Aqui você encontra as melhores respostas sobre as principais questões de fé e razão e as melhores respostas contra as críticas que costumam fazer à Igreja Católica. Quase todos os artigos foram extraídos da revista “Pergunte e Responderemos” de autoria de D. Estêvão Bettencourt. Agradecemos aqui a sua gentileza de colocá-los à disposição na internet.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Maçonaria: que é a Maçonaria?
«Que é a Maçonaria? Quais as suas relações com as escolas de sabedoria antigas? Poderá um católico ser maçon?»
A Maçonaria vem a ser uma sociedade secreta, de caráter internacional, que visa remodelar a vida dos povos dentro de moldes estritamente humanitários e leigos. Exporemos sucessivamente as origens da Maçonaria hoje existente, as principais teses doutrinárias que a orientam e, por fim, a atitude que perante ela compete ao católico.
1. Os inícios da Maçonaria
A Maçonaria, tal como hoje em dia existe, recebeu sua organização no séc. XVIII. A história de sua origem, porém, se prende à Idade Média.
Com efeito, nos séc. XI/XIII registrou-se extraordinária atividade de construção (catedrais, mosteiros, escolas, casas de beneficência, pontes, etc.), de sorte que as corporações de pedreiros então existentes foram tomando importância especial; os bons arquitetos e pedreiros eram procurados por toda a parte e dotados de privilégios, que por vezes tinham vigor internacional; tanto os Papas (Nicolau III, 1277; Bento XII, 1334) como os príncipes seculares favoreciam os construtores. Em conseqüência, estes adotaram o atributo de livres (= privilegiados) ou franc-maçons, e passaram a designar seu ofício como «arte regia».
As corporações de pedreiros distinguiam três graus de membros: aprendizes, companheiros e mestres, que costumavam ser recebidos segundo ritual muito solene, no qual figuravam os símbolos distintivos da arte (compasso, esquadro, avental, etc.); juravam observar o segredo profissional e eram iniciados nos sinais de reconhecimento mediante os quais se poderiam identificar entre si e, em conseqüência, prover em toda a parte ao auxílio mútuo.
Eram severas as exigências impostas a quem quisesse entrar em tais corporações; pedia-se não somente idoneidade profissional e moral, mas também fidelidade a Deus e à Santa Igreja, de sorte que o bom «maçon» ou pedreiro medieval era simultaneamente um bom cristão. Tal é o tipo da Maçonaria que se costuma chamar Maçonaria operativa ou prática da Idade Média.
No séc. XVI a ps. - Reforma protestante fez que perdesse um tanto da sua voga a arquitetura religiosa; verificaram-se também discórdias internas nas corporações, as quais naturalmente entraram em decadência. Então, para restaurar o seu prestígio, os grupos de pedreiros começaram a admitir membros honorários influentes, pertencentes a altas camadas da sociedade; na Inglaterra do séc. XVII era tida como elegante entre os nobres a moda de se inscreverem em um corpo de pedreiros. Assim nesses grupos foi prevalecendo o elemento aristocrático e intelectual, que havia de dar orientação totalmente nova à antiga Maçonaria. Esta, com efeito, deixou de ser propriamente técnica, para se tornar filosófica ou especulativa.
A evolução tomou sua face definitiva aos 24 de junho de 1717, quando quatro lojas maçônicas de Londres, por inspiração de um protestante francês, Teófilo Désaguliers, se coligaram para formar a Grande Loja da Inglaterra, que atribuiu a si uma função primariamente filosófica ou doutrinária.
— Foi encarregado de redigir os Estatutos respectivos o pastor protestante Jaime Anderson, que em 1723 apresentou a primeira Constituição da nova Maçonaria, Constituição retocada pelo mesmo autor em 1738. Esta Magna Carta é expressão característica da mentalidade da época: procura estabelecer pacífica convivência entre os homens na base da «neutralidade» religiosa.
É muito interessante comparar o parágrafo intitulado «Deveres para com Deus e a Religião» da Constituição de pedreiros medievais com o inciso correspondente da Constituição de 1738.
No primeiro lê-se:
«Teu dever primordial, como maçon, consiste em seres fiel a Deus e à Igreja e em te preservares dos erros e da heresia».
O segundo reza:
«O maçon, por sua profissão, está obrigado a obedecer à lei moral, e, se conhecer bem a sua arte, não será nem um ateu estúpido nem um libertino religioso. Mas, embora nos antigos tempos os maçons fossem obrigados em cada país a pertencer à religião desse pais ou dessa nação, qualquer que fosse ela, agora julgamos mais conveniente não mais os obrigar senão à religião na qual todos os homens concordam entre si, deixando a cada um as suas opiniões particulares. Isto quer dizer que os maçons devem ser homens bons e verídicos ou homens de honra e probidade, embora diferenciados entre si por convicções e denominações várias. Desta forma a Maçonaria se tornará o centro de união e o meio de constituir uma verdadeira amizade entre pessoas que, de outro modo, ficariam forçosamente em perpétuo afastamento umas das outras».
A Grande Loja da Inglaterra fundada em 1717 se propagou rapidamente, dado o prestígio político e internacional de que gozava aquela nação no séc. XVIII: em meados deste a Maçonaria já havia penetrado em todos os principais países da Europa.
Como se vê, é vã qualquer teoria que pretenda atribuir origem pré-cristã ou oriental ou existência milenária à Maçonaria: nem Lameque, nem Salomão, o monarca construtor israelita, nem o romano Numa Pompílio nem algum dos grandes personagens da Idade Média pode ser tido como iniciador do movimento, apesar do que se lê em alguns livros que, fazendo recuar as origens da Maçonaria, lhe querem grangear maior venerabilidade e autoridade. — Tão pouco se poderia dizer que a Maçonaria é um instrumento criado pelo judaísmo para destruir a civilização cristã, embora pareça inegável que os judeus, após a Revolução francesa de 1789, lograram exercer grande influência nas lojas maçônicas; estas por sua vez, adotaram em larga escala idéias, vocábulos e símbolos da Cabala ou da mística judaica panteísta.
2. A ideologia maçônica
1. Na sua Filosofia especulativa a Maçonaria professa a autonomia da razão humana. Por conseguinte, o racionalismo e o naturalismo estão na base do sistema.
Os textos oficiais das Lojas aceitam a existência de um Deus (geralmente chamado «O Grande Arquiteto do Universo»), pois este fato se pode apreender pela razão. Está claro, porém, que não reconhecem revelação sobrenatural; os dogmas, que exigem fé, assim como os milagres, são tidos como produtos da imaginação humana: «Não ficarás sabendo na Maçonaria senão aquilo que tu mesmo tiveres encontrado», promete um «Livro do Aprendiz» maçônico, resumindo bem o adogmatismo da seita.
O Deus professado pela Maçonaria é o Deus dos filósofos ditos «deístas» (Voltaire, Diderot, D'Alembert, principalmente): no séc. XVIII uma corrente ideológica espalhou-se pela Inglaterra, a França e a Alemanha, a qual reconhecia a existência de um Ser Supremo, mas afirmava pouco ou nada saber a seu respeito, pois (como diziam os deístas) Deus não se revelara. Uma conseqüência muito «cômoda» dessa atitude filosófica era que o homem, na sua conduta de vida moral, embora não se professasse ateu, podia agir autonomamente, pois o Ser Supremo praticamente não interferia no curso deste mundo[1]. Ora a Maçonaria adotou tal posição filosófica; praticamente essa ideologia redunda em ateísmo, como comprovou a experiência: em muitas Lojas contemporâneas o título «Grande Arquiteto do Universo» caiu em desuso ou é simples fórmula destituída de significado real. Cada maçon pode interpretá-la a seu bel-prazer, identificando-a, por exemplo, com uma noção um tanto vaga de Verdade, de Bem, de Belo ou com o ideal da Civilização a ser implantada neste mundo segundo os métodos maçônicos. — Assim a Maçonaria cultua, em última análise, a Humanidade apregoada como um grande Todo, um Absoluto, a serviço do qual se deve colocar todo cidadão. Tal culto é a religião universal e superior que se imporá de maneira inelutável na era futura; para essa religião superior é que convergem agora todos os homens (teístas, panteístas, politeístas) que se queiram emancipar de seus hereditários «conceitos infantis» em demanda de um progresso cuja divisa soa: «Nem Deus nem mestre».
Está claro que, à luz desta ideologia, as noções de imortalidade da alma, vida futura e sanção póstuma se tornam muito pálidas ou mesmo nulas.
