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segunda-feira, 4 de junho de 2007

Homem: temperamento masculino e temperamento feminino

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 065/1963)

«Diz-se que a graça supõe a natureza.

Seria possível então descrever as notas que caracterizam respectivamente a natureza do varão e a da mulher, a fim de que cada um possa compreender melhor o que deve desenvol­ver e o que deve mortificar em si mesmo?»

Não há dúvida, o Senhor Deus houve por bem criar não somente o ser humano como tal, mas também as diferenças que caracterizam o tipo masculino e o tipo feminino. A ação da graça, que purifica e santifica, não destrói essas diferenças, mas, ao contrário, leva-as em conta e as utiliza. Em conse­qüência, vê-se que o Santo e a Santa devem ter cada qual sua faceta própria, derivada, ao menos em parte, do respectivo sexo.

É, pois, importante, que todos tenham consciência das notas características da psicologia ou da personalidade do va­rão e da mulher, a fim de que cada cristão saiba quais as ma­nifestações de caráter genuínas que ele há de procurar desen­volver e quais as não-genuínas, que ele há de tentar reprimir na sua luta cotidiana.

Atendendo a essa finalidade, vai aqui proposta uma ten­tativa de caracterizar o tipo humano masculino e o tipo femi­nino. O ensaio baseia-se nos estudos de famosos autores mo­dernos; contudo não pretende ser irreformável; servirá ao menos para chamar a atenção dos interessados para certas particularidades de psicologia cujo conhecimento consciente se poderá tornar muito útil na prática.

Distinguiremos particularidades psíquicas, particularidades morais e comportamento perante os vícios capitais, apoiando­-nos na obra de L. Rossetti: Pratica di caratterologia religiosa. Torino 1961, pág. 202-209.

1. Particularidades psíquicas

Do varão Da mulher

O varão é geralmente portador de iniciativa; é cabeça, ponto de partida.
A mulher desempenha mais propriamente a função de continuar.

O varão é feito para adquirir e conquistar pela luta.
A mulher recebe, conserva e desenvolve (fecunda).

O varão possui dons para as tarefas de rendimento máximo e imediato.
A mulher é feita para as tarefas de longa duração.

O varão possui talendo criador, dado às invenções, às descobertas e às produções de arte.
A mulher é menos propensa às criações e invenções.

O varão se impressiona ou empolga rapidamente, mas não se deixa ficar muito sob a influência das impressões.
A mulher é mais lenta ao colhêr as impressões, mas guarda por mais tempo o que ela colheu.


2. Particularidades morais

Dado o seu instinto de independência e domínio, o varão encerra em si forte dose de amor próprio, que, degenerando, pode converter-se em brutal egoísmo.
A mulher tem em si a consciência de ser companheira do homem. Isto a leva facilmente a prestar auxílio e complemento. Daí também se origina nela a tendência a amar, a compadecer-se e a sacrificar-se.

A autoridade é, para o varão, a ocasião de manifestar o que ele é; daí as dificuldades que experimenta na obediência religiosa.
A mulher é mais espontaneamente altruísta.

As virtudes mais características do varão podem ser representadas pelas do cavaleiro.
As virtudes mais características da mulher são as que o sentimento materno em si inclui.

No varão o instinto sexual é dotado de grande veemência, movido em grande parte por fatores e impulsos fisiológicos.
Na mulher o instinto sexual é mais governado por fatores psíquicos (pelo amor, pela necessidade de amar e de ser amada) do que por fatores físicos.

Por isto a castidade pré-matrimonial exige dêle maiores sacrifícios do que a mulher.
Também a santificação do matrimônio requer do varão maiores lutas do que da mulher.
Em conseqüência, a mulher pratica mais facilemente a continência pré-nupcial e a fidelidade conjugal. Contudo a sua grande emotividade a torna mais apaixonada do que o homem em questões de amor.

O varão não se sente tão ligado aos que ama; pode ser pai e não viver com os filhos. A sua vida tem dois planos: o da família e o do trabalho.
A mulher adere mais íntimamente aos familiares. É o elemento de coesão da família. O “senso do lar” é, para ela, como que um outro “eu”. Por isto a mulher entregue a tarefas masculinas fora de casa está um tanto deslocada.

O varão estima a popularidade e a glória tributada pelos homens àqueles que se projetam na vida pública.
A mulher renuncia à glória própriamente dita, não, porém, a “dois olhos que a admirem”. Daí os requintes artificiais da sua ornamentação pessoal. Pode atravessar crises psíquicas e sentimentais por causa do seu desejo de chamar a atenção.

O varão, em virtude do seu caráter reto e liso, é fácilmente inclinado à amizade sincera e duradoura para com os seus semelhantes.
A mulher, propensa a ser admirada, mais facilmente satisfaz a sua sede de amizade procurando contato com o varão.

A história de todos os povos aponta casos de profunda e genuína amizade entre varões.
A história raramente indica a existência de grandes amizades entre as mulheres.


3. Vícios Capitais

Soberba

No varão existe forte tendência à soberba, que se deriva de exagerada e ilusória consciência do próprio valor.
Na mulher, a propensão à soberba é mitigada. Exprime-se, antes do mais, na vaidade.

No varão, tende a manifestar-se em autoritarismo despótico, na propensão a crer que sempre tem razão (faz tudo para não “dar o braço a torcer”).
A mulher deseja dominar principalmente mediante o amor.


Avareza

A avareza é mais rara no varão do que na mulher. Geralmente desenvolve-se na velhice
A mulher é mais sujeita à avareza, dada a sua inclinação às coisas pequenas e às meticulosas tarefas de dona de casa.


Luxúria

É vicio predominantemente masculino, em conseqüência dos veementes instintos do varão.
A luxúria é menos forte na mulher.


