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sábado, 19 de junho de 2010

Marxismo: porque dizem que o católico não pode ser comunista?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 003/1958)


"Porque dizem que o católico não pode ser comu­nista?"

1. O comunismo hoje muito apregoado, ou seja, o mar­xismo (doutrina de Karl Marx, 1818-1883), vem a ser o sis­tema que propugna tornar comuns de maneira radical e mais ou menos violenta, não somente os fundos produtivos (o capital e as terras), mas também os bens produzidos; pre­coniza assim a abolição da propriedade particular e a rigo­rosa igualdade social entre os homens.

O marxismo econômico e sociológico se enquadra dentro de uma concepção geral da vida ou dentro de uma filosofia, da qual é inseparável. Esta filosofia, porém, é muitas vezes ignorada por aqueles a quem certos aspectos laterais do co­munismo conseguem atrair. Percorramos, portanto, rapida­mente os traços dessa ideologia.

Primeiramente, o marxismo professa o materialismo, e materialismo dialético; o que quer dizer: a única realidade existente é a matéria, e a matéria posta em contínua evolu­ção, devida ao choque de forças antagônicas. Em conseqüên­cia, toda a história se tece de conflitos entre os elementos contrários da matéria. Tão longo processo, porém, tende ao equilíbrio e à harmonia finais. Vê-se desde já que o marxis­mo incute uma visão dinâmica (que os seus mentores cha­mam de "dialética"), em oposição a qualquer concepção es­tática (ou "metafísica", diriam os marxistas) do mundo.

A matéria é eterna; está em movimento desde todo o sempre, nem pode ser concebida sem movimento. Na ideo­logia marxista, portanto, não há necessidade de um Motor Imóvel, Causa última de todas as causas (segundo a filosofia de Aristóteles), nem de um Criador ou Deus. A fé em um Ser todo-poderoso proviria da incapacidade de explicar os fenô­menos naturais ressentida pelo homem primitivo.

Aplicados mais próximamente à sociologia, estes princí­pios significam que o gênero humano até a época contem­porânea viveu em constante luta de classes: o capitalista é o explorador e opressor; o operário, o oprimido: "A história da humanidade registrada até hoje é história da luta de clas­ses", reza o manifesto de Karl Marx publicado em 1848. O fa­tor que condiciona a luta e explica todas as atividades hu­manas, vem a ser a economia: "A economia e a produtivida­de da vida material condicionam os fenômenos sociais, polí­ticos e espirituais da vida em geral. Não é a consciência do homem que determina o modo de ser da sociedade, mas, ao contrário, é a vida dos homens na sociedade que determina a consciência dos mesmos" (Marx, Zur Kritik der politischen Oekonomie, Vorrede 1859).

Em outros termos: Direito, Filosofia, Moral, Arte, Reli­gião são considerados "ideologias" ou "super-estruturas" da produção material; a classe dominante na sociedade costu­ma impor às demais as suas concepções filosóficas e religio­sas. O feudalismo medieval e o capitalismo falavam de prin­cípios éticos absolutos; o marxismo, ao contrário, nega a existência de normas morais imutáveis: "A nossa moral é, em tudo e por tudo, subordinada aos interesses da luta de classe do proletariado" (Lenin, Obras, 3a. edição XXV. Mos­cou 1933, 391). A primeira lei da ética marxista é a luta pela instauração universal da ordem de coisas comunista; não há pois, direitos absolutos, mas a força e a violência em vista do objetivo proposto vêm a ser os ditames supremos da vida so­cial. As artes e as ciências no marxismo devem igualmente exprimir o pensamento da classe operária, isto é, hão de ser cultivadas em função do Partido Comunista; aliás, toda a cultura comunista vem a ser "cultura do Partido", portadora de caráter popular socialista, patriotismo soviético, oti­mismo, etc.

Proposto ao mundo nos séc. XIX e XX, o marxismo apre­goa a revolução social, da qual devem resultar a total extin­ção de classes e até mesmo a supressão do Estado; é a pro­priedade particular que divide a sociedade em classes. Para conseguir a sua meta final, o marxismo visa, em primeiro lugar, instaurar a chamada "ditadura do proletariado", me­diante a abolição do Estado burguês; os trabalhadores oprimidos procurarão aniquilar os seus opressores atuais, sendo-lhes lícito, para isto, o recurso a qualquer meio coibitivo ( em verdade, no Estado marxista, é um só homem, o ditador, quem aplica esses meios "em nome do proletariado" ou tam­bém contra o proletariado). Na fase definitiva do processo comunista, já não haverá autoridade de Estado, mas todos os homens, livres da escravidão capitalista e dos numerosos preconceitos que esta acarreta, viverão sem leis, movidos uni­camente pelo entusiasmo do trabalho desinteressado, traba­lho espontaneamente executado para o bem da coletividade; desaparecerão as injustiças e a miséria! — E', pois, uma ver­dadeira Redenção, é um autêntico messianismo encaminhado para um paraíso terrestre, que o marxismo propõe ao mundo.

Neste quadro é claro que nenhuma das tradicionais for­mas de religião tem cabimento: "O marxismo é um materialismo. Como tal, é inimigo implacável da religião... Deve­mos combater a religião. Este é o abc de todo materialismo, por conseguinte também do marxismo" (Lenin, Obras XIV 70). "O Partido não pode ser neutro frente à religião... por­que êle é favorável à ciência, ao passo que os preconceitos religiosos são contrários a esta" (Stalin, Obras X 132). Não é menos verdade, porém, que a ideologia marxista com a sua mística, ou seja, com a sua fé entusiástica na consecução da felicidade integral, se torna uma religião exigindo para as instituições e os representantes do comunismo a adesão que sempre foi tributada a Deus. Já Oostoevskij (†l881) dizia mui­to bem, como que caracterizando antecipadamente os co­munistas contemporâneos: "Os nossos homens não se tornam ateus apenas, mas crêem no ateísmo como em uma religião". Tem-se observado repetidas vezes que o marxismo se apre­senta como um catolicismo às avessas; muitos são os pontos de contato de ambos, trazendo apenas sinais inversos de va­lorização (positivo, negativo; à direita, à esquerda).

