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sábado, 22 de maio de 2010

Bíblia: como saber se um Livro é inspirado?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 005/1958)


"Quais os critérios para se discernir se um livro é ins­pirado por Deus ou não?"

1. Diversos têm sido, nos últimos séculos, os critérios propostos para se resolver tal questão. Eis os mais invocados:

a) a índole mesma do livro examinado, ou seja, a sublimidade de sua doutrina, o encanto singular de seu estilo a sua aptidão a suscitar sentimentos piedosos;

b) a experiência do respectivo leitor, o qual durante a lei­tura da Bíblia sentiria alegria e deleite, ou seria movido à compunção ou (como queria principalmente Calvino) perceberia o testemunho interno do Espírito Santo;

c) o fato de ter sido o seu autor Profeta. Apóstolo ou dis­cípulo de Profeta ou Apóstolo.

d) o testemunho de homens eruditos e a constância dos mártires ao confessarem a índole inspirada de determinado livro;

e) o estudo da história do cânon (ou catálogo) bíblico.

Todavia estes critérios são sem exceção, assaz falhos:

a e b) a sublimidade da doutrina e do estilo, assim como as experiências íntimas do leitor, estão sujeitas à apreciação pessoal de cada um, podendo ser diversamente estimadas; além disto, tais características podem convir a qualquer livro reli­gioso (ate mesmo ao Corã maometano, na medida em que este corresponde à índole mística da natureza humana). Consti­tuem, por isto, insuficiente indício de que Deus é o Autor do respectivo texto.

c) Quanto à dignidade de Apóstolo, Profeta ou discí­pulo... ela não se identifica por si com a de escritor inspirado; Deus pode dar a alguém o carisma para pregar sem lhe dar luz especial para escrever ou para se tornar autor de um livro bí­blico. Ademais há partes da S. Escritura das quais não se sabe indicar com segurança o respectivo autor (por exemplo, muitos dos axiomas do livro dos Provérbios se devem a anciãos anôni­mos da corte de Israel; pergunta-se qual o autor da epístola aos Hebreus, de Jo 7,53-8,11, de Mc 14,9-20). Doutro lado, sa­be-se que há genuínos escritos dos Apóstolos que se perderam (por exemplo, as cartas de Paulo mencionadas em 1 Cor 5,9; Col 4,16). Ademais, alguns escritos na antigüidade eram expli­citamente atribuídos a Apóstolos ou discípulos de Apóstolos. sem que fossem tidos como inspirados; tal é o caso da carta dita "de Barnabé". que Tertuliano e S. Jerônimo asseveravam haver sido escrita por Barnabé. "Apóstolo dos gentios" mas não pertencer ao cânon dos livros sagrados (cf. Tertuliano, De pudicitia 20; S. Jerônimo, De viris illustribus 6). — Apesar des­tas considerações, alguns exegetas julgam que todos os Apósto­los e discípulos de Apóstolos gozavam do carisma da inspiração bíblica sempre que escreviam; pode-se aceitar esta senten­ça, contanto que se admita outro critério, mais amplo e seguro, para se afirmar a índole inspirada de determinado livro.

d) Não se poderia dar valor absoluto ao testemunho de ho­mens eruditos e dos mártires. Embora muito valiosas, nada nos garante que tais asserções gozem de autoridade superior à falível autoridade de homens.

e) O estudo da formação do cânon bíblico mostra ao his­toriador o que se deu no decorrer dos séculos, mas não dá a ver com que direito isso se deu. Feita a averiguação do que acon­teceu, seria preciso ainda discutir a autoridade dos diversos ele­mentos que influíram na formação do cânon; em outros termos: seria preciso discutir a autoridade dos bispos, escritores e concílios que, de um modo ou de outro, concorreram para a estipulação do catálogo sagrado. Donde se vê que o simples estu­do da história do cânon não basta; requer-se um critério, dedu­zido de outra fonte, que indique quem tinha e quem não tinha autoridade para falar no assunto. — Em conseqüência, muitos protestantes reconhecem que a história do cânon não fornece solução plenamente segura para o problema (cf. R. Knopf. Einfuchrung in das Neue Testament. Bonn 1919. 142; F. Watsom Inspiration 1906. 178).

Como se entende, vão seria apelar para a Bíblia mesma em vista de uma solução pois nela não se encontra o catálogo dos livros inspirados.

2. Vista a precariedade dos diversos critérios acima assi­nalados, verifica-se que não há outro capaz de resolver a ques­tão senão o testemunho da tradição oral, que sempre acompa­nhou os livros sagrados. Esta constitui a atmosfera dentro da qual os hagiógrafos viveram e da qual quiseram consignar uma ou algumas facetas apenas, nos escritos bíblicos. A tradição oral, sendo anterior à Bíblia, é o único critério para se elucida­rem questões atinentes à Bíblia, a começar pela questão capi­tal: "Quem me garante o que pressuponho no estudo da Escri­tura, isto é, que tais, e somente tais, livros têm autoridade di­vina?" Naturalmente não qualquer voz da tradição merecerá crédito, mas, sim, aquele testemunho constante e unânime que, tendo atravessado ininterruptamente os séculos, hoje se reflete no magistério da Igreja. Será preciso, portanto, reconhecer o seguinte: desde os primórdios do Cristianismo, o Espírito Santo foi assistindo aos Apóstolos e aos seus sucessores, os bispos, a fim de que distinguissem livros inspirados e não-inspirados; as dúvidas que surgiram nos quatro primeiros séculos a respeito de um ou outro escrito foram finalmente resolvidas de modo au­têntico pelos concílios que desde 393 (concilio de Hipona) de­finiram o cânon bíblico tal como ele ainda hoje é reconhecido na Igreja Católica (os concílios reunidos em Cartago nos anos de 397 e 419 repetiram tal catálogo; o mesmo foi feito pelo Papa Inocêncio I, que em 405 mandou a Exupério, bispo de Tolosa. o elenco dos livros sagrados; o Concilio de Florença em 1441 o reafirmou, assim como os concílios de Trento. em 1546 e do Vaticano em 1870).

Observe-se, de resto, que a própria Escritura apela para a tradição oral como para o tesouro onde se deve procurar a so­lução dos pontos obscuros que a Bíblia mesma não resolve. Assim, por exemplo. Paulo admoesta Timóteo a ler as Sagradas Escrituras, cujo sentido o Apóstolo lhe elucidou por via oral; com outras palavras: recomenda a leitura das Escrituras à luz daquela tradição oral que Timóteo por sua vez deverá trans­mitir a seus discípulos:

"Tu permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido e que desde a tua meninice sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a tua salvação...

E, o que de mim entre muitas testemunhas ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros" (2 Tim 3.14s; 2.2; trad. de Ferreira de Almeida».

São Pedro, por sua vez. acautela os cristãos contra qual­quer interpretação subjetiva da Escritura, recomendando de novo fidelidade ao ensinamento comum oral que sempre acom­panha e ilumina a Bíblia:

“...sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Es­critura é de particular interpretação... E tende por salvação a longanimidade de Nosso Senhor, como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos di­fíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igual­mente as outras Escrituras, para sua própria perdição" (2 Pdr 1,20; 3.15s)

Em seu bom senso, o eunuco da rainha dos etíopes julgou que era incapaz de interpretar por si. sem magistério oral, o texto da Escritura: "Como poderei entender se alguém me não ensinar?" (At 8.30).

3. Tão íntimo é o nexo vigente entre a Bíblia e a tradi­ção oral que quem nega o valor desta se priva da única fonte donde se pode depreender com certeza a índole e a autoridade dos livros sagrados. Negada a tradição oral, a autoridade da Sagrada Escritura é fundada sobre o sentimento ou os conceitos subjetivos do leitor, e cedo ou tarde vem a ser minada ou mes­mo removida; os mais adiantados mestres modernos do Protestantismo já chegaram a considerar as Escrituras como simples testemunho da consciência religiosa dos antigos cristãos, teste­munho que não difere essencialmente do dos demais livros da cristandadc primitiva. Ou o cristão guarda a Bíblia e a Tradi­ção oral inteira ou acaba nada mais guardando do depósito re­velado.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Bíblia: o que é real na Bíblia?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 005/1958)


“Haverá algum critério seguro para se distinguir na Bíblia o que é real e o que é poesia? E o que é dogma de fé e o que não é?”



1. Em primeiro lugar, removamos dois conceitos errôneos neste setor.

Os critérios que nos levam a interpretar certas passagens da Bíblia em sentido literal e outras em sentido alegórico, não são:

a) o caráter maravilhoso ou milagroso como tal dos trechos bíblicos. As intervenções do sobrenatural na natureza não assustam o cristão; este reconhece que são sinais muito ló­gicos da Onipotência Divina, que ele professa. — Note-se, po­rém, que nem por isto o cristão há de admitir milagres a esmo na história sagrada. Por serem expressões da Sabedoria Divi­na, o Senhor realiza sempre os seus portentos — derrogações às leis que o próprio Criador incutiu à natureza — em vista de um fim proporcionalmente grande, e não para ostentar sua Onipotência. Tendo Deus comunicado aos elementos sua ma­neira própria de agir, o Senhor costuma respeitar o curso ordi­nário das coisas e utilizá-lo ou encaminhá-lo para obter os efei­tos intencionados pela Providência (serve-se habitualmente das chamadas "causas segundas"). Por isto ensina a exegese que, embora o milagre seja uma realidade na história, a realização de um milagre deve ser provada ou deduzida das expressões mesmas do texto sagrado, não pode ser simplesmente pressu­posta; o fato de ser Deus todo-poderoso não implica que tenha realmente manifestado sua Onipotência todas as vezes que a piedade ou a fantasia do leitor da Bíblia o julgue.

b) Também não são as descobertas da ciência moderna, como tais, que levam o exegeta a dar sentido figurado a muitas expressões da Bíblia. Em outras palavras: não é para estar de acordo com os últimos resultados das pesquisas da astronomia, da geologia, da antropologia, etc. (ou norteando-se diretamente pelas teorias das ciências naturais) que o cristão "arranja" suas conclusões exegéticas. Esta atitude de todo errônea, tem o no­me de "Concordismo" (isto é, procura de concórdia, às vezes alheia ao texto bíblico, entre a ciência e a Escritura).

E porque é errônea? Haverá então discórdia ou apenas semi-discórdia?

E' errônea simplesmente porque pressupõe que a Bíblia tenha a mesma finalidade que a ciência, isto é, que vise ensinar aos homens qual a natureza intrínseca dos fenômenos biológi­cos, astronômicos, geológicos. Se as Escrituras tivessem em mira ensinar isto, então é claro que haveria justificativa para procurarmos ler as teorias da ciência moderna, clara ou veladamente formuladas, na Bíblia.

