Páginas

Mostrando postagens com marcador Protestantismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Protestantismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Protestantismo: quem são os Batistas?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 007/1957)


«Quisera saber quem são os Batistas? Serão discí­pulos de São João Batista?»

Os Batistas constituem uma das seitas protestantes hoje em dia mais ativas (haja vista a diferença entre Igreja e Seita indicada em «Pergunte e Responderemos» 6 1957 qu. 8).

Os Batistas em geral não têm idéias muito claras sobre as origens do seu credo religioso. O fato, porém, é que não se pren­dem nem a São João Batista nem a discípulos do Precursor; não há em absoluto documentos nem indícios de continuidade.

Ao contrário, claros testemunhos da história apontam os inícios do movimento batista no séc. XVI d. C.

Contemporaneamente a Lutero, um grupo de cristãos, che­fiado por Thomas Münzer, Balthasar Hübmaier, George Blau-rock, Ludwig Hoetzer, julgava que o «Reformador» não ia su­ficientemente longe nos seus propósitos. Na Alemanha e na Suíça começaram então a preconizar uma Igreja, em grau má­ximo, espiritual, destituída de hierarquia visível e constituída exclusivamente pela adesão consciente dos homens à Palavra de Deus. O sinal característico dessa nova Igreja seria o ba­tismo a ser administrado aos adultos, não às crianças, de sorte que os membros do grupo batizavam de novo os fiéis que lhes aderiam (donde o nome de Anabatistas, Rebatizadores, que lhes foi dado).

O movimento anabatista sofreu forte represália por parte de Lutero, Zwingli e dos príncipes alemães. Desencadeou revol­tas fanáticas, das quais a mais famosa é a dos camponeses, cujo chefe, Thomas Münzer, foi decapitado em 1525. Não pou­cos anabatistas, fugindo à perseguição, começaram a propagar suas idéias na Itália, na Boêmia, na Morávia, na Alsácia, nos Países-Baixos, na Escandinávia, na Inglaterra, subsistindo até hoje em pequenos grupos.

Mais importantes são as ramificações que procederam do tronco anabatista. Eis, aliás, uma das características ou quase-leis do movimento protestante: Lutero se atribuiu o direito de derrogar à Tradição, para fazer prevalecer suas intuições reli­giosas individuais; em conseqüência, é imitado periodicamente por homens que se julgam iluminados à semelhança de Lutero, e então se separam do bloco luterano ou da seita protestante a que pertencem, para dar origem a novo tipo de Cristianismo baseado no senso subjetivo do fundador.

Conhecem-se hoje, como derivações do grupo anabatis­ta, as seitas dos Menonitas (de Meno Simons, † 1559), dos Irmãos Hutterianos (de Tiago Hutter), a Igreja dos Irmãos nos Estados Unidos da América do Norte, a Igreja dos Irmãos Evangélicos Unidos e a Igreja Batista, de todas a mais nume­rosa.

Os Batistas têm por fundador o inglês John Smyth (†1617). Foi primeiramente pastor anglicano. Movido por es­pírito reacionário, que agitava não poucos cristãos de sua pá­tria, queria uma reforma ainda mais radical que a anglicana; em particular, não se conformava com a organização hierár­quica (episcopal) e a liturgia da Igreja Anglicana, que ele jul­gava supérfluas. Por isto formou em Gainsborough uma pe­quena comunidade dissidente do Anglicanismo, no ano de 1604; foi, porém, obrigado a se exilar com seus companheiros, indo ter a Amsterdan (Holanda), onde o calvinismo predominava. No degredo viveu em casa de um padeiro menonita, que o per­suadiu de que era inválido o batismo conferido às crianças (tese anabatista!). Smyth então administrou a si mesmo um segundo batismo, de cujo valor, porém, começou em breve a du­vidar. Em conseqüência, seus companheiros por ele convenci­dos da tese anabatista, o expulsaram da comunidade; Smyth não conseguiu ser admitido nem mesmo entre os menonitas, aos quais pedira acolhimento. Em 1612, um grupo de seus dis­cípulos voltou à Inglaterra, e lá fundou a primeira Igreja dita Batista (não mais Anabatista), também chamada «dos Batistas gerais», porque, contrariamente à doutrina calvinista, en­sinava que Cristo pela cruz salvou todos os fiéis. Outro grupo se formou, pouco depois, dito «dos Batistas regulares ou parti­culares»; com efeito, em 1641, outra pequena comunidade de dissidentes do Anglicanismo em Londres se convenceu da tese anabatista; mandou então um de seus membros, Ricardo Blount, a Rijnsburg, na Holanda, a fim de pedir o batismo de adulto à seita de Dompelaers (cisão menonita) e levar à In­glaterra o «verdadeiro batismo». Blount desincumbiu-se da sua missão; voltando em 1641, rebatizou por imersão (única forma de batismo reconhecida pela seita) 55 membros da co­munidade de Londres; aceitou do calvinismo holandês a dou­trina de que Cristo salva somente os predestinados; donde o nome de «Batistas particulares» que lhes coube.

Hoje em dia contam-se cerca de vinte seitas batistas, que em 1905 se uniram de maneira um tanto vaga na «Liga Mun­dial Batista»; são, entre outros, os batistas calvinistas, os b. congregacionalistas, os b. primitivos, os b. do livre pensamento, os b. dos seis princípios (porque aceitam como único funda­mento da fé e da vida cristã os seis pontos mencionados em Hebr 6, 1s; arrependimento, fé, batismo, imposição das mãos, ressurreição dos mortos, juízo eterno), os b. tunkers, os b. campbellitas, os batizantes a si mesmos, os b. abertos, os b. fe­chados, os b. do sétimo dia, etc.

Cada comunidade batista é independente de qualquer au­toridade visível, seja eclesiástica, seja civil; rege-se diretamen­te «por Jesus Cristo e pelo Espírito Santo», que agem na assem­bléia; não há, pois, hierarquia nem jurisdição eclesiástica. To­do o poder de governo reside na assembléia dos fiéis, que elege os que por ela respondem (pastores e diáconos).

Em sua doutrina, os batistas seguem teses calvinistas: Deus predestina diretamente não só para a glória, mas tam­bém para a condenação eterna; a justificação ou a graça é obtida mediante a fé; não apaga, mas recobre o pecado; os sacramentos (Batismo e Ceia) não são meios comunicadores da graça, servem apenas para corroborá-la em quem os recebe com fé. Como em geral no Protestantismo, a Bíblia é tida como única fonte de doutrina.

Entre os membros das comunidades batistas, nota-se fer­vor, infelizmente, porém, demais apoiado no subjetivismo, que orienta a religiosidade protestante e leva, consciente ou incons­cientemente, os seus adeptos a rejeitar o próprio Cristo em nome do Cristo!

D. Estêvão Bettencourt O. S. B.



1 comentário:



Instituto Trinitariano do Caminho disse...

Durante a Reforma Protestante houve a ala chamada REFORMA RADICAL que envolvia vários grupos independentes e heréticos outros não. Os batistas procuraram a reforma onde os reformadores famosos não tiveram peito de ir, isto é, até a ética do Mestre. Os reformadores protestantes procuraram uma reforma que ia até aos chamados PAIS da Igreja, especialmente St. Agostinho. Tantos os heréticos como os verdadeiros batistas foram estigamtizados como gente desordeira e fanática, mas os batistas(da Europa Continental)se manifestaram através da Conferência de Schleitheim em 1527 demonstrando suas posições quanto ao batismo cristão e à guerra.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Protestantismo: e o cisma dos Ortodoxos?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 010/1958)


«Como se explica o cisma dos cristãos chamados 'ortodoxos'?


Quais os pontos de doutrina em que diferem dos católicos?»

O grande cisma oriental, que chegou à sua fase definitiva no séc. XI, não é senão o último episódio de longo período da história, em que se defrontaram duas mentalidades — a grega e a latina — a inspirar de maneira notável o curso dos acon­tecimentos. As características próprias de gregos e latinos foram tomando, no decorrer dos séculos, tal vulto que provo­caram a ruptura religiosa (ruptura, porém, que não impede se reconheça a verdadeira Igreja de Cristo).

Importa-nos, por conseguinte, antes do mais, esboçar a índole de mente e conduta dos cristãos orientais e ocidentais nos primeiros séculos. A seguir, veremos como a ruptura se deu e quais os traços que a caracterizam hoje em dia.

1. Divergências de índole e de comportamento

1. O Imperador Diocleciano no fim do séc. III d. C. dividiu o Império Romano em duas partes: a oriental e a ocidental. Esta divisão concorreu para acentuar diferenças de índole e cultura próprias dos habitantes do Império, diferenças que se poderiam discriminar como se segue:

a) Quanto ao caráter: os gregos eram dotados de notável engenho especulativo; por isto amavam as pesquisas filosóficas e teológicas sutis, assim como tudo que há de belo (as letras, as artes e as disciplinas liberais). Os romanos, ao contrário, eram os amigos do direito, da organização e da vida prática. Em conseqüência, os gregos facilmente poderiam exagerar seu ponto de vista e desprezar os ocidentais como sendo homens alheios aos valores do espírito, dados unicamente à guerra à barbárie ou aos elementos contingentes da vida. Os romanos, por sua vez, poderiam acusar os gregos de ser tagarelas, incons­tantes, pouco fiéis na sua conduta prática («graeca fides, nulla fides»); cf. At 17,21.