2. Qual o juízo a proferir sobre tais teorias?

Não se pode negar que a ideologia marxista encerra um núcleo de verdade: o mal-estar da sociedade provém não raro do predomínio injusto de uma classe sobre as outras ou da defeituosa distribuição dos bens produtivos. Desta verifica­ção, porém, não se segue que a solução consista em supri­mir a propriedade privada e as classes sociais. Com efeito:

a) não se podem reduzir todos os problemas humanos à questão econômica, como se o homem por sua natureza fosse destinado a ser mero produtor e consumidor de bens materiais, ficando as suas demais aspirações dependentes da satisfação desta primeira. Haja vista a família: não são as necessidades econômicas que dão origem à família, mas, ao contrário, é a família que funda a economia (o termo grego oikonomia o diz muito bem: oikos, casa; nomia, dispensação, legislação). E' o desejo de se perpetuar e de certo modo imor­talizar que leva o homem a constituir um lar e a procurar conseqüentemente, mediante a sua indústria (caça, pesca, agricultura), os meios de subsistência para os seus familiares.

Também é vão dizer que a Filosofia, a Moral, a Religião são funções da produção material, embora possam sofrer a influência desta: existem, sem dúvida, verdades especulati­vas e normas éticas objetivas, imutáveis: que a soma dos ân­gulos de um triângulo seja igual a dois retos, é proposição que nenhum sistema econômico jamais poderá alterar. Em particular no tocante à religião, é absurdo apresentá-la co­mo expressão do homem covarde ou atrasado: o testemunho dos povos, os documentos da civilização aí estão a dizer o contrário. A religião sempre foi o fator que estimulou a civi­lização e a indústria dos diversos povos: a construção da ha­bitação humana, a fundação de cidades, a abertura de estra­das, a ereção de pontes, a domesticação de animais, o cul­tivo de plantas, a contabilidade bancária são realizações ins­piradas inicialmente por motivos religiosos; a religião, longe de coibir, sempre fomentou o exercício das faculdades supe­riores do homem (inteligência e vontade); a história da ciên­cia e a da civilização são, em grande parte, tributárias das aspirações religiosas que constantemente moveram os ho­mens a novos empreendimentos. Veja-se a propósito a abun­dante documentação citada por P. Deffontaines, Géographie et Religions. Paris 1948.

b) A tese da eternidade da matéria está em contradi­ção com a da evolução ascensional da mesma matéria; ca­rência de início e evolução são termos inconciliáveis entre si, pois toda evolução supõe necessariamente um ponto ini­cial e outro final. A hipótese da eternidade do mundo está também em desacordo com a ciência moderna, que não so­mente requer um ponto de partida para o processo evolutivo do universo, mas também fala de relativa "juventude" do cosmos (cerca de dez bilhões de anos).

c) Entre os homens existe, sim, igualdade básica de na­tureza (todos são animais racionais), diferenciada, porém, por características acidentais, pessoais; dotados de diversa capacidade intelectual e variada energia de vontade, os in­divíduos tendem pelas suas atividades a se dispor em hierar­quia, devida ao uso e ao abuso que cada um faz de suas qua­lidades. As desigualdades econômicas, portanto, provêm em grande parte das desigualdades naturais que intercedem en­tre os indivíduos; por isto é que não são condenáveis, desde que se mantenham dentro de certos limites e não impeçam a colaboração de todos para o bem comum. O nivelamento dos indivíduos mediante a extinção da propriedade particu­lar é contraditório à própria natureza humana, como o com­prova a experiência da Rússia mesma: a sociedade soviética conhece hoje de novo as suas classes, os seus indivíduos e grupos privilegiados, embora os nomes e títulos sejam dife­rentes dos que estavam em voga no regime imperial. Donde se vê que a igualdade entre os homens não poderá ser arit­mética, mas há de ser proporcional: todo indivíduo na socie­dade há de gozar de direitos particulares, correlativos às suas aptidões naturais e à contribuição que êle possa pres­tar ou haja prestado ao bem comum.

De resto, fraternidade entre os homens sem crença em Deus é impossível; se não se reconhece um Pai comum nos céus, com que direito se exigirá que os homens se reconhe­çam uns aos outros como irmãos sobre a terra? Cedo ou tar­de, mostra-nos a história que as tendências egoístas se atuam, corroendo a filantropia dos ateus. Muito menos se pode espe­rar que, sem Deus, os homens instaurem o paraíso sobre a terra, vivendo sem leis, em espontânea concórdia. Tal ex­pectativa ignora totalmente a realidade histórica: a nature­za humana e, com ela, o mundo visível estão sujeitos à de­sordem que o pecado inicial introduziu (pecado de que fa­lam as reminiscências mesmas dos povos primitivos); e so­mente pela reconciliação do homem com Deus é que se po­derão obter harmonia e bem-estar neste mundo. — A luz destas considerações, o marxismo aparece claramente co­mo uma religião desviada do seu verdadeiro objetivo. Aliás, já dizia muito a propósito Donoso Cortês, o famoso estadista (†l853): "Toda civilização é sempre o reflexo de uma Teolo­gia" (Ensayo sobre el catolicismo, el liberalismo y el socialis­mo 1851).

Vê-se, por fim, que não há compatibilidade entre cato­licismo e marxismo plenamente entendidos. Isto, não exclui que certas teses marxistas referentes à economia ou à administração pública possam ser incorporadas à ideologia cris­tã. Segundo as declarações dos próprios comunistas, o mar­xismo não pode nem quer ser concebido independentemente do quadro filosófico ou do materialísmo dialético que inspi­rou a Marx; qualquer tentativa, como a da II Internacional, de edificar o comunismo sobre outro fundamento filosófico é rejeitada pelo bloco marxista preponderante qual deviação ou heresia (sabe-se que a II Internacional, de 1880 ao fim da primeira guerra mundial, foi tida por Lenin, Trotzkij como Internacional dos social-patriotas e dos traidores). A prática do marxismo é indissolúvel da respectiva teoria; por isto também tudo que o marxista realiza na vida públi­ca, ele o realiza no espírito do partido. Diz Lenin: "O materialismo implica, por assim dizer, o espírito de partido, en­quanto nos obriga, em todo juízo que formulemos sobre um acontecimento, a colocar-nos direta e abertamente do ponto de vista de certo grupo social" (Obras I 380s).

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Marxismo: o que é materialismo histórico?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 105/1968)

«Dialética da História... Materialismo histórico...

