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terça-feira, 18 de setembro de 2007

Alma Humana: a alma humana é imortal?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 227/ 1978)

Em síntese: A imortalidade natural da alma humana se evidencia, no plano filosófico, a partir de três argumentos principais

- a alma humana, sendo espírito, é simples ou não composta; por conseguinte, não se decompõe ou não se dissolve por sua própria natureza. Deus, que a criou, poderia aniquilá-la, mas não o faz, pois isto contradiria à sabedoria e à justiça do Criador;

- a alma humana aspira naturalmente à vida, e à vida sem fim; ora tal desejo inato não pode ser frustrado, pois, se o fosse, a natureza seria absurda e suporia o absurdo em sua origem. Todavia não se pode crer que o ser humano seja o único absurdo em meio a um mundo cheio de ordem e harmonia naturais;

- a alma humana aspira naturalmente à justa sanção ou à retribuição devida ao bem e ao mal. Já que esta só ocorre precariamente na vida presente, deve haver outra vida na qual a justiça seja exercida. Em caso contrário, a história seria absurda, terminando com o espezinhamento (ao menos, parcial) do bem e da virtude e a exaltação (ao menos, parcial) do mal.

Verdade é que o composto humano (corpo e alma) aspira à vida imortal. Todavia o composto humano é, por sua natureza, perecível, de modo que o seu desejo de imortalidade é veleidade, incapaz de encontrar a sua resposta natural. A fé ensina que o Senhor Deus ressuscitará o ser humano depois da experiência da decomposição ou da morte, sendo Cristo o penhor e o exemplar da ressurreição de todos os homens.

***

Comentário: Sabe-se que a morte não põe fim, por com­pleto, à pessoa humana, pois os feitos desta continuam pre­sentes aos pósteros; principalmente aquelas pessoas que con­tribuem mais eficazmente para a construção ou a destruição da humanidade, permanecem, de certo modo, atuando junto às gerações posteriores. É este o tipo de imortalidade que, por exemplo, o marxismo propõe ao ser humano a partir de suas premissas materialistas; a escola de Marx tenta recon­fortar seus discípulos dizendo-lhes que a grandeza imortal do homem consiste em ser o carvão lançado na grande locomo­tiva da história da humanidade; destrua-se, contanto que faça avançar o comboio, em cuja marcha cada um se imortaliza.

Outras correntes de pensamento admitem a sobrevivência da alma humana; sustentam, porém, a tese de que esta perde a sua individualidade e se integra num grande todo que leva uma vida impessoal. É o que professa o hinduísmo em geral.

Há, porém, quem afirme que a alma humana é por si mesma imortal, de tal modo que, quando o corpo já não lhe oferece condições de exercer suas atividades psicossomáticas, a alma se separa do mesmo e subsiste em sua realidade indi­vidual e pessoal, exercendo os atos próprios da sua vida espi­ritual. É esta a tese clássica nas escolas de filosofia cristãs. Ultimamente, porém, alguns pensadores católicos, negando a distinção real de corpo e alma, asseveram que a morte extin­gue por completo o ser humano, mas Deus o ressuscita ime­diatamente após a morte!

Esta última tese não se sustenta desde que se admita, como se deve admitir, a distinção real de corpo e alma. No artigo anterior ficou comprovado que a alma humana é espi­ritual e o corpo material; a recusa desta afirmativa implica, ao menos implicitamente, profissão de materialismo.

Nas páginas subseqüentes, apresentaremos os argumen­tos em favor da imortalidade natural da alma humana, que é um ser distinto do respectivo corpo.

1. A natureza mesma da alma humana

A morte é a dissolução do ser vivo.

Um ser pode dissolver-se de duas maneiras: por si mesmo ou em razão de outrem. No primeiro caso, dissolve-se direta­mente; no segundo caso, a dissolução ocorre em virtude da dependência em que tal ser se encontra em relação a outro que se dissolve.

Ora a alma humana não pode dissolver-se por si, por­que não é composta de partes, mas é simples, como todo espírito é simples ou isento de composição. A quantidade e a extensão são propriedades dos corpos; um espírito não consta de partes justapostas.

A alma humana não pode dissolver-se em razão de sua dependência de outrem, ou, no caso, do corpo, porque ela não depende do corpo para existir; sendo espírito, e direta­mente criada por Deus e pode subsistir sem o corpo, embora exista para se unir à matéria e constituir com esta um todo substancial que é o composto humano.

Objeta-se, porém: dado que a alma humana não existe necessária, mas contingentemente, não poderia ela deixar de existir ou ser aniquilada? Em outras palavras: Deus, que criou a alma humana, tirando-a do nada, não a poderia redu­zir ao nada? Neste caso, a alma humana não se decomporia nem se dissolveria, mas simplesmente perderia a existência.

Eis a resposta adequada: Deus, que criou, pode certa­mente aniquilar qualquer criatura, pois seu ato criador é livre; Ele não é obrigado a conservar na existência qualquer criatura que seja. Se, porém, consideramos a Onipotência Divina não como atributo de Deus isolado, mas em relação aos outros atributos divinos, verificamos que a aniquilação de uma alma humana contrariaria à sabedoria e à justiça de Deus. Com efeito, seria uma espécie de contradição, pois Deus retiraria o ser de uma criatura depois de lhe ter dado uma natureza imortal; além disto, a aniquilação seria algo de injusto, pois tornaria impossível a aplicação das sanções merecidas pelo ser humano nesta vida.

Note-se, aliás, que esta última é a única razão que Kant (+ 1804) aceita para afirmar a imortalidade da alma. A sobrevivência da pessoa humana, diz este filósofo, é uma exi­gência da consciência moral, pois é evidente que a justiça não reina neste mundo: a virtude não costuma ser devida­mente recompensada, nem o vicio adequadamente punido. Antes, o contrário ocorre com freqüência: o justo é perse­guido, enquanto os maus prosperam. Ulteriores ponderações sobre este assunto seguir-se-ão sob o subtítulo 2 deste artigo.

Conclui-se, pois, que a alma humana é naturalmente imortal e não deixa de usufruir desta sua prerrogativa, pois Deus não subtrai às criaturas o que lhes outorgou como atri­butos próprios.

2. O desejo natural

Todo ser tende a se conservar e a perseverar na exis­tência. Nos seres que usufruem de conhecimento, esse desejo é condicionado pelo conhecimento. O animal irracional conhece apenas a existência presente e não deseja outra realidade; não teme a morte porque não a conhece. O homem, porém, conhece o ser de modo absoluto, abstraindo do tempo. Deseja, em conseqüência, existir sem tempo ou, positivamente, con­forme toda a duração possível do tempo - o que é existir sem limites de duração.

Ora o desejo natural de uma vida sem fim se deriva da própria natureza do homem; não é algo de convencional ou dependente de alguma forma de cultura. Tal desejo não pode ser frustrado ou vão; se o fosse, a natureza humana seria contraditória e absurda. Mais: ela suporia o Absurdo na sua origem, pois teria sido feita para a vida e a vida sem fim, mas não teria a capacidade de usufruir da imortalidade. Por conseguinte, a alma humana há de ser imortal, a fim de poder fruir da plenitude de vida à qual ela naturalmente aspira.