No plano estritamente cristão, verifica-se que os fiéis orientais desde cedo manifestaram nítida tendência à especula­ção teológica e à argumentação dialética, ao passo que os ocidentais voltavam sua atenção de preferência para questões de ordem missionária e pastoral.

b) Quanto à língua e à cultura em geral: os primeiros documentos de Roma cristã foram redigidos em grego; depois do séc. IV, porém, esta língua quase desapareceu do Ocidente, cedendo ao latim, ao passo que no Oriente o latim, desde o Imperador Justiniano († 565), se tornou quase desconhecido e desprezado.

Significativo é o fato de que o Imperador Leão III (717-741) concedeu aos mais altos dignitários do Império os títulos latinos de «Dominus, Caesar, Augustus», tradicionalmente reservados a Sua Ma­jestade, para tomar as designações gregas de «Autokrator, Basileus». Por seu lado, o arquidiácono latino Gregório (depois Papa São Gre­gório Magno, † 604) no fim do séc. VI passou cinco anos na corte de Constantinopla como legado papal, sem aprender o grego; embora fosse homem de valor intelectual, julgava que isso não valia a pena...

Ora a ignorância mútua das línguas muito contribuía para que as comunicações entre Oriente e Ocidente se tornas­sem mais raras e difíceis, dependentes frequentemente de cicerones que não eram fiéis (assim consta que as atas do concílio ecumênico de Nicéia II, 787, foram mal traduzidas do grego para o latim; já que a versão não distinguia devida­mente entre os conceitos de adoração e veneração, os latinos hesitaram em aceitar tais atas).

c) Quanto à liturgia e à disciplina eclesiástica: seguiam-se, por vezes, tradições diferentes no Oriente e no Ocidente, no tocante, por exemplo, ao calendário de Páscoa, aos dias de jejum (o sábado era dia em que os latinos jejuavam, e os gregos não), à matéria do sacramento da Eucaristia (pão sem fermento no Ocidente; pão fermentado no Oriente), ao celibato do clero. . . Essas tradições por não afetarem o dogma, mas questões acidentais, eram perfeitamente aceitáveis; have­riam, porém, de tornar-se motivo de debates em tempos de controvérsia.

2. Leve-se em consideração outrossim a mentalidade que se foi formando em Bizâncio, ou seja, o chamado «bizantinismo».

Em 330 Constantino elevava a cidade de Bizâncio, no Bósforo, à dignidade de capital do Império Romano do Oriente ou de «Nova Roma». Esta fora até então uma localidade insignificante, que muito sofrera por parte dos Imperadores Romanos. Do ponto de vista eclesiástico, Bizâncio também carecia de significado; a sua comunidade cristã não fora fun­dada por algum dos Apóstolos (como as de Jerusalém, Antio­quia, Alexandria, Roma.); o primeiro bispo que se lhe conhece, Metrófanes, é do início do séc. IV (315-325) e sufragâneo do metropolita de Heracléia na Trácia.

Compreende-se então que, o prestígio que Bizâncio não possuía por suas tradições, os bizantinos o quisessem obter por suas reivindicações de índole civil e religiosa. De modo geral, ia-se tornando difícil aos bizantinos o reconhecimento da autoridade religiosa de Roma, já que todo o esplendor da corte imperial se havia transferido para Constantinopla.

Acresce que os Imperadores bizantinos, recordados talvez do título de «Pontifex Maximus» que lhes convinha nos tempos do paganismo, se ingeriam demasiadamente em questões eclesiásticas, intervindo, por exemplo, na nomeação dos bispos e procurando manter a Igreja oriental sob o seu controle (cesaropapismo). Os monarcas nas controvérsias dogmáticas muitas vezes favoreciam as doutrinas heréticas, contrapondo-se assim a Roma e ao seu bispo, que defendiam a reta fé. Os Patriarcas de Constantinopla, por sua vez, muito dependen­tes do Imperador, procuravam a preeminência sobre as demais sedes episcopais do Oriente e queriam rivalizar com o Patriarca romano, sucessor de São Pedro, aderindo à heresia e provo­cando cismas: dos 58 bispos de Constantinopla desde Metró­fanes até Fócio (858), 21 foram partidários de heresia; do concílio de Nicéia I (325) até a ascensão de Fócio (858), a Igreja de Bizâncio passou mais de 200 anos em cisma com Roma.

Registraram-se mesmo atos de violência cometidos pelos Imperadores contra alguns Papas: Justiniano I mandou buscar à força o Papa Vigilio em Roma e o quis coagir a aprovar normas religiosas baixadas pelo monarca (cerca de 550); Constante II procedeu de forma análoga contra o Papa Mar­tinho I, que em Roma (649) se opusera à heresia monotelista favorecida pelo Imperador; Justiniano II mandou prender em Roma o Papa Sérgio I, que não queria reconhecer inovações promulgadas pelo concílio Trulano II (692); Leão III, icono­clasta, em 731 subtraiu a Roma a jurisdição sobre a Ilíria e sobre parte do «patrimônio de São Pedro» (Itália meridional).

3. O distanciamento entre orientais e ocidentais, tão influenciado por motivos políticos, ainda foi acentuado pela criação do «Sacro Império Romano da Nação dos Francos», cujo primeiro Imperador, Carlos Magno, recebeu a coroa em 800 das mãos do Papa Leão III.

O descaso (ou a hostilidade) dos bizantinos, associado à opressão dos lombardos ao norte da Itália, dera motivo a que os Papas se voltassem aos poucos, com olhar simpático, para um povo recém-convertido e fiel à Igreja — os francos —, pedindo-lhes o auxílio necessário para se instaurar nova ordem de coisas no Ocidente. A entrega da coroa imperial a Carlos Magno visava prestigiar os francos nessa sua missão. Como se compreende, em Bizâncio tal ato foi mal acolhido; os orientais julgavam que só podia haver um Império cristão, como só pode haver um Deus; o Imperador reinava em nome de Cristo e era como que o representante visível da unidade da Igreja; daí grande surpresa e escândalo quando em 800 souberam que o bispo de Roma sagrara um «bárbaro» para governar um segundo Império cristão!

Apesar de tudo, porém, deve-se dizer que até o séc. IX o primado de Roma ainda era satisfatoriamente reconhecido pelos orientais. A tensão de ânimos se manifestou em termos novos e funestos sob a chefia dos Patriarcas Fócio († 897) e Miguel Cerulário († 1059).

2. A ruptura

Em 858 foi ilegitimamente deposto por adversários polí­ticos o Patriarca Inácio, de Constantinopla.

Em seu lugar, subiu à cátedra episcopal um comandante da guarda imperial, Fócio, que o Imperador favorecia. O novo prelado recebeu em cinco dias todas as ordens sacras e foi entronizado sem que a sé estivesse vaga (pois Inácio não renunciara).

Não conseguindo impor-se ao bispo de Roma, que em 863 o declarou destituído dos poderes pastorais, Fócio, ainda apoiado pelo Imperador, abriu violenta campanha contra os cristãos ocidentais. Em 867 chegou a romper abertamente com Roma.

Quais os motivos alegados para justificar tal passo?


Fócio acusava Roma nos seguintes ponto:


ensinar que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho e ter acrescentado a profissão desta doutrina (mediante a inserção do «Filioque») ao símbolo de fé;


observar o jejum aos sábados;


usar de laticínios na primeira semana da Quaresma;


exigir o celibato do clero;


não reconhecer aos presbíteros a faculdade de administrar o sa­cramento da Crisma;


misturar água natural ao óleo da Crisma;


permitir que os diáconos latinos não usassem barba, etc.


Como se vê, de todas essas acusações, só a primeira tocava o depósito da fé, versando as demais sobre pontos contingentes de dis­ciplina (a doutrina de que o Espírito Santo procede do Filho, constitui realmente uma verdade dogmática, pois, em caso contrário, o Espírito Santo se identificaria com o Filho na SSma. Trindade, não há dis­tinção senão entre termos correlativos; o Pai não é o Filho justamente porque o Pai é o princípio e o Filho o termo de uma processão).

Ao Imperador Miguel III, protetor de Fócio, sucedeu Basílio Macedônio, que se mostrou conciliante; após negocia­ções com o Papa Adriano II, reuniu-se um concílio universal em Constantinopla (869/870), que condenou Fócio e professou solenemente fidelidade ao Pontífice Romano. — A paz, porém, havia de ser efêmera, pois nos ânimos ficavam chagas profun­das, produzidas pelos recentes atritos.

A cisão foi renovada, e de maneira definitiva, em 1054 sob o Patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário, que ale­gava as mesmas acusações propaladas por Fócio, e outras de caráter igualmente sutil, tais como: usarem os latinos pão sem fermento na Ceia do Senhor; comerem carne às quartas-feiras, queijo e ovos na sexta-feira santa; permitirem que dois irmãos esposassem duas irmãs (em casamento monogâmico, é claro).

O cisma declarado em Constantinopla foi, sem demora, reproduzido pelos demais bispos do Oriente; estendeu-se aos povos que haviam sido evangelizados por Bizâncio, acarretando a grande divisão que ainda hoje perdura (veja-se a tabela à pag. 418s deste fascículo).

Não compete ao historiador julgar a consciência dos homens que tomaram parte nos episódios da ruptura (os legados latinos en­viados a Constantinopla para tratar com Cerulário em 1054 foram talvez pouco compreensivos no seu modo de proceder; possivelmente eles e alguns escritores latinos que tomaram parte nas controvérsias desde o séc. IX, concorreram para exasperar os ânimos dos bizanti­nos). Somente Deus sonda os corações. O que o cristão pode e deve afirmar com segurança, é que a Santa Igreja, representada pelo sucessor de São Pedro em Roma e pelos fiéis que estão em comunhão com ele, continua a ser, mesmo após a separação dos bizantinos, a Esposa de Cristo sem mancha nem ruga (não afetada pela fraqueza humana de seus membros), depositária junto à qual todo homem encontrará sempre incontaminados os meios para se santificar.

