em que se produzem, mas apenas em função do conjunto, e é precisamente no seu significado de conjunto que podem ser entendidos. Aquilo que, encarado isoladamente, pode parecer uma loucura, considerado no conjunto pode constituir uma graça divina muito especial.
O PROBLEMA DO "PORQUÊ"
Não é de admirar, pois, que o "porquê" nos acuda aos lábios, principalmente quando se abate sobre nós uma desgraça grande ou quando as dores se sucedem umas às outras. O próprio Salvador, na hora da mais amarga das suas dores, perguntou ao Pai: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt 27, 46). A dor parecia-lhe como que um muro que ocultava o semblante amigo de Deus (cfr. Mt 27, 46).
A obediência e a submissão tornam-se ainda mais difíceis quando o nosso entendimento nos demonstra sem qualquer sombra de dúvida que sofremos sem culpa. O fardo torna-se insuportável quando vemos que os inocentes sofrem, ao passo que os culpados não só não sofrem, como parecem tirar grandes lucros e vantagens da sua culpa. Há justos que sofrem como se tivessem agido impiamente e há ímpios a quem nada sucede, como se tivessem agido como justos (Ecl 8, 14). Quantas vezes não nos temos apercebido da veracidade destas palavras! Tu és muito justo, ó Senhor, para que dispute contigo; no entanto, desejaria dizer-te coisas justas. Por que é próspero o caminho dos ímpios? Por que vivem felizes os pérfidos? Plantaste-os e eles lançaram raízes, crescem e frutificam (Jer 12, 1-2). Os meus pés por pouco não vacilaram, por pouco os meus passos não se transformaram; porque invejei os iníquos, vendo a paz dos pecadores. Eles não conhecem misérias; têm forte e são o seu corpo. Não participam das canseiras dos outros homens, nem são fustigados como os outros (Sal 72, 2-5).
Não deveria espantar-nos, diante desse panorama, que caiam na confusão aqueles que não têm fé. A nós, porém, a fé diz-nos que o sol do amor divino continua a brilhar no meio da dor. Por detrás dela está o amor de Deus, que é maior que toda a dor. "Deus castiga aqueles que ama" (cfr. Hebr 12, 6). Certa vez, Cristo queixou-se a Santa Teresa de Ávila de que fossem tão poucos os que o amam. A santa respondeu-lhe: "Não deves admirar-te, pois amas os que te crucificam e crucificas os que te amam".
Quando as crianças não dão ouvidos às admoestações dos pais, estes vêem-se forçados a castigá-las, apesar do amor que lhes dedicam e até por causa desse mesmo amor. Nada há de mais prejudicial para uma criança do que esse amor brando que não sabe recusar coisa alguma, que não sabe castigar. Até uma certa idade, os filhos não compreendem que o castigo seja uma prova de amor e por isso os pais não lhes dão longas explicações, uma vez que só o castigo os pode levar a mudar de conduta e, em consequência, a compreender.
Ora, se nem sempre os filhos conseguem compreender os pais, como havemos nós de poder compreender Deus? Com certeza que o Senhor não nos leva a mal choros e queixumes, desde que saibamos reagir com fé. A fé diz-nos que o Senhor é um Deus de amor e ensina-nos a ver esse amor por trás das desgraças, levando-nos a aproveitá-las, a reconhecer o valor que têm para a eternidade.
A DOR E O PECADO
Se olhássemos mais atentamente para a nossa condição de pecadores e para a natureza do pecado, com certeza não nos revoltaríamos tantas vezes contra Deus: Ai daquele que discute com quem o criou, não sendo mais que um vaso entre os vasos da terra. Porventura diz o barro ao oleiro: Que fazes? (Is 45, 9). Pode um mortal ser puro diante do seu Criador? (Jó 4, 17).
Perante Deus, todos somos mais ou menos culpados: todos os castigos são pequenos em comparação com a ofensa que fizemos a Deus ao pecar. Ninguém sofre inocentemente; só Cristo na Cruz e Nossa Senhora a seus pés sofreram sem ter pecado. Quanto a nós, todos sofremos com justiça, todos recebemos o justo castigo das nossas ações (cfr. Lc 23, 41); e se não merecemos a dor que nos aflige num determinado momento, merecemo-la — e talvez mais — por pecados e erros anteriores.
Por isso, não nos devemos admirar de que a dor nos aflija, nem perguntar em que a merecemos. Com muito maior razão deveríamos perguntar em que merecemos o bem-estar e a felicidade quando deles gozamos. Mas é nosso hábito aceitar com naturalidade a felicidade que Deus nos dá, como se a tivéssemos merecido, quando é certo que as coisas deveriam passar-se justamente ao contrário: Se aceitamos a felicidade da mão de Deus, não devemos tamhém aceitar a infelicidade? (Jó 2, 10).
Enfim, nós, pecadores, nunca devemos altercar com Deus por causa da dor, porque não podemos esquecer que Ele não poupou o Filho bem-amado em quem tinha postas as suas complacências (cfr. Lc 3, 22), que o mergulhou num mar de dor como a ninguém na terra. Se tivermos presentes todas estas coisas, será legítimo lamentarmo-nos?
"BEM-AVENTURADO O HOMEM A QUEM DEUS CORRIGE"
Embora compreendamos muitas coisas e possamos seguir o Senhor por alguns caminhos com a razão iluminada pela fé, há muitos outros que não podemos compreender, porque nos conduzem a trevas profundas. Só nos pode ajudar a fé viva na justiça divina e no imenso amor que o Senhor nos dedica. Deus não pode ser cruel, nem por um instante. Quase seria preferível duvidarmos da nossa própria razão a duvidarmos da justiça e amor divinos. Quem perder a fé e a confiança na justiça de Deus, no seu amor, bondade e misericórdia, perderá o chão debaixo dos pés, deixará de ter as suas raízes em Deus, origem da sua vida, e será arrebatado pela tempestade da dor.
A fé diz-nos que Deus é nosso Pai, que está junto de nós quando nos envia o sofrimento. Nesse momento, passamos como que para uma escola superior: O Senhor está perto daqueles que têm o coração atribulado (Sal 33, 19). A dor é mesmo um dos sinais mais seguros de eleição: Bem-aventurado o homem a quem Deus corrige (Jó 5, 17).
É nosso dever, mesmo ao sofrermos as mais negras dores, estarmos convencidos de que é Deus quem as envia e não começar a ponderar e a cismar. Basta procurarmos compreender o que quer Deus dizer-nos por intermédio desse sofrimento, saber como poderemos valorizá-lo e utilizá-lo. Porque Ele quer salvar-nos e levar-nos ao céu pelo caminho da dor: O que presentemente é para nós uma tribulação momentânea e ligeira, produz em nós um peso eterno de glória incomparável (2 Cor 4, 17). E devemos pensar com São Paulo que os sofrimentos do tempo presente não tem proporção com a glória vindoura (Rom 8, 18).
Scio cui credidi, "Eu sei em quem creio e confio", escreve São Paulo (2 Tim l, 12). O Salvador exorta-nos a não ter medo (cfr. Mt 10, 28; Lc 12, 32). Um passarinho não tem valor e, no entanto, nenhum cai sobre a terra, nem coisa alguma lhe acontece, sem que o Pai o saiba. Nós valemos muito mais aos olhos de Deus e até os próprios cabelos da nossa cabeça estão todos contados (Mt 10, 30). Não há, pois, que ter medo.