Inveja

Afeta menos o varão do que a mulher. Quando aparece no homem, é muitas vezes, provocada pelo orgulho ou pelo
desejo de exercer o primado nos negócios e o comando nas emprêsas.
A inveja é um mal que mais ameaça a mulher, por causa da índole vaidosa que a marca.


Intemperança

Defeito predominantemente masculino, dada a forte sensualidade do homem e a liberdade de que costuma gozar na sociedade.
Manifesta-se na mulher sob a forma de gula. Por causa do temperamento, a mulher pode freqüentemente mostrar-se descontente com o que tem, e pretenciosa.


Ira

Expressão do caráter masculino, derivada do orgulho.
Na mulher, manifesta-se a ira sob a forma de “rompantes” desarrazoados,... principalmente, porém, sob a forma de obstinação ou teimosia.


Preguiça

Tem lugar no homem mais do que na mulher, induzindo-o a procurar suas “comodidades” e alimentando-lhe o egoísmo inato.
É defeito mais raro nas mulheres, que a ele cedem geralmente quando dotadas de caráter apático ou indiferente.


As considerações assim propostas visam focalizar a realidade. Não há dúvida, toda generalização arrisca-se a cometer erros, a exagerar ou caricaturar. Não obstante, não nos furtamos a apresentar a tabela precedente, pois pode servir de ponto de partida para reflexões construtivas, assim como para a formulação de normas práticas na procura da perfeição religiosa.



segunda-feira, 16 de abril de 2007

Homem: que é o homem?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 347/1991)

Em síntese: O homem não é um anjo encarnado por castigo de faltas passadas nem é apenas carne e osso (ou matéria), mas é um ser corpóreo animado por um princípio vital incorpóreo ou espiritual. A espiritualidade do homem ou a sua transcendência em relação à matéria evidencia-se, se se leva em conta, entre outras coisas, a capacidade de pensar ou raciocinar do homem: este concebe noções abstratas, universais; prescinde das notas con­tingentes, concretas, de cada ser para apreender o essencial e formular defi­nições; é também capaz de conceber a noção de Deus, eternidade, espiritua­lidade, noções que nada têm de material. Ora essa atividade imaterial supõe um princípio vital imaterial ou a alma humana espiritual.

O fato de que o homem precisa do cérebro para pensar, não quer dizer que o cérebro seja a sede do pensamento; o cérebro é apenas o instru­mento do qual se serve o intelecto humano para conceber noções universais. A importância do cérebro está no fato de que para o cérebro convergem os nervos sensitivos, de modo que naquele órgão se forma a imagem completa captada parcialmente pela visão, pela audição, pelo olfato, pelo paladar e pelo tato. Essa imagem elaborada no cérebro é transmitida para o intelecto, que da mesma deduz as notas essenciais, abstraindo das acidentais. Isto explica que, quando o cérebro está lesado, o intelecto não funcione bem ou mesmo não funcione, dando a impressão de que o cérebro é a sede do pensar.

***

A questão da identidade do ser humano é básica e decisiva para se conceber a solução de outras questões, como a da ecologia e a da genética. Com efeito; se o homem é apenas um animal aperfeiçoado, "mais inteligen­te" do que o chimpanzé, não se entenderá por que mereça maior respeito do que os demais animais ou por que estes devam morrer para servir ao ho­mem, alimentando-o e trabalhando para ele. Também não se entenderá por que não utilizar embriões e fetos humanos, como se utilizam os demais ani­mais para curar doenças de adultos; não se entenderá por que impedir o comércio de crianças latino-americanas levadas para os Estados Unidos e a Europa, a fim de possibilitar transplantes de células ou órgãos (após os quais essas crianças são assassinadas e eliminadas).

Se, porém, o homem é mais do que um animal aperfeiçoado, se se distingue dos outros viventes não somente por ter em grau maior as perfei­ções destes, em suma se no homem existe algo que o diferencia essencial­mente dos demais seres visíveis, compreende-se que não possa ser tratado como os demais viventes. Se no homem existe uma alma (principio vital) imaterial, transcendente em relação à matéria, embora o homem esteja sujeito às leis biológicas, é claro que há de merecer um tratamento especial ou um respeito singular.

Ora é precisamente a questão da essência do ser humano que vamos considerar neste artigo, começando por percorrer a história do problema.

1. No curso da história

A questão da identidade do homem é muito antiga. Em suas primei­ras expressões aparece mesclada de mitologia fantasiosa: assim, na Grécia, para os órficos, o homem provinha das cinzas dos Titãs, fulminados por Júpiter porque tinham assassinado e devorado o deus-menino Dionísio Zagreu; o homem, portanto, possuía um elemento titânico (o corpo), do qual se derivava o Mal, e um elemento dionisíaco (a alma), da qual provinha o Bem. A alma estaria no corpo como o prisioneiro no cárcere. Assim teve origem a concepção dualista do homem, que foi adotada por escolas filo­sóficas posteriores.

1.1. O dualismo

O Platonismo, a partir do século V a.C., concebe o homem como um composto de corpo (matéria má) e alma (espírito imortal, divino). A união desses dois princípios antagônicos se deve a uma queda ou culpa da alma. Esta se acha no corpo para purificar-se de faltas pretéritas; caso não o faça numa existência única, terá de reencarnar-se. O corpo é cárcere ou também sepulcro. A morte é libertação; a verdadeira filosofia consiste em preparar-se para essa libertação ou para a morte, fugindo de tudo o que é corpóreo ou material.

Também para Empêdocles (+ 430 a.C.) o homem é um "deus incor­ruptível", cuja alma incriada e divina caiu neste mundo de sofrimento, reves­tindo-se de um corpo. Está destinada a reencarnar-se até conseguir a total purificação.

Os pitagóricos também professavam o dualismo e a reencarnação.