2. A Moral maçônica prega a filantropia e a beneficência ou tolerância para com todos. Na realidade, porém, a seita não rejeita o recurso ao furto, à conspiração dissimulada e ao assassínio, desde que convenham aos planos maçônicos. A Maçonaria auxilia eficazmente os seus membros, constituindo uma rede de proteção que, defendendo os interesses de uns, pode ser extremamente nociva aos de outros cidadãos (totalmente inculpados). Os historiadores, inclusive os maçons, reconhecem em geral que as grandes campanhas contra as instituições cristãs e o clero têm sido freqüentemente fomentadas pela Maçonaria: assim a supressão de Ordens Religiosas, de escolas católicas, a confiscação dos bens da Igreja, os movimentos pró-divórcio, pró-laicização do ensino, dos hospitais, dos quartéis, a campanha em favor da cremação de cadáveres, etc. Na segunda metade do séc. XIX as Lojas travaram uma luta cerrada contra a Igreja, principalmente nos países de civilização latina (França, Bélgica, Itália, Espanha, Portugal, América Central e Meridional).
3. Não obstante o seu racionalismo, a Maçonaria apresenta (quase paradoxalmente!) um aspecto místico assaz acentuado. Segue um ritual solene em que cerimônias simbólicas, sinais e emblemas ocorrem com profusão, inspirados parte pelos ritos das antigas religiões orientais e gregas de mistérios, parte pela Bíblia e o Cristianismo, parte pelos usos das corporações medievais de pedreiros.
A adoção desse ritual na Maçonaria se explica pelo fato de que no séc. XVIII, juntamente com o racionalismo, estavam muito em voga as seitas ocultistas e a Cabala judaica, seitas que durante a Idade Média se formaram amalgamando idéias e usos do esoterismo antigo. Por estranho que isto pareça, o ocultismo, com a sua mística, se combina com o racionalismo, pois também bajula o orgulho humano, prometendo uma sabedoria que eleve o iniciado acima do comum dos mortais, ou seja, a quintessência da sabedoria de todas as épocas e de todos os povos. Ademais o racionalismo estéril, depauperante, e o misticismo aberrante, fantasista, são manifestações congêneres da decadência do espírito e da cultura de uma época.
As cerimônias usuais na Maçonaria servem para inculcar os princípios e as aspirações da seita. Três são os graus de introdução na Loja: o do aprendiz, o do companheiro e o do mestre.
Aprendiz é o cidadão que, libertando-se da servidão e da cegueira do mundo profano, abre os olhos para a «verdadeira luz», a da «Estrela chamejante» (paródia da estrela de Belém). Realiza assim uma espécie de purificação intelectual e moral, dispondo-se a ser «um pensador e um sábio».
A seguir, o candidato passa «entre as duas colunas (Boaz e Jakin), tornando-se companheiro. Estuda então assiduamente as ciências e as artes liberais, preparando a sua «divinização ou consumação na Humanidade pura. . . É-lhe reconhecida a superioridade sobre todos os profanos, assim como a serenidade característica dos que se aproximam da perfeição (essa serenidade é simbolizada por um cubo entregue ao candidato; note-se que o cubo é uma figura que está sempre em pé, sempre igual a si mesma).
Por fim, dá-se a elevação ou transfiguração ou divinização do iniciado, que recebe conseqüentemente a dignidade de Mestre. Este é considerado morto a todos os preconceitos e vícios do mundo profano e regenerado para uma vida nova. Está pronto a tudo sacrificar, mesmo a vida, no combate contra os poderes inimigos (a superstição, o fanatismo, o despotismo). Como insígnia, é-lhe entregue uma prancheta de desenho, a simbolizar a tarefa do maçon perfeito, que é a de construir o edifício da sociedade futura, numa fraternidade universal e cosmopolita, emancipada de dogmas.
A iniciação nesses diversos graus se faz em ambiente de mistério e terror mediante severos juramentos de fidelidade e segredo, sob a ameaça de morte pela espada. Em algumas Lojas se acrescentam aos ritos comuns práticas inspiradas pela alquimia e a magia.
3. A atitude da Igreja
Não se pode deixar de reconhecer a oposição radical vigente entre a ideologia maçônica e a doutrina católica: aquela é essencialmente racionalista, ao passo que esta se volta toda para o sobrenatural.
Não admira, pois, que, desde Clemente XII (1738) até Leão XIII (1884), nove Papas, em doze pronunciamentos sucessivos, tenham condenado a seita, denunciando o seu aspecto enganador ou satânico. Nos últimos tempos, havendo cessado a animosidade aberta entre católicos e maçons, surgiu em muitas pessoas a idéia de possível conciliação entre a Sta. Igreja e a Maçonaria, idéia que até hoje vem sendo repetidamente proposta. Não poderia a Igreja coordenar as suas forças com as da Maçonaria no plano da beneficência humanitária, visando unicamente um progresso mais acelerado da cultura e da civilização?
A tal propósito deve-se observar o seguinte:
No séc. XVIII, alguns maçons influentes tentaram reorganizar a Maçonaria nos seus moldes originários, moldes das corporações medievais, que eram inegavelmente católicos. Não o conseguiram, porém, pois o mal já penetrara longe demais na sociedade. Após o reerguimento da Maçonaria subseqüente à Revolução francesa de 1789, a sucessão dos acontecimentos mostrou não haver possibilidade de conciliação.
Contudo, finda a guerra de 1914/18, alguns maçons trouxeram de novo à baila o plano de uma aproximação em relação ao Catolicismo. O líder André Lebey, muito popular nas Lojas, convidava «os que sentiam necessidade de um culto» a irem «ao ninho comum: a religião católica». René Guénon tachava de «degenerada» a organização maçônica de seu tempo e preconizava uma Maçonaria restaurada de acordo com as suas origens católicas. Por fim, Albert Lantoine, membro do Supremo Conselho do Rito Escossês, no ano de 1937 entrou em diálogo com o Pe. Berteloot S. J.; num opúsculo intitulado «Lettre au Souverain Pontife» propunha à Igreja como que uma «trégua» para se constituir uma frente comum contra os perigos do totalitarismo e do marxismo, que, conforme Lantoine, ameaçavam «os dois cultos». As idéias deste autor, embora tenham despertado simpatia entre vários de seus correligionários, não encontraram apoio par parte das autoridades das Lojas, de sorte que Lantoine, antes de morrer, abandonou toda atividade maçônica. A Igreja, do seu lado, declarou, por um decreto do Sto. Oficio datado de abril de 1949, que as disposições (condenatórias) do Código de Direito Canônico referentes à Maçonaria não haviam sofrido mudança.
Para que uma conciliação se pudesse dar, seria preciso que a Maçonaria renunciasse a mais de dois séculos de laicismo e ateísmo, e retomasse seus moldes medievais, como ainda desejam alguns maçons tradicionalistas, Tal reestruturação, porém, parece totalmente utópica! O Pe. Berteloot verificava nitidamente: «A Maçonaria não tem mais princípio algum que possa fundamentar um acordo religioso qualquer».
Todavia, para provar a possibilidade de uma aliança, objeta-se por vezes que o Papa Pio IX, assim como bispos e sacerdotes famosos no Brasil, aderiram à Maçonaria (entre estes apontam-se o Conde de Irajá, bispo do Rio de Janeiro; D. José Joaquim de Azevedo Coutinho, bispo de Olinda; o cônego Januário, Frei Caneca, Frei Montalverne ...).
Diante desta dificuldade, será preciso lembrar que, no tocante a Pio IX, há equivoco comprovado, ou seja, confusão dos nomes de Giovanni Ferreti Mastai (jovem libertino de Roma e maçon reconhecido) e de Giovanni Mastai-Ferretti (bispo de Imola e posteriormente Papa Pio IX). O primeiro autor que fez a identificação dos nomes, Carlos Gasola, retratou-se devidamente no jornal «Positivo» de Roma aos 18 de junho de 1857.
Quanto aos demais eclesiásticos citados, não se nega que tenham pertencido à Maçonaria. Notem-se, porém, as circunstâncias em que se lhe agregaram: viveram geralmente no início do século passado, por ocasião do movimento em favor da independência do Brasil. Ora a Maçonaria naquela época propugnava poderosamente esta causa, sem ter caráter nitidamente anticlerical. Tal atitude foi suficiente para que os mencionados sacerdotes procurassem as Lojas, visando conseguir mais facilmente o ideal da independência nacional. Aderiram, portanto, à Maçonaria por causa de uma campanha nacionalista comum a todos os patriotas, não por causa das idéias específicas da seita.