Que se entende por estas expressões? »

Resumo da resposta: Segundo o marxismo, o fator que explica e move toda a história, é a produção econômica; em função desta é que o homem se organiza em sociedade (com seu governo, sua arte, sua moral e sua religião). Dentro da sociedade, há duas classes em antagonismo constante motivado pelas diferenças econômicas, donde resultam revoluções periódicas e inevitáveis, que levarão um dia a humanidade a uma sociedade perfeita, sem classes. Este processo se chama «o determinismo econômico» ou a «dialética da história» ou «o materialismo dialético».

Basta compulsar a história para verificar que a produção eco­nômica não pode ser tida como o movente dos acontecimentos. Nacio­nalismo, racismo, ânimo exaltadamente religioso, ciúmes e paixões desencadearam guerras e revoluções sociais; exemplos concretos são citados... O conceito marxista simplifica e desfigura a marcha da história.

---X---

Resposta: O conceito de história é capital para a ação do marxismo entre os povos; explica várias das teses e atitu­des dos comunistas. Por isto será criteriosamente analisado nas páginas que se seguem.

Marx propôs o seu conceito de história principalmente em duas de suas obras: «A Pobreza da Filosofia», polêmica contra o socialista francês Proudhon, e «Manifesto Comunista», redigido em colaboração com Engels.

1. O grande fator da história

1. O estudioso da história, à primeira vista, talvez diga que o homem, mediante os seus atos livres, é o arquiteto ou artífice da história.


Marx não nega a liberdade humana (entendida no sen­tido exposto à pág. 401 [45] ). Mas assegura que a liberdade não é a responsável pelo curso da história. Existem fatores que movem o homem a agir ou que condicionam de maneira rígida a ação humana.

2. Quais seriam tais fatores?

- Numa linha imediata, são os fatores sociais ou as instituições da sociedade em que o homem vive: o Estado, a Filosofia, a Moral, a Religião, os estatutos do Direito condi­cionam as atividades e as interações dos homens em cada fase da história. É a sociedade com suas convenções que forma a consciência de cada indivíduo. Marx assevera que não são os indivíduos que concebem as instituições da sociedade e as sus­tentam, mas, ao contrário, é o ambiente social que molda o indivíduo, dando-lhe normas filosóficas e religiosas próprias.

Todavia essas instituições sociais condicionantes são, por sua vez, condicionadas por outro elemento que é último e decisivo no desencadeamento dos processos históricos: a pro­dução material. É esta que motiva a estrutura da sociedade e, dentro desta estrutura, o agir do homem. - Marx julga que a lei da subsistência material ou a tendência a sustentar­-se mediante produtos materiais é a primeira lei que rege a natureza humana. Os homens têm que viver (alimentar-se) antes de «pensar»(!); têm que estruturar a filosofia, a polí­tica e a moral de sorte que estas não o estorvem na luta pelo pão de cada dia. Por conseguinte, as forças fundamentais e diretivas de toda a história são a produção e o subseqüente intercâmbio de produtos.

3. E que entende precisamente Marx por produção?

A produção, diz-nos ele, compreende três elementos:

a) o trabalho do homem,

b) a matéria sobre a qual o homem trabalha (a terra, a madeira, os frutos, o pescado, o gado),

c) os instrumentos com os quais trabalha para transformar a matéria.

O produto material - que o homem utiliza e troca - é o resultado da concatenação desses três elementos.

4. Os homens que se ocupam na produção, precisam de entrar em relações uns com os outros; somente assim podem realizar o intercâmbio de produtos. Destarte surge a sociedade. A estrutura da sociedade há de ser tal que favoreça a mais eficiente e copiosa produção de mercadorias. O modo de pro­dução determina a natureza das relações sociais.

A sociedade aos poucas vai criando instituições de acordo com o seu modo de produzir bens materiais. Dessas institui­ções, a primeira e fundamental é o Estado ou o Governo civil; outras lhe sobrevêm, como a Moral, a Literatura, a Arte, a Música, a Educação, a Religião, etc.

Marx afirma assim um determinismo econômico: os ho­mens não são livres para constituir qualquer tipo de sociedade. Cada grau de desenvolvimento material está relacionado com determinada forma de comércio e consumo e, por conseguinte, também com determinada organização social.

Nem os homens são livres para escolher as suas forças produtoras. Todo ser humano nasce condicionado pelas instituições e pelos produtos materiais da geração anterior. Donde se vê que, conforme Marx, as forças produtoras ou econômicas determinam toda a história, de tal modo que o homem vem a ser o objeto, e não o sujeito regulador da produção e da história.

5. Prossegue o raciocínio de Marx: as relações que surgem entre os homens por motivo de produção e comércio, estabelecem duas classes entre eles: a classe dos que possuem os meios de produção (é a Burguesia), e a dos que não os possuem (é o Proletariado).

Uns são proprietários; não trabalham, mas vigiam o tra­balho dos outros. Gozam de liberdade ilimitada, comodidades e luxo; ocupam posições no governo. Os outros, que são a maioria, são semelhantes a escravos; produzem para a classe rica. Numa palavra: aqueles constituem o que Marx chama «a classe exploradora», e estes «a classe explorada».

Esses dois grupos vivem em antagonismo; a sua coexis­tência dá origem a choques ou revoluções. Das revoluções surgem novos tipos de sociedade. Há, pois, na história um movimento imanente que tende a produzir novas e novas estruturas sociais: é a luta de classes, inspirada pelos bens da produção.

6. E quando precisamente se dá uma revolução social?

- A classe explorada se rebela contra a exploradora, quando a produção material de determinada época já não condiz com a ordem social estabelecida. Criam-se novos mé­todos de produção, e verifica-se que estes não podem funcio­nar no sistema social vigente. Nessas circunstâncias, a classe oprimida, que necessita de produção e meios de subsistência, se revolta contra a ordem instituída, e instaura novas estru­turas sociais, com nova forma de governo, novo tipo de arte, moral, filosofia, direito, religião... «Dada a mudança da base econômica, todo o imenso edifício é transformado com maior ou menor rapidez» (Marx, «Contribuição para a Crítica da Economia Política», 1904, pág. 12).

São, pois, as transformações econômicas que acarretam as grandes transformações da história mediante revoluções e ódio.

Estas idéias são ilustradas pelo seguinte trecho do «Mani­festo do Partido Comunista» de França:

«A história de toda sociedade até nossos dias não foi senão a história das lutas de classes. Homens livres e escravos, patrícios e plebeus, barões e servos, mestres de corporação e companheiros, numa palavra, opressores e oprimidos ...