Não faltaram tentativas de reconstituir a união após o séc. XI, algumas das quais chegaram a feliz resultado. As duas mais notáveis trouxeram à comunhão da Santa Igreja os rutenos (habitantes da Polônia) em 1596 e os rumenos da Transilvânia em 1697. Pode-se mencionar outrossim a volta, ocorrida no séc. XIX, de grupos búlgaros, gregos, etíopes. . . Em suma, contam-se hoje cerca de nove milhões de cristãos pertencentes a comunidades outrora cismáticas que encontra­ram a via de volta à Esposa de Cristo.

O maior obstáculo à união se deriva do sistema oriental da «Igreja de Estado», ou seja, da identificação de Igreja e nação no Oriente; os limites territoriais de um povo vêm a ser geralmente também os de uma Igreja ou comunidade cristã; cada nação cismática oriental tem, por conseguinte, seu Chefe religioso autônomo ou quase autônomo, o que é de certo modo uma barreira ao reconhecimento da autoridade espiritual do sucessor de São Pedro, colocado por Cristo à frente de todos os grupos nacionais.

3. As divergências doutrinárias

Como se vê, o cisma que acabamos de analisar, se deu não propriamente por motivos doutrinários, mas em virtude de discrepâncias de mentalidade e disciplina religiosa (discre­pâncias exacerbadas por razões políticas e rivalidades dos homens).

Ao se separarem de Roma, portanto, no séc. XI, os bizanti­nos não eram propriamente herejes (negando o «Filioque» no Credo, não tinham a intenção de identificar o Espírito Santo com o Filho), mas cismáticos, isto é, desobedientes e rebeldes. Daí o título com que se designam até hoje: ortodoxos; era este o qualificativo com que se caracterizavam antes do cisma, quando defendiam a reta fé contra a heresia monofisita. — A ruptura da comunhão eclesiástica, porém, havia de provocar entre os cismáticos distanciamento doutrinário.

Nos séc. XII/XV o catálogo de acusações dirigidas pelos gregos aos latinos foi-se aumentando; chegaram ao total de 62 as objeções levantadas pelos bizantinos. . ., objeções, porém, tão pouco consistentes quanto as que Fócio e Cerulário arquitetaram. Finalmente em 1438 no concílio de Florença, convo­cado para tratar da união, os teólogos gregos e latinos verifi­caram ser cinco os pontos em que realmente divergiam entre si:

1) o purgatório. Os gregos não impugnavam propria­mente a existência deste, mas sim o chamado fogo do purga­tório (fogo que, segundo a teologia ocidental, significa uma pena infligida às almas por elementos corpóreos, sem que se possa determinar ulteriormente em que consista). Alguns gregos julgavam outrossim que as almas justas só entrarão na visão de Deus face a face após o juízo universal;

2) o acréscimo da partícula «Filioque» ao símbolo de fé;

3) a processão do Espírito Santo a partir do Pai e do Filho;

4) o uso de pão ázimo (sem fermento) na celebração da S. Eucaristia (uso, aliás, que é conforme às narrativas do S. Evangelho);

5) a autoridade do Pontífice Romano.

Na verdade, as divergências acima poderiam reduzir-se a quatro apenas, já que a segunda e a terceira não afetam senão um ponto de doutrina.

Com o decorrer dos tempos, os bizantinos julgaram dever aumentar a lista. Assim o Patriarca Antimo VII de Constan­tinopla, convidado por S. S. o Papa Leão XIII a voltar à comunhão com a Igreja, respondeu em 1895 apontando-lhe as seguintes dificuldades ocasionadas pelos latinos:

1) a afirmação de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho;

2) a inserção do termo «Filioque» no Credo;

3) a administração do Batismo por aspersão ou por infusão (não por imersão);

4) a celebração da Eucaristia com pão ázimo (não fermentado);

5) o não-reconhecimento do valor consecratório da Epiclese (os orientais, encabeçados por Nicolau Cabasilas, a partir do séc. XIV, propugnam que a consagração do pão e do vinho eucarísticos na Missa se faz por uma invocação ou '”epiclese” dirigida ao Espírito Santo, e não propriamente pela repetição das palavras de Cristo);

6) a entrega da S. Comunhão aos leigos sob as espécies de pão apenas;

7) a doutrina concernente ao «fogo» do purgatório e à consecução da visão beatífica antes do juízo universal;

8) a definição do dogma da Imaculada Conceição de Maria;

9) a aceitação do Primado Romano;

10) a definição da infalibilidade pontifícia.

Antimo afirmava outrossim que, desses itens, o mais importante é o que se refere ao primado romano (e, consequen­temente, à infalibilidade do magistério pontifício em assuntos de fé e moral). Não há dúvida, pode-se dizer mesmo, com autores orientais contemporâneos, que o verdadeiro foco de discórdia entre os cismáticos e a Sta. Igreja é a questão do reconhecimento do Papa como Vigário de Cristo; todos os demais temas apontados na lista acima ou não são dogmá­ticos (a Sta. Igreja, por exemplo, não tem dificuldade em reconhecer a validade do batismo por imersão ou a celebração da Eucaristia com pão fermentado ou a administração da mesma sob as espécies de pão e vinho, onde tais usos sejam tradicionais) ou se resolvem sem dificuldade uma vez aceito o magistério infalível do Pontífice Romano (o dogma da Imaculada Conceição, por exemplo, não é estranho à doutrina dos antigos Padres e teólogos orientais; definindo-o, o Sumo Pontífice apenas fez torná-lo explícito).

A proximidade de doutrina assim verificada não pode deixar de suscitar a novo título nos cristãos ocidentais grande interesse pela volta dos irmãos separados ao grêmio da Santa Madre Igreja.

___

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Protestantismo: quem são os mórmons?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR/067 1963)

«Quem são os Mórmons ou Santos dos últimos Dias, que visitam as casas distribuindo escritos e livros de uma nova crença religiosa?»

Exporemos abaixo o currículo de vida do fundador da seita dos Mórmons, a sua doutrina e o seu significado dentro da história do Cris­tianismo.

1. O Fundador. Joseph Smith

Aos 23 de dezembro de 1805 nascia em Sharon (U.S.A.) Joseph Smith, filho de piedosa família de colonos que professa­vam o protestantismo sob a forma do Metodismo.

Aos poucos o jovem revelou ter uma índole pessoal bem característica, que um de seus mais abalizados biógrafos moder­nos, Lemonnier, assim descreve:

«Meigo e amável, não deixava de falar quando estava com amigos, e a sua eloqüência ardente se expandia em histórias intermináveis que ele inventava a gosto; não podia contar o mais simples incidente da sua vida sem o transformar em aventura maravilhosa... Não era muito amigo de leitura, e mal conhecia a Bíblia;... em casa chamavam-no, por vezes, de iletrado. Era, porém, o filho predileto de seu pai, que o considerava como o gênio da família. Com seu pai, José andava à busca de tesouros, de tal modo que os arredores da fazenda estavam cheios de escavações» (Hístoíre des Mormons 1948, pág. 13).

Aos quinze anos de idade, fez a sua primeira grande experiência religiosa. A população local se via então abalada por novo despertar religioso, que se manifestava em contradições entre as denominações religiosas protestantes. A família de Smith fez-se então, em parte, pres­biteriana; quanto a Joseph mesmo, hesitava... Resolveu conseqüente­mente ir pedir luzes a Deus, orando em alta voz num bosque. Transcor­ria uma manhã da primavera de 1820, quando lhe apareceram dois anjos, que lhe deram a ordem de não se filiar a crença religiosa alguma, pois ele um dia haveria de restaurar a «Igreja Cristã primitiva».

Uma segunda visão deu-se aos 21 de setembro de 1822, quando José foi visitado por figura fulgurante, que dizia ser o anjo Moroni: este lhe anunciou que ele (José) havia de desco­brir placas de ouro ocultas, nas quais se achava escrita a histó­ria maravilhosa do povo de Deus na América. Finalmente, aos 22 de setembro de 1827, o mesmo anjo o levou a encontrar as famosas placas após haver cavado o cume da colina de Cumorah.

O texto da mensagem respectiva era atribuído pelo anjo a um rei chamado Mórmon (daí o nome «mórmon» que a José Smith e seus discípulos foi dado posteriormente). O documento estava redigido em idioma que Smith chamava «língua egípcia reformada» e que ele desconhecia. Para o entender, Moroni for­neceu ao vidente duas pedras maravilhosas («Urim» e «Thum­min»), que comunicavam a necessária compreensão do texto.

Dizia o jovem José que quem ousasse lançar um olhar para as placas de ouro, morreria imediatamente. Por isto, Smith nos tempos subseqüentes se colocava por detrás de uma cortina e ia ditando a tradução da mensagem das placas a um secretário, modesto camponês chamado Martin Harris. Em junho de 1829 estava terminada a tradução inglesa do livro de Mórmon, a qual foi impressa e publicada em 1830. Sem demora o anjo arrebatou as placas, de sorte que jamais foram vistas pelo público. Apenas (diz uma declaração colocada no inicio de cada exemplar do re­ferido livro) três discípulos de Smith as puderam contemplar numa visão posterior, e atestaram esta visão com juramento.

A título de informação, consignamos também o seguinte: existe, entre os historiadores, uma versão que visa explicar de maneira mais plausível e verossímil a origem do «Livro de Mórmon».