Não temais!, diz-nos o Senhor. Ainda que a terra trema e as montanhas se afundem (Sal 45, 3), ainda que nos matem (cfr. Lc 12, 4), tudo vem de Deus e tudo serve para o nosso bem (cfr. Rom 8, 28). Só devemos temer a Deus quando lhe fugimos.
Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rom 8, 31). Nada temas, porque eu estou contigo (Gên 26, 24; Is 41, 10).
FONTE: O cristão e a dor, Richard Graf, E. Quadrante, São Paulo 2007.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Escapulário do Carmo
O escapulário que ficou mais popular e conhecido é o da ordem do Carmo, que parece ter servido de modelo para todos os outros. É formado por dois pedaços de pano de lã, retangulares, de cor marrom escuro, unidos por dois cordões. Num pedaço de pano há a figura de Nossa Senhora do Carmo e, no outro, a do Sagrado Coração de Jesus. Quem recebe o escapulário mediante a cerimônia aprovada pela igreja poderá usufruir de todos os privilégios que estão mencionados abaixo. Estes privilégios foram concedidos em primeiro lugar aos Carmelitas e, mais tarde, a todo o povo cristão.
Origem: São Simão Stock: graça da perseverança final
Nascido na Inglaterra por volta do ano 1165, aos 12 anos de idade se retira para viver em solidão acompanhado de um crucifixo e de uma imagem de Nossa Senhora. Anos mais tarde, continuar a levar uma vida de eremita acaba conhecendo um grupo de religiosos do monte Carmelo que foram parar na Europa fugindo dos sarracenos. Sentindo-se enormemente atraído pela vocação destes religiosos, decide entrar para a ordem meses depois. No ano de 1245 é nomeado sexto geral da ordem (diretor geral).
Ocupando este cargo e vendo as dificuldades e perseguições intensas a que estavam sendo sujeitos - chegaram quase ao ponto de desaparecerem -, decide recorrer à proteção de Nossa Senhora invocando-a com o título de Flor do Carmelo. Nossa Senhora atende a sua súplica e lhe aparece, rodeada de anjos e segurando o escapulário da ordem. Em seguida fez uma promessa: "isto será para ti e para todos os Carmelitas privilégio. E morrendo com este escapulário não sentirá pena do fogo eternamente, e morrendo com isto será salvo". (N. Calciuri, O, Carm., Vita fratrum de sancto Monte Carmelo, 1461, editado en "Ephemerides Carmeliticae" 5 [1955] 444).
Embora a data desta visão seja incerta, situa-se dentro do generalato de São Simão (1245-1265) e é anterior ao dia 13 de janeiro de 1252, dia em que o papa Inocêncio IV expediu a bula Ex parte dilectorum, onde testemunha a veracidade deste privilégio. É incerto também o lugar da aparição. O conteúdo desta promessa é a perseverança final (a salvação) a quem morra usando este escapulário.
Esta graça da salvação eterna é preciso entendê-la corretamente. A graça que Nossa Senhora concede aos que usam o escapulário e morrem com ele é a de se arrependerem de todos os pecados cometidos em vida, já que é de fé que só se pode salvar quem esteja em estado de graça na hora da morte.
Privilégio sabatino: papa João XXII
À primeira promessa de perseverança final, é preciso acrescentar o chamado privilégio sabatino. Por este privilégio, a pessoa que usar piedosamente o escapulário, Nossa Senhora a tirará do Purgatório (se lá estiver) e a levará para o Céu no sábado seguinte após a morte. Esta promessa da Santíssima Virgem foi comunicada pelo papa João XXII na bula Sacratissimo ut culmine no dia 3 de março de 1322.
A sua origem é a seguinte: como a igreja já estava reunida há dois anos (1314-1316) para escolher o Sumo Pontífice e a questão não se resolvia, Nossa Senhora aparece ao futuro papa, que terá o nome de João XXII, e anuncia-lhe a sua eleição e lhe ordena que, uma vez eleito, promulgue uma nova graça para a ordem do Carmelo. São estas as suas palavras: "João, Vigário do meu Filho, espero de ti uma ampla e favorável confirmação da Sagrada Ordem dos Carmelitas que sempre me foi muito cara... se entre os religiosos ou confrades desta ordem, houvesse algum que ao morrer tenha que pagar seus pecados no cárcere do Purgatório, Eu, que sou a Mãe de Misericórdia, descerei ao Purgatório no primeiro sábado após morte, e o livrarei para conduzi-lo ao Monte Santo da Vida Eterna" (cfr N. Calciuri, o.c. p. 405-406).
No final do século XVI a autenticidade deste privilégio foi posta em dúvida e atacado até o ponto do inquisidor geral de Portugal e de Avignon proibir que fosse pregado ao povo. Os Carmelitas recorreram à Santa Sé e o papa Paulo V, mediante um decreto, pôs fim à questão autorizando que o pregassem com toda liberdade a todos os cristãos.
Foram tantas as confirmações deste privilégio por parte da Santa Sé que alguém chegou a afirmar "que nenhuma outra devoção, fora o terço, tem sido tantas vezes confirmada como o privilégio sabatino" (Cfr. M. di S. Maria, Il Privilegio Sabatino. Parte storica: "Lo Scapulare" 2 [Roma 1950] 71-72). Para as repetidas afirmações do Privilégio Sabatino por parte da Santa Sé pode-se consultar o Bullarium Carmelitanum II, p. 47 ss.; 68; 196 e 596, etc.
Condições requeridas para merecer estes privilégios
Para alcançar o privilégio da perseverança final se requer:
1. Usar o escapulário do Carmo, imposto e abençoado devidamente pelo sacerdote.
2. Usá-lo piedosamente, ou seja, esforçar-se por cumprir os deveres cristãos.
3. Levá-lo posto na hora da morte.
Para alcançar o privilégio sabatino se requer:
1. Usar o escapulário do Carmo, imposto e abençoado devidamente pelo sacerdote.
2. Usá-lo piedosamente, isto é, esforçar-se por cumprir os deveres cristãos.
3. Levá-lo posto na hora da morte.
4. Guardar a castidade segundo o próprio estado.
5. Rezar diariamente o ofício divino (os que estão obrigados a ele); os demais fiéis podem comutar esta obrigação por outras práticas da piedade cristã.
Conclusão
Todas as aprovações do escapulário feitas pelos papas nos últimos séculos dão a esta devoção um valor inestimável. "Traz sobre o teu peito o santo escapulário do Carmo -diz monsenhor Josemaría Escrivá-. Poucas devoções (há muitas e muito boas devoções marianas) estão tão arraigadas entre as fiéis e têm tantas bênçãos dos Pontífices. Além disso, é tão maternal este privilégio sabatino" (Caminho, n.500).
"Há muitas outras devoções marianas que não é necessário recordar neste momento. Não se trata de introduzi-las todas na vida de um cristão - crescer na vida sobrenatural é muito diferente de um simples ir amontoando devoções -, mas devo afirmar, ao mesmo tempo, que não possui a plenitude da fé cristã quem não vive algumas delas, quem não manifeste de algum modo o seu amor por Maria.