— Acontece, porém, que a Sa­grada Escritura visa apenas expor aos leitores o sentido religio­so que cabe às criaturas e aos seus fenômenos no plano de Deus; não quer senão dizer donde vêm os seres, para onde vão qual o seu valor e a sua função aos olhos de Deus e do cristão, sem se preocupar com a estrutura físico-química das criaturas. Em conseqüência, a Bíblia, tendo que aludir aos diversos elemen­tos deste mundo, menciona-os na linguagem simples de seus primeiros leitores, que eram judeus rudes (esta linguagem é suficiente à finalidade da S. Escritura) e começa seu ensinamento propriamente dito onde o cientista termina suas afirma­ções. Este analisa o que lhe cai sob os olhos e vai retrocedendo no curso dos fenômenos até chegar aos mínimos componentes da matéria; depois disto nada mais sabe dizer. Pois bem; é justamente neste ponto que as Escrituras começam a ensinar; expõem a metafísica ou o sentido transcendente da matéria, do homem e das suas atividades neste mundo. Não há, pois, coin­cidência entre o ponto de vista das ciências naturais e o da Bí­blia. Donde se vê quão absurdo seria interpretar tal ou tal pas­sagem escriturística em sentido alegórico a fim de a acomodar às últimas teorias científicas.

2. Qual seria então em termos positivos o critério que leva a distinguir sentido literal e sentido figurado na S Escri­tura?

Foi o conhecimento mais exato, da filologia e da literatura, tanto de Israel como do próximo Oriente, que deu a ver aos exegetas que tais e tais expressões não costumavam ser enten­didas ao pé da letra pelos escritores antigos, mas tinham senti­do convencionalmente metafórico ou hiperbólico. Com outras palavras: as ciências modernas trouxeram à luz não apenas novos dados de astronomia, biologia, geologia, mas também abriram novos horizontes aos estudiosos da lingüística do Orien­te antigo. Os novos instrumentos de trabalho filológico (instru­mentos dos quais não dispunham os intérpretes medievais) fo­ram conseqüentemente aplicados ao texto da Bíblia (já que esta foi escrita segundo os moldes da cultura de outrora), o que le­vou naturalmente os estudiosos a entender em sentido figurado certos trechos que outrora se interpretavam ao pé da letra.

O que está acima dito se resume brevemente no seguinte: os exegetas modernos reformaram proposições de seus anteces­sores, porque se lhes tornou evidente que na Bíblia há gêneros literários diversos, ou seja, um estilo próprio para tratar de cada assunto importante (história, leis, profecias, liturgia. . .). Cada um desses gêneros literários obedece às suas regras de re­dação convencionais, que o leitor moderno, por mais estranhas que lhe pareçam tem que levar em conta, a fim de não dar às expressões de um poema (texto livremente concebido e orna­mentado) o significado rigoroso que dá aos termos de uma lei (texto geralmente breve e preciso).

3. Uma vez averiguadas as regras de estilo que presidi­ram à redação de certo livro ou trecho, pode-se proceder à in­terpretação filológica do mesmo, isto é, verificar o que o texto, aos olhos de um leitor judaico antigo, queria dizer.

Não basta, porém, a interpretação filológica. Requer-se outrossim o que se chama a interpretação dogmática ou teoló­gica, já que a Bíblia não é simplesmente palavra humana, mas palavra do homem que reveste e transmite a Palavra de Deus.

Qual então o critério para se apurar o sentido teológico ou dogmático de uma passagem escriturística?

a) Em vista de tal fim, pode-se recorrer à analogia da fé, isto é, à consonância que tal ou tal possível interpretação do texto possa ter com proposições que indubitavelmente perten­cem ao depósito da fé. Caso haja discrepância entre uma in­terpretação filològicamente possível e algum dogma da fé, dever-se-á reconhecer que tal interpretação é errônea. Exemplo muito expressivo encontra-se na exegese de Gên 1-3: houve au­tores (mesmo católicos) que, baseados em critérios meramente filológicos, quiseram entender o nome ADÃO (que em hebraico significa HOMEM) no sentido coletivo, e não individual (cf. A. M. Dubarle. Les sages d'Israel. Paris 1946. 21s): Deus então, ao criar Adão, teria criado a coletividade humana, um agrupa­mento provavelmente composto de vários casais, e não de um indivíduo e sua esposa apenas; insinuavam desta forma o poligenismo em lugar do tradicional monogenismo (criação de um só casal, Adão e Eva, do qual procedem todos os homens). Filolò­gicamente a interpretação era plausível e sorria a não poucos exegetas que queriam estar em dia com hipóteses de cientistas recentes. Contudo o Santo Padre Pio XII, em sua encíclica "Humani generis" de agosto de 1950, lembrou aos exegetas que a mencionada interpretação cai em contradição com uma proposição de fé seguramente atestada pela Bíblia e a Tradi­ção, ou seja, com o dogma do pecado original, que é o pecado do primeiro homem, Adão, comunicado a todos os indivíduos hu­manos por descenderem todos de Adão. Assim a "analogia da fé" leva a excluir a interpretação poligenista de Gên 1-2, inter­pretação que o mero exame literário do texto não excluiria.

b) Disto já se depreende que o critério supremo e inevi­tável para se precisar o sentido de alguma passagem da Sagrada Escritura é a Tradição oral, que hoje se faz ouvir no ensina­mento ou magistério da Igreja. E' a esta que, em última aná­lise, toca dirimir as questões de interpretação da Bíblia.

E porque isto? Não será a Igreja erroneamente intransi­gente ao se arrogar tal direito?

Não. E' a natureza mesma da Bíblia que assinala tal in­cumbência à Igreja. Com efeito, os livros da Sagrada Escri­tura não foram escritos com o fito de abranger todo o depósito da Revelação Divina, mas se devem a problemas ocasionais (necessidades contingentes deste ou daquele grupo de fiéis), aos quais os hagiógrafos queriam atender. Estes, por conseguinte, apenas redigiram o necessário para resolver os casos que se propunham esporadicamente, confiando em que seus escritos se­riam sempre interpretados e complementados pela tradição oral existente na Igreja. O ensinamento oral constitui um grande corpo doutrinário, do qual os livros do Antigo e do Novo Testamento consignam apenas uma parte (cf. Jo 21,25). E no­te-se que a Igreja viveu exclusivamente do ensinamento oral de Cristo desde a Ascensão do Senhor (cerca do ano de 33) até a redação da primeira página do Novo Testamento (Tg ou 1 Tes, por volta de 50/51).

Por isto é que os escritos bíblicos não podem ser desmem­brados da Tradição oral nem ser interpretados sem recurso a esta, que é anterior a eles e mais ampla do que eles. E a tradição oral como pode ser auscultada? Ela se acha hoje viva no magistério da Igreja. Este se prende ininterruptamente, pas­sando por 55 gerações apenas, através dos séculos, àquilo que Cristo e os Apóstolos ensinaram, mas não escreveram. E', por­tanto, a Igreja, à qual Cristo prometeu sua assistência infalível (cf. Mt 28.20), que em última instância está sempre habilitada a dizer qual o sentido exato de tal e tal passagem da Sagrada Escritura.

Bíblia: por que ainda se obedecem os 10 mandamentos?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 011/1958)


«Se se afirma que a Lei de Moisés foi ab-rogada por Cristo, porque ainda se insiste na observância dos manda­mentos do Decálogo? Mesmo entre estes que é feito das pres­crições concernentes ao sábado e às imagens? Qual é afinal o critério para se distinguir o que foi ab-rogado e o que ainda tem valor de lei?»

1. Antes do mais, na solução das questões acima, será preciso lembrar que as disposições concernentes a Israel no Antigo Testamento tinham caráter de preparação para a vinda do Messias — por conseguinte, caráter provisório e figurativo de realidade vindoura ainda mais rica de conteúdo. A escolha do povo de Israel não tinha outro sentido no plano de Deus senão o de criar, em meio à corrupção doutrinária e moral crescente através dos séculos, um núcleo de fiéis que, nutrindo a crença e a esperança no verdadeiro Deus, se tor­nasse o receptáculo e transmissor das graças messiânicas para o mundo inteiro.

2. A fim de preservar eficazmente os israelitas da ten­dência a adotar os costumes e, consequentemente, as idéias das nações idólatras que os cercavam, o Senhor houve por bem dar-lhes, mediante Moisés, uma legislação ampla e pormeno­rizada, a qual, entrando nos mais diversos setores da atividade do israelita, faria que este vivesse obedecendo conti­nuamente a Deus (o regime era teocrático), recordado de que tinha uma missão religiosa a cumprir na história.

A Lei de Moisés, ampla como era, abrangia três tipos de preceitos: 1) prescrições civis e judiciárias, 2) prescrições ri­tuais e litúrgicas, 3) prescrições morais.

1) A legislação civil e judiciária tinha por fim isolar o povo hebreu das demais nações, impedindo que se organizasse, política e socialmente, como os Estados pagãos; toda a legis­lação civil de Israel era assim uma muralha que, em última análise, visava proteger a religião do povo de Deus. — Compreende-se que tais preceitos civis tenham perdido sua razão de ser logo que veio o Messias. Com efeito, Este, qual Pastor universal, mandou os Apóstolos convocar os povos do mundo inteiro para integrarem a família dos filhos de Deus, abo­lindo desta forma o isolacionismo civil e nacional de Israel, que a Lei de Moisés fomentava.

2) As leis cerimoniais e litúrgicas de Israel tinham por objeto numerosos ritos (sacrifícios, abluções, celebrações vá­rias) dotados de valor simbólico e profético em relação ao Messias; assim a circuncisão, o cordeiro de Páscoa, as festas anuais, etc. Estas instituições anunciavam, cada qual do seu modo, o Messias vindouro; por conseguinte, é claro que, após a vinda deste, perderam toda a sua razão de ser; cederam ao novo culto instaurado por Jesus Cristo (cf. Hebr 5,4-6; 7,18s; 8,6s; 10, 1.14).

3) Quanto à legislação moral de Israel, ela compreendia uma série de preceitos de direito natural, condensados prin­cipalmente no Decálogo [1]. Este, em verdade, não faz senão explicitar normas da lei natural, excetuado apenas o terceiro mandamento, que é, em parte, de direito natural e, em parte, de direito positivo divino; sim, de um lado é a lei natural que manda ao homem consagrar algum tempo ao serviço explícito do Criador (sem, porém, determinar as ocasiões e a freqüência respectivas); foi, de outro lado, a vontade positiva do Divino Legislador que escolheu precisamente o sétimo dia para tal fim; e, diga-se logo, escolheu-o de acordo com a fé e a expec­tativa próprias do povo do Antigo Testamento, visando, me­diante a observância do sábado, avivar nos judeus a crença na promessa de um Messias vindouro e da obra da Redenção que estava por se cumprir.