O Neoplatonismo, com Plotino (+270 d.C.) à frente, retomou essas idéias, professadas também pelos Gnósticos (corrente sincretista dos séculos II/III d.C.) e, mais tarde, por humanistas do século XVI, de tendências neo­platônicas.

No Oriente, o dualismo é muito freqüente, suscitando o desprezo pelo corpo e a matéria a fim de que o homem se livre do ciclo das reencarnações e atinja a sua bem-aventurança definitiva.

O espiritismo de Allan Kardec é no Brasil uma das formas mais popu­lares de reencarnacionismo, que supõe ser o homem um espírito acidental­mente unido ao corpo e tendente a desencarnar-se uma vez por todas.

1.2. O Monismo

O Monismo (de monos = um) professa a não composição do homem ou a unicidade da substância que o integra. Assume formas diversas.

a) Os atomistas Demócrito (460-370 a.C.) e Leucipo (séc. V a.C.)

Para estes pensadores, o homem consta de matéria apenas ou de multi­plicidade de átomos materiais, dos quais alguns, mais pesados, formam o corpo, enquanto outros, mais leves e sutis, formam a alma. Os átomos da alma se intercalam entre os do corpo. Tal combinação de átomos se deve ao acaso. Quando o corpo se deteriora, os átomos da alma se dispersam e en­tram no turbilhão da circulação dos átomos no "vazio infinito".

Épicuro (+ 270 a.C.) aderiu a tal concepção. Escrevia em sua carta a Heródoto:

“A alma é uma substância corpórea composta de partículas sutis, di­fundidas pelo organismo inteiro; assemelha-se a um fluido gasoso misturado com calor... Quando o organismo inteiro se dissolve, a alma se dispersa.. . Não há nada de incorpóreo a não ser o vazio, que não pode ser nem ativo nem passivo, mas apenas possibilita aos corpos mover-se através dele. Por isto aqueles que afirmam que a alma é incorpórea, não sabem o que dizem, porque, se fosse incorpórea, não poderia ser nem ativa nem passiva; ora não se pode conceber a alma sem estas qualidades".

Lucrécio (+ 95 a.C.) também julgava que a alma é uma substância corpórea, sujeita à dissolução e, por conseguinte, mortal (De rerum natura III 11.543).

Os estóicos, nos séculos II/I a.C. e depois, abraçaram semelhantes idéias.

b) Concepções modernas

No mundo moderno os materialistas professam tais concepções, desde Pomponazzi

(+ 1525) até Hobbes (+ 1679), os marxistas e os positivistas dos séculos XIX e XX. Moleschott (+ 1893), por exemplo, afirmava que "sem fosfato não há pensamento". Outros sustentam que o pensamento e a consciência são "epifenômenos" ou fenômenos causados pela única ativi­dade real do homem, que é a atividade orgânica e fisiológica; por conseguin­te, o pensar também é uma atividade orgânica. Se não fosse orgânico, a ciên­cia não o poderia nem conhecer nem imaginar; "alma espiritual" é portanto algo de irreal e fantástico: "Se faço a análise química do corpo humano, não encontro a alma", dizia Moleschott. . . Daí a conclusão dos materialistas em geral: existe tão somente a matéria e tudo o que ocorre é efeito da matéria, portanto é material.

2. Que pensar?

Tanto o dualismo (antagonismo ontológico entre corpo e alma)[1] quan­to o monismo materialista são inaceitáveis, pois não dão conta da realidade do homem.

O dualismo ressalva, sim, a espiritualidade da alma, explicando a exis­tência, no homem, de inteligência, vontade livre, consciência moral e religio­sa... Mas não explica a unidade substancial que há entre corpo e alma; e não somente não a explica, mas a rejeita, admitindo no ser humano uma divisão, que é contraditada pela experiência. Ademais é filosoficamente errôneo dizer que haja uma substância por si ou ontologicamente má; todo ser é ontologicamente bom, embora possa declinar para comportamentos moralmente maus, decorrentes da falibilidade própria de toda e qualquer criatura.[2]

O monismo, por sua vez, não explica a realidade humana. Esta é dota­da de expressões (pensamento, amor, liberdade, linguagem...) que não se encontram em nenhum outro animal e que estão fora das potencialidades da matéria. Há uma diferença essencial, e não apenas quantitativa ou quali­tativa, entre o homem e os demais viventes materiais.

Deve-se, pois, dizer que no homem existem, sim, matéria (corpo) e espírito (alma), não, porém, em antagonismo ontológico (o homem não é um anjo encarnado por castigo ou encarcerado na matéria), mas em união natural. Tal é a doutrina que a filosofia de Aristóteles esboçou e o pensa­mento de S. Tomás de Aquino (+ 1274) elaborou plenamente. Procuremos explaná-la.

3. A concepção aristotélico-tomista

À guisa de preliminar, notemos a diferença entre ser animado e ser inanimado.

3.1. Que é a vida?

Ninguém até hoje conseguiu definir a vida. Apenas pode ela ser descri­ta mediante as suas atividades.

Ora notamos que todo vivente corpóreo consta de elementos químicos (H, O, C, Fe, Ca...), que não funcionam independentemente uns dos ou­tros, mas são reduzidos à unidade mediante um princípio que os penetra. Estão estruturados e organizados de modo a formar um todo, um "organis­mo", que tem seu modelo exemplar, sua finalidade, seus instintos de conser­vação e de restauração (quando lesado). O princípio que faz de tantos ele­mentos um organismo, é chamado "princípio vital" ou "alma". Esta perma­nece e dá identidade ao conjunto, ao passo que os elementos materiais desse organismo estão sempre a se renovar (no homem, de sete em sete anos); é por ter a mesma alma ou o mesmo princípio vital que um homem de quaren­ta anos é o mesmo que o menino de dez anos, embora já não existam as célu­las do seu organismo de dez anos de idade.