Os que consideram ultrapassadas as devoções à Santíssima Virgem dão sinais de terem perdido o profundo sentido cristão que elas encerram, e de terem esquecido a fonte de que nascem: a fé na vontade salvífica de Deus Pai; o amor a Deus Filho, que se fez realmente homem e nasceu de uma mulher; a confiança em Deus Espírito Santo, que nos santifica com a sua graça. Foi Deus quem nos deu Maria: não temos o direito de rejeitá-la, antes pelo contrário, devemos recorrer a Ela com amor e com alegria de filhos" (Mons. Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n.142).
Indulgências
Pode-se ganhar indulgências plenárias:
1. No dia da imposição do escapulário.
2. Na solenidade de Nossa Senhora do Carmo (16 de julho).
3. Na festa de São Simão Stock (16 de maio).
4. Na festa de São Elias, profeta (20 de julho).
5. Na festa de Santa Teresa de Jesus (15 de outubro).
6. Na festa de São João da Cruz (14 de dezembro).
7. Na festa de Santa Teresa do menino Jesus (1 de outubro).
8. Na festa de todos os santos da ordem do Carmo (14 de novembro).
Textos do magistério
Inocêncio IV (1243 - 1254)
Publica três documentos sobre o escapulário: um em 1246, outro em 1247, e o mais importante no dia 13 de janeiro de 1252 (bula Ex parte dilectorum). Neste último documento ameaça de excomunhão os que negam a promessa feita por Nossa Senhora a São Simão Stock: "isto será para ti e para todos os Carmelitas privilégio. E morrendo com isto será salvo" (Cfr. E. BERGIER, Les registres d'Innocent IV [París] 1, 1884).
João XXII (1316 - 1334)
Bula Sacratissimo ut culmine (março de 1322)
"João, Vigário do meu Filho, espero de ti uma ampla e favorável confirmação da Sagrada Ordem dos Carmelitas, que sempre me foi muito cara... se entre os religiosos ou confrades desta ordem, houvesse algum que ao morrer tenha que pagar seus pecados no cárcere do Purgatório, Eu, que sou a Mãe de Misericórdia, descerei ao Purgatório no primeiro sábado após a sua morte, e o livrarei para conduzi-lo ao Monte Santo da Vida Eterna"
Paulo V (1605 - 1621)
1. Breve Cum certas (outubro de 1606): concede indulgências aos que usam o santo escapulário, devidamente imposto.
2. Decreto (junho de 1608): permite aos Carmelitas publicar em suas pregações que o povo cristão pode crer piedosamente (com motivo dos sufrágios das almas dos confrades mortos em caridade) que a Santíssima Virgem ajudará com sua contínua intercessão, com seu sufrágios, com seus méritos e especial proteção, depois da morte, e especialmente no sábado, aos que tenham levado o escapulário em vida, guardado a castidade própria do seu estado, rezado o Ofício Parvo, ou na sua falta, tenham observado o jejum da Igreja e a abstinência nas quartas-feiras e sábados, exceto no dia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo (Cfr. Sumário de indulgências da Confraria do Escapulário, aprovado pela Sagrada Congregação das Indulgências 1-XII-1866).
Pio IX (1846-1878)
Documentos que estabelecem que a forma do escapulário do Carmo é imutável e tem que ser de lã (julho de 1868).
Pio X (1903-1914)
Concede a dispensa para o uso do escapulário de metal. O escapulário de pano continua sendo mais recomendável por ser mais simbólico.
Pio XII (1939-1958)
Epístola aos Gerais dos PP. Carmelitas (fevereiro de 1950).
Devido ao sétimo centenário do escapulário, o denomina a “primeira devoção mariana, memória de humildade e castidade, breviário de modéstia e simplicidade, símbolo de súplicas e consagração ao Coração de Maria. Ninguém ignora, certamente, quanto o amor à Santíssima Mãe de Deus contribuiu para avivar a fé católica e os costumes cristãos, especialmente através daquelas expressões de devoção com as que, de modo especial com relação às outras, parece que as mentes se enriquecem de doutrina sobrenatural e as almas são solicitadas ao cultivo da virtude cristã. Entre estas figura, em primeiro lugar, a devoção ao santo escapulário dos Carmelitas que, adaptando-se por sua simplicidade a índole de todas as pessoas e com ubérrimos frutos espirituais está amplamente difundida entre os fiéis cristãos. Com grato ânimo, entendemos que, ao aproximar-se o sétimo centenário da instituição desse escapulário da divina Mãe do Monte Carmelo, os religiosos Carmelitas, tanto calçados como descalços, estabeleceram promover solenes celebrações em honra da Bem-aventurada Virgem Maria. Esta piedosa iniciativa a recomendamos de todo coração, tanto por nosso constante amor para a Mãe de Deus como por nossa agregação, desde a mais terna idade, à confraria de tal escapulário, e desejamos de Deus uma abundante chuva de favores. Porque não se trata de coisas de pouca importância, mas da aquisição da vida eterna, em virtude da tradicional promessa da Beatíssima Virgem; trata-se, de fato, da empresa mais importante e do modo mais seguro de levar a cabo. Certamente o sagrado escapulário, como veste mariana, é sinal e garantia da proteção da Mãe de Deus; mas não pensem que a veste pode conseguir a vida eterna na preguiça e na indigência espiritual já que avisa o Apóstolo: “Procurai vossa salvação com temor e tremor” (Fil 2, 12¨). Portanto, todos Carmelitas, que, tanto nos claustros da primeira e segunda ordem como na terceira ordem regular e secular e nas confrarias, pertencem, por um particular vínculo de amor à família da Beatíssima Mãe, tenham no memorial de tal Virgem o espelho de humildade e de castidade; tenham na simples confecção desta veste, um breviário de modéstia e simplicidade; tenham sobretudo, na veste que de dia e de noite levam, a elegante expressão simbólica das súplicas com que invocam a ajuda divina; vejam, finalmente, naquela consagração o Sacratíssimo Coração da Imaculada Virgem Maria que recente e vivamente temos recomendado. Certamente, a piedosíssima Mãe não deixará de fazer que os filhos que expiam no Purgatório suas culpas alcancem o mais cedo possível a pátria celestial por sua intercessão, segundo o chamado privilégio sabatino que a tradição nos transmitiu”.
Paulo VI (1963-1978)
Exortación Marialis cultus (fevereiro de 1974)
Cremos que entre as formas de piedade mariana deve contar-se expressamente o terço e uso devoto do escapulário do Carmo. Esta última prática pela sua própria simplicidade e adaptação a qualquer mentalidade, tem conseguido ampla difusão entre os fiéis, com imenso fruto espiritual.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Confissão: o sacramento da reconciliação: por que assim?
Em síntese: O sacramento da Reconciliação foi até o século VI ministrado de maneira muito rigorosa, que aos poucos foi sendo abrandada até assumir a forma atual no século XIII. Exerceram influência nessa história os monges irlandeses, que no começo do século VI se estabeleceram no continente europeu. No fim deste artigo é abordada a questão da validade da confissão a um leigo.
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Para entender a atual forma de celebração do sacramento da Reconciliação ou Penitência, é indispensável breve percurso histórico, que ilustre as diversas fases por que passou o rito deste sacramento. O ritual exprime as concepções teológicas respectivas.