Dir-se-á, porém: se tal argumento é válido para a alma, há de ser válido também para o corpo, ou melhor, para o homem todo (composto de corpo e alma). Com efeito, o ser humano como tal deseja viver sempre e tem espontâneo hor­ror à morte.

Em resposta, consideremos o seguinte:

O desejo de imortalidade do homem (ou do composto de corpo e alma), embora seja natural, não é senão uma veleidade ou uma aspiração ineficaz, pois o composto humano tende naturalmente a desgastar-se; os órgãos corpóreos se vão extenuando e tornando ineptos para a vida; no momento em que estão totalmente deteriorados, a vida nesse orga­nismo se torna impossível e a alma humana se separa do mesmo.

Ao contrário, o desejo de imortalidade da alma humana pode ser eficaz, visto que a alma, não sendo composta, não se dissolve; além do mais, tem condições de sobreviver sepa­rada do corpo.

Há, pois, uma diferença entre o desejo natural de imor­talidade do composto humano e o desejo natural de imorta­lidade da alma humana. Em conseqüência, diz a filosofia, o primeiro não tem conseqüências práticas, ao passo que o segundo as tem.

Estas afirmações hão de ser completadas pelos dados da fé. Esta ensina que o Senhor Deus, atendendo gratuitamente ao desejo natural de imortalidade do composto humano, ins­tituiu a ressurreição física dos mortos. Jesus Cristo, Deus feito homem, tendo assumido a carne humana, quis padecer a morte do homem, a fim de vencê-la e ressuscitar como primícias de uma nova humanidade (cf. 1Cor 15,20). A res­surreição de Cristo é o penhor da ressurreição de todos os homens, a qual ocorrerá na consumação dos tempos, quando o Senhor vier em sua glória para dizer a última palavra da história.

Assim a fé ensina que o composto humano terá duração sem fim, pois, embora morra, o Senhor Deus lhe quer dar a vitória sobre a morte e conceder a plenitude da vida.

3. A sanção da justiça

O ser humano foi feito para a justiça, à qual aspira com toda a veemência. Contudo a justiça na vida presente é precária. Freqüentemente as pessoas retas e dignas são ma­terialmente prejudicadas por praticarem o bem, ao passo que os criminosos e iníquos são materialmente beneficiados pela perversão; a justiça humana e o curso da história não raro «premiam» os maus e «castigam» os bons.

Ora, se a alma humana não fosse apta a sobreviver após a existência presente a fim de receber a sanção de seus atos, a justiça ficaria definitivamente violada e conculcada no caso de muitos homens. A história da humanidade terminaria com o triunfo (ao menos, parcial) da injustiça e da desordem sobre a justiça e o bem. A prática da virtude não seria reco­nhecida como tal, mas, antes, colocada em plano de des­prezo e rejeição. Ora tais conseqüências suporiam um mundo absurdo, e, na origem deste mundo, um principio de contra­dição e absurdo, conseqüências estas que não condizem com a ordem e a harmonia que se verificam em geral no universo. Daí afirmar-se que a alma humana é, por si, imortal e, por conseguinte, apta a receber na vida póstuma a justa sanção, que muitas vezes na vida presente lhe é negada.

Se nada houvesse que correspondesse às aspirações ina­tas à vida, à justiça, à verdade, ao amor... que todo homem traz naturalmente em si, teriam plena razão os que, mediante entorpecentes e psicotrópicos, procuram «paraísos artificiais», ou aqueles que põem fim a si mesmos no suicídio. Diz sabia­mente Gabriel Marcel:

"Se a morte é a realidade última, todo valor se aniquila no escândalo puro; a realidade está como que ferida em seu coração".

O que acaba de ser dito, pode ser ilustrado pela veri­ficação de certos fenômenos ocorrentes na natureza. Esta parece excluir a frustração e o absurdo; com efeito,

se tenho olhos, é porque existe a luz para a qual o olho é feito;

se tenho ouvidos, é porque existem sons e melodias;

se tenho pulmões, existe o ar que lhes corresponde;

se tenho fome e sede, existem os alimentos de que preciso;

se a mulher tem o senso da maternidade e aspira a ser mãe, existe para ela a maternidade ou o poder tornar-se mãe.

Mais ainda:

se as águas do mar sobem por ocasião das marés, tornan­do-se agitadas e inquietas, sei que essa agitação não é casual, mas se deve ao atrativo sobre elas exercido pela Lua;

se a agulha magnética se agita dentro da bússola, posso estar certo de que existe um polo Norte (invisível, sim, mas muito real) que a atrai e só permite repouse quando devida­mente voltada para o seu Norte.

Assim analogamente, se verifico em mim (anteriormente a qualquer reflexão filosófica ou religiosa) a sede de certos valores ou mesmo do Infinito, posso estar certo de que tais valores e o Bem Infinito existem no Além, em correspon­dência a tais aspirações.

Simone de Beauvoir, imbuída de existencialismo, escre­veu muito acertadamente:

"Uma vida, para que seja interessante, deve assemelhar-se a uma ascensão: galga-se um patamar e, depois, outro...; cada patamar não existe senão em vista do patamar seguinte... Se essa subida, chegando ao auge, retrocede, ela se torna absurda desde o seu ponto de partida" ("Le sang des autres").

Aprofundando um pouco mais estas reflexões, observa­mos: o universo se apresenta marcado por nota de profunda harmonia; é o que declaram os estudiosos de qualquer dos reinos naturais: mineral, vegetal e animal (irracional). Eins­tein experimentava admiração extática ao considerar a ordem do infinitamente grande. Aliás, as ciências naturais não se­riam possíveis se o universo e a natureza não fossem inteli­gíveis ou não fossem o produto de uma Inteligência Suprema que concebeu cada uma das criaturas (grandes e pequenas) e seu maravilhoso interrelacionamento. Pergunta-se, pois: somente o homem e sua existência sobre a terra seriam algo de absurdo ou destituído de explicação e razão de ser?

Vê-se que o absurdo consistiria, antes, em se admitir que somente o ser humano seja marcado pela nota do absurdo no conjunto das criaturas; parece desarrazoado que, colocado no todo harmonioso do universo, o homem, e somente o ho­mem, não se beneficie da ordem que se exprime no conjunto e em cada um dos seus outros setores.

Em conclusão: certas interrogações e aspirações espon­tâneas em todo homem exigem resposta. Ora, já que tal res­posta não é dada na vida presente por alguma das finitas criaturas que nos cercam, há uma vida póstuma, em que encontramos, sem disputa nem contestação, a resposta aos mais genuínos anseios do ser humano (resposta que é indis­sociável da fruição do Bem Infinito ou do Criador).

A propósito

R. Verneaux, "Filosofia do homem". Livraria Duas Cidades, São Paulo 1969.

"Unwandelbares im Wandel der Zeit", herausgegeben von Hans Pfeil. Band li, pp. 15-72. Aschaffenburg 1977.

PR 117/1969, pp. 372-385 (Deus existe ?);

PR 118/1969, pp. 411-416 (Absurdo ou Mistério ?).

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Milagres: o mistério da escada














Aborto: testemunho de uma abortada



Giana Jessen, sobrevivente de um aborto
Se o aborto é um direito das mulheres quais são os meus direitos ?
Não existiam protestos feministas contra o fato dos meus direitos terem sido violados no dia em que a minha mãe me abortou

A minha Mãe biológica há 28 anos atrás estava convencida de que tinha direito a escolher , de que tinha direito a uma escolha que só a afetaria a ela.