Ora, sendo o Decálogo (feita a ressalva acima) uma ex­plicitação direta do direito natural, isto é, de exigências dita­das pela natureza humana mesma, entende-se que não tenha sido ab-rogado por Cristo; nem o podia ser, a menos que o Legislador Divino quisesse entrar em contradição consigo mesmo, retratando pela sua revelação positiva (no Evange­lho) o que tivesse ordenado pela revelação natural. As pres­crições do Decálogo eram, por conseguinte, obrigatórias já antes de Moisés e não deixam de ter seu vigor ainda em nos­sos dias; serão sempre atuais enquanto se propagar sobre a terra a natureza humana com suas notas essenciais (é por estas que o Criador fala). O Senhor Deus, no Antigo Testa­mento, promulgando explicitamente os mandamentos do De­cálogo, visava apenas facilitar ao homem (tendente ao vício em conseqüência do pecado de Adão) o reconhecimento da voz da natureza e impedir que esta fosse ofuscada pelas pai­xões. Verifica-se mesmo que, longe de ab-rogar os preceitos naturais do Decálogo, Jesus Cristo se dignou aprofundar o seu sentido e valor, incutindo observância mais profunda e exata dos mesmos; o Salvador lembrou-nos, por exemplo, que a castidade não consiste apenas em uma conduta exterior (não cometer adultério), mas significa primariamente uma atitude interna da alma (nem sequer desejar adultério); da mesma forma, dizia-nos o Senhor, a caridade, a justiça, a veracidade, etc. têm que se arraigar primeiramente no íntimo do cristão para poder transparecer na sua conduta externa (cf. Mt 5,17-48). Além disto, a fim de favorecer o fim coli­mado pelos preceitos do Decálogo, o Senhor Jesus propôs os chamados «conselhos evangélicos», ou seja, a renúncia es­pontânea a bens lícitos em vista de se conseguir mais desem­baraçada união com Deus (cf. Mt 19,3-29).

É por isto que o código de moral cristã continua a urgir a observância do Decálogo.

3. Mas, feitas estas observações, ainda restam abertas as questões particulares concernentes ao dia do Senhor (sá­bado ou domingo?) e ao uso de imagens sagradas entre os cristãos.

a) Quanto à primeira dúvida, ela se dissipa à luz do que acima foi dito com referência ao terceiro preceito do De­cálogo: os cristãos observam o que neste se deriva da lei natural, dedicando periodicamente algum tempo (um dia) ao serviço direto de Deus; o dia de guarda dos cristãos, porém, não é mais o sábado (ou o sétimo dia da semana judaica) prescrito na Antiga Lei, pelo óbvio motivo que se segue: o sábado foi escolhido pelo Divino Legislador de Israel de acordo com o grau de Revelação religiosa que os israelitas possuíam; está claro que, para estes, o dia do repouso ou da interrupção dos trabalhos servis devia ser o dia em que, conforme a lin­guagem figurada do Gênesis, Deus mesmo entrara no seu repouso, isto é, o sétimo dia após seis dias de trabalho que recordavam a criação do mundo; o sábado judaico, portanto, evocava as origens da história sagrada e excitava o anelo à plenitude dos tempos marcada pela vinda do Messias; era essencialmente função da espiritualidade do Antigo Testa­mento; observando-o, o judeu vivia a sua vida mística tão intensamente quanto possível dentro dos moldes da Reve­lação pré-cristã.

Eis, porém, que Cristo veio ao mundo como Autor de nova criação, por assim dizer, ou como Restaurador do gênero humano, o qual terminou sua obra no dia subseqüente ao sábado. Sim; Cristo passou o sábado judaico no silêncio do sepulcro para se manifestar, apresentando ao mundo a nova criatura (cf. 2 Cor 5,17), logo após o dia de guarda dos judeus. Em conseqüência, os Apóstolos e as subseqüentes gerações cristãs entenderam que o dia do Senhor é atualmente o dia posterior ao antigo sábado; compreenderam que o domingo é o dia escolhido pela lei positiva de Deus no Novo Testamento, para se cumprir o preceito natural do culto do Senhor (cf. At 20,7 ; 1 Cor 16,2 ; Apc 1,10). Não se entenderia que os cristãos continuassem a observar o sábado, símbolo da pri­meira criação e da ordem de coisas pré-cristã, depois que o Autor do mundo se dignou recriar o homem e o universo, dando consumação ao seu plano no dia seguinte ao sábado. Mais amplas considerações sobre esta questão se poderão encontrar em «P. R.» 1/1958, qu. 9.

b) Quanto à proibição do Decálogo referente ao uso de imagens, note-se que ela figura no texto sagrado do Antigo Testamento unicamente para assegurar o culto ao único Deus ou o monoteísmo em Israel; já que os judeus viviam cer­cados de povos que adoravam figuras feitas por mãos huma­nas, a Lei de Moisés quis preservá-los de tal erro, vedando-lhes a confecção de qualquer imagem.

Chama-nos a atenção, porém, o fato de que o próprio Deus, no Antigo Testamento mesmo, não hesitou em derrogar a esta proibição, ora mandando que seu povo ornasse a arca da Aliança e o templo de Jerusalém com estátuas de querubins esculpidas em madeira (cf. Êx 25,17-22; 3 Rs 6,29s), ora ordenando a confecção da serpente de bronze (cf. Num 21,8s). A proibição de se usarem imagens, imagens que serviriam para elevar o espírito dos fiéis a Deus, era evidentemente de direito positivo e contingente; estava longe de se derivar das exigências da natureza humana como tal. Esta, ao contrário, tende a galgar a contemplação das realidades invisíveis me­diante a observação das coisas visíveis. Compreende-se então que, uma vez passado o perigo de politeísmo e idolatria, havendo o gênero humano chegado à maturidade de espírito, o próprio Deus tenha suspenso a lei positiva do Antigo Testa­mento que vedava a fabricação de imagens; é o que a Tra­dição cristã entendeu desde os seus primeiros tempos, estimu­lada principalmente pelo fato de que Deus tomou face humana, bem sensível, na Encarnação. Os cristãos podem fazer (e fa­zem) uso reto e profícuo de figuras sensíveis, pondo-as, de acordo com a índole de sua natureza psicossomática, a ser­viço do seu espírito sequioso de Deus, do único Deus.

Eis aqui uma passagem do Papa São Gregório Magno († 604) que bem atesta o valor catequético das imagens nas igrejas:

«A imagem é para os analfabetos aquilo que a letra é para os que sabem ler; mediante as imagens os analfabetos aprendem o que devem imitar; as imagens são o livro de leitura dos analfa­betos» (ep. IX 105. ed. Migne lat. 77, 1027).

Em conclusão, verifica-se que os cristãos observam o pre­ceito do Decálogo referente ao monoteísmo. preceito que dimana da lei natural mesma, sem estar presos à sobrecarga positiva (não fazer imagens) que a Lei de Moisés acrescentou a tal mandamento; o acréscimo positivo tinha sua razão de ser no regime do Antigo Testamento; carece, porém, de fun­damento no estado de coisas do Novo Testamento, em que já é lícito dar plena satisfação à índole psicossomática da natureza humana.

Também este assunto já foi abordado em «P. R.» 4/1957, qu. 4.

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Bíblia: o mundo foi criado em 6 dias?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 026/1960)


«A fé ensina que realmente o mundo foi criado em seis dias de 24 hs., como se costuma afirmar em nome da Escritura Sagrada?

E como seria possível que já houvesse luz, dia e noite antes da criação do sol, da lua e das estrelas, como insinua a mesma Escritura?»



As questões acima causam a muitos leitores da Bíblia dúvidas que lhes parecem decisivas contra a autoridade dos livros sagrados. Na verdade, trata-se simplesmente de problema mal formulado ou mesmo irreal. As dificuldades levantadas no caso se resolvem em princípio mediante a observação seguinte: a Bíblia, embora seja um Livro divino, foi redigida por autores humanos (Moisés, Davi, Isaías...), que Deus se dignou, sim, utilizar, sem, porém, derrogar ao costumeiro modo de escrever desses homens; a Sagrada Escritura, por conseguinte, foi composta conforme as regras de estilo usuais no período que vai do séc. XIII a. C. (Moisés) até o fim do séc. I d. C. (S. João Evangelista). Torna-se então evidente que não se pode perceber o significado autêntico das páginas sagradas sem se apli­carem ao texto estudado os critérios de interpretação usuais na análise de qualquer documento da literatura humana; ora entre estes critérios se acham a consideração da mentalidade do autor respectivo, da época em que escreveu, a verificação das fontes que usou, do círculo de leitores que teve em mira... A exegese bíblica, por muito que isto surpreenda, não dispensa esses recursos usuais em qualquer exame literário; donde se vê que não basta simplesmente a piedade para se entender a Bíblia (embora a piedade tenha partes preponde­rantes, sem dúvida), mas requer-se um pouco de cultura humana.

Tendo em vista estas premissas, passemos ao tema da criação do mundo na Escritura Sagrada. Verificamos logo de início, que a Bíblia em mais de uma passagem apresenta a narrativa da criação; assim, em Gên l,l-2,4a ; 2,4b-3,24 ; Prov 8,25-31 ; Jó 38.4-35 ; SI 103. Contudo num só trecho, isto é, em Gên l, l-2,4a, descreve a ação de Deus dentro do esquema de «seis dias de trabalho e um de repouso» (donde o nome de «hexaémeron» que toca a essa passagem: em grego, hex = seis ; heméra = dia). Ora isto já chama a atenção do crítico, pois significa que o trecho de Gên l, l-2.4a é bloco literário independente das passagens que versam sobre o mesmo assunto; parece obedecer a regras de estilo e a fina­lidade próprias. Donde se segue que, para averiguarmos se a Bíblia realmente ensina a criação do mundo em seis dias, é necessário apliquemos nossa atenção à análise do chamado «hexaémeron». É o que vamos fazer, considerando primeira­mente o estilo da peça, para depois formular a sua genuína interpretação.

Justamente uma das falhas dos nossos manuais de História Sagrada consiste em que dão simplesmente como doutrina da Bíblia os dizeres de Gên l, l-2.4a. sem levarem em conta os textos bíblicos, paralelos referentes à criação do mundo nem as regras de estilo esquemático e simbolista do «hexaémeron».

1. O estilo da narrativa dos seis dias

1. Os estudiosos são unânimes em afirmar que o bloco de Gên l, l-2,4a, embora constitua a primeira página da Bíblia, foi redigido em época relativamente recente, ou seja, depois de muitas outras páginas bíblicas; e... redigido em estilo poético, não no estilo de um documento de ciências naturais.

Quais seriam as bases desta afirmação?

1) Já numa primeira aproximação chamam nossa aten­ção o ritmo muito burilado e o estilo polido da peça. O con­ceito de Deus que aí transparece, é assaz elevado ou filosó­fico: o Criador não é descrito antropomorficamente, à guisa de «Oleiro» nem de «Jardineiro», nem de «Cirurgião», nem de «Arquiteto», nem de «Alfaiate», como na passagem se­guinte (cf. Gên 2,7.8.21; 3.21). Ao contrário, o autor dá a ver que, unicamente pela expressão de sua vontade ou pela sua palavra, o Senhor Deus comunica existência a todos os seres. Ora tais características manifestam uma fase da men­talidade de Israel, humanamente falando, já bem amadurecida na escola do Senhor.