A administração do sacramento da Reconciliação foi assumindo diversas formas até o século XIII, quando se fixou nas modalidades do rito atual. Principalmente nos primeiros séculos a documentação relativa à Penitência era esporádica ou não sistemática - o que dificulta ao historiador a tarefa de reconstituir a história. Como quer que seja, podem-se, com segurança distinguir três fases nessa evolução; 1) até o século VI, a penitência irrepetível, dita "pública"; 2) do século VII ao século XIII, a penitência dita "tarifada", administrada segundo três modalidades; 3) do século XIII aos nossos dias, a penitência estritamente secreta.
1. Até o século VI
1.1. Que pecados?
Os antigos distinguiam bem entre pecados graves, "que separam do Corpo de Cristo" (S. Agostinho) e pecados leves. Dos testemunhos existentes pode-se depreender a seguinte lista de pecados graves ou mortais:
Apostasia, homicídio, adultério, concubinato, fornicação, espetáculos lascivos ou cruentos, furto, aborto, falso testemunho, perjúrio, embriaguez habitual, ódio tenaz...
Os pecados leves seriam: maledicência, dureza para com o próximo, má acolhida aos mendicantes[1].. Para expiar tais pecados, eram suficientes a contrição sincera, a prática da caridade e das boas obras e a penitência pessoal ou privada.
A distinção entre pecados graves e pecados leves em alguns casos era, e ainda é, um tanto frouxa, visto que cada ato pode ser grave em grau maior ou menor, de acordo com a convicção e a intensidade com que alguém o comete.
Parece que em alguns lugares (Espanha, França, Norte da África) ficavam excluídos da penitência sacramental nos séculos II-IV a tríade de "adultério, homicídio e apostasia". Este rigorismo tinha em vista acentuar o caráter totalmente extraordinário e estranho do pecado grave na vida de um cristão. O mesmo se entende ainda melhor se se leva em conta que grande número de cristãos eram batizados em idade adulta ou provecta, depois de haver renunciado a uma vida devassa; a recaída nas faltas graves parecia inconcebível à comunidade eclesial.
1.2. As etapas da Reconciliação sacramental ou canônica
1) Ingresso na ordem dos penitentes
O cristão que tivesse consciência de haver cometido alguma culpa grave, ia procurar o bispo ou o presbítero e lhe abria a consciência. Por conseguinte, era secreta a confissão, e não pública.[2] O ministro julgava se tal pecado devia ser submetido à Penitência sacramental. Quando se tratava de delitos públicos, a iniciativa de fazer penitência podia ser tomada pelo bispo; se o pecador recusasse fazer penitência, o bispo podia excomungá-lo.
O pecador, depois de confessar suas faltas, era, segundo o juízo do bispo e as normas vigentes na comunidade local, agregado à categoria dos penitentes: o próprio bispo impunha-lhe as mãos, revestia-o de cilício e o expulsava simbolicamente da igreja; na Gália, os penitentes raspavam a cabeça (com freqüência isto acontecia no decurso do próprio rito); na Espanha, ao contrário, os penitentes eram obrigados a não cortar os cabelos e a barba. Entrementes a comunidade se dispunha a acompanhar os irmãos penitentes pela oração e o zelo fraterno.
2) A prática da Penitência pública
Ao introduzir o pecador na categoria dos penitentes, o bispo impunha-lhe uma satisfação "justa e côngrua", ou seja, um período de obras penitenciais que o ajudassem a mobilizar todo o seu amor a Deus e extinguir em si todo amor pecaminoso ou desregrado. Tal período era proporcional à gravidade das faltas cometidas e tinha finalidade medicinal. A satisfação constava dos seguintes elementos:
Obrigações gerais: jejum até o pôr do sol e abstinência de carne, por vezes pousada noturna em grosseiro leito de palha salpicado de cinzas; por vezes também abstinência de banho e prática de esmola.
Obrigações rituais: os presbíteros impunham as mãos aos penitentes; estes rezavam de joelhos em certos dias; transportavam os defuntos à igreja e lhes davam sepultura.
Interditos: aos penitentes era proibido não só durante o tempo de expiação, mas por todo o resto da vida, exercer cargos públicos e atividades comerciais, apresentar-se ao tribunal civil, prestar serviço militar, receber as Ordens sacras. Quem fosse casado(a), não poderia viver maritalmente com o(a) consorte, mesmo depois da reconciliação sacramental obtida; o penitente que se tornasse viúvo, não podia contrair novo matrimônio nem após a reconciliação...
Havia graus ou classes de penitentes:
- os flentes (os que choravam) ficavam à porta da igreja, vestidos de cilício e cinzas, pedindo com lágrimas que os irmãos orassem por eles;
- os audientes (ouvintes) ingressavam na igreja para ouvir a Palavra de Deus, mas eram despedidos antes que começasse a celebração eucarística;
- os substrati (prostrados) assistiam à celebração eucarística de joelhos e prostrados;
- os consistentes assistiam à celebração eucarística em pé, mas não participavam nem da oferta nem da Comunhão sacramental.
A duração do período expiatório variava, como dito, segundo a gravidade das culpas. A Didascalia Apostolorum (século IV), na Síria, fala de duas até sete semanas. Contudo a duração podia ser bem mais longa; Orígenes de Alexandria (+ 255) dizia que devia estender-se mais do que o catecumenato, ou seja, aproximadamente três anos. São Basílio Magno (+ 379) estabeleceu que, para o homicídio, o tempo penitencial seria de vinte anos repartidos em quatro segmentos: quatro anos na ordem dos flentes; cinco na dos audientes, sete entre os substrati; e quatro entre os consistentes. A partir do século V, quando foram introduzidos os interditos que atingiram os penitentes também após a reconciliação, a duração do tempo expiatório foi diminuída. Era o bispo quem a estipulava, não a seu arbítrio, mas segundo os cânones dos diversos Concílios regionais. Em Roma tornou-se praxe fazer da Quaresma o tempo penitencial ordinário; na quarta-feira de cinzas, os penitentes recebiam as cinzas e o cilício, e na quinta-feira santa eram reconciliados.
Os penitentes que abandonassem o seu estado eram excomungados de maneira definitiva, pois tal apostasia era tida como gravíssima.
3) A reconciliação ou absolvição
Era realizada em rito litúrgico acompanhado por toda a comunidade. O bispo impunha as mãos sobre os penitentes e proferia a oração sacerdotal, assim como uma homilia. Celebrava-se, a seguir, a Eucaristia, durante a qual os reconciliados comungavam. - Julgava-se que a absolvição apagava a culpa e encontrava o penitente isento de tendências desregradas, pois o amor a Deus longamente exercitado pelas renúncias anteriores teria extinto qualquer cobiça desregrada. Por isto também o sacramento da Penitência era chamado "Segundo Batismo" ou "Batismo laborioso", visto que era comparado ao primeiro Batismo pelo fato de purificar o pecador de qualquer resquício de pecado (assim ao menos se presumia); a Igreja antiga era muito ciosa de pureza e santidade!
A reconciliação com a Igreja implicava a reconciliação com o próprio Deus. Este se comunica ao homem por via sacramental, como ensina o próprio Cristo: "Tudo o que desligares (absolveres) na terra, será desligado no céu" (Mt 16, 19).[3]
1.3. Uma vez só...!
A Igreja antiga só ministrava uma vez a Penitência sacramental a quem dela precisasse. A recaída após tão rigorosa reconciliação era considerada como sinal de ânimo fraco, que não aproveitaria de nova oportunidade. A Igreja, porém, não abandonava os relapsos: orava por eles, deixava-os retornar à classe dos penitentes, mas não lhes concedia a reconciliação nem mesmo em caso de morte; às vezes, principalmente se o pecador tivesse dado provas de verdadeiro arrependimento, os bispos permitiam que se lhes levasse a Comunhão Eucarística como viático em artigo de morte.