Em resumo, eis as grandes linhas da filosofia marxista concernente à história:

1) Materialismo. Não há Inteligência Suprema que exer­ça sua sábia Providência neste mundo.

2) Nem é propriamente a inteligência humana, nem são os grandes ideais que traçam o curso da história.

3) Os momentos decisivos dos acontecimentos são os fatores econômicos e o ódio dos homens contra os homens.

4) Estes agentes provocam o determinismo social; os valores propriamente humanos (arte, filosofia, moral... ) são ditados pela produção material; a mente humana não é livre nem autônoma na configuração do seu gênero de vida.

Perguntamo-nos agora:

2. Que dizer de tal teoria ?

Já a síntese proposta dá a ver que a concepção marxista da história se constrói sobre fundamento insustentável.

Com efeito. É preciso reconhecer que os fatores econômi­cos desempenham função importante na vida do homem. Não se lhes pode, porém, atribuir o papel de elementos dirimentes no desencadeamento da história. É o que se depreenderá de uma análise dos diversos aspectos da teoria de Marx.

1) Determinismo econômico e história

Um bom índice do valor de uma filosofia da história é a sua capacidade de explicar os acontecimentos passados. Ora um exame dos fatos históricos do passado demonstra que se desenrolaram de maneira que contradita a teoria marxista.

a) A forma de Governo. Conforme o marxismo, o Estado ou a forma de Governo é a primeira e mais impor­tante expressão do sistema econômico de um povo. Por con­seguinte, é de esperar que a história não apresente tipos iguais de Estado com diferentes métodos de produção econômica. E vice-versa: ... mostre que onde houve idênticas formas de produção, houve também idênticas formas de Governo.

Ora os fatos se opõem a essas suposições.

Com efeito; encontra-se o mesmo tipo de governo asso­ciado a diversos modos de produção. Por exemplo, os Estados Unidos da América têm mantido o mesmo tipo de governo desde a sua fundação, embora durante esse tempo tenham passado por variadas formas de produção, desde o regime de escravatura até exagerada forma de capitalismo. O Estado norte-americano mudou o sistema de produção da população, permanecendo inalterada a forma de governo - fenômeno que não tem explicação na teoria marxista.

Registram-se também freqüentemente formas essencial­mente diversas de governo, apoiadas na mesma base eco­nômica. Assim a Grécia antiga e Roma tiveram o mesmo regime econômico: a produção decorrente da escravatura. Por conseguinte, deveriam ter tido o mesmo tipo de governo. - Ora, na verdade, a Grécia antiga e Roma passaram por for­mas de governo assaz variadas. Em Atenas, por exemplo, houve primeiramente monarquia com sucessão hereditária; depois, república aristocrática; a seguir, o despotismo dos Trinta Tiranos e, por último, a democracia. Em Roma, regis­traram-se sucessivamente realeza (por eleição), república aristocrática e, finalmente, a monarquia absoluta dos Césares.

Destes e de outros exemplos se pode deduzir que não há nexo necessário entre o modo de produção de um povo e sua forma de governo.

b) Direito e leis. Segundo o marxismo, o código de Direito de cada povo está em íntima relação com os res­pectivos meios de produção econômica; as leis são a expressão da economia e tendem a fomentar e defender determinados métodos de produção.

Ora os fatos refutam tal tese: têm-se observado mudan­ças radicais nos métodos de produção, às quais corresponde­ram modificações acidentais nos diversos códigos legislativos.

O mundo ocidental, por exemplo, até hoje é governado por códigos derivados do Código legislativo de Napoleão, có­digo este que é anterior à revolução industrial de meados do século passado.

c) Religião. O marxismo ensina que a forma da religião de determinada sociedade é produto direto da estru­tura econômica respectiva. O homem, consciente ou incons­cientemente, adota a religião que proteja o seu tipo de pro­dução.

Ora mais uma vez a história desmente. Tenham-se em vista, por exemplo, a religião dos judeus (estritamente mono­teísta) e a dos pagãos anteriores a Cristo (exuberantemente politeísta); é certo que os sistemas econômicos de judeus e pagãos eram estritamente afins entre si, de modo a não jus­tificar tamanha diferença no campo religioso. Pergunta-se mais: qual o cataclisma econômico que sacudiu o mundo judeo­-pagão para que nele surgisse o Cristianismo? Paganismo, Judaísmo e Cristianismo coexistiram dentro das mesmas estruturas econômicas do Império Romano. - E que mu­dança de produção acarretou a conversão do Império Romano ao Cristianismo? - E que alteração repentina no sistema econômico produziu o Islamismo na Arábia? - E, por último, como explicar o fato de que o Cristianismo tenha florescido durante tantos séculos em todo o mundo sob sistemas de pro­dução tão variados que vão da escravatura romana ao capi­talismo norte-americano?

A filosofia marxista não pode responder a tais pergun­tas. Por isto quem estuda sinceramente a história, vê-se obri­gado a procurar outra interpretação dos acontecimentos. Observam os comentadores de Marx que, de modo geral, a teoria marxista concernente à história não se deriva da aná­lise da própria história; é, antes, um esquema preconcebido que faz violência à realidade dos fatos.

C. Dawson escreve:

A interpretação marxista da história não é senão uma fórmula divorciada da história. Pretende levar-nos ao coração do problema e mostra-nos um vácuo» («Ensaios sobre a ordem, New York 1931, pág. 165).

Outro autor contemporâneo observa:

«Marx... não se deteve a estudar a História... Ignora o exem­plo crucial do seu próprio povo, a história da grandeza de Israel, que destrói toda a sua teoria. A grandeza de Israel não foi econômica; neste aspecto, pouco diferia da dos povos circunvizinhos. A grandeza dos judeus do Velho Testamento e o estabelecimento do Cristianismo na história estão fora do campo econômico. O que Marx fez, foi formular uma generalização apressada das condições e do espetáculo do seu tempo, e ainda aqui errou gravemente» (M. d'Arcy, «Moral Cristã». Londres 1937, pág. 169).

2) Economia e cultura

Como vimos, o marxismo afirma que os valores intelec­tuais e culturais da sociedade (arte, educação, filosofia, ciên­cia... ) são dependentes do respectivo sistema econômico, de tal sorte que qualquer mudança nos métodos de produção é causa de novas expressões da inteligência.