2) Toda a narrativa se dispõe dentro dos moldes de «sete dias», que parecem corresponder a sete estrofes de um poema. Essas estrofes, exceto apenas a sétima, repetem com certa variabilidade os sete seguintes elementos:

a) Ordem do Criador: «Disse Deus: Faça-se...».

b) Cumprimento da ordem; «E fez-se assim».

c) Execução (mais precisa descrição do efeito):

«E Deus fez o firmamento.... dois luzeiros... E a terra produziu a erva...».

d) Aprovação da obra: «Deus viu que era bom...».

e) Imposição do nome: «Deus chamou a luz Dia.... o firmamento Céu...

o Seco Terra...».

f» Bênção divina.

g) Indicação do dia (conclusão): «Houve tarde e manhã;

foi o 1°, 2°, 3° dia...».

3) O simbolismo dos números ou o emprego místico artificioso de certas cifras domina todo o texto do «hexaémeron».

Sabemos que, para os antigos, os números muitas vezes repre­sentavam não quantidades, mas qualidades; atribuídos a determinado sujeito, podiam indicar propriedades morais ou valores religiosos, não quantidades físicas nem valores matemáticos. Os números que gozavam de maior estimação, eram 3, 4, seus derivados 7 ( = 3 + 4), 12 ( = 3x4) e 10; cada um deles exprimia, do seu modo, a perfeição.

Eis como o emprego artificioso dos números se manifesta no «hexaémeron:

A distribuição de toda a narrativa em 6 + 1 dias (seis dias de trabalho e um de repouso) obedece a um proceder de estilo assaz usual nas antigas literaturas orientais. Significava que uma obra havia sido iniciada (6) e, por fim, consumada, rematada (+ 1); os escritores punham em relevo na série o número 7 ou a sétima unidade (símbolo da plenitude ou per­feição), para inculcar que a obra havia sido realmente levada a termo feliz, coisa que não sempre se dá nos empreendimentos humanos.

Eis apenas um exemplo da literatura não bíblica ilustrativo de tal proceder estilístico:

A narrativa babilônica do dilúvio apresenta a seguinte passagem:

«Junto ao monte de Nisir chega a nave,

O monte de Nisir deteve a nave, não mais a deixou mover-se;

Um dia, um segundo dia,

O monte de Nisir deteve a nave, não mais a deixou mover-se;

Um terceiro, um quarto dia,

O monte de Nisir deteve a nave, não mais a deixou mover-se;

Um quinto, um sexto dia,

O monte de Nisir deteve a nave, não mais a deixou mover-se;

Quando chegou o sétimo dia,

Fez sair uma pomba, deixou-a partir».

(Gilgamesh t. XI cc. 141-7).

Na literatura bíblica, veja-se o esquema 6 + 1 em Jó 5.19; Prov 6,16.

Além disto, os primeiros números são, no «hexaémeron», empregados e realçados de maneira que bem se mostra intencional:

1 — Um só Criador. Deus (da unidade procede a multiplicidade);

2 — notem-se os pares «céu e terra», «informe e vazia»,

«luz e trevas», «tarde e manhã», «terra e água», «águas inferiores e águas superiores», «luzeiro maior e luzeiro menor»;

3 — três regiões: céu, águas e terra;

três espécies de plantas: ervas, cereais, árvores frutíferas; três espécies de animais aquáticos: monstros marinhos, peixes, voláteis (estes eram julgados habitar entre as águas inferiores e as superiores);

três espécies de animais terrestres: domésticos, répteis, sel­vagens ;

três categorias de astros: sol, lua e estrelas, com um conjun­to de três funções;

três imposições de nome: 1,5.8.10;

três bênçãos: 1,22.28; 2,3;

6 — seis dias de trabalho;

7 — sete dias em toda a narrativa;

sete aprovações;

sete vezes «E assim se fez»;

sete fórmulas que se repetem em toda a narrativa;

10 — dez vezes «Deus disse...»;

12 — Doze são as ações atribuídas a Deus em toda a obra da

criação: criar, pairar, dizer, ver, separar, nomear, fazer,

colocar, abençoar, consumar, repousar-se, santificar;

doze vezes é mencionada a água (elemento importantíssimo em Gên 1!).

4) Confirma-se a conclusão decorrente dos itens acima, caso se compare o «hexaémeron» com os outros textos da Sagrada Escritura que narram, também eles, a criação do mundo. Embora aludam aos mesmos elementos mencionados pelo «hexaémeron» (caos inicial, estrelas, águas e terra, ani­mais irracionais e homem), de modo nenhum referem o es­quema de seis dias e a ordem de aparecimento das criaturas que ocorrem no texto de Gên 1. Ora, se esse esquema e essa ordem fossem realmente históricos, é de pressupor que os outros textos os apresentassem ou ao menos insinuassem; já, porém, que isto não se dá, conclui-se que a moldura dos seis dias e a sucessão de obras que eles enquadram, são mero ar­tifício do autor do «hexaémeron».

2. A intenção do autor sagrado

1. O exame literário do texto de Gên l,l-2,4a acaba de evidenciar que o escritor não tinha em vista redigir um do­cumento de índole científica para nos instruir sobre as fases pelas quais passou o mundo na sua formação. Não; o setor das ciências naturais ou a «Física» ficava fora das preocupa­ções do autor; o que lhe interessava, era apresentar a «Meta­física» ou o aspecto transcendente, religioso, do mundo e do homem. Para realizar essa tarefa, é claro que o escritor tinha que aludir às criaturas, mencionando as principais categorias destas, a fim de as relacionar com Deus. Em sua maneira de aludir, teria podido servir-se (se o Espírito Santo o tivesse iluminado especialmente) da nomenclatura usual no século XX: haveria então falado da Via Látea e das galáxias esparsas pelos espaços cósmicos, haveria mencionado as eras geológicas que conhecemos, a energia nuclear, a estrutura da matéria com seus eletrônios. . . Contudo, o Senhor não quis revelar tais noções ao antigo escritor judeu, pois as ciências naturais não são propriamente o objeto visado pela Bíblia; para obter o seu fim, bastava que o autor usasse da linguagem de sua época antiga; foi o que de fato se deu. Donde se vê quão importante se torna tomarmos consciência das concepções e da nomenclatura de cosmologia dos antigos judeus, para en­tendermos devidamente o «hexaémeron».

2. Quais eram, pois, essas concepções?

Os orientais costumavam dividir o universo em três re­giões circulares e concêntricas: a de cima seria a dos ares; a do meio, a das águas, enquanto o globo central seria a re­gião da terra. Pois bem; para dizer que essas três regiões com tudo que elas contêm, são obra de Deus, o autor israelita apresentou a atividade do Criador distribuída por duas séries de três dias de trabalho: na primeira série ou nos três primeiros dias ele quis descrever o Senhor a constituir as regiões ou os compartimentos como tais ; a seguir, na segunda série ou nos três últimos dias, mostrou o Senhor a colocar os habi­tantes nas respectivas regiões.

Antes, porém, de mencionar a constituição dos habitáculos, ou seja, antes da primeira série de três dias, o autor sagrado referiu a criação da matéria em seu estado primordial, caótico: essa matéria, diz ele, constava de uma massa de terra («a terra informe e vazia»; 1,2), envolvida de águas («abismo», «águas», 1,2), sendo isso tudo cercado de trevas (1.2). — Do outro lado, ao terminar a série dos seis dias, o escritor quis apresentar o Senhor Deus à guisa de operário que entra no merecido repouso após encerrada a sua tarefa; donde o sétimo dia da série (2,1-3).

Desses dados resulta o esquema seguinte:

I. Criação da matéria caótica

(terra, águas, trevas): 1,1-2

II. Distinção das três regiões do universo

Dia Constitui-se a

1° Região do Céu... 1,3-5

2° Região das Águas 1,6-8

3° Região da Terra 1,9-13

III. Produção dos habitantes das regiões

São produzidos os habitantes Dia

1.14-19 Astros....................4°

1,20-23 Peixes, voláteis ___ 5°

1,24-31 Animais terrestres,

----------------homem .......... 6°

IV. Repouso, bênção final

7° dia — 2.1-3

3. Como se vê, foram em parte os pressupostos contin­gentes da cosmologia judaica que levaram o autor sagrado a apresentar a criação dentro do esquema de seis dias de tra­balho e um de repouso. O escritor tinha necessariamente que recorrer a esses pressupostos, porque precisava de mencionar as diversas criaturas visíveis; não intencionava, porém, dar a autoridade de dogmas a tais informações cosmológicas. Sendo assim, está claro que hoje em dia, uma vez ultrapassadas as concepções de ciência dos judeus, ninguém se deve julgar obrigado (melhor ainda: ninguém se pode julgar habilitado) a ensinar em nome da S. Escritura que o mundo foi feito den­tro da moldura de 3 + 3 dias.

Mais dois outros motivos (importantes, na mente do hagiógrafo) devem ter concorrido para a descrição da criação em seis dias de trabalho e um de repouso. Seriam:

a) o simbolismo do número 7, principalmente quando disposto segundo o esquema 6 + 1 (tenha-se em vista o que atrás dissemos neste particular);

b) o intuito de inculcar a lei do repouso semanal. Em toda e qualquer fase da história, é necessário que o homem periodicamente se distancie de seus afazeres terrestres e, de­simpedido, eleve o espírito a Deus; ora o próprio curso da natureza sugere que tal distanciamento se dê de sete em sete dias, pois cada semana representa uma fase nova da Lua, fase que não raro provoca mudança no ritmo da vida terrestre. Consciente, pois, da vantagem de que o povo de Deus obser­vasse o descanso semanal, consagrando-o ao Senhor, Moisés o formulou expressamente entre os preceitos da Lei; mais tarde, visando dar o máximo de autoridade a tal mandamento, um escritor sagrado de Israel, representando talvez a menta­lidade dos levitas e sacerdotes, houve por bem (sob a moção do Espírito Santo) apresentar em Gên l, l-2,4a o próprio Deus à semelhança de Operário Modelo,. . . Operário Modelo que enquadra sua atividade dentro da moldura de seis dias de fadiga seguidos por um sétimo de descanso. Por conseguinte retenha-se que o esquema de seis dias de trabalho e um de repouso, em Gên l, l-2,4a, foi influenciado pela lei do sábado já anteriormente vigente em Israel ; não se julgue que, ao contrário, o mundo foi primeiramente criado em seis dias e que, por causa disto, Moisés instituiu o repouso do sétimo dia.