Tais normas tinham caráter disciplinar; tencionavam evitar a "banalização" do pecado e da penitência. A Igreja recomendava ao pecador relapso que prestasse expiação por conta própria, na presença de Deus, que certamente veria o fundo do seu coração e lhe daria diretamente o perdão.
Para entender tal severidade da disciplina antiga, deve-se levar em conta o que foi observado atrás: o Batismo era conferido em idade adulta ou provecta, depois de madura reflexão do catecúmeno e acompanhamento por parte da Igreja; devia significar profunda metanóia ou conversão. A recaída no tipo de vida pré-batismal parecia sinal de resistência ao Espírito Santo e pouca abertura para nova graça sacramental.
1.4. Conseqüências imprevistas
O rigor penitencial e a sua não-iterabilidade levavam muitos pecadores a adiar a Penitência sacramental até o fim da vida. Poucos eram os que a ela recorriam no vigor dos seus anos. Alguns bispos, aliás, eram cônscios de que poucos cristãos, principalmente se ainda jovens, seriam capazes de se abster do matrimonio após a reconciliação e levar uma vida quase monacal. Por isto houve bispos e Concílios regionais que desaconselharam os jovens e as pessoas casadas de se submeterem à Penitência canônica, especialmente se estes últimos não tivessem o pleno consentimento do(a) consorte. Eis alguns testemunhos significativos:
S. Ambrósio (+ 397): "A penitência (pública) seja prestada quando decresce o ardor da luxúria" (Sobre a Penitência II 11).
Concílio de Agdes (+ 506): “Aos jovens não se permita facilmente a penitência (sacramental) por causa da fragilidade da idade".
São Cesário, bispo de Aries (503-542), explica mais amplamente a disciplina:
"Talvez, enquanto exortamos em geral todos à penitência, alguém pense dentro de si: eu sou ainda homem jovem, tenho esposa, como poderia cortar os cabelos e tomar o hábito de penitente? Mas, nem mesmo nós, irmãos caríssimos, queremos dizer isto: não dizemos que as pessoas ainda jovens unidas em matrimônio devam mudaras vestes; antes, dizemos que devem mudar a vida. E que dano poderia haver a um homem casado se corrigisse seu modo de viver dissoluto e conduzisse vida digna e honesta, se procurasse curar as feridas causadas pelos pecados, fazendo esmolas, jejuando e orando? Uma conversão sincera, mesmo sem mudar as vestes, basta por si; as vestes do penitente, por si só, não só não constituem remédio, mas provocarão o justo juízo de Deus. Convertamo-nos, pois, ao bem porque os meios de faze-lo estão à nossa disposição. De uma parte, evitaremos a morte (eterna) morrendo aos nossos pecados; da outra, adquiriremos, com nossos méritos, a vida eterna, com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo" (Sermão 55, 4).
Acrescente-se que os clérigos e os monges não eram admitidos à Penitência eclesiástica. Os clérigos que tivessem cometido pecados graves eram depostos e, se se mostrassem verdadeiramente arrependidos, eram admitidos à Comunhão Eucarística como leigos. Eis alguns depoimentos a propósito:
S. Leão Magno: "É contrário aos costumes da Igreja que os clérigos ordinários, sacerdotes ou diáconos, possam receber o remédio da penitência por seus pecados com a imposição das mãos; esta regra tem origem, sem alguma dúvida, na tradição apostólica, pois está escrito: `Se o sacerdote pecou, quem intercederá por ele?” (Lv 5).
“Os clérigos pecadores, para merecerem a misericórdia de Deus, devem pedir que sejam admitidos a se retirarem na solidão; lá sua expiação, se for adequada às suas culpas, será útil..." (Epístola 167,
Concílio de Epaône (517): "Se um sacerdote ou um diácono comete pecado mortal, seja deposto de seu encargo e fechado num convento; aí, por todo o resto de sua vida, receberá só a Comunhão".
O rigor da disciplina penitencial antiga fez que, no fim do século VI, a situação se tornasse insustentável: a Penitência sacramental era inacessível precisamente para os que dela mais necessitavam, isto é, as pessoas adultas e cheias de vida. A categoria dos penitentes ficava reservada a anciãos, viúvos e celibatários. A solução para quem pecasse gravemente, era procurar doravante viver retamente e preparar-se para receber a Penitência no fim da vida ou tão-somente a absolvição no leito de morte ...! Embora não absolvidos de seus pecados, tais cristãos procuravam e recebiam o sacramento da Eucaristia, baseando-se no valor expiatório de sua penitência privada. Não poucos o faziam levianamente, sem se preocupar muito com os seus vícios. Isto levava os bispos a excomungar os mais indignos e a pedir aos outros que se abstivessem temporariamente da Eucaristia.
Podia acontecer também que um pecador, em vez de se submeter à Reconciliação canônica, entrasse para um mosteiro e aí professasse a vida monacal, sinceramente arrependido de suas faltas. A profissão monástica perpétua e a vivência daí decorrente eram tidas como equivalentes ao processo da Penitência eclesial, de modo que tal pessoa podia receber a Comunhão Eucarística. É o que se lê num texto do século VI, atribuído ao bispo Fausto de Riez:
“Dê-se a penitência aos seculares, que estão ainda sob o jugo do mundo; meça-se o tempo da penitência segundo a gravidade do delito cometido por aquele que vive ainda no século! Mas, quando se trata do monge, que renunciou ao mundo e ao seu serviço, e prometeu servir sempre a Deus, por que se lhe deveria impor a Penitência?... Portanto, para o monge a penitência pública é inútil, porque, emendado de seus pecados, ele chora e conclui um pacto eterno com Deus. As culpas que cometeu no mundo, foram canceladas no dia em que ele prometeu a Deus viver doravante segundo a justiça. Depois do pacto escrito por sua mão, com o qual promete cumprir seus deveres com toda a sua fé - mesmo que depois do batismo tenha pecado no mundo - o monge, depois da sua segunda renúncia (sua profissão religiosa), não hesitará em receber o Corpo do Senhor, por medo de que, por causa de excessiva humildade, não permaneça muito distante do Corpo e do Sangue daquele ao qual se uniu para não formar senão um só Corpo. Não deixe, pois, a Comunhão aquele que deixou de pecar, mas não peque mais para o futuro" (Migne Latino 58, 875s).
2. Do século VII ao século XIII
2.1. A transição
A difícil situação de fins do século VI foi dando ocasião a que, aos poucos, se fosse mudando a praxe penitencial. O primeiro testemunho disto é o cânon 11 do Concílio regional de Toledo (Espanha, maio de 589). Os bispos condenaram o costume inovador de conceder repetidamente a absolvição sacramental:
"Uma vez que temos conhecimento de que em algumas igrejas da Espanha os homens fazem penitência por seus pecados não segundo os cânones, mas de modo de todo indigno (foedissime), assim que cada vez que pecam pedem ao sacerdote serem reconciliados, a fim de decepar esta execranda presunção fica estabelecido pelo santo Concílio que a Penitência seja dada segundo a forma canônica dos antigos, isto é, que aquele que se arrepende dos próprios pecados seja, antes de tudo, suspenso da Comunhão e se submeta à imposição das mãos juntamente com os outros penitentes; concluído, pois, o tempo da satisfação, seja restituído à Comunhão segundo a oportunidade estabelecida pelo
sacerdote. Aqueles, pois, que, ou durante a Penitência ou depois da Reconciliação, recaírem nos primitivos pecados, pela norma da antiga severidade dos cânones sejam excomungados" (Mansi VI 708).