Estas observações permitem diferenciar nitidamente um vivente e uma máquina. O vivente se autoconstrói segundo um protótipo ou segundo "in­formações" que não lhe vêm de fora, mas lhe são imanentes. Assimila os elementos de fora que lhe são úteis, e elimina os que não lhe servem, conser­vando, porém, a estrutura do organismo. O vivente se recompõe ou regenera quando ferido, de modo a conservar sua identidade. Isto tudo acontece por efeito do princípio vital respectivo ou da alma.

Ao contrário, a máquina não é capaz de se autoconstruir, organizar e regenerar. Ela tem, sim, um "programa" ou "informações", mas estas lhe vêm de fora; não têm seu princípio na própria máquina, mas na mente do engenheiro que a concebeu com o seu programa. Mesmo as máquinas ditas "inteligentes" têm seu programa incutido pelo programador e em nada se podem afastar da programação recebida, mesmo quando é falha. Donde se vê que qualquer teoria mecanicista, reduzindo o homem a máquina aperfei­çoada, é errônea.[3]

O homem, como todo vivente, possui um princípio vital ou uma alma. Perguntamos, porém: em que difere a alma humana da alma dos demais vi­ventes corpóreos?

3.2. A alma humana

Observamos que no ser humano existem as funções típicas de todo vi­vente, ou seja,

- atividades vegetativas: nutre-se, cresce, multiplica-se;

- atividades sensitivas: enxerga, ouve, sente, imagina fantasiosamente, recorda-se...

Além disto, porém, verificam-se no homem comportamentos exclusi­vamente humanos, que não se encontram em nenhum outro vivente: com efeito, só o homem raciocina, tem consciência de si ou reflete sobre si mes­mo, ama, concebe um ideal de vida, possui liberdade de arbítrio, exprime-se em linguagem articulada... Só o homem pode dizer Eu.

Mais ainda: apenas o ser humano é dotado de senso artístico, consciência moral e dimensão reli­giosa (só o homem sepulta seus mortos, expressando assim a crença na so­brovivência dos "defuntos" num mundo transcendental ou divino).

Ora, examinando de perto estas funções típicas do homem, verifica­mos que não são materiais, não são limitadas pela matéria, mas transcendem a matéria, embora se exerçam mediante órgãos materiais; são "espirituais". Com efeito; consideremos, por exemplo, o pensar ou raciocinar, comparan­do-o com o sentir (ver, ouvir, apalpar, cheirar, degustar...), ... sentir que é comum ao homem e ao animal inferior. O sentir é sempre a apreensão de coisas materiais e concretas, individuais; vejo "esta" árvore, ouço "esta" música, apalpo "esta" mesa. . . , sempre objetos materiais, quantitativos e concretos. Não sou capaz de ver Deus nem de ouvir a bondade, como tam­bém não sou capaz de ver "a" árvore (em geral), de ouvir "a" música (em geral).

Ao contrário, com a inteligência penso Deus, penso a bondade, penso a árvore e a música em geral. Com outras palavras: mediante os olhos vejo muitas árvores particulares, diferentes umas das outras, mas com a inteligên­cia sou capaz de abstrair das diferenças das árvores particulares e de conce­ber a noção de árvore, aplicável a todas as árvores (grandes e pequenas, ver­des ou amarelas). O pensar atinge realidades imateriais, que as sensações não atingem; com efeito, ninguém capta com os sentidos a bondade, a justiça, o amor, mas o homem é capaz de definir o que é a justiça, a bondade, o amor, o justo e o injusto, o belo e o feio, o bem e o mal. O homem é capaz de pen­sar Deus, embora os sentidos não o atinjam. Ainda em outros termos: o sen­tir está ligado a elementos concretos e materiais, ao passo que o pensar for­mula conceitos universais, que não existem na natureza material. Disto se conclui que a atividade sensitiva, limitada à matéria, é a expressão de órgãos corpóreos ou da materialidade humana; ao contrário, a atividade intelectiva (que ultrapassa a matéria ou o concreto e individual para conceber o genéri­co e abstrato), procede de faculdades imateriais ou espirituais existentes no homem. É claro, porém, que, para pensar, devemos partir de realidades ma­teriais; estas nos entram pelos sentidos, mas são elaboradas pela inteligência, que abstrai das nota; individuais desta árvore, deste cão, e forma o conceito universal, essencial de árvore, de cão... Pela inteligência, posso responder à pergunta: "Que é uma árvore?" Direi que não é o tamanho do tronco nem a cor das folhas nem a profundidade das raízes que define a árvore, mas o fato de ser um vivente vegetal que realiza certas funções típicas.

Em conclusão: se o pensar transcende a matéria, a faculdade de pensar ou a inteligência deve logicamente também transcender a matéria, pois o agir e o ser são correlativos entre si; portanto, o agir imaterial supõe o ser imate­rial ou supõe um princípio de ação (uma alma) imaterial. Assim chegamos a definir o princípio vital que anima o homem: é uma alma imaterial ou espi­ritual, que vivifica o corpo preenchendo todas as suas funções vitais: tanto as orgânicas - vegetativas e sensitivas - quanto as anorgânicas - o pensar, o amar ou o querer decorrente do pensar.[4]

3.3. Uma objeção

Levanta-se, porém, uma objeção: o homem não pode pensar sem cére­bro; quando este é lesado por uma doença ou golpe, o raciocínio também é lesado ou interrompido; donde parece seguir-se que a sede do pensamento é o cérebro, órgão material, e não uma faculdade espiritual.

Respondemos: a argumentação até aqui proposta permanece válida. Sim; a atividade intelectiva, ultrapassando os limites do material e concre­to, há de proceder de uma faculdade imaterial (inteligência espiritual). Toda­via a inteligência precisa dos dados fornecidos pelos sentidos externos (visão, audição, olfato...) através do cérebro;[5] este é a "central telefônica" onde vão terminar os filetes nervosos de cada um dos sentidos externos. É no cé­rebro que se faz a associação de cor, som, odor, gosto, dureza, temperatura; formam-se aí as imagens completas dos objetos apreendidos. São essas ima­gens que passam para o intelecto,[6] onde são dissecadas, a fim de se formular um conceito universal ou se definir a respectiva essência.