Estas considerações nos permitem proferir um juízo sobre a tese (dita «concordista») que equipara os seis dias da criação de Gên 1 a seis eras de formação do mundo descritas pelos geólogos. — Os fatores de tal sentença supõem que o escritor sagrado tenha nutrido a mesma intenção que o geólogo: a intenção de ensinar ciências naturais; em conseqüência, julgam-se obrigados a desco­brir nas páginas bíblicas os mesmos ensinamentos (de ordem cien­tífica e profana) que se lêem nos compêndios de ciências naturais. O pressuposto, porém, é falso; por conseguinte, errônea também é a equiparação dos seis dias do «hexaémeron» a seis eras geoló­gicas. Ademais a mencionada sentença não leva em conta a intenção (suficientemente patenteada pelo hagiógrafo) de adaptar a sublime atividade do Criador ao esquema de atividade previamente concebido para o povo escolhido, esquema de seis dias de 24 horas, em que há manhã e tarde...; note-se bem como o hagiógrafo insistentemente repete que cada dia da criação teve sua manhã e sua tarde... A respeito do «concordismo», veja «P. R.» 23/1959, qu. 3.

Recapitulando, verificamos que o esquema de seis dias de trabalho e um de repouso, sem pretender incutir alguma tese de ciências naturais, se explica pelos três seguintes motivos:

1) o autor sagrado, visando ensinar qual o sentido que este mundo tem aos olhos de Deus, teve que se servir da linguagem que os antigos israelitas usavam quando se referiam ao mundo;

b) igual dignidade convém ao varão e à mulher, pois ambos foram feitos à imagem e semelhança de Deus;

c) o matrimônio é algo de santo, instituído e abençoado pelo próprio Deus, não simplesmente para que o homem sa­tisfaça a si, mas a fim de que cumpra um desígnio divino.

Eis as verdades perenes que o texto sagrado, sob vestes literárias anteriores à era cristã, tem a dizer ao homem do século XX! Nessa escola, sem dúvida, muitos estudiosos con­temporâneos terão algo que aprender.

Bíblia - A bíblia foi inspirada por Deus?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 026/1960)



«Dado que se admitam fontes na redação do Gênesis e dos livros bíblicos em geral, como se pode ainda asseverar que tais livros são inspirados por Deus?»

A resposta se evidencia sem dificuldade desde que se tenha em mente o genuíno conceito de inspiração bíblica.

Como já dissemos em «P. R.» 21/1959, qu. 5, a inspiração bíblica não significa revelação, isto é: inspirando uma página da Sagrada Escritura, Deus de modo nenhum comunicava ao autor sagrado verdades que ele não tivesse aprendido na escola de seu povo e de sua época mesma.

Verificava-se apenas o seguinte: supondo o cabedal de noções religiosas ou profanas já existentes na mente do escritor, o Senhor iluminava a este de tal modo que ele percebesse, com a clareza e a certeza do próprio Deus, serem tais e tais noções previamente adquiridas os veículos fiéis da mensagem que o Senhor Deus queria transmitir aos homens;... serem tais e tais outras noções ineptas para esse fim. Em conseqüência dessa iluminação, o que o autor escreveu e consignou na Bíblia Sagrada, é dito «inspi­rado por Deus». Tal é o alcance da inspiração bíblica; não seria lícito dilatá-lo arbitrariamente.

Faça-se agora a aplicação de tal conceito de inspiração ao problema das fontes utilizadas na Bíblia. Tais fontes ou documentos (como, por exemplo, os códigos J, P, E, Dt no Pentateuco) podem ter sido redigidos diretamente sob a in­fluência da inspiração bíblica ou não. No primeiro caso, não há problema. No segundo caso, acontecia o seguinte: quando o documento redigido independentemente da inspiração bíblica estava para ser utilizado pelo hagiógrafo (fosse este o redator principal de um livro bíblico, fosse apenas um autor posterior que completasse determinado livro bíblico), tal hagiógrafo re­cebia a iluminação de que falamos atrás: tudo que, em con­seqüência desta iluminação, o autor transcrevesse de sua fonte, passava a ser a palavra do hagiógrafo ou — em outros ter­mos — a Palavra de Deus inspirada ao hagiógrafo.

«Dando a luz da inspiração,... Deus comunicava à vontade do hagiógrafo o impulso necessário... para rejeitar ou para admitir. Desde então essa página humana tomava outra índole: fazendo-a

elementos, em sua origem primária, sumariamente... em sua exis­tência, essa página se tornava divina, garantida por Deus, inserida no livro de Deus, por especial efeito de sua vontade» (Lagrange, L'inspiration des livres saints, em «Revue biblique» 1896, 215s).

Em conseqüência, deve-se dizer que todos os textos bíbli­cos são inspirados, qualquer que seja a sua origem; para se afirmar isto, basta que sejam textos canônicos, isto é, textos que integram realmente o Livro Sagrado reconhecido pela Santa Igreja.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Alma: o que é a alma humana?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 003/1957)

De modo geral, denomina-se alma o princípio vital que anima ou faz viver a matéria orgânica. Embora não se saiba definir exatamente em que consiste a vida, costuma-se dizer que é auto-moção ou “moção de si mesmo”. Distinguem-se três graus de vida:

- a vida meramente vegetativa, cujas funções são nutrimento, crescimento e multiplicação da espécie;

- a vida sensitiva, que, além das funções anteriores, pos­sui a faculdade de conhecer, mediante os sentidos (órgãos do corpo), objetos concretos, dotados de tamanho, cor, sabor, sonoridade, etc. ; só atinge objetos dimensionais;

- a vida intelectiva, que tem, a mais, a função de elaborar noções abstraías, depuradas das dimensões e outras notas concretas, contingentes, com que os seres aparecem na natu­reza ; a inteligência, por exemplo, elaborando os dados rece­bidos pelos sentidos, chega à conclusão de que o «homem» não é somente Pedro, Paulo, João..., mas todo vivente (branco ou negro, alto ou baixo, masculino ou feminino) capaz de raciocinar ou racional. Um dos sinais mais característicos da presença do intelecto ou da vida intelectiva num determinado sujeito é a faculdade de falar, a qual supõe sempre um poder superior aos sentidos, coordenador das impressões recebidas por estes («se o chimpanzé tem a possibilidade de falar, mas na realidade não fala, entenda-se que a função de falar, em sua essência, não é função orgânica, mas função intelectual e espiritual», G. Gusdorf, La Parole. Paris 1953,4). Outra ca­racterística do ser intelectivo é o riso, que supõe a admiração, ou seja, o conhecimento abstrativo e lento que se faz por meio do raciocínio.

Na base desta tríplice distinção, fala-se de alma (prin­cípio vital) vegetativa, alma sensitiva e alma intelectiva.

Cada indivíduo possui uma alma só, que satisfaz a todas as funções de sua vida.

A alma intelectiva é própria do homem. Difere da vegeta­tiva e da sensitiva pelo fato de que, como acima dissemos, es­tas não têm funções que transcendam os limites da matéria; são materiais; por isto são produzidas pela potencialidade mesma da matéria e reabsorvidas por esta, quando cessam as disposições do corpo necessárias para que exerçam suas fun­ções. A alma intelectiva, ao contrário, possui atividade supe­rior à do corpo; é capaz de conhecer o que não cai direta-mente sob os sentidos (embora se sirva do conhecimento sen­sitivo como de base das suas elucubrações); conhece, por exem­plo, a causa invisível de um efeito visível, as relações entre os meios e determinado fim, aquilo que é essencial e perene em indivíduos diversificados por notas contingentes, etc. Por isto a alma humana não é material, mas «espiritual» (o modo de ser e o modo de agir de um indivíduo são estritamente corre­lativos entre si); o que mais precisamente significa: ela não tem extensão, nem tamanho, nem cor, nem sabor, nem figura, sem que por isto deixe de ser muito real (Deus também não tem figura nem cor). Daqui se segue, como melhor se dirá abaixo (nº. 2) que a alma humana tem origem independente da matéria e pode subsistir fora ou independentemente desta.

Dada a transcendência da alma humana em relação à da planta e à do animal irracional, costuma-se reservar o nome alma para o que concerne ao homem, chamando-se simples­mente princípio vital (vegetativo ou sensitivo) o elemento que vivifica as plantas e os irracionais.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Escapulário do Carmo

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 008/1958)

«Como se explicam as promessas anexas ao escapulário do Carmo? A Justiça Divina poderia, simplesmente em atenção a essa insígnia, permitir que um pecador endurecido não seja condenado?»
Dividiremos a resposta em três etapas: 1) origem do escapulário como tal; 2) privilégios anexos ao escapulário do Carmo; 3) valor histórico e significado religioso dos mesmos.

1. Origem do escapulário

O escapulário (do latim scapula, espádua) é uma longa peça de pano que das espáduas desce sobre o peito e as costas de quem a traja, recobrindo a respectiva túnica. Ini cialmente servia de avental durante o trabalho manual. Muito usado entre os monges, tornou-se uma das insígnias carac terísticas das Ordens monásticas e religiosas em geral.

Na Idade Média as Ordens Religiosas propriamente ditas foram criando em torno de si o que se chama «as Ordens Terceiras» (ou as famílias de «Oblatos» e «Oblatas»), compostas de pessoas seculares desejosas de viver em contato assíduo com os mosteiros e conventos (a «Ordem Segunda» era o ramo feminino, enclausurado, de uma Ordem masculina dita Primeira»). Os terciários e Oblatos receberam, como distin tivo de seu estado, o escapulário. Aos poucos, este foi sendo adotado até pelas Confrarias, associações remotamente vei culadas a determinada Ordem. Então, para facilitar o uso da insígnia, os Superiores religiosos resolveram admitir, ao lado do escapulário grande, o escapulário pequeno, que consta de dois retângulos de pano de lã ligados entre si por duas fitas, de sorte a poder ser trazidos pelos irmãos dia e noite sobre o peito e as costas. É esta a forma hoje em dia mais comumente adotada pelos fiéis que vivem no mundo.

Distinguem-se atualmente vários tipos de escapulários segundo as diversas Ordens Religiosas e modalidades da piedade cristã: o mais famoso é o escapulário marron ou negro, da Or dem do Carmo, ao lado do qual se podem citar: o escapulário branco, da SSma. Trindade, propagado a partir de 1200; o escapulário negro, das Sete Dores de Maria, devido aos Servitas, a partir de 1255; o escapulário azul, da Imaculada Conceição, concedido em 1691 e 1710 aos Teatinos; o escapulá rio vermelho, dedicado à Paixão do Senhor, difundido pelos Lazaristas e aprovado em 1847.

O uso do escapulário não visa apenas ornamentar o res pectivo portador. Ao contrário, tem valor religioso digno de nota: significando a filiação a uma Ordem ou Confraria, implica, em quem o traz, o desejo sincero de praticar os conselhos evangélicos (cf. Mt 19,21), na medida em que são aplicáveis à vida no século. Além disto, significa participação nos bens espirituais de que goza a respectiva família religiosa; costuma ser bento e entregue aos fiéis segundo determinado ritual, tornando-se assim um sacramental, ou seja, objeto que comuni ca a graça em quem o usa com fé e caridade. Vê-se, por conseguinte, que, embora sejam múltiplos os tipos de escapulá rio, têm todos a mesma finalidade: significar e, ao mesmo tempo, fomentar o serviço aprimorado de Deus, que é a grande devoção de todos os cristãos.