— Acontecia ainda no século passado que as proibições da Santa Sé referentes à Maçonaria não recebiam o «Beneplácito» do Governo regalista do Brasil, de sorte que a muitos cidadãos honestos (mesmo eclesiásticos) podia parecer que não obrigavam em consciência (conclusão esta objetivamente errônea, pois as leis da Igreja não precisam de confirmação civil para atingir a consciência dos católicos). — Donde se vê que a realidade da história mesma não desmente a incompatibilidade existente entre filosofia maçônica e doutrina católica.
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NOTA:
[1] Em linguagem filosófica distingue-se entre Teísmo e Deísmo. Aquele admite a ordem sobrenatural e a fé em verdades reveladas por Deus, ao passo que o Deísmo nada reconhece além do que a razão humana pode apreender.
terça-feira, 1 de maio de 2007
Maçonaria: o que é a maçonaria (A .Tenório de Albuquerque)
Em síntese: O livro em foco é uma apologia da Maçonaria regular, que não leva em conta os abusos cometidos pela Maçonaria Irregular (anticristã). Ao tocar em assuntos históricos, repete "chavões" sem exercer o devido espírito crítico. Além do mais, sugere um certo relativismo doutrinário, que não é aceitável quando se trata das verdades da fé.
Não queremos negar pontos positivos apresentados pelas Constituições da Maçonaria e pela vivência de membros desta. Mas julgamos que não se podem silenciar os elementos atrás mencionados a fim de exaltar a Maçonaria numa atitude simplória e infiel aos fatos históricos.
Comentário: Chegou à sétima edição o livro de A. T. Cavalcante de Albuquerque, intitulado «O que é a Maçonaria»[1]. Em subtítulo, o autor apresenta os principais tópicos da obra: «Os objetivos altruísticos da Maçonaria. Não é anti-religiosa. - É nacionalista. A Maçonaria orientou os principais episódios da nossa história». Como se percebe, o autor faz uma apologia da Maçonaria, procurando realçá-la como escola de filantropia não-sectária e benemérita. Neste intuito afirma que muitos prelados e sacerdotes da Igreja foram membros de Lojas maçônicas apesar das proibições dos Sumos Pontífices - afirmação esta que tem impressionado o público.
Ora, a fim de esclarecer alguns tópicos do livro, passaremos em revista certas de suas páginas mais importantes, numa atitude serena e objetiva.
1. Observação geral
1. Ao abordarmos a temática «Maçonaria», devemos sempre ter em vista a distinção entre Maçonaria Regular e Maçonaria Irregular.
A primeira é a que conserva fidelidade aos princípios religiosos dos respectivos fundadores no século XVIII (1717-1723). Em algumas de suas Lojas tal corrente da Maçonaria apenas professa a Religião natural ou filosófica chamada «deísmo»; como quer que seja, respeita e valoriza «o Grande Arquiteto do Universo».
A Maçonaria Irregular separou-se da corrente tradicional na segunda metade do século XIX, cancelando dos seus documentos oficiais a referência ao Grande Arquiteto do Universo e assumindo orientação hostil à Igreja Católica.
Ora Tenório de Albuquerque parece ser membro de Loja da Maçonaria regular (cf. pp. 30-33) ; descreve a Maçonaria unicamente através das características do tipo regular, sem levar em conta que, no Brasil e na América Latina em geral, a Maçonaria tramou ardilosamente contra a Igreja Católica. Na verdade, a Maçonaria nem sempre foi liberal e tolerante como o autor a apresenta às pp. 91-93, mas mostrou-se impregnada por espírito sectário e conspirador, como se depreende, por exemplo, da chamada «Questão Religiosa» do Brasil (1871-76) e das leis de perseguição religiosa promulgadas no México sob os presidentes Benito Juarez (1861-72), Porfirio Diaz (1877-81 e 1884-1911), Madero (1911), Carraza (1915-20) ; outras nações da América Latina foram também, em graus diversos, vítimas de legislação anti-religiosa, inspirada, em grande parte, por forças maçônicas.
A apregoada tolerância da Maçonaria, aliás, é contraditada por certos cânones vigentes
"Art. 4, nº 4: É dever do maçom nada imprimir nem publicar sobre assunto maçônico que envolva o nome da Instituição, sem expressa autorização do Grão-Mestre".
O artigo 92 do Regulamento Geral insiste:
"Os assuntos de natureza maçônica não poderão ser impressos ou publicados pelos maçons ou pelas Lojas sem que haja autorização do Grão-Mestre Geral".
Ou ainda: a Lei Penal da Maçonaria do Brasil, no artigo 19, § 39, proíbe às Lojas, sob pena de suspensão temporária ou fechamento definitivo, «iniciar ou sustentar, sem permissão dos poderes superiores, correspondências com as potências maçônicas estrangeiras ou autoridades profanas sobre assunto maçônico».
Tais cautelas se compreendem bem numa sociedade que deseje zelar por sua identidade. Levam-nos, porém, a entender que a tolerância exercida pela Maçonaria tem seus limites e não é apanágio de tal sociedade.
2. Tenório de Albuquerque insinua
Na verdade, o que se dá é o seguinte: as corporações de pedreiros (maçons, em francês) da Idade Média gozavam de grande prestígio e notáveis privilégios outorgados pelos reis e pelos Papas; como as demais corporações medievais, professavam a fé católica e a filiação à Igreja. No século XVI, porém, tais agremiações começaram a perder sua voga, visto que o estilo arquitetônico e a cultura evoluíam. Em conseqüência, as Lojas de pedreiros foram recebendo em seus quadros pensadores e outros profissionais não-pedreiros; eram os maçons acceptés ou accepted masons (maçons aceitos). Estes aos poucos foram dando as notas características às Lojas de pedreiros, que, do seu passado, só guardavam os símbolos (esquadro, régua, compasso...) e os nomes. No século XVII até mesmo elementos procedentes da Rosa-Cruz foram sendo admitidos nas Lojas de pedreiros. Assim a mentalidade e a orientação destas Lojas perderam paulatinamente o seu cunho próprio de instituições católicas. No século XVIII, James Anderson elaborou as Constituições da Maçonaria Especulativa ou Filosófica, seguindo diretrizes de pensamento deísta (adepto da religião natural ou filosófica)[2]. Conseqüentemente a Maçonaria Especulativa dos séculos XVII-XVIII (que se distingue da medieval, chamada «operativa») já não é berçada pela Igreja Católica, mas desde o seu inicio seguiu orientação deísta. Ora foi justamente essa atitude religiosa alheia à revelação sobrenatural que, entre outras causas, suscitou a condenação dos Sumos Pontífices à Maçonaria (no século XVIII o deísmo devia parecer muito estranho e repudiável aos cristãos, pois tinha foros de impiedade ou apostasia).
Passemos agora à consideração de tópicos da obra em pauta.
3. Papas, bispos e clérigos maçons!
No intuito de mostrar a plena compatibilidade entre a Maçonaria e a fé católica, Tenório de Albuquerque e outros escritores maçons alegam que muitos membros da hierarquia católica pertenceram à Maçonaria: assim o Papa Pio IX, os Cardeais Carl Dalberg, Francisco de São Luis Saraiva, Bernis, Antonelli, o conde de Irajá, bispo do Rio de Janeiro, Dom José Joaquim de Azeredo Coutinho, bispo de Olinda, Frei Caneca, Frei Montalverne, Frei Sampaio...
Examinemos de mais perto a temática:
2.1 . Pio IX e a Maçonaria
Escreve Tenório de Albuquerque à p. 43:
"Dentre os Papas destacou-se pelo ódio anticristão contra a Maçonaria Pio IX. Mostrou-se rancoroso contra a Instituição depois de Papa. Pio IX chamava-se Giovanni Ferreti Mastai. Ele foi maçom, tendo pertencido ao quadro de obreiros da Loja Eterna Cadena, de Palermo (Itália). Sob o n° 13.715 foi arquivada em 1839 na Loja Fidelidade Germânica, do Oriente de Nürenberg, uma credencial de que foi portador o Irmão Giovanni Ferreti Mastai, devidamente autenticada, com selo da Loja Perpétua de Nápoles. Como Irmão, como maçom, Giovanni Ferreti Mastai foi recebido na Loja Fidelidade Germânica".