A propósito se afirma que o intelecto "intus legit" ou lê dentro; per­cebe aquilo que faz uma árvore ser árvore e não pedra (não são o tamanho nem o peso nem a cor, nem o formato que diferenciam a árvore da pedra, mas é a essência).

Entende-se, pois, que, quando o cérebro está lesado, o intelecto não recebe as imagens concretas de que necessita para raciocinar; por conse­guinte, não raciocina; o indivíduo parece ter perdido a inteligência, quando na verdade não a perdeu; esta continua existindo na pessoa, mas não tem como se manifestar ou, ao menos, como se manifestar correta e autentica­mente, porque o seu instrumento indispensável (o cérebro) está lesado.[7]

Resta, pois, de pé a afirmação de que, no ser humano, existe, além da corporeidade, um principio que anima essa matéria e que, por suas manifes­tações vitais, transcende o plano material; por conseguinte, é imaterial ou espiritual. É este fato que fundamenta a dignidade única do homem e não permite seja tratado como os animais irracionais; estes não são mais do que matéria... , matéria viva, sim, mas vivificada por um principio vital mate­rial, não espiritual. Esta realidade do homem, às vezes imponderável porque o homem está imerso no mundo material, há de ser ressalvada tanto em nome da fé cristã como em nome da sã razão.

Eis, porém, que se coloca a pergunta: será que os animais inferiores ao homem não são também inteligentes, de tal modo que entre o homem e o macaco não há diferença essencial, mas apenas diferença gradativa?

A esta questão será dedicado o artigo seguinte.

Na confecção destas páginas muito nos valemos do artigo-editorial "Che cosa è l'uomo? Il pensiero l'intelligenza e il cervello", de La Civiltà Cattolica, n° 3357,05/05/1990, pp. 209-220.

***

____

NOTA:

[1] Distinguimos entre dualismo e dualidade. Aquele, opondo entre si matéria (corpo) e espírito (alma) como substâncias ontologicamente antagônicas, fere os princípios da sã razão e da fé. - A dualidade distingue, mas não contrapõe matéria e espírito; ao contrário, afirma que são complementares entre si, associando-se harmoniosamente.

[2] Sabemos que esta linguagem é técnica, talvez estranha a muitos leitores. Mas esta consideração metafísica não é essencial à compreensão do que esta­mos expondo.

[3] Entre os autores desta concepção, citam-se René Descartes (+ 1650); De La Mettrie, que escreveu a obra "O homem-máquina" (1751); Taine (+ 1893), que afirmava: "O cérebro secreta o pensamento como o fígado secreta a bilis”

[4] A alma humana ou o princípio vital é um só em cada vivente.

Nos seres vegetativos (plantas) e sensitivos (animais irracionais) o principio vital ou a alma é dita respectivamente vegetativa ou sensitiva; preenche todas as funções vitais do respectivo organismo. A alma, no plano dos vegetais e no dos animais irracionais, é sempre material; não transcende a matéria, pois as suas funções se limitam ao material e concreto.

No plano humano ou intelectivo, a alma é uma só em cada individuo; é espiritual, embora responda também pelas funções orgânicas (vegetativas e sensitivas) do respectivo individuo.

[5] Com razão já dizia Aristóteles (+ 322 aC.): "Nada há no intelecto que não tenha estado nos sentidos”

[6] Tomamos "intelecto" e "inteligência" como sinônimos neste contexto.

[7] A inteligência e a vontade são faculdades da alma humana.

Homem: homem e mulher: complementaridade

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 447/1999)

Em síntese: O feminismo avançado tende a igualar entre si homem e mulher, esquecendo as diferenças específicas que fazem a riqueza da humanidade. G. Martinetti mostra que não se podem confundir entre si o masculino e o feminino, pois cada qual tem seus predicados peculiares, que devem ser respeitados e ativados para o bem da sociedade civil e da Igreja. Enquanto o homem procura a eficiência fria e, às vezes, cega, a mulher representa a afetividade, que dá graça e significado à racionalidade eficiente do homem.

* * *

Em nossos dias registra-se uma certa competição entre o masculino e o feminino; há quem julgue que a mulher deve abandonar seus afazeres específicos para se igualar em tudo ao homem - o que redunda em nova forma de subserviência do feminino ao masculino. Giovanni Martinetti, já citado no artigo anterior deste fascículo, analisa a questão, mostrando que a grandeza da mulher está precisamente em cultivar o que lhe é peculiar - a afetividade e a capacidade de amar - para temperar e complementar o senso de eficiência fria que muitas vezes move o homem. Sem a presença da mulher, com seus traços femininos peculiares, as façanhas do homem poderiam facilmente redundar em desgraça para o próprio homem. As considerações do autor vão, a seguir, transcritas a partir do livro "Razões para Crer" pp. 383-384, 388, 390-2, 341s, 398-400.

«A mulher é a ponte entre o homem e Deus

A feminilidade tem uma missão espiritual especial, que deriva de sua própria natureza. É verdade que hoje muitos sustentam que as diferenças psicológicas entre homem e mulher se devem apenas a fatores culturais e que tenderão a desaparecer quando houver perfeita igualdade social entre os dois sexos. Contudo, é difícil concordar com isso, quando se pensa que a maternidade, despertando na mulher o gosto e o desejo de cuidar do recém-nascido, também lhe dá qualidades que são úteis a semelhante tarefa, qualidades essas que formam a alma feminina.