Pergunta-se, porém: E qual a causa das mudanças nos métodos de produção? - Só se pode responder que tais mudanças se devem à inteligência mesma do homem; a inte­ligência é anterior aos meios de produção; é ela que os con­cebe e os vai aperfeiçoando constantemente. A invenção da maquinaria nova não se explica por si mesma nem se realiza automaticamente no mundo material; ela é função de uma atividade espiritual do homem e assim representa um triunfo da mente sobre a matéria.

Consequentemente, deve-se dizer que a grande força mo­vente da história é a mente humana, dotada de inteligência e vontade; em outros termos: ... são as faculdades espirituais do homem, que, concebendo ideais, arquétipos, realizando cál­culos, percebendo proporções, entre meios e fins, vão domi­nando a matéria e a dispõem de modo a obter dela maiores rendimentos.

Tenha-se em vista especialmente o moderno Estado de Israel: em uma faixa de terra árida e pouco hospitaleira, os israelenses aplicam sua inteligência e sua vontade a dominar e transformar a região, tornando-a fecunda e hospitaleira; a inteligência tem realmente mu­dado a capacidade de produção de Israel.

Inegavelmente o sistema econômico e os bens materiais desempenham papel de grande importância na configuração da vida de uma sociedade; os meios de produção econômica condicionam, em grande parte, a atividade do homem. Condi­cionam-na, sim, mas não a causam. O erro do marxismo foi ter confundido condição e causa, pré-requisito da ação e causa da ação. A janela, por exemplo, é condição necessária para que o sol ilumine uma sala, mas a causa da iluminação é o sol. Assim os bens econômicos e o sistema de produção são, até certo ponto, condição para que o homem desenvolva sua atividade e crie a história; contudo a causa real da atividade humana e o fator que plasma a história, é a mente do homem; esta, embora dependa dos meios de produção, é força motriz superior, e não elemento subalterno em relação aos sistemas econômicos.

Marx entende por «liberdade humana» a consciência que o homem tem de si mesmo. Ele ensina que o homem é livre porque age de maneira consciente segundo leis necessárias, não eletivas. Os outros animais, ao contrário, não são livres porque agem de maneira inconsciente, segundo leis necessárias. Não é, portanto, o homem quem escolhe os meios e os fins de suas atividades.

Ora tal atitude equivale simplesmente a negar a liberdade de arbítrio do homem. Eis, porém, que, se não há liberdade, não há responsabilidade moral nem dignidade humana. - As provas da existência do livre arbítrio se encontram em «P.R.» 1/1957, pág. 5; 3/1957, pág. 7; 5/1958, pág. 199-206; 40/1961, pág. 141.

3) Luta de classes e história

a) Segundo Marx, os homens que possuem os meios de produção, constituem a classe exploradora, ao passo que os demais integram a classe explorada. Todo homem pertence a uma ou outra dessas duas classes.

Ora nisto há simplificação pouco feliz. É gratuito e errôneo identificar, de um lado, «proprietários» de meios produ­tivos e «exploradores»; de outro lado, «trabalhadores» e «ho­mens explorados». Houve e há proprietários numerosos que não exploraram nem exploram os que com eles trabalham. Por isto já se disse que as duas classes organizadas e anta­gônicas cuja existência Marx supõe, são dois «mitos» sem realidade objetiva (cf. M. Bober, «Interpretação da história segundo Carlos Marx». Cambridge 1927, pág. 329).

b) Admitidas as duas classes, julga Marx que as mudanças sociais e mesmo todas as guerras da história são movidas pela luta de classes e, por conseguinte, têm fundo econômico.

Mais uma vez, a história contradiz à tese. As transfor­mações da sociedade e as guerras têm sido provocadas pelos mais diversos motivos: houve guerras devidas ao nacionalismo (ou patriotismo exagerado), ao racismo, à Religião (tenham­-se em vista as guerras de expansão árabe após Maomé, 622, as Cruzadas nos séculos XII e seguintes), a ciúmes e vaidades de Henrique VIII da Inglaterra no século XVI... (julgam alguns historiadores que, se Henrique VIII não se tivesse enamorado por Ana Bolena, em detrimento de sua esposa Catarina de Aragão, os destinos da Inglaterra teriam sido diferentes; a Inglaterra haveria permanecido no Catolicismo, teria reconhecido a arbitragem do Papado na América e provavelmente os Estados Unidos hoje fariam parte da América Espanhola; cf. B. Russell, «Liberdade na Organização». New York 1934, pág. 1985).

c) O Marxismo afirma que a sociedade sempre se compôs de classes em luta. Ora verifica-se que certos países, como a índia, durante séculos, até os últimos tempos, se manti­veram isentos de lutas sociais; a dialética social aí não se apli­cou. É somente no Ocidente, a partir da revolução industrial (século XIX), que se pode observar o jogo da dialética mar­xista.

d) Conforme Marx, a dialética social cessará no futuro, logo que os povos atinjam o perfeito comunismo.

Esta miragem é ilusória. A natureza humana mesma ensina que nunca poderá existir sociedade sem classes. Sempre haverá quem governe e quem seja governado, administradores e trabalhadores, gente de poder e gente privada dele. E tais distinções produzirão sempre classes, como, aliás, comprova a experiência da Rússia Soviética, da Iugoslávia, da Polônia, onde a classe privilegiada é a dos governantes, cientistas, mi­litares... (veja-se a propósito o livro de Milovan Djilas, «A nova classe». Rio de Janeiro, ed. Agir, 1958).

Deve-se, porém, desejar que as classes da sociedade, em vez de se considerar mutuamente com desconfiança, se unam em amor fraterno e colaborem entre si.

e) O marxismo pretende, mediante a sua teoria dia­lética, prever as transformações por que passará a sociedade em épocas e lugares determinados.

Pode-se observar que é assaz vã qualquer pretensão de prever o futuro da história. Ademais os fatos comprovam que as «predições» marxistas são falsas. Com efeito, segundo os princípios marxistas, o comunismo devia surgir primeiramente nos países capitalistas; Marx e Engels, por isto, «previram» que a Alemanha seria a primeira nação comunista. Depois, em entrevista concedida a um jornalista americano em 1871, Marx predisse que a Inglaterra seria a primeira a adotar o regime comunista (cf. D'Arcy, «Moral Cristã, pág. 172).