Certo escritor presbiteriano, Salomão Spaulding, no século passado, redigiu um romance em torno dos primórdios das populações aborígi­nes da América, apresentando-as como descendentes dos hebreus. Esse romance não chegou a ser publicado, mas caiu nas mãos de um pre­gador batista, depois campbellista, chamado Sidney Rigdon. Sidney foi associar-se a José Smith na fundação da nova Igreja; deu então à obra romanceada de Spaulding aspectos e estilo bíblicos... Dai terá resultado o «Livro de Mórmon».

Juntamente com a mensagem de Mórmon, José recebia a missão de fundar uma Igreja, que seria a restauração da antiga Igreja de Cristo e dos Apóstolos. Com alguns poucos companhei­ros, portanto, o vidente fundou a nova comunidade, aos 6 de abril de 1830, no Estado de Nova Iorque.

Esse núcleo de crentes começou a propagar ardorosamente as suas idéias por todas as regiões vizinhas. Apresentavam-se como os arautos, da religião de um povo santo, escolhido por Deus para converter o mundo nos últimos dias, ou seja, nos dias anteriores à definitiva vinda de Cristo; a sociedade, até mesmo os cristãos, estariam todos mergulha­dos em erros de doutrina e moral; em conseqüência, quem não seguisse a mensagem de Mórmon deveria ser tido como gentio ou pagão.

Bem se compreende que tal pregação tenha suscitado represálias por parte do público. Os companheiros de Smith tiveram então que pe­regrinar por diversas localidades dos Estados de Ohio e Missouri desde 1831 a 1839. Finalmente em 1840 estabeleceram-se no Illinois, fundando a cidade de Nauvoo, que seria a «Nova Sião», verdadeiro Estado teocrá­tico (isto é, todo regido por leis religiosas ou por «revelações» divinas); aí se aguardaria o Cristo, que estava para voltar em breve sobre a terra. O território de Nauvoo foi oficialmente concedido aos crentes pelo Governo do Estado de Illinois; os Mórmons lá constituíram poder legislativo, judiciário e executivo próprio, com direito de manter um exército para sua defesa sob o comando de José Smith. Este fundou também um grandioso templo e uma Universidade.

Desdobrando logicamente as suas idéias, José Smith chegou a pro­clamar-se candidato à presidência dos Estados Unidos em fins de 1843; disseminou apóstolos e pregadores que divulgassem o seu programa, no qual estava incluído, entre outras coisas, o resgate dos escravos.

Contudo a situação evoluiu desfavoravelmente aos novos crentes... Com efeito; Smith resolveu apregoar em público uma doutrina que lhe fora «revelada» particularmente e que já era posta em prática na sua comunidade: a doutrina do «matrimô­nio celeste» ou da poligamia. Esta inovação provocou a animosi­dade das populações vizinhas de Nauvoo, populações que haviam recebido com simpatia os «santos dos últimos dias».

Os jornais da região incitaram então os cidadãos a guerra contra os crentes. Estes responderam arregimentando as suas tropas. Isto bastou para que o Governador do Estado acusasse Smith de alta traição. O vidente assim apontado concebeu o plano de fugir. Não o fez, porém, visto que seus companheiros o consideravam como covarde; resolveu mesmo entregar-se aos juízes civis, que o colocaram no cárcere. Contudo a multidão não se conteve: invadiu a prisão aos 27 de junho de 1844 e pôs termo violento a vida de José e seu irmão Hyrum Smith. O pro­feta tinha nessa ocasião 39 anos de idade.

A sua figura, que já gozava de grande autoridade entre os discípulos, cresceu na mente destes: José Smith veio a ser tido como mártir e símbolo sagrado.

Quem havia de lhe suceder?

O mais antigo companheiro de Smith - Sidney Rigdon - nutria pretensões. Foi, porém, eliminado pelos discípulos. Em breve tornou-se Presidente e Profeta da «Igreja» um jovem enérgico e fanático (mais equilibrado, porém, do que o fundador da seita) chamado Brigham Young. Este fora outrora metodista; tendo-se passado ao Mormonismo, em 1835 havia sido constituído um dos doze Apóstolos da nova seita. Sua eleição encontrou oposição por parte de membros da comunidade, entre os quais um dos filhos de Smith, que resolveu então separar-se para fundar a «Reorganizada Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias».

A situação era tão tesa em Nauvoo que Young decidiu deixar o território do Illinois, de mais a mais que em janeiro de 1845 um decreto do Governo abolia os privilégios concedidos à colônia dos Mórmons. Retirou-se, pois, com a sua comunidade de crentes para o deserto de Utah, região então pertencente ao México. A custa de energia férrea, conseguiram em 1847 aí fundar a Cidade de Salt Lake (ou do Lago Sal­gado). A legislação da cidade permitia a poligamia (o próprio Young teve mais de vinte esposas celestes!) ; organizava meticulosamente o trabalho e a economia, de modo que em breve o deserto se tornou terra fértil e produtora. Em 1848, o México entregou o território de Utah aos Estados Unidos; a poligamia tornou-se então grave pomo de discórdia entre o Governo norte-americano e os Mórmons. Somente em 25 de setembro de 1890, o Presidente da seita, Woodruff, empreendeu a con­ciliação: declarou que em visão recebera ordem de abolir a poligamia; isto permitiu que finalmente em 1896 Utah se tornasse Estado da Con­federação norte-americana. Contudo a poligamia ainda é aí praticada, embora em termos discretos; a maioria da população de Utah professa a crença de Mórmon.

Atualmente o Mormonismo parece contar cerca de um milhão de crentes, dos quais dois terços residem em Utah. Têm missionários espa­lhados pelo mundo em intensa atividade proselitista. O governo da seita toca a um Presidente («Profeta, Vidente e Revelador») assistido por dois conselheiros e doze Apóstolos.

Pergunta-se agora

2. Qual a mensagem dos Mórmons ?

1. Os Mórmons relatam do seguinte. modo o seu histórico:

Após a confusão das línguas em Babel (cf. Gên 11), a tribo de Jared emigrou da Ásia para a América. Contudo, já que se constituía de homens maus, Deus permitiu fosse punida por muitas guerras e calamidades públicas, de modo que estava para se extinguir em 600 a. C.

Nesta época, porém, vivia na Palestina um profeta chamado Lehi, da tribo israelita de Manassés; foi avisado por Deus de que, em breve (586 a. C.), Jerusalém cairia sob os golpes de Na­bucodonosor; por isto veio com outros israelitas para a América, onde encontrou os últimos descendentes de Jared.

Uma vez morto Lehi, houve divergências entre os seus dois filhos Nefi e Lamã, ou quais em conseqüência se separaram. A tribo de Nefi conservou-se fiel a Javé, ao passo que os descen­dentes de Lamã prevaricaram; em castigo Deus deixou que a cor de sua pele se tornasse vermelha; são hoje em dia os índios ou aborígines da América. Quando Cristo esteve sobre a terra, visitou os Nefitas na América após a sua ressurreição. Dois ou três séculos depois de Cristo, também os Nefitas (de pele branca) pecaram gravemente e foram exterminados pelos La­manitas ou índios. Contudo o último rei e patriarca nefita, Mórmon, antes de morrer escreveu a história do seu povo sobre pla­cas de ouro, que ele entregou a seu filho Moroni; este escondeu tão precioso depósito no alto da colina de Comorah, onde final­mente José Smith no século passado, sob a guia do anjo (Moroni), o devia descobrir. Daí se origina o «Livro de Mórmon», que é a terceira Revelação (enumerada após o Antigo e o Novo Testamento), autentica Palavra de Deus, à luz da qual a Bíblia Sagrada mesma deve ser interpretada.

Além do «Livro de Mórmon» e da Bíblia, os discípulos de Smith admitem mais dois livros sagrados: «A Pérola de Grande Preço» e «Doutrinas e Pactos da Igreja de Jesus Cristo dos San­tos dos últimos Dias». Estas obras contem uma coletânea de passagens, autênticas e não autênticas, da Escritura Sagrada, assim como a autobiografia de José Smith e revelações que este recebeu de Deus.

2. É por tais escritos que se transmitem as doutrinas e as práticas do Mormonismo, as quais se podem resumir nos seguin­tes itens:

a) Existe um Deus, que é dito «Pai, filho e Espírito Santo». O Pai, porém, tem carne e ossos; quanto ao Filho e ao Espírito Santo, são apenas emanações do Pai.