2. Os privilégios anexos ao escapulário do Carmo

Dentre os favores espirituais outorgados ao uso do esca pulário, sobressaem os que se prendem ao da Ordem do Carmo.

Quais são precisamente?

Enunciam-se dois: a) o privilégio de uma boa morte; b) a pronta libertação do purgatório.
a) A graça da boa morte teria sido prometida pela SSma. Virgem numa aparição a S. Simão Stock, sexto Superior Geral dos Carmelitas (1242-1265), em Cambridge, aos 16 de julho de 1251. Trazendo em mão o hábito da Ordem, teria dito a excelsa Senhora: «Eis o privilégio que dou a ti e a todos os filhos do Carmelo: todo aquele que morrer, revestido por este hábito, será salvo».
b) O privilégio «sabatino» afirma que a Virgem SSma. liberta do purgatório os irmãos filiados à Ordem do Carmelo no primeiro sábado após a morte de cada um. Este favor, dizem, foi revelado pela própria Mãe de Deus ao Papa João XXII, provavelmente na véspera de sua eleição. O mesmo Pontífice terá anunciado aos fiéis tal graça e várias outras concedidas à Ordem do Carmo mediante a bula «Sacratissimo uti culmine» de 3 de março de 1317.

3. Valor histórico e significado religioso de tais privilégios

a) Os documentos sobre os quais se baseia a afirmação dos dois privilégios têm despertado a atenção dos estudiosos, levando-os a perguntar se são fontes históricas de todo fide dignas.
Examinemos o que consta.

O primeiro documento que refere a aparição da Bem-aventurada Virgem a S. Simão Stock, data do ano de 1430 aproximadamente: é o chamado «Viridarium» do Prior Geral Carmelita João Grossi (cf. Daniel a S. Virg. Maria, Speculum Carmelitarum I. Antverpia 1680,131). Entre o ano em que se terá dado a visão (1251) e a data acima, a história não apresenta documento algum que relate o caso.

No ano de 1642 apareceu pela primeira vez em público, por iniciativa do Pe. Provincial João Chéron O. C, uma carta circular de Simão Stock aos religiosos de sua Ordem, carta em que o Prior Geral referia a aparição e as palavras de Maria. Este documento teria sido ditado pelo Santo a seu secretário, Pe. Swanyngton. Denegam fé a esse instrumento os historiado res modernos, inclusive os Carmelitas (cf. Annales Ord. Carm. 1927 e 1929).

Quanto ao privilégio «sabatino», desde o séc. XVII contes ta-se a autenticidade da bula de João XXII que o anuncia ao mundo cristão. Entre a data que este documento traz (1317) e o ano de 1461 não há menção da bula na tradição. O primeiro autor que a deu a conhecer foi o Carmelita Balduíno Leersius (†1483). Hoje em dia não há quem afirme a autenticidade de tal documento. O próprio Pe. Zimmermann na sua coleção de documentos referentes à Ordem do Carmo (Monumenta histó rica Carmelitana 1356-363) renunciou a defendê-la. — No texto mesmo da bula paira dúvida sobre uma das passagens principais: lê-se no original latino que a Virgem SSma. liber tará do purgatório súbito (em breve, sem demora) ou, conforme outros códigos, sabbato, no sábado seguinte à morte, as almas dos seus fiéis.

Ademais notam os historiadores que até o séc. XV os membros da Ordem do Carmo não atribuíam maior importân cia ao uso do escapulário do que os filhos de outras Ordens.

Eis o que, do ponto de vista historiográfico, se poderia dizer sobre as promessas anexas ao escapulário do Carmo.

b) Pergunta-se agora: que resulta disso tudo para a piedade dos fiéis?

Deve-se reconhecer que uma série de Papas, a partir do séc XVI, tem favorecido o uso do escapulário do Carmo, enriquecendo-o com novas indulgências e permitindo sejam anunciadas aos fiéis as duas promessas acima. Ao fazer isso, porém, nenhum Pontífice intencionou dar definição dogmática cobre o assunto; os Papas apenas quiseram fazer da piedosa crença vigente um estímulo para a piedade dos fiéis. As promessas anexas ao escapulário do Carmo, por conseguinte, ficam pertencendo ao setor das revelações particulares, que cada cristão é livre de admitir ou não, seguindo os critérios que lhe pareçam mais fidedignos.

Observe-se, porém, que o privilégio da boa morte (a pri meira das duas promessas) jamais poderá ser entendido em sentido mecânico, como se o uso mesmo do escapulário, inde pendentemente do teor de vida moral do cristão, fosse sufi ciente para garantir a salvação eterna. Não; o portador do escapulário deverá cultivar as virtudes cristãs para que a dita insígnia lhe possa valer como penhor de especial tutela de Maria SSma. na hora da morte. Foi o que o Papa Leão XIII quis inculcar, quando, ao aprovar o Ofício de S. Simão Stock para os católicos ingleses, mandou inserir no texto respectivo uma palavrinha que não se achava no original apresentado a S. Santidade: «Todo aquele que morrer piedosamente trajando esse hábito, não sofrerá as chamas do inferno». Conseqüente mente comenta J.-B. Terrien: «Certamente os antigos consideravam o escapulário como penhor de predestinação, mas não chegavam, como penso, ao ponto de dizer que não restem dúvidas justificadas a respeito da salvação de um pecador que na hora da morte rejeita o amparo da religião, embora tenha trazido até o último suspiro a veste sagrada de Maria» (La Mère de Dieu et la Mère des hommes IV 304).

As boas disposições espirituais são também exigidas por um comentário do privilégio, comentário atribuído a S. Simão Stock: «Conservando, meus irmãos, esta palavra em vossos corações, esforçai-vos por assegurar vossa eleição mediante boas obras e por jamais desfalecer; vigiai em ação de graças por tão grande beneficio; orai incessantemente a fim de que a promessa a mim comunicada se cumpra para a glória da SSma. Trindade... e da Virgem sempre bendita» (cf. Bento XIV, De festis B. V. c. VI §§ 7-8).

No tocante ao segundo privilégio, devem-se observar os termos precisos segundo os quais a Santa Sé se tem referido a ele. Um decreto do S. Ofício datado de 15 de fevereiro de 1615 (sob o Papa Paulo V) e renovado pela S. Congregação das Indulgências a 1° de dezembro de 1885 assinala a atitude definitiva do magistério da Igreja sobre o assunto: sem proferir palavra acerca da autenticidade da controvertida bula de João XXII, admite que a Virgem Maria recobrirá com a sua proteção materna, principalmente no sábado (fórmula devida à ambi güidade do texto acima referido: súbito... sabbato...?), dia consagrado ao seu culto, as almas daqueles que na terra tive rem sido seus fiéis servos.

Aos 4 de julho de 1908, a S. Congregação aprovou uma Súmula de indulgências e privilégios concedidos à Confraria do Escapulário do Carmo, em que se lê verbalmente o seguinte: «O privilégio comumente chamado sabatino, de João XXII, aprovado e confirmado por Clemente VII, Ex clementis, aos 12 de agosto de 1530, por Pio V, Superna dispositione, aos 18 de fevereiro de 1566, por Gregório XIII, Ut laudes, aos 18 de setembro de 1577, e por outros, assim como pelo decreto da S. Inquisição Romana sob Paulo V, aos 20 de janeiro de 1613, declara: 'É permitido aos Padres Carmelitas pregar que os fiéis podem admitir a piedosa crença no auxílio concedido após a morte aos Religiosos e confrades da Asso ciação de Nossa Senhora do Monte Carmelo'. Com efeito, é permitido crer que a SSma. Virgem socorra às almas dos Religiosos e confrades falecidos em estado de graça, contanto que tenham trazido durante a vida o escapulário, tenham guardado a castidade do seu estado e recitado o Ofício Parvo da Virgem ou, se não sabem ler, tenham observado os jejuns da Igreja e praticado a abstinência de carne às quartas e sábados, a menos que a festa de Natal caia num desses dias. As orações contínuas de Maria, seus piedosos sufrágios, seus méritos e sua especial proteção lhes são assegurados após a morte, principalmente no sábado, que é o dia consagrado pela Igreja à SSma. Virgem».

Neste documento chama a nossa atenção, de um lado, o fato de não serem mencionadas nem a aparição da SSma. Virgem nem a bula de João XXII «Sacratissimo uti culmine»; de outro lado, verifica-se que, independentemente desses tópicos, a Santa Sé aprecia a fidelidade ao escapulário do Carmo, mencionando especial proteção de Maria para os verdadeiros devotos do mesmo (o que certamente exclui o porte meramente mecâ nico de tal insígnia); o documento, porém, não fala de libertação do purgatório no primeiro sábado após a morte, preferindo a fórmula mais geral: «especial proteção». — Como quer que seja, a idéia de sábado no purgatório teria que ser entendida em sentido largo ou translato, visto que a sucessão de dias da semana só pode ser critério na terra, onde o tempo é medido pelo movimento dos corpos; no purgatório há apenas almas separadas de seus corpos.

As considerações e conclusões acima talvez causem surpresa em um ou outro dos nossos leitores. Foram contudo ditadas pela objetividade dos documentos e fatos. Não acarretam, de modo algum, detrimento para a piedade. Muito ao contrário; esta tanto mais forte e frutuosa é quanto mais alicerçada sobre a verdade e o «sentire cum Ecclesia», sobre as normas e declarações da Esposa de Cristo. A cada cristão fica a liberdade de se santificar dando fé às promessas anexas ao escapulário do Carmo. A finalidade destas linhas era apenas a de remover qualquer concepção teologicamente errônea a respeito da tradi cional devoção.

BIBLIOGRAFIA:
A. Michel. Scapulaire, em «Dictionnaire de Théologie Catholique» XIV 1. Paris 1939, 1254-9.
K. Bihlmeyer, Skapulier, em «Lexikon für Théologie und Kirche» IX 617.
N. Paulus, Geschichte des Ablasses im Mittelalter II. 1923.
Beringer-Steinen, Les indulgences. Paris 1925.

Escapulário do Carmo




Depois do terço, é a principal devoção mariana.

Quem o usar devotamente Nossa Senhora prometeu as maior graças que uma pessoa pode receber aqui na terra: a salvação e ficarmos pouco tempo no Purgatório (se precisarmos passar por ele).

A salvação:
Em 16 de julho de 1251 Nossa Senhora apareceu a São Simão Stock e entregando-lhe o Escapulário prometeu que todos aqueles que o usarem devotamente se salvarão.

Ficar pouco tempo no Purgatório (privilégio sabatino):
À primeira promessa salvação, é preciso acrescentar o chamado privilégio sabatino. Por este privilégio, a pessoa que usar piedosamente o escapulário, Nossa Senhora a tirará do Purgatório (se lá estiver) e a levará para o Céu no sábado seguinte após a morte. Esta promessa da Santíssima Virgem foi comunicada ao papa João XXII e transmitida na bula Sacratissimo ut culmine no dia 3 de março de 1322.