Porém em cada dia da minha vida eu carrego as conseqüências da sua escolha.


A minha mãe biológica estava grávida de sete meses e meio quando decidiu abortar-me.
Não sei porque é que ela tomou essa decisão. Estávamos em 1977. Ela e o meu pai biológico tinham 17 anos na altura e não estavam casados. Ela decidiu abortar numa clínica de Los Angeles e realizou um aborto salino. Uma solução com sal é injetada no ventre materno e o bebê bebe-a e ficando queimado por dentro e por fora. Nesse tipo de aborto o bebê é expelido morto em 24 horas, mas eu sobrevivi.

O Abortista não estava de serviço quando eu vim ao mundo porque se isso tivesse acontecido ele tinha-me estrangulado, algo que era considerado perfeitamente legal até 2002.

(...)
A única pessoa preocupada comigo foi a enfermeira. Ela chamou uma ambulância e fui transportada para o hospital. Fui colocada numa incubadora. Não se esperava que eu sobrevivesse. Porém sobrevivi.

Devido a ter estado 18 horas sem oxigênio sendo queimada viva no ventre da minha mãe fiquei com problemas. Não conseguia mover-me por mim mesma e os médicos afirmavam que eu iria viver num estado vegetativo o resto da vida.

A minha mãe adotiva- Penny - decidiu recuperar-me apesar das previsões médicas. Com 3 anos e meio comecei a andar.

Tenho 28 anos e trabalho como musica em Nashville, Tennesse. Ainda coxeio e por vezes caio, mas já participei numa maratona e irei participar no próximo ano numa maratona, em Londres, para jovens deficientes.

A minha mãe adotiva falou-me do meu passado. Sempre senti que havia algo que faltava contar. Perguntava-lhe muitas vezes porque eu tinha problemas e ela respondia-me que eu havia nascido prematura. Aos 12 anos perguntei-lhe de novo e ela disse-me o que havia acontecido (...) A minha mãe adotiva disse-me que eu em vez de ficar amargurada deveria alegrar-me por ter sobrevivido.

Quando eu tinha 17 anos a minha mãe adotiva encontrou-se com a minha mãe biológica e disse-lhe que eu a perdoava. Sou cristã. Acredito que a revolta nos pode consumir a vida.

A minha mãe adotiva amou-me tanto que eu não sinto necessidade de me encontrar com a minha mãe biológica.

Não sei muito do que se passou no encontro entre elas. Só sei que a minha mãe biológica não pediu perdão e fez outro aborto depois do meu.

Comecei a falar contra o aborto quando tinha 14 anos e na terça-feira falarei na Câmara dos Comuns. Eu penso que é importante mostrar o que aconteceu comigo não só para mostrar a verdade do aborto, mas também para mostrar as potencialidades que cada um de nós tem dentro de si.

Não creio que o assassinato seja um direito. Sou completamente contra o aborto, seja em que circunstância for, mesmo em casos de violação. Embora a violação seja um crime horroroso não deve ser a criança a pagar por esse crime. De fato encontrei-me com pessoas que são produto de violações e elas estão gratas por estarem vivas.

Se o aborto é um direito das mulheres quais são os meus direitos?

Não existiam protestos feministas contra o fato dos meus direitos terem sido violados no dia em que fui queimada viva.

Todos os dias agradeço a Deus.

Não me considero um monte de células, nem nenhum dos nomes que se costumam dar ao que a mulher carrega no seu ventre.

(...)

Hoje um bebê é um bebê quando isso convém. Mas quando não convém, quando não chega no momento certo, é chamado de um monte de células. Um bebê é chamado de bebê quando um aborto não provocado ocorre aos 2, 3 ou 4 meses. Um bebê é chamado de monte de células quando um aborto ocorre aos 2, 3 ou 4 meses (...)

Acredito que sou prova viva de que o aborto é o assassinato de um ser humano.
A minha Mãe biológica há 28 anos atrás estava convencida de que tinha direito a escolher, de que tinha direito a uma escolha que só a afetaria a ela.
Porém em cada dia da minha vida eu carrego as conseqüências da sua escolha.
Embora eu nada tenha contra ela acho importante as pessoas refletirem antes de tomarem determinadas decisões.

Publicação: Monday, February 12, 2007 10:27 PM por ppaul2005
Fonte: http://sol.sapo.pt/blogs/ppaul2005/archive/2007/02/12/Testemunho-de-uma-abortada.aspx

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Castidade: masturbação

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 035/1960)


«Quisera uma palavra de esclarecimento sobre a masturbação.

Há médicos que a aprovam, ao passo que os moralistas a condenam».

O termo «masturbação», oriundo provavelmente de «manibus turbare», significa a provocação dos órgãos genitais por meio da mão ou de outro estímulo inadequado. Mais precisamente: masturbação é a polução voluntariamente provocada num ato solitário; e a satisfação sexual do indivíduo de si para si.

Abaixo procuraremos formular um juízo sobre esse fenômeno, tanto do ponto de vista fisico-psíquico como do ponto de vista moral. A seguir, enunciaremos algumas normas de conduta oportunas frente a tal afirmação da natureza.

Que dizer...?

a) do ponto de vista psicossomático

A tendência sexual de todo ser humano é naturalmente voltada para semelhante pertencente a outro sexo; esse semelhante há de ser capaz de complementar o físico e o psíquico de quem o procure. Normalmente é numa atmosfera de amor, ou seja, em função do amor, em função de um ato em que toda a personalidade se empenha com o que ela tem de mais nobre, que se realiza o encontro sexual entre os seres humanos. A luz destes princípios, verifica-se que a chamada «masturbação» ou o uso da função sexual por parte de um indivíduo que vise satisfazer-se a sós, constitui uma aberração contra a própria natureza humana; é a volta do indivíduo a si mesmo mediante um ato que de per si tenderia a levar a personalidade para fora de si.

A masturbação pode tomar-se um hábito, cujas causas são assaz variadas: às vezes decorre da curiosidade simplória com que a criança, nos seus primeiros anos de idade, começa a observar as atividades de seu corpo; suscita então inocentemente o funcionamento de seu órgão; contudo a partir dos seis ou sete anos, o hábito assim adquirido provoca sensações cada vez mais acentuadas podendo tomar-se fortemente arraigado e avassalador. Outras vozes, o vício deve-se aos exemplos ou as seduções provenientes de adultos ou de outros jovens. Em outros casos, o costume se deriva de disposições psicóticas do indivíduo, disposições que, mediante a pratica do ato solitário, causam um estado doentio cada vez mais marcante (um dos sintomas mais comuns desse estado mórbido são os sonhos de natureza perversa que as vozes precedem, provocam ou acompanham a masturbação).

Os fenômenos psicopáticos que possam estar na base do vício solitário, são entre outros: o narcisismo (tendência do indivíduo a se contemplar e admirar exageradamente), o homo-erotismo (amor ao mesmo sexo), o temor anormal para com o sexo oposto.

Feitas estas observações, já se percebe como julgar a masturbação.