Antes do mais, observemos o equívoco subjacente a estes dizeres: o nome do Papa Pio IX era Giovanni Mastai-Ferretti, e não Giovanni Ferreti Mastai. Na verdade, sabe-se que Giovanni Ferreti Mastai era um jovem de vida livre, conhecido em Roma por seus desmandos, o qual nada tinha que ver com o Conde Giovanni Mastai-Ferretti, bispo de Imola, e, mais tarde, Papa Pio IX. A propósito observa Dom Boaventura Kloppenburg:
"Informa um autor que o primeiro que publicou esta infame balela foi Carlos Gasola, no Positivo de Roma, a 23 de março de 1849; e na mesma folha retratou-se aos 18 de junho de 1857. Por causa de tão torpe calúnia foi o Frondeur de Lyon condenado no tribunal aos 18 de novembro de
O mesmo Dom Boaventura refere outra versão da mesma lenda que faz de Pio IX um maçom:
Para tornar ainda mais verídica a história, chegaram a publicar a fotografia de Pio IX com insígnias maçônicas. Mas, desgraçadamente para o caso, Filadélfia está no mundo civilizado, onde se sabe ler e escrever. Averiguou-se que nem sequer existe naquela cidade uma Loja com o nome dado; encontrou-se que nenhuma Loja de Filadélfia havia recebido jamais a Giovanni Mastai-Ferretti; nenhuma Loja foi capaz de apresentar nem discursos nem autógrafos, e isso pelo simples fato de que Giovanni Mastai-Ferretti nunca esteve
Como se vê, a estória de «Pio IX maçom» mereceria ser arquivada uma vez por todas, em nome da verdade, que a Maçonaria tanto professa cultivar[3]. De resto, é interessante notar que a Maçonaria quis filiar a si outro Papa, isto é, João XXIII; com efeito, a este foi atribuída uma oração que exalta os maçons, com detrimento do próprio Cristianismo; tal oração evidentemente é espúria ou falsificada, como foi demonstrado em PR 132/1970, pp. 554-556.
2.2. Bispos e clérigos maçons
Não se pode negar que vários membros da hierarquia católica se tenham inscrito na Maçonaria.- A propósito seguem-se cinco observações:
1) Seria preciso, antes do mais, investigar com exatidão caso por caso dos que são indicados por Tenório de Albuquerque, a fim de se averiguar se todos foram realmente membros de Lojas maçônicas ou se houve algum equívoco (como no caso de Pio IX). Com outras palavras: para se poder interpretar um episódio histórico, é mister que se tenha certeza de que é realmente um fato ou algo que ocorreu verdadeiramente. Caso contrário, fazem-se elucubrações no vazio ou sem fundamento.
2) Os nomes de bispos, padres e frades citados por T. de Albuquerque como maçons no Brasil e em geral na América Latina são do fim do século XVIII e do inicio do século XIX.
Ora em tal época no Brasil e nos países hispano-americanos fervilhava o ideal da independência nacional. A Maçonaria fora precisamente trazida ao Brasil e aos países da América Latina como arauto e dinamizadora da tese da emancipação nacional; ela nutria aspirações e atividades de ordem política; de modo especial, as Lojas de Pernambuco e da Bahia, pelos anos de 1810, como as do Rio pelos de 1820, eram centros políticos que tramavam a independência; os próprios livros maçônicos insistem neste particular. O maçom Adelino de Figueiredo Lima, no livro «Nos Bastidores do Mistério. .. » (Rio de Janeiro 1954, p. 137), ao falar da fundação do Grande Oriente, escreve:
"E encerrou-se a sessão sob o juramento solene de que a nova potência maçônica independente tinha um fim específico a cumprir: fazer a independência do Brasil".
Na mesma época não poucos membros do clero aspiravam ao ideal da independência pátria. Seja lembrada, por exemplo, a revolução de 1817 em Pernambuco, que foi uma revolução de clérigos. Frei Caneca, Frei Sampaio e Cônego Januário foram conhecidos por seu patriotismo; ora este era também um dos traços importantes das Lojas maçônicas. Eis por que muitos clérigos se afiliaram a estas.
3) Acresce que na época das lutas pela independência dos países latino-americanos a Maçonaria ainda não se tornara anticlerical. Era, pois, compreensível que os clérigos e os maçons procurassem unir suas forças em torno do ideal patriótico.
4) Tal adesão à Maçonaria, embora proibida pelos Papas, podia parecer legítima aos clérigos por circunstâncias jurídicas especiais: em virtude da lei do padroado, as Bulas papais que condenavam a Maçonaria precisavam do beneplácito do rei para ter força de lei no Brasil e nos países sujeitos ao regalismo. Ora o poder régio não sancionava tais Bulas, de modo que os clérigos podiam não se julgar obrigados a observá-las[4].
5) É preciso ainda reconhecer que nem todos os clérigos adeptos da Maçonaria foram disciplinados e exemplares. O seu comportamento deverá ser avaliado no contexto de vida, nem sempre observante, que levavam.
4. A imagem da Igreja no livro
Tenório de Albuquerque diz-se «católico» logo no inicio do livro (cf. p. 19). Em geral, mostra-se respeitoso para com os valores da religião. Todavia, ao apreciar episódios da história da Igreja, deixa-se às vezes levar por interpretações tendenciosas mais do que pela genuína versão da história. Eis por que abordaremos dois pontos de história que o livro põe em relevo.
3.1. A Igreja e a escravidão
À p. 177 lê-se uma citação de obra de João Dornas Filho endossada pelo autor:
"Não há, em todo o curso da história do Brasil até 1877, um ato, um gesto coletivo da nossa Igreja em favor dessa raça miserável que retribuía a servidão com a abastança, que pagava com prosperidade o aviltamento... Aos gemidos, às imprecações, às frustradas rebeldias do desespero, a Igreja de Cristo respondia com apelos displicentes de resignação, quando não retrucava com o argumento mais sólido de repressão armada, como se deu em Minas por 1820, em que o bispo de Mariana pessoalmente tomou armas para esmagar uma revolta de escravos desesperados".
As notícias transmitidas por este texto não levam em conta a documentação respectiva, que os historiadores dedicados à pesquisa utilizam para esclarecer o assunto.
Precisamente em vista de quantos têm acusado a Igreja de silenciar perante o escravagismo, os historiadores têm posto em relevo documentos que manifestam a posição de protesto de Papas, bispos e clérigos diante de tal instituição. Para não repetir quanto já foi dito em PR 267/1983, pp. 106-132, citaremos mais uma página do Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, professor ilustre de Filosofia e História em Mariana, a propósito da Igreja frente à escravatura no século XIX:
«Particular interesse merecem os pronunciamentos feitos na Assembléia Geral Constituinte de 1823, sobretudo por doutos sacerdotes que não deixaram dúvida alguma sobre a posição firme, objetiva, evangélica do clero da época. Seja dito inicialmente que José Bonifácio preparou uma representação para esta reunião sobre a Escravidão. Foi publicada em 1825. Formulava um projeto de libertação gradual.
Convém que documentos como estes sejam estudados. Trazendo-os à luz do dia, o conhecimento das revelações neles contidas faz saber àqueles que dizem sem base que a religião em nada influenciou na extinção do regime escravocrata, a força que a doutrina de Cristo constantemente teve na dissolução das opressões. Os argumentos de que a escravatura era um desrespeito ao direito natural, ao Evangelho e ao espírito cristão foram sempre os mais fortes, apontados pelos líderes contrários à servidão.
Na Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil o senso da fraternidade cristã borbulhava significativamente. Os constituintes eram pessoas de elevado nível cultural. Octávio Tarquínio de Sousa acentua: 'Quase todos tinham feito os seus estudos na Europa, estavam atentos aos sucessos políticos de lá e do continente americano, e, formando idéia mais ou menos clara dos fins de seu mandato, não eram estranhos aos reclamos e necessidades de seu país'. Pela edição fac-similar do Diário deste histórico conclave, se verifica que está presente D. José Caetano da Silva Coutinho, oitavo bispo e capelão-mor do Rio de Janeiro, dezenove sacerdotes, entre os quais o Pe. Belchior Pinheiro de Oliveira, um dos artífices dos acontecimentos que culminaram a 7 de setembro de 1822; Pe. Manoel Rodrigues da Costa, participante da Conjuração Mineira de 1789; Pe. José Custódio Dias, liberal radical; Pe. Antônio da Rocha Franco, vigário da Vara de Vila Rica; Mons. Francisco Muniz Tavares, um dos mentores da Revolução de 1817; Pe. Inácio de Almeida Fortuna, também comprometido com a insurreição pernambucana; Pe. José Martiniano de Alencar, cearense, teve parte ativa nos movimentos pela Independência; Pe. José Ferreira Nobre, paraibano, participante da Revolução pernambucana; Pe. Venâncio Henriques de Resende, de Pernambuco, abolicionista denodado, que também foi valente Revolucionário de 1817. Estes e muitos outros sacerdotes enciclopedistas se entregaram às lutas libertárias. Utilizaram-se do púlpito e da palavra escrita para divulgação de suas teses, entre as quais a libertação dos escravos, um dos múltiplos aspectos sociais de uma lide sem tréguas a favor dos direitos humanos. Segundo Francisco de Assis Barbosa, Diretor do Centro de Estudos Históricos da Fundação Casa de Rui Barbosa, 'o grupo social'... mais numeroso e aguerrido do que hoje se denomina intelligentzia, no Brasil de D. João VI até a maioridade de D. Pedro II, ao final da terceira década da centúria, era constituído pelos padres, adeptos do galicanismo, uns, defensores do jansenismo, outros, josefistas ou febronianos, mas todos tocados pelo enciclopedismo».