Os privilégios que acompanham o Escapulário do Carmo são:
1 - Quem morrer com o Santo Escapulário do Carmo não padecerá o fogo do inferno;
2 - A Virgem do Carmo livrará o quanto antes, principalmente no sábado depois da morte, à quantos forem ao purgatório morrendo com o Escapulário;
3 - O Escapulário do Carmo é salvação em todos os perigos, prometida pela Virgem Santíssima do Carmo;
4 - Cada vez que se beija o Escapulário, ganham- se 500 dias de indulgência;
5 - O Escapulário é sinal de irmandade com a Virgem Maria;
6 - O Escapulário do Carmo é sinal de paz e do pacto sempre terno de concórdia, garantido por Maria Santíssima;
7 - O Escapulário é sinal de salvação, prometido pela Virgem Maria;
8 - O Escapulário do Carmo está enriquecido pela Igreja com inúmeras indulgências;
9 - O Escapulário do Carmo é um meio simples e prático de honrar à Virgem Maria;
10 - O Escapulário do Carmo é garantia de preservação da fé e da firmeza na devoção à Virgem Maria, devoção que por sua vez é sinal de predestinação.

Para que estas promessas sejam válidas, não basta comprar o Escapulário e usá-lo. É preciso que o sacerdote, através de uma breve cerimônia, faça a sua imposição em cada fiel.

Para um esclarecimento mais profundo, consultar:
http://melhorsobre.blogspot.com/search/label/Escapulário

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Confissão: exame de consciência

Para fazer uma boa confissão  é necessário:
1. Examinar a consciência, isto é, recordar na presença de Deus todos os pecados cometidos e ainda não confessados por pensamentos, palavras, atos e omissões, contra os Mandamentos de Deus e da Igreja, e contra as obrigações do próprio estado.
2. Ter dor por ter ofendido a Deus. Consiste num desgosto e numa sincera detestação da ofensa feita a Deus. A dor deve ser: interna, sobrenatural, suma e universal. A dor dos nossos pecados é o mais importante de tudo: se faltar, a confissão é nula.
3.Fazer o propósito de não tornar a pecar. Ter uma firme resolução de não tomar a pecar e de empregar os meios necessários para evitar o pecado.
4. Declarar sinceramente os pecados ao confessar, detalhando a espécie de pecado e o número, se são graves. A acusação deve ser: humilde, sincera, prudente e breve.
5. Cumprir a penitência.


ADULTOS


Oração. Meu Senhor e meu Deus! Dai-me luz para conhecer os meus pecados, as causas deles e os meios de os evitar. Dai-me a fortaleza de os confessar com toda a fidelidade e verdade, para merecer agora o vosso perdão e a graça da perseverança final. Por Jesus Cristo Senhor nosso. Amém.


As perguntas que se seguem pretendem ser apenas um guia para o exame de consciência. Alguns destes pontos não se referem propriamente a pecados, mas a defeitos e más inclinações que são raízes do pecado. Servirão para a luta pessoal e para fazer propósitos concretos. Para discernir com critério seguro o que é grave, o que é leve ou apenas inconveniente, é preciso seguir o juízo da própria consciência, desde que esta esteja bem formada, com um conhecimento seguro da doutrina cristã. Como é freqüente que haja algumas dúvidas, o melhor meio de esclarecê-las é a consulta a um confessor de bom critério.


A Confissão precedente
  • Há quanto tempo confessei-me pela última vez? Deixei algum pecado grave por confessar? Cumpri a penitência?
Primeiro Mandamento da Lei de Deus
  • Tenho posto em dúvida ou negado deliberadamente alguma verdade de fé?
  • Desesperei da minha salvação ou abusei da confiança em Deus, presumindo que Ele não me abandonaria, para pecar com maior tranqüilidade?
  • Murmurei externa ou internamente contra o Senhor, quando me aconteceu algo desagradável?
  • Abandonei os meios necessários para a salvação: a oração, os sacramentos, etc?
  • Falei sem respeito das coisas santas, da Igreja e dos seus sacerdotes, e dos Sacramentos?
  • Pratiquei atos de superstição ou espiritismo?
  • Recebi indignamente algum Sacramento?
  • Li livros, revistas ou jornais que vão contra a fé? Dei-os a ler a outras pessoas?
  • Freqüentei ou pertenço a alguma associação contrária à religião?
  • Deixei-me levar pela vergonha quando foi necessário confessar a fé diante dos outros?
  • Esforço-me por adquirir uma cultura religiosa que me permita ser testemunha de Cristo com o exemplo e com a palavra?
Segundo Mandamento da Lei de Deus
  • Blasfemei ou disse palavras injuriosas contra Deus, contra os Santos ou contra as coisas santas? Diante de outras pessoas?
  • Fiz algum voto, promessa ou juramento, e deixei de cumpri-lo por minha culpa?
  • Jurei sem necessidade? Jurei fazer alguma coisa injusta ou ilícita? Fiz um juramento falso? Reparei os prejuízos que daí tenham podido advir?
Terceiro Mandamento da Lei de Deus e Primeiro a Quarto da Igreja
  • Faltei à  Missa num domingo ou festa de guarda sem motivo suficiente? Distraí-me voluntariamente durante a Missa ou cheguei tão tarde que não cumpri o preceito?
  • Trabalhei nesses dias corporalmente (ou mandei trabalhar os outros) sem necessidade grave, durante um intervalo de tempo considerável?
  • Impedi que alguém que dependesse de mim assistisse à Santa Missa?
  • Guardei jejum e abstinência nos dias preceituados pela Igreja Católica?
  • Cumpri o preceito de confessar os pecados mortais pelo menos uma vez ao ano?
  • Tive em conta que só se pode receber a absolvição coletiva nos casos de emergência em que a Igreja o permite? Se, num desses casos, recebi a absolvição coletiva, cumpri com a obrigação de confessar individualmente a um sacerdote todos os pecados mortais que naquela ocasião não pude confessar?
  • Calei na Confissão, por vergonha, algum pecado grave? E depois disso comunguei alguma vez?
  • Recebi a Sagrada Comunhão no tempo estabelecido para cumprir com o preceito pascal? Confessei-me para fazê-lo em estado de graça?
  • Guardei a disposição do jejum eucarístico, uma hora antes do momento da Comunhão?
Quarto Mandamento da Lei de Deus. Filhos
  • Desobedeci aos meus pais e legítimos superiores em coisas importantes?
  • Tenho uma preocupação desordenada de independência, que me leva a receber mal as indicações dos meus pais?
  • Maltratei ou ameacei os meus pais com palavras ou ações, ou desejei-lhes algum mal?
  • Deixo-me dominar pelo mau gênio com freqüência e sem motivos justificados?
  • Briguei com os meus irmãos? Deixei de falar--lhes e de reconciliar-me com eles?
  • Dei mau exemplo aos meus irmãos ? Senti inveja se se destacaram mais do que eu em algum aspecto?
  • Fui preguiçoso no estudo, esquecido da responsabilidade que me cabe perante o esforço dos meus pais pela minha formação?
Quarto Mandamento da Lei de Deus. Pais
  • Dei mau exemplo aos meus filhos ou subordinados, não cumprindo os meus deveres religiosos, familiares, sociais ou profissionais?
  • Deixei de corrigir com firmeza e prontidão os defeitos dos meus filhos? Ameacei-os ou maltratei-os com palavras e obras ou desejei-lhes algum mal?
  • Corrijo sempre os meus filhos com justiça e por amor, ou deixo-me levar por motivos egoístas ou de vaidade pessoal, porque me fazem ficar mal diante dos outros, porque interrompem o meu descanso, etc?
  • Desleixei a minha obrigação de ajudar os filhos a cumprir os seus deveres religiosos?
  • Abusei da minha autoridade, obrigando-os a receber os Sacramentos, não reparando que poderiam fazê-lo sem as disposições convenientes, por vergonha ou respeitos humanos?
  • Sou inconstante na preocupação pela sua formação religiosa?
  • Permito que trabalhem, estudem ou descansem em lugares onde pode haver perigo para a sua alma ou para o seu corpo? Descurei a vigilância natural nas reuniões de rapazes e moças que se realizam na minha casa, deixando-os sozinhos? Sou imprudente na orientação dos seus divertimentos?
  • Tolerei escândalos ou perigos morais e físicos entre pessoas que vivem na minha casa?
  • Criei conflitos com os filhos, dando excessiva importância a coisas que se podem vencer com tempo e bom humor? Ou antes soube fazer-me amigo dos meus filhos?
  • Fui pouco amável na vida de família? Zanguei-me com a minha mulher (ou com o meu marido)? Tratei-a(o) mal, com palavras ou com obras? Diminuí a sua autoridade, repreendendo-a(o), contradizendo-a(o) ou discutindo com ela(ele) diante dos filhos?
  • Descuidei a fé na Providência divina? Ao mesmo tempo, desinteressei-me de ganhar o suficiente para poder ter ou educar mais filhos?
  • Deixei de ajudar, dentro das minhas possibilidades, os meus familiares nas suas necessidades espirituais ou materiais?
Quinto Mandamento da Lei de Deus
  • Tenho inimizade, ódio ou rancor contra alguém?
  • Deixei de falar com alguém e neguei-me à reconciliação, ou não faço o possível por consegui-la?
  • Alimento antipatias ou ódios pessoais por diferenças de opinião em matérias políticas ou profissionais?
  • Fiz ou desejei um mal grave a alguém? Alegrei-me com as desgraças alheias? Zombei dos outros, tive inveja deles, critiquei-os, incomodei-os ou fiz pouco deles? Deixei-me levar pela ira, magoando ou humilhando os outros?
  • Maltratei os outros com palavras ou ações? Peço coisas com maus modos, faltando à caridade?
  • Cheguei a ferir ou tirar a vida do próximo? Fui imprudente na condução de veículos? Aconselhei a alguém a prática do aborto, ou colaborei, com qualquer tipo de ajuda, na mesma?
  • Desleixei a minha saúde? Atentei contra a minha vida?
  • Embriaguei-me, comi ou bebi em excesso, ou tomei drogas?
  • Desejei morrer, sem me submeter à Divina Providência?
  • Desinteressei-me do bem do meu próximo, deixando de adverti-lo de algum grave perigo material ou espiritual em que se encontrava, ou de corrigi-lo como exige a caridade cristã? Descurei o meu trabalho, faltando à justiça em coisas importantes? Estou disposto a reparar o prejuízo que daí tenha podido resultar?
  • Abusei da confiança dos meus superiores? Prejudiquei os meus superiores, subordinados ou colegas, causando-lhes um dano grave?
  • Tolerei abusos ou injustiças que tinha obrigação de impedir?
  • Deixei que, pela minha preguiça, se produzissem prejuízos no meu trabalho? Descurei o meu rendimento em coisas importantes, prejudicando com isso as pessoas para quem trabalho?
Sexto e Nono Mandamentos da Lei de Deus
  • Entretive-me com pensamentos ou recordações desonestas?
  • Alimentei maus desejos contra a virtude da castidade, embora não os tenha posto em prática? Havia alguma circunstância na pessoa a quem se dirigiam (parentesco, matrimônio, consagração a Deus, etc.) que os tornasse mais graves?
  • Tive conversas imorais? Fui eu quem as começou?
  • Assisti a diversões que me colocaram em ocasião próxima de pecar? Tenho em conta que expor-me a essas ocasiões já é pecado?
  • Deixei de informar-me sobre a classificação moral de espetáculos, filmes, ou revistas e livros, antes de assistir a eles ou de lê-los, para evitar a ocasião próxima de pecado ou o perigo de deformação da consciência?
  • Descuido os pormenores de modéstia e pudor, que são garantia da castidade?
  • Entretive-me com olhares impuros ou aceitei sensações impuras?
  • Cometi alguma ação impura? Quantas vezes? Sozinho ou com outra pessoa? Do mesmo sexo ou do oposto? Havia alguma circunstância de parentesco, etc, que a tornasse especialmente grave? Essas relações tiveram alguma conseqüência? Fiz alguma coisa para a impedir depois de se ter formado uma nova vida?
  • Tenho amizades que são uma ocasião habitual de pecado? Estou disposto a pôr fim a elas?
  • Se estou namorando, o namoro me leva a afastar-me de Deus, ou antes aproximo-me com mais freqüência dos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, para ter mais graça de Deus?
Esposos
  • Usei do matrimônio indevidamente? Neguei ao meu cônjuge os seus direitos? Faltei à  fidelidade conjugai por pensamentos ou ações?
  • Usei do matrimônio somente nos dias em que sei que não pode haver descendência, não havendo razões graves para isso?
  • Tomei remédios para evitar os filhos? Aconselhei os outros a tomá-los?
  • Usei outros métodos antinaturais, ou fiz alguma operação para evitar filhos?
  • Influí de algum modo sobre os outros — com conselhos, piadas, atitudes, etc. — para criar um clima antinatalista?
Sétimo e Décimo Mandamentos da Lei de Deus. Quinto da Igreja
  • Roubei algum objeto ou alguma quantia em dinheiro? Reparei os prejuízos causados ou restituí as coisas roubadas, na medida das minhas possibilidades?
  • Ajudei alguém a roubar? Havia alguma circunstância agravante, como por exemplo tratar-se de um objeto sagrado? A quantia ou valor das coisas roubadas era importante?
  • Retenho o alheio contra a vontade do seu dono?
  • Caí no vício do jogo, pondo em risco ou prejudicando a economia familiar? Deixei de cumprir devidamente as obrigações do meu trabalho, que justificam o ordenado ou o salário que recebo? Deixei de prestar à Igreja a ajuda conveniente? Dei esmolas de acordo com a minha posição econômica?
  • Defraudei a minha mulher (o meu marido) nos seus bens?
  • Retenho ou atraso indevidamente o pagamento dos salários ou dos ordenados que me incumbe pagar?
  • Retribuí injustamente o trabalho dos outros? Deixei-me levar pelo favoritismo ou distinção de pessoas, faltando à justiça, no desempenho dos cargos ou funções públicas? Deixei de cumprir com exatidão os meus de-veres sociais; por exemplo, o pagamento dos seguros sociais dos meus empregados, etc? Deixei de pagar os impostos que são de justiça?
  • Fui omisso em procurar evitar, na medida das minhas possibilidades, as injustiças, subornos, escândalos, roubos, vinganças, fraudes e outros abusos que prejudicam a convivência social?
  • Prejudiquei alguém com enganos, coações, etc. nos contratos ou relações comerciais? Reparei o prejuízo causado ou tenho intenção de fazê-lo?
  • Dei o meu apoio a programas de ação social e política imorais ou anticristãos?
Oitavo Mandamento da Lei de Deus
  • Disse mentiras? Reparei os prejuízos que as minhas mentiras tenham podido causar? Minto habitualmente com a desculpa de que se trata de coisas de pouca importância?
  • Revelei sem motivo justo graves defeitos alheios que, embora certos, não eram conhecidos? Reparei de algum modo os prejuízos assim causados; por exemplo, falando depois dos aspectos positivos dessa pessoa?
  • Caluniei ou deixei caluniar, atribuindo ao próximo defeitos que não eram verdadeiros? Já reparei os males causados ou estou disposto a fazê-lo?
  • Revelei segredos importantes dos outros, descobrindo-os sem justa causa? Reparei o prejuízo que daí resultou?
  • Falei mal dos outros por frivolidade, inveja ou por ter-me deixado levar pelo temperamento?
  • Disse mal dos outros — pessoas ou instituições — baseando-me apenas em boatos? Quer dizer, cooperei deste modo com a calúnia e a murmuração?
  • Tenho presente que a diversidade de opiniões políticas, profissionais ou ideológicas, não deve ofuscar-me a ponto de julgar ou falar mal do próximo, e que essas divergências não são motivo para manifestar os seus defeitos morais, exceto se o bem comum assim o exigir?