Julgam os historiadores que Smith admitia outrossim um certo politeísmo; testemunho disto seria o fato de que no fim da vida tra­duzia o nome hebraico «Elohim» por «deuses».

b) O homem é eterno: viveu no Reino de Deus antes de aparecer sobre a terra. Neste mundo os indivíduos não têm recordação dessa sua existência passada, a fim de poder aceitar ou recusar livremente o Evan­gelho. Caso não cheguem a conhecer o Evangelho na vida presente, os homens o poderão conhecer após a morte e se salvarão mediante um batismo póstumo.

c) O batismo póstumo constitui uma das práticas mais estranhas do Mormonismo. É administrado, por presumida procuração, aos des­cendentes dos defuntos. A descendência é meticulosamente examinada em tabelas genealógicas que os mórmons consultam (se necessário) em arquivos espalhados pelo mundo inteiro. Assim os descendentes podem obter a graça de Deus para seus antepassados que não tenham conhe­cido a Revelação.

d) Há mesmo uma certa identidade de natureza entre o homem e Deus. «Tal como Deus é, tal pode o homem tornar-se».

e) Não existe pecado original. O homem se vai continuamente aperfeiçoando pelo arrependimento de suas faltas. O único castigo que o aguarda, é a dor de ter perdido oportunas ocasiões de melhorar.

f) No Mormonismo foi restaurada a primitiva Igreja, que os ho­mens dos séculos passados deturparam. Estabelecer-se-á uma nova Sião na América; Cristo virá pessoalmente reinar sobre a terra, cuja face será renovada, tornando-se o paraíso.

g) Na Igreja dos Santos dos últimos Dias, o Espírito Santo se manifesta de maneira extraordinária e permanente por meio dos dons de línguas, profecias, revelações, curas, visões, etc. O Presidente da Igreja é sempre inspirado por Deus ao realizar os atos mais importan­tes de seu governo.

h) A ceia do Senhor é celebrada sob duas espécies: pão e água. Não se usa vinho, embora a revelação n° 20 o prescreva. E por que não? -- Muitos crentes respondem:... porque há cerca de cento e vinte anos os adversários dos mórmons tentaram envenená-los com o vinho da santa ceia; contudo água e vinho não fazem grande dife­rença no caso, porque se trata de meros símbolos destinados a lembrar apenas o Senhor Jesus.

i) No que se refere ao casamento, José Smith em 1831 recebeu a revelação de que seria lícita a poligamia; todavia só a consignou por escrito em 1843. Ao ter notícia desta disposição, Brigham Young ex­clamou: «Pela primeira vez na vida desejei então estar no túmulo»; inclinou-se, porém, diante da determinação. - Os historiadores acham o fato particularmente estranho, pois que o «Livro de Mórmon» proíbe explicitamente a poligamia; julgam que Smith a deve ter admitido por razões estritamente pessoais; embora tal praxe fosse fadada a provo­car reação e repulsa da própria comunidade de crentes, ela se terá implantado por razões preponderantemente econômicas, pois a popu­lação recém-estabelecida em Utah só poderia sobreviver caso se impu­sesse pela multidão e pela força de seus cidadãos; ora tal condição exigia prole numerosa. O êxito que os Mórmons em seus primeiros decênios obtiveram no plano financeiro e político, parece ter corres­pondido as expectativas. A vida civil e econômica em Utah foi religio­samente organizada, isto é, organizada segundo o rigor e a precisão que somente a religião poderia inspirar; um sistema de dízimos e taxas fielmente observado pelos crentes assegurou a Igreja não só a subsistência, mas até mesmo alta prosperidade material. Todavia, já que a poligamia contrariava as leis norte-americanas, foi, por inti­mação das autoridades civis da nação, abolida (ao menos em teoria e de maneira oficial) pelo quarto Presidente da Igreja, Woodruff, em 1890 (Woodruff justificava sua atitude apelando para especial reve­lação recebida do céu).

A legislação mormônica prevê também matrimonio «pelos mor­tos»: uma mulher que faleça sem se ter casado nesta vida pode ser, pelos seus familiares sobreviventes na terra, ligada a um varão no Além. Em caso contrário, seria prejudicada em sua bem-aventurança póstuma; diz, com efeito, a revelação n° 132: «Aqueles que não passam por esse sacramento (do matrimônio) só podem aspirar a dignidade de anjos, ao passo que os eleitos podem esperar elevar-se até a digni­dade de deuses».

i) A Igreja Mormônica dirige os seus fiéis não somente no plano espiritual, mas também no material, prescrevendo até o regime ali­mentar (estão proibidos o chá, o café, o fumo e as bebidas alcoólicas). Tal atitude é justificada nos seguintes termos pelo sexto Presidente da Igreja, José Smith, sobrinho-neto do fundador: «Uma religião que não pode salvar os homens no plano temporal, tornando-os prósperos e felizes neste mundo, também não é capaz de os salvar no plano espi­ritual, levando-os a vida futura».

Note-se, por fim, que cada mórmon fiel tem a obrigação de con­tribuir com 20 % de suas rendas para a Igreja, além das horas de trabalho que ele lhe dedica todas as semanas.

Procuremos agora formular sobre tais assuntos

3. Uma reflexão final

Os historiadores não costumam pôr em dúvida a boa fé ou a sinceridade de José Smith, fundador da Congregação Mormônica; terá sido uma alma profundamente religiosa.

A obra, porém, de Smith se ressente de um defeito radical, que contamina os seus principais traços: aparece qual mero fruto da imaginação ou de um temperamento desequilibrado.

G.-H. Bousquet, escritor tido por autoridade no assunto, colabo­rando em uma enciclopédia que não tem caráter religioso, alude a Smith como «iluminado mitomaníaco, provavelmente ciclotímico» (Les Mormons pag. 61, na coleção «Que sais-je?». Presses Universitaires de Frunce).

Bousquet chega a comparar Smith com Maomé, asseverando que o Mormonismo e o Islamismo são fenômenos análogos; constituem, sim, manifestações psicológicas e sociais dentre as que periodicamente no decorrer da história vem a tona, exprimindo uma das grandes ca­racterísticas da alma humana, a saber: o desejo de possuir algo mais do que a felicidade material imediata,... o desejo de tocar uma rea­lidade nova, transcendente, introduzida por visões e revelações. Na verdade, tanto o Mormonismo como o Islamismo

possuem seu código revelado: o Livro de Mórmon, o Corão;

admitem que Deus tenha intervindo repetidas vezes na vida do respectivo fundador;

constituíram comunidades teocráticas, visando, por assim dizer, instaurar um Reino de Deus visível aqui na terra;

consentiram na poligamia;

«por ordem de Deus» lançaram-se a conquista do mundo, recor­rendo ou as armas ou a pregação. O fato de que Smith não tenha encontrado a aceitação e o sucesso que Maomé conseguiu, deve-se as circunstancias do século passado e do ambiente norte-americano em que ele lançou a sua obra.

Em última análise, o Mormonismo exprime em termos exu­berantes e fantasistas a sede do paraíso ou da vida eterna que todo homem possui em si, qualquer que seja a época ou a nacio­nalidade a que pertença. Infelizmente, porém, Smith traduziu essa sede de maneira pouco sadia: construiu a sua obra sobre a base de premissas tão arbitrárias e inconsistentes que o Mormonismo como tal carece de autoridade.

Contudo o ideal que no momento ele apregoa, é suficiente para mover profundamente a alma humana; o título de «Santo dos últimos Dias», a função de arauto de uma mensagem nova e mais perfeita para a humanidade, a sensação de haver desco­berto um grande tesouro espiritual ou religioso, o ideal de pre­parar a vinda iminente do Reino de Deus são elementos que falam ao mais íntimo de todo ser humano, podendo provocar mudança de vida, entusiasmo, fervor, etc., que muito impres­sionam a sociedade.

Por isto, o cidadão do século XX, ao contemplar o fenômeno do Mormonismo, não tem motivo para se deixar atrair pelo con­teúdo de sua doutrina (é algo de demasiado vão). Dê, antes, atenção ao significado geral desse fenômeno: é mais uma afir­mação, no decorrer da história, de que o homem não foi feito para se contentar com a felicidade natural que os bens deste mundo podem proporcionar. Ele tem, sim, a sede do Absoluto ou de Deus, embora nem sempre acerte ao procurar o caminho para chegar ao Reino de Deus.

Ao observar os mórmons, portanto, o fiel católico apren­derá deles não a doutrina, mas o fervor religioso; e renovará seu zelo por viver em máxima fidelidade à genuína mensagem do Evangelho, mensagem que de Cristo pelos Apóstolos chegou até nós sem interrupção, mensagem que por isto tem a garantia da autenticidade prometida pelo Senhor: «Estarei convosco (convosco, Apóstolos, e com os vossos sucessores) até a consu­mação dos séculos» (Mt 28,20).

D. ESTEVÃO BETTENCOURT O.S.B.


segunda-feira, 21 de maio de 2007

Protestantismo: somente a escritura?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 313/1988)

Em síntese: Os Reformadores do século XVI estabeleceram o princí­pio de que Sola Scriptura, somente a Escritura, pode ser considerada fonte de fé, com exclusão da Tradição oral. Desta maneira Lutero queria "purifi­car" o Cristianismo de tradições espúrias ou crenças e costumes menos ade­quados que se haviam introduzido no Catolicismo. - Verifica se, porém, que a recusa dos Reformadores foi drástica demais. Teria sido necessário dis­tinguir entre a Tradição divino-apostólica (oriunda de Cristo e dos Apósto­los) e as tradições que, posteriormente a estas, começaram a existir dentro da Igreja; estas não gozam de garantia de autenticidade, ao passo que aquela a possui. Com efeito; sabe-se que Cristo nada deixou escrito nem mandou es­crever, dado que a escrita era uma arte difícil e rara na antigüidade. Os Apóstolos pregaram de viva voz, e só ocasionalmente escreveram algo de quanto assim anunciaram; cf.Jo 20,32; 21,25, 2Ts 2,15. Em conseqüência, os escritos do Novo Testamento (como também os do Antigo Testamento) não podem ser lidos independentemente da Tradição ( = transmissão) oral que os precedeu e os berçou; é essa Tradição que, antes do mais, define o catálogo dos escritos sagrados ou o cânon bíblico; é essa Tradição que con­tribui autenticamente para o entendimento do texto bíblico, o qual está su­jeito a ser distorcido segundo as categorias subjetivas dos seus intérpretes. A Tradição oral oriunda de Cristo e dos Apóstolos continua viva na Igreja através dos séculos e é fielmente expressa pelo magistério, da. Igreja, a quem Cristo confiou a missão de guardar e transmitir a sua Palavra.