Não nos alongaremos na apresentação de outros testemunhos, visto que o assunto já foi explanado em PR 267/1983. Seria para desejar que os comentadores de episódios da
História da Igreja não repetissem simplesmente alguns chavões» cujo fundamento e documentação eles ignoram, mas procurassem munir-se do aparelhamento devido a afirmações de caráter científico.
Examinemos agora o caso de dois Papas citados por Tenório de Albuquerque.
3.2. Os Papas Clemente XIII (1758-1769) e Clemente XIV (1769-1774)
A respeito de tais Pontífices lê-se no livro em foco:
«Não se pode atribuir à Maçonaria a responsabilidade da morte, do assassínio de nenhum Papa. Entretanto pesam sobre os jesuítas acusações gravíssimas. Clemente XIII, diante das queixas contra a Companhia de Jesus, do procedimento dos jesuítas, resolveu suprimir a citada instituição.
Clemente XIV, sucessor de Clemente XIII, anunciou que ia devolver a paz à Igreja e restaurar o Cristianismo extinguindo a Companhia de Jesus. Cardeais, clero, monges e sobretudo os jesuítas, que eram os mais relapsos, levantaram-se contra a nobre intenção do papa, chegando um jesuíta a fixar, em pleno dia, na entrada principal do Vaticano, um cartaz que dizia: 'Rogai a Deus pelo Papa, que está em perigo de morte'.
Inquebrantável em sua decisão, apesar de saber a que se expunha, ao firmar a Bula, proferiu essas palavras proféticas: 'Firmo a minha sentença de morte com isto, mas obedeço à minha consciência'. Mandou prender o Geral dos jesuítas, padre Ricci, os seus assistentes e o secretário-geral no Castelo de Santo Angelo; substituiu o seu cozinheiro por um franciscano de inteira confiança, tomando grandes precauções para salvar-se da vingança jesuítica; tudo foi, porém, em vão; diz a história que uma beata incondicional dos jesuítas conseguiu, mediante uma cesta de figos envenenados, envenenar o Papa, fazendo-o passar por uma agonia lenta que durou três meses. Seu valor e serenidade acompanharam-no até a morte. Pouco antes de expirar, declarou:
'Bem sabia eu que me envenenariam, mas não julgava morrer de um modo tão lento e cruel' » (pp. 34s).
Detenhamo-nos sobre cada um dos dois casos aduzidos.
3.2.1. Clemente XIII
No tocante a Clemente XIII observemos:
No século XVII a Companhia de Jesus foi contestada por seus adversários, os jansenistas. Estes defendiam teses heréticas tanto em matéria de doutrina quanto no setor da pastoral, afirmando o rigorismo e a religião do medo. Os jesuítas, como pioneiros da fé da Igreja, se lhes opunham. Constituíam uma família religiosa numerosa, benemérita desde os seus primeiros anos de existência no século XVI e amplamente espalhada pelo mundo.
Acontece que a filosofia da época estava fortemente impregnada de racionalismo ou «iluminismo» - o que levava não poucos pensadores a combater os jesuítas simplesmente por serem baluartes da Igreja ou «a sentinela avançada da Cúria Romana», como dizia Frederico II da Prússia (1740-86) ; ao que Voltaire (1778) acrescentava: «Uma vez que tenhamos os jesuítas, a Infame[5] será nossa presa fácil».
Todavia deve-se reconhecer que alguns membros da Companhia de Jesus, em réplica à severidade dos jansenistas, cederam ao laxismo (probabilismo, em vez do
No século XVIII a situação se agravou, pois os jansenistas não cediam e não poucos chefes de Governo, a começar pelos de Espanha e Portugal, se puseram a mover campanhas contra a Companhia de Jesus, a ponto de pleitear a sua extinção. Foi em pleno contexto da controvérsia que o Papa Clemente XIII governou a Igreja.
Este Pontífice enfrentou o Marquês de Pombal, Sebastião de Carvalho e Mello, Primeiro-Ministro de Portugal, que era racionalista e anticlerical. Pombal pôs-se a banir os jesuítas de Portugal e das colônias, acusando os Religiosos de favorecer na América do Sul a rebelião dos indígenas contra os brancos. Clemente XIII rompeu relações diplomáticas com Portugal, mas não quis defender mais energicamente os jesuítas por receio de um cisma de Portugal em relação a Roma. Escreveu todavia a Bula Apostolicum Munus (7/01/1765), atendendo a solicitação de mais de duzentos bispos, Bula que advogava a causa dos jesuítas, como se depreende, por exemplo, do seguinte trecho:
"Declaramos, por espontânea vontade e por conhecimento seguro, que a Companhia de Jesus se caracteriza por elevado grau de piedade e santidade, embora existam homens que, depois de a ter desfigurado por maldosas interpretações, não recearam qualificá-la de Irreligiosa e ímpia, insultando assim da maneira mais ultrajante a Igreja de Deus" (citado por Fliche-Martin, Histoire de I'Eglise, vol. 19, Paris 1956, p. 43).
A resistência do Papa Clemente XIII às cortes régias da época valeram-lhe a hostilidade das mesmas, que foram desgastando cada vez mais a debilitada saúde do Pontífice. A luta contra os jesuítas era, em última análise, luta contra o próprio Papado. Em conseqüência, o Pontífice morreu na noite de 2 para 3 de fevereiro de 1768, vítima de ataque cardíaco, como se pode ler na obra de Ludwig von Pastor, «Geschichte der Paepste», vol. XVI, 1, pp. 955s. O mesmo historiador, cuja autoridade é reconhecida no assunto, observa em nota que o próprio Tanucci, incansável adversário da Companhia de Jesus e conselheiro político de Carlos III, rei de Nápoles, relegou para o domínio das fábulas a notícia de que o Papa fora envenenado pelos Jesuítas: «Il veleno supposto dato al Papa per opera dei Gesuiti è riuscito una delle solite favole romane» (carta dirigida ao Embaixador Azara, da Espanha, em Roma, em 26/02/1769, e citada por L. v. Pastor, ob. cit., p. 955, nota 7).
Vê-se assim que a autêntica história difere sensivelmente da versão transmitida por quem não é historiador profissional.
3.2.2. Clemente XIV
Quanto a Clemente XIV (1769-1774), cedeu finalmente à pressão contra a Companhia de Jesus, decretando a extinção da mesma, não porque tivesse alguma acusação contra os jesuítas, mas porque a existência da Companhia se tornava ocasião de grandes perturbações dentro e fora da Igreja, com ameaças de cisma por parte de alguns países católicos.
Faleceu aos 21 de setembro de 1774, depois de haver publicado o Breve «Dominus ac Redemptor» aos 8/06/1773, que suprimia a Companhia de Jesus. O Pontífice sofreu profundamente ao tomar tal atitude - o que parece ter acelerado o seu desenlace final. Quando Voltaire foi informado a respeito da extinção da Companhia, exclamou com grande riso: «Dentro de vinte anos não haverá mais Igreja!» Referem algumas fontes que uma das últimas frases de Clemente XIV foi precisamente a seguinte: «Cortei-me a mão direita!»
Após decretar a extinção da Companhia, o Papa se viu acometido por profunda angústia e pela idéia fixa de que o queriam envenenar: seu aspecto modificou-se, tornando-se magro e pálido; foi definhando aos poucos até morrer de diversas moléstias agravadas por depressão psíquica. O cadáver se deteriorou rapidamente, exalando mau cheiro.
Não causa surpresa que, após a morte ocorrida em tais circunstâncias, se tenha espalhado o rumor de que Clemente XIV faleceu envenenado. Todavia é de notar que o cadáver foi submetido a autópsia, que nada revelou. A fim de afastar definitivamente tal rumor, o Cardeal Rezzonico, Camerlengo, pediu aos dois médicos que acompanharam o Papa enfermo, e ao cirurgião que presenciou a necrópsia, escrevessem um relatório preciso sobre a moléstia e a morte de Clemente XIV. Os médicos firmaram com juramento seu testemunho contrário à hipótese do envenenamento. Ainda hoje se pode ler a Relazione ufficiale sulla morte del Papa, com a observação: «Niente veleno, affermano i due chirurgi di Pal azzo e Saliceti»[6].