Estas considerações já permitem concluir que a filosofia marxista da história está longe de explicar a realidade dos fatos; desfigura o homem e o currículo dos acontecimentos que concernem a este.

À guisa de bibliografia:

J. Me Fadden, «Filosofia do Comunismo» (tradução do inglês). Lisboa 1961.

J. Y. Calvez, «O pensamento de Karl Marx», 2 vols. Porto 1959.

A. Fanfani, «Capitalismo, Catolicismo, Protestantismo. Lisboa 1961.

B. Russel, «Bolchevism: Practice and Theory». New York 1920.

Mauriac, Ducatillon, Berdiaeff e outros, «Le Communisme et les chrétiens». Paris 1937.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Marxismo: pode um cristão ser marxista

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 276/1984)

por Urbano Zilles

Em síntese: O Pe. Urbano Zilles, professor da PUC-RS, considera nove pontos em que Cristianismo e marxismo se defrontam, mostrando a total incompatibilidade entre um e outro. O marxismo seduz porque propõe um certo humanismo, visando a libertar o homem da exploração e da escra­vidão. Todavia, por seus princípios filosóficos materialistas e ateus, o marxismo é inepto para realizar esse programa. Só leva o homem a nova forma de exploração e escravidão por parte do Estado absolutista e capita­lista. Por isto o Cristianismo censura o marxismo por não ser suficiente­mente humanista ou por não reconhecer o segredo da plena realização do homem: "Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti". O imanentismo materialista do comunismo é a mais forte bofetada na face do homem feito para o Absoluto e o Infinito!

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O Prof. Pe. Urbano Zilles, da PUC-RS, acaba de publi­car um livro sobre Cristianismo e marxismo[1], que merece atenção. Estuda de maneira sistemática os pontos em que cris­tãos e marxistas se defrontam entre si (religião, trabalho, humanismo, salvação, verdade... ) e conclui não haver con­ciliação entre as duas cosmovisões. Esta tese não é nova; ao contrário, tem sido freqüentemente afirmada pelo magistério da Igreja e por abalizados pensadores cristãos; todavia ou­vem-se, de vez em quando, vozes de cristãos que se dizem marxistas e fazem a apologia da sua posição.

Eis por que nos voltaremos com especial interesse para o livro em foco, do qual destacaremos alguns tópicos mais rele­vantes.

CRISTÃO E MARXISTA?

São várias as frentes de divergência entre cristãos e mar­xistas. A mais fundamental é a que ocorre entre

1. Materialismo ateu e visão cristã

1. Marx professa o monismo materialista: «o real é iden­tificado com a matéria, e o espiritual torna-se sinônimo de ficção» (p. 17). «O que existe, é a matéria eterna, incriada, indestrutível, sempre em movimento. Tudo se explica pela dia­lética da matéria. Torna-se absurdo recorrer a hipóteses inve­rificáveis, como, por exemplo, Deus» (p. 17).

Pergunta Zilles: «Não é o materialismo dialético uma espécie de metafísica de tipo panteísta? Não se trata de uma laicização teológica, que atribui à matéria todas as proprieda­des do ser perfeito que a Teologia chama Deus?» (p. 18).

A dialética da matéria, que perfaz a história da humani­dade, segundo Marx, exprime-se na luta de classes movida por interesses econômicos. São as condições econômicas que dão origem às super-estruturas da sociedade: moral, religião, di­reito, filosofia, arte... Estas, por conseguinte, são oscilantes como oscilantes são as estruturas econômicas da vida social.

O ateísmo está implícito em tais proposições do marxismo. A religião encarna uma ilusão; ela enriquece a Deus para em­pobrecer o homem. Por isto o marxismo ortodoxo propõe a luta contra a religião até aniquilá-la; em conseqüência, não se pode falar de «marxista cristão».

2. Ao contrário, o Cristianismo professa que o mundo material foi criado por Deus (não necessariamente em seis dias de vinte e quatro horas) e é chamado a regressar a Deus. «Neste universo material, o homem é uma unidade composta de matéria e espírito. Pelo seu corpo, faz parte do mundo, e o mundo material faz parte dele. Pelo espírito é capaz de erguer-se a Deus. No homem encontram-se Deus e mundo, tempo e eternidade, matéria e espírito... » (p. 22).

A matéria não tem sentido em si. Acena para Deus, que nela e através dela atua. Na ressurreição de Jesus a matéria participa da transfiguração; nos sacramentos ela se torna canal da graça para o homem. Cabe ao homem orientar o mundo material criado por Deus e transformá-lo através do trabalho pessoal e comunitário. O Evangelho ensina que o homem só se realiza plenamente transcendendo a si mesmo para per­der-se em Deus. Dá-se a Deus dando-se ao próximo.

Donde se vê que crer em Deus não é renegar o homem; antes, liberta-o do efêmero, orientando-o para o Infinito. Vê-se também que o homem não se realiza plenamente senão em Deus.

2. A Religião

1. Hoje em dia fala-se de «cristãos marxistas», não, porém, de «marxistas cristãos». O marxismo rejeitou a reli­gião como sendo «ópio do povo» ou «consolação procurada pelo povo porque não ousa a revolta e desconhece o caminho da vitória» (p. 25).

«O juízo sobre a religião é que caracteriza a ortodoxia marxista. Quem se converteu ao ateísmo marxista, conver­teu-se realmente ao marxismo. No momento em que algo mu­dasse quanto à concepção de religião, mudaria profundamente o marxismo» (p. 27).

Todavia o marxismo assume um caráter messiânico pro­metendo uma nova sociedade e uma humanidade regenerada mediante o sacrifício do proletariado, que se imola em prol do bem comum; Marx transfere para o proletariado os predicados do Messias. Assim o marxismo torna-se um substituto da reli­gião. «Enquanto a religião pede a obediência a homens que representam Deus, o marxismo exige a obediência a homens que representam o homem» (p. 56).

2. Para o Cristianismo, a religião é o relacionamento do homem com Deus, que só tende a dignificar o homem e tor­ná-lo mais eficiente construtor do mundo visível. Negar Deus significa expor o homem ao domínio do próprio homem. «Pro­vavelmente não se teria chegado à formulação de direitos hu­manos sem o Cristianismo» (p. 46).