Por isso devemos dizer que apenas algumas diferenças psicológicas podem ser creditadas ao papel que historicamente o homem dominante atribuiu à mulher, especialmente à sua presumida inferioridade quando se trata de dirigir e organizar, de fazer política, ciência, técnica e arte. Outras, ao contrário, provêm da natureza e de Deus, que, com a perspectiva da maternidade e da educação dos filhos, dirige a mulher para a doçura, a delicadeza, a beleza suave, a afetividade, a ternura e o amor, enquanto orienta o futuro pai para a coragem, a racionalidade, a organização, a luta contra os obstáculos e outras qualidades úteis ao trabalho fora de casa.

A civilização atual atravessa uma fase de rápido declínio, porque está dominada por fatores culturais de origem masculina (tecnologia, racionalismo, busca excessiva de bem-estar econômico, amor como sinônimo de sexo). Entrementes a mulher não-contaminada pela mentalidade dominante, com a sua intuição, sua preferência pelo amor profundo e estável, pela fraternidade e pela fé religiosa, exerce uma tarefa muito elevada, indispensável para ajudar o homem a alcançar os valores superiores.

Poder-se-ia dizer que hoje a mulher autêntica é uma espécie em vias de extinção, mas que, onde ela se conserva, é a ponte entre os homens que a rodeiam, e Deus.

A opinião pública atual, fruto da cultura machista do passado, pressiona psicologicamente a mulher para que ela realize, mais que a igualdade de direitos, um nivelamento espiritual com os homens. Para que busque o sexo mais que o amor, o trabalho e a ciência mais que a geração e a educação dos filhos, o racionalismo mais que a fé, o feminismo e o conflito mais que a influência do coração, a igualdade de pensamento e de obrigações sociais mais que a paridade de dignidade e a complementaridade da missão humana, o sacerdócio exterior e institucionalizado mais do que o interior, do qual tem a capacidade exclusiva.

Uma presença cada vez maior da mulher na filosofia e na literatura, no jornalismo e no direito, na sociologia, na política e também na teologia será portanto bastante benéfica para o desenvolvimento equilibrado de nossa cultura, até agora monopólio masculino, se a mulher em vez de se limitar a copiar o homem, exercer o seu carisma próprio.

Porque Deus dotou a mulher de um sacerdócio que lhe é natural, mais interior que o dos padres. Sem mulheres capazes de amar e de fazer-se amar profundamente como esposas, mães, dirigentes ou amigas, e de orar sobretudo com o seu coração e a sua vida, o sentido da vida e a fé desaparecem. E com eles desaparecem também os ministros sagrados.

A mulher é verdadeiramente, por vocação, a ponte sagrada com Deus não quando, abandonando a fonte divina, volta-se totalmente para a fonte do homem e procura imitá-lo, e não apenas quando gera o homem, mas sobretudo quando, com o Amor divino, o regenera interiormente[1]» (pp. 383s).

«Complemento recíproco homem-mulher

O impulso fundamental da mulher é o dom de si, do mesmo modo que o do homem é a afirmação de si. A primeira quer o amor, o segundo a justiça. O sentimento feminino se aplica à pessoa individual, enquanto o do homem é mais universal (política) e objetivo (ciências).

O intelecto do homem é dominado mais pelo pensamento abstrato e científico, enquanto a mulher busca o ser das coisas com a intuição. O mundo da mulher é compreender, sentir, perdoar, simpatizar. Ela é biologicamente feita para ser mãe e psicologicamente para ser materna. O homem é feito para a organização, a técnica, para vencer as resistências e os obstáculos, para proteger e garantir a existência da mulher e da criança.

Até no campo religioso homem e mulher foram feitos um para o outro: enquanto a mulher está mais preparada para atingir a perfeição sobrenatural, que é de ordem passiva e tem como elemento principal a Graça, o homem, ao contrário, está mais equipado para conquistar a perfeição ética natural, que é de ordem ativa e consiste no perfeito domínio da racionalidade sobre todas as ações e sentimentos.

A perfeição da natureza humana reside, portanto, na integração entre força racional e afetividade intuitiva. Sem o homem, a mulher cai no sentimentalismo; sem a mulher, o homem se congela na aridez e no tecnicismo soberbo. Kierkegaard observava em seu Diário:

'Uma eminente intelectualidade viril liga-se imediatamente a um enorme egoísmo [...] Em certo sentido, a mulher está mais capacitada para o serviço religioso, porque a sua natureza é toda feita de abandono de si [...] Uma eminente intelectualidade viril que se doa em sujeição feminina, eis a verdadeira religiosidade'[2]" (p. 388).

«O sacerdócio aplica-se à mulher

Depois de explicar às crianças a obra da criação de Deus no relato bíblico da Criação, um catequista lhes perguntou: 'Por que vocês acham que Deus criou a mulher depois do homem?' Então uma menina levantou a mão e respondeu: 'Eu acho que, depois de fazer o homem, o Senhor pensou: Se a primeira tentativa não deu certo, talvez eu me saia melhor agora. E assim criou a mulher!'

Embora não possamos afirmar que a mulher tenha saído melhor que o homem, sustentamos contudo que ela tem um papel fundamental para que a humanidade possa alcançar o Objetivo Primeiro da vida.

Hoje há muitas discussões sobre o ministério sacerdotal e alguns dizem que ele também deveria ser exercido pelas mulheres. Talvez fosse melhor, por ora, descobrir e enfatizar o Sacerdócio próprio da mulher que foi ignorado até agora. Para abrir a Porta de Deus são necessárias duas chaves diferentes. A questão não é saber se ambas devem ser seguradas pelas filhas de Eva, mas qual das duas é a mais apropriada para elas: a "petrina" (a chave de S. Pedro) ou a "mariana" (as chaves da maternidade espiritual).