A censura dos bispos em Toledo teve que ceder paulatinamente à nova praxe, que se foi propagando. Entre 647 e 653 o Concílio regional de Chalon-sur-Saône a aprovou:
"No que diz respeito à Penitência, que é a medicina da alma, cremos que seja da máxima utilidade a todos os homens; assim como todos os sacerdotes estão de acordo em afirmar que aos penitentes, cada vez que tenham feito a confissão, lhes seja dada a Penitência" (cânon 8).
O incremento do novo costume deve-se inegavelmente à influência dos monges provenientes da Grã-Bretanha e da Irlanda para o continente europeu desde a primeira metade do século VI. Ao que parece, os cristãos daquelas ilhas não conheceram a Penitência pública. A organização eclesiástica lá se fazia em torno dos mosteiros, ao menos a partir do século V. Ora nos mosteiros os monges praticavam a abertura de consciência, revelando ao pai espiritual dificuldades e falhas da vida espiritual; faziam-no tantas vezes quantas julgassem necessárias. Esse tipo de confissão, relativa a pequenos defeitos morais, deve ter sido transferido para o foro sacramental, de sorte que também os pecados graves foram sendo confessados aos sacerdotes, que lhes davam, a seguir, a absolvição.
Assim quebrou-se a não reiterabilidade do sacramento. Isto não quer dizer que o tipo de satisfação fosse abrandado. Continuava, sim, rigoroso ou medicinal. Os monges irlandeses trouxeram para o continente os seus Livros Penitenciais, em que se estipulava a penitência correspondente a cada tipo de pecado; era a penitência "tarifada", que supunha o seguinte rito:
O pecador era doente ou morava longe e a estação do ano era inclemente ou, ainda (segundo os termos de certas Penitenciais), quando o pecador era de tal modo rude e grosseiro que não compreendia..., o confessor, depois de ouvir a confissão, recitava imediatamente as preces de absolvição com a imposição das mãos. - Seja observado, porém, que, a partir do século IX, a absolvição se seguia imediatamente à acusação dos pecados. A penitência seria cumprida depois desta.
A Penitência "tarifada" não comportava as obrigações e os interditos que na disciplina antiga marcavam o pecador por toda a vida.
Por estas razões a nova forma penitencial estava aberta também aos clérigos e aos monges.
Começaram a ser parte da acusação também os pecados menos graves e mais numerosos. Visto que o sacramento se tornou mais usual, o ministro ficou sendo o presbítero quase exclusivamente, enquanto o bispo reservava a si a reconciliação solene de vários penitentes nas grandes festas e a organização da Penitência canônica, que, em certa medida, continuou a existir até o século XIII.
Pergunta-se agora:
2.2. Em que consistiam as penitências "tarifadas"?
Do conjunto dos Livros Penitenciais depreende-se que a Penitência tarifada conservava, em grau notável, o rigor das antigas obras satisfatórias: tratava-se de mortificações corporais (jejum de alimentos e abstinência de carne), vigílias prolongadas, recitação de salmos, privação de relações conjugais durante certo tempo, peregrinação a um santuário ou a um túmulo de Santo, doação de esmola a uma igreja ou a um mosteiro... A duração do jejum (às vezes, a pão e água) era variável, podendo ser de dias, meses e também anos. Eis alguns espécimens das tabelas:
O Paenitentiale Columbani prescrevia:
"3. Se alguém cometeu atos como homicídio ou sodomia, fará dez anos de jejum. Se um monge fornicou só uma vez, três anos de penitência; se o fez mais freqüentemente, sete anos de penitência. Se um monge abandonou (o estado monacal) e transgride seus votos, mas retorna em breve, jejuará durante três Quaresmas: se retorna apenas depois de longos anos, fará penitência por três anos...
4. Se alguém tiver roubado, fará penitência (jejuando) por sete anos...
11. 0 monge que calunia seu irmão ou ouve voluntariamente os caluniadores, fará três dias de jejum prolongado; se calunia seu superior, jejuará durante uma semana...
27. 0 homicida jejuará por três anos a pão e água, sem levar armas, e viverá no exílio. Depois destes três anos, retornará para a sua pátria e se porá a serviço dos parentes da vítima, substituindo aquele que matou.[4] Assim poderá ser readmitido na Comunhão, segundo o juízo do seu confessor.
28. Se um leigo tiver filho com a mulher de outro, isto é, tiver cometido adultério, fará penitência por três anos, abstendo-se de alimentos gordurosos e do uso do matrimônio, retribuindo, além disso, o preço da desonra ao marido da mulher violada.[5]
29. Se um leigo fornicou de modo sodomitico, fará penitência por sete anos; os primeiros três, nutrindo-se somente de pão, água, sal e legumes secos; nos outros quatro, abstenha-se de vinho e das carnes. Assim seu pecado será perdoado e o confessor orará por ele o readmitirá à Comunhão".
2.3. As comutações
O tabelamento assim proposto dava origem a situações imprevistas: o número e a gravidade dos pecados acusados podia implicar uma soma de penitência cuja duração ultrapassava a extensão da vida do pecador... Para remediar ao impasse, os próprios Livros Penitenciais tinham em anexo tabelas especiais para se fazer a comutação, a compensação ou a redenção das penas demasiado longas: estas eram trocadas por outras mais breves, que, porém, podiam ser mais rígidas. Eis alguns exemplos:
Os Cânones Hibernenses (Irlandeses), do século VI, assim rezam:
"2. Comutação por jejum de três dias: ficar em pé um dia e uma noite sem dormir (ou muito pouco) ou a recitação de 50 salmos com os cânticos correspondentes, ou a recitação do Ofício de 12 Horas, com doze inclinações profundas cada Hora com as mãos levantadas.
3. Comutação por jejum de um ano: passar três dias no túmulo de um Santo, sem beber e sem comer, sem dormir e sem tirar as vestes; durante este tempo cantará salmos ou recitará o Ofício das Horas segundo o juízo do sacerdote (que impôs a penitência).
4. Outra comutação por jejum de ano: passar três dias numa igreja, sem beber nem comer nem dormir, sem se sentar; durante este tempo o pecador cantará salmos com os cânticos e recitará o Ofício coral. Durante esta oração, fará doze genuflexões - tudo isso depois de ter confessado seus pecados diante do sacerdote e diante do povo".
O jejum, as vigílias noturnas e as peregrinações podiam ser comutados por esmolas, caso o penitente não tivesse condições físicas para atuar tão rigorosas penas corporais. Supunha-se que a esmola representasse uma renúncia e provocasse o amor a Deus (e ao próximo), amor que seria o antídoto das cobiças pecaminosas do penitente. Aliás, como dito, as mortificações rigorosas dos antigos medievais tinham em vista unicamente excitar e fortalecer o amor a Deus e extinguir o amor desregrado existente no ser humano e causador do pecado. Somente o amor a Deus muito vigoroso isentaria o indivíduo do gosto de pecar.