É também a crença em Deus que dá sentido à vida do homem na terra. Este sabe que luta e sofre com esperança de colher em outra vida os frutos que ele não colhe na vida presente. «O homem sabe que vive para a morte. Por isto, esta vida só adquire sentido se a morte tiver sentido. E qual o sentido da morte numa concepção marxista?» (p. 51). O marxismo «deixa insatisfeitas as esperanças mais íntimas da alma humana, para considerar a pessoa apenas sob o aspecto de sua função de agente de forças sociais» (p. 57).

Ademais: «se a religião é uma ideologia que sempre tem servido às classes dominantes, como se explica que o Cristia­nismo tenha permanecido apesar das mudanças das condições econômicas nas quais nasceu?» (p. 30).

«O marxismo prometeu tornar supérflua a religião. Esta promessa talvez lhe seja de mais difícil execução do que substituir a ordem econômica e social do capitalismo por outra me­lhor. Nos países em que o regime comunista já se estabeleceu, a religião talvez seja a única grandeza do `espírito objetivo' que ainda existe, ou seja, que ele não conseguiu eliminar nem assimilar até hoje. Tudo isto pode indicar que o tempo da reli­gião ainda não passou» (p. 31).

3. Humanismo

1. O marxismo propõe «um humanismo fechado: o ho­mem é a sua própria luz, o seu fim único e último, o único artífice da sua felicidade e do seu destino; em resumo, é a norma absoluta do seu pensar, da sua vontade e do seu agir e a medida de todos os valores» (p. 23).

Propõe também um humanismo militante e revolucionário, chamado a travar a luta entre explorados e exploradores no campo econômico; a luta entre o bem e o mal coincide com a luta entre as duas classes. As revoluções, mesmo violentas, são uma legítima defesa dos escravos contra a violência dos senhores (cf. pp. 49s).

«No marxismo os homens devem consolar-se com um futuro melhor (= a sociedade regenerada), que eles jamais alcança­rão. É esta realmente uma perspectiva humana. O homem individual é totalmente sem importância» (p. 58).

2. O Cristianismo reconhece a dignidade da pessoa hu­mana independentemente das condições de raça, classe, cultura ou fortuna. A pessoa humana tem valor incomparável em si, mesmo que seja derrotada pela vida, pobre e ignorante... Vale, porque sua vida vem de Deus, do qual é imagem e seme­lhança. Esta dignidade, o Estado não lha pode tirar (cf. p. 52). «Uma vida fracassada aos olhos deste mundo pode ter valor pessoal, alegria e paz. No malogro e no fracasso humanos de Cristo fomos salvos para uma vida nova; nasceu o homem novo e definitivo, que ainda dormita em nós na espera de sua plena realização» (p. 58).

O humanismo cristão não é alienante. «Cultiva as virtu­des da coragem e da audácia. Os santos cristãos não foram, nem são, burgueses tranqüilos e acomodados. Aliás, o Evan­gelho de Cristo é apelo à grandeza e ao heroísmo. Por isto o cristão autêntico tem repugnância à mediocridade... Não pac­tua com o pecado, nem na ordem individual nem na social... Reconhecer a Deus como Pai exige reconhecer o semelhante como irmão. O cristão não se fecha em si mesmo» (p. 52).

4. A salvação

1. Como forma de humanismo ocidental, o marxismo é uma doutrina de salvação.

A salvação que o marxismo oferece, é a progressiva feli­cidade material numa sociedade sem classes, na qual serão realizados os ideais da liberdade, da igualdade e da fraterni­dade. Apresenta-se, em outras palavras, como uma forma de «religião» perfeita da humanidade e da felicidade. A fim de atingir este objetivo, programa o método da revolução vio­lenta, para a qual o operariado tem que ser atiçado (cf. pp. 55s). No fim do processo revolucionário aparecerá o ho­mem novo, comunista, numa sociedade em que não mais haverá Estado, nem partidos, nem classes sociais. Por ora «o mal radical, o pecado original é a alienação econômica» (p. 56). A salvação consiste em libertar o homem da servidão econômica.

2. Quanto ao Cristianismo, ele não crê que, «mesmo rea­lizando-se a utopia de uma sociedade sem classes, se resolvam todos os problemas humanos. Há formas de alienação que independem de melhoras sociais, como é o caso da incoerência entre nossos propósitos mais nobres e a fragilidade de nossa conduta moral. Mais: «que importância teria um moribundo no conjunto da futura humanidade, segundo a concepção mar­xista? Que humanismo é este que não consegue explicar nem dar sentido à situação-limite da doença e da morte? » (p. 57).

O Cristianismo também ensina que o homem tem seu des­tino, em grande parte, nas próprias mãos: o destino eterno como o temporal. Entretanto também reconhece que não nos podemos salvar só com nossas próprias forças. Afirma que somos salvos pela morte e ressurreição de Cristo.

A salvação cristã pode implicar a capacidade de coexistir com o mal, a doença e a morte. Ela se realiza mediante a cruz em situações difíceis, muitas vezes através do amor aos próprios inimigos. O cristão sabe que no decorrer da história deste mundo ele já usufrui do penhor e de elementos da sal­vação definitiva, mas tem consciência clara de que a plenitude das respostas aos seus anseios só lhe será dada no fim dos tempos e no encontro face-a-face com o Senhor Deus.

5. A verdade

1. «Embora o marxismo admita verdades definitivas na matemática, na física e na biologia, a verdade não tem cará­ter absoluto para um comunista. E isto porque as idéias e as categorias mentais do homem apenas exprimem as relações sociais, contingentes por natureza. As idéias dominantes de uma época são as da classe dominante. Conclui-se disto que aquilo que hoje se apresenta como verdade universal, segundo o marxismo, não passa de uma representação que a ideologia burguesa faz da realidade. Seria inútil querer dialogar com filósofos e cientistas burgueses, porque há um abismo intrans­ponível entre burgueses e proletários por haver dois tipos de consciência diferentes. Entre eles não há princípios comuns. Por isto não há verdade universal, mas só há verdade de classe. Por conclusão, só há a verdade do Partido» (p. 66).

2. O Cristianismo ensina que existe a verdade objetiva, absoluta, válida para todos os homens, independentemente da respectiva condição sócio-econômica. Para chegar a apreen­dê-la, o homem tem que se libertar de preconceitos, paixões, erros de percepção ... - o que pode e deve ser feito pro­gressivamente mediante a colaboração de todos os interes­sados no conhecimento da verdade.