A rápida deterioração do cadáver é explicada pelas diversas moléstias de que padecia o Pontífice: apresentava eczemas virulentos e persistentes na superfície do corpo, abcessos na boca, úlceras nas gengivas, semelhantes às do escorbuto, além de bronquite. Ora a medicina da época costumava ministrar doses de mercúrio para combater tais moléstias; este elemento deve ter contribuído para deteriorar o físico do Pontífice.
Os adversários dos jesuítas, entre os quais os jansenistas de Utrecht (Holanda), insistiram ainda durante algum tempo na divulgação da fantasista noticia de assassínio do Pontífice. Todavia a crítica histórica não vê como atribuir foros de veracidade a tal versão. Eis o que escreve o conceituado historiador contemporâneo Hubert Jedin em seu «Manual de Historia de
Assim se evidencia a inconsistência de quanto é alegado pela historiografia menos rigorosa.
São estes alguns comentários que a leitura da obra de A. T. Cavalcante de Albuquerque sugere a quem a quer aprofundar.
5. Conclusão
O livro é uma apologia da Maçonaria regular, que não leva em conta os abusos cometidos pela Maçonaria irregular (anticristã). Ao tocar em assuntos históricos, repete «chavões» sem exercer o devido espírito crítico. Além do mais, sugere um certo relativismo doutrinário, que não é aceitável quando se trata das verdades da fé.
Não queremos negar pontos positivos apresentados pelas Constituições da Maçonaria e pela vivência de membros desta. Mas julgamos que não se podem silenciar os elementos atrás mencionados, a fim de exaltar a Maçonaria numa atitude preconcebida e infiel à realidade histórica.
Bibliografia
BIHLMEYER-TUECHLE, História da Igreja. Vol. 3, Ed. Paulinas, São Paulo 1965.
DANIEL-ROPS, L'ère des grande craquements. Paris 1958.
FLICHE-MARTIN, Histoire de I'Eglise, vol. 19, Paris 1955.
JEDIN, H., Manual de Historia de
KLOPPENBURG, B., A Maçonarla no Brasil. Ed. Vozes, Petrópolis 1956.
PASTOR, L. v., Geschichte der Paepste, Vol. XVI, 1 e 2. Freiburg im Breisgau 1932.
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NOTAS:
[1] Gráfica Editora Aurora Limitada, Rio de Janeiro, 7" ed., sem data, 160 x
[2] O deísmo é o sistema filosófico que admite Deus reconhecido tão somente a partir da razão natural. - Ao contrário, o teísmo professa a crença em Deus que se revelou através dos Patriarcas e Profetas bíblicos.
[3] Entre os Mandamentos dos Sábios maçônicos lê-se precisamente o seguinte, reproduzido por T. de Albuquerque à p. 76. - "Procura a Verdade. Sê justo".
[4] Em nossos dias, dada a nítida distinção entre Igreja e Estado, não seria possível admitir insegurança, por parte dos clérigos, no tocante aos seus deveres eclesiásticos. O fato, porém, pode ter ocorrido nos tempos do regalismo ou do padroado.
[5] A Infame = a Igreja Católica, no pensamento de Voltaire. (Nota do autor).
[6] "Nada de veneno, afirmam os dois cirurgiões di Palazzo e Saliceti".
Maçonaria: mais uma vez igreja e maçonaria
Este documento da S. Congregação para a Doutrina da Fé foi estudado pelo episcopado nacional reunido na sua 14ª Assembléia Geral em Itaici (SP) de 19 a 26 de novembro de 1974. Alguns bispos manifestaram então o desejo de esclarecimentos sobre dois pontos que lhes pareciam capitais a fim de poderem aplicar a nova orientação da Igreja concernente aos maçons:
1. Qual o critério a usar-se para se verificar se uma associação maçônica realmente não conspira contra a Igreja: bastará o depoimento de algum ou de alguns dos seus membros, ou será necessária uma atitude oficial da própria Loja?
2. Que sentido e extensão devem ser dados à expressão «maquinar contra a Igreja»?
Estas duas perguntas foram apresentadas à S. Congregação para a Doutrina da Fé, com o pedido de que se pronunciasse oficialmente sobre tão delicado assunto. A resposta veio com a data de 12/03/75 através da Nunciatura Apostólica em Brasília, tendo o seguinte teor:
"Ao ítem 1: Seria talvez desejável (mas certamente não suficiente e não de se esperar) uma declaração pública por parte da associação em questão, na qual se dissesse que não entra nos intentos dela combater a Igreja. Parece, entretanto, que se possa dar fé àqueles que, inscritos há anos na maçonaria, solicitam espontaneamente serem admitidos aos sacramentos (o que lhes era antes negado por esse motivo), declarando - 'onerata ipsorum conscientia' - que a associação (Loja) na qual estão inscritos não persegue e não tem mais exigido deles compromissos contrários à sua reta consciência cristã.
Não parece, por outro lado, conveniente que os Bispos façam, ao menos na atual situação dos fatos, publicamente declarações sobre esta ou aquela associação.
Ao ítem 2 : Da frase ‘maquinar contra a Igreja’ pode-se dizer, de modo geral, que se deva referir a ‘delitos’ contra a doutrina, as pessoas ou as instituições eclesiásticas; note-se que isso diz respeito à associação como tal e não a cada membro tomado singularmente".
Destas declarações resulta que
1) Quando se trata de um maçom que já há anos está matriculado na Maçonaria e quer voltar à comunhão da Igreja, é o próprio interessado que fornece aos Srs. Bispos e sacerdotes as indicações necessárias sobre a orientação da sua Loja frente à Igreja Católica. Supõe-se que conheça por longa experiência as diretrizes filosófico-religiosas da Loja. O maçom deverá fornecer as mencionadas indicações com sinceridade, de modo a assumir diante de Deus a responsabilidade das suas declarações; desde que procure a Deus nos sacramentos da Igreja, procure-O com sinceridade, pois, se é possível enganar aos homens (pastores da Igreja), a Deus não se pode enganar.
A declaração feita pelo irmão maçom há de ser corroborada pelas atitudes públicas da Loja a que pertence; se esta realmente não dá testemunho de combate à Igreja, os pastores da Igreja poderão prestar crédito ao declarante.
Ainda que um ou mais membros de determinada Loja afirmem a índole meramente humanitária (e não anti-religiosa) dessa Loja, não convém que os Srs. Bispos em público dêem testemunho de apoio ou solidariedade a tal Loja... Esta recusa há de ser entendida no nosso atual contexto histórico: a Maçonaria está muito diversificada; a seu respeito ainda há opiniões divergentes, de tal modo que o abono público dado por um Bispo a determinada Loja poderia provocar mal-entendidos e discórdias desnecessárias.
2) Verifica-se que o texto-resposta de Roma não trata dos candidatos que ainda não pertençam à maçonaria e nela queiram ingressar. Fica aberto então o problema: quem
Valerá o testemunho daqueles que, já tendo alguns anos de Loja e sendo católicos em comunhão com a Igreja, atestam a inocuidade de tal Loja? Ou bastará o contato inicial do candidato com a respectiva Loja para que possa atestar legalmente a inocuidade da mesma? - A resposta de Roma não se pronuncia a respeito. Parece que a experiência dos maçons mais experimentados e católícos poderia legitimar o ingresso de candidatos católicos na respectiva Loja. Ao contrário, a pouca experiência dos iniciantes na Loja maçônica não parece suficiente para tanto.
3.) Não trama contra a Igreja aquela Loja que não agride publicamente a doutrina oficial, as pessoas ou as instituições da Igreja. Por conseguinte, não é necessário haja «complô» secreto ou planejamento de ação hostil.
O texto de Roma responde empregando a palavra «delitos» em sentido pregnante, ou seja, no sentido que o Direito Canônico atribui a este vocábulo. Ora no Direito Canônico delito é a violação exteriorizada e moralmente imputável de uma lei eclesiástica, violação à qual se prende uma sanção canônica determinada ou a ser determinada. Por exemplo, impugnar publicamente a doutrina oficial da Igreja a respeito do casamento ou do direito à vida vem a ser o mesmo que defender uma heresia; isto é delito no sentido do Direito Canônico.
Se uma Loja realmente não comete delitos do teor acima enunciado, mas algum de seus membros os pratica, não se estenda à Loja inteira a qualificação canônica que toca a tal de seus membros; pode um maçom ser contrário à Igreja não pelo fato mesmo de ser maçom, mas em virtude da sua filosofia pessoal. Não se diga, pois, que uma Loja maquina contra a Igreja se as suas programações são inócuas, mas algum de seus membros é anticristão no seu foro pessoal. Todavia é certo que uma Loja de programas sadios pode voltar-se contra a Igreja pelo fato de que seus membros anticatólicos queiram influir decisivamente na orientação dessa Loja; a Loja então poderá tornar-se anticatólica enquanto estiver sujeita à influência (talvez momentânea) deste ou daquele de seus componentes anticatólicos.