Do ponto de vista fisiológico, a pratica do ato solitário, equivalendo a um desvio da natureza humana, nunca pode ser recomendável; nunca será aconselhável, nem mesmo em proporções pretensamente moderadas, como solução ou paliativo para uma situação anormal ou aflitiva em que alguém se encontre. Não raro se verifica que o hábito da masturbação toma índole de obsessão ou mania, prejudicando a saúde, principalmente o equilíbrio nervoso da vitima. Mesmo quando não atinge tais proporções, o vício solitário não pode deixar de afetar o caráter da pessoa que se lhe entrega voluntariamente: esta se toma mais e mais desatenta e distraída, sujeita as vacilações dos caprichos, mais ou menos indiferente aos grandes valores da vida. Em particular, o indivíduo, no qual o vício solitário se instala, e pessoa pouco adaptada ao genuíno amor conjugal, pois não estima devidamente o tu ou a personalidade alheia, tendendo a devaneios nos setores do irreal e do sonho.

Estas conseqüências comunicam uma marca especialmente humilhante ao vício da masturbação. Alias, não se poderia esperar outra coisa, pois ninguém contradiz impunemente as leis da natureza, que deu as funções sexuais ao ser humano em vista do casamento (como as funções digestivas foram dadas em vista da conservação do indivíduo, não propriamente para o deleite do sujeito). É vã a a1egação: «Não prejudico a alguém, quando cometo o ato solitário»; na verdade, o masturbador contradiz a orientação natural do seu amor, o qual tende espontaneamente a se voltar para outrem, de modo que quem viola essa tendência priva o próximo de um direito seu e de certo modo desfigura a si mesmo. Não poucas pessoas, aliás, dentre as que se dão ao mau hábito, dotadas de temperamento mais delicado e sensível, tem consciência da hediondez do vício: horrorizam-se por ver constantemente burlado o seu ideal de pureza, podendo chegar esse horror a provocar perturbações neuróticas por todo o resto da vida, caso não consigam em tempo libertar-se dos grilhões do vício.

b) ... do ponto de vista moral.

Aos olhos da consciência moral, a masturbação, sendo violação da natureza, constitui um pecado ou uma violação da Lei de Deus. Vista a importância da matéria respectiva, tal pecado e em si grave. Subjetivamente, porém, a culpa pode ser muito atenuada, dado que o masturbador não proceda com pleno conhecimento de causa ou com vontade deliberada. Ao se tratar de um pecador que já tenha concebido o firme propósito de se emendar e que empregue seriamente os meios para o conseguir, pode-se crer que as suas eventuais reincidências não constituem sempre pecado grave, pois ainda ocorrem por força do hábito anteriormente adquirido, ou seja, dentro de um clima de certo automatismo, no qual a liberdade de arbítrio não tem plena conivência. Será muito importante lembrar isto aos penitentes sinceramente dispostos, pois tal advertência os preservara. de cair no desânimo ao empreenderem a luta contra o vício.

Também se faz mister frisar que as poluções noturnas (as quais nos meninos se verificam desde os 12/14 anos), assim como as poluções diurnas meramente nervosas e involuntárias, não tem que ver, do ponto de vista moral. com a masturbação pecaminosa, a qual supõe sempre conhecimento de causa e vontade deliberada. Há, porém, casos em que a polução, embora não tenha sido diretamente provocada. ocorre em conseqüência de remota e imprudente excitação da sensibilidade; tal derramamento participa então do grau de culpa que toca a imprudência anteriormente cometida. Não é em vão, aliás, que os moralistas recomendam as almas fiéis o controle geral dos sentidos, mesmo independentemente do alguma tentação ao pecado; o afrouxamento dessa disciplina pode ser culpado e ocasionar culpas remotas.

Note-se bem que a própria natureza, mediante poluções espontâneas, prove devidamente as suas funções, de sorte que não é necessário ao indivíduo provocar pela masturbação o uso dos órgãos sexuais; tal provocação, longe de ser consentânea com a natureza, só se registraria em circunstâncias que contrariam as leis naturais do ato sexual (este - repita-se - foi concebido pelo Criador como função do amor,... e do amor conjugal,... amor cuja finalidade primária e a procriação da espécie). E não só faça objeção por parte da saúde: esta é muito mais assegurada pela observância das normas ou da ordem da natureza do que por qualquer violação da mesma.

2. Como remediar

Após o que dissemos, vê-se que não merece audiência a sentença dos que pretendem remediar a estados do desequilíbrio nervoso mediante a prática sistemática e controlada da masturbação. Tal método só concorre para agravar o mal psíquico, do mais a mais que freqüentemente os masturbadores desejam ardentemente libertar-se do seu hábito indigno.

Também não se alegará que o costume da masturbação é incurável, de sorte que baldado se tome todo esforço contrário. É verdade que não há uma via única de cura, aplicável a toda e qualquer situação; Os meios de combate deverão, antes, ser concebidos de acordo com as circunstâncias de cada caso. Como quer que seja, o tratamento oportuno será sempre um tratamento de base, visando o íntimo da personalidade da vítima, em conformidade com os seguintes princípios:

1) A vontade do paciente há de ser corroborada e sujeitada a uma disciplina. O uso e abuso da liberdade de conduta em nossos dias provocam naturalmente uma excessiva tensão sexual. Entre outros fatores de disciplina, enuncia-se o trabalho ou a entrega do paciente a uma tarefa séria que lhe desperte e prenda o interesse. Certas restrições na comida e na bebida concorrerão para amortecer o instinto sexual e fortalecer a vontade. Semelhante efeito será obtido pelo domínio da imaginação e o controle dos olhares.

2) Visto que a masturbação habitual suscita muitas vezes na vitima uma tendência (consciente ou inconsciente) a desprezar a si mesma, será preciso que o diretor e os amigos do paciente nele restaurem o senso de sua dignidade moral assim como uma confiança equilibrada em si mesmo nos casos de recaídas freqüentes, faz-se mister reavivar sempre a coragem do interessado, a sua vontade de combater, assim como a esperança de vit6ria; inculque-se-lhe continuamente que ele pode e deve recuperar-se.

3) Trate-se a vítima com bondade sincera e compreensiva. O fato de ser o masturbador um indivíduo fechado sobre si mesmo se explica não raro por jamais ter ele experimentado a força do autêntico amor. Esta norma vale de modo particular para os pais e mestres de uma criança viciada ou tendente ao vício da masturbação; procurem os genitores e educadores em geral fazer do lar e da escola um ambiente simpático, no qual haja ritmo de vida equilibrado: repouso suficiente, exercício físico, amizades sadias tanto com rapazes como com moças.

4) Quanto ao paciente mesmo, após alguma queda ou recaída, não se deixe ficar numa situação de perplexidade indecisa, mas sem demora arrependa-se e renove seu bom propósito; se possível, empreenda mesmo um ato adequado de penitência (renúncia a tal ou tal divertimento, privação de alguma guloseima, prática de caridade para com o próximo...).

5) Para quem possui a graça da fé, o recurso aos meios sobrenaturais é não somente imprescindível, mas até soberano. Unicamente pelo auxílio de Deus recebido através da oração e dos sacramentos (confissão e comunhão) pode haver genuína esperança de vitória sobre a natureza. A fé ajuda o paciente a restaurar sobre novas bases a sua personalidade, mostrando-lhe que a grandeza de todo indivíduo está justamente em sair de si, esquecer e desprezar a si; ao passo que o egocentrismo depaupera a personalidade, a abertura em demanda de Deus e do próximo a dilata e enriquece. - Muito valioso é também o recurso a um bom diretor espiritual.