Quem não leva em conta este amplo quadro da Revelação Divina, mas se põe a ler e interpretar a sós as Escrituras, arrisca-se a deturpá-las, desvian­do cada vez mais o Cristianismo das suas origens, como atestam as nume­rosas denominações protestantes originadas pelo princípio do “Livre exa­me”.

***

No diálogo entre católicos e protestantes volta freqüentemente a per­gunta dos interlocutores evangélicos: "Como se pode provar tal ou tal pro­posição pela S. Escritura?" Esta indagação é decisiva para que os protestan­tes aceitem, por exemplo, a Virgindade de Maria SS., a existência do purga­tório, o primado de Pedro, etc.. A posição evangélica se deve ao fato de que Lutero e os reformadores do século XVI estipularam como única fonte de fé a S. Escritura (Sola Scriptura), julgando que a Tradição oral, como era, e é, professada pela Igreja Católica, deturpa, aumenta ou desvia o depósito da fé revelada por Jesus Cristo.

A questão é básica no diálogo ecumênico: será a Escritura a única fon­te de fé? Ou poder-se-á admitir a seu lado a Tradição oral? Uma análise se­rena e objetiva dos fatos evidenciará que o problema supõe um equívoco e se pode resolver sem grande dificuldade.

1. Tradição oral e Tradição escrita

A fé cristã procede do fato fundamental de que Deus quis revelar aos homens os mistérios de sua vida assim como seu desígnio de salvação; este inclui a participação do homem, elevado à dignidade de filho, na vida do próprio Deus: ""Recebestes o Espírito pelo qual clamais: Abbá, Pai!" (GI 4,6; Rm 8,15).

A Revelação iniciada com o Patriarca Abraão (século XIX a.C.), conti­nuada através dos séculos do Antigo Testamento, foi consumada por Jesus Cristo, o Logos ( = Palavra) de Deus feito homem (cf. Jo 1,1.14).

Ora sabe-se que a revelação de Deus aos Patriarcas, aos Profetas e aos Apóstolos se realizou sem o concurso da escrita: os antigos só rara e dificil­mente escreviam, pois tal arte era árdua e dispendiosa; as mensagens eram transmitidas por via meramente oral.

Detendo-nos, de modo especial, na revelação do Novo Testamento, verificamos que Jesus Cristo nada deixou escrito nem se preocupou com a redação de seus ensinamentos. Apenas mandou aos Apóstolos fossem pregar pelo mundo e se tornassem testemunhas da verdade; cf. Mt 10,7; 28,18-20; Mc 16,15.

Acontece, porém, que os Apóstolos e seus discípulos, ao anunciarem a Boa-Nova, experimentaram a necessidade ocasional de escrever algo. Ora tra­tava-se de responder a dúvidas de cristãos recém-evangelizados ou de com­pletar a catequese inacabada (tais foram as ocasiões que levaram São Paulo e os outros Apóstolos a escrever suas cartas). Ora tratava-se de deixar aos fiéis uma parcela ou uma síntese de quanto havia sido pregado pelos Apóstolos (tal foi a ocasião dos Evangelhos). É de notar, porém que os autores de tais escritos (evangelistas, São Paulo, São João, São Pedro, São Tiago...) não ti­veram em vista expor todo o depósito dos ensinamentos de Jesus, como eles mesmos declararam:

"Muitos outros prodígios fez ainda Jesus, na presença dos discípulos, os quais não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome" (Jo 20,30s).

"Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se elas se escrevessem, uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se teriam de escrever" (Jo 21,25; cf. 2Ts 2,15).

Os Apóstolos consignaram por escrito aspectos da vida e da doutrina de Jesus, atendendo a necessidades esporádicas das comunidades cristãs e da catequese. Disto se seguem conclusões importantes:

1) Tradição divino-apostólica

Existe no Cristianismo uma Tradição oral que remonta ao próprio Cristo e aos Apóstolos e, por isto, é chamada divino-apostólica. Esta Tradi­ção divino-apostólica é anterior à S. Escritura e se espelha ou exprime nesta. Tem-se indagado ultimamente, entre os teólogos, se existem verdades de fé que tenham ficado apenas na Tradição oral, não havendo sido consignadas pelos autores sagrados nos livros do Novo Testamento. Em nossos dias ad­mitem os teólogos que a S. Escritura contém, ao menos de modo implícito, todas as proposições da fé; estas encontram seu fundamento próximo ou re­moto nos textos da Bíblia; admite-se, portanto, a suficiência da S. Escritura, desde que lida no contexto da Tradição viva que a berçou.

2 ) Identificação e interpretação da Bíblia

A Bíblia só poderá ser explicada autenticamente à luz do depósito oral que a precedeu e que é a grande fonte donde os escritores sagrados tiraram o material histórico-dogmático que eles redigiram. Esse depósito meramente oral continou a ser transmitido incontaminado (em virtude da prometida assistência de Cristo e do Espírito) até hoje, identificando-se com a voz ofi­cial dos sucessores dos Apóstolos ou com o magistério da Igreja. O ponto em que mais aparece a necessidade de recurso a algo anterior à S. Escritura mes­ma, é o que se refere ao cânon ou catálogo dos livros bíblicos: como saber se um livro é ou não inspirado ou fonte de fé? - Procuraram os Reformadores do século XVI estipular critérios como o da sublimidade do conteúdo, o da beleza do estilo, os frutos de piedade e edificação suscitados pela leitura de tais livros, mas nenhum critério é eficaz, pois na verdade existem livros, na Bíblia, de conteúdo chão ou mesmo violento, "escabroso", (cf. Jz), de esti­lo rude (cf. Ap, Mc), aparentemente estéreis ou áridos ao leitor (cf. Lv, Nm). - Somente a palavra da Tradição oral que entrega ao povo de Deus tais e tais livros e não outros, palavra confirmada pelo magistério da Igreja, é capaz de servir de critério para definir o catálogo sagrado. A Igreja, guiada pelo Espírito Santo, à medida que a literatura cristã ia surgindo, tomava cons­ciência (ora mais cedo, ora mais tarde) de que tal ou tal escrito era inspira­do e, por isto, merecedor de ser agregado à coleção dos livros sagrados, ao passo que a mesma consciência cristã rejeitava outros escritos como espúrios ou apócrifos. Nunca esse testemunho foi consignado por escrito antes do sé­culo IV. Quando em 393 um Concílio regional reunido em Hipona definiu pela primeira vez a lista dos livros sagrados, foi a Tradição oral, anterior aos escritos bíblicos, quem falou por esse Sínodo; o Concílio não era um novo órgão de ensinamento dentro do Cristianismo (órgão criado simplesmente pelos homens da Igreja), mas era, ao lado das Escrituras, outra expressão do depósito de verdades que Cristo e os Apóstolos transmitiram verbalmente às gerações cristãs.

3) Duas fontes ou uma?

O Concílio refere-se, logo a seguir, ao magistério da Igreja como órgão da: existem duas fontes de Revelação Divina - a Tradição oral e a S. Escri­tura (como diziam alguns católicos)? Ou existe apenas uma fonte - a S. Es­critura (como dizem os protestantes)? Após longos estudos, a assembléia conciliar se exprimiu, afirmando haver uma só fonte de Revelação - a Pala­vra de Deus - e os dois canais de transmissão da mesma - a S. Escritura e a Tradição oral. Estes dois canais se harmonizam mutuamente:

“A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura relacionam-se e comuni­cam estreitamente entre si. Com efeito, derivando-se ambas da mesma fonte divina fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo objetivo" (Consti­tuição Dei Verbum n° 9).

O Concílio refere-se, logo a seguir, ao magistério da Igreja como órgão assistido pelo próprio Cristo para interpretar autenticamente a Palavra de Deus transmitida por seus dois canais:

"O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida oralmente foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo. Tal Magistério evidente­mente não está acima da palavra de Deus, mas a seu serviço, não ensinando senão o que foi transmitido, no sentido de que, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, piamente ausculta aquela Palavra, santamente a guarda e fielmente a expõe. E deste depósito único da fé tira o Magistério o que propõe para ser acreditado como divinamente revelado" (Dei Verbum n° 10).

É importante notar que o Magistério da Igreja não é uma terceira ins­tância ao lado da Palavra escrita e da Tradição oral, que transmita as verda­des da fé, mas, em última análise, não é senão a Tradição oral que continua a falar autenticamente através dos séculos; o Magistério só se pronuncia depois de auscultar a Palavra de Deus oral e escrita existente no depósito da Igreja, procurando, com a assistência do Espírito Santo (cf. Mt 16,16-19; Lc 22,32; Jo 21,15-17), deduzir desse depósito as conclusões nele contidas para ser desdobradas no decorrer da história do Cristianismo. Dizia Jesus:

"O Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, en­sinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito" (Jo 14,26).

"Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade to­tal, porque não falará de si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido, e anunciar­vos-á o que há de vir" (Jo 16,13).