Os medievais, na sua boa fé, imaginavam que, se alguém não conseguisse cumprir a penitência devida, outra pessoa, solicitada por ele, o poderia fazer em seu lugar: o pecador daria, em troca, uma 'esmola aos pobres. Eis o que se lê na Paenitentiale Commeani:
"O penitente que não sabe recitar os salmos e não pode jejuar, escolha um monge que faça penitência em seu lugar; quanto ao penitente, por cada dia de jejum, dê um dinheiro justo aos pobres".
Verifica-se, porém, que a prática das comutações assim concebidas dava ocasião a abusos. Muitos prestavam tanta atenção às obras penitenciais que já não levavam na devida conta o espírito ou as condições da alma que as devia inspirar e sustentar: a materialidade do jejum, das peregrinações ou das vigílias podia parecer suficiente para tranqüilizar as consciências, quando, na verdade, as boas obras só têm valor na medida em que traduzem horror ao pecado e profundo amor a Deus; o ser humano é psicossomático, de modo que nunca se pode contentar com a materialidade de obras corporais, mas também nunca se pode limitar a ter sentimentos interiores sem expressões corpóreas.
Vários Concílios reagiram contra abusos ocorrentes na prática da penitência tarifada e das comutações. Assim, o de Cloveshoe em 747; o de Ruão em 1048; o de York em 1195; o de Londres em 1200...
Tais abusos provocaram o desaparecimento da penitência tarifada na Alta Idade Média. A intenção pastoral e medicinal que a inspirara, era válida, mas os inconvenientes que ocasionou, fizeram-na cair em desuso.
2.4. Três formas de Penitência eclesiástica na Alta Idade Média
A importância dada ao cumprimento das obras penitenciais fez que, a partir do século XIII, houvesse na Igreja três formas de Penitência adequadas a diversos tipos de pecador:
1) a Penitência pública e solene, irrepetível, herança da antigüidade, reservada a pecados graves públicos como o homicídio, a luxúria escandalosa, o adultério, o sacrilégio... Costumava durar desde a quarta-feira de cinzas até a quinta-feira santa;
2) a Penitência privada, oriunda da praxe dos monges irlandeses, implicando satisfação ainda rigorosa (pois destinada a ser medicinal);
3) a Penitência pública não solene ou peregrinação penitencial. Aqui está a novidade. O confessor convocava os penitentes para a porta da igreja local, entregava-lhes as insígnias de peregrinos (alforje e bastão) e enviava-os a determinado santuário (tinham preferência os túmulos dos Apóstolos São Pedro e São Paulo em Roma). Chegados ao santuário, os penitentes podiam-se julgar absolvidos de seus crimes. Participavam dessas peregrinações homens e mulheres cujos pecados públicos não fossem considerados altamente escandalosos. Todavia essas migrações se ressentiram do desregramento ou falta de espírito penitencial dos seus membros, dando lugar a diversos males e escândalos. As leis da Igreja e os regulamentos civis tentaram sanear esses inconvenientes, mas não o conseguiram plenamente. - Tal forma de Penitência desapareceu, pois fugia às linhas teológicas do sacramento.
Ainda é de notar que a grande estima atribuída à ação penitencial fez que, entre os séculos VIII e XIV, se praticasse confissão aos leigos. Na falta do ministro ordenado, os próprios teólogos e pastores recomendavam aos fiéis que acusassem os seus pecados a amigos, companheiros de viagem e vizinhos; alguns documentos medievais afirmam que o diácono tinha o poder de ouvir confissões, não, porém, o de absolver os pecados. Os teólogos justificavam esta praxe pelo fato de que confessar os pecados implica humilhar-se e penitenciar-se - o que podia obter o perdão da parte de Deus. São Tomás de Aquino (t+1274) considerava necessária a confissão aos leigos em perigo de morte e na ausência de ministro próprio; cf. Suma Teológica, Suplemento 8, 2 ad 1 e ad 2; 8, 4 ad 5; 9, 3 ad 3 (o S. Doutor parece supor que se trata de doutrina comum na sua época).
Foi o franciscano João Duns Scotus que começou a impugnar essa prática, por não ter valor de sacramento e, por conseguinte, não poder ser imposta como obrigatória.
É de notar que, precisamente no século XIII, o Concílio do Latrão IV (1215) houve por bem prescrever uma confissão anual ao menos, pois a frequentação do sacramento era desleixada ou confundida pelos fiéis, não por falta de fervor, mas porque as linhas da piedade católica estavam em fase de estruturação.
3. Conclusão
Foi no século XIII que finalmente terminou a evolução do rito do sacramento da Penitência, assumindo a forma que ele hoje tem. O nome de sacramento "da Confissão" prevaleceu sobre os demais, visto que no século XIII muito se enfatizou o caráter penitencial da acusação (confissão) dos pecados.[6] As obras satisfatórias no decorrer dos séculos seguintes foram sendo mais e mais atenuadas, a fim de não afugentar ninguém do sacramento ou a fim de permitir que pessoas afastadas da prática religiosa não se intimidassem pela perspectiva de rigorosos jejuns e vigílias.[7]
A purificação dos afetos íntimos (= raízes do pecado) que o penitente não realiza por imposição do confessor, terá que ser efetuada espontaneamente pelo penitente após a reconciliação sacramental, mediante a virtude da penitência; é imprescindível essa tarefa de eliminar do coração todo sentimento desregrado, para que o cristão possa ver a Deus face-à-face quando o Pai Celeste o chamar a Si. Caso a pessoa não consiga (com a graça divina) efetuar essa purificação na vida presente, terá de fazê-lo após a morte, no purgatório póstumo; este é uma concessão da Misericórdia Divina à criatura cujo amor ainda é contraditado por tendências desordenadas. A existência do purgatório póstumo não somente é atestada pelas Escrituras (cf. 2Mc 12, 39-45; 1 Cor 3, 10-15), mas é muito lógica, dadas as premissas atrás apontadas.
O conhecimento da história do sacramento da Reconciliação desde os tempos bíblicos até o século XIII permite compreender melhor o significado deste sacramento em nossos dias, quando o simbolismo do rito está reduzido a poucos traços. Apesar da simplificação do Ritual (que a remodelação pós-conciliar enriqueceu um pouco), o cristão desejoso de frutuosa recepção do sacramento não pode esquecer que ele implica
- a consciência da hediondez do pecado, tão viva na mente dos antigos cristãos. O pecado grave deve ser uma exceção - e exceção cada vez mais rara a ponto de desaparecer - na vida do discípulo de Cristo. Ninguém é chamado à mediocridade, mas todos são chamados à santidade (cf. Lumen Gentium, capítulo IV). Por isto o cristão não se pode "consolar" com a consciência de que o pecado é comum a todos os homens e, por isto, é sina inevitável. É preciso emergir para fora do mundo do "meio-termo" ou do "mais ou menos" para tender cada vez mais, com a graça de Deus, à perfeição que está na linha mesma do Batismo que cada um recebeu;
- a consciência da necessidade da Penitência, entendida ora como sacramento, ora como virtude (a virtude é conseqüência da graça sacramental). A penitência não é finalidade em si mesma, mas é remédio; é instrumento indispensável para exercitar o amor a Deus e extinguir os amores desordenados existentes no cristão. Não há como a evitar; embora hoje, por motivos diversos, não possa ser praticada como outrora era praticada (meses ou anos de jejum, cilício, peregrinações...). A generosidade atlética dos antigos cristãos, com suas expressões surpreendentes, deve lembrar aos contemporâneos que são filhos dos Santos e não podem trair a sua linhagem. É esta a grande lição que a história do sacramento da Penitência transmite ao povo de Deus hoje, lição que deve ser reavivada constantemente a fim de se sacudir a rotina e despertar os cristãos para uma vida sempre mais coerente.