O juízo que acaba de ser proposto a respeito da masturbação talvez pareça severo demais e pouco adaptado à mentalidade moderna. - Não há dúvida, o homem contemporâneo tende a ceder à onda, abrindo mão dos mais tradicionais e preciosos valores da consciência moral; muitos pretendem confeccionar uma «ética de situação, existencialista», isto é, uma ética norteada apenas pelos elementos que parecem convenientes ao sujeito na situação em que «aqui e agora» se acha.

A essa tendência deve-se fazer a seguinte observação: é certamente necessário que a Moral leve em conta as circunstâncias precisas nas quais um indivíduo se encontra; a consciência bem formada compete justamente a tarefa de aplicar os preceitos da lei a cada caso concreto. Não compete, porém, ao indivíduo, nem à modas e aos tempos, retocar as normas da lei natural; esta é perene e imutável como a natureza humana. Ora é a natureza humana que assinala a função sexual a sua finalidade própria, independentemente da qual o uso de tal função vem a ser desvirtuado ou abusivo.

Embora em meio à onda laxista de nossos dias estas verdades pareçam árduas, o cristão sabe que a Senhor Deus não impõe preceitos impraticáveis, mas, junto com a obrigação, confere sempre a graça para que a criatura cumpra integralmente o seu dever. E a consciência disto que dá ânimo e otimismo ao discípulo de Cristo, impedindo que se deixe arrastar por modas dissolutórias contemporâneas.

- Naturalmente, na medida em que a masturbação tenha um fundo doentio e involuntário, sua culpabilidade e atenuada; pode ser mesmo nula, portanto isenta de julgamento e punição da parte de Deus.

6) Nos casos em que o vício solitário pareça provir de um fundo psíquico anormal, consu1te-se um psiquiatra, o qual procurará descobrir a raiz do mal e indicara a terapêutica adequada, terapêutica, porém, que nunca dispensará a colaboração consciente do indivíduo na medida em que ele a puder prestar.

7) Põe-se agora uma questão derradeira: o casamento será remédio para o vício da masturbação?

Em resposta, dever-se distinguir:

a) Caso a mau hábito careça de fundo patológico, sendo mero produto de debilidade moral, pode ser extinto ou, pelo menos, nota­velmente mitigado, pelo matrimônio, pois este oferece ao paciente a ocasião legítima de satisfazer a sua necessidade de vida sexual. Mesmo assim, porém, a casamento não a dispensará o indivíduo da aplicação da sua forca de vontade.

b) Dado que o vício provenha de um estado neurótico ou doentio, a casamento não solucionará o mal, podendo mesmo agravá-lo. Sim; a vida conjugal geralmente não cura o desequilíbrio nervoso e a narcisismo, de sorte que o enfermo continua a se satisfazer a sós, mesmo depois do matrimônio, acarretando então infelicidade para a sua própria comparte.

Eis alguns casos que ilustram tal afirmação:

A Sra. N. certa vez se apresentou a um psiquiatra, por sofrer de terríveis crises de depressão nervosa, experimentando sentimentos de ódio generalizado para com os homens, inclusive seu marido, e para com Deus mesmo. Casara-se havia dezessete anos com um homem muito bom, que lhe dispensava todas os cuidados, mas limitara suas relações conjugais à noite das núpcias e a uma única ocasião depois disto. - Pois bem; ficou averiguado que tal marido praticava a masturbação antes de se casar; esperava curar-se do vício mediante o matrimônio, mas infelizmente no decurso da vida conjugal verificara que mais se comprazia em seu antigo hábito solitário do que em relações conjugais. Dai a aflição e a desgraça da esposa...

Também se relata a caso da Sra. N. N., que foi procurar um psiquiatra por sofrer de obsessão nervosa. Seu mal tinha história assaz longa: costumava, sim, praticar o vício solitário antes do matrimônio. Uma vez casada, nunca conseguiu experimentar plena satisfação em suas relações conjugais; queixava-se de que o marido era pouco compreensivo e nenhuma experiência de vida sexual possuía. Seus antigos hábitos continuavam a deleitá-la de modo tais que resolveu dar-lhes de novo livre expansão, vindo a sofrer naturalmente do conflito decorrente da nova situação.

Estes dois episódios (consignados na obra de J. H. Vanderveldt P. Odenwald, Psychiatrie et Catholicisme. Paris 1954, pág. 532s) bem demonstram que o casamento, longe de resolver sempre a situação desequilibrada devida ao vício da masturbação, pode contribuir para agravar. Consciente disto, o sacerdote será especialmente cauteloso ao julgar as conveniências de matrimônio de pessoas dadas ao vício solitário. Em casos de dúvida, poderá com vantagem mandar consultar ou consultar um psiquiatra experimentado.

sábado, 18 de agosto de 2007

Castidade: corpo humano e prazeres da carne-

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 30/1960)


"Otimismo ou pessimismo em relação ao corpo humano? Condescendência ou austeridade no tocante aos prazeres da carne?

Qual será a genuína atitude do cristão?"

As questões atinentes ao modo de tratar o corpo humano mereceram em todos os tempos detida atenção de pensadores e moralistas. A fim de melhor manifestar o sentido da autêntica resposta, proporemos, antes do mais, breve panorama das principais soluções até hoje formuladas para o problema.

1. Visão retrospectiva

O homem representa, no conjunto das criaturas, um pequeno enigma, pois associa em si as tendências mais contraditórias: ora nele se faz ouvir o brado do espírito, que aspira a tudo que é nobre, belo e elevado; ora, o rebuliço dos sentidos e da carne, que cobiçam os prazeres ilusórios da terra; o orgulho, o amor próprio, o egoísmo diminuem a personalidade, essa mesma personalidade que é capaz de estupendos rasgos de altruísmo.

Em torno do homem não se observa tal conflito: as plantas dão gérmen, flor e fruto bem parecer sujeitas a contradições; os animais irracionais seguem seus instintos vitais sem dar mostras da incoerência que agita o homem. O animal que, bem alimentado, repousa ao sol, de nada parece carecer para sua felicidade; o ser humano, porém, quanto mais se sacia de bens carnais, tanto mais parece inquieto e insatisfeito.

O homem, por esse motivo, constitui, entre as criaturas visíveis, um tipo singular; seríamos tentados a dizer... um ser defeituoso. Não obstante, em virtude da sua inteligência e da sua liberdade de arbítrio, ele merece incontestavelmente ser tido como a obra-prima da criação.

Tal enigma sempre chamou a atenção dos sábios desde os tempos anteriores a Cristo. Sejam aqui mencionadas algumas: de suas sentenças a respeito

a) Na Índia antiga predominou o pessimismo em relação à natureza humana e á vida no mundo material. O ideal do hindu ficou sendo a evasiva, a fuga do ciclo das reencarnações, que são sempre tidas como punição da alma; o sábio hindu aspira a esquecer a matéria e desprezar a vida sensitiva, para viver exclusivamente da reflexão e da contemplação intelectivas.

b) Na Grécia antiga, também o pessimismo se fez ouvir, exprimindo-se em variada escala de tonalidades.