4) Tradição e Protestantismo

O próprio Protestantismo, que afirma só reconhecer a fonte bíblica, recorre necessariamente à Tradição oral em duas ocasiões:

a) ao definir o catálogo dos livros sagrados do Antigo Testamento, Lu­tero optou pela tradição dos judeus firmada pelo Sínodo de Jâmnia em 100 d.C., ao passo que a Igreja Católica, seguindo o uso dos Apóstolos, optara pela tradição dos judeus de Alexandria, como está dito às pp. 253-255 deste fascículo. Sem recurso à Tradição oral, não se pode definir o catálogo sagra­do, visto que em parte nenhuma da S. Escritura está dito qual o âmbito da mesma ou quais os livros que, inspirados por Deus, a devem integrar; é preci­so procurar a delimitação do cânon bíblico fora da Escritura ou na Tradição oral, isto é, no testemunho que passou de geração a geração desde Abraão até hoje (os pais entregam a Palavra de Deus aos filhos, estes aos netos, estes, por sua vez, aos bisnetos...).

b) Na sua maneira de interpretar a S. Escritura, os protestantes tam­bém recorrem a uma tradição. Com.efeito; embora o texto da Bíblia seja o mesmo para as diversas denominações evangélicas, estas não concordam entre si, por exemplo, no tocante ao batismo de crianças, à constituição da Igreja, à observância do dia do Senhor, etc. As divergências não provêm do texto da Bíblia como tal, mas da interpretação dada a esse texto por cada fundador de denominação protestante. Com outras palavras: dependem da tradição, oral ou escrita, que cada fundador quis iniciar na sua respectiva congregação. Donde se vê que, embora o cristão queira rejeitar a Tradição oral, ele a professa sempre: professa a Tradição divino-apostólica, oriunda de Cristo e dos Apóstolos, ou a tradição oriunda de Lutero, Calvino, John Knox, Wesley, John Smith, Ellen Gould White, etc... Isto se explica pelo fato de que a Palavra escrita jamais pode ser separada da oral; é esta que dá vida, atualidade e pleno significado à letra ou ao texto escrito. Sem a pala­vra oral que a traduz de maneira atualizada e viva, a letra pode tornar-se pe­ça de museu.

5 ) A Reforma considerada hoje

Os reformadores do século XVI encontraram na Igreja de seu tempo tradições secundárias, infelizes ou inadequadas, ao lado da Tradição divino-­apostólica. No intuito de cancelar tais tradições, Lutero e Calvino rejeitaram a própria Tradição - o que se tornou nocivo para o Cristianismo, em vez de o beneficiar. Com efeito, originou-se assim um cisma que até hoje perdura tem gerado outros cismas; o Protestantismo, em conseqüência da sua pró­pria índole, desligada da Tradição e entregue ao subjetivismo de "mestres" leitores da Bíblia, vai-se esfacelando cada vez mais.

Muito a propósito vêm as ponderações de Peter Langsfeld em Myste­rium Salutis 1/2, p. 16:

“A Reforma, iniciada como movimento de retorno à fidelidade ao Evangelho, desaguou em divisão da própria Igreja que pretendia reformar-se. A repulsa às práticas indevidas e aos costumes tradicionais na Igreja não afas­tou apenas a tradição eclesiástica que contrariava o Evangelho, mas também a própria tradição que afeta a fé, enquanto continuação e prolongamento da Escritura. Não nos compete expor aqui a história e as conseqüências desta controvérsia. Tem contudo a teologia católica a impressão de que, do lado da Reforma, a criança, que se amava e se procurava salvar, lhe foi roubada, ao dar-se-lhe o banho que, sem dúvida, deveria reformá-la; com a tradição, os costumes e ensinamentos opostos e estranhos à Bíblia, a Tradição firmada na Bíblia e a autoridade eclesiástica, que guarda a Tradição e a Escritura, fo­ram repelidas... "

Já em 1907, Adolf v. Harnack descrevia, com exatidão, a situação atual da referida controvérsia:

“... Escritura e tradição: quanto se debateu a autoridade destas duas realidades, no século XVI e depois dele! Através de quantos profundos escri­tos se doutrinou sobre este assunto! Presentemente, contudo, e já desde muito tempo, perceberam os teólogos protestantes que a Escritura não se pode separar da Tradição. Por seu turno, viram também os teólogos

católi­cos que nenhuma tradição deve ser admitida sem a devida crítica e que o Novo Testamento, no tocante aos problemas mais importantes do Cristianis­mo primitivo, é a única fonte indispensável. A grande controvérsia perdeu, portanto, não somente seu caráter agudo, mas até sua razão de ser, desde que se entenda a própria Escritura como tradição, e que não se admita tradi­ção nenhuma sem a devida prova..." (Protestantismus und Katholizismus in Deutschland, Berlin 1907, pp. 18-19).

Vê-se, pois, assim que a questão da Sola Scriptura (somente a Escritu­ra como fonte de fé) se resolve sem dificuldade desde que haja sinceridade de parte a parte entre católicos e protestantes. Em verdade,

- de um lado, a S. Escritura só não pode ser, nem é no Protestantis­mo, a única fonte de fé, pois a própria índole da Escritura rejeita tal tese; a S. Escritura pede ao leitor ausculte a Palavra viva e autêntica que a berçou e que a acompanha; vejam-se, além dos textos bíblicos citados às pp. 264­266, a palavra da 2Pd 1,20:

“Antes de mais nada sabei isto: que nenhuma profecia da Escritura re­sulta de uma interpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas os homens impelidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus-,­

- de outro lado, a Tradição oral e o magistério da Igreja só têm senti­do se fazem eco à S. Escritura, pois esta se tornou a Palavra normativa: "So­mente a Escritura, em seu caráter objetivo e permanente, pode conservar as origens em toda a sua pureza, de modo que, desde o início até o fim dos tempos, serve ela de regra de fé, da pregação e da vida na Igreja. Por outro lado, não lograria a Escritura realizar sua mensagem se lhe fosse vedado um incessante encontro com a tradição eclesiástica..." (Peter Langsfeld, Myste­rium Salutis 1/2, p. 240).

2. O testemunho da própria Escritura

Um atento exame das páginas bíblicas manifesta que a própria S. Escritura atesta a existência de autêntica Tradição oral, da qual a Bíblia se originou e da qual recebe sua interpretação. Tenham-se em vista as seguintes passagens:

a) Em 2Ts 2,15, São Paulo exorta:

“Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições (parado­seis, em grego) que recebestes, seja de viva voz, seja por carta nossa".

No caso, o Apóstolo não apenas exorta a guardar as tradições, mas ex­plica que, quer escritas, quer orais, elas têm igual autoridade, desde que pro­venham do Apóstolo.

b) Em 1Cor 11,2 lê-se em termos semelhantes outra alusão às tradições:

“Eu vos louvo por guardardes as tradições tais como eu vô-las entreguei”.

c) Particularmente enfáticos são os textos de São Paulo a Timóteo:

"Sei em quem acreditei. Toma por norma as sãs palavras que ouviste de mim, na fé e no amor de Cristo Jesus. Guarda o bom depósito (parathé­ken) com o auxílio do Espírito Santo que habita em nós" (2Tm 1,12-14).

Nesta passagem o Apóstolo emprega um termo técnico da linguagem jurídica de seu tempo, o qual é altamente significativo: parathéke. Este vocá­bulo designava um tesouro confiado pelo respectivo proprietário aos cuida­dos de um amigo, o qual se obrigava em consciência a guardá-lo e restituí-lo; não era lícito ao depositário utilizar tal tesouro em seu proveito pessoal ou segundo seu bel-prazer. O ato de depositar pressupunha confiança da parte de quem entregava seus bens e exigia fidelidade absoluta da parte de quem os recebia; severas penas eram infligidas a quem violasse tais normas. Era esta a concepção de "depósito" vigente tanto entre gregos e romanos como entre judeus; atribuíam mesmo índole e autoridade religiosas à legislação concernente ao depósito. Alguns autores antigos chegavam a equiparar a re­ligião (com suas crenças e práticas) a um depósito (parathéke) entregue pela Divindade aos homens, depósito que os fiéis deviam conservar ciosamente, sem o ousar retocar em ponto algum (cf. Ranft, Der Ursprung des katho­lischen Traditionsprinzips. Wuerzburg 1931).

Pois bem. No texto de São Paulo acima citado vê-se que o depósito cristão são as palavras de doutrina que o Apóstolo fez ouvir a Timóteo, e que Paulo, por sua vez, recebeu de Cristo; esboça-se então a linha pela qual passa o depósito:

CRISTO => PAULO =>TIMÓTEO

(o qual recebeu suas palavras

do Pai, como Ele mesmo

afirma em Jo 8,28.40)

d) A linha continua..., conforme 2Tm 2,2:

"E, o que ouviste de mim em presença de muitas testemunhas, confia-­o (ou deposita-o, parathou, forma verbal derivada da mesma raiz que para­théke) a homens fiéis, que sejam capazes de o ensinar ainda a outros".

Tem-se conseqüentemente a seguinte sucessão de depositários:

O PAI => CRISTO => PAULO (OS APÓSTOLOS)

=> TIMÓTEO (OS DISCÍPULOS IMEDIATOS DOS

APÓSTOLOS) => OS FIÉIS => OUTROS (FIÉIS).

Desta forma a Escritura mesma atesta a existência de autênticas pro­posições doutrinárias de Cristo a ser transmitidas por via meramente oral de geração a geração, sem que os cristãos tenham jamais o direito de as menos­prezar ou, como quer que seja, retocar. Este depósito oral chegou até a gera­ção presente e é expresso pela voz oficial da Igreja.

e) Na epístola aos Hebreus, a mesma concepção é professada com não menos clareza; o escritor, que pertence à geração seguinte à dos Apóstolos (não é São Paulo mesmo), traça por sua vez o roteiro da Tradição oral:

“... a mensagem salutar, anunciada primeiramente pelo Senhor, nos foi seguramente transmitida por aqueles que a ouviram" (2, 3).

A série de transmissores seria:

O SENHOR => AS TESTEMUNHAS AURICULA­RES

=> NÓS, QUE OUVIMOS DESTES.

f) Voltando às epístolas pastorais, encontramos mais uma vez a idéia do depósito de doutrina oral a ser fielmente preservado e transmitido:

"O' Timóteo, guarda o depósito (parathéken); evita os discursos vãos e profanos e as objeções de uma falsa ciência; por ter professado a esta, alguns erraram na fé" (1 Tm 6,20s).