EXAME PARA AS CRIANÇAS:


O meu comportamento com Deus
  • Rezo todos os dias, devagar e com atenção, as orações da manhã e da noite? Lembro-me de Deus durante o dia? Tenho o mau hábito de falar dEle com pouco respeito?
  • Assisto à Santa Missa aos domingos e dias de guarda sem preguiça? Escuto com atenção a Palavra de Deus? Acompanho bem as orações? Chego tarde à Missa ou assisto de má vontade, atrapalhando os outros?
  • Estudo bastante o catecismo? Tenho desejos de conhecer melhor Nosso Senhor? Quero fazer sempre o que Ele diz e comportar-me como Ele quer?
  • Na igreja, comporto-me com respeito? Lembro-me de que é a casa de Deus, ou corro, converso, passo pelo altar sem cumprimentar Jesus no sacrário com uma genuflexão bem feita? Vou à igreja mal vestido, com uma roupa imprópria?
  • Amo Nossa Senhora e converso todas as noites com Ela? Rezo por exemplo a Ave-Maria, pensando que Ela é a Mãe de Jesus e me ama como a um filho? Falo todas as manhãs com o Anjo da Guarda para que me acompanhe e me proteja durante todo o dia?
  • Quando recebo uma boa notícia, agradeço ao Senhor todas as coisas boas que Ele me deu? Ou penso que fui eu que fiz tudo e esqueço que é um presente do meu Pai-Deus?
O meu comportamento com a família e com o próximo
  • Sou carinhoso com o meu pai e a minha mãe? Sei agradecer o carinho que eles têm por mim? Ou respondo com má educação e os deixo tristes com o meu comportamento?
  • Obedeço rapidamente aos meus pais, sem reclamar? Sei que aquilo que me dizem é para o meu bem? Falo sempre a verdade, mesmo que tenha que passar vergonha? Gosto de ajudar em casa, ou quero que todos atendam aos meus pedidos e caprichos? Trato com respeito os meus avós e as pessoas mais velhas?
  • Sou egoísta com as minhas coisas? Quero-as só para mim, ou sei emprestá-las sempre e dividi-las com os meus irmãos e amigos?
  • Na escola, comporto-me bem com todos? Assisto bem às aulas, ou perco o tempo e atrapalho os meus colegas? Dedico ao estudo o tempo suficiente?
  • Sou mandão e brigo facilmente com os meus companheiros? Nas brincadeiras, quero vencer a todo o custo, mesmo roubando? Sou leal e respeito as regras do jogo? Sei perder sem ficar com raiva?
  • Sei ser amigo dos meus companheiros? Ajudo-os nas necessidades? Não caçoo deles? Sei perdoá-los quando me fazem um pequeno desaforo? Ou penso só em mim e nas minhas coisas, e tenho inveja das coisas que eles fazem?
  • Sou sincero? Falo sempre a verdade, mesmo que me custe? Ou pelo contrário invento coisas para ficar bem? Minto, digo que fiz coisas certas, quando na verdade fiz tudo errado e mal feito? Falo sempre a verdade aos meus pais?
O meu comportamento comigo mesmo
  • Peguei coisas que não são minhas? Roubei alguma coisa, mesmo de pouco valor? Uso mal as minhas coisas, desperdiçando-as ou estragando-as? Deixo de pegar para mim algumas coisas de que gosto, para oferecê-las a Jesus e dá-las aos pobres?
  • Faço logo as coisas que devo? Tenho má vontade e preguiça, escolho as coisas mais fáceis e deixo as outras para a última hora? Deixo tudo pela metade, faço mal ou não faço?
  • Sou desordenado? Deixo as coisas que uso jogadas de qualquer jeito? Sei ter e seguir um horário? Sou guloso e caprichoso? Estou sempre reclamando? Ou sei contentar-me com o que me dão?
  • Deixei-me levar pela curiosidade ruim? Olhei revistas e fotografias indecentes, ou programas de televisão que não prestam? Sei ter respeito por mim mesmo e pelo meu corpo? Evito gestos ou atos contrários à santa pureza? Cuido da higiene e da modéstia?
  • Uso uma linguagem grosseira? Ofendo os outros? Sou mal-educado com os meus pais e professores?


CELEBRAÇÃO DO SACRAMENTO DA CONFISSÃO


O penitente diz a saudação habitual: "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo", ou "Abençoai-me, Padre, porque pequei", e se benze.


O sacerdote diz: "O Senhor esteja em teu coração para que, arrependido, confesses os teus pecados".


O sacerdote ou o penitente pode ler ou dizer de cor algumas palavras da Sagrada Escritura sobre a misericórdia de Deus e o arrependimento; por exemplo: "Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que eu te amo" (Jo 21, 17).


O penitente acusa-se dos seus pecados. O sacerdote dá os conselhos oportunos e impõe a penitência.


O sacerdote convida o penitente a manifestar a contrição. O penitente pode dizer, por exemplo: "Senhor Jesus, Filho de Deus, tende piedade de mim, que sou um pecador".


O sacerdote dá a absolvição:
Deus, Pai de misericórdia, que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz.
E EU TE ABSOLVO DOS TEUS PECADOS, EM NOME DO PAI, E DO FILHO t E DO ESPIRITO SANTO.


O penitente responde: "Amém".


O sacerdote prossegue:
A paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, a intercessão da Virgem Maria e de todos os santos, as tuas boas obras e a tua paciência na adversidade, sirvam de remédio para os teus pecados, aumento de graça e prêmio da vida eterna. Vai em paz.


Depois de rezar a penitência, pode-se dizer a seguinte:


Oração de agradecimento
Ó bondade, ó misericórdia infinita do meu Deus! Graças Vos rendo por me haverdes perdoado os meus pecados, e de novo os detesto de todo o meu coração.
Concedei-me a graça, meu Salvador, pela virtude do Sacramento da Penitência que acabo de receber, de não recair nestes pecados, e de levar de hoje em diante uma vida toda nova, sempre assistido pela vossa graça e perseverando no vosso amor até a hora da minha morte. Amém.