No plano da fé, o cristão sabe que Jesus Cristo é a Ver­dade e a Vida (cf. Jo 14,6). Ele incita os seus discípulos a praticar a verdade, convertendo-se do pecado para a fidelidade a Deus a fim de se tornarem colaboradores de Deus na cons­trução do mundo.

O materialismo histórico teria que ser provado pela prá­tica. Não pode ser aceito simplesmente como um dogma. Com efeito; observemos o seguinte: confiando na teoria científica de Marx, Engels previu a revolução sócio-econômica na Ingla­terra para breve. Ora esta não ocorreu até hoje. Através de toda uma série de mudanças, perdurou na Inglaterra a con­tinuidade.

6. Conclusão

O fecho do livro de Urbano Zilles considera concreta­mente a tese de vários cristãos latino-americanos que desejam conciliar entre si marxismo e Cristianismo.

Começa, pois, por citar o Documento de Puebla:

«Alguns crêem possível separar diversos aspectos do marxismo, em particular sua análise. Recordamos com o magistério pontifício que seria ilusório e perigoso chegar a esquecer o nexo íntimo que os une radicalmente; aceitar os elementos da análise marxista sem se conhecer suas relações com a ideologia; entrar na prática da luta de classes e de sua interpretação marxista, deixando de perceber o tipo de sociedade totalitária e violenta a que conduz tal processo» (n° 544).

Na verdade, alguns cristãos, cientes de que o marxismo é visceralmente ateu, em oposição ao Cristianismo, pretendem distinguir aspectos do marxismo, a fim de abraçar ao menos aqueles que não impliquem ateísmo; entre estes aspectos, esta­ria a análise marxista da sociedade (dividida em opressores e oprimidos, que se digladiam por razões econômicas).

Em con­seqüência, há cristãos que, embora não aceitem o marxismo na íntegra, adotam o tipo de análise da sociedade proposto pelo marxismo. Ora a tais irmãos quiseram os Bispos em Puebla, fazendo eco ao S. Padre, dizer que tal distinção não é possível; a própria análise marxista da sociedade está im­pregnada de ateísmo materialista e leva cada vez mais a este.

«É curioso não encontrarmos marxistas cristãos, mas apenas cris­tãos que se dizem marxistas. Do ponto de vista do marxismo ortodoxo, é impossível ser marxista cristão. Primeiro, porque o marxismo é um todo, do qual não cabe aceitar, por exemplo, a análise sem aceitar o materialismo histórico, o ateísmo, a teoria e a estratégia da Iuta de classes. Em segundo lugar, porque os marxistas devem ser levados a sério; eles mesmos rejeitam a separação entre análise, de um lado, e, por outro, a visão do mundo e os princípios de ação. Por isto devemos... reconhecer que não se pode ser cristão marxista. Ou alguém é cristão ou é marxista, pois até é ridículo chamar-se marxista» (pp.69s)

A seguir, com muita pertinência, observa o Pe. Zilles:

«O que o Cristianismo objeta ao marxismo, não é ser ele humanista, mas não o ser suficientemente». O Cristianismo não recusa o combate às alienações, mas julga que o marxismo não as combate radicalmente e, por isto, gera novas aliena­ções. O Cristianismo não se opõe à dialética do senhor e do escravo, mas julga que o marxismo permanece vítima da mesma. O que o Cristianismo espera do marxismo, é uma fidelidade mais decidida ao homem todo e a todos os homens. Cf. p. 71.

«Alienação» neste contexto é a condição do homem que sofre exploração econômica, política, social... e não se revolta. Ora é claro que o Cristianismo não aceita tal estado de coisas. Ele prega o respeito ao homem ou o humanismo. - O mar­xismo também prega seu humanismo; todavia não consegue libertar o homem da exploração e da escravidão, pois subor­dina os cidadãos aos ditames do Estado capitalista, absolutista e escravizador; o marxismo não sai da esfera do meramente humano; por isto não consegue propor ao homem a resposta cabal; esta só se encontra na transcendência ou em Deus. Em conseqüência, os cristãos podem reconhecer as boas intenções dos marxistas, mas verificam que são de todo ineficientes, pois ignoram o segredo do homem sabiamente formulado por S. Agostinho: «Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti» (Conf. I, 1). Se o marxismo reconhecesse que o homem não foi feito para se realizar apenas na matéria, teria possibilidade de responder ao homem, ... mas já não seria marxismo!

«Caberia analisar mais criticamente as hipóteses e teorias mar­xistas em vez de pressupo-las de maneira dogmatista e como definitiva­mente válidas. Assim, embora seja verdade que os fatores econômicos, em qualquer realidade social, são decisivos, não são os únicos. Nunca foi demonstrado que toda a história humana, passada e presente, possa ser reduzida à luta e, muito menos, à luta de classes, no sentido estrito da palavra. É ingênuo e ridículo querer compreender toda a realidade social por meio da dialética do senhor e do escravo. Há outras forças profundas que inspiram e movem a história. Mesmo que reconheçamos a realidade de que existe a luta de classes, disso não podemos concluir que a única maneira de superá-la seja a própria luta: a classe operária contra a classe burguesa» (p. 71 )

Por último, o Pe. Urbano Zilles apregoa uma alternativa cristã entre o capitalismo liberal e o marxismo totalitário:

«Certamente, o maior desafio do marxismo ao Cristianismo hoje é que os cristãos traduzam, em obras políticas, sua fé e mostrem que a fé é capaz de produzir o novo e que, vivida, torna-se uma força libertadora e transformadora não só das pessoas individuais, mas também das estruturas sociais e econômicas injustas. O caminho é uma conversão radical dos cristãos na prática. Numa concepção cristã de sociedade, todos deverão ser para cada um (capitalismo) e cada um para todos (socialismo) » (p. 72).

Eis, em síntese, o conteúdo de valioso livro, que merece difusão, pois certamente contribuirá para levar luzes às men­tes e dissipar daninhos equívocos. As intenções humanistas do marxismo seduzem não poucos, mas os princípios filosóficos que o marxismo adota são ineptos para satisfazer a tais inten­ções: o imanentismo materialista do comunismo é a mais forte bofetada na face do homem, feito para o Absoluto e o Infinito!

Estêvão Betteneourt O.S.B.

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NOTAS:

[1] ZILLES, U., Pode um cristão ser marxista? - Livraria Editora Acadê­mica, Porto Alegre 1984.