Neste texto São Paulo opõe seus ensinamentos (dados oralmente a Timóteo, como é óbvio) a discursos inovadores, fazendo da guardado ensi­namento oral a condição para que o discípulo não naufrague no erro.

g) Em 2Ts 2,5s São Paulo apela para o ensinamento oral que deu pre­viamente aos seus leitores e, em conseqüência, dispensa-se de escrever muita coisa sobre a segunda vinda de Cristo.

Em conclusão, os textos citados mostram a Escritura mesma a reco­mendar às subseqüentes gerações o respeito máximo à tradição oral que a antecedeu e ininterruptamente a acompanha.

São estas ponderações inspiradas por documentos bíblicos e respeitáveis textos do Cristianismo nascente e contemporâneo que levam a Igreja Católica a não separar S. Escritura e Tradição oral.

3. O Cristianismo antigo

Passando agora aos testemunhos dos antigos escritores cristãos, verifi­camos que, embora tivessem em mãos todos os livros do Novo Testamento, não desprezavam, mas, ao contrário, continuavam a estimar, como fonte pri­mordial da fé, a Tradição oral. Seja mencionado em primeiro lugar Papias ( + cerca de 130), bispo de Hierápolis na Ásia Menor:

"Caso viesse alguém que tivesse convivido com os presbíteros, eu pro­curava saber os ditos dos presbíteros, isto é, o que haviam ensinado André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João, Mateus ou outros dos discípulos do Se­nhor... Estava convencido de que da leitura dos livros não retiraria tanto proveito quanto da voz viva e permanente" (fragmento citado por Eusébio, História da Igreja 3,39).

E Papias conhecia bem os Evangelhos escritos, como o demonstram as referências que a eles faz em seus escritos.

S. Ireneu ( + 220) é muito explícito no seu testemunho:

“Se os Apóstolos nada tivessem deixado escrito, dever-se-ia igualmen­te seguir a ordem da Tradição por eles confiada aos dirigentes da Igreja. Este método é seguido por muitos povos bárbaros que crêem em Cristo. Sem pa­pel e sem tinta, estes trazem inscrita em seus corações a salvação por obra do Espírito Santo; conservam fielmente a antiga Tradição" (Adv. haer. 3,4,2, ed. Migne gr. 7,855).

Naturalmente, pode haver tradições meramente humanas, que detur­pem o depósito sagrado. Existem, porém, critérios para distingui-las das au­tênticas tradições; estas

1) referem-se unicamente à fé e aos costumes (pois não há outro obje­to da Revelação divina); por conseguinte, proposições de cosmologia, biolo­gia e ciências naturais em geral, afirmadas repetidamente pelas gerações cris­tãs, carecem da autoridade do depósito da fé, embora os antigos, mediante uma exegese deficiente, julgassem que eram abonadas pela Escritura Sagrada.

Tal é o caso da exegese de Gênesis 1-3. Entendia-se esta peça bíblica como cartilha de cosmologia (Deus teria criado o mundo em seis dias de 24h ou em seis eras geológicas...). Tal foi também o caso de Josué 10,8-15, don­de se deduzia que Josué fizera estacionar o sol e que, por conseguinte, o sol girava em torno da Terra, centro do universo. Os antigos, conscientes de que a Bíblia é a Palavra de Deus, a consideravam como uma enciclopédia na qual encontrariam respostas para todas as suas perguntas sem levar em conta que a finalidade da inspiração bíblica é estritamente religiosa. - Hoje em dia, quando se reconhece melhor o âmbito específico da mensagem bíblica, os teólogos não hesitam em deixar de lado certas tradições exegéticas de índole meramente cosmológica ou biológica...

2) Além de se referirem unicamente à fé e aos costumes, as autênticas tradições também são universais. O que quer dizer: sempre e em toda parte estiveram em vigor, segundo a fórmula de Vicente de Lerins (+ 450): "Na Igreja Católica é preciso dar grande cuidado a que guardemos aquilo que em toda parte, sempre e por todos tem sido acreditado" (Commonitor 2, ed. Migne lat. 50, 640).

Era principalmente por recurso a este segundo critério que os antigos Padres da Igreja julgavam as novas teorias ou as interpretações da Revelação propaladas em tal ou tal região (Gnosticismo, Montanismo, Arianismo...); pediam dos inovadores que demonstrassem estar em contato com os Apósto­los através dos tempos e provassem que transmitiam uma doutrina sempre ensinada e reconhecida pelos cristãos em geral. Caso se comprovasse, ao con­trário, que as teses discutidas jamais tinham sido propaladas antes de deter­minada época e eram apanágio de um grupo de cristãos apenas, tais teses eram tidas como aberrantes ou heréticas.

4. Considerações finais

Uma das principais razões por que o homem moderno concebe dificul­dades para aceitar a tradição meramente oral como regra válida, é o fato de que as instituições modernas, desde a época de sua fundação, costumam ter seus estatutos escritos, os quais definem com precisão a orientação doutri­nária e disciplinar da respectiva instituição; quem formula os estatutos se empenha por incluir neles tudo que deva ser observado como norma, de sor­te que fora do código escrito nada pode haver de importante para a configu­ração de tal sociedade. Tal praxe é possível (e só se tornou possível) após a descoberta da imprensa por Gutenberg (+ 1468). Antes disto; quanto mais se retrocede na série dos séculos, tanto mais se verifica que tal praxe era inexeqüível, pois a escrita constituía uma arte difícil, mormente nos tempos anteriores e imediatamente subseqüentes a Cristo; o instrumento apto para ensinar e legislar devia forçosamente ser a palavra oral.

Os historiadores ensinam que principalmente no setor da religião o en­sinamento oral foi sempre grandemente estimado. Com efeito, sendo a religião um fenômeno muito antigo, verifica-se que cada um dos grandes sistemas re­ligiosos da humanidade depende de um patrimônio doutrinário transmitido de geração a geração por via meramente oral, depósito oral que, em época tardia e em virtude de necessidades mais ou menos acidentais, foi parcial­mente (não por inteiro) consignado em livros sagrados; em certas religiões os fiéis se negaram sempre a escrever algumas de suas proposições mais caras. A tradição oral é, pois, elemento essencial de todas as crenças religiosas, ele­mento que, mesmo após a redação dos códigos sagrados, continuava a ser auscultado com carinho. Em suma, cada uma das grandes religiões é mais antiga do que seus respectivos livros sagrados.

Chama a atenção, por exemplo, nos escritos oficiais da primitiva reli­gião chinesa (de que se derivaram o Taoísmo e o Confucionismo), a fórmula assaz freqüente: "Eu ouvi...".

Para assegurar a fidelidade na transmissão oral de suas crenças, os anti­gos costumavam, de um lado, disciplinar a memória e, de outro lado, redigir as suas sentenças sob forma de frases breves, ritmadas ou cantantes, o que muito facilitava a aprendizagem de cor.

Pois bem; foi no mundo habituado a proceder desta forma que o Filho de Deus anunciou o Evangelho. A Revelação ou o depósito de fé do Cristia­nismo foi, por conseguinte, transmitido aos homens pelas vias comuns do magistério de outrora: palavra oral parcialmente cristalizada na palavra escri­ta em ocasiões esporádicas.

A título de ilustração, vai aqui transcrito um trecho das chamadas "Recognitiones Clementinae", romance cristão oriundo provavelmente no séc. III. O episódio, embora seja fictício, é contudo ótima expressão de quanto as primeiras gerações cristãs estimavam a palavra oral:

“Ao despontar do dia que fora escolhido para a disputa com Simão (Mago), Pedro (Apóstolo), levantando-se aos primeiros cantos do galo, des­pertou também a nós; todos juntos éramos treze a dormir no mesmo aposen­to... À luz da candeia... sentamo-nos todos; Pedro, vendo-nos alertas e bem atentos, saudou-nos e começou sua alocução:

'E surpreendente, irmãos, a elasticidade de nossa natureza, a qual me parece ser adaptável e maleável a tudo. Digo-o apelando para o que eu mes­mo tenho experimentado. Logo depois da meia-noite, costumo acordar-me espontaneamente e não consigo mais conciliar o sono. Isto me acontece por­que me habituei a evocar em minha memória as palavras que ouvi de meu Senhor (Jesus Cristo); desejoso de as revolver no espírito, incitei o meu âni­mo e a minha mente a se despertarem, a fim de que, em estado de vigília, recorde cada palavra de Jesus em particular e as guarde todas ordenadamen­te na memória. Já que desejo com profundo deleite meditar no meu coração as palavras do Senhor, adquiri o hábito de ficar em vigília, mesmo que nada, fora deste intento, me preocupe o espírito' " (Ps.-Clemente Il 1, ed. Migne gr. 1, 1247-9).

Este texto não nos interessa pela sua narrativa como tal, mas antes por pressupor que de fato os antigos cristãos estimavam extraordinariamente a decoração e a repetição industriosas (auxiliadas por métodos mnemotécni­cos) das palavras do Divino Mestre. Tal mentalidade privilegiava o ensina­mento transmitido de boca em boca.

BIBLIOGRAFIA

CONCÍLIO DO VATICANO II, Constituição Dei Verbum 1965.

FEINER-LOEHRER, Mysterium Salutis 1/2. Ed. Vozes, Petrópolis 1971.

SCHMAUS, M., A Fé da Igreja, vol. I. Ed. Vozes, Petrópolis 1976.