O Pitagorismo (séc. V a C.) considerava o corpo como túmulo em que a alma estava sepultada; pela procura da sabedoria ou pela filosofia, ensinavam os pitagóricos, o espírito se deveria aos poucos libertar da servidão da matéria e das reencarnações sucessivas.

Platão († 347 a C.) reavivou essas idéias, servindo-se do trocadilho «soma-sema (corpo-sepulcro)». O corpo seria cárcere, e a união da alma humana com ele equivaleria a degradação ou a castigo devido a culpas cometidas em existência anterior; por conseguinte, a finalidade suprema do sábio também seria a de emancipar-se da vida corpórea (o filósofo, enquanto o pode, desliga a alma do intercâmbio com o corpo..., não faz caso dos prazeres que provenham do corpo» (Fedon 64e-65a).

Também os estóicos pouca estima manifestavam para com o corpo.

Epícteto (séc. I d. C.), por exemplo, tinha-o na conta de «alguma coisa que não me pertence» (Dissertações 1.3, c. 24) ou de «burrinho que carrega meus fardos» (lbd. 4.1). Não obstante, o filósofo prescrevia o asseio naturalmente exigido pelo corpo, a fim de não causar incômodo à sociedade: «Quando o animal se limpa, diz-se que ele imita o homem; quando o homem se suja, diz-se que ele imita o animal» (Ibd. 4,11). Fora, porém, do asseio estritamente necessário, Epícteto julgava «ser Sinal de baixeza qualquer tratamento dispensado ao corpo» (Manual 41).

O Imperador Marco Aurélio († 181) professava idéias semelhantes, interpelando o leitor nos seguintes termos: «Não és senão uma alma pequena que carrega um cadáver, como dizia Epícteto» (Meditações 4,41).

Sêneca († 30 d. C.), por sua vez, compartilhava um ponto de vista do estoicismo; sabia, porém, manifestar-se moderadamente em textos como o que se segue:

«Dá a teu corpo apenas o suficiente para que esteja são. É preciso tratá-lo com certa dureza, a fim de que não se desvie da sujeição ao espírito. Não comas senão para acalmar a fome, nem bebes senão para extinguir a sede. Não procures, mediante a veste, senão defender-se do frio, e, mediante o teto, não aspires senão a intempéries da estação... Recorda-te de que em ti nada há de tão notável quanto o espírito; a este, grande como é, tudo deve parecer pequeno» (epíst. 8).

Ninguém negará a sabedoria que possa estar incluída nos que acabamos de transcrever. Mais adiante procuraremos analisa-la melhor. Por ora, interessa-nos levar em conta ainda outro traço do pensamento grego.

c) Ao lado de manifestações pessimistas, a literatura helênica apresenta outrossim afirmações positivas referentes à natureza humana.

Sócrates († 399 a.C.) e Platão († 347 a.C.), por exemplo, davam a crer que a virtude coincide com o saber, pois parece que todo aquele que conhece a virtude, naturalmente a pratica; o vício ou o defeito moral seriam meros produtos da ignorância humana. Tal tese supõe equilíbrio e harmonia na natureza, de sorte que a vontade esteja plenamente a altura de realizar as aspirações mais nobres do seu sujeito.

Outros pensadores gregos apregoavam, de certo modo, o culto do corpo; a beleza do físico juvenil era tema caro a literatura helênica; a figura do atleta, do triunfador dos jogos olímpicos, era grandemente exaltada pela opinião publica. Entende-se, pois, que a moral grega tenha incluído entre os seus preceitos o cuidado do corpo, de maneira que a higiene hoje em dia é tida como expressão característica do pensamento helênico. Este, de resto, se traduzia muito bem na seguinte máxima ática do séc. V a. C.:

«O maior dos bens, para um mortal, é a saúde. E o segundo dos bens é ser um jovem belo e bem estruturado».

Não há duvida, os humanistas gregos sabiam que seu otimismo não dispensava o sacrifício: para fortalecer os músculos, para dar ligeireza e plasticidade ao corpo, e preciso submeter-se a severa disciplina; dai a advertência de Filocteto (409 a. C.) : «Tem consciência de que a ti também é necessária a dor. Em recompensa desses males, porém, terás a vida g1oriosa» (Sófocles, Filocteto 1418-1422).

Entre os romanos, o poeta Juvenal († 125) tornou-se o arauto do otimismo humanista, formulando o famoso adágio: «Orandum est ut sit mens sana in corpore sano. - Havemos de orar para que uma mente sã subsista em corpo são» (Sátiras 10, 356).

Eis assim recenseados os principais tópicos da mentalidade pagã concernente á natureza humana.

d) O Cristianismo, ao entrar no mundo, não podia deixar de se opor a qualquer afirmação de otimismo absoluto em relação ao corpo. A moral do Evangelho tem consciência de que a natureza humana foi, no inicio da história, afetada por uma culpa, de sorte que o cristão deve tomar atitude reservada, muitas vezes mesmo restritiva, em relação aos movimentos de sua natureza (voltaremos um pouco adiante a falar dessa queda inicial). - Tal concepção severa, genuinamente cristã7 se implantou nas escolas antigas e medievais de espiritualidade.

e) No séc. XVI, porem, o chamado «Renascimento» procurou restaurar o pensamento grego independentemente da ideologia cristã; em conseqüência, uma onda de otimismo em re1ação á natureza humana (o «Humanismo») penetrou na cultura da época: uma mentalidade naturalista, mais ou menos pagã e hedonista (gozadora) se apossou de muitos redutos de cultura.

Esse otimismo chegou ao auge no séc. XVIII. «O homem é bom por sua natureza», tal foi o principio que inspirou:

a «moral da simpatia» de Adam Smith († 1790): os critérios que definem justiça e injustiça não seriam ditados pela razão, mas pelos sentimentos ou a simpatia;

a «moral do dever» de Kant († 1804): a natureza humana seria suficientemente forte ou propensa ao bem para poder praticar o dever por causa do dever mesmo, abstraindo de qualquer sanção anexa;

a «moral da liberdade total» de Diderot († 1784) e de Rousseau († 1778): o homem sendo bom por natureza, a corrupção só poderia provir de fatores extrínsecos ao próprio homem, isto é, da má organização das classes na sociedade ou da falta de instrução.

Nos séc. XIX/XX o liberalismo generalizado, com suas múltiplas modalidades (em moral, religião, filosofia, política), não é senão a expressão variegada desse otimismo inspirado por reação contra a mentalidade cristã: pressupondo que o homem seja naturalmente bom, os contemporâneos não raro afirmam que o vício provem da ignorância e que, por conseguinte, «basta abrir escolas para poder fechar prisões»; um homem instruído seria um homem morigerado. Há quem atribua as quedas morais dos cidadãos à péssima gestão dos governos civis: «Reformai o Estado, dizem, extingui a opressão que desencadeia a revolta nos covardes; e tereis supresso toda desordem e criminalidade; dai liberdade aos instintos, e estes só produzirão frutos bons; o homem é um cordeiro que somente a escravidão consegue transformar em lobo; se desejais acabar com os ladrões, começai por demitir os guardas da policia; é a obsessão de estarem constrangidos a praticar o bem que leva os homens a cometer o mal. A fruta proibida é sempre a mais atraente; para que ela deixe de seduzir, basta que levantemos a respectiva proibição».

f) Completando o bosquejo histórico, notaremos agora que, ao lado do otimismo humanista do séc. XVI, Lutero († 1546) e seus discípulos deram expressão a concessões derrotistas concernentes á natureza humana; esta teria sido atingida em cheio pelo pecado dos primeiros pais, de sorte a ser, mesmo após a Redenção de Cristo, totalmente incapaz de praticar o bem; o homem por si seria servo da concupiscência e do pecado, de modo que só abusivamente se lhe pode atribuir a faculdade do livre arbítrio; vão seria pretender que o homem pratique obras boas e meritórias.