O que dissemos anteriormente, ou seja, que a condição feminina é mais inclinada ao Amor profundo do que a masculina, não é um lugar-comum desprovido de fundamento científico. Os maiores psicólogos, até os mais atuais, sustentam que existem diferenças reais de personalidade entre o homem e a mulher (maior agressividade no primeiro, afetividade mais intensa na segunda) e que elas dependem não apenas de causas culturais, mas também de fatores biológicos que têm reflexos na alma e no espírito» (pp. 390s).

«O homem tende mais à eficiência, a mulher ao Amor.

Os estudos psicológicos sobre as características femininas fazem referência àquela mulher que Hélène Deutsch e outros psicólogos chamam de tipo feminino e que representa a grande maioria das mulheres, do mesmo modo que o tipo masculino se expressa na maioria dos homens. A psicologia encontra confirmação desses dados fundamentais em dados de ordem fisiológica, dos quais resulta que em cada um dos dois sexos predominam hormônios sexuais próprios (os "estrógenos" na mulher e os "andrógenos" no homem).

Por isso, considera-se comprovado que em cada sexo predominam características psicológicas próprias. C. G. Jung chama de "anima" ao conjunto de características femininas e a elas faz corresponder o "animus" da parte do homem. As qualidades próprias de cada sexo são um dado da natureza, mesmo quando ulteriormente determinadas por fatores culturais.

Dentre as muitas tentativas de sistematizar as diferenças entre os dois sexos, a mais promissora parece ser a de referir as diferenças entre os estereótipos sexuais a duas escalas de valores diferentes e complementares: a da "eficiência" e a da "afetividade", que costumam ser personificadas, no grupo familiar, pelo pai e pela mãe.

Seguindo o trabalho de Roger Piret, da Universidade de Liège, "Psychologie différentielle des sexes", vamos dar uma rápida olhada nas características dos dois sexos.

A mulher de tipo feminino põe no centro dos próprios pensamentos e da própria vida o amar e ser amada. Enquanto para o homem o amor vem junto com outros interesses e certamente não é o mais importante, para a mulher ele é o elemento essencial da sua existência, especialmente na juventude. A mulher aprecia principalmente o aspecto afetivo e sentimental do amor, enquanto no homem prevalece o desejo físico (pp. 123ss).

A mulher manifesta maior 'benevolência social'. Enquanto as mulheres estão mais interessadas em relações humanas, os homens são mais atraídos pelo estudo e pelas atividades relativas às causalidades físicas (ciências, técnica, trabalho). As primeiras formam grupos baseados mais na simpatia, enquanto os segundos buscam interesses comuns. As mulheres são muito menos agressivas, e por isso há muito menos mulheres nas prisões por cometerem furtos, estelionatos e homicídios (pp. 149ss)» (pp. 341s).

«Não é a igualdade de direitos que está em jogo, mas a especificidade de tarefas

A discussão sobre o sacerdócio da mulher não envolve culturas machistas ou igualdade de direitos, como a publicidade dominante faria pensar, mas envolve o mistério de Deus e sua ação salvífica por meio da Igreja. Masculino e feminino são portadores de significados e valores complementares também na revelação e são compreendidos à luz do princípio petrino e do princípio mariano, como ilustrou João Paulo II ao falar da missão específica da mulher (cf. Mulieris Dignitatem, nº 27). 'O perfil mariano', escreve o Papa, 'é tão ou mais fundamental e marcante para a Igreja quanto o perfil apostólico e petrino, ao qual está profundamente unido [...] A dimensão mariana da Igreja antecede a petrina, embora esteja estreitamente unida a ela e a complemente'.

Citando Von Balthasar, o Papa afirma o primado de Maria e, nela, o da mulher e do feminino sobre o principio petrino, e portanto sobre o homem e o masculino: 'Maria é rainha dos apóstolos, sem pretender para si os poderes apostólicos. Seus poderes são outros e maiores' (MD 27, nº 55).

O grande teólogo suíço esclarece em que consistem esses poderes outros e maiores quando aborda o tema da mulher não do ponto de vista sociológico ou cultural, mas do propriamente teológico: 'A Igreja é em primeira instância feminina, antes de receber o seu lado masculino complementar no Ofício eclesiástico'...

Hoje assistimos a um progressivo ingresso da mulher de fé no ministério da Palavra, nas Associações, nos movimentos eclesiais, nos encontros, em escolas de todo tipo e também nas de Teologia. A substância do cristianismo é o Amor que vem de Deus, e este é transmitido sobretudo pelo exemplo e pela palavra...

A Igreja é uma empresa de aparelhos para a telecomunicação com Deus. As mulheres estão mais inclinadas a projetá-los e produzi-los. Já os homens se saem melhor na administração, na publicidade e no marketing. É pouco provável que abolir as especializações fosse muito vantajoso para a Igreja» (pp. 398-400).

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NOTAS:
[1] Cf. P Evdokimov, "La lemme et e salut du monde", in VVAA. La donna nella Chiesa oggi, Leumann (Turim): EIle Di Ci, 1981, pp. 128ss.
[2] S. Kierkegaard, Diário, Brescia: Morcelliana, 1951, p. 228; Cf. R. Piret, Psicologia differenziale dei sessi, Roma, 1973.

Homem: feminismo e feminilidade

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 334/1990)


Em síntese
: Mônica Perin Diez propõe o sentido do autêntico feminis­mo, que não há de ser a imitação do homem (pois isto subordinaria a mulher ao modelo masculino), mas sim a possibilidade de pleno desenvolvimento das virtualidades que a mulher possui como pessoa e como coletividade fe­minina. "O homem que deu nome e lugar às coisas, adotou a autoridade pa­ra manter seu ser. A mulher escolheu outro caminho: sua missão não é do­minar, é desarmar e, assim, afirmar a vida."