4. Três modalidades de celebração
O sacramento da Reconciliação pode ser ministrado de três maneiras:
4.1. Celebração meramente individual
É a forma usual nos últimos séculos; há um diálogo secreto entre o penitente e o confessor, diálogo que consta de acolhida, acusação, exortação, imposição de satisfação, absolvição, despedida.
4.2. Moldura comunitária. Acusação e absolvição individuais
Esta segunda modalidade põe mais em relevo a índole eclesial do sacramento, pois supõe uma assembléia de fiéis reunidos para celebrá-lo. Requer-se também um número de sacerdotes disponíveis para ouvir as confissões individuais.
Consta de preparação comunitária, efetuada de acordo com ritual próprio. A acusação e a absolvição são individuais. A absolvição não é coletiva para não causar confusão nos fiéis, pois poderiam entender que todos são absolvidos comunitariamente.
Quem não pratica a confissão individual, não recebe o sacramento nem o perdão dos pecados graves, mas pode receber o perdão dos pecados leves[8] se participou contrita e sinceramente da paraliturgia penitencial.
4.3. Confissão e Absolvição Gerais
Somente aqui, e não no caso anterior, temos o que freqüentemente se chama "confissão comunitária".
As duas últimas guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945) suscitaram o perigo de morte para militares e civis, impossibilitados então de recorrer a um sacerdote para receber individualmente o sacramento da Reconciliação: embarque para a frente de guerra, bombardeios, incêndios, naufrágios... levaram assim a Santa Sé a conceder que um sacerdote presente à multidão ameaçada lhe desse a absolvição coletiva. Temos, entre outras instruções a propósito, as normas da S. Penitenciaria datadas de 25/03/1944.
Com o passar do tempo, a penúria de sacerdotes e outros motivos levaram a S. Igreja a definir uma legislação minuciosa sobre tal prática; ver Código de Direito Canônico, cânones 960-963:
1) É lícito absolver, de modo geral, vários penitentes sem prévia confissão individual:
a) em iminente perigo de morte, quando não há tempo para que os sacerdotes ouçam a confissão de cada um dos interessados;
b) em caso de grave necessidade, isto é, quando há grande número de penitentes e não existe número suficiente de confessores para atendê-los pessoalmente dentro de um espaço de tempo razoável; se forem despedidos sem o sacramento, tais pessoas deverão ficar muito tempo sem a reconciliação e sem a Comunhão Eucarística.
Compete ao Bispo diocesano, de comum acordo com os outros membros da sua Conferência Episcopal, estipular se tal caso de grave necessidade ocorre na sua diocese, e, eventualmente, em que ocasiões ocorre (Natal? Semana Santa? Finados?...). Não é lícito ao sacerdote tomar a iniciativa da absolvição coletiva por conta própria.
2) Para que a absolvição coletiva seja válida, requer-se não só que o fiel esteja devidamente disposto, mas também que tenha o propósito de confessar individualmente dentro do tempo devido (ou quanto antes) os pecados graves que no momento ele não pode confessar. A Igreja não pode dispensar da obrigação da confissão, pois esta é instituída pelo próprio Cristo (cf. Jo 20, 22s); a Igreja apenas desloca os elementos constitutivos do sacramento da Reconciliação: Contrição, Confissão, Satisfação, Absolvição (vimos como a seqüência foi oscilante no decorrer dos séculos).
3) Para se dar a absolvição coletiva, não bastam grande número de penitentes e exíguo número de confessores, como acontece nos casos de peregrinação ou de festividade. Requer-se, além disto, que os fiéis estejam ameaçados de ficar, sem culpa própria e por muito tempo (um mês, como estipulou a Conferência dos Bispos do Brasil), sem receber os sacramentos. Ora isto não costuma acontecer nas cidades, onde há paróquias com sacerdotes estáveis: quem não se pode confessar em determinado dia festivo, pode fazê-lo em outro dia próximo. A Santa Sé (e, com ela, a Conferência dos Bispos do Brasil) insiste muito em que os sacerdotes facilitem o acesso dos fiéis à Confissão individual, estabelecendo horários favoráveis, fixos e freqüentes, de atendimento.
Tanto em perigo de morte como fora dele, os fiéis devem ser instruídos, tanto quanto possível, sobre as condições para a recepção válida e lícita da absolvição coletiva.
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NOTAS:
[1] É preciso notar que todo pecado é pecado de uma determinada pessoa e assume, a partir das características dessa pessoa, a nota de gravidade ou não gravidade, de
maior gravidade ou menor gravidade. Uma coisa é fazer um catálogo abstrato de pecados, outra coisa é avaliar um pecado na sua realidade concreta; a intensidade com que alguém se dá ao pecado, o conhecimento de causa, a vontade mais ou menos deliberada são fatores pessoais que devem ser levados em conta.
[2] São Leão Magno (f 461), Papa, proibiu explicitamente a confissão pública de pecados secretos.
[3] S. Agostinho (+ 430) escreve: “A caridade da Igreja, derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, perdoa os pecados daqueles que participam dela, enquanto são retidos os daqueles que não participam da Igreja" (In Jo 121, 4).
"A paz da Igreja perdoa os pecados, enquanto a separação dela os retém" (De Baptismo contra Donatistas Ill, 18, 23).
[4] Note-se o caráter medicinal da penitência assim infligida (Nota do Redator).
[5] Note-se o caráter medicinal da penitência (N. d. R.).
[6] Atualmente, prefere-se falar do sacramento da Reconciliação; ver 2Cor 5, 20.
[7] Aliás, o Rito da Penitência, Introdução n° 6c, observa e prescreve:
"A verdadeira conversão se completa pela satisfação das culpas, pela mudança da vida e pela reparação do dano causado. As obras e a medida da satisfação devem adaptar-se a cada penitente, para que cada um restaure a ordem que lesou e possa curar-se com o remédio adequado. É necessário, por conseguinte, que a satisfação seja realmente remédio para o pecado e de algum modo renovação de vida. Assim, o penitente, esquecendo o que passou (Fl 3, 13), integrar-se-á de novo no mistério da salvação, lançando-se para a frente".
Considere-se também o cânon 981 do Código de Direito Canônico:
"Cânon 991 - De acordo com a gravidade e o número dos pecados, levando em conta, porém, a condição do penitente, o confessor imponha salutares e convenientes satisfações, que o penitente em pessoa tem obrigação de cumprir".
Vê-se que persiste a intenção de impor sempre uma satisfação medicinal, adequada, porém, às condições de saúde do penitente.
[8] Pecados graves ou mortais são aqueles que tiram a vida da graça santificante e impedem de receber a Comunhão Eucarística. Os pecados leves ou veniais não impedem de comungar; são aqueles aos quais feita uma das três condições para que haja pecado grave: 1) matéria grave; 2) conhecimento de causa; 3) vontade deliberada.