Nos séc. XVII/XVIII o Jansenismo acentuou esse pessimismo, apresentando, entre outras coisas, a humilde compunção do genuíno cristão como um temor doentio e sufocador.

Não se poderia deixar de notar que também esse pessimismo jansenita exerce sua influencia até nossos dias em pessoas para quem a Religião vem a ser motivo de tristeza e medo mórbidos.

Após este rápido esboço histórico, passemos à consideração da solução cristã dada ao problema das relações vigentes entre o corpo e a alma humana.

2. A solução cristã:

Sócrates, em um de seus colóquios filosóficos, ensinava a Alcebíades: «A alma é o homem» (cf. Platão, Alcebíades Primeiro 130c).

Pois bem; distanciando-se de qualquer concepção unilateral ou do espiritualismo exagerado, o cristão repete com São Tomaz de Aquino: «Anima... non est totus homo, et anima mea non est ego. - A alma não é o homem todo, e a minha alma não é o meu eu» (In 1 Cor 15,2).

A doutrina cristã, portanto, professa que o homem é essencialmente um composto de alma e corpo, alma e corpo que, segundo os desígnios do Criador, se unem em harmonia, de modo a se completarem mutuamente. A alma não atinge por si só a sua perfeição própria; haja vista, por exemplo, o seu modo de conhecer: qualquer raciocino, por mais abstrato que seja, se baseia em dados fornecidos pelos sentidos, de sorte que, se algum órgão da vida sensitiva (principalmente o cérebro) é lesado, a inteligência já não exerce normalmente is suas funções (tal e o caso dos chamados «doentes mentais»).

A ciência moderna se compraz em sublinhar a intima correspondência que existe entre a fisiologia (constituição do corpo) e a psicologia (manifestações da alma) da pessoa humana.

O famoso Dr. René Blot observa o seguinte:

«A natureza masculina e a natureza feminina diferem biologicamente em todas as suas manifestações fisiológicas. Não há uma só atividade vital que não esteja marcada pela masculinidade no varão ou pela feminilidade na mulher» (La nature féminine et le féminisme 6).

Aliás, tendo em vista a sexualidade, já S. Agostinho declarava: «Mulier mysterium. - A mulher é um mistério».

Tão íntima união entre o físico e o psíquico do homem acarreta importante conseqüência para o conceito de perfeição humana:

«A liberdade do homem não é a mesma que a de um espírito puro. Ela não consiste em que a alma só esteja tenuemente unida ao Corpo; nem a dignidade do homem implica em esforço para afrouxar a união da alma com o corpo, como se o ideal fosse simplesmente romper essa união. Não; tal ruptura seria diretamente a morte; não seria virtude. A virtude é virtude do homem todo: a alma do homem virtuoso não esta solta do corpo, mas ela o domina e dele faz seu instrumento para o bem» (R. Blot, Le corps et 1'âme 125).

Em conclusão: considerando a essência do homem em si ou na ordem ideal, o cristão professa otimismo; sabe que corpo e alma foram destinados pelo Criador a prestar complemento um ao outro em vista do pleno desabrochar da personalidade.

2. Passando agora para a ordem das realidades concretas, como elas existem neste mundo, o discípulo de Cristo não pode deixar de temperar o seu otimismo.

E por quê?

Eis o que narra a fé cristã: Deus, que concebeu harmoniosamente a natureza humana, ao criar o primeiro casal (Adão e Eva), quis dotá-lo de dons que ultrapassavam as exigências dessa natureza humana - dons preternaturais e sobrenaturais (cf. «P.R.» 28/1960, qu. 2). Aconteceu, porém, que os primeiros pais, abusando do seu livre arbítrio, não aceitaram o desígnio divino, mas se afastaram de Deus. As conseqüências foram a perda dos dons gratuitos, característicos do estado inicial, e a ruptura da harmonia originária: tendo-se revoltado contra Deus, o espírito do homem experimenta a revolta da carne; e, consequentemente, em torno do homem os seres inferiores (animais, vegetais, minerais) causam dano tanto à carne como ao espírito. O homem, na realidade histórica concreta em que nos achamos, já não é o que deveria ser conforme o seu exemplar ou ideal. Em outros termos: a natureza humana com que nos defrontamos aqui na terra, não é a entidade harmoniosa que descrevemos nos incisos anteriores, detendo-nos no plano abstrato ou especulativo; embora essa natureza humana se conserve substancialmente boa, ela está vulnerada por múltiplas tendências desordenadas.

3. Sendo assim, compreende-se que a genuína atitude do cristão perante o humano não possa ser a de um otimismo irrestrito (otimismo que levaria a afirmar como bons todos os movimentos da carne e do espírito), nem também a de um pessimismo que tenha a matéria na conta de criatura essencialmente má e destinada a ser destruída. Entre um e outro extremo, o Evangelho ensina que o corpo deve ser reconduzido à sujeição que naturalmente lhe compete em relação a alma e a Deus. Este programa se resume também na fórmula: purificação da natureza humana e de seus instintos, não, porem, extinção ou aniquilamento da mesma.

O cristão, portanto, é chamado a praticar o combate à natureza, não para chegar a um estado de apatia total ou de extinção de todos os afetos (alegria, tristeza, medo, audácia...) da natureza (tal era o ideal do estóico pagão, ideal que não levava em conta a colaboração que o corpo deve prestar a alma humana), mas para chegar ao que se chama a metriopatia, ou seja, a disciplina dos afetos e paixões tal que permita ao espírito usufruir, sem detrimento algum para si, dos serviços do corpo. Este terá que dar tudo que tem de bom, sem jamais tomar a dianteira sobre o espírito.

Os autores de espiritualidade costumam atribuir papel muito importante na vida sobrenatural às paixões ou aos afetos devidamente controlados. O ideal do cristão não é um ideal linfático (aguado ou facilmente acomodatício); ao contrário para realizar as obras de Deus, requerem-se paixões fortes, oportunamente suscitadas e controladas pelo sujeito (por «paixões» entendem-se aqui os movimentos em que corpo e alma se empenham na conquista de um bem).

Verifica-se mesmo que todos os santos foram profundamente apaixonados ou os grandes «apaixonados» do seu século. Não há dúvida, eles nunca teriam realizado as grandes obras que despertam a admiração dos pósteros, se não tivessem sido movidos por dose de amor e entusiasmo pouco comum. A realização da vida cristã exige adesão decidida e enérgica aos bens invisíveis, adesão que, em meio aos obstáculos suscitados pelo mundo visível, não pode ser sustentada senão mediante a mobilização de todas as qualidades que o corpo e a alma ofereçam para tal fim.