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Publicamos o artigo da Sta. Mônica Perin Diez, publicitária, que traba­lhou em televisão e atualmente vive em Curitiba como Assessora de Comuni­cação da Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais do Paraná. Também coordena um Clube de Atividades Extra-escolares para meninas de oito a doze anos.

À Sta. Mônica Diez sejam consignados os agradecimentos da Redação de PR por esta sua valiosa colaboração.


Basta abrir os jornais, ligar a televisão ou o rádio para chegar a uma conclusão: a mulher vem conquistando seu "lugar ao sol", tão reclamado através dos séculos.

Este alvorecer de nova era para a mulher vem trazendo uma série de si­tuações inéditas. Questiono aqui se nós, mulheres, sabemos assumi-las ou se não nos estamos deixando levar por preconceitos, tomando uma posição de "defensiva", evitando, quase com repugnância, os remanescentes daquela mulher que vimos em nossas avós. Ser mulher, para algumas, tornou-se uma carga insuportável, um estigma contra o qual se deve lutar, abolindo-se quaisquer diferenças entre homem e mulher. No entanto, a mulher se esque­ce de que, ao tentar igualar-se, assemelhando às do homem as suas caracte­rísticas próprias, corre o perigo de converter-se num ser híbrido, competiti­vo, metido na esfera do homem, sem conseguir mais do que uma imitação incompleta das qualidades e dos modos masculinos. Nessa falsa libertação, é abandonada a consideração de determinados conceitos como família, lar, amor, feminilidade, que, por mais que o desejem alguns e algumas, não pas­saram de moda.

Emancipar-nos é o mesmo que dizer possibilidade real de desenvolvi­mento pleno das virtualidades que possuímos, como indivíduos e como mu­lheres. A igualdade de direitos, de oportunidades diante das leis não suprime a diversidade entre os sexos. Pelo contrário, essa diversidade é estimulada, servindo assim para melhor desenvolvimento da sociedade. Por isto, ao aban­donar suas características de mulher-pessoa, a mulher se vê discriminada e inferiorizada. A feminilidade é corrompida, o chamado "cavalheirismo" desa­parece e a mulher, que antes era impedida de sair, trabalhar fora, freqüentar os mesmos ambientes dos homens, vê-se impedida de ter um lar, uma famí­lia, amá-los e ser feminina, sem ser rotulada de "escrava", "amélia".

Para uma autêntica realização pessoal, é urgente que a mulher assuma sua identidade de maneira ativa, procurando desenvolver as qualidades que lhe são próprias. Todas as tarefas são nobres e realizadoras, se desempenha­das com a finalidade de prestar um serviço de busca de melhora da pessoa e da sociedade.

O que a mulher deve almejar antes de qualquer identidade com o ho­mem, é o reconhecimento de sua dignidade como pessoa. Podemos dizer que entre homem e mulher existem idêntica dignidade, mas funções distintas. E, essa dignidade, a mulher a encontra tanto ao dirigir uma empresa como ao fazer um bolo de chocolate. Ser pessoa implica muito mais do que simples­mente existir ou exercer tarefas. Uma pessoa não é somente aquilo que faz. Realiza determinadas possibilidades próprias de sua natureza. Ambos - ho­mem e mulher - possuem a natureza humana com suas características essen­ciais, que se manifestam de maneira diversa não só em cada um dos sexos como em cada um dos indivíduos. É isto o que chamamos personalidade: o que nos faz ser "cada um" e não "o outro". A imitação do outro - no caso, o homem - levaria a mulher a não realizar suas potencialidades originais e a colocar-se em posição de inferioridade, reprimindo seu desenvolvimento.

A capacidade de afetar e afetar-se, no homem e na mulher, apresenta diferentes matizes. O homem questiona a existência. Está sempre inquieto pela realidade do ser. Neste sentido podemos dizer que é um ser "fora de si". A vida, para ele, é mais antagônica. Está de frente às coisas. Seu existir é uma reta, na qual está mais voltado à lógica. A mulher é um ser metido em si mesmo. Profundamente imersa nos matizes de sua personalidade, está tão firmemente ancorada à última realidade metafísica do mundo, que faz pou­co esforço por explicá-la e estruturá-la. A mulher é, não fala sobre o ser. O princípio feminino é dar nova vida, tendendo a centralizar o interesse no ser humano concreto. Portanto, não cabem na natureza feminina manifestações contra a vida, como o aborto, ou uma mesquinha economia da função gene­rativa. Tais atitudes ferem a dignidade humana e reduzem a mulher a um simples animal para procriação, controlada por programas de planejamento populacional.

O verdadeiro direito da mulher é exercer sua liberdade para melhor al­cançar seus fins. E ela os alcança no lar, na escola, no trabalho, onde é neces­sária por sua condição natural de diálogo, que contribui para que seja supe­rada a massificação, para que entre protestos violentos e ruidosos permane­çam sempre em pé a vida e a esperança.

Não é só a mulher que reivindica o reconhecimento de sua dignidade. É a própria sociedade que reclama sua presença e deve esperá-la, com a in­tenção de abrir sulcos a um ambiente cada vez mais humano, superando de­feitos a que às vezes o mundo fica exposto por uma ordenação exclusiva­mente masculina.

Para a mulher, este enorme horizonte obriga-a a um profundo conhe­cimento de seu ser e de sua condição de pessoa, assim como a viver profun­damente no lar, na rua, no escritório, nas classes, com seu modo específico, junto àqueles que compartilham de seu tempo, amor e trabalho.

A mulher está imersa na paixão do vital concreto e abarcável. Tem predileção pelo individual: pronuncia-se sobretudo pela esperança e a forta­leza. Sua capacidade de doação vai unida à possibilidade de perder, sem per­sistências triunfalistas. O homem, que pôs nome e lugar às coisas, adotou a autoridade para manter seu ser. A mulher escolheu outro caminho: sua mis­são não é dominar, é desarmar e, assim, afirmar a vida.

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