Em suma, estes dados mostram que a questão das relações entre a Maçonaria, os maçons e a Igreja Católica ainda é complexa e delicada. Todavia não é questão fechada ou insolúvel. Pode-se admitir que, preenchidas as condições enunciadas e tomadas as necessárias cautelas, um maçom de formação católica pertencente a uma Loja inócua à Igreja freqüente os sacramentos e pertença à comunhão eclesial, sem deixar de ser maçom.
Estêvão Bettencourt O.S.B.
Maçonaria: mais uma vez a maçonaria
A bem da verdade, julgamos oportuno observar o seguinte:
PR não tem tomado iniciativas próprias nem proposto alguma teoria particular no tocante às relações da Igreja com a Maçonaria. Todavia em seu n° 179/1974, pp. 415-426 a nossa revista publicou e explicitou, com fidelidade, um documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (sediada em Roma) datado de 19/07/74. Nesse documento a S. Igreja declarava:
1)Continua em vigor o cânon 2.335, que censura com excomunhão os fiéis católicos que entrem na Maçonaria ou em outra sociedade que trame contra a Igreja.
2) Este cânon há de ser interpretado em sentido estrito. Ele atinge a Maçonaria na medida em que esta trama contra a Igreja, e precisamente por este motivo. Isto quer dizer: se alguma Loja Maçônica não trama contra a Igreja (o que outrora não se ouvia dizer e hoje é dito vez por outra), o fiel católico que nela ingresse não cai sob excomunhão.
O motivo de tal atitude de Roma é o fato de que muitos bispos, sacerdotes e fiéis leigos afirmam haver hoje em dia Lojas Maçônicas que não tramam contra a Igreja, mas são neutras do ponto de vista religioso.
A Santa Sé não quis dirimir a questão: há ou não há Lojas Maçônicas inócuas à fé católica e à S. Igreja? Não lhe era possível fazer isto, dada a complexidade do assunto, nem era sua intenção proceder a pesquisa de tal gênero, que seria sempre incompleta. Mas o que interessava à S. Congregação para a Doutrina da Fé era levar em conta a possibilidade (apontada em casos concretos e definidos) de haver Lojas Maçônicas inócuas. Se as há (não é Roma quem dirime a questão), é compreensível que as autoridades romanas não desejem excomungar quem a elas se filie (o que seria injusto e antípastoral).
Perguntará alguém: mas como pode um fiel católico saber se tal ou tal Loja é ou não infensa à Igreja, visto que a Maçonaria é sociedade secreta, que só aos poucos revela os seus segredos?
A esta pergunta (formulada pelo próprio episcopado brasileiro reunido em Itaici, SP, de 19 a 26 de novembro de 1974) a S. Congregação para a Doutrina da Fé respondeu aos 12/03/1975, declarando:
"Seria talvez desejável (mas certamente não suficiente e não de se esperar) uma declaração pública por parte da Loja em questão, na qual se dissesse que não entra nos intentos dela combater a Igreja. Parece, entretanto, que se possa dar fé àqueles que, inscritos há anos na Maçonaria, solicitam espontaneamente ser admitidos aos sacramentos (o que lhes era antes negado por esse motivo), declarando - 'onerata ipsorum conscientia' - que a Loja na qual estão inscritos não persegue e não tem mais exigido deles compromissos contrários à sua reta consciência cristã.
Não parece, por outro lado, conveniente que os Bispos façam, ao menos na atual situação dos fatos, publicamente declarações sobre esta ou aquela Loja".
Esta resposta diz respeito aos maçons que têm anos de militância na Maçonaria e podem atestar, por experiência pessoal, o que a sua Loja pensa e faz. A esses maçons que peçam os sacramentos da Igreja, alegando inocuidade (sem que nada desabone esta afirmação), pode-se dar crédito.
Quanto aos católicos que ainda não pertencem à Maçonaria e nela desejam entrar, para que o possam fazer de consciência tranqüila, procurem previamente certificar-se dos rumos filosóficos adotados pela Loja a que se candidatam. Procurem chegar à possível clareza, usando de sinceridade para consigo mesmos, para com a Igreja e para com Deus. Se se lhes toma evidente que em tal Loja não há intenções anticatólicas, entrem...; estarão obrigados, em consciência, a deixar a Loja, sob pena de excomunhão, no dia em que adquirirem a certeza de que a respectiva Loja agride, de algum modo, a Igreja (sua doutrina, suas pessoas ou suas instituições). Não é necessário que haja complô secreto ou planejamento de ação hostil para que os membros de tal Loja sejam passivos de excomunhão. - A resposta de Roma datada de 12/02/1975 foi abordada em PR 188/1975, pp. 372-375.
É este o teor das declarações mais recentes de Roma sobre a Maçonaria. Como se vê, tais documentos nada definem a respeito da Maçonaria nem implicam na retratação de algum cânon da Igreja (não foi abolido o cân. 2.335). Apenas explicam o sentido de tal cânon em nossos dias: esta lei da Igreja foi redigida numa época (1917) em que se supunha que todas as Lojas maçônicas tramavam contra a Igreja; por isto não se podia admitir sequer a hipótese de se fazer alguma distinção no tocante à aplicação universal do cânon 2.335. Ora hoje em dia se diz haver Lojas inócuas; a Santa Sé, sem julgar esta notícia, apenas declara que, no caso de se dar tal hipótese, o cânon não tem aplicação (como é compreensível). Estamos diante de assunto complexo, no qual a Igreja nada quis propor em termos dirimentes; apenas tencionou levar em consideração situações novas, na medida em que estas realmente existam.
De resto, a temática abordada pelos documentos de Roma e por PR se limitava estritamente à questão: estará em vigor a excomunhão para todos os fiéis católicos que entrem na Maçonaria? - Da resposta de Roma e dos artigos de PR (cujo teor foi atrás recordado) não se segue a conveniência de se celebrar a S. Missa em dia aniversário de alguma Loja maçônica. Este outro aspecto da questão é independente do que foi abordado em PR; depende de «decisão local». Veja-se a propósito a nota colocada à p. 112 deste fascículo.
PR sempre procurou ser fiel à Igreja e ao público que confia na linha doutrinária adotada por esta revista. Manter-se-á firme neste propósito. De resto, a redação deste periódico será sempre grata às observações ou sugestões que lhe venham da parte dos amigos, no intuito de melhorar constantemente o serviço que a revista pode prestar aos estudiosos católicos e não católicos.
Estêvão Bettencourt O. S. B.
Maçonaria: maçonaria: um pouco de história
Em síntese: Nos países latinos da Europa e da América a Maçonaria assumiu o qualificativo de Irregular, porque abandonou suas tradições religiosas e se tornou anti-religiosa, especialmente contrária à Igreja Católica. O artigo que se segue, apresenta um pouco da história da perseguição movida pelos Governos maçons contra a Igreja no México, onde morreram vários mártires, inclusive o Pe. Agustín Pro S.J. Também no Brasil do tempo do Império a Maçonaria, instalada no Governo, perseguiu os Bispos de Olinda-Recife e Belém do Pará, tornando-se então benemérito D. Frei Vital, trazido de Olinda para o Rio, onde esteve encarcerado por resistir às injunções do Governo maçônico em assuntos de ordem interna da Igreja.
***
Reproduzimos, a seguir, artigo sobre a Maçonaria publicado no jornal belohorizontino O LUTADOR, edição de 15 a 21 de junho de 1997, p. 8. São páginas que revelam aspectos pouco divulgados da Maçonaria, aptos a explicar o difícil diálogo entre tal sociedade secreta e a Igreja. Agradecemos à Redação daquele periódico o direito de reprodução.
RELAÇÃO NADA CORDIAL
Tudo o que é secreto, desperta interesse.
Tudo o que é proibido, seduz. O que parece beneficente, se faz simpático.
Será por isso que tantos católicos ainda têm dúvidas sobre a "condenação" da maçonaria e recebem com desconfiança as advertências da Mãe-Igreja? Seja como for, o exame das relações entre cristãos e maçons na História do Brasil, bem como no México, traz à luz os sinais do ódio contra a Igreja de Jesus Cristo. Bispos presos, padres fuzilados, centenas de leigos assassinados a sangue frio... Ao menos naquele tempo e naquelas circunstâncias.
MATANDO O ESCORPIÃO
Que é a Maçonaria? Uma sociedade secreta. Qual o seu objetivo? Tomar o poder. Como provar essa afirmação? Pelo exemplo mexicano. A 5 de fevereiro de 1917, foi aprovada a Constituição do México, maçônica, ainda em vigor no México, após 80 anos. O presidente era Venustiano Carranza, também ele maçom, como todos os demais que se elegeram até hoje.
A Constituição restringia a liberdade religiosa, considerava crime o ensino religioso e a profissão dos votos. Ao mesmo tempo, desapropriava sumariamente os bens eclesiásticos, negando personalidade jurídica à Igreja e encerrando-a no âmbito das sacristias. Os sacerdotes foram privados de seus direitos políticos (votar e ser votado, herdar, possuir bens etc.), mas deviam prestar serviço militar.
Além disso, o Governo determinava o número de sacerdotes permitidos em cada localidade e decretava quem estava habilitado ao ministério. Só mexicanos de nascimento podiam ser sacerdotes. A partir de 1926, com a 'Lei Calles', Vera Cruz tinha um sacerdote `autorizado' para cada 100 mil habitantes. Em Sonora, foram fechadas todas as igrejas. Os sacerdotes sumariamente eliminados. Segundo Fidel González, em artigo na revista '30 DIAS' (ago/93), `a violência contra a Igreja era dirigida sobretudo pelas lojas maçônicas e por um de seus grupos, o de Sonora, que alcançou com Calles (presidente de 1924 a 1928) o controle total do poder'.
Álvaro Obregón, um dos responsáveis diretos pelo assassinato do Pe. Agustin Pro (herói do conhecido livro Despistou Mil Secretas), declarou em discurso público: `Quando uma formiga nos pica, não procuramos a formiga para matá-la; pegamos um balde de água fervente e a derramamos no formigueiro. Quando um escorpião nos pica, nós o matamos; pegamos uma lanterna para procurá-lo e, se encontrarmos outro escorpião, não o deixamos viver, porque não foi ele que nos picou; nós o matamos, porque pode nos envenenar'.
UMA LEGIÃO DE MÁRTIRES
Em 1992, o Papa João Paulo II beatificou Miguel Agustin Pro e os 22 sacerdotes mártires mexicanos. Seu crime? Exercer secretamente o seu ministério, confessando os penitentes, ungindo os enfermos e celebrando a Eucaristia. São mártires in odium fidei (por ódio à fé). Mas também o foram in odium Ecclesiae, (por ódio à Igreja), pois o objetivo do Governo maçom que mantinha o poder no México era não só erradicar a Igreja Católica, mas eliminar da vida nacional o próprio acontecimento cristão.
O episcopado tentou reagir desde o início. Uma Carta Pastoral dos Bispos mexicanos apontava sem medo o projeto governamental de 'aniquilar o catolicismo', entranhado na alma do povo. 0 Governo reagiu com decretos que visavam a ‘mexicanizar' a Igreja, tal como fizeram os países comunistas (China, Vietname etc.), que favoreceram o surgimento de uma `igreja nacional', `patriótica', sem ligação hierárquica com Roma.
A 31 de julho de 1926, os Bispos suspenderam todas as celebrações no país. Explodia a perseguição contra o clero e as lideranças leigas. Lares invadidos, interrogatórios, tortura e julgamentos de fachada. Dezenas de milhares de católicos (50 mil homens, segundo alguns historiadores) sublevaram-se empunharam armas. Começava a guerra dos `cristeros', que terminaria com o acordo de paz em junho de 1929. Embora sofrendo com a falta de armas, os 'cristeros' estavam em seu apogeu e dominavam um vasto território. Os Bispos aceitaram um acordo com o Governo (as circunstâncias não são claras até hoje) e pediram aos fiéis para interromper a luta e cessar fogo. Tão logo as armas foram entregues, começou a matança. A Igreja tinha sido traída.
Dolores Ortega, 85 anos, remanescente de uma família de ‘cristeros', declara: `Todos sabiam que era um truque, que o Governo nunca respeitaria o seu compromisso. Todos o sabiam, nós da Liga (para a Defesa da Liberdade Religiosa) e também os 'Cristeros'. Quando nos pediram para interromper a luta, sentimos uma dor surda, uma angústia mais forte do que a provação que a guerra exigia'. Mesmo assim, obedeciam por fidelidade...
‘PRENDAM O BISPO!’
1872. Agonizava a monarquia no Brasil. As forças republicanas engrossavam suas fileiras. No Rio de Janeiro, o Visconde do Rio Branco - Grão-Mestre do Grande Oriente do Vale do Lavradio! - preside ao Gabinete. Em clima de rivalidade, Saldanha Marinho era o Grão-Mestre do Grande Oriente do Vale dos Beneditinos, ligado à maçonaria francesa.
Aos 27 anos de idade, Dom Vital é nomeado Bispo de Olinda e toma posse a 24 de maio de 1872. Ele escreve: “Até 1872, a Maçonaria no Brasil respeitou a religião católica.
Introduziu-se no clero, nos conventos, nos cabidos, nas confrarias. Mas quando teve um Grão-Mestre à frente do Governo nacional, julgou oportuno atacar a Igreja’ (citado por Antônio Carlos Villaça, in História da Questão Religiosa no Brasil, pág. 7.)”.
De fato, antes de chegar a Olinda, o novo Bispo já sofria os ataques da imprensa maçônica. Entre outras provocações, o anúncio de Missas para comemorar o aniversário de uma loja maçônica. Dom Vital impôs sua autoridade sobre o clero, proibindo celebrações e atos interditados pelo Direito Canônico. Alguns padres filiados à maçonaria obedeceram ao superior. Outros se calaram. Mas houve rebeldes, que foram suspensos das ordens sacras.
Quando a suspensão atingiu o Deão Joaquim Francisco de Faria (diretor do Ginásio Pernambucano, ex-vigário capitular e chefe do Partido Maçônico Liberal!), este organizou uma reunião popular e insuflou a multidão a atacar o Colégio S. Francisco Xavier, dos jesuítas. Móveis quebrados, capela destruída, oito jesuítas agredidos. A seguir, o jornal católico 'União' é invadido e queimado. Numa demonstração de força, a Maçonaria publicou a lista dos maçons que eram sacerdotes ou membros de confrarias religiosas.
Quando D. Vital lançou o interdito canônico sobre as confrarias envolvidas e se negou a obedecer à intimação do Visconde do Rio Branco para o levantar, foi acusado perante o Supremo Tribunal, preso e recolhido ao Arsenal da Marinha do Recife. Era o dia 2 de janeiro de 1874. O Governo afastara previamente do tribunal todos os juizes considerados católicos. Sem perder a firmeza e a dignidade, Dom Vital foi condenado a quatro anos de prisão com trabalhos forçados. A 12 de março, sua pena foi comutada em prisão simples, na Fortaleza de S. João, no Rio de Janeiro.
PRINCÍPIOS INCOMPATÍVEIS
O tempo passa. Fica a memória. O último documento da Igreja sobre o assunto foi produzido pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, em 26/11/1983, e assinado pelo Cardeal Joseph Ratzinger, que os maçons consideram como seu inimigo figadal. A Declaração afirma: 'Permanece imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja, e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave, e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão'.
Em 1993, a revista de teologia Atualização (n°s 241 e 242) publicou excelente artigo de D. João Evangelista Martins Terra, S.J., sobre a ação da Maçonaria no Brasil, que tem ricos subsídios para os interessados no tema. Ali, são lembrados os motivos da incompatibilidade entre catolicismo e maçonaria:
- O relativismo e o subjetivismo maçônico negam todo dogma.
- Exclui-se o conhecimento objetivo da verdade.
- A verdade divina é inatingível, segundo os maçons.
- A maçonaria é ‘deísta’: seu ‘deu’ é neutro, impessoal, nada parecido com o Pai e Senhor dos cristãos.
- Não se admite nenhuma ‘revelação’ de Deus.
- O conceito maçônico de 'tolerância' rejeita o magistério da Igreja.
- Não há lugar para a ação da graça divina no crescimento moral do homem.
- O maçom assume compromissos secretos, para a vida e para a morte, incompatíveis com a liberdade cristã.
Isto não significa que todos os maçons brasileiros tenham esses sentimentos anticlericais, anti-Igreja, anticristianismo. Muitos são elementos de boa vontade, atraídos para a maçonaria pela camaradagem, o que parece solidariedade, filantropia. Muitos fazem número, dão prestígio à Loja. Mas não sabem todos os segredos. Não entendem a filosofia maçônica. É a esses que a Igreja quer esclarecer”.