Em resumo, pois: a sabedoria cristã consiste em excitar os afetos da natureza (coragem, temor, alegria, tristeza, audácia...) na ocasião oportuna e dentro dos limites convenientes, de modo que cada um dos seus afetos preencha devidamente o seu papel sem excesso nem desvio.

4. As considerações acima projetam luz ainda sobre outro aspecto do nosso problema. Costuma-se citar freqüentemente um adágio que se toma por vezes ocasião de mal-entendidos: «A graça não destrói a natureza, mas supõe-na e aperfeiçoa-a» (cf. S. Tomaz, Suma Teológica I q. 1, a. 8 ad 2).

Este axioma só poderá ser retamente avaliado mediante uma distinção:

a) A graça (a ordem sobrenatural) não destrói, mas supõe a natureza... no plano ontológico ou na linha das essências. - Sim. A ordem sobrenatural ou a vida cristã não é dada ao homem como algo de descontínuo com a natureza humana. Ao contrário, os dons sobrenaturais foram concebidos pelo Criador como coroa ou cúpula das facu1dades (inteligência, vontade, sensibilidade com seus afetos) da natureza racional; cf. «P.R.» 28/196o, qu. 2 (pág. 137).

b) Descendo agora do plano abstrato para a ordem concreta, real, já não se pode dizer que «a graça simplesmente supõe a natureza e a aperfeiçoa». Há, sim, na vida prática, não raros conflitos entre as tendências da natureza e as aspirações da graça ou aspirações sobrenaturais. Quem dissesse «Sim» a tudo que a natureza sugere e apetece, destruiria a graça recebida no batismo e nunca chegaria a perfeição cristã. A razão de tais conflitos já foi indicada: a natureza humana, na realidade histórica, não se conservou tal como no plano especulativo foi concebida pelo seu Autor; não nos é possível, por conseguinte, transpor para a ordem existente concreta todo o otimismo que concebemos ao considerar o homem em si mesmo ou abstratamente.

5. Os princípios que acabamos de expor, também nos permitem avaliar certo ideal de santidade que, inspirado pela mentalidade de nossos tempos, se vai propagando como se fosse a autêntica mensagem do Cristianismo para os nossos dias.

Com efeito; em 1946 realizou-se na França um inquérito intitulado «Vers quel type de sainteté allons-nous? - Para que tipo de santidade caminhamos?».

Ora uma das respostas que, pode-se dizer, resumia exatamente as demais, era assim concebida:

«Associar a mais elevada vida espiritual com todos os prazeres humanos, excetuado apenas o pecado; tal parece ser o ideal» («Vie Spirituelle» n.º 304, fev. de 1946, 238).

Esta afirmação categórica reaparece sob formas equivalentes em outros testemunhos. o seguinte provém de uma Diretora de hospital:

«A consciência do pecado instalado em nós e da nossa miséria moral é assaz rara. A espiritualidade atual... não se preocupa muito com a necessidade da expiação. A idéia de que somos 'pobres pecadores', como professamos na 'Ave Maria’, não penetra muito a fundo na psicologia religiosa atual. Facilmente os homens julgam que poderiam, sim, ter procedido melhor, mas que, em todo caso, o que eles realizaram já é satisfatório. Esta atitude é corroborada pela tendência jurídica da nossa mentalidade latina, que tem o pecado na conta de transgressão da lei, considerada em parte como um código; ora, pensam muitos, enquanto alguém não infringe uma cláusula do código, nada há que lhe censurar; tal pessoa é justa» (Ibd. 241).

Uma assistente social, por sua vez, escrevia:

«Meu ideal de santidade? – É o de uma celibatária... capaz de ser pioneira da cultura e do movimento social moderno. Eu a quisera ver muito elegante, capaz de lançar a moda, não apenas de a seguir - o que é meio de influência muito importante. Que os autênticos cristãos deixem de estar no 'reboque’ e tomem finalmente o lugar que sempre deveriam ter ocupado à frente de todas as iniciativas espirituais, intelectuais e sociais» (Ibd. 239).

Um membro da Ação Católica assim se exprimia:

«Nossa espiritualidade equivale a um humanismo cristão. A tendência mais acentuada, principalmente nos jovens, visa uma liberdade total, que significa desabrochar em todos os sentidos. Os homens praticam, sem duvida, a renuncia imposta pela necessidade, como seria a perda da saúde ou de um noivo, mas a luta do indivíduo contra si mesmo, a procura da mortificação contam poucos adeptos; são coisas que quase escandalizariam. Por que não gozarmos de tudo que Deus coloca a nossa disposição? Procurar a cruz para nos assemelharmos a Nosso Senhor... não entra nas perspectivas da espiritualidade contemporânea. Não são compreendidas, são, antes, severamente julgadas, certas renúncias excepcionais, como a de deixarmos que nos atribuam injustamente alguma falha sem que nos desculpemos, a fim de sermos mais semelhantes a Cristo crucificado» (Ibd. 233).

Uma jicista (membro da «Juventude Independente Católica»), por fim, preconizava:

«Os santos de amanhã serão menos penitentes; serão muito mais os reis da criação» (Ibd. 232).

Perguntamo-nos agora: como julgar tais concepções, aparentemente tão apropriadas para captar a simpatia do homem moderno e trazê-lo a Cristo?

Sem negar o que possa haver de magnânimo nessas fórmulas, não recearemos dizer que são perigosas e, na prática, inexeqüíveis. Sim; quem considera com otimismo irrestrito a natureza humana, sem se preocupar com mortificação, arrisca-se a ver-se suplantado pelas ciladas da carne. Quem se entrega ao prazer lícito, intencionando recuar diante dos deleites pecaminosos (e somente diante deles), dificilmente deixará de cair neles; arrastado pela natureza, tal indivíduo se renderá tanto ao que é licito como ao que é ilícito.

É por isto que não se pode dar razão aos que interrogam: «Que mal há em usufruir dos bens que Deus criou?» - Suposto (como se entende) que esses bens não sejam em si pecaminosos, o gozo irrestrito dos mesmos debilita a resistência da personalidade, que, vulnerada pelo pecado original, tende não somente a usar, mas também a abusar... Por conseguinte, para conquistar firmeza na virtude, o cristão tem inevitavelmente que se abster em certo grau até mesmo dos bens lícitos (esse grau será mais ou menos intenso, conforme as tendências próprias da natureza de cada um). Qualquer que seja a época em que viva o cristão (mesmo em meio ao libertinismo do séc. XX), ele jamais se poderá adaptar a mentalidade contemporânea de sorte a esquecer o pecado original e as tristes conseqüências que acarretou para a natureza humana.

Está claro, isto não quer dizer que o cristão se deva tornar um tipo desambientado ou um quisto na comunidade; não. «Um santo triste é um triste santo», reza a máxima tradicional. O justo, portanto, saberá utilizar, em toda a medida do possível, Os valores tanto da família como da sociedade; saberá dar-lhes sentido sobrenatural, sem, porém, esquecer que em tudo é necessário observar uma certa cautela ou «virgindade», a fim de que a natureza não tome a dianteira sobre a graça:

«Digo-vos, irmãos:... os que se alegram, sejam como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se não usassem, porque passa a figura deste mundo» (1Cor 7,29-31).

Assim fazendo, o cristão será, sem dúvida, o homem sempre ambientado e atual; será «o sal da terra e a luz do mundo» (cf. Mt 